24 de setembro de 2012

Palavras, pensamento e perceção, mais uma vez (2) [e um estudo fantástico]

Falava eu no texto anterior do ressurgimento da ideia de que a língua condiciona a nossa perceção do mundo e de como estava disposto a rever a minha posição relativamente a essa ideia: se até há pouco a recusava liminarmente, algum trabalho feito ultimamente leva-me a aceitar, em determinadas casos, essa possibilidade[1].
O que quero agora acrescentar é que, se alguns trabalhos destes novos relativistas linguísticos[2] me impressionam pelo seu rigor, fico também por vezes com a sensação de que nem sempre repensam suficientemente os conceitos linguísticos com que trabalham. No tratamento do tempo linguístico, encontram-se muitas vezes exemplos desta ligeireza teórica, como eu digo[3]. Eis um deles: no artigo “Does Your Language Shape How You Think?”, publicado no New York Times de 29 de agosto de 2010, diz-nos o linguista Guy Deutscher (traduzo eu):
Se quiser contar em inglês um jantar com o meu vizinho ou com a minha vizinha (…), tenho de dizer alguma coisa sobre a localização temporal do evento: tenho de decidir se jantámos, se estivemos a jantar, se estamos a jantar, se havemos de jantar, etc. O chinês, em contrapartida, não obriga a especificar o tempo exato da ação desta maneira, porque se pode usar a mesma forma verbal para ações passadas, presentes ou futuras.
A maneira como Deutscher apresenta a questão, por muito que seja seguramente convincente para a maior parte dos leitores do artigo, é demasiado simplificada, ao ponto de ser incorreta. Em primeiro lugar, mistura – ou confunde – tempo com outras categorias: a diferença entre have eaten e have been eating (que só em contextos específicos, note-se, correspondem às formas portuguesas que usei para as traduzir) não é de caráter temporal, mas aspetual, ou seja, não tem a ver com tempo, mas como a ação nos é apresentada, como vista do exterior ou do interior, como terminada ou em curso, etc. Esta falta de rigor, porém, pode desculpar-se-lhe, admitindo que não queira complicar as coisas para o leitor do New York Times. Já mais grave me parece que chame a exprimir tempo linguístico “especificar o tempo exato da ação”. O tempo linguístico tem muito pouco a ver com o “tempo exato” e o tempo exato exprime-se com recurso a horas, dias e meses, não a formas verbais. Mas, em última análise, também isto se lhe pode desculpar, aceito-o perfeitamente. O que vem a seguir, já não.
O tempo linguístico (ou a combinação de tempo e outras categorias, para ser mais rigoroso) não se exprime só através da forma verbal, longe disso, e eu já vi trabalhos sobre marcações de tempo e aspeto em chinês. Deutscher não refere (porquê?) as teorias linguísticas que consideram, e demonstram com bastante subtileza, que o tempo é uma categoria universal, presente em todas as frases de todas as línguas, independentemente de ser ou não marcado nas formas verbais. Não me quero alongar nesta questão nem entrar em pormenores muito técnicos, mas, quando se fala de tempo, há que ter conta não só o verbo e a sua flexão, mas também as propriedades dos seus sujeitos e complementos, os adverbiais, as relações lógicas entre a frase e as frases anteriores do discurso, etc.
O que é estranho no ressurgir das teses de condicionamento do pensamento e da perceção pela língua é que se parece repetir um erro simples do primeiro whorfianismo, que é identificar categorias linguística e formas da língua: Whorf argumentava que em hopi (a língua ameríndia que descreveu) não havia “tempo” como em inglês, mas antes uma diferença entre “manifestado” e “não manifestado”, mas essa afirmação resulta obviamente de uma incompreensão das categorias tempo e modo. Para dar um exemplo óbvio (que não corresponde de maneira alguma ao das categorias verbais do hopi, quero deixar claro), um dos eixos de organização do sistema verbal nas línguas latinas é a oposição entre indicativo e conjuntivo que, embora suficientemente misteriosa para não haver nenhum tipo de consenso entre estudiosos quanto ao seu significado, não é seguramente do tipo temporal e poderia até definir-se (com alguma boa vontade, eu sei…) como um tipo de oposição entre manifestado e não manifestado, pelo menos se se assumir que manifestado pode significar “assumido como factual pelo locutor”… O facto é que, deixando de lado o poder de sugestão que traz agarrada a ela a referência à língua de um povo distante, com uma mundivisão seguramente muito diferente, não parece haver grande diferença na conceção do tempo, e do mundo em geral, entre uma francófona de alguma povoação do cantão suíço do Valais e uma falante do alemânico de uma povoação próxima no cantão de Berna, que tem um sistema verbal muito “temporal” e que não faz diferença nenhuma entre “ando à procura de um restaurante onde fazem bom rösti” e “ando à procura de um restaurante onde façam bom rösti”. De facto, que as formas verbais reflitam direta e essencialmente o tempo é uma característica das línguas germânicas que não se encontra nas línguas latinas, por exemplo, em que o sistema verbal, embora contenha marcas de tempo, é organizado em torno de noções de aspeto (fez vs fazia, etc.).

