12 de setembro de 2008

O diário marciano (mais um texto demasiado comprido)

Um ideal muito antigo é o da língua que diga melhor o mundo e a alma do que as línguas que de facto existem. A ideia é utópica no sentido primeiro da palavra, uma vez que está de facto presente em várias utopias, a começar, aliás, pela de Thomas More, que inaugura o género. Nos relatos de viagens imaginários em que um viajante europeu encontra uma sociedade ideal, essa sociedade tem muitas vezes, além de uma organização social melhor do que a dos países conhecidos, também uma língua mais perfeita do que as línguas conhecidas.

Se o texto de Thomas More apenas nos diz da língua da ilha de Utopia que é uma “língua rica, harmoniosa, que é fiel intérprete do pensamento”, já Gabriel de Foigny, outro utopista, faz uma descrição bem mais detalhada, em La Terre australe connue, da língua falada pelos povos Hermafroditas que habitam essa Terra Austral. É uma língua que tem, entre outras, a particularidade interessantíssima de fazer corresponder a cada unidade fonológica uma unidade semântica. Assim, as vogais referem as coisas que não têm nenhum composição” (“o primeiro e o mais nobre [elemento] é o fogo que eles exprimem por a; o seguinte é o ar significado por e; o terceiro, o sal, explicado por o; o quarto, a água, a que chamam i; o quinto, a terra, que designam u”) e, das 36 consoantes, 18 ou 19 das quais não podem ser explicadas pelas consoantes europeias, cada uma significa “uma qualidade que convém às coisas significadas pelas vogais. Assim, b indica claro; ç, quente; d, desagradável; f, seco, etc.” Desta maneira, “eles formam tão perfeitamente os seus nomes que, ao ouvi-los, se concebe imediatamente a explicação e a definição do que estes designam. (...) Chamam às estrelas “aeb”, palavra que explica a sua composição de fogo e água e claridade; chamam ao sol “aab”; às aves, “oef”, marca da sua solidez e da sua matéria aérea e seca. Ao homem, chamam “uel”, que significa a sua substância em parte aérea e em parte terrestre, acompanhada de humidade. (...) A vantagem desta maneira de falar é que uma pessoa se torna filósofa ao aprender as primeiras palavras que pronuncia e que não se pode nomear coisa nenhuma neste país sem explicar ao mesmo tempo a sua natureza; o que parecerá milagroso a quem não conheça o segredo do seu alfabeto e da composição das suas palavras. (...) Quando se ensina uma criança, explica-se-lhe o significado de todos os elementos e, quando ela os junta, aprende ao mesmo tempo a essência e a natureza de todas as coisas que diz”.

Uma descrição mais exaustiva ainda é a que faz Denis Vairasse d’Allais, na sua Histoire des Sévarambes, da língua desse povo imaginado. Trata-se de um idioma de que se destaca a adequação fonética “à natureza das coisas que querem exprimir”. De facto, os Sevarambos têm dez vogais e trinta consoantes distintas (...) e cada um [desses sons sons] tem o seu carácter particular. Uns têm um tom de gravidade; outros são suaves e graciosos. Alguns servem para exprimir as coisas baixas e desprezíveis, e outros, as grandes e distintas (...). [Os Sevarambos] estudaram muito a natureza das coisas que tentam exprimir através de sons conformes, nunca se servindo de sílabas longas e duras para exprimir coisas doces e miúdas, nem de sílabas pequenas e delicadas para representar coisas grandes, fortes ou rudes, como faz a maior parte das outras nações. Outro pormenor interessante da língua dos Sevarambos é o facto de ter uma grande quantidade de advérbios de tempo, de lugar, de modo e várias preposições (mais de cem, “que contêm mais sentido numa palavra do que nós conseguimos exprimir numa linha inteira”) que, juntando-se aos nomes e aos verbos, exprimem maravilhosamente bem as suas diferenças e propriedades”.

