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13 de maio de 2015

Passar de é a deve ser

Pode ser que uma parte de valores e comportamentos sociais que temos tendência a considerar essencialmente culturais tenha origem em estruturas primitivas inatas, em lugares fundo das pessoas. Pode ser ou pode não ser, as discussões sobre o tema estão muito longe de ser conclusivas. E isto aplica-se tanto às atitudes que louvamos (a solidariedade, por exemplo) como às que criticamos (por exemplo, a discriminação). Talvez algumas das discriminações tenham até origem nos mecanismos que fundam também a solidariedade. O reconhecimento de parentesco, por exemplo, se de facto existir, é um mecanismo egoísta para os nossos genes se protegerem a si próprios em que pode assentar originalmente a criação de círculos de identidade e pertença («sou deste grupo»), que resulta forçosamente no reconhecimento simples da diferença («X não é deste grupo») que modela a discriminação. Tor Nørretranders (de quem já aqui falei) explora muito a noção de egoísmo como base do altruísmo e defende que é a vontade de se valorizar para seduzir os outros que nos leva a fazer coisas por eles, para eles. Pode dizer-se que, nesta perspetiva, há uma profunda relação entre dois sentidos comuns da expressão ser bom: «ser capaz, habilidoso, competente» e «ser bondoso».

Tirando a elegante formulação da questão que proponho na frase anterior, acabadinha de descobrir, não disse ainda, neste texto, nada que não tenha já dito noutros textos deste blogue. Não é, porém, para apresentar a minha descoberta retórica que escrevo, mas para sublinhar que, mesmo que acreditemos que estão assim fundamente ancorados em nós, que são tão naturais como inevitáveis, os vários mecanismos que fundam provavelmente todas as morais, não devemos perder de vista que esses mecanismos são moralmente contraditórios e nem por obsessão de realismo, portanto, a discussão ética se pode centrar na constatação do que é, do como somos – a constatação duma pretensa natureza humana. É que do que é, mesmo havendo sobre ele um consenso que atualmente não há, não pode fazer derivar-se direta e univocamente um deve ser – mas antes muitos, muitos!...

19 de outubro de 2013

Terra roubada ao mar

No romance As duas baronesas (1848), escreve H. C. Andersen (traduzo eu):
Compreendo alemão”, gritou a pequena Elisabeth, quando, na paragem seguinte da carruagem, ouviu as crianças falarem. “Compreendo as palavras quase todas”. E compreendia mesmo, pois era dinamarquês que ouvia. Aqui, em toda a faixa que vai de Flensburgo ao Mar do Norte, alternam alemão, dinamarquês e frísio. As três línguas entrelaçam-se umas nas outras. O frísio domina nas terras alagadiças da costa, onde vivem os frísios, esse povo antiquíssimo, já referido por Heródoto e Xenofonte como originário da Pérsia.
Nem Heródoto nem Xenofonte podem ter falado de frísios, porque são ambos muito anteriores às primeiras referências a este povo, e H. C. Andersen está muito provavelmente a confundir os frísios com outro povo qualquer. A ideia de que os frísios sejam originários da Pérsia é também muito estranha… Quanto ao resto, a descrição é correta e as coisas não mudaram muito deste meados do século XIX – frísio, alemão e dinamarquês ainda coexistem na zona, além do baixo-alemão que certamente também ali existia já no tempo de H. C. Andersen.

A cultura das terras baixas, que começa imediatamente a norte da fronteira entre a Dinamarca e a Alemanha e, a sul, se prolonga até à Bélgica, é uma cultura fascinante. Nas fotos abaixo, tiradas na ilha dinamarquesa de Mandø, não se percebe bem onde acaba a terra e começa o mar e isso parece-me, justamente, uma boa imagem dessa cultura: uma cultura onde são vagos e/ou volúveis os limites entre terra e mar.


Roubar terra ao mar é tarefa árdua e lenta. Construir, durante séculos a fio, diques e canais, montar filas de estacas que retenham a areia. Não sei o que ganhou diretamente cada um dos construtores destas terras, mas não me surpreenderia que fosse tarefa maior que o seu interesse direto. Por causa da terra roubada ao mar, pus-me a pensar em tantos esforços de que não se esperam resultados a curto prazo – ou de que quem os faz não espera, muitas vezes, ver resultados em vida. É certo que, do trabalho que se faz para os outros todos, algum proveito nos vem, sob a forma de consideração, de prestígio – e, portanto, de poder. Mas vai dar ao mesmo: se me disserem que as pessoas são naturalmente egoístas, falo-vos do impulso que todos temos de valorizar quem faz coisas que não são apenas para si, mas também para outros que, às vezes, não sabe quem são, quem serão.