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13 de agosto de 2018

Geografia e língua

Quando era rapaz novo, adolescente ainda, tinha a teoria que o frio fazia fechar as vogais. Isto para que vocês vejam que há muito tempo que sou obcecado por coisas de língua e  que surgem facilmente teorias muito esquisitas na cabeça de uma pessoa que pense muito num determinado assunto sem o ter estudado de uma forma organizada e sistemática. A minha ideia vinha da constatação de que as vogais do português europeu eram mais «fechadas» que as do português africano e americano, como as vogais do inglês do sul da Grã-Bretanha eram mais «fechadas» que as dos dialetos do norte da ilha, Escócia incluída, e que o francês do sul de França também tinha vogais mais abertas que o francês do norte e do Canadá. Não me lembro se pensava mesmo que se abria menos a boca para não deixar entrar o ar frio ou que explicação arranjava para a minha ideia, mas, enfim, parece-me hoje uma coisa tão sem pés nem cabeça que não faço ideia hoje de como a posso ter pensado.

Lembro-me também de que uma vez, um amigo meu dinamarquês, que viveu em Portugal um ano e que encontra semelhanças entre as pronúncias do português e do neerlandês*, pôs uma vez a hipótese de que o português e o neerlandês, línguas de navegadores, se tivessem adaptado à comunicação a bordo, onde era preciso falar mais alto (?), e que, por isso, tivessem desenvolvido características comuns às duas línguas. A ideia não era nem mais nem menos estapafúrdia que a minha hipótese da relação entre temperatura média de um lugar e abertura das vogais da fala dos seus habitantes. E, como a outra, é ideia que não faz grande sentido. Digamos que é um bocado como a história que tantas vezes se ouve de que o r gutural de Lisboa é de origem francesa: é uma teoria de quem não faz grande ideia de como se processa a evolução de uma língua.

Há, porém, quem saiba de línguas e defenda que as condições geográficas e climáticas possam afetar a fonologia das línguas. Descobri até, há pouco tempo que foi já proposta, por exemplo, uma variação da minha tese de adolescente, mesclada um bocadinho com a ideia do meus amigo dinamarquês de que uma língua pode evoluir para se ouvir melhor em certas condições, segundo a qual «as línguas indígenas de climas tropicais e subtropicais, em contraste com as línguas faladas nas zonas temperadas e frias, manifestam altos níveis de sonoridade», nomeadamente um maior recurso a vogais relativamente a consoantes (artigo aqui), já que «uma sonoridade elevada, por exemplo nas vogais (versus consoantes), aumenta o poder de transmissão dos sons da fala e, consequentemente, a audibilidade à distância».

Mas não é esse o artigo que aqui me traz, até porque não o li ainda. Quero antes falar dum artigo que Caleb Everett publicou em junho de 2013 e que teve bastante fortuna na imprensa da época, em que defendia uma relação entre a existência de sons ejetivos (ver nesta lista de vídeos de que sons se trata) numa língua e a altitude a que essa língua é falada:
Constatou-se que as línguas com consoantes ejetivas fonológicas ocorrem mais perto de regiões habitáveis de alta altitude, quando comparadas com as línguas sem essa classe de sons. Além disso, constatou-se que as elevações médias e medianas das localizações de línguas com sons ejetivos eram comparativamente altas.
A explicação que Everett dá para esta correlação positiva entre ejetivas e altitude é a seguinte:
Sugerimos que sons ejetivos possam ser facilitados em maiores elevações devido à diminuição da pressão do ar ambiente, o que reduz o esforço fisiológico necessário para a compressão do ar na cavidade faríngea (…). Além disso, pomos a hipótese de os sons ejetivos poderem ajudar a fazer diminuir a perda de vapor de água através do ar expirado. Isto explica como uma redução da densidade do ar ambiente pode fazer aumentar o uso de fonemas ejetivos numa determinada língua.
Em abstrato, não tenho nada contra o (neo)determinismo geográfico (como já aqui o disse uma vez), mas o estudo de Everett não me convence. Antes de mais, há algumas questões de base nos trabalhos feitos com este tipo de metodologias (estatísticas de ocorrência de traços linguísticos relacionadas com fenómenos não linguísticos) que põem de sobreaviso muita gente. Um artigo de Mark Liberman no blogue Language Log dava bem conta de algumas questões levantadas pelas correlações encontradas pela análise estatística.
Quer a correlação altitude/ejetivas revele ou não uma relação causal, é de esperar que surjam, no futuro próximo, um grande número de análises correlacionais espúrias, a par de algumas análises significativas.
(1) A existência de conjuntos de dados digitais torna cada vez mais fácil fazer verificações quantitativas de hipóteses sobre possíveis relações entre variáveis linguísticas e não linguísticas;
(2) O número astronómico das relações possíveis faz com que muitas delas revelem, por puro acaso, fortes relações de pares, mesmo que todas as distribuições fossem estatisticamente independentes; (…)
Assim sendo, os editores de jornais responsáveis devem insistir, pelo menos, numa coisa simples: a comparação da correlação proposta com a distribuição completa das relações logicamente possíveis no(s) conjunto(s) de dados analisados.
E acrescenta que essa verificação não fora feita para o artigo de Everett, mas foi feita por Sean Roberts em alguns minutos, enquanto esperava por um avião no aeroporto de Singapura. Os resultados de Sean Roberts (que não recusa a hipótese de Everett) mostram que características impossíveis de explicar pela altitude, como a ordem de objeto e verbo e a relação entre a ordem de objeto e verbo e a ordem de adjetivos e nomes estão mais diretamente relacionadas com a altitude que a presença de ejetivas. Além disso, a variante tamanho das populações de falantes prevê melhor a ocorrência de ejetivas que a altitude.