Um estudo fantástico
Um exemplo extremo, mas muito curioso, da falta de rigor no tratamento do tempo linguístico num trabalho whorfiano é o do estudo de M. Keith Chen “O efeito da língua no comportamento económico[4]”. Assim resume Chen o seu trabalho (traduzo eu):
Testo a hipótese de que as línguas que não distinguem gramaticalmente entre eventos presentes e futuros (o que os linguistas chamam línguas de futuro fraco) levam os seus falantes a realizarem ações mais orientadas para o futuro. Primeiro, mostro como esta previsão decorre naturalmente quando a efeitos bem documentados da língua na cognição se juntam modelos de tomada de decisão ao longo do tempo. Em seguida, mostro que, corroborando esta hipótese, falantes de línguas de futuro fraco poupam mais, guardam mais para a reforma, fumam menos e têm menos probabilidades de ser obesos, e gozam de melhor saúde a longo prazo. 
Nem mais: o estudo “demonstra” que há uma influência tão grande das formas linguística de futuro na maneira como as pessoas concebem e sentem o porvir que quem fale uma língua com formas específicas para o futuro não poupa e complacentemente se lança em comportamentos suicidas. Evidentemente, a primeira coisa que nos vem à cabeça é que há que substituir urgentemente a segurança social por uma reforma linguística que proíba o uso dessas formas verbais altamente nocivas para a sociedade. A tese é suficientemente disparatada para merecer ser ignorada com um sorriso apenas ou uma grande gargalhada, consoante o estado de espírito da altura, mas não é assim que um linguista procede. Como diz Julie Sedivy[5],
[a proposta de Chen] é demasiado intrigante para se resistir a falar nela. Na realidade, lembra-me as palavras de um proeminente linguista que uma vez afirmou durante uma palestra: “A explicação em questão é quase de certeza falsa. Se fosse verdadeira, porém, seria incrivelmente interessante, de maneira que não temos outra escolha que não seja explorá-la.”
E depois não é só isso: pode aproveitar-se para mostrar a fragilidade da classificação de Östen Dahl aqui usada por Chen – mas que pode também ser usada em quaisquer outros estudos menos fantásticos que este…
Há muitas críticas que se podem fazer – e foram feitas – ao trabalho de Chen. Críticas sobre a metodologia do trabalho, sobre inferências forçadas, sobre efeitos estatísticos incontrolados, etc. Todas elas são válidas e podem facilmente encontrá-las online com uma pesquisa simples. Muitas delas, aliás, encontram-se nos textos do Language Log para que vos remeto aqui. Mas, como no-lo recorda Geoffrey K. Pullum[6], todas essas críticas são desnecessárias, se pensarmos que a hipótese inicial de Chen dificilmente se tem de pé [tradução minha]:
Chen usa dados descritivos das línguas que vêm do projeto EUROTYP de Östen Dahl, e adota uma classificação do inglês como tendo futuro forte. Mas o inglês usa constantemente, e de forma notória, o presente para referir o tempo futuro:
Meg's mother arrives tomorrow. [“A mãe da Meg chega amanhã”. Negritos meus.]
If the phone rings, don't answer it. [“Se o telefone tocar, não atendas.”]
My flight takes off at 8:30. [“O meu voo parte às 8:30.”]
IBM is declaring its fourth-quarter profits tomorrow. [“A IBM apresenta amanhã os lucros do último trimestre do ano.”]
