12 de fevereiro de 2015

O motivo da sombra como origem do desenho

Giorgio Vasari, Autorretrato, 1561-1569
Em meados do século XVI, Giorgio Vasari pintou um fresco chamado Autorretrato, em que uma personagem se desenha a si própria, usando os contornos da sua sombra na parede.

Matías de Arteaga, A Origem da Arte da Pintura, 1665?

Cerca de 100 anos posterior a este fresco é um quadro chamado A Origem da Arte da Pintura, de Matías de Arteaga[1], que repete o motivo do desenho do contorno de uma sombra na parede. Não é agora um autorretrato que a obra representa, mas um homem que desenha, também numa parede, o contorno da sombra de outro homem, perante vários observadores. No dístico em baixo à direita, lê-se “Tubo [sic] de la sombra origen la que admiras hermosura en la célebre pintura” [“Teve na sombra origem a que admiras formosura na célebre pintura”].

Joachim von Sandrart, 1675
A estranha ideia de que se começou a desenhar contornando uma sombra surge em dois textos clássicos do séc. I, publicados com poucos anos de intervalo entre eles. No livro X da Institutio Oratoria (95), Quintiliano diz que, se todos se tivessem limitado a imitar os seus predecessores, “não haveria poesia superior à de Livius Andronicus, nem em História nada que ultrapassasse os Anais dos Pontifícios; os nossos barcos seriam ainda jangadas e a arte da pintura limitar-se-ia a contornar com um risco as sombras que projetam os corpos à luz do sol[2]”. No capítulo 12 do livro XXXV da sua História Natural (77-79), Plínio, o Velho, conta que Cora, a filha de um oleiro de Sicião chamado Butades, traçou numa parede o contorno da sombra nela projetada pelo rosto de um rapaz por quem estava apaixonada e que partia para o estrangeiro. O gravador alemão Joachim von Sandrart publica em 1675, na sua Teutsche Academie, uma gravura representando os dois textos fundadores da ideia. A imagem de Quintiliano, que era muito mais simples, nunca se tornou um motivo da pintura europeia; a de Plínio, porém, que era muito mais sedutora pela história de amor que incluía, foi, desde essa altura, pintada várias de vezes.

Para vos dar uma lista reduzida, a cena de Cora desenhando a sombra do seu amado foi pintada, no séc. XVIII e no séc. XIX, por Jean Raoux (1717), David Allan (1775), Joseph Wright (1784), Jean Baptiste Regnault (1785), Joseph Benoit Suvee (1793), Felice Giani (data desconhecida, início do séc. XIX), Heinrich Eddelien (1830), Karl F. Schinkel (1830), Eduard Daege (1832), Mariano Fortuny (1858) e Ignotas Mauricijus Ščedrauskas (1865).


La fanciulla di Corinto, de Felice Giani, início do séc. XIX e duas versões de Cora, A filha de Butades de Sicião, de Mariano Fortuny (1856-1858)
O motivo extravasa também da pintura. Particularmente interessante é esta fotografia e o seu título: “O primeiro negativo”.
Oscar Gustav Rejlander, The First Negative, 1857
Aparece nalgumas edições de obras de Johann Kasper Lavater uma máquina de desenhar silhuetas por ele concebida. Esta é uma das gravuras que a representam, desenhada por J. R. Schellenberg para uma edição inglesa de 1781, mas há outras imagens desta máquina. Não sei se alguma vez chegou a ser produzida e também não sei se o inventor se inspirou ou não na história de Plínio.

Agora, que se chame a estes quadros a “invenção” ou a “origem” da “pintura” ou do “desenho” mostra que, como seria talvez de esperar, a ideia se espalhou oralmente e não através da leitura de Plínio, já que a história original descreve não a invenção da pintura ou do desenho por Cora, mas sim da invenção da “arte de modelar retratos de barro” pelo seu pai (embora Butades tenha feito essa invenção “por intermédio dela”). O capítulo chama-se, aliás, “Os inventores da arte de modelar” e a história acaba assim[3]:
Aplicando-lhe barro a este contorno, fez um modelo em relevo, que cozeu depois com os seus outros trabalhos de cerâmica. Diz-se que este modelo foi conservado vários séculos no Santuário das Ninfas, em Corinto, até Lúcio Múmio destruir a cidade.



[Este pequeno artigo não tem muito de original, já que apenas reorganizei, acrescentando apenas um ou outro ponto, a informação e as pinturas já recolhidas noutros blogues, nomeadamente aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Há também várias obras mais modernas em que o motivo subsiste, mas começa a aplicar-se a novas personagens e a novos jogos de referência com intenções diversas. Encontram algumas delas nas cinco hiperligações no primeiro período deste parágrafo. Fico também sempre com muitas dúvidas sobre como se vê uma página com tantas imagens em ecrãs mais pequenos ou maiores que aquele em que foi concebida. Se a formatação vos surgir disparatada, peço desculpa, é obviamente uma das limitações deste formato de blogue. No meu ecrã, está tudo certo...]

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[1] O quadro encontra-se no Museu Nacional de Arte da Roménia. Segundo o site do Museu, o quadro é da autoria de Matías de Arteaga, se bem que encontre o nome Esteban Murillo na moldura. Noutros sites, bem menos fiáveis, é certo, o quadro é atribuído a Murillo, que foi professor de Arteaga. Segundo Jesusa Vega González, em Ciencia, arte e ilusión en la España ilustrada, o quadro era antigamente atribuído a Murillo, mas é atualmente atribuído a Arteaga.

[2] Traduzo eu, a partir desta e desta traduções inglesas.

[3] Traduzo eu desta tradução inglesa

1 comentário:

Vam Vam disse...

grande momento de leitura imagens e uma boa ajuda para compreender este enigma de cora.