14 de janeiro de 2009

«Coco não, manga não?» e outras anedotas linguísticas


“Coco não? Manga não?”

O vendedor de cocos e mangas que passa por mim e me pergunta se não quero comprar os seus produtos não sonha, claro está, que a palavra magano existe em português, e muito menos o seu aumentativo. E muito menos ainda, provavelmente, que há muita gente a pronunciar a palavra “incorrectamente” com o primeiro a nasal, forma que os dicionários nunca registam, mas de que em google há 1760 ocorrências [manganão, páginas em português, -manga -mangá].
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Uma vez, já há uns bons anos, dizia-me um amigo meu português que vive em França que a situação dos emigrantes, segundas e terceiras gerações incluídas, estava cada mais difícil, que cada vez havia mais xenofobia. Mas pronunciou o início da palavra à francesa, dizendo [gzenofobia] em vez de [chenofobia].

“Eh, pá”, disse-lhe eu, “em português não se pronuncia [gzenofobia], isso é em francês; em português, pronuncia-se [chenofobia].

“Ah, bom?”, surpreendeu-se ele.

“Pois claro!”, insisti eu. “Aliás, em português nem sequer existe essa sequência de sons [gz].

Ele ficou um bocado calado, a matutar, mas pelos vistos não se convenceu:

“Em português não existe [gz]?”, disse ele ao fim de um bocado, com ar triunfante e o seu forte sotaque da Cova da Piedade. “Dev’s ‘tá’ a g’z’á’ c’migo!”
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Estava uma vez com dois amigos, um sueco e uma irlandesa, e estava a explicar-lhes, já não sei a que propósito, a expressão “que venha o diabo e escolha”. O sueco disse-me então que tinham, na língua dele, uma expressão que significava o mesmo: “é como escolher entre peste e cólera”. E disse a expressão em sueco: “det är som att välja mellan pest och kolera”.

E disse logo a amiga irlandesa:

“Ah, essa eu percebi: é como escolher entre pepsi e coca-cola!”
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Uma vez, em Vitória, no estado de Espírito Santo, no Brasil, entrei num autocarro, comprei o meu bilhete e pedi à cobradora para fazer o favor de me avisar quando chegássemos ao centro, porque eu não conhecia a cidade. Falei muito devagarinho, consciente da dificuldade que têm os brasileiros em compreender o meu português. Ela ia fazendo que sim com a cabeça enquanto eu falava, e depois disse-me assim, com um sorriso enorme no rosto:

“É fantástico: eu entendi tudo o que você disse! Eu não faço nem idéia de qual é essa língua que você fala, mas eu entendi tudo direitinho!”
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A última não se passou comigo, mas é uma anedota linguística de que eu gosto muito. É muitas vezes contada como tendo realmente acontecido com J. L. Austin e Sydney Morgenbesser, e é referida como exemplo do espírito deste último filósofo, mas não sei até que ponto isso não será um “mito urbano”, como agora se diz.

Austin, numa palestra:

“Há línguas em que uma dupla negativa resulta numa afirmação positiva, e há línguas em que a dupla negativa reforça a negação. Não conheço, porém, nenhuma língua em que uma dupla positiva produza uma negação.

E Morgenbesser, no público:

“Yeah, yeah…”

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