Uma forma lógica de construir as palavras a partir de partículas básicas com significados essenciais e uma adequação perfeita do som da palavra ao que designa. Eis duas vertentes fundamentais das línguas perfeitas, na utopia ou fora dela. Dou agora a palavra a um viajante de outras expedições imaginárias em geografias ainda mais fantásticas do que mares distantes. O texto que se segue é de Cyrano de Bergerac e é extraído de Les Etats et Empires du Soleil. O homem de que ele fala é um habitante de um satélite que o narrador encontra na sua viagem para o Sol:
Encontrei um homenzinho todo nu a descansar [que] discursou durante três boas horas numa língua que estou certo de nunca ter ouvido antes, e que não tem nenhuma relação com nenhuma língua deste mundo, a qual todavia compreendi mais depressa e mais inteligivelmente que aquela que falava a minha ama. O homem explicou-me, quando o inquiri sobre algo tão maravilhoso, que nas ciências havia uma verdade, fora da qual estamos sempre longe da facilidade; que quanto mais um idioma se afasta dessa verdade, mais ele lhe descobria além da concepção e de menos fácil inteligência.
“Da mesma forma”, continuou ele, “na música não se encontra essa verdade sem que a alma imediatamente empolgada não se dirija cegamente para ela. Não vemos essa verdade, mas sentimos que a natureza a vê; e sem conseguir compreender de que maneira somos por ela absorvidos, ela não deixa de nos encantar, e se nos cruzássemos com ela, não notaríamos que ali estava. Também com as línguas se passa o mesmo. Quem encontra essa verdade de letras, de palavras, e de sequência, não pode, ao exprimir-se, ficar aquém do que concebe: fala sempre conforme o seu pensamento; e é por não ter o conhecimento desse idioma perfeito que não chegais aonde quereis, por não conhecer nem a ordem nem as palavras que consigam explicar o que imaginais”. Disse-lhe que o primeiro homem do nosso mundo se tinha indubitavelmente servido dessa língua matriz, porque cada nome que ele tinha dado a cada coisa exprimia a sua essência. Ele interrompeu-me e continuou: “Ela não é apenas necessária para exprimir tudo o que o espírito concebe, mas sem ela não se pode ser entendido por todos. Como este idioma é o instinto ou a voz da natureza, deve ser inteligível a tudo o que vive sob a domínio da natureza (...)”.
O texto resume de uma forma admirável o mito da língua matriz, para usar a expressão de Cyrano de Bergerac, que me parece extremamente feliz e cheia de significado. A língua matriz é aquela que, decorrendo directamente da verdade, e, por isso, com carácter universal, diz fielmente, por um lado, o pensamento, por outro lado, o mundo. O mundo e a língua coincidem porque as coisas foram nomeadas de acordo com a sua essência.

Três séculos mais tarde, George Orwell, que a maior parte de nós considera um materialista duro, acredita ainda nesse ingénuo cratilismo, se bem que com um carácter menos universal. Segundo ele, a literatura só é necessária porque as palavras das línguas existentes se afastaram das suas formas “naturais”:
Parece-me provável que uma palavra, mesmo uma palavra que ainda não exista, tenha, digamos assim, uma forma natural – ou antes, várias formas naturais em várias línguas. Se as línguas fossem verdadeiramente expressivas, não haveria necessidade de jogar com os sons de palavras como fazemos, mas suponho que deve haver sempre alguma correlação entre o som de uma palavra e o seu significado.
George Orwell acredita também que, com rigor e racionalidade, é possível construir palavras novas que digam melhor as coisas:
A solução que sugiro é inventar novas palavras tão deliberadamente como se inventássemos novas peças para um motor de automóvel. Suponham que existia um vocabulário que pudesse exprimir com rigor a vida mental, ou uma grande parte dela. Suponham que não tinha de haver nenhum paralisante sentimento de que a vida é inexprimível, nem artimanhas com truques artísticos; e que exprimir o que se quer dizer era simplesmente uma questão de seleccionar as palavras adequadas e pô-las nos seu lugar – como resolver uma equação em álgebra. Creio que as vantagens seriam óbvias. (…)
Agora, os meios. Observa-se um exemplo da invenção bem sucedida de palavras, por muito que crua e em pequena escala, entre os membros de famílias extensas. Todas as famílias grandes têm duas ou três palavras que lhes são próprias – palavras que eles inventaram e que transmitem significados tornados mais subtis e que não se encontram nos dicionários. Dizem “O Sr. Ferreira é um homem muito —”, usando alguma palavra de fabrico caseiro, e os outros compreendem perfeitamente. Aqui, portanto, no seio da família, existe um adjectivo que preenche uma das muitas lacunas que o dicionário não preenche. O que permite à família inventar estas palavras é a base da sua experiência partilhada. Sem experiência comum, é claro que nenhuma palavra pode significar seja o que for. Se me perguntarem “A que cheira a bergamota?”, eu digo “Tem um cheiro parecido com o da verbena”. E quem conheça o cheiro da verbena está em condições de me compreender aproximadamente. O método de inventar palavras, portanto, é o método da analogia baseada num conhecimento comum inequívoco; uma pessoa tem de ter padrões a que se possa referir sem possibilidade de ser mal entendido, da mesma maneira que se pode referir a algo físico como o cheiro da verbena. Com efeito, este método deve reduzir-se a dar às palavras uma existência física (provavelmente visível). Falar meramente de definições é fútil; isso pode observar-se sempre que se tenta definir uma das palavras usadas pelos críticos literários (por exemplo, sentimental, ordinário, mórbido, etc.). Todas palavras sem significado – ou antes, com um significado diferente para cada pessoa que as usa. O que é necessário é mostrar o significado de alguma forma inequívoca, e depois, quando várias pessoas o tiverem identificado na sua própria mente e reconhecido como digno de ser nomeado, dar-lhe um nome. A questão é simplesmente arranjar uma maneira de dar ao pensamento uma existência objectiva.
Adianto, para quem tenha lido ou venha a ler na íntegra o texto de Orwell, que, à proposta de formar um clube para inventar melhores palavras, coloco versões um pouco modificadas das objecções que ele prevê que lhe coloquem – e outras! O próprio Orwell reconhece, aliás, no fim do texto, que “há pontos fracos no [seu] argumento” e que “muito [do que escreveu] é lugar comum”. Além de que, por falta de exemplos concretos ou de uma descrição mais detalhada do processo proposto, se fica (eu fico, pelo menos…) sem saber aonde é que, ao certo, ao certo, ele queria chegar…

