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23/08/26

Canções sobre músicos #2 / Canções que referem outras canções #14


Conheço dois casos curiosos em que um/a artista da canção popular refere outro(a) artista numa canção e esse(a) artista responde com uma canção em que refere a/o primeiro(a).

Em 1959, Neil Sedaka teve um grande êxito com «Oh! Carol», que escreveu a meias com Howard Greenfield. A letra da canção pode resumir-se à primeira estrofe cantada, que é depois declamada: 

Oh! Carol, que parvo sou. Querida, amo-te, apesar de me tratares com crueldade. Fazes-me sofrer e chorar, mas, se me deixares, de certeza que morro. 

Uma letra típica da pop da época para o mercado de adolescentes.

Neil Sedaka: «Oh! Carol», 1959

Carole King tinha sido namorada de Sedaka no liceu e era ela a Carol da canção. Ou, pelo menos, achou que devia ser. E então gravou no mesmo ano uma versão da canção de Sedaka chamada «Oh, Neil», com uma letra escrita pelo seu marido Gerry Goffin. A letra galhofeira fazia da canção, mais do que apenas uma versão do êxito de Sedaka, uma novelty song. Uma tradução livre em prosa:

Oh, Neil, há tanto que te amo, nunca imaginei que me pusesses numa canção. Sou eu a Carole e moro no Tennessee. Nunca esperei que te lembrasses de mim. Quando te vi no baile, meu querido, deu-me um baque, senti um aperto no peito, como se tivesse comido demais. ... Oh! Neil, era capaz de não tocar em tabaco de mascar um mês inteiro, só para ser conhecida como Sra. Neil Sedaky. O meu avô não gosta dos teus discos. Disse-me que, se eu os pusesse a tocar, morria de certeza. Cuidado! Lá vem ela com a espingarda! Não há nada a fazer. Oh! Neil, de certeza que vou morrer por ti.

Não faço ideia de como Sedaka reagiu à brincadeira. O que sei é que «Oh, Neil» nunca teve o sucesso de «Oh! Carol»...

Carole King: «Oh, Neil», 1959

A canção de Sedaka não é muito (ou absolutamente nada…) o meu estilo de música, passemos a duas canções que me agradam mais em que há a mesma nomeação de um músico e a resposta deste, nomeando a cantora da primeira canção. 

Em 1967, Blossom Dearie gravou uma canção dedicada a Georgie Fame, chamada «Sweet Georgie Fame», com música sua e letra de Sandra Harris. Georgie Fame e os seus Blue Flames eram uma das mais conceituadas bandas inglesas da primeira metade dos anos 60, que faziam uma mistura de blues, Jazz, R&B e pop, e Blossom Dearie viu-os em Londres em 1966 e, diz ela, gostou muito. Depois, de visita a casa de uma amiga, viu os filhos da amiga a dançar ao som da música de Georgie Fame e teve uma ideia para uma melodia — para a qual a irmã dessa amiga escreveu a letra, um elogio simples da música de Fame. 

Blossom Dearie. «Sweet Georgie Fame», 1967

Words and music are all that I need,
I will follow wherever they lead
and I'm finding more fun in the game,
a darling boy
has brought me joy, 
sweet Georgie Fame.

Oh, I heard him one night quite by chance,
now wherever I'm walking, I dance
and London is not quite the same,
'cause when he sings, 
the city swings, 
sweet Georgie Fame.

London Bridge is falling down,
pop songs I hear with suspicion,
But now at last I'm glad to meet
a sweet lovin' real good musician

Oh, from Broadway to Festival Hall,
I have listened and I've heard them all
and they say I'm a real swinging dame,
yet I'm impressed, 
my ears are blessed 
with Georgie Fame.

So stay a while,
you'll see 'em smile,
you won't complain.
His hands and feet
make music sweet, 
you'll miss your train.
My goose is cooked, 
l'm gettin' hooked 
on Georgie Fame!

Georgie Fame demorou dois anos a responder à declaração de Blossom Dearie, se se pode dizer assim. Fê-lo com música sua e letra de Jeff Alexander Ryan. Acho graça à maneira como a rima em -ings de «'cause when he sings, the city swings» da canção de Dearie é aumentada para «and everybody swings to all the things she sings» na canção-resposta de Fame.  

Georgie Fame: «Blossom», 1969

When she sits down, her piano
gives her a warm welcoming smile,
and when she begins playing them chords,
singing her songs, everyone listens.
Blossom fills the air with a rare perfume
and everybody swings to all the things she sings.
Changing her mood, she can be sad,
making her blues lonely and lost
in a midnight of nowhere
and everyone starts feeling the same

She looks small when the spotlights hit her,
she sings tall and we're all getting bigger,
soon the room seems to shrink and shiver,
soon the moon will be here having dinner.

Thirty two bars never could say
everything I wanted to;
that is why songs of love 'ought to be longer,
especially for people like Blossom,
far longer, yes, much longer than this.


14/08/26

Canções sobre músicos #1: Bob Dylan

Para muitas e muitos artistas, é importante situar-se e situar a sua arte num movimento, numa tradição, numa linhagem, etc. Na canção, uma maneira interessante de deixar clara uma filiação estética é dedicar canções aos seus ídolos. E este é o primeiro de uma nova série de breves apontamentos sobre esse tema: canções sobre músicos.

Começo com Bob Dylan. Sendo Bob Dylan uma fonte tão grande de inspiração para tantos compositores de canções, sobretudo nos anos 60 e 70, é natural que haja, como de facto há, várias canções que lhe são dedicadas. Eis duas delas, por dois músicos importantes da música popular da segunda metade do séc. XX.

 ***

Em 1965, Syd Barrett escreveu «Bob Dylan Blues», que viria a gravar em 1970 e que só foi publicado em 2001. Segundo Robert Chapman na sua biografia de Syd Barrett (Syd Barrett: a very irregular head, London: Faber & Faber, 2010), este escreveu o seguinte numa carta à sua namorada (traduzo eu todas as citações): 

Escrevi uma canção sobre Bob Dylan. Pois, pois. Alma. Deus, etc. Começa assim: «Tenho a tristeza de Bob Dylan e os sapatos de Bob Dylan, e tenho o cabelo e a roupa num completo desalinho, mas estou-me bem nas tintas»: Na verdade, é um bocado satírico e humorístico.

E comenta Chapman: 

Para além da pura alegria infantil de fazer rimar «I'm a poet» com «don't you know it», «Bob Dylan Blues» é uma canção irónica e perspicaz, que brinca com o fenómeno Dylan e com a armadilha que a fama é.

A letra da canção faz alusão a várias canções de Dylan, a saber, «Blowin’ in the Wind», «Girl of the North Country», «Down the Highway», «Masters of War», «Bob Dylan’s Blues», «A Hard Rain’s Gonna Fall» e «Bob Dylan’s Dream», todos elas do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan, lançado no Reino Unido na primavera de 1964.

Mais diretamente — mas Chapman parece não se dar conta disso — a canção faz referência a «I Shall Be Free No. 10», do mesmo álbum. Além da rima de poet com know it e blow it, Barrett recupera da canção de Dylan também o tom sarcástico. É um talking blues bastante surrealista, que tem passagens como: 

Bem, sou liberal, mas até certo ponto. Quero que toda a gente seja livre, mas se pensas que vou deixar o Barry Goldwater [o candidato presidencial republicano em 1964] mudar-se para a casa ao lado e casar com a minha filha, deves pensar que sou louco! Não deixava, nem que me oferecessem as quintas todas de Cuba. […]

Pediram-me para ler um poema numa associação de estudantes universitárias. Apanhei uma grande moca e fiquei com a cabeça a andar à roda. No fim, tive de levar com a diretora da associação. Iúpi! Sou poeta e sei que sou. Espero não estragar tudo. […]

E para quê ser sarcástico com Dylan, pode uma pessoa perguntar-se, quando Dylan era o primeiro a ser sarcástico consigo próprio?

    

Got the Bob Dylan blues
And the Bob Dylan shoes
And my clothes and my hair's in a mess
But you know I just couldn't care less
Goin' to write me a song
'Bout what's right and what's wrong
'Bout god and my girl and all that
Quiet while I make like a cat
Cause I'm a poet, don't ya know it
And the wind, you can blow it
Cause I'm Mr. Dylan, the king
And I'm free as a bird on the wing
Roam from town to town
Guess I get people down
But I don't care too much about that
Cause my gut and my wallet are fat
Make a whole lotta dough
But I deserve it though
I've got soul and a good heart of gold
So I'll sing about war in the cold
Cause I'm a poet, don't ya know it
And the wind, you can blow it
Cause I'm Mr. Dylan, the king
And I'm free as a bird on the wing
Well I sing about dreams
And I rhymes it with «seems»
Cause it seems that my dream always means
That I can prophesy all kinds of things
Well the guy that digs me
Should try hard to see
That he buys all my discs and a hat
And when I'm in town, go see that

***

Em 1971, David Bowie também escreveu uma “Song for Bob Dylan”, em que se dirige diretamente a Dylan tratando-o pelo seu nome de batismo, Robert Zimmerman, e deixando claro logo de início que a canção lhe é dedicada mas não é sobre ele, Zimmerman, mas sim «sobre um rapaz estranho chamado Dylan, com uma voz que era como areia e cola» e com palavras que «agarravam as pessoas à terra», que «convenceram alguns» e «assustaram muitos mais».  

David Bowie incita claramente Robert Zimmerman a reativar a sua personagem Bob Dylan, que estava meio adormecida naquela altura, para voltar a ser o líder incontestado da música moderna, como o fora na primeira parte da década anterior. Diz Bowie em 1976, numa entrevista ao Melody Maker, que, por muito que «Song For Bob Dylan», «não fosse uma das [canções] mais importantes do álbum, definia o que [ele] queria fazer no rock»: 

Foi nesse período que eu disse «OK, Dylan, se não queres fazer isso, faço eu». Vi essa falta de um líder. 

Estranhíssimas declarações, não acham?

Oh, hear this Robert Zimmerman
I wrote a song for you
About a strange young man called Dylan
With a voice like sand and glue
Some words had truthful vengeance
That could pin us to the floor
Brought a few more people on
And put the fear in a whole lot more
[Refrão]
Ah, here she comes
Here she comes, here she comes again
The same old painted lady
From the brow of the superbrain
She'll scratch this world to pieces
As she comes on like a friend
Couple of songs from your old scrapbook
Could send her home again
Gave your heart to every bedsit room,
At least a picture on my wall
And you sat behind a million pair of eyes
And told them how they saw
Then we lost your train of thought
Your paintings are all your own
While troubles are rising, we'd rather be scared
Together than alone
[Refrão]
Now hear this, Robert Zimmerman
Though I don't suppose we'll meet
Ask your good friend Dylan
If he'd gaze a while down the old street
Tell him we've lost his poems
So we're writing on the walls
Give us back our unity
Give us back our family
You're every nation's refugee
Don't leave us with their sanity
[Refrão]