No próprio exemplo que Berreby dá, usa-se o inglês I am going to + verbo, alegadamente ilustrando uma marcação gramatical do futuro; mas, claro, am é o presente do verbo, por isso teria de defender-se que o uso do verbo de movimento go no seu sentido idiomático de futuro próximo conta como marcador gramatical de tempo verbal, o que levanta questões sobre se o mesmo se deve dizer de am about to e de am on the point of e por aí fora. Se o inglês tem marcadores do futuro verbal, tem pelo menos uma dúzia; mas o uso simples do presente dos verbos é uma maneira muito comum de referir o tempo futuro, e o que havemos de pensar disso? Pela minha parte, desconfio muito que se possa descrever com rigor o inglês como uma língua de “futuro forte”. Quase todos os gramáticos tradicionais descrevem o inglês como tendo um sistema de tempos verbais que inclui uma forma verbal de futuro, mas isso não é bem verdade; will é um auxiliar modal que também tem diversos outros usos. Se a apresentação dos factos é pouco sólida relativamente ao inglês, que probabilidade tem de ser rigorosa em línguas que não foram estudadas de forma tão intensiva?
Podemos ver o caso do português. Mas, primeiro, há que detalhar mais a perspetiva de Chen. Na sua demasiado ligeira introdução à questão da problemática do futuro, diz-nos ele no estudo referido (traduzo eu):
As línguas diferem no facto de exigirem ou não que os seus falantes marquem eventos futuros. Por exemplo, um falante do alemão que preveja chuva pode, de forma natural, fazê-lo no presente, dizendo: Morgen regnet es o que se traduz por “Chove amanhã”. Em contrapartida, o inglês exigiria a utilização de um marcador do futuro como “will” ou “is going to”, como em “It will rain tomorrow”.(…) Desta forma, o inglês obriga os seus falantes a codificar a distinção entre eventos presentes e futuros, ao passo que o alemão não o faz.
E acrescenta, em nota de rodapé:
É possível em inglês a referência ao futuro sem marcadores de futuro em certos contextos: especificamente com acontecimentos programados ou acontecimentos que resultem de propriedades do mundo que sejam como leis (…). Na minha análise, deixo de lado estes casos, porque, como [Dahl] mostra, “em muitas, se não todas, as línguas, este tipo de frase é tratada de uma forma que não a marca gramaticalmente como tendo referência temporal não presente (...), mesmo em línguas em que a referência ao futuro é, noutras situações, altamente gramaticalizada.” Por outras palavras, a forma como os acontecimentos programados são tratados não reflete o tratamento geral da referência ao futuro numa dada língua.
Ora bem, na classificação de Dahl, o português europeu é classificado como língua de futuro forte e o português do Brasil como língua de futuro fraco. Em português, no registo oral quotidiano, cada vez mais a forma verbal do futuro tem um uso a que chamarei exclusivamente modal para simplificar («Onde andará agora a Rita?») e só é usado temporalmente num registo mais cuidado (situações formais, língua escrita)[7].
Como podem facilmente constatar prestando atenção ao que se diz ao vosso redor, usam-se, para indicar o tempo futuro, além das formas chamadas perifrásticas ir+infinitivo e haver de+infinitivo, o presente do indicativo. Mesmo que consideremos as perifrásticas “marcas gramaticais de futuro”, elas não são sempre obrigatórias, longe disso, e o presente parece até ser a forma mais utilizada em frases em que há uma referência temporal explícita no futuro:
«O que é que fazes hoje à tarde/no Natal?»
«Não faço nada de especial, porquê?»
Não é perfeitamente natural em português, digam-me lá, eu perguntar a uma pessoa «Então, amanhã chove ou não?» e essa pessoa responder-me «Chove, pois, de certeza absoluta»?