Evidentemente, isto não prova que a tese de Everett não seja boa. Mas também não há, no trabalho de Everett, verdadeira prova da veracidade da hipótese. Everett parece descurar, na elaboração da sua hipótese e na metodologia que usa, algumas questões propriamente linguísticas e biológicas de base. Como no caso da famosa proposta da relação entre existência de futuro numa língua e as poupanças dos seus falantes ou em propostas semelhantes de uma pretensa relação causal entre língua e cognição, por muito que o trabalho seja feito com rigor, os pressupostos que o fundamentam são, no mínimo, discutíveis.

Os comentadores do Language Log levantam logo, por exemplo, uma questão óbvia: se a produção de ejetivas requer 25% menos força a 2500 m que ao nível do mar, mas a menor pressão faz também que essas mesmas ejetivas sejam menos percetíveis em altitude, porque não se produzem ejetivas com 25% menos esforço ao nível do mar, ainda perfeitamente percetíveis? (A resposta é que muitas das zonas de línguas ricas em ejetivas são de zonas de baixa altitude, de maneira que…). Quero acrescentar à discussão algumas dúvidas que me vêm de imediato à mente. Se a produção de ejetivas for facilitada – ou mesmo motivada – pela altitude, isto deve implicar uma predominância das ejetivas em todos os períodos históricos, já que a altitude não muda, o que deve implicar, por sua vez, que esse traço se tenha mantido sempre estável nas línguas faladas em altitude, mas que tenha tido tendência a perder-se nas línguas que desceram para regiões mais baixas e que tenha começado a surgir nas línguas que se tenha deslocado para regiões mais altas. Além disso, não vejo razão para essa vantagem – ou motivação – das ejetivas se revelar especialmente em sons com pertinência fonológica, isto é, com valor no sistema, pelo que se deveria incluir na análise as ejetivas que ocorrem como variantes contextuais (como acontece, por exemplo, em certos dialetos ingleses e alemães). E não há, no texto de Everett, referência a este aspeto histórico, nem às ejetivas que não fazem parte do inventário de fonemas das línguas.

Acho que haveria que verificar isto tudo –  e mais** – , mas isto dá mais trabalho que analisar conjuntos de dados já organizados, prontos a analisar em programas estatísticos… E acho também que, até me serem apresentadas provas mais concludentes, vou continuar a pensar na influência da geografia na língua sobretudo como uma hipótese tão imaginativa como infundada que pus na minha adolescência…
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* Tenho encontrado mais pessoas com a mesma opinião. Provavelmente, esta impressão é motivada sobretudo por dois traços comuns bastante conspícuos: os ll são muito semelhantes nas duas línguas e ambos diferentes da maior parte das outras línguas mais próximas, e o «r gutural» português soa-me igual ao g neerlandês da zona da Holanda (em rato e gaat, por exemplo). Mas não sei…
** Ver também, por exemplo, o artigo de Asya Pereltsvaig e Martin W. Lewis, que dá conta de outras incoerências na proposta de Everett.

11 de abril de 2014

Por que razão faz ão-ão a palavra cão?

