10 de maio de 2010

A falar é que a gente se entende, etc.

Costuma-se dizer que a falar é que a gente se entende, mas não é bem assim. Não que eu ache que a afirmação seja essencialmente falsa, mas julgo que precisa de alguma afinação para se tornar mais verdadeira. Parece-me muito mais justo que se afirme: em geral, é só a falar que temos possibilidades de nos entender, mas nem sempre conseguimos entender-nos falando.

Admito que, em certas ocasiões, possamos receber informações precisas do que nos quer dizer outra pessoa sem passar pela língua ou por formas de a transcrever. Sinais de bandeiras para navios ou de sinais de trânsito não contam aqui, porque continuam a ser uma maneira de “escrever” frases da língua («É proibido transitar a menos de 60 metros do veículo precedente»), mas já um mapa talvez não seja apenas uma transcrição gráfica de uma descrição linguística de um lugar (?). E há gestos, expressões do rosto e atitudes corporais, e sons não linguísticos, como o choro, que podem, às vezes, transmitir mensagens – mensagens sempre muito simples, mas às vezes bastante claras.

Agora, também se exagera muito o potencial comunicativo da gestualidade e do olhar e de outras formas não linguísticas de expressão. A música, por exemplo… Como para aí se exagera – e com que frequência – a capacidade de comunicar da música… Ora, mesmo que admitamos que uma música pode comunicar “estados de alma”, só o pode fazer a um nível muito primário. Decerto que não se pode saber, ouvindo uma música “triste”, porque é que ela é triste – se fala de uma pena de amor, de um grande acidente de autocarro com muitos mortos, de solidão ou de frustração no emprego. Muito menos podemos saber se fala de algo que se passou anteontem ou no séc. XII.

Como eu costumo dizer para acabar com o delírio metafísico sobre a comunicação não linguística, não se pode pedir um cigarro a ninguém tocando guitarra, nem encomendar, com um solo de violino, “uma bilha de gás para o bairro Tambara 2, virando à esquerda mesmo quando acaba o alcatrão e depois na casa de muro cor de tijolo logo na primeira esquina, e com urgência, por favor, porque não tenho gás, nenhum, nenhum, nenhum”, nem fazer ao piano um pequeno resumo do que se fez no último fim de semana – tudo tarefas bastante fáceis com palavras. Tarefas bastante fáceis, mas, ainda assim, sujeitas a ruído, à possibilidade de alguma incompreensão. E claro, quanto mais abstracto ou complexo for o que se comunica, maior é a possibilidade de surgirem buracos de incomunicação no meio do que é comunicado.

Uma das ideias recentes de Noam Chomsky relativamente a língua é, precisamente, que, se é um mecanismo que funciona bem para pensar, funciona mal para comunicar – que não é para isso que ela evoluiu *. Não quero entrar agora nesta discussão, que é já muito velha (qual a função essencial da linguagem, para que finalidade a desenvolvemos?), mas apenas usar este trampolim retórico para dar um salto na conversa e constatar que poucas são as pessoas capazes de valorizar, na linguagem, a comunicação acima de tudo o resto… A prova disso é que passamos a vida a apontar como erros (se verdadeiros erros ou não pouco interessa para esta conversa, o que interessa é que os apontemos como tal) maneiras de dizer as coisas que não são obstáculo nenhum ao entendimento do que foi dito. Passamos a vida a valorizar o como se diz relativamente àquilo que se diz – se bem que não passe pela cabeça de ninguém afirmar que a função essencial da linguagem seja dizer as coisas de acordo como uma regra...

“Às vezes, nem se percebe bem onde queres chegar”, dirão alguns, “com essa tua conversa. Não é o mesmo com todas as actividades humanas? Não tem de se demonstrar em todas elas uma socialização que passa pelo respeito de regras irrelevantes do ponto de vista prático? Que interesse tem para a nutrição humana não pôr os cotovelos na mesa enquanto se come?” Claro, e eu peço desculpa por tão longo desvario. Quando comecei este texto, era outra ideia que eu tinha em mente: a ideia de que, do ponto de vista da comunicação, a correcção nem sempre é o mais eficaz.

Um colega meu, professor de português no Barreiro, já há uns bons 22 anos, dizia-me uma vez que a correcção é relativa e que, quando se é adepto do União de Tomar e se é provocado, no Estádio do Fontelo, em Viseu, pelos adeptos do Académico de Viseu, com quem o clube de Tomar acaba de perder, o que é correcto é gritar «Vocês ós despois hádem lá ir a Tomar e a gente logo conversamos!». Evidentemente, o meu amigo não tinha razão, pelo menos se tomarmos a palavra correcto no seu significado mais comum, que de relativo tem muito pouco; mas que a frase por ele proposta é, no contexto, mais eficaz para se comunicar o que se pretende a quem se pretende comunicá-lo do que a frase directamente correspondente em português televisivo, isso estou disposto a aceitar – numa frase assim, o significado é simples e é o mesmo na versão mais standard e na versão mais popular que referi, mas a indicação adicional que quem a profere dá sobre a sua pessoa é que é diferente, e é por isso que a frase menos standard é melhor, não vão os chavais de Viseu pensar que os gajos de Tomar são alguns pipis…

Se estou a brincar? É claro que estou, mas estou a brincar a sério. Este texto surgiu-me de uma conversa comigo mesmo (e para quê, se já sei tudo o que me digo?…), no outro dia, aqui em frente ao computador e a uma tradução: “Mas para que passas tu tanto tempo, diz-me lá, à procura da forma correcta de dizer em português o que aqui está em inglês, se as pessoas a quem isto se destina, falando português entre elas, vão usar as palavras em inglês que tu traduziste para português e vão estar-se nas tintas para as palavras portuguesas que te deram tanto trabalho a encontrar?” A questão é que essas pessoas não são tradutores, são técnicos, e aquilo que elas querem é, precisamente, comunicar… A sério. Preparem para uma reunião técnica de economistas, publicitários ou técnicos de informática, por exemplo (por exemplo...), uma intervenção em que usem apenas vocabulário que foram penosamente seleccionando como sendo, nesta maravilhosa língua de Filinto Elísio, o mais adequado para substituir as detestáveis palavras estrangeiras que costumam conspurcar o discurso nestas áreas técnicas. Pois bem, correm o risco de ninguém vos entender…

Mais longe não vou, mas todos podem complementar este texto com exemplos próprios: vejam lá se não encontram, no vosso dia a dia, exemplos de conversas ou textos em que a correcção se revela, em maior ou menor grau, menos eficaz para a comunicação do que a maneira… hmmm… normal de dizer as coisas.

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* Numa conferência na Johannes-Gutenberg University, a 24 de Maio de2010, Chomsky disse, por exemplo, que “language is very well designed for thought and very badly designed for communication.”. A ideia não é nova em Chomsky (foi desenvolvida, por exemplo, num artigo na revista Science, em 2002, a a que, infelizmente, já não se pode aceder gratuitamente…) e, claro, está longe de ter sido conseguido consenso na comunidade de linguistas... (Quem se interesse por estas coisas pode ver, por exemplo, a discussão por Steven Pinker e Ray Jackendoff da teoria de Chomsky)

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