Então, aceitando as restrições de Chen de não contar subordinadas (porquê?) nem eventos programados, continua a ser muito duvidoso que o português europeu seja classificado como língua de futuro forte, não é verdade? Mesmo sem analisar como se chegou a esta conclusão, posso constatar, pelo que explico atrás, que é fácil considerá-la de rigor extremamente duvidoso. Como é, aliás, extremamente duvidoso que haja na marcação verbal do futuro diferenças tão grandes entre o português dos dois lados do oceano que o português americano seja, ao contrário do português europeu, uma língua de futuro fraco[8].
Podíamos continuar a analisar a expressão do futuro em muitas línguas, em todas até, muito provavelmente para chegarmos sempre a mais dúvida do que aprovação relativamente aos axiomas de que Chen parte. Tenho uma atitude muito mais radical que Pullum ou menos diplomática, se preferirem: a divisão entre línguas de futuro fraco e de futuro forte é impossível de provar. “Os linguistas” não chamam futuro fraco a nada. Há linguistas que usam esse conceito, mas são, obviamente, uma minoria e o conceito é de produtividade duvidosa. O trabalho que Chen se propõe fazer não pode ser feito. E Chen devia referir muitos outros linguistas além de Östen Dahl, para ficarmos então a saber o que dizem “os linguistas” sobre o futuro linguístico e os seus marcadores.
Quero com isto tudo chegar a uma conclusão simples: quem queira estudar uma relação entre um fenómeno linguístico e um fenómeno percetivo ou social deve ter sempre também o cuidado de pensar e repensar muito bem os aspetos linguísticos da questão a estudar – sobretudo os pressupostos linguísticos em que a hipótese assenta… Que o que acabo de escrever é disparatado, por demasiado óbvio? É certo. Mas a verdade é que nem sempre assim se faz…
__________________
[1] Ver também, sobre o tema, este meu texto,  e este e este, todos aqui na Travessa do Fala-Só.
[2] Ou ou neowhorfianos, como lhes chamo – de Benjamin Lee Whorf, conhecido por propor esta tese, nos anos 30, juntamente com Edward Sapir. Links para 4 resumos da hipótese de Sapir-Whorf: Wikipédia em português (muito pobre), Wikipedia em castelhano, Wikipedia em inglês e Stanford Encyclopedia of Philosophy (em inglês).
[3] O tempo é uma área por que tenho especial interesse e, por isso, reparo mais nas incorreções nessa área e analiso-as com mais facilidade. Já aqui tinha referido a falta de rigor de Lera Boroditsky no tratamento do tempo linguístico: ver a segunda parte deste texto, que começa com “O trabalho de Boroditsky é, repito, um trabalho científico cuidado…”.
[4] Chen, M. Keith. The Effect of Language on Economic Behavior: Evidence from Savings Rates, Health Behaviors, and Retirement Assets, Yale University, School of Management and Cowles Foundation, agosto de 2012. Aqui.  
[5] Em “Thought experiments on language and thought” de no site Language Log. Quem queira aprofundar a discussão do trabalho de Chen pode perfeitamente partir daqui, porque ele foi muito discutido no Language Log.
[6] No seu artigo “Keith Chen, Whorfian economist”, também no Language Log.
[7] Muita gente argumentará que raramente ou nunca se pode isolar o valor “exclusivamente temporal”, mas não quero lançar-me agora nessa discussão.
[8] Pode ser que os brasileiros poupem mais que os portugueses, não sei, mas isso é – pelo menos, para mim – uma questão muito diferente (smile).

