6 de dezembro de 2010

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 1: Dos malefícios da medicina

Uma pessoa sente-se mal e vai ao médico. O médico faz umas análises e um electrocardiograma e diz à pessoa que ela teve um enfarte do miocárdio. Vem, aliás, escrito na fita de papel que sai da máquina: septal myorcadial infarction. A pessoa fica, é claro, muito assustada. Ao fim de muitas peripécias que não vale a pena aqui descrever e quase duas semanas de espera, é finalmente examinada por um cardiologista. E fica a saber que nunca tinha tido nenhum enfarte do miocárdio e que tem o coração a funcionar perfeitamente.
A moral da história pode ser que não vale a pena ir a médicos de cuja competência não se tenha um mínimo de garantias – não só não vale a pena como pode até ser perigoso; ou que quem não sabe ler electrocardiogramas não o deve fazer; ou que não devem ser nunca levadas a sério as interpretações das máquinas de eletrocardiografia. Muitas morais que vão dar, para a maior parte das pessoas, a uma moral já muito antiga: não se pode confiar nos médicos…
A incompetência dos médicos é motivo recorrente de sátira há já muito tempo: O médico? Que nos livre dele Nosso Senhor mais do que da doença, porque ele é bem pior! “Curado ontem da minha doença, morri a noite passada do meu médico”, escreveu o poeta setecentista Matthew Prior. Voltaire, décadas mais tarde, definiu os médicos como sendo “homens que receitam remédios de que sabem pouco para curar doenças de que sabem ainda menos em seres humanos de quem não sabem nada”. Já no século XIX, Jacob Bigelow, ele próprio médico e professor de medicina em Harvard, afirmou uma vez que “a opinião imparcial da maior parte dos médicos sensatos e experientes é que a quantidade de morte e de desastres no mundo seria menor se não se fizesse nada para curar a doença”. Outro pensador do século XIX, Oliver Wendell Holmes, que era também médico ele próprio, dizia acreditar firmemente que “se todas as substâncias actualmente usadas para fazer remédios fossem atiradas ao mar, seria melhor para a humanidade – e muito pior para os peixes”. E claro, depois de passar por uma história como a descrita no início deste texto, muita gente não hesitaria em subscrever essa tradicional demonização da medicina e dos médicos… Poupando apenas, talvez, aquele médico que lhe disse a verdade, aquele que lhe revelou o disparatado erro do outro médico – e esse único médico que escapa à generalizada condenação pode, de facto, ser qualquer um…
Críticas à medicina como as que referi acima não são, na realidade, muito exageradas e têm uma razão simples, de que, pelo que percebo quando discuto o tema, muita gente não tem grande consciência: até há relativamente pouco tempo, os médicos não faziam, não podiam fazer, muito mais que limpar e coser feridas, e cortar partes doentes do corpo que não fossem vitais. As práticas médicas correntes e os “medicamentos” usados limitavam-se a ter, como único efeito benéfico, um efeito placebo – e tinham, muitas vezes, efeitos desastrosos que justificavam perfeitamente aforismos como os que citei. Até ao aparecimento da teoria dos germes, em meados do século XIX, não havia uma compreensão real das causas da maior parte das doenças e não me parece muito polémico afirmar que os primeiros grandes avanços na eficácia da acção médica são as vacinas, cujo uso se começa a alargar no século XIX, a anestesia em meados do mesmo século e a penicilina já em pleno século XX.
É interessante constatar que, desde os primórdios da humanidade, a esperança de vida pouco ou nada aumenta, à escala mundial, até meados do século XIX, para depois disparar até aos níveis actuais que, são, tendo em conta o que é o normal para a nossa espécie em todo o seu tempo de existência, perfeitamente sobre-humanos. É verdade que, por muito que o aumento da esperança de vida coincida de forma directa com o aumento dos conhecimentos da medicina, não se pode estabelecer entre esses dois aumentos uma relação causal simples. Há vários outros factores, sobretudo o aumento da higiene e a melhoria da alimentação, que contribuem muito provavelmente mais que os progressos da medicina para prolongar – e tornar, no geral, mais confortável – a vida humana. Ainda assim, ao contrário do que afirmava Bigelow, em qualquer lugar do mundo, e por piores que sejam as instalações, os meios de diagnóstico, a aparelhagem em geral e a formação dos técnicos de saúde, é sempre muito melhor ter hospitais e postos de saúde que não os ter e é sempre melhor utilizá-los que ir ao curandeiro ou esperar resignado que se cumpra o seu destino, disso não tenho eu dúvidas. Eu é que não vou mais ao médico, mas isso é outra história. Quer dizer: não vou mais ao médico, a não ser que a isso me obrigue a doença ou algum acidente, claro está…

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