Tenho com a minha cadela Saskia um desentendimento: às vezes digo-lhe Kom!, pedindo-lhe que venha, e ela põe-se a comer; outras vezes, é ao contrário – aponto-lhe um grão de comida de cão que lhe atiro para o chão (tanto ão!) e mando-a comer, Come!, e ela vem na minha direção, pensando que estou a chamá-la. Evidentemente, como pode a pobre bicha distinguir português de dinamarquês? Nem os elefantes do Parque Nacional de Amboseli, no Quénia, que dizem que conseguem distinguir massai de quicamba, conseguiriam tal proeza.

Mas enfim, faz-me isto lembrar um poema famoso de Robert Desnos: 
Come, diz o inglês ao inglês e o inglês vem.
Còmm, diz o chefe da estação e o viajante que vai a essa cidade desce do comboio, de mala na mão.
Come, diz o outro, e ele come.
Comme, digo comme e tudo se metamorfoseia, o mármore em água, o céu em laranja, o vinho em planície, o fio em seis, o coração em pesar, o medo em chinchorro[1]
A reflexão mais imediata, perante este problema de incomunicacão, que é como se chama ao fracasso do diálogo com canídeos, é que o signo linguístico é, Deus meu!, tão arbitrário, não é? – qualquer som pode querer dizer qualquer coisa, se assim se o convencionou. Ora, por evidente e trivial que possa parecer, esta ideia tem sido muito debatida, às vezes com argumentos mais convincentes que outras.

Uma das mais famosas defesas da ideia de que não é por pura convenção que a uma determinada sequência de sons corresponde um determinado significado é a que Platão põe na boca de Sócrates, em defesa de Crátilo e contra Hermógenes. É tão famosa, aliás, que se chama às vezes cratilismo à crença num relação de motivação entre o significado e a sua forma linguística. Sócrates segue os seguintes passos no seu raciocínio: primeiro, é possível encontrar motivação nas palavras a partir de unidades significantes mais pequenas – outras palavras (por exemplo, Astynax seria asty-anax, "senhor da cidade" ou anthrôpôs,"homem", seria anathrôn-ha-opôpé, "que faz o estudo do que viu", etc., etc.); em seguida, é possível encontrar motivação para as formas mais simples, primárias e irredutíveis, pela adequação das características articulatórias do som ao conceito (por exemplo, os sons d e t, que resultam de uma "compressão da língua, que se apoia nos dentes" são os indicados para descrever desmos, "ligação" e statis, "imobilização"...).

O cratilismo ressurge de várias maneiras ao longo dos séculos e, para dar um exemplo num género que conheço melhor, a adequação do som ao conceito que exprime é uma característica às vezes louvada em certas línguas imaginadas e ideais das também imaginadas viagens a sociedades ideias que genericamente se costumam designar pelo nome de utopias (ver alguma coisa sobre o tema neste texto da Travessa). Há 85 anos, porém, que se defende de forma menos impressionista uma relação simbólica entre os conceitos e os sons que os dizem.

Esta defesa de um simbolismo sonoro natural na nossa espécie e que se refletiria nas línguas humanas tem seguido principalmente duas linhas de investigação:

Em 1929, Wolfgang Köhler pediu a vários falantes do castelhano que associassem duas formas abstratas, uma de contornos redondos e outra de contornos rectilíneos, com bicos, às palavras inventadas baluba e takete e verificou que a maior parte das pessoas associava baluba à forma redonda e takete à forma com bicos.

No mesmo ano, Edward Sapir (cujo nome talvez conheçam da chamada hipótese Sapir-Whorf) fez um teste a cerca de 500 falantes de inglês e sete falantes de chinês, pedindo-lhe que, em pares de palavras que se distinguiam por uma vogal (uma com [i] outra com [a], como milha e malha, por exemplo), indicassem qual indicava maior ou menor tamanho e concluiu que, em 80% dos casos, as pessoas associavam [a] a maiores dimensões.

Eram trabalhos de metodologia muito duvidosa e feitos praticamente só com falantes de uma língua, mas deram origem a uma série de experiências metodologicamente satisfatórias, muitas vezes com resultados semelhantes, que se poderiam resumir da seguinte maneira: quando, perante palavras desconhecidas, as pessoas têm de avaliar tamanho – ou outros significados – baseiam-se no som para o fazer e, curiosamente, acertam em percentagens mais altas do que seria possível apenas por acaso, quando as palavras desconhecidas correspondem mesmo às suas intuições.