5 comentários:

Joao Raposo disse...

Muito interessante e claro.
Há já alguns anos que não leio nada sobre linguística e, portanto, nem sequer vou discutir esta questão.
Proponho-lhe no entanto uma sugestão de reflexão: Existe uma diferença entre língua e linguagem, sendo esta um sistema codificado que permite a comunicação e a língua um instrumento privilegiado da linguagem.
Qualquer grupo só sobrevive tendo uma noção de espaço e de tempo. A linguagem/comunicação existe entre qualquer grupo. A língua terá sido “construída” para tornar mais eficaz a comunicação. Se na língua a presença do tempo pode eventualmente ser questionada, na comunicação não é. Parece-me antes que não é a língua que constrói a percepção, mas esta que constrói a língua. Não é o conceito que vem dar a percepção mas esta que cria o conceito pela necessidade de explicar/dizer algo que antes não era necessário.
Não lhe apresento aqui quaisquer referências porque, dado o meu afastamento teórico deste campo específico seria demasiado moroso. O que antes foi dito tem apenas o valor de uma opinião e do que me parece algum bom senso. Espero não estar a ser demasiado presunçoso.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Caro João Raposo,
Não me parece de modo nenhum que esteja a ser presunçoso e acho que faz todo o sentido considerar, como propõe, que é a perceção da realidade que está na origem dos conceitos. Quero, porém, fazer alguns breves comentários:
1. Não conheço a distinção que propõe entre linguagem como sistema codificado que permite a comunicação e língua como instrumento privilegiado da linguagem. A distinção comum entre linguagem e língua é que linguagem é uma capacidade e língua cada um dos sistemas (fonéticos, morfológicos, sintáticos, lexicais, etc.) em que esta capacidade se organiza nos seres humanos. Todos temos a capacidade da linguagem, mas falamos diversas línguas. Para muitas pessoas, a linguagem humana é uma variante apenas, com diferenças mínimas, da mesma capacidade em muitos outros animais. Há outros que preferem acentuar ruturas fundamentais entre a linguagem humana e a linguagem nos outros animais (capacidade de auto-referência, de indicações espácio-temporais, deixis, etc., etc.)
2. Tenho tendência a concordar que a linguagem tem a comunicação como função essencial, mas é uma ideia que está longe de ser consensual. Alguns linguistas importantes (Chomsky é o exemplo mais óbvio) consideram que a linguagem é um instrumento mal concebido para comunicação e que não é essa a sua função essencial. Esta ideia forte na discussão linguística é, aliás, anterior ao surgimento da linguística moderna, em Humboldt, por exemplo.
3. Não conheço ninguém que questione a presença do tempo na língua. O tempo é a área que melhor conheço na linguística e todos os linguistas que li até hoje consideram o tempo uma categoria linguística essencial. Não consigo imaginar, aliás, como se pode questionar a presença do tempo na língua.
4. É diferente afirmar que a perceção está na origem dos conceitos, afirmar que a perceção está na origem da linguagem e que a perceção está na origem da língua. Penso que a última proposição se refere à nomeação de objetos e seres concretos com que se lida, à questão lexical. Creio que tem razão, que há que criar palavras para designar o que existe à nossa volta, mas esta questão da relação entre as línguas e o mundo que descrevem é mais complexa do que parece e depende, em última análise, de como se definem os limites de uma língua e de qual o peso do léxico nessa definição, porque variantes de uma mesma língua (ponhamos o português europeu e o português moçambicano) têm corpora lexicais diferentes. Quanto à relação entre perceção e linguagem, é demasiado especulativo para mim considerar que a perceção faz surgir a capacidade de linguagem. Parece-me mais sensato afirmar é que o mesmo desenvolvimento do cérebro que leva à primeira que leva também à segunda, sem estabelecer uma ordem sequencial no seu surgimento. Há, aliás, quem defenda que é essa a única razão para algumas das nossas capacidades – que surgem naturalmente num sistema com uma determinada capacidade de informação. Finalmente, no que diz respeito à relação entre conceitos e perceção, é aqui que se reside toda a problemática do relativismo linguístico: os conceitos existem fora da língua (anteriormente a ela, se se preferir) ou são delimitados apenas pelas formas linguísticas? Como pode depreender do meu texto, acho que só em casos muito específicos se pode falar de delimitação conceptual pelo léxico, mas deixei de recusar completamente essa possibilidade.
Muito obrigado pelo seu comentário e muitos cumprimentos

Joao Raposo disse...

