8 de novembro de 2007

O fado: do ganga, perdão, da ganga ao terylene e ao 100% algodão

Perguntaram-me outro dia
se eu sabia o que era o fado.
E eu disse que sim, sabia,
mas ninguém fiqu’admirado
se a minha concepção
daquilo que o fado é
for contra a definição
de Aníbal Nazaré:

O fado não são almas vencidas, nem noites perdidas, nem sombras bizarras; nem cinza nem lume nem dor nem pecado. O fado é uma forma de música popular urbana, que se define por um número relativamente limitado de estruturas rítmicas, harmónicas e melódicas (em princípio, só há três fados, dizem alguns especialistas…). Há uma tradição de uso no fado de guitarra portuguesa e guitarra (e guitarra baixo, às vezes), mas já houve e continua a haver fados com muitos outros tipos de acompanhamento instrumental. Quanto à forma das letras, embora predomine, como em toda a canção popular portuguesa, a quadra em redondilha maior, também não há padrão fixo de versificação: há estrofes e versos de variados tamanhos. Nas últimas 6 décadas, há também uma predominância de certas inflexões vocais distintivas, principalmente nas intérpretes femininas, mas também isto não caracteriza todo o fado – quem conhecer um bocadinho a história do fado sabe bem que a vocalização das fadistas até aos anos 50 era muito diferente, e nada impede que o continue a ser, se a fadista quiser.

(Como as notas de rodapé entram mal no formato blogue, abro aqui um longo parênteses: É curioso notar que não são as estruturas musicais que fazem algumas pessoas reconhecer uma canção como sendo fado ou não, mas antes, precisamente, a maneira de cantar, por muito que a música em si não encaixe nas formas de base do fado. Quer dizer que, como todas as outras formas “fixas” da música popular, a forma fixa do fado não o é por aí além, e a fronteira do conceito depende dos conhecimentos e/ou preconceitos da pessoa que oiça o fado: para mim, é óbvio que a música dos Madredeus não é fado, mas é como fado que é apresentada e compreendida em certos círculos da chamada world music; para mim, é muito duvidoso que “Aquela janela virada para o mar” ou “Partir é morrer um pouco”, para referir exemplos conhecidos, sejam fados, mas há muito quem os considere assim; para mim, é óbvio que “Oiça lá ó senhor vinho” ou “Formiga bossa-nova”, da Amália (e vários outros temas dela) não são fado, embora ela os cante com os trejeitos do fado…, mas quando tento explicar por quê a alguém que tenha com o fado uma relação menos íntima, falho sempre…)

Escusado será dizer que, como todas as formas de música, popular ou não, o fado está em permanente mudança. E não sou eu, com certeza, que me vou pronunciar contra a evolução do fado. Não acho que a tradição tenha valor pelo simples facto de ser tradição e, embora haja coisas tradicionais que me agradam, não defendo nunca que as formas “mais puras” são superiores às “menos puras”. Até porque, bem vistas as coisas, formas puras não há; e defender a conservação inalterada de uma forma é condená-la à morte – tudo o que nós sabemos das coisas humanas e não humanas nos diz que só sobrevive o que evolui. Acho então muito bem que o fado se transforme. Posso gostar mais ou menos das formas que possam ir surgindo, mas isso é outra questão…

E então, depois de uma introdução assim tão assertiva, o que é que vai daqui sair? Bom, não julguem que vou aventurar-me nalguma dissertação de fôlego sobre a arte e preceito de escrever ou cantar o faduncho com jeito, até porque não tenho estaleca para tal. O propósito deste texto é muito mais modesto: quero só (só) dar conta de um fenómeno que tenho observado na evolução do fado: a sua liricização.

Não vou negar que a vertente lírica sempre foi muito importante no fado – talvez até a predominante. Mas coabitou durante muito tempo com várias outras que também tinham a sua importância. Sendo uma forma de música popular urbana, o fado partilha (ou partilhava…) as temáticas das outras formas de canção popular urbana que lhe estão culturalmente próximas. Em toda a canção, popular ou não, os textos líricos, principalmente de temática amorosa (e, dentro do tema do amor, o do sofrimento amoroso…), são predominantes, e o fado segue, naturalmente, essa tendência geral. Mas nem só de amor fala o fado. E nem só no falar de amor ele se aproxima de muitos outras forma de canção. Senão, vejamos:

Como muitos outros tipos de canção (vejam a java parisiense, por exemplo), o fado é bastante auto-referencial: muitos fados falam do fado, da sua “história”, incluindo os fadistas e guitarristas míticos, tentam definir o espírito fadista, descrevem o ambiente do fado e defendem, às vezes, o “verdadeiro” fado contra os “falsos fadistas”.

E outra temática fundamental do fado é, naturalmente, Lisboa. A cidade no seu todo ou partes específicas da capital. Também isto é pouco idissincrático: a canção de Roma fala de Roma, a de Amesterdão de Amesterdão, a de Copenhaga de Copenhaga. A canção urbana fala da urbe onde pertence. E como fala da urbe, fala dos seus lugares, da sua gente e das actividades desta gente. Talvez não haja a Tendinha, a igreja de Santo Estêvão, a Senhora do Monte, a Mariquinhas, a tia Macheta, o Malhoa, tipóias e esperas de gado nas canções urbanas de outras cidades, mas há sempre tabernas e prostíbulos e a descrição de personagens urbanas, umas só conhecidas nas canções que as cantam, outras famosas fora delas, com as suas biografias ou fatias apenas de vida.

Descrições e histórias: era aqui que eu queria chegar. Sempre houve também no fado essa vertente narrativa/descritiva que é, também ela, comum a toda a canção urbana ocidental. Ora o que se passa a partir dos anos 60 e se acentua com o chamado “novo fado” é aquilo a que eu chamaria um afunilamento lírico: a vertente narrativa/descritiva desaparece e o fado torna-se essencialmente lírico. É principalmente em Amália Rodrigues – e nas suas experiências de trazer para o fado outro tipo de poesia, nomeadamente de poetas consagrados – que está provavelmente a origem desta tendência. Pelo menos, é certo que é ela o principal modelo de todas as modernas fadistas, tanto em termos de estilo vocal como de canções a reinterpretar.

Os resultados deste monopólio das temáticas “sérias” e “poéticas” no fado são um mau e outro bom. O mau resultado é que, com o império do liricismo fadista, tipos importantes de fado estão a desaparecer: fados humorísticos, já não nos há; e nem a contar os trinta e uns em que a malta continua a meter-se; e nem sequer histórias simples da gente simples que continua a haver nos nossos bairros. O resultado bom é que, marketizado como sendo a forma essencial da música portuguesa e insistentemente associado à “intraduzível” saudade (que patetice!) e à alma nostálgica e marinheira do povo português (nunca conheci nenhum povo que se interessasse tão pouco por andar de barco…), o fado começou a ser bastante conhecido no estrangeiro – e a vender-se bem! Internacionalizou-se e, para se internacionalizar, provavelmente não podia continuar a falar de canjirões, rambóia, pampilhos, piaras e novilhos de tenta… É a vida…

A propósito, já ouviram uma húngara cantar o fado?