Uma experiência famosa da linha de testes iniciada por Sapir é a que foi feita pela equipa de Roger William Brown em 1955: Perante uma lista de 21 pares de palavras referindo extremos opostos do espetro sensorial (como bonito e feio, claro e escuro, seco e molhado, etc.), na sua língua materna, inglês, e em três línguas desconhecidas, chinês, checo e hindi, as pessoas concordavam, numa média bem acima do acaso, sobre quais as palavras desconhecidas que deveriam corresponder às palavras inglesas. Nem sempre este alto índice de acordo as levava a adivinhar as traduções corretas (às vezes, concordavam numa falsa suposição), mas, no geral, a taxa de êxito na tarefa é bem acima da que resultaria apenas do acaso.

Na linha de experiências iniciada por Khöler, um trabalho conhecido é o de Vilayanur Ramachandran e Edward Hubbard, no âmbito de um estudo sobre sinestesia, em que, mostrando figuras semelhantes às utilizadas por Khöler em 1929 e pedindo agora para as relacionarem com as palavras bouba e kiki, se obtêm impressionantes taxas de acordo da ordem dos 95%, tanto com falantes do inglês como com falantes do tamil.

Há uma quantidade muito grande de estudos sobre a questão do chamado simbolismo sonoro, ou seja, da hipotética motivação natural dos signos linguísticos, e não quero – nem posso, nem sei –fazer aqui um resumo do que foi dito sobre a questão[3]. O certo é que, por muito que nem todos os trabalho confirmem a hipótese de haver alguma relação universal entre certos sons e certos significados, há um número grande de estudos que parece confirmar essa hipótese. Mas… O que motivaria então essa motivação, se se pode dizer assim?

Para Ramachandran e Hubbard, a resposta é a relação (sinestésica, em sentido lato) que existe entre movimento e som. Segundo eles, “a representação de certos movimentos dos lábios e da língua em mapas motores no cérebro pode ser mapeada de forma não arbitrária em certas inflexões sonoras e representações fonémicas em regiões auditivas e estas podem, por sua vez, ter ligações não arbitrárias com a aparência visual de um objecto”. Por outras palavras, “pronunciadas mudanças de direção visual das linhas na figura [com bicos] imitam as pronunciadas inflexões fonémicas do som kiki, bem como a pronunciada inflexão da língua no palato. (…) Pode haver uma ligação sinestésica mais estreita do que normalmente supomos entre os movimento dos lábios e da língua, e outras vocalizações, e os objectos e eventos a que se referem. Isto é: palavras que referem algo pequeno muitas vezes implicam a produção de um /i/ sinestesicamente pequeno com os lábio e o estreitamento do trato vocal (por exemplo, palavras como ‘little’, ‘petite’, ‘teeny’ and ‘diminutive’) e o contrário aplica-se a palavras que significam grande ou enorme”[4].

À esquerda, takete e baluba de Köhler; à direita, kiki e bouba de Hubbard e Ramachandran 

Outra maneira bem diferente de tentar explicar uma eventual motivação das palavras que referem tamanhos, e não só, é a chamada hipótese do código de frequências, desenvolvida sobretudo nos trabalho de Eugene Morton e John Ohala em 1994. A hipótese assenta também na biologia evolutiva, postulando que as pessoas, como muitos outros animais, desenvolveram uma associação instintiva de sons mais graves com tamanhos maiores. Há, de facto, uma relação direta entre frequências mais baixas dos sons e maior tamanho do animal que os produz, e pode-se também verificar a mesma relação entre maiores dimensões e som mais grave nos objetos de um determinado material. Para muitos animais, é vantajoso saber reconhecer o tamanho e a agressividade (também ela expressa quase sempre com frequências mais graves) dos outros animais que se aproximam, donde o desenvolvimento desta associação entre frequências sonoras e categorias do mundo real[5].

De maneira que, cara leitora ou caro leitor, se lhe vier à cabeça que uma pessoa que acaba de se apresentar como Júlia tem antes cara de Mariana, é capaz de haver para essa estranha ideia alguma razão mais lógica do que consegue imaginar…











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[1] Isto sou a traduzir do francês original, que é assim:
Come, dit l’Anglais à l’Anglais, et l’Anglais vient.
Côme, dit le chef de gare, et le voyageur qui vient dans cette ville descend du train sa valise à la main.
Come, dit l’autre, et il mange.
Comme, je dis comme et tout se métamorphose, le marbre en eau, le ciel en orange, le vin en plaine, le fil en six, le cœur en peine, la peur en seine.
Aborrece-me ter de pôr o nome da cidade italiana no lombardo que lá se fala, só para preservar o jogo sonoro em que assenta esta parte do poema… Ficava melhor o nome italiano, Como, que é igual ao português. Além disso, podia pôr o como comparativo também em português, na língua do poema, como no original, sem itálico nenhum. Mas, o que faço então ao come que o inglês diz quando chama alguém? Até arranjar um como, ou commo, ou kommo, ou komo, sei lá eu, que exista noutras língua qualquer, tenho de me ficar pelo comme. Vale a pena ler o poema todo (de Sans cou, 1932) e podem fazê-lo aqui, por exemplo.

