11 de dezembro de 2013

Pedra, papel e tesoura

O jogo pedra-papel-tesoura é muito conhecido, mas, para quem não conheça, aqui fica a explicação: jogam duas pessoas, que, à contagem de três – ou outra qualquer – apresentam ao adversário a mão numa de três posições: de punho fechado (pedra); com o indicador e médio esticados e restantes dedos dobrados (tesoura); ou aberta (papel). Cada uma das formas apresentadas pode ganhar a outra: a pedra ganha à tesoura (parte-a); a tesoura ganha ao papel (corta-o); e o papel ganha à pedra (embrulha-a).



Podia dizer-vos aqui várias coisas interessantes sobre o jogo. Por exemplo:

[1] Li na Wikipédia que há fenómenos naturais que reproduzem a lógica do jogo. As estirpes de bactérias Escherichia coli produtoras de antibiótico (colicina) superam as estirpes sensíveis ao antibiótico, que superam as estirpes resistentes ao antibiótico, que, por sua vez, superam as estirpes produtoras. E, entre os lagartos Uta stansburiana, verifica-se uma seleção sexual assente na frequência de três tipos com cores de pescoço diferentes, que se baseia também num mecanismo do tipo pedra-tesoura-papel. Mas eu não sei nada nada de bactérias nem de lagartos e, por isso, não posso, infelizmente, desenvolver aqui este ponto, nem torná-lo menos árido…

[2] Há um robô que ganha sempre às pessoas. É tão rápido a fazer batota que ninguém dá conta da batota que faz. De facto, o robô só dispara a sua posição depois de ter visto que posição a pessoa está a fazer. Mas, como o faz num milisegundo, ninguém se apercebe de que está a fazer batota.



[3] O nome mais comum do jogo em inglês, rock-paper-scissors, corresponde diretamente ao nome em português, pedra-papel-tesoura, mas, em dinamarquês, chama-se sten–saks–papir, que é como quem diz “pedra-tesoura-papel”. Porque se altera a ordem dos elementos? Talvez por aplicação da Lei do SegundMais Pesado… O linguista Claude Hagège postulou que, em binómios fixos, como mais ou menos, mais cedo ou mais tarde, etc. (incluindo aqueles em que os elementos não têm significado independente, como tiquetaque), há uma tendência natural e universal para pôr no fim o termo mais pesado, quer dizer, com mais sílabas ou sílabas mais graves. É bem possível que a lei se aplique também a expressões ternárias e papir venha no fim em dinamarquês porque é mais longo, como scissors e tesoura, mais longos, vêm no fim em inglês e português. Mas isto sou eu a especular.

***
Tudo isto é interessante, mas há outro aspeto do jogo que acho mais interessante ainda. Habituámo-nos a pensar com silogismos simples, também no que diz respeito a relações de poder entre pessoas: se X é mais forte que Y e Y é mais forte que Z, então X é mais forte que Z. Quem diz “é mais forte” pode também dizer “tem ascendente sobre”, “domina”, etc. Mas isto nem sempre funciona e o que acho mais interessante no jogo pedra-papel-tesoura é que dá conta duma outra lógica que governa às vezes as relações entre as pessoas: X é mais forte que Y, que é mais forte que Z, que é mais forte que X

1 comentário:

jj.amarante disse...

Tenho um exemplo duma relação de ordem não transitiva no fim deste meu post: http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2012/04/inumeracia.html.