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07/09/13

Maria e o menino em quadra Nobre

Ontem fui parar por acaso à obra de James Tissot, de quem já aqui uma vez pus um quadro. Quando se converteu ao cristianismo e decidiu começar a pintar temas religiosos, Tissot fez três viagem ao Médio Oriente, para ver como eram realmente as gentes e as paisagens. Acho que o “realismo” que daí resultou diferencia as suas ilustrações da vida de Cristo de muitas outras obras do mesmo estilo – e também de pinturas de motivos religiosos que tinha feito antes.

Por razões óbvias, este tipo de realismo não é muito comum na arte religiosa. O que é normal é que o artista translade as cenas bíblicas para os cenários que conhece. Pode ser realismo na mesma, mas outra forma de realismo. Nas canções populares – é de canções populares que quero aqui falar –, Maria, mãe de Jesus, faz, naturalmente, as mesmas coisas que as mulheres que a cantam*. Agora, algumas dessas atividades não são, talvez, muito diferentes das atividades das mulheres do Médio Oriente no início da era cristã.

 

“José embala o menino”, canção recolhida por Michel Giacometti em Monsanto, Idanha-a-Nova:
José embala o menino / Que a senhora logo vem / Foi lavar os cueirinhos / À pocinha de Belém
É uma canção muito bonita, na minha opinião – letra e música. Na verdade, não sei se havia ou não algum tipo de cueiros na Palestina, mas é possível. O que duvido é que se fizesse malha, como diz outra canção:
Nossa Senhora faz meia / Com linha feita de luz / Ó linda Rosa / Com linha feita de luz / O novelo é lua cheia / As meias são para Jesus / Ó linda Rosa / As meias são para Jesus
Como já referi noutros textos da Travessa (aqui, aqui e aqui), “dizer de uma canção que é tradicional significa apenas que não se sabe quem é o seu autor”. A canção que acabo de citar foi recolhida em Elvas pelo folcorista britânico Rodney Gallop, no início da década de 1930. É uma das canções que figura em Cantares do Povo Português (Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1960). No que eu presumo ser uma edição inglesa da mesma obra, Portugal: A Book of Folkways (Nova Iorque: Macmillan, 1936), afirma Gallop:
Deve ficar claro que não acredito muito na originalidade criativa do povo. «Todas as culturas populares», diria eu, como Padraic Colum, «são as popularizações de algo que antes foi aristocrático – música, poesia, traje, dança».
Discordo completamente desta afirmação. A mim, parece-me evidente que em todas as camadas sociais há originalidade criativa. Porque não havia de haver? Mas, por outro lado, é certo que, ao contrário do muitas vezes se pensa, há, dos Andes à Irlanda (por exemplo...), partes do folclore que sabemos terem origem na cultura – não forçosamente aristocrática – das classes educadas. Neste caso, como o nota o tradutor de Gallop para português, a quadra recolhida em Elvas que referi atrás é de António Nobre: é a 14ª estrofe de “Para As Raparigas de Coimbra”, um poema de 16 quadras soltas incluído em Só, de 1892:
Nossa Senhora faz meia / Com linha feita de luz: / O novello é a lua-cheia, / As meias são p'ra Jezus.**
É uma quadra com grande fortuna na música popular. Passados 40 anos da publicação de Só, a quadra de Nobre tinha sido musicada, acrescentada de “linda Rosa” como refrão intercalar. Depois, foi, naturalmente, transmitida oralmente sem referência ao autor, que os seus cantores desconheciam, e continuou a ser transformada e juntada a outras quadras em novas composições (encontrei já umas quantas). Outra possibilidade era usá-la como mote para glosa, um esquema que era antigamente comum para letras de fado, e foi o que fez João Linhares Barbosa:
Quando a noite é escura e bela / Diz-se lá na minha aldeia / Que à janela duma estrela / Nossa Senhora faz meia // A rodar em dobadoura / Andam quatro anjinhos nus / Prendendo nossa Senhora / Com linha feita de luz // Jesus pequenino e loiro / Na linha todo se enleia / As quatro agulhas são d'oiro / O novelo é lua cheia // Dormem as coisas mais santas / Só a mãe santa produz / Faz serão até às tantas / As meias são para Jesus
Com música de Francisco Viana (“fado Vianinha”), esta letra deu um fado de que já vi diversos nomes. Foi neste fado que conheci a afortunada quadra de Nobre – muito antes de saber que era dele e que tinha servido de letra a cantares tradicionais.
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* Às vezes, como todas as obras de arte, estas canções exprimem também ideal. A imagem do pai na quadra que se segue é, provavelmente, mais expressão de ideal que descrição da realidade:
Senhora lavava, / São José ‘stendia, / chorava o menino / c’o frio que fazia.
(“Senhora lavava”do Cancioneiro de Entre Mar e Serra da Alta Estremadura, de J.R. de Sousa (Leiria: Câmara Municipal, 2004), citada por Mónica Mendes Raposo em As canções de embalar nos cancioneiros populares portugueses. Universidade do Minho, 2009)

