3 de outubro de 2009

O sexo das pontes e outras questões linguísticas

A ideia de que o pensamento é modelado pela língua costuma ser associada sobretudo aos escritos de Benjamin Lee Whorf. Whorf, impressionado pela diversidade linguística, postulou que as categorias e distinções de cada língua consagram uma maneira de perceber o mundo, de o analisar e de nele agir. Se as línguas diferem, os seus falantes devem também diferir na forma como percepcionam e agem em situações objectivamente semelhantes (Whorf 1956). Esta perspectiva whorfiana forte – de que o pensamento e acção são inteiramente determinados pela língua – há muito que foi abandonada em ciência cognitiva. Contudo, uma resposta definitiva a versões menos deterministas da pergunta “A língua modela o pensamento?” tem-se revelado muito difícil. Alguns estudos têm defendido provas da resposta afirmativa (…), outros, provas do contrário (…)*.
Lera Boroditsky, a autora desta apresentação sucinta do debate whorfiano, faz parte do primeiro grupo: é um dos neo-whorfianos que, com base em trabalho experimental (de que Whorf, no seu tempo, nunca lançou mão), defendem agora a versão fraca da hipótese whorfiana (que, de forma simples, se pode resumir assim: se bem que não determine completamente o pensamento e a acção, a língua pode, em certos casos, ter influência sobre eles). Boroditsky é professora de Psicologia na Universidade de Stanford e é, segundo alguns, uma investigadora de que ainda se há-de ouvir falar muito. A verdade é que já se ouve falar muito dela. A hipótese de influência da língua na nossa maneira de pensar o mundo sempre foi bastante sedutora fora do debate especializado e, por consequência, muito mediática, e os neo-whorfianos, e Boroditsky em particular, têm chegado às páginas de divulgação científica de vários jornais, têm aparecido na rádio e na televisão e têm também visto os seus trabalhos publicados em revistas mais especializadas. Podem, por exemplo, ouvir uma discussão com John Perry e Kenneth Taylor em Philosophy Talk, ou ler o artigo “What’s in a word” de Sharon Befley no Newsweek de 9 de Julho passado, ou, se estiverem mais virados para textos um bocadinho mais densos e escritos pela própria Lera Boroditsky, vejam, por exemplo, um resumo da sua pesquisa e convicções no site edge.org ou leiam os trabalhos da investigadora disponíveis no seu site.

Eu, é claro, apaixonado que sou pela discussão, tive de ler com atenção os trabalhos todos de Boroditsky a que tive acesso. Devo dizer que, no geral, fiquei impressionado. O trabalho de Lera Boroditsky é de um grande rigor e as experiências que monta são cuidadosas na verificação de todas as hipóteses que encontra de explicação para os fenómenos que testa. E parece-me que se pode considerar que demonstra bem o que demonstra. Apresento a seguir, traduzidos por mim, alguns excertos de resumos de trabalhos de Boroditsky, para que quem os não conhece possa ficar com uma ideia de que tratam. Concretamente, os exemplos que escolhi dizem respeito a três das áreas principais dos estudos de Boroditsky e dos seus colegas: a influência das classificações que a língua estabelece através das palavras que disponibiliza na percepção de cores, a influência do género gramatical na classificação e memorização, e a influência das metáforas espaciais predominantes na língua na maneira de pensar o tempo. A palavra a Lera Boroditsky:

«Um conjunto de provas sugere que o pensamento das pessoas sobre objectos pode ser influenciado por aspectos de gramática que diferem de língua para língua», pode ler-se na secção de conclusões do artigo “Sex, Syntax, and Semantics*”. «Uma série de estudos constatou efeitos do género gramatical na maneira como as pessoas descrevem objectos, como avaliam a semelhança entre imagens de objectos, e na sua capacidade de recordar nomes próprios de objectos. Outra série de estudos mostrou que podem ser produzidas diferenças no pensamento apenas por diferenças gramaticais, sem presença de outros factores culturais. Chama-nos a atenção o facto de que mesmo um acaso gramatical (a designação arbitrária de um nome como masculino ou feminino) possa ter um efeito na maneira como as pessoas pensam sobre o mundo». Para dar exemplos concretos, as experiências demonstram, por exemplo, que, dando um nome próprio a uma maçã, um falante do alemão recorda melhor o nome se ele for masculino (Patrick) do que feminino (Patricia), mas passa-se precisamente o contrário com um falante do castelhano, porque Apfel, “maçã”, é masculino em alemão mas manzana é feminino é castelhano; ou que, pedindo-se-lhes para adjectivar objectos inanimados, os germanófonos adjectivam Brücke, “ponte”, com adjectivos “descrevendo propriedades femininas” e Schlüssel, “chave”, com adjectivos “descrevendo propriedades masculinas”, ao passo que os hispanófonos associam a puente, que é masculino em castelhano, adjectivação “masculina” e descrevem llave com adjectivos “femininos”.

