Compreendo alemão”, gritou a pequena Elisabeth, quando, na paragem seguinte da carruagem, ouviu as crianças falarem. “Compreendo as palavras quase todas”. E compreendia mesmo, pois era dinamarquês que ouvia. Aqui, em toda a faixa que vai de Flensburgo ao Mar do Norte, alternam alemão, dinamarquês e frísio. As três línguas entrelaçam-se umas nas outras. O frísio domina nas terras alagadiças da costa, onde vivem os frísios, esse povo antiquíssimo, já referido por Heródoto e Xenofonte como originário da Pérsia.Nem Heródoto nem Xenofonte podem ter falado de frísios, porque são ambos muito anteriores às primeiras referências a este povo, e H. C. Andersen está muito provavelmente a confundir os frísios com outro povo qualquer. A ideia de que os frísios sejam originários da Pérsia é também muito estranha… Quanto ao resto, a descrição é correta e as coisas não mudaram muito deste meados do século XIX – frísio, alemão e dinamarquês ainda coexistem na zona, além do baixo-alemão que certamente também ali existia já no tempo de H. C. Andersen.
A cultura das terras baixas, que começa imediatamente a norte da fronteira entre a Dinamarca e a Alemanha e, a sul, se prolonga até à Bélgica, é uma cultura fascinante. Nas fotos abaixo, tiradas na ilha dinamarquesa de Mandø, não se percebe bem onde acaba a terra e começa o mar e isso parece-me, justamente, uma boa imagem dessa cultura: uma cultura onde são vagos e/ou volúveis os limites entre terra e mar.
Roubar terra ao mar é tarefa árdua e lenta. Construir, durante séculos a fio, diques e canais, montar filas de estacas que retenham a areia. Não sei o que ganhou diretamente cada um dos construtores destas terras, mas não me surpreenderia que fosse tarefa maior que o seu interesse direto. Por causa da terra roubada ao mar, pus-me a pensar em tantos esforços de que não se esperam resultados a curto prazo – ou de que quem os faz não espera, muitas vezes, ver resultados em vida. É certo que, do trabalho que se faz para os outros todos, algum proveito nos vem, sob a forma de consideração, de prestígio – e, portanto, de poder. Mas vai dar ao mesmo: se me disserem que as pessoas são naturalmente egoístas, falo-vos do impulso que todos temos de valorizar quem faz coisas que não são apenas para si, mas também para outros que, às vezes, não sabe quem são, quem serão.