A caixa de comentários limita a pouco mais de 4000 caracteres o texto, pelo que vai em duas partes. As minhas desculpas pela extensão.
Peço desculpa pela demora na resposta mas problemas de saúde ainda não resolvidos, com um familiar, afastaram-me destas atividades. Peço-lhe também que considere este comentário como uma mera opinião sem cariz científico.
Retomando a nossa troca de "opiniões" devo insistir na minha quase ignorância atual sobre as questões mais técnicas das línguas. O pouco que li, Chomsky , Kristeva e mais um ou outro já têm muitos anos e li-os mais numa perspetiva de curiosidade que de interesse científico.
O meu interesse centra-se sobretudo na aperceção/apreensão/construção/interpretação da realidade e no papel da linguagem neste trabalho.
Estes quatro conceitos, em rigor, não significam o mesmo. Porém o que me interessa é de que realidade falamos quando falamos de realidade.
Assumo como verdadeira a frase de Heisenberg ao dizer que aquilo que dizemos sobre a realidade é apenas o que podemos dizer sobre ela e não o que é em si mesma.
Pensamos de acordo com um princípio de causalidade. Aquilo que a física nos tem vindo a dizer é que é mais um princípio probabilístico. O que me parece estar em questão é a nossa capacidade de dizer a realidade tal como ela é.
Pegando agora na linguagem, direi que, visando a comunicação, ela incorpora vários elementos a que eu, talvez abusivamente, chamei de instrumentos, tais como símbolos, sinais, signos. É neste sentido que a língua, fazendo parte da linguagem é o "instrumento" privilegiado para dizer a realidade.
A língua não é obviamente anterior à realidade nem ao homem, nem nasce com este. É a realidade que impõe ao homem a necessidade de comunicar como imperativo para a sobrevivência. À medida que os grupos humanos crescem e a sociedade se vai formando e complexificando, também as formas de comunicar se vão complexificando, não só para nomear o que vai aparecendo mas para o comunicar com maior rigor. É a necessidade de comunicar que cria a língua e esta dirá o que é preciso dizer sobre a realidade que encontra. Nem sempre há o conceito que permita dizer certa realidade. Aqui poderemos ter alguém que cria o conceito e faz uma leitura e outro alguém que não tendo o conceito faz uma leitura diferente. Eventualmente e aparentemente, no primeiro caso teremos uma comunicação mais eficaz embora tenha muitas dúvidas que adiante tentarei explicar. O conceito dá-nos o significado, pode explicar-nos o sentido, mas não nos dá o sentido. O conceito é-nos suscitado por algo que nos é exterior e a que chamamos realidade. O conceito permite-nos ver de forma rápida aquilo a que se refere. Uma língua que não tenha esse conceito não pensa do mesmo modo a realidade a que se refere.
Talvez por esta razão se possa dizer que uma vez feita a aquisição do conceito, também a língua possa contribuir mais eficazmente na apreensão da realidade. Mas há formas de comunicação não linguísticas que nos permitem a apreensão da mesma realidade, de modo eventualmente tão eficaz. Não questiono e até concordo que a língua tem um papel fundamental na construção do real. Mas, talvez muito mais que a língua, é a própria realidade que força a necessidade da sua interpretação. Ou seja, a língua não procura a construção da realidade mas é esta que suscita essa necessidade.
Todas as sociedades que chegaram aos nossos dias têm um passado, uma história, que de um modo ou de outro é contado. Por vezes muito mal contado. Mas a consciência do passado implica também a de um presente e de um futuro. As condições reais de vida e a “sobrevivência” poderão ditar uma presença mais forte ou mais fraca do tempo futuro. Uma sociedade que vive no e do perecível, onde os produtos financeiros e especulativos parecem ser tudo, implica que os “sobreviventes” tenham uma consciência mais forte da importância do tempo. Daí, a língua poder refletir com maior veemência esse mesmo tempo.

Joao Raposo disse...

(continuação)
Aqui a língua poderá ser não apenas a necessidade de encontrar explicação, mas também o elemento que, presente no pensamento reflexivo, medita sobre essa realidade e contribui para a interpretar e tomar decisões. Essas decisões refletem também o modo como foi apreendida a realidade.
A tomada de decisões implica uma certa história que tem a ver com a forma como vamos construindo o nosso conjunto de valores e como vamos estabelecendo a sua hierarquia. Aqui, mais que o significado, importa o sentido (o modo como sentimos os valores). Mesmo o significado não é algo que seja comum a todos. O outro texto sobre ética, escrito para aí já há uns vinte anos, tinha como objetivo iniciar a discussão nos cursos, a que eu sempre preferi chamar reflexões, sobre ética, que durante alguns anos organizei e dirigi. Eram “cursos” de trinta horas passadas a discutir/refletir sobre temas ligados à ética e moral. Nesse cursos, o início foi sempre escrever numa linha o conceito que cada um tinha sobre moral. Cada grupo tinha normalmente entre vinte e trinta participante. Pois muito, mesmo muito raramente, encontrava dois significados iguais. No entanto, ninguém se coíbe de falar sobre moral. A partir desta constatação iniciávamos a discussão.
Daí a pergunta, de que falamos quando falamos de ética. Poderemos fazer uma pergunta semelhante: de que realidade falamos quando falamos de realidade.
Mesmo utilizando os mesmos conceitos, a realidade será sempre diferente para quem a diz, porque o peso dos valores implicados na interpretação é diferente.
As palavras utilizadas para descrever a Revolução Industrial poderão ser as mesmas para um inglês, um brasileiro, um português ou um africano da Costa do Marfim. Mas o seu sentido será bastante diferente, tal como para os mesmos o sentido da escravatura será bastante diferente.
Parece-me que o modo como é sentida a realidade que aciona a língua é mais importante para a construção do real. No entanto não me parece que seja de desprezar a influência que a língua pode ter nessa construção. Não me parece é que no caso da presença mais ou menos forte do passado/futuro se sobreponha às condições em que a realidade nos aparece.