«O inglês e o mandarim falam sobre tempo de maneiras diferentes», conclui-se num outro artigo**, «o inglês fala predominantemente do tempo como se fosse horizontal, ao passo que o mandarim descreve normalmente o tempo como sendo vertical. Esta diferença entre as duas línguas reflecte-se na maneira como os seus falantes falam sobre tempo. Num estudo, falantes do mandarim mostraram a tendência de pensar verticalmente sobre o tempo, mesmo quando estavam a pensar para o inglês (os falantes do mandarim eram mais rápidos a confirmar que Março vem antes de Abril, se tivessem acabado de uma série de objectos dispostos verticalmente do que se tivessem visto um objectos dispostos horizontalmente, e passou-se o contrário com falantes do inglês).»

«Os termos que designam cores em inglês e russo dividem o espectro das cores de forma diferente», explica o resumo de um artigo de 2007***. «Ao contrário do inglês, o russo faz uma distinção obrigatória entre azuis mais claros (goluboy) e azuis mais escuros (siniy). Investigámos se esta diferença linguística leva a diferenças na discriminação das cores. Testámos falantes de inglês e de russo numa tarefa acelerada de descriminação de cores usando estímulos azuis dos dois lados da fronteira entre siniy e goluboy. Concluímos que os falantes do russo eram mais rápidos a discriminar duas cores quando estas pertenciam a duas categorias linguísticas diferentes em russo (uma siniy e a outra goluboy) do que quando pertenciam à mesma categoria linguística (ambas siniy ou ambas goluboy).»

A verdade é esta: mesmo os mais cépticos relativamente à hipótese whorfiana, como eu, têm argumentação sólida pela frente, se bem que, como a própria Boroditsky afirma, há ainda muito que tem de ser feito para se poder começar a ter ideias mais definitivas sobre a questão. Relativamente à questão da relação entre género gramatical e sexo, lembro-me imediatamente não tanto de objecções mas de problemas que merecem investigação :

Depois de testar como o género gramatical nos faz atribuir sexo ao assexuado, porque não testar a influência do género gramatical na concepção de seres sexuados: por exemplo, alguém designado como uma pessoa é vista como mais feminino do que alguém designado como um indivíduo, ou só as chaves e as pontes é que recebem sexo das línguas? Outra área interessante de investigação é a das palavras que podem ter ambos os géneros, como a palavra componente...; mas como componente é uma palavra que é difícil utilizar-se em testes, podia trabalhar-se, em português, com auto-estrada, por exemplo, uma palavra que, por muito que a norma a queira feminina, é masculina (por que será?) para muitos falantes nativos da língua. Seria interessante investigar se quem diz auto-estrada no masculino lhe atribui propriedades diferentes de quem dá género feminino a essa palavra… E como se passam as coisas nas línguas em que, como nas escandinavas, o sexuado, resultante da aglomeração do masculino e feminino, se opõe ao neutro não-sexuado? Bom, não me surpreende que uma criança seja percebida como menos sexuada do que um adulto por um dinamarquês (a propósito, a palavra criança é sempre feminina em português, mesmo quando refere um rapaz, que implicações terá isso na maneira como os portugueses vêem os humanos jovens?…), mas será que, para representação figurativa, por exemplo, esse dinamarquês tem tendência a considerar um poltergeist mais sexuado do que um fantasma vulgar[1]?

