29 de outubro de 2012

O pintor antimilitarista debaixo do lava-louças: a distância e o ódio

O pintor debaixo do lava-louças, de Afonso Cruz (Lisboa: ed. Caminho, 2011) é muitas coisas, como todos os livros são – pode ser, por exemplo, um livro contra as guerras, contra a guerra. Páginas 73/74:
Muitas vezes Sors via-se obrigado a disparar. Fazia-o para um espaço sem nome, perfeitamente incógnito, ligeiramente para cima, de modo a falhar todos os tiros. Não poderia jamais ter a certeza absoluta de não ter matado ninguém, mas acreditava nessa possibilidade. Nas execuções por fuzilamento, havia sempre um dos carrascos que tinha pólvora seca. Para que aqueles que disparavam contra um condenado pudessem acreditar na possibilidade da sua inocência. O nevoeiro e a distância, e o frio, e os gases, também serviam para isso. Eles, quando disparavam, não sabiam se acertavam, se as suas balas eram culpadas. Um soldado poderia sair, isso dizem-nos as probabilidades, de uma guerra sem matar ninguém e sem ter morrido. Isso significa, em termos científicos, que esse soldado é que ganhou a guerra. Não foram os austro-húngaros ou os russos ou os sérvios ou os otomanos ou os romenos ou os alemães ou os belgas ou os franceses ou os portugueses ou outros, mas aquele soldado.
– Para ganhar uma guerra – disse Sors –, há duas condições: não morrer e não matar. É só nesse caso que se pode sair vitorioso de uma guerra.
Ou páginas 141/142:
– É claro que essa é a maior razão para eu detestar aviões. A minha aversão ficou completa quando vi como é fácil matar quando se está no céu. As coisas cá em baixo são tão pequeninas. É difícil acreditar que essas coisas pequeninas sejam homens e mulheres e crianças, com vidas, que se amam e se odeiam. Visto de cima –, disse Sors pegando numa caneta e num papel –, um homem é assim:
Não se veem os olhos. Por isso é que é muito mais fácil matar assim, quando não se veem os olhos. Quando andamos pela terra, vemos as pessoas de frente. É difícil bombardear pessoas quando estão de frente, mas da vertical o que se vê são números, números a explodir. Por isso nunca gostei de aviões.
Já o ouvi muitas vezes e apresentado de várias formas: Se tivesse de se matar com as mãos pessoas que nos olham nos olhos, não seria tão fácil fazer guerra – havia de se sentir o verdadeiro horror que ela é, e haveria mais quem se recusasse a matar. É uma ideia antibelicista limitada, já que não ataca a guerra em si, mas apenas as formas mais “modernas”, mais “impessoais”, de guerra; e não é um argumento propriamente moral, porque não assenta em conceitos discutíveis de bem e mal, mas antes na justeza de sentimentos supostamente primordiais, uma solidariedade natural da espécie. Mas parece que esta simpatia essencial de todos os humanos por todos os outros humanos não subsiste se se “despersonaliza” a guerra, matando de longe, matando sem ver ou sem saber quem se mata. No fundo, é tudo uma questão de distância: longe da vista, longe do coração, como diz o provérbio – a distância física causa distância emocional, frieza, de longe não vejo que o meu inimigo é igual a mim. Não é um argumento moral propriamente dito, dizia eu, mas não deixa de ser uma ideia forte. E Afonso Cruz di-la bem.
Curiosamente, na página 64, uma outra personagem, Wilhelm Möller, prevendo talvez comentários como o que acabo de fazer ao que se diria mais adiante no livro, tinha já deixado claro que não é assim, que a culpada não é a distância que desumaniza, mas sim o ódio que trazemos dentro de nós.  
– As espingardas são uma maneira de matar com mais conforto, basta mexer um dedo. É muito surpreendente como o movimento de um dedo pode tirar a vida de uma pessoa e transformar outra numa coisa ignóbil. É só um dedo a dobrar-se. Uma espingarda é uma máquina de fazer monstros.
Wilhelm mostrou o indicador a Sors e disse:
– Se está esticado, é para acusar, se se dobra é para disparar. Eis o indicador. – E dobrava e esticava o seu dedo como se destruísse mundos: – Isto é o homem, não é o polegar oponível. De resto, Jozef, as espingardas não são armas, são canos. São os instrumentos que permitem aos nossos corações disparar (não é por acaso que as empunhamos bem junto ao coração, com o gatilho encostado ao peito). O que mata, as verdadeiras armas, estão dentro do tórax, a marcar o tempo, como um relógio cheio de ódio.
Nem que de longe, nem que os outros sejam só números ou pontinhos quase indiscerníveis na paisagem, não há desculpa, matar é matar. Wilhelm Möller diz isto e diz também: dentro das pessoas não há só a compaixão inata que faz que, para fazer mal aos outros, nos tenhamos de distanciar deles. Também somos capazes de matar sabendo que matamos e quem matamos; também somos capazes de matar com as mãos quem nos olha nos olhos.

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