Este texto já vai longo e talvez pouco esclarecedor e claro, daí insistir novamente para que faça o favor de o considerar apenas como uma opinião. Espero, se for caso disso, conseguir mais tarde, esclarecer e fundamentar devidamente as objeções e afirmações aqui produzidas.
Cumprimentos
João M. Raposo


Vítor Santos Lindegaard disse...

Caro João Raposo, é a minha vez de pedir desculpa pelo atraso na resposta. Passo a comentar as suas observações:
1. A questão da relação entre linguagem e realidade só implicitamente se coloca nas teorias do relativismo linguístico e não a discuto aqui. A questão que se coloca na discussão do whorfianismo é a relação entre a língua (as formas linguísticas, não a linguagem) e a perceção da realidade.
2. Diz que “à medida que os grupos humanos crescem e a sociedade se vai formando e complexificando, também as formas de comunicar se vão complexificando, não só para nomear o que vai aparecendo mas para o comunicar com maior rigor”. Não tenho bem a certeza do que quer dizer com “formas de comunicar”, mas a sua referência a nomeação faz-me pensar que o léxico é uma das componentes dessa complexificação. Se é isso e se nos limitarmos às línguas naturais, que é o que aqui me interessa, não conheço evidência que suporte esse postulado.
3. Diz: “Uma língua que não tenha [um] conceito não pensa do mesmo modo a realidade.” Com os devidos ajustamentos, é precisamente essa, em última análise, a tese whorfiana, que identifica conceitos e formas linguísticas; mas é isso que, em grande medida, eu recuso, por falta de provas – ou porque há provas do contrário. Como disse, admito agora que o léxico armazenado possa influenciar tarefas percetivas específicas, mas não creio que isso esteja relacionado com a língua em sentido estrito, porque diferentes falantes da mesma língua têm léxicos muito diferentes. Como eu vejo a questão, um conceito é usado para pensar a realidade; as formas linguísticas para lexicalizar proposições – coisas muito diferentes. Por exemplo, para um conceito de (dito de forma simplificada) “ingerir sólidos para se alimentar”, posso selecionar qualquer item lexical que tenha armazenado (comer, eat, spise, bouffer, encher o bandulho, etc.), consoante o contexto dessa lexicalização. Diz que “o conceito dá-nos o significado”, mas penso que o conceito apenas encerra uma parte do significado – o resto do significado vem das relações obrigatórias (!) contruídas no discurso (tempo, espaço, pessoa, etc.). Um conceito em abstrato é pouco ou nada compreensível – imagine entrar numa sala e dizer “Comer”… Ninguém sabe o que quis dizer, por muito que todos tenham um conceito de “ingerir sólidos para se alimentar” semelhante ao seu e disponham da forma “comer” para o lexicalizar…
4. O sentido é uma questão extralinguística, que não quero tratar, por demasiado complexa – depende de relações pessoais, sociais, do estado do tempo... Como dizia alguém: com rigor, o sentido até da cor da camisa depende…
5. Também não discuto aqui, para não me dispersar, a questão do passado das sociedades, da consciência que estas têm dele e de como isso influencia as suas escolhas. Mas creio que a sua hipótese é que a realidade socioeconómica que, numa sociedade, leva a um maior sentido de poupança, tem uma implicação conceptual ao nível do tempo, que, por sua vez, leva à criação de formas linguísticas. Ora, inverter a relação causal só faz sentido se se constatar que há diferença no tratamento do tempo linguístico nas várias línguas, ou seja, se, como Östen Dahl propõe, houver formas fracas e fortes de lexicalização do futuro. E eu digo, precisamente, que não há prova de que o futuro seja linguisticamente mais marcado numas línguas que noutras. Tanto faz, pois, postular que as formas linguísticas determinam a perceção do tempo (e da poupança) como postular que a realidade leva à criação de certas formas linguísticas – não há mais nem menos futuro numas línguas que noutras… São bem vindos, claro está, observáveis que mostrem o contrário, mas veja: se fosse como diz, porque seriam as formas de futuro as mesmas no inglês dum operário da Inglaterra vitoriana e dum grande industrial australiano atual (e são!)? É este tipo de coisas que é necessário explicar.

Muitos cumprimentos,

Vítor