16 de abril de 2010

O guardião do Monte Namúli

Por muito que seja escrito em Chimoio, a Travessa do Fala-Só não é, como já terão notado os meus poucos leitores habituais, um blogue sobre Moçambique. Às vezes lá fala um bocadinho de Moçambique, mas é raro. A verdade é que, vá lá uma pessoa saber porquê!, raramente me saem textos sobre Moçambique. Hoje, ao jantar, porém, lembrei-me de uma história moçambicana engraçada, que achei que cabia bem aqui na Travessa, para variar um bocadinho de tema:

Perto de Guruè, na Alta Zambézia, fica o Monte Namúli, que é a segunda montanha mais alta de Moçambique e é, para as pessoas da região, os lómuès, o berço da Humanidade. Dizem que lá se podem ver as pegadas do primeiro homem. Mas não se devia poder. Quer dizer, ningém devia poder vê-las. Parece que as coisas mudaram um bocado desde que eu vivi na Alta Zambézia, e vi guias de viagens recentes que aconselham caminhadas no Monte Namúli, mas antigamente só se podia escalar a montanha até um determinado sítio. Ou antes só se devia. A partir daí, era proibido, porque era terra sagrada. O castigo de quem se aventurasse até à parte de cima do monte era (como é muitas vezes, nesta parte do mundo, o castigo de quem viola alguma regra costumária) a pessoa perder-se e nunca mais encontrar o caminho para casa. O que é original – e delicioso, na minha opinião – na lenda lómuè é a maneira como a pessoa se perde: se o guardião eterno da montanha lá apanhar alguém, começa a falar com essa pessoa tanto e tão depressa que a confunde completamente; e ela, de tão baralhada que fica, nunca mais encontra o caminho de volta.

Foto de Dr. Oliveira, Wikipedia Commons

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