** O terceiro verso da quadra de Nobre tem oito sílabas, a não ser que se pronuncie lua como ditongo crescente /lwâ/, o que soa estranho. A canção de Elvas corrige esta irregularidade, eliminando o artigo a. Na glosa de João Linhares Barbosa que refiro noutra parte deste texto, o artigo também é eliminado do mote.

19/04/12

Últimas palavras

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Peço desculpa pelo atraso. Era na Páscoa que este texto ficava bem, não era?, e a Páscoa já foi há duas semanas na Europa e há 1 semana na Etiópia. Mas esta música fica bem em qualquer dia, acho eu…

A peça As Sete Últimas Palavras do Nosso Salvador na Cruz foi composta por Joseph Haydn em 1785 ou 1786. A obra foi-lhe encomendada para a missa de Sexta-Feira Santa na Catedral de Cádis. A interpretação da orquestra Le Concert des Nations dirigida por Jordi Savall, que vos proponho (vejam no Youtube, porque não tenho autorização para a mostrar no blogue), foi gravada nessa mesma catedral em 2009. Da génese da obra, disse Haydn (traduzo eu):
Há uns quinze anos, pediu-me um cónego de Cádis que compusesse música instrumental sobre as sete últimas palavras do nosso salvador na cruz. Era costume na Catedral de Cádis apresentar todos os anos um oratório pela Quaresma, sendo o efeito da apresentação muito ampliado pelas seguintes circunstâncias: as paredes, janelas e pilares da igreja era cobertos de pano negro e um candeeiro apenas, pendendo do meio do teto, quebrava a solene escuridão. Ao meio-dia, as portas eram fechadas e começava a cerimónia. Depois de um breve serviço, o bispo subia ao púlpito, pronunciava a primeira das sete palavras (ou frases) e fazia um discurso sobre ela. Chegado ao fim, saía do púlpito e ajoelhava-se diante do altar. O intervalo era preenchido com música. O bispo então pronunciava da mesma forma a segunda palavra, e a terceira e assim sucessivamente, entrando a orquestra após a conclusão de cada discurso. A minha composição estava sujeita a estas condições e não era tarefa nada fácil compor sete adágios de dez minutos cada um sem cansar os ouvintes. De facto, achei que era impossível ater-me aos limites que me eram dados.
Nelson Thorpes é um detetive de novelas de cordel, que tem, de vez em quando, ideias um pouco estranhas sobre música. A certo passo da sua primeira aventura, propõe uma atualização da obra:
O que se devia fazer era encomendar a um bom compositor contemporâneo, por exemplo a Bill Lee Bell, conhece, não conhece?, uma revisão de As últimas sete palavras de Cristo na cruz de Haydn em que, para as melodias iniciais de cada parte, se usassem, em vez da tradução latina das frases que o Cristo terá dito na crucifixação, essas mesmas frases em aramaico, que era a língua que Cristo falava. Por exemplo, o número de sílabas de Pater, Pater, dimitte illis, quia nesciunt, quid faciunt, “pai, pai, perdoa-lhe que eles não sabem o que fazem”, que é a frase a partir da qual Haydn constrói a primeira sonata, determina a frase melódica principal desse segundo andamento. Mas quantas sílabas terá “pai, pai, perdoa-lhe que eles não sabem o que fazem” em aramaico?
Enfim... Deixo-vos também um texto de José Saramago, que acompanha o disco e o DVD de Savall e que se chama “As sete palavras do homem”. É, com certeza, menos disparatado que as propostas de Thorpes e termina assim:
(...) Acabámos. Representei o meu papel o melhor que podia. O futuro dirá se o espetáculo valeu a pena. E agora, Deus, Pai, Senhor, uma última pergunta: Quem sou eu? Em verdade, em verdade, quem sou eu?
O quadro de James Tissot que termina o post, pintado entre 1886 1894, chama-se O que o nosso salvador viu da cruz, o que me parece ter ecos haydnianos; mas podia também, muito saramagicamente*, chamar-se A crucifixação vista por Jesus Cristo.

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* Não sabia que adjetivo construir do nome Saramago, para dele fazer um advérbio, mas, de repente, saiu-me este – como que por magia…