25 de novembro de 2013

Enxadas e pás [Crónicas de Svendborg #16]

É impossível encontrar uma enxada na Dinamarca. Não há mesmo em lado nenhum! Por acaso, tenho uma no quintal, que me emprestou um amigo meu, mas comprou-a… em Portugal.

Se cavam a terra à mão, os dinamarqueses usam estes dois instrumentos: a pá de cavar (spade) e o cultivador (kultivator).

Quer dizer, fui buscar um cognato para traduzir kultivator, mas não sei se é assim que se chama em português este pequeno arado manual, não lhe encontro o nome em lado nenhum. E é curioso, a página da Wikipédia em dinamarquês que refere o instrumento, corresponde sempre, em páginas noutras línguas, a motocultivadores. Notem que também não há página da Wikipédia em português que corresponda à de spade em dinamarquês e noutras línguas. Aliás, o português usa a mesma palavra para designar dois conjuntos de ferramentas com funções muitos distintas: esta, que serve para revolver a terra, e outra, que é um contentor e serve para tirar terra, areia, gravilha, lixo, etc. de um lugar para outro.

Uma questão interessante é: porque é que não há enxadas na Dinamarca? É claro, podia perguntar antes porque é que há enxadas em Portugal ou porque se usa tanto a enxada para cavar em Portugal, mas a verdade é que, se já tenho pouca resposta para a primeira pergunta, menos ainda tenho para a segunda, de maneira que, para já, me fico pela primeira.

Quando experimentei usar a enxada para cavar o quintal, e tive de a abandonar logo de seguida e voltar à pá, surgiu-me uma possibilidade de explicação: se calhar, a maioria dos solos é muito argilosa, como este aqui, e, quando assim é, a julgar pelo meu quintal, é muito mais fácil trabalhar com a pá de cavar. Mas eu não percebo nada de solos nem de ferramentas, de maneira que perguntei ao meu amigo Stefaan Dondeyne que é especialista de ciência dos solos, precisamente. E disse-me ele:
Isso dos solos e das enxadas é interessante... Não sei muito sobre os solos da Dinamarca, nem sobre os solos em Portugal, de facto; mas, pelo que vi na Noruega, muitos solos são depósitos relativamente recente de argilas marítimas – na verdade, quase todas as áreas a menos de 100 metros acima do nível do mar. Desde o fim da idade do gelo e do derretimento da calota glaciar, a Noruega – e com certeza também a Dinamarca – tem sofrido um levantamento isostático e muita terra que era submarina está agora ao ar livre. Esse tipo de argilas é de facto difícil de trabalhar. Em Portugal, os solos resultam de decomposição de materiais rochosos mais antigos (e, nos vales, também de depósitos aluviais e coluviais, claro), mas, assim, mesmo quando são argilosos, serão de outro tipo e mais fáceis de trabalhar. Que as enxadas não existam na Dinamarca, sim, pode ser por causa da natureza dos solos.
Pois, pode ser. Ou não, claro. Pode haver milhares de outras razões. A minha mulher, que também é agrónoma, embora não especialista em solos, sugeriu que a quantidade de pedras também pode ter influência na escolha da ferramenta. Talvez – ou talvez não…. Mas, bem veem, para mim, faz sempre sentido procurar no meio físico alguma eventual explicação para os fenómenos culturais.

Chama-se às vezes (neo)deterministas geográficos a pessoas com uma atitude semelhante à minha, mas a expressão desagrada-me, porque se presta a uma interpretação errada: não acredito que o meio físico determine a cultura, apenas que a influencie. Aliás, nem é preciso que tenha influência em toda a cultura em todas as épocas para ter uma grande influência, basta que influencie um pormenor cultural numa determinada época para isso, mais tarde, se traduzir numa grande leque de características culturais – e todo esse desenvolvimento, a cultura já pode fazê-lo sozinha, sem que ele derive diretamente do meio. Neste caso, parece-me plausível que as características do solo levem ao desenvolvimento de ferramentas com formas ligeiramente diferentes. Mas não digo que têm de ser só as características do solo a modelar os instrumentos para o cavar. Nem nego que, em certos casos, a influência do meio possa ser completamente apagada por fatores de outra ordem – culturais, em sentido lato.

5 comentários:

jj.amarante disse...

Esse seu kultivator parece-me chamar-se em português "ancinho", se experimentar no google images esta palavra, o resultado é esmagador. Fica só por explicar o uso dum diminutivo, deixo isso ao seu cuidado. E a sua interrogação sobre a enxada é muito interessante, viajando se aprende que temos enxadas.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Obrigado, j. j. amarante. É bem possível que seja esse o nome em português. Se assim for, temos o mesmo problema da pá: a palavra ancinho designa duas ferramentas muito diferentes: aquilo que eu sempre conheci como ancinho e este arado manual. Agora, nas imagens de ancinhos, além de ancinhos propriamente ditos, só vejo alguns, poucos, destes kultivator, mas todos de cabo curto, presumo que para jardinagem, não encontro nenhum como este que aqui mostro, para porções maiores de terra. Acho que a minha imagem não mostra bem os bicos da ferramenta, vou tirar outra fotografia. A questão é que, com solos como este aqui, quando se vira a terra com a pá de cavar, fica um grande bocado inteiro e usa-se então esse "ancinho" para rasgar esses torrões. Quer dizer, há quem deixe apenas o frio fazer esse trabalho, porque as temperaturas negativas desfazem um bocado o solo, mas fica melhor se se passar com esse tipo de arado manual.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Deixo aqui um link para uma imagem mais clara de um kultivator, porque acho que a nova foto continua a não mostrar bem como é.

jj.amarante disse...

Uau, não me apercebi da complexidade da forma, essa imagem do kultivator do galax.dk faz juz ao perfeccionismo dinamarquês.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Como morreu a ligação para a imagem do meu comentário anterior, ponho aqui outra imagem de um kultivator.