Quanto à relação entre metáforas espaciais de tempo e a maneira de pensar nele, e à influência do léxico na percepção, o que se me oferece dizer é que não me custa aceitar que certos hábitos de representação mental em que uma determinada construção linguística nos induz ou que o maior ou menor rigor classificativo possibilitado por maior ou menor riqueza lexical numa área semântica determinada nos dêem vantagem ou desvantagens em determinadas tarefas cognitivas. Mas as situações estudadas até agora são tão marginais no nossa quotidiana tarefa de conhecer e pensar o mundo que a versão fraca da teoria whorfiana é mesmo muito fraca. No estado em que a investigação está, talvez seja mais correcto não falar ainda de estudo da relação entre língua e cognição, mas apenas de relação entre uma ínfima parte de aspectos linguísticos e uma ínfima parte do trabalho cognitivo…

Além disso, o léxico (eu diria, incluindo preposições e advérbios usados na expressão do tempo, mas isto é, claro está, muito discutível) é a parte menos linguística da língua. O léxico, comparado com as estruturas sintáctico-semânticas e sobretudo as estruturas fonéticas, é facilmente alterável, e em qualquer língua se podem introduzir, com grande rapidez e sempre que seja necessário, novas palavras para dizer novas coisas (também cores…). Além disso, o rigor na classificação das cores (só para ficar na área da investigação aqui referida, mas podia arranjar muitos outros exemplos) pode variar muito de indivíduo para indivíduo entre os falantes de uma mesma língua – pode haver quem saiba o que é azul ultramarino e quem não o saiba e seria interessante comparar como afecta a cognição das cores a maior ou menor educação cromática, digamos assim…

Mas, e outros aspectos linguísticos menos volúveis: A estrutura fonológica? A ordem dos advérbios ou dos diversos sintagmas na frase? A determinação nominal, os diversos usos dos artigos, a sua existência ou ausência? A existência de preposições versus outras formas de marcação de caso? Ficamos todos ansiosos, não é?, a ver como evolui a investigação e que implicações podem ter – ou não – todas estas componentes das línguas na nossa maneira de perceber o mundo e de agir sobre ele…

***
O trabalho de Boroditsky é, repito, um trabalho científico cuidado, e isso só faz que me surpreenda mais a ligeireza de algumas afirmações que faz. Um exemplo:

«Os falantes de línguas diferentes devem ter em conta e codificar aspectos surpreendentemente diferentes do mundo para usarem devidamente a sua língua (…). Por exemplo, para dizer que “o elefante comeu os amendoins” em inglês (“the elephant ate the peanuts”) temos de incluir tempo verbal – o facto de que o evento se deu no passado. Em mandarim, indicar quando o evento ocorreu seria opcional e não poderia ser incluído no verbo. Em russo, o verbo teria de incluir tempo, se o comedor de amendoins era macho ou fêmea (embora só no passado) e se o dito comedor de amendoins os comeu todos ou só uma porção deles. Em turco, especificar-se-ia se o evento foi presenciado ou relatado.*» [Traduzo eu. Borodistky utiliza variações deste exemplo noutros lugares, por exemplo na entrevista no Philosophy Talk que refiro acima.]

Uma reflexão mais aprofundada sobre a questão que aqui se coloca, que é sobretudo de tempo, aspecto e modo, talvez fizesse com que Boroditsky não concluísse que “Os falantes de línguas diferentes devem ter em conta e codificar aspectos surpreendentemente diferentes do mundo para usar devidamente a sua língua”, mas antes, como concluem muitos estudiosos da questão, que as diversas línguas têm maneiras mais ou menos conspícuas de marcar categorias que estão presentes em todas as frases de todas as línguas. Senão vejamos:

• Por muito que uma pessoa fale uma língua com marcação obrigatória do género nominal, não precisa de saber o sexo de um animal para poder referir esse animal. Mal feito fora… Umas das formas disponíveis é neutra, ou não marcada, e é utilizada quando não sabemos ou não queremos dizer o sexo. Não falo russo, mas não consigo conceber que isto seja diferente em russo e que eu tenha de ir inspeccionar um animal para lhe identificar o sexo antes de o poder referir. Em português, a palavra neutra é geralmente do género dito masculino, mas há casos em que é feminina, pelo que não é só um borrego que às vezes é uma borrega, como também uma ovelha que às vezes é um carneiro.

• Sem mais contexto, qualquer falante do inglês compreende, ao ouvir “the elephant ate the peanuts”, que o elefante os comeu todos. Exactamente como em português: sem informação prévia, quando ouço a frase “o elefante comeu os amendoins”, compreendo que os comeu todos. É verdade que nem o português nem o inglês têm, como o russo, uma forma específica (no caso do russo, um prefixo verbal) que marque a “perfectividade”, ou seja, o completamento da acção. Mas há muitas outras marcas possíveis de completamento fora da forma verbal. Neste caso, é a determinação nominal (o artigo definido) que marca esse completamento.