[2] Às vezes, encontra-se também uma versão gráfica do cratilismo, em que não é o som, mas sim a grafia, que exprime tão adequadamente o conteúdo que é impensável que possa resultar apenas de arbitrária convenção. Num texto de que têm sido muito divulgadas certas passagens no âmbito da discussão da reforma ortográfica («A fisionomia das palavras», in A Águia, ano 1, I.ª série, n.º 5, de 1 Fevereiro 1911), escreve Teixeira de Pascoaes:
Olhemos a palavra escrita das duas maneiras – Peccado e Pecado: logo ressalta aos olhos o enigma penal que os dois cc revelam e que esta palavra, na verdade, contém, querendo traduzir o acto que ofende as misteriosas leis divinas. Nos dois cc existe, por assim dizer, a própria criminalidade da palavra.
Deve escrever-se, pelos mesmos motivos, afflicto e não aflito, bocca e não boca, espectro e não espetro, occulto e não oculto, etc., etc.
Todavia, palavras há que têm um sentido misterioso e se escrevem como se pronunciam, o que não quer dizer que a sua forma gráfica contradiga o seu espírito. Nestas palavras, a verdadeira harmonia existe entre o seu sentido e a sua expressão sónica. Por exemplo, nevoeiro; o sebastianismo da palavra está na surdez das suas primeiras sílabas e no prolongamento mais alto e nubloso da terminação.
Na palavra luar, a ideia que traduz, casa-se perfeitamente com a primeira sílaba muda e a segunda sílaba aberta; aquela é feita de sombra, esta é feita de luz; reunidas dão realmente a luz difusa, o luar…”
[3] Para um excelente resumo crítico da investigação sobre o assunto, ver, por exemplo, a tese de Sarah Hunter-Smith (2007) Understanding without Babblefish: Reviewing the Evidence for Universal Sound Symbolism in Natural Languages.

[4] Acrescentam Hubbard e Ramachandran:
Isto seria um exemplo de sincinésia entre os mapas motores para a boca e a mão, que estão mesmo ao lado um do outro no homúnculo motor de Penfield do giro pós-central. No exemplo referido, a forma da boca para petite, teeny e diminutive poderiam imitar sincinesicamente a oposição em forma de pinça do polegar e do indicador para indicar tamanho reduzido. Da mesma forma, ao apontar, uso o indicador para indicar a pessoa com quem falo. Também faço um “beicinho” parcial com os lábios (como no inglês you, no francês tu ou vous e no tamil thoo), ao passo que, quando aponto para mim próprio, os meus lábios e a língua se movem para dentro (como no inglês me, francês moi e tamil naan). 
É importante sublinhar que, embora afirmem que se podem observar ainda resquícios dele, os autores não defendem que este mecanismo primitivo funciona de facto nas línguas atuais, mas antes que “pode aplicar-se sobretudo aos estágios iniciais da evolução da protolinguagem dos hominídeos ancestrais”, que depois se teria desenvolvido de acordo com esquemas evolutivos mais complexos: “Desta forma, um vocabulário primitivo de gestos e pantomina poderia evoluir (…) para um vocabulário correspondente de movimentos da língua/palato/lábios (causando vocalizações, sobretudo se acompanhados de produção de sons guturais)”. Como o resumo que aqui faço desta proposta é demasiado breve (não é de modo algum minha intenção discutir aqui esta hipótese) e, sem mais explicações, a hipótese pode parecer mais especulativa, se não mais delirante, que o que é na realidade, sugiro que consultem, na obra de Ramachandran e Hubbard (disponível aqui), sobretudo a secção “Evolution of language” (pág. 19-23), onde se desenvolve a argumentação.

[5] Também esta tese é menos simplista – e está mais bem documentada por estudos empíricos – do que se poderia supôr. É de notar que ela não se aplica só às frequências fundamentais – à altura do som numa escala –, mas parece poder também aplicar-se às frequências formantes dos sons produzidos pelas pessoas, ou seja, ao timbre das vozes. Uma hipótese que poderia explicar a descida da laringe na puberdade que se dá nos machos humanos é a vantagem seletiva da comunicação de maior tamanho. Encontram-se em linha alguns resumos mais detalhados desta hipótese, nomeadamente um texto de Ohala e outro de Hinton, Nichols e Ohala.