10 de abril de 2014

Cortar e tirar e outros verbos fora do vulgar

Esta manhã, fui tirar sangue para uma análise. Não será talvez a maneira mais elegante de o dizer, mas acho que não surpreende ninguém. Se disser que Fui cortar o cabelo, então, a maior parte dos falantes do português (europeu, pelo menos, mas talvez também das outras variantes) nem sequer conseguirá encontrar na frase deselegância nenhuma – é mesmo assim que se diz, não é? Os dicionários em linha que consultei, porém, não registam as aceções de tirar e cortar nestas frases[1]. Não sei se haverá outros que as registem, vocês me dirão.

A verdade é que são aceções estranhas. O verbo continua a ser transitivo, no sentido em que tem um objeto direto, mas passa a ter um significado inverso, digamos assim, do seu significado “de base” (se é que tal coisa existe…): o sujeito, que era agente da remoção ou do corte, passa a ser o lugar onde essa remoção ou esse corte se dá – e o agente, nem eu[2]… E é volta que não se pode dar a outros verbos, ademais: se eu disser que Fui arranjar os sapatos quando os fui pôr a consertar, muita gente achará a frase estranha; e, se disser antes que Fiz um fato em La Paz, porque são bons e baratos, fica tudo a olhar para mim com estranheza. “Mandaste lá fazer um fato, é isso?” Porque é só assim que se pode dizer. Noutras línguas, também não se pode cortar o cabelo, quando é o barbeiro ou o cabeleireiro que no-lo corta: on se fait couper les cheveux, you have your hair cut, e por aí em diante.

É claramente abusivo o uso da palavra inverso no parágrafo anterior, como hão de ter reparado. Não é uma forma passiva. Forma passiva seria Foi-me tirado sangue ou Foi-me cortado o cabelo. Por semelhanças que tenham com Fui tirar sangue e Fui cortar o cabelo, são frases diferentes – como todos vocês podem sentir, mesmo sem saber explicar –, como diferentes são as duas ativas de sujeito indeterminado que diretamente correspondem às passivas, Tiraram-me sangue e Cortaram-me o cabelo[3].

Agora, o que costuma passar-se quando o verbo deixa de ter um sujeito que faz qualquer coisa e passa a ter um sujeito onde acontece alguma coisa ou a quem acontece alguma coisa, é que passa de transitivo a reflexo: o que era objeto passa a sujeito e deixa um pronome no lugar onde estava, para marcar essa transformação. Por exemplo, Eu abri a porta, mas a A porta abriu-se, se não digo por força de quê ou de quem. Às vezes, porém, coexistem a forma reflexiva e não reflexiva com o mesmo sentido. Casar, por exemplo, pelo menos em certos contextos. Tanto se diz Casei aos 40 anos como Casei-me aos 40 anos, não é?

E depois, há os casos em que o verbo devia ter pronome e não tem, e não se percebe porquê. Em princípio, mudar devia ser como alterar, por exemplo: A segurança social alterou as regras, logo As regras alteraram-se; A segurança social mudou as regras, logo As regras mudaram-se. As regras mudaram-se? Não existe. Os meus alunos dinamarqueses, como os reflexivos em dinamarquês funcionam como em português, dizem instintivamente mudaram-se com pronome reflexivo, quando não é transitivo. Mas nós não dizemos assim, pois não?, dizemos As regras mudaram ou até, com maior frequência, Mudaram as regras[4]. Quer dizer, já se disse mudar-se, noutros tempos, mas depois mudaram-se os tempos e as vontades e mudar deixou de ser como soía…

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[1] Estou a ser injusto: o Michaelis tem Tirar o retrato: fazer-se retratar, que é um uso de tirar semelhante ao que refiro em tirar sangue. É de notar que tirar o retrato não é só “fazer-se retratar” (galicismo, esta definição, não é?), é também “fazer um retrato de alguém (com máquina fotográfica)”.
 
[2] Como dizia a minha avó. Não sei se os meus leitores compreendem a expressão, que deve ser dialetal (de Lisboa?), mas nem eu significa “desapareceu, não se sabe onde está”. É mais uma expressão que não encontro nos dicionários em linha que consultei. Presumo que venha de “Tu não sabes? Nem eu.”, mas isto é pura especulação.

[3] Não me surpreenderia que, no português de Moçambique, se dissesse Fui cortado o cabelo (embora não me lembre de o ter ouvido), numa daquelas passivas que resultam de transformar em sujeito não o objeto direto mas sim o objeto indireto da ativa e a que chamavam, quando as aprendi em inglês, “passivas idiomáticas”, um nome completamente disparatado. É de notar que, no caso de Moçambique, não é por influência do inglês que estas passivas se fazem, mas por influência das línguas bantas que são línguas maternas da maioria dos falantes e que têm, como muitas línguas em muitos lugares do mundo, este tipo de passiva.

[4] Esta questão da inversão do sujeito em português tem muito que se lhe diga, mas guardo para outra ocasião o pouco que sobre ela sei dizer.

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