• O que digo do aspecto, posso também dizer do tempo: mesmo que em mandarim ele não seja obrigatoriamente marcado na forma verbal, a marca tem de existir, porque a pessoa que ouve a frase tem de saber se o evento é anterior ou não ao momento em que a ouve. Mais uma vez, há argumentos (e sólidos!) sobre a presença de marcas de tempo em todos os enunciados humanos, se bem que a forma como o tempo é marcado possa diferir muito de língua para língua e aquela a que nós estamos habituados (a flexão verbal) seja apenas uma delas. Em mandarim, pelo que me lembro, as marcas de tempo (e aspecto e modo) são partículas silábicas soltas ou adverbiais “normais”, mas isso não significa que um falante do mandarim não tem de dizer o tempo.

• O que se passa em relação a tempo e aspecto passa-se em relação a modalidade: há várias línguas que, como o turco, têm marcas morfológicas da assunção pela pessoa que fala daquilo que diz. A questão é muito complexa, mas o facto de esse tipo de marcas modais existir de forma mais ou menos explícita em certas línguas não significa que nas outras línguas essa modalização não esteja presente. Em português formal, por exemplo, é o condicional que marca, muitas vezes, a não assunção pelo falante da informação enunciada (“O roubo teria sido cometido…”), mas na linguagem informal usam-se outros tipos de modalizadores, dos quais os mais óbvios são coisas como “diz que…”, “parece que…”, etc.

***
A ideia da neo-whorfiana Lera Boroditsky é que não faz sentido discutir se a língua modela o pensamento e se a cultura modela o pensamento, porque a língua faz parte do pensamento e da cultura e vice-versa****. A posição não é em nada diferente de muita gente que não assume a hipótese de Sapir-Whorf, mesmo na sua versão fraca (estou a pensar na posição “prudente” de um linguista como Claude Hagège, por exemplo).

Lamento desiludir alguns relativistas culturais mais dados à conversa de café do que ao trabalho de rigor, mas um trabalho sério como o de Boroditsky e dos outros neo-whorfianos põe também em causa, como não podia deixar de ser, conclusões apressadas sobre a maneira como a língua modela o pensamento (ou as “concepções” disto ou daquilo e, por isso, a cultura). Por exemplo:

Uma vez insurgi-me aqui, na última secção de um texto chamado “Penas de anjo”, contra a falta de rigor da afirmação de uma pretensa diferença da concepção do tempo entre os aimaras (e quem?, as outras pessoas todas do mundo?) baseada apenas na constatação de que a palavra para dizer “futuro” é a mesma palavra que para dizer “atrás”. Aquilo para que Gentner, Imai e Boroditsky chamam a atenção é que (traduzo eu) «muitas línguas têm um sistema em que “frente” é usada para futuro e outro sistema em que “frente” é usada para o passado. Quando se usa “frente” para o futuro, o tempo é representado como um observador deslocando-se ao longo de uma linha temporal, ou através de uma paisagem [é a chamada “metáfora do ego em movimento”, que se observa em frases como “Ela ainda tem a vida toda à sua frente…”, explicação minha]. Quando se usa “frente” para o passado, o observador está parado e o tempo passa por ele [trata-se, nesse caso, da chamada “metáfora do tempo em movimento”: “Quando vier o tempo das cerejas…”, explicação minha]. Poder-se-ia racionalizar que o passado está em frente porque o observador já sabe o que está no passado. O futuro está atrás porque não se pode ver o futuro, da mesma forma que não se pode vir o que está atrás de nós*****».

Outra coisa interessante no trabalho de Lera Boroditsky é que, na defesa da versão fraca do whorfianismo, ela acaba por demonstrar exactamente o contrário do que pretende uma ideia de determinismo cultural que costuma andar de mãos dadas com a tese whorfiana no seu sentido forte: a capacidade de condicionamento do pensamento que a língua possa ter não é, afinal, nada de muito fundo em nós. A categorização do mundo recebida sob a forma de léxico e formas gramaticais não impede que qualquer pessoa facilmente aprenda a categorizar o mundo de uma maneira nova, a de outra língua.

