12 de abril de 2010

Um procexo muito complexo: semiarcádica valorização das coisas aparentemente sem muito que se lhes diga

E claro, posso sempre dizer que isto, o só andar por aqui,
quase sempre é perder-se em petitesses,
é o existencial antípoda da poesia,
a rodinha do ludíbrio, a búdica ilusão...
Posso dizer que há que aspirar a mais,
a que seja a vida vida que saiba negar a morte;
que se tire e que se dê, feita graça ou perdição.
Dito assim, soa sublime, ninguém me contrariará.

Mas também não me fica mal deslumbrar-me um bocadinho
com o menos sumptuoso que fica, o tristemente humano,
que é ainda assim – sem poesia, vá, que seja –

um procexo muito complexo…

Também não me fica mal deixar de me barricar
contra o pois-é, contra o a-vida-é-assim:
e, ao banal, fazer-lhe cócegas p’ra começar e depois
ir escarafunchando nele até ficar carne viva.
É mais do que parece, se a gente reparar bem:
o pão p’rà boca, o sexo p’rò sexo e por aí fora
são mais do que só baixeza, que trivialidade vil:
se se arranha e se se escava, é evidente que até
o que se acha comezinho bem vistas as coisas é (ah, uma rima!...)

um procexo muito complexo…

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