Não tenho nada, porém, contra irem-se inventando propositadamente palavras, seja para dizer melhor as coisas, seja apenas para as dizer, enfim, de outra maneira, ou seja até para as dizer, ao contrário do que Orwell deseja, de uma forma menos rigorosa, mais difusa, mais esbatida… Até porque isso acontece de facto todos os dias... Mas mais comentários não quero fazer agora nem à proposta de Orwell nem às outras utopias linguísticas referidas. A intenção deste texto é, digamos assim, mais delirante: imagino antes as notas sobre as línguas humanas de um marciano que nos tivesse andado a estudar:
Os humanos usam para comunicar entre eles, para elaborar certos raciocínios ou certas partes de raciocínios, para exprimir estados fisiológicos, para seduzir os parceiros sexuais e para mais uns quantos fins uma linguagem que, se bem que rudimentar, é algo mais complexa do que a dos outros animais. Tal como a nossa linguagem, a linguagem dos humanos é sobretudo utilizada oralmente, embora hoje a sua expressão através de sinais visuais comece a competir seriamente com a sua expressão através de sinais sonoros. (…)
Também como a nossa linguagem, a dos humanos é constituída por um léxico armazenado na memória e que é tratado por mecanismos computacionais em parte inatos (e utilizados também para várias finalidades que não processar unidades linguísticas) e em parte aprendidos, sobretudo antes da idade adulta. O que é surpreendente é a pobreza do léxico humano. Não consegui apurar as razões exactas dessa pobreza. Talvez o cérebro humano não consiga processar quantidades de informação linguística muito maiores do que aquelas que de facto processa. Ou talvez a escassez de léxico seja antes derivada de limitações ao nível sensório-cognitivo e não directamente da incapacidade de armazenar e processar o léxico. O certo é que faltam aos humanos conceitos tão simples como o de veof, de zvenl ou de cvirc. Mais estranho ainda: por muito que tenham uma palavra para o conceito de desidratado e possam exprimir com poucas unidades lexicais a ideia de “de tipo nórdico” e “funcionário/a dos correios”, não têm a palavra qliht…”
Imagino também as notas do tradutor do diário para português (por exemplo, uma rapariga da Foz do Arelho que tivesse vivido e estudado 10 anos em Marte…):
É completamente impossível traduzir para português – ou para qualquer outra língua terrestre – uma grande parte das palavras marcianas, em que se aglomeram sentidos que nós nunca juntamos num vocábulo só. O conceito de veof pode explicar-se como “alguém que se esquece sempre de lavar os dentes de manhã ao fim de semana e que, também durante o fim-de-semana, nunca anda de bicicleta nem come alimentos enlatados. [Você é veof, caro(a) leitor/a?] Zvenl usa-se normalmente para qualificar uma planta e significa qualquer coisa como “que é rara ou a única da sua espécie na região onde se encontra e sobre cujo nome muitas pessoas que olham para ela, notando que ela não lhes é familiar, se interrogam, sem no entanto se darem ao trabalho de o irem realmente pesquisar. [Tem alguma planta zvenl perto da sua casa?] A palavra cvirc define um estado de espírito de animais que se pode explicar como“zangado/a por ser recusado/a ou ignorado/a pelo ser do sexo oposto que tenta seduzir, mas nem por isso suficientemente despeitado/a para abandonar a tentativa de sedução, continuando, portanto, a tentar a sua sorte”. [Não sabem exactamente de que se está aqui a falar?] Quanto à palavra qliht, ela significa exactamente, como devem ter adivinhado,“funcionário/a dos correios, de pele, olhos e cabelos claros, obviamente desidratado/a”.
Isto a propósito de palavras de significado mais rigoroso do que as nossas. Não sei se vale a pena inventar uma palavra que corresponda ao marciano qliht, que eu duvido que se venha a usar muito, mas é capaz de parecer, assim à primeira vista, que convém inventar pelo menos uma nova palavra para designar a bergamota, porque bergamota designa duas plantas muito diferentes, um citrino e uma erva, e é uma confusão: qual delas é que cheira a verbena? Só que, de facto, o nome científico de ambas já está há muito tempo inventado… Afinal de contas, isto de não ser rigoroso a nomear as coisas não é bem uma questão de falta de palavras – em vez de dizer que “o céu estava muito azul”, que é muito vago, quem quiser ser rigoroso pode dizer, por exemplo, que “o céu estava 0, 230, 255 RGB”, não é?, e assim já não há dúvidas sobre a cor exacta do céu. Só que Orwell, estou eu em crer, nunca aprovaria esse tipo de rigor.

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