20 de maio de 2010

Conversa de café, desabafo: de nómadas de luxo e cidadania

[Falo, para começar, de mim e de outra malta afim:]

Em Resistir ao para-a-frentismo, Pierre-André Taguieff refere dois tipos de «desenraizados, os nómadas de baixo, e [os] “nómadas de luxo” em movimento perpétuo», e critica violentamente o contexto político que, segundo ele, leva à sua existência:
Os moradores privilegiados dos novos espaços “democráticos” pertencem a duas categorias sociológicas, tipificáveis pelo novo-rico e pelo pária, respectivamente ilustrados pelos membros da “superclasse” transnacional e os representantes de todos os subtipos de excluídos (imigrantes segregados, minorias, sem abrigo, etc.). Moradores ocasionais, transitórios, contingentes.
Numa nota de rodapé, Taguieff explica quem é a “superclasse” de “nómadas de luxo”:
Digamos que os seus membros se caracterizam por uma extrema mobilidade, a ausência de qualquer preocupação cívica (não se imaginam nem solidários com os seus supostos “compatriotas” nem sequer seus contemporâneos) e um modo de vida ao mesmo tempo “cosmopolita” e ferozmente auto-segregado.
São os nómadas de luxo que aqui me interessam, porque eu devo ser um deles, e, ao contrário do que é costume, resolvi escrever sobre mim – e outra malta afim. Não se percebe bem, com aquele “compatriotas” entre aspas, se é no estrangeiro ou na sua nação que Taguieff acha que os “nómadas de luxo” deveriam ter a solidariedade e as preocupações cívicas que não têm. Além disso, como Taguieff não apresenta uma descrição mais rigorosa desta superclasse, e nem uns numerozinhos que nos dêem uma ideia dos seus rendimentos e dimensões, e nem uma provazinha do seu crescimento nos últimos tempos, que remédio senão cada um imaginar, ao ler o que ele escreve, aquilo que muito bem quiser. Conversa de café, chamo-lhe eu. Mas não faz mal, porque é precisamente conversa de café a minha conversa de hoje, um desabafo:

Que as pessoas sejam mais móveis hoje do que há alguns anos atrás não surpreende ninguém; mas inferir daí que há uma nova superclasse de desenraizados apátridas e apolíticos espalhada por esse mundo fora é ir longe demais, parece-me a mim. A maior parte das pessoas muito móveis que conheço são pessoas como eu, precisamente. Não afirmo que sejam a maioria das que existe e há, provavelmente, uma grande diferença de mentalidades entre, por exemplo, trabalhadores da cooperação para o desenvolvimento e engenheiros da Maersk; mas, dado que os outros “nómadas de luxo” são invisíveis aos meus olhos nos sítios por onde tenho andado, passo da terceira à primeira pessoa para defender a malta mais afim de mim: Somos ricos quando vivemos em Moçambique ou na Índia, mas somos apenas pessoas normalíssimas da classe média quando vivemos em países ricos. Que não nos interessa o mundo à nossa volta é simplesmente mentira, como é mentira que não participemos na sociedade onde vivemos. Podemos estar um pouco fora dessa sociedade, se vivemos em países pobres, por razões de ordem meramente económica, mas não mais fora do que as elites nacionais dessas sociedades (tal como as pessoas dessas elites, não usamos os sistemas públicos de saúde e educação, por exemplo). E, pelo que vejo, participamos até mais nas sociedades onde vivemos, onde vamos vivendo, do que muitos dos cidadãos, como dizer?, imóveis, fixos, estáveis, dessa mesmas sociedades.

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[E falo agora só de mim, que não sei se é o mesmo com outra malta afim…]

Agora, se se reduzir as preocupações cívicas à participação política em sentido estrito, é claro que Taguieff tem razão, até porque ela é, nalgumas das suas vertentes, vedada a estrangeiros. E se há coisa de que sinto falta, desde que saí de Portugal há 15 anos, é da possibilidade de participar activamente na vida política do sítio onde vivo. Sempre fiz política em Portugal e sempre critiquei quem passa a vida a dizer mal de tudo o que é política e políticos sem se empenhar politicamente. Não quero entrar demasiado em pormenores neste falar de mim, porque não é a descrição pormenorizada do meu percurso de vida que aqui interessa, mas, se, nestes últimos 15 anos, em que fui estrangeiro em 4 vilas e cidades em 3 continentes, houve ocasiões em que foi o meu desconhecimento da realidade, a inexistência de sociedade civil organizada ou a minha incapacidade de me exprimir fluentemente na língua nacional que me impedia de participar de alguma forma na vida pública local, noutras ocasiões não teria tido dúvidas em participar, se tivesse tido possibilidade o fazer e a minha participação pudesse ter sido aceite pelas pessoas do lugar como legítima e natural. A verdade, porém, é que o conceito de cidadão continua a ser demasiado restrito, tanto na letra das leis como na cabeça das pessoas, e o modelo tradicional de cidadania impede muitas vezes a participação de quem não viva muito tempo num país.

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[Por fim, não falo já de mim nem de malta afim, mas antes de cidadania, e assim…]

A ideia que eu tenho (mas é uma ideia vaga, reconheço, ainda por consolidar) é que é necessário ir de novo à raiz do conceito republicano de cidadania. O que distingue o conceito de cidadania de conceitos identitários mais antigos é que ele corta com a identidade herdada (a linhagem, a etnia, a casta, etc.), assumindo antes que o que faz que uma pessoa pertença a uma comunidade é viver nela, participar na vida dessa comunidade. Mas a cidadania republicana acabou por se tornar algo muito parecido com as outras formas de identidade. E é preciso, estou eu em crer, reflexibilizá-la. Se houve tempos em que viver numa comunidade significava normalmente viver nela toda a vida, hoje nem sempre é assim – para as “superclasses” de elites ultramóveis como para as infraclasses dos chamados migrantes económicos, a sociedade já não é a mesma do nascimento até à morte e, nalguns casos, muda até muitas vezes durante a vida. Mas não deixa por isso de ser, e independentemente da relação afectiva que com ela se tem, a sociedade em que efectivamente se participa, a sociedade em que efectivamente se vive.

Como se flexibiliza a cidadania, não sei. Tinha-vos avisado que era mais de desabafo que aqui se trataria, de conversa de café… Não tenho nenhuma proposta concreta e a discussão é complicada – e propícia a gerar conflitos (sobretudo quando se trata da cidadania dos imigrantes pobres, porque os nómadas de luxo não são em número suficiente para causar apreensão…). Mas enfim, ser complicada ou ser geradora de conflitos não é razão para não a ir tendo...

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