17 de janeiro de 2018

Cor de burro quando foge, vinho a martelo e… o pau da gávea das caravelas

Uma coisa que parece agora estar na moda é arranjar novas explicações, tão complicadas como falsas, quando não completamente disparatadas, para expressões cuja origem não é óbvia para a maior parte das pessoas.

Há, por exemplo, quem afirme que a expressão cor de burro quando foge tem origem em corro de burro quando foge (ver aqui um exemplo de um desses artigos que não diz nada que se aproveite).
Burro muda de cor quando foge??? Qual cor ele fica??? Porque ele muda de cor??? Eu queria porque queria ver um burro fugindo para ver a cor dele! Sério! O correto é: ‘Corro de burro quando foge!
Não faz grande sentido e, de facto, confunde mais do que explica seja lá o que for. Em que contexto pode «corro de burro quando foge» – frase estranhíssima, aliás – evoluir para passar a designar uma cor indefinida? Ora, francamente…

Uma hipótese menos disparatada é que, como burro pode ter designado uma cor apenas, antes de ter começado a designar o animal, a expressão derive de uma cor de burro antiga, a que se tenha acrescentado quando foge com intenções humorística, quando burro já não era senão o nome do bicho (vejam aqui). Mas é uma discussão muito especulativa, e, sobretudo, passa ao lado de um facto simples que não se pode ignorar em nenhuma proposta de explicação da expressão: tanto em castelhano como em italiano existe a expressão «cor de cão que foge», com o mesmo significado –respetivamente color perro que huye e colore del cano che fugge. Ora não me parece que perro ou cane alguma vez tenha sido, nestas línguas, nome de cor. A partir de que língua se difunde a expressão ou se vão as três buscá-la a outra língua, eis o que haveria que descobrir...

Interlúdio musical:

Outra explicação delirante do mesmo tipo é uma que há da expressão vinho a martelo, por exemplo aqui:
A expressão remonta ao século XX quando o Engenheiro Simão de Martel descreveu os dados estatísticos oficiais da produção de vinho como muito enganadores. 
Eu sei bem que estas explicações «etimológicas» são sedutoras e, como até podem parecer lógicas à primeira vista, é fácil aceitá-las. Mas eu sou um chato. Para já, quando leio «A expressão remonta ao século XX» fico logo com uma ideia clara do rigor do que segue. Num texto escrito em 2014, dizer que a expressão «remonta ao século XX» é um bocado disparate, para não dizer mais. Mas adiante…
A questão que me surge de imediato é que o facto de Simão de Martel ter criticado as estatísticas da produção de vinho (penso que isto se refere a um estudo dele de 1911 que é muito citado, mas não tenho a certeza) não explica em nada a expressão. Começa por ser «a Martel»? Com que lógica se usa aquela preposição? Mais uma vez, não faz grande sentido.

Ora, na realidade a expressão é anterior a Simão de Martel. Para dar um exemplo apenas, vejam aqui que, em 1885, tinha Simão de Martel 6 anos de idade, já se falava de vinho a martelo, não só em Portugal, mas também no Brasil:
Os vinhos continuam a dar que fallar de si. Uns querem que elle só seja extrahido das uvas. Outros, porém, contentam-se de que elle seja feito—a martello.  
A verdade é que não é preciso ir buscar explicações esotéricas. Infelizmente, não tenho à mão dicionários com datações de primeiras ocorrências, mas a expressão a martelo deve ser bem mais antiga. Parece-me claro que significa inicialmente «à força; à bruta» e o significado alarga-se facilmente para «mal feito, feito de qualquer maneira» e daí para «contrafeito». Como o explica, aliás, Gonçálvez Viana nas suas Apostilas aos Dicionários Portugueses, de 1906:
martelo, marteleiro
— «O paiz está cheio de mixórdias, abarrotado de vinho a martello... Sabem os poderes publicos, porque conhecem e convivem com os marteleiros» — O sentido de vinho a martelo é evidente; quere dizer «vinho aldrabado», e a locução a martelo pertencia à língua comum, querendo dizer «à fôrça», «sem dever ser».
Muita fortuna tem também tido uma explicação completamente disparatada da expressão mandar/ir para o caralho. Sobre essa, não preciso de escrever nada eu, basta-me citar a Wikipédia, que, numa nota de rodapé à discussão etimológica da palavra, a desmonta bem:
Às [as várias etimologias propostas] (…) acrescentou[-se] muito recentemente uma lenda urbana em circulação na Internet que, tanto em português como em castelhano, alega que caralho ou carajo era o nome dado ao pau maior da cesta ou gávea das antigas caravelas, e que seria essa a origem desta designação de caralho para o membro viril masculino. Tudo parece indicar que a lenda nasceu de uma tentativa de explicação para as frases "¡Vete al carajo!" ou "Vai para o caralho!", que supostamente se refiririam [sic] ao castigo que recebiam alguns marinheiros a quem se obrigava a subir à gávea, onde estavam os vigias, e aí permanecer algum tempo. O uso do termo caralho está documentado, no entanto, em épocas muito anteriores à das caