Mostrar mensagens com a etiqueta A.-P. Taguieff. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta A.-P. Taguieff. Mostrar todas as mensagens

09/08/11

Algumas notas sobre conservadorismo

George Orwell escreveu uma vez sobre Rudyard Kipling: «Embora não estivesse diretamente ligado a nenhum partido político, Kipling era um Conservador, uma coisa que não existe hoje em dia». O texto que cito é de fevereiro de 1942, e é isto que acho interessante: Segundo Orwell, já não havia conservadores naquela altura.

É bem possível que já não houvesse muitos, como hoje, muito provavelmente (isto são tudo impressões apenas, de Orwell e minhas…), também não há muitos. Pelo menos, nos programas políticos e no discurso político. Conservador é alguém que quer conservar as coisas como elas estão e, mesmo nos partidos que se dizem conservadores, estou convencido que não há muita gente assim. Encontro com muito mais frequência conservadorismo na conversa de autocarro ou de café do que no discurso político, que propõe quase sempre alterações – nem que seja, como diz o conhecido aforismo, para no fundo tudo continuar exatamente na mesma…
***
Muitas vezes me lembro da frase célebre de Paul Valéry Le monde ne vaut que par les extrêmes et ne dure que par les moyens Il ne vaut que par les ultras et ne dure que par les modérés[1], “O mundo só vale pelos extremos e só dura pelos médios. Só vale pelos radicais e só dura pelos moderados”. E muitas vezes a reinterpreto substituindo moderados por conservadores, dando a estes últimos um papel afinal importante na História do mundo: ser um dos pólos da sua tensão, resistir às mudanças. Acho até que, de alguma forma, toda a gente acaba por ser conservadora nalguma coisa, de se acomodar no conforto do que já é, do que não precisa de ser inventado e construído. Mas, no geral, surpreende-me a posição conservadora: ser conservador só faz sentido num mundo que se considera suficientemente bom para não se o querer alterar – e não é nada assim que eu considero o mundo em que vivo.
***
Se se associa normalmente conservadorismo à direita, a verdade é que o conservadorismo não tem de ser, nem é de facto, exclusivamente de direita. Não só há gente de esquerda conservadora, como há até módulos conservadores em certas ideias de esquerda, nomeadamente no que toca ao respeito de tradições e identidades, e também à preservação da natureza [2]. Pierre-André Taguieff, por exemplo, propõe um conservadorismo de esquerda: «Perante o imperativo único de “andar para a frente” (reforma perpétua e revolução interminável”, a resistência tem de apoiar‑se num projeto de conservação ou de preservação», diz ele em Résister au bougisme[3]. «Se o termo “conservadorismo” não se tivesse tornado difícil de usar devido à acumulação de maus usos que dele foram feitos (…), poderia desempenhar o papel de indicador, e até mesmo de bandeira, da nova postura “resistencial”. Porque, na conjuntura atual, é apenas com base em exigências conservadoras que pode redefinir‑se a resistência à desumanização técnico‑mercantil do mundo.» E cita, a propósito, o «filósofo e militante antinuclear» Günther Anders («Sou um “conservador” em questões de ontologia, porque o que me importa hoje, pela primeira vez, é conservar o mundo tal como ele é.»), o filósofo Jean-Claude Michéa (“um certo grau de conservadorismo crítico constitui agora um dos alicerces indispensáveis de toda a crítica radical da modernidade capitalista”. ) e o «liberal lúcido» Pascal Bruckner (“O conservadorismo inteligente deveria tornar‑se um valor de esquerda: a vontade de salvaguardar o mundo, de preservar para as gerações futuras as possibilidades de uma vida humana”).
Ora, se, por um lado, não considero o estado do mundo suficientemente perfeito para o querer conservar, tenho, por outro lado, uma visão da evolução do mundo muito mais otimista do que estes senhores e do que a maior parte dos conservadores; e, não receio, ao contrário de Camus, que “o mundo se desfaça[4]”. É certo que as mudanças não são desejáveis só por si e que nem todas as mudanças são positivas, mas acho que, no geral, tudo tem mudado mais para melhor do que para pior e o mundo é hoje, com as suas muitas injustiças, mais justo do que em qualquer outro período da História humana; e a vida das pessoas, com os muitos sofrimentos que persistem, alguns desnecessariamente, é mais longa, mais saudável e mais fácil do que alguma vez foi para a maioria dos seres humanos.
***
Parece-me que uma das razões do sucesso da extrema-direita atual vem de ela ter incorporado a ideologia conservadora das conversas de autocarro e de café que o resto da direita já não ostenta no discurso político. De facto, os neofascismos de hoje assumem-se como conservadores, coisa que os fascismos originais, digamos assim, o nacional-socialismo e o fascismo italiano, em princípio não eram[5].
_______________
[1] Tel quel I, 1941, p. 192.
[2] Relativamente a isto de conservar, podem dar-se casos curiosos, como aquele que foi motivação direta deste texto: O Partido Popular Dinamarquês, de extrema-direita, apoiou a resistência dos ecologistas à instalação de moinhos de vento em Østerild Klitplantage, em Thy. Mas, claro, pode discutir-se até que ponto é que o Partido Popular Dinamarquês, que é, em muitos aspetos, extremamente conservador, neste caso não o é apenas por estratégia política…
[3] Esta citação e as citações de Günther Anders, Jean-Claude Michéa e Pascal Bruckner por Taguieff, que aparecem a seguir, são de Resistir ao Para-a-frentismo, Lisboa: Campo da Comunicação, 2002, p. 132.
[5] Foram-no muito outros fascismos, é certo, como o fascismo espanhol e o fascismo português; mas talvez um pouco menos do que pode parecer à primeira vista, porque uma parte do que se propunham “conservar” tinha sido, afinal, inventado por eles… 

13/02/09

E onde mora, por favor, Dona Europa, essa cachopa, filha de D. Agenor?

… Pus-me então a especular: o que é que dá à Europa unidade, que já nem falo de união? E pensei: «Para me lançar na pesquisa de uma identidade europeia, o ideal seria aplicar o velho preceito que diz que “um gato é um gato, um cão é um cão, e uma coisa é aquilo que as outras não são”» – só devia considerar verdadeiramente europeu o que fosse comum a toda a Europa e não se achasse nunca fora dela!

Mas ‘tá quieto! Seguindo o princípio a rigor, não havia de ir muito longe...; e a conseguir chegar a algum lado, os poucos resultados seriam, provavelmente, bastante surpreendentes e ainda mais desinteressantes… De maneira que decidi antes adoptar outro método, comum, aliás, nas pesquisas de identidade, que consiste em fazer um bocadinho de batota; e, feita a batota necessária (pouco ou muita, não vos diz isso respeito), consegui descobrir os três itens que mais essencialmente definem a europeidade – apresentados aqui por ordem alfabética, que não de importância:

1. Barrete: De vários materiais, cores e feitios, mas mais iguais do que diferentes, acho que, da Tornedália ao Ribatejo, o barrete faz sempre parte de algum traje tradicional. Há alguns mais famosos do que outros, como as barretinas catalãs ou o barrete da Marianne, mas não haja dúvida de que é coisa que unifica a Europa!

2. Gaita de foles: Da Suécia a Portugal e de Portugal a Malta e de Malta à Polónia, o que para aí vai de gaitas de foles. Ora aí está, é bom de ver, mais um símbolo incontornável da unidade europeia.

3. Shawarma: Pensem bem: não é verdade que Portugal só começou a poder ser considerado um país europeu quando começou a coexistir com a bifana e o prego a shawarma que nos faltava? Não foi só nessa altura (pensem bem!...) que entrámos definitivamente na Europa ao mesmo tempo que – através desse petisco, precisamente – a Europa entrava em nós?


Prevejo inúmeras (e, nalguns casos, enraivecidas…) objecções: Os barretes podem bem ter vindo originalmente da Frígia, isto é, da Anatólia (ou de mais longe ainda)! As gaitas de foles podem ser de origem hitita, ou seja, também da Anatólia! Quanto à shawarma, essa, não há dúvida de que vem mesmo da Anatólia!

Mas... e depois? Mesmo que isso seja tudo verdade, o que é que vocês têm contra a Anatólia? A Europa começa, sempre começou, muito para lá do que são hoje os seus limites mais aceites. Geográfica e culturalmente, não há entre o Médio Oriente e a Europa barreira nenhuma, quanto mais ruptura… Do Crescente Fértil vieram-nos trigo, cevada, grão, ervilhas, lentilhas, vacas, cabras, ovelhas, porcos, roda, monoteísmo, estado, escrita, todos os alicerces do desenvolvimento que viria a resultar na imposição da Europa a grande parte do mundo*. Por quê insistir em fazer do Bósforo uma fronteira que ele nunca foi? Aliás, facto de um simbolismo fundamental!, até a Europa original, madrinha do continente, filha de Agenor e Telephassa, era fenícia, que é como quem diz libanesa!

André-Pierre Taguieff, no seu livro Résister au bougisme, diz a certa altura que “o interminável e vão debate sobre o “alargamento” da Europa, processo para o qual, a não ser que recorramos a critérios baseados no racismo biológico ou no neo-racismo cultural, parece impossível definir limites justificáveis, mostra que a utopia europeísta não é senão uma figura da utopia globalista, um momento na mundialização apresentada como inevitável.”

Discordo de Taguieff em muitas coisas, nomeadamente da sua obsessão nacionista**. Se pus aqui esta citação, no entanto, é porque me parece que ele faz nesta frase algo tão importante como incomum, que é chamar a atenção para a questão moral de base que subjaz não só à discussão do alargamento da União, mas, em última análise, à própria ideia de União Europeia: É que não há nenhuma justificação moral para o processo que tem até aqui sido de “alargamento da União Europeia” se ficar pela Europa. Posso entender (e concordar ou discordar, isso é outra história) argumentos estratégicos para que esse alargamento se faça gradualmente, mas todos os outros argumentos para reduzir as vantagens de se ser sócio desta colectividade apenas a alguns não podem senão radicar, como diz Taguieff, nalgum tipo de imoral discriminação. Mesmo quando se chegar ao limite do que é de alguma forma identificável com Europa, não há razão nenhuma para parar o alargamento – quando muito, haverá razão para mudar o nome à união…
_______________

* Concorde-se ou não com a tese nele desenvolvida, o polémico livro de Jared Diamond Guns, Germs, and Steel dá informação resumida e preciosa sobre a importância do Crescente Fértil para o desenvolvimento da Europa – e do mundo. Vale a pena ler.

** É claro que não cabe aqui discutir a posição política de Taguieff no seu todo, mas quero, ainda assim, fazer um pequeno comentário àquilo de que discordo na frase citada: Taguieff erra, na minha opinião, ao fazer uma amálgama de todas as propostas políticas que valorizem instâncias supranacionais – sempre houve e ainda há quem defenda utopias mundialistas sem as apresentar como resultado inevitável de uma globalização “natural”, mas antes como o possível resultado da vontade das pessoas de alargar a toda a humanidade os privilégios (e os deveres, claro está) de que hoje apenas goza uma parte relativamente pequena dessa humanidade. Se, para Taguieff, o debate sobre o alargamento da Europa é vão, é porque, para ele, não deveria haver espaços de solidariedade mais amplos do que as nações que actualmente existem. Para mim, o círculo de solidariedade tem de continuar sempre a alargar-se.