11 de julho de 2017

Sobre a negativa da injunção em língua de cão, ão-ão

Lembro-me de ter aprendido há muito tempo que há línguas em que se podem usar formas diferentes do imperativo do mesmo verbo, conforme se queira, por exemplo, dizer a alguém que está a comer uma coisa para parar de a comer ou dizer a uma pessoa que não deve comer uma coisa que ainda não começou a comer.

Em português, se é certo que «não comas isso» pode cobrir ambos os casos, também há maneiras de distinguir entre a injunção para parar de comer e a injunção para não começar a comer. A entoação é uma delas: o «não comas isso» desgostado de quem diz a outra pessoa para parar de comer uma coisa que descobriu estar bem fora de prazo, por exemplo, é muito diferente do «não comas isso» de alarme de quem pensa que a outra pessoa vai provar um fruto venenoso. Além disso, o imperativo da perífrase estar a comer ou estar comendo só se pode usar para mandar parar de comer – não se pode dizer «não estejas a comer isso» a quem ainda não meteu nada à boca.

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Mosaico romano, séc. II, Museu Arqueológico de Sousse, Túnisia. 
Wikimedia Commons, daqui.
Cada vez tenho mais a convicção de que a ideia da linguagem como capacidade exclusivamente humana não faz grande sentido. De que a linguagem humana é mais complexa que a linguagem de um cão, não tenho dúvidas, mas é apenas isso que ela é, mais complexa. Um cão, como muitos outros animais, tem também a capacidade de estabelecer relações de certos sinais com o mundo físico e os estados mentais dos seres vivos que o habitam – pelo menos...

Além disso, tenho também a certeza de que, ao contrário do que ouvi muitas vezes afirmar, os animais têm um sentido do porvir.
Uma amiga minha dizia-me há pouco tempo, depois de ter passado um bocado a fazer truques simples de prestidigitação à minha cadela, que era óbvio que os cães têm expetativas sobre o que se vai passar, donde decorre forçosamente um sentido de futuro, mesmo que, mais uma vez, provavelmente menos complexo que o nosso. É claro que tinha toda a razão.

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Agora, voltando aos imperativos negativos, tenho a ideia de que a minha cadela percebe facilmente a ordem para deixar de fazer alguma coisa („Nej!”), mas que não percebe a ordem para não iniciar o que não quero que ela inicie… A não ser, talvez, naquele momento em que já decidiu o que vai fazer, mas não teve ainda tempo de iniciar a ação...


1 comentário:

jj.amarante disse...

Não percebo como poderá alguém reservar exclusivamente para a espécie humana o sentido do porvir. É evidente por exemplo em qualquer cena de caça que quer o caçador quer a presa têm espectativas sobre o que o outro vai fazer e tentam contrariar o objectivo do oponente.

De uma forma geral a tradição judaico-cristã favorece a distinção entre os seres humanos e "o resto da criação". Existe fundamento para essa ditinção mas não tanto como é (ou era) hábito considerar.

Noutro plano mais elaborado li algures que os chimpanzés são capazes de mentir. É sinal que são capazes de imaginar um mundo diferente daquele em que vivem.