«[Um] estudo mostrou a medida em que falantes bilingues de mandarim e inglês pensam verticalmente sobre o tempo está relacionada com a idade que tinham quando começaram a aprender inglês”, mas “noutra experiência, falantes nativos do inglês foram ensinados a falar sobre o tempo usando termos espaciais verticais de uma forma semelhante à do mandarim [e,] num teste posterior, este grupo de falantes do inglês mostrou a mesma tendência para pensar verticalmente sobre o tempo que a observada em falantes do mandarim. Conclui-se que (1) a língua é um instrumento poderoso para modelar o pensamento sobre domínios abstractos e que (2) a língua nativa de uma pessoa desempenha um papel na modelação do pensamento habitual (por exemplo, na maneira como uma pessoa tende a pensar sobre o tempo), mas não determina inteiramente o pensamento dessas pessoas no sentido whorfiano forte.**»

Ou seja, em vez de contribuir para a ideia de língua como modelo mental pesado e definitivo, o trabalho destes neo-whorfianos aponta antes para a ideia de língua como modelo mental aberto a constante adaptação – adaptação essa, que pode, a julgar pelo tempo que, na experiência descrita, os falantes de inglês demoram a aprender a utilizar com sucesso a orientação temporal vertical que não existe na sua língua [2] (“foram muito brevemente treinados”), pode ser muito rápida!

Não quero ir longe demais nas minhas extrapolações, mas não se passará precisamente o mesmo com tudo o que se costuma designar como “cultura”?
___________

* Boroditsky, L., Schmidt, L.A., & Phillips, W. (2003). “Sex, Syntax, and Semantics”. in Gentner & Goldin-Meadow (Eds.,) Language in Mind: Advances in the study of Language and Thought. Cambridge, MA: MIT Press, acessível aqui.
** Boroditsky, Lera (2001),“Does language shape thought? Mandarin and English speakers' conception of time”, Cognitive Psychology 43, acessível aqui.
*** Winawer, Jonathan, Witthoft, Nathan, Frank, Michael C., Wu, Lisa, Wade, Alex R., Boroditsky, Lera (2007), “Russian blues reveal effects of language on color discrimination”. in PNAS, Vol. 104, No. 19. (8 May 2007), pp. 7780­-7785, acessível aqui.
**** Na entrevista citada em Philosophy Talk: “To me, it doesn’t make sense to say: “is is language that shapes thought?” or “is it culture that shapes thought?”, one is a part of the other.”
***** Gentner, D., Imai, M., & Boroditsky, L. (2002). “As time goes by: Evidence for two systems in processing space > time metaphors”. Language and Cognitive Processes, 17, 537-565, a que se pode aceder aqui.

[1] Há muito outros fenómenos, provavelmente muito menos relevantes para a verificação da hipótese whorfiana do que os que acabo de referir, que também são interessantes. Um exemplo: Boroditsky refere um facto conhecido de quem fala línguas com géneros diferentes dos da sua língua materna, mesmo que as fale bem: a tendência a referir objectos ou seres que são de um género diferente ou sem género na língua estrangeira com o pronome do género que eles têm na língua materna. Por exemplo, se eu estiver à procura da carteira e estiver, por isso, a pensar nela (em português), posso facilmente dizer a um interlocutor com quem fale francês que “je (ne) la trouve nulle part”, por muito que, posso garantir-vos, nunca me aconteça dizer *une porte-feuille (credo!...), quando falo francês. Ora o que é interessante é que o pensar em dinamarquês me predispõe (“primes me”, como se diz na literatura técnica em inglês) de uma maneira estranha para trocar os pronomes em português. Já o notei várias vezes: se estou, por exemplo a ouvir falar e a pensar em en cykel (“uma bicicleta”) em dinamarquês, vou dizer “Mas o sr. João já o arranjou?”. Quer dizer, “traduzo” por masculino o género que é “masculino+feminino” em dinamarquês? A única hipótese que encontro de explicação do fenómeno é que a palavra dinamarquesa cykel “vá buscar”, na minha mente, a palavra foneticamente mais próxima em português, ciclo, que é masculina. Mas seria preciso estudar a questão…

[2] De facto, a orientação num eixo vertical da metáfora temporal não está ausente de línguas como o inglês ou o português, apenas não se usa para localizar eventos no tempo. Mas é possível dizer em português, por exemplo, “as pessoas acima dos 60 anos” e a mesma construção existe em inglês.

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