2 de junho de 2009

Tomar em mãos a sua vida: claro!, ma non troppo…

Estive a reler uma série de textos que tinha sobre uma das questões mais importantes que, creio eu, se coloca a qualquer pessoa: até que ponto mandamos na nossa vida e até que ponto manda ela em nós? A quase totalidade desses textos constituía a minha contribuição para uma longa discussão epistolar que tive com um amigo meu, há cerca de 10 anos. Como não sou capaz de reler sem refazer, saiu dos textos antigos um texto novo, que decidi que ficava bem aqui na Travessa… É um texto que, partindo da discussão de como se equilibram capacidade de controlo e acasos, acaba por pretender discutir sobretudo quais os eventuais efeitos nefastos da obsessão voluntarista[1].

Estou convencido de que é natural e louvável as pessoas quererem controlar a sua vida. Bem vistas as coisas, o ideal de todas as pessoas que, como eu, querem contribuir para um mundo com menos sofrimento e mais justiça é, precisamente, que possa ter maior capacidade de controlo da sua vida quem actualmente a não tem. A atitude que se situa no extremo oposto da defesa do controle a sua própria vida é a passividade fatalista e, essa, recuso-a completamente, tanto do ponto de vista da análise do mundo – porque acredito que o mundo pode ser mudado –, como do ponto de vista ético – porque acredito o mundo deve ser mudado.

Creio, porém, que só temos capacidade de controlo até certo ponto – até ao ponto em que os acasos interferem. Para mim, o que impede o exercício efectivo do livre arbítrio não é nenhum deus nem nenhuma outra força cósmica imutável, mas sim a presença demoníaca e constante de acidentes que não estavam escritos em nenhum livro do destino, que nenhuma teoria que pense o mundo em termos de relações de causalidade pode prever, que nenhum conhecimento oculto e sobrenatural pode antever – acasos de facto.

Como se define acaso? A questão é complexa, sobretudo para um materialista duro como eu, que acredita que cada estado de coisas é determinado pelos estados de coisas anteriores. A melhor definição que encontrei até hoje para acaso é “cruzamento de duas cadeias de causalidade independentes”. Não tenho a certeza de ser uma boa definição, mas não me parece que seja muito necessária uma definição mais rigorosa para se poder discutir a questão. Acasos, acidentes, todos sabemos o que são: aquilo que nós não controlamos.

A consciência da importância dos acasos não me obceca ao ponto de os considerar o maior obstáculo à capacidade de controlo de cada um. É fundamental, quando se tenta determinar o alcance possível da capacidade de controlo de cada um, sair da esfera do “indivíduo perante o universo” para entrar na esfera do “indivíduo perante os outros”, que não é menos importante (para mim, moralista que sou, é mais importante…). A principal razão de falta de capacidade de controlo de alguns é o excesso de capacidade de controlo dos outros. Tem mais capacidade de controlo da sua vida quem tem mais poder. E se, em termos morais, é desejável que o poder seja igualmente distribuído por todos, a justiça na distribuição do poder não leva a uma maior capacidade de controlo das suas vidas por parte de todos os seres humanos. Para que alguns tenham mais capacidade de controlo, outro terão menos. Por exemplo: muitos homens europeus invejam uma parte da qualidade de vida dos homens do chamado terceiro mundo – a parte que está relacionada com a sua capacidade de decidirem mais sobre o que fazem da vida... porque as mulheres decidem menos sobre a vida delas!... Para mim, então, por muito que se deva investir na maior capacidade de controlo das pessoas das suas próprias vidas, o ideal último não é que toda a gente mande o mais possível na sua própria vida, pelo menos no que diz respeito a questões de ordem “baixamente” material em que é o poder dos outros que constitui entrave a essa capacidade de controlo, mas antes fazer com que os poderes se equilibrem, de maneira que haja mais espaço para as decisões de cada um poderem tornar-se um limite às decisões dos outros.

No entanto, e isto é um dos aspectos mais curiosos desta discussão do papel da vontade (decisão, controle) versus o papel dos acasos (incontrolado, acidentes) na vida humana é que, mesmo em situações em que não é a capacidade de controlo de uns a limitar directamente a capacidade de controlo dos outros, toda a vontade se torna, em última análise, acaso também! Se eu decido candidatar-me a um determinado trabalho, por exemplo, estou, pela minha vontade, a desencadear acasos. Como a vontade de todos os outros não é previsível nem controlável, ela torna-se para cada um de nós (pelo menos potencialmente) um acaso. A minha acção vai transformar-se em mais um acidente disponível, digamos assim, para todos os outros. No exemplo que dei, a minha presença vai constituir um acaso para as outras pessoas que se candidatam ao mesmo lugar.

Fundamentalmente, não controlamos o que somos, o que sentimos, o que nos acontece ou o que acontece em nós – apenas o que fazemos… e nem sempre! Não sei se, na vida das pessoas em geral, predominam estados e acontecimentos incontrolados ou acções controladas. Mas estou convencido de que é esta última categoria de estados e acontecimentos incontrolados que é a mais marcante para a grande maioria das pessoas. Estou a falar principalmente daquilo que se é – a nossa carga genética e a nossa cultura, esses alicerces de nós que não escolhemos – e daquilo que se sente – os gostos, as inclinações, os ódios, as simpatias e antipatias, as paixões… sobretudo as paixões…

Mas então, onde chegamos? A nada que não seja relativamente trivial. Que devemos tentar controlar a nossa vida para nos livrarmos de doenças sexualmente transmissíveis e desastres de automóvel, com certeza que sim. Que se deve dar a quem não manda em nada na sua vida a possibilidade de decidir, como os que lhe ficam acima, que vida gostaria de ter, pois também sem dúvida. Agora: já disse que não acredito que se possa mandar sempre na vida, mas acredito ou não que, na medida do possível, se deve sempre tentar fazê‑lo? Sempre não. É por isso que este texto tem o título que tem. Espero que a parte seguinte da discussão seja menos trivial do que o que fica para trás: O que se deve ou não querer controlar? Dito de outra maneira, o que é que de negativo pode vir a cada um e aos seus próximos da ânsia de demasiado controlo?

Na minha opinião, um dos possíveis efeitos negativos de um voluntarismo radical é a ideologia do herói e a desvalorização da impotência. Se levamos a concepção voluntarista da vida às suas últimas consequências, podemos até aceitar, como fazem algumas pessoas, que toda a gente é responsável até do que sofre, daquilo de que é vítima. Porque não tem a força de vontade suficiente para se revoltar, para lutar pela sua liberdade… Estamos em plena ideologia do herói, que é igual à direita e à esquerda, que é uma expressão extrema do voluntarismo e que é, sobretudo, um dos alicerces de uma concepção elitista do mundo: se há quem seja capaz de fazer algo, os que não são capazes de fazer a mesma coisa têm de ser fracos, estúpidos, cobardes, etc. e, por consequência, inferiores[2]. Tantas vezes que eu vi alguém revoltar-se perante uma injustiça, por exemplo, e, à boa maneira do herói, acusar os outros de não fazerem a mesma coisa. O que o herói normalmente não percebe é que o que faz o herói é a possibilidade. E possibilidade é o nome correspondente tanto ao verbo poder como ao verbo conseguir. E se o primeiro marca uma qualquer capacidade de controlo, o segundo assinala precisamente a ausência dessa capacidade. Nem sempre se consegue ser herói e não há em não o conseguir nada de criticável. Nem ser herói é nenhum dever…

Numa outra perspectiva, um perigo do extremismo no empenho de controlar o mundo é fazer dele quadrado, asséptico e desumano. É a ânsia de controlar racional e organizadamente a vida das pessoas que está na base de uma das ideias fortes do pensamento europeu que é a utopia[3]. Há aqui na Travessa algumas referências passageiras à questão. A utopia fascina-me, mas é um fascínio impregnado de receio. O perfeito controlo é não deixar nada ao acaso, nem a escolha, pela inclinação dos sentimentos, dos parceiros sexuais; é não deixar, no espaço todo circundante, nem um vestígio do “caos” natural; é tornar geométricos todos os espaços, e geométricos também, se se pode dizer assim, os comportamentos e o sentir; é substituir as línguas naturais por línguas inventadas que não traiam o pensamento… O perfeito controlo… Eu sei que não é só a mim que isto faz confusão.

E guardo para o fim o que me parece ser o perigo mais visível, nas sociedades modernas, da forte vontade de deitar fora da vida todos os acidentes: um mundo sem imprevistos nem aventura pode facilmente tornar-se num mundo de tédio e solidão… Uma maneira de limitar os perigos na nossa vida é, evidentemente, limitar a própria vida; e a obsessão de limitar os acasos na nossa vida pode facilmente levar-nos também a limitar a própria vida.

Isto aplica-se a todos os aspectos da nossa vida, mas aplica-se muito especialmente às relações entre pessoas. O voluntarismo é tanto mais eficaz quanto menos espaço dermos aos outros no caminho que vamos percorrendo. O preço a pagar é, em última análise, a solidão. Falo aqui do que tenho observado, do que acontece cada vez mais, porque cada vez há mais pessoas a aceitarem mal não serem donas do seu destino. Os transportes públicos das grandes metrópoles estão cheios de pessoas que se ignoram porque não fazem parte dos planos uns dos outros. Fechados nos seus livros e revistas, mortos para qualquer aventura. E aventura é, precisamente, uma palavra muito próxima de acidente ou acaso, se não mesmo um sinónimo...

Não só não acho que devamos tentar banir da nossa vida todos os acasos, acho até que nos devemos (voluntariamente!) expor ao impacto de alguns deles. A vida (ou a sua qualidade, se se preferir) só tem a ganhar com isso. A aventura é a aventura e é enriquecedor não querer controlar tudo sempre, às vezes deixar-se ir…
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[1] Tenho plena consciência de que uso neste texto voluntarismo e voluntarista com significados mais ou menos desviantes relativamente àquele que têm estas palavras quer no discurso não especializado quer na discussão filosófica. Esta nota de rodapé serve, precisamente, para deixar claro que, neste texto, voluntarismo refere a crença no poder da vontade em dois sentidos modalmente distintos: o de poder controlar a sua vida e o de dever controlar a sua vida.

[2] Para mostrar a relação directa que há entre a ideologia do heroísmo e o voluntarismo, chamo a atenção para um facto simples: não há heróis por acaso. O herói acidental é, pelo menos no ideário e no imaginário europeus, uma figura cómica, caricata, ridícula. O seu carácter humorístico vem‑lhe do facto de ser precisamente, para a mentalidade dominante, um contra-senso, uma coisa ao contrário do que se espera, algo como um gato que tem medo de ratos...

[3] É importante notar que não uso a palavra no sentido geral de “ideal” em que ela é muitas vezes usada, mas referindo antes um tipo de ideal de organização social específico, descrito na Utopia de More e em dezenas de obras que, com algumas variações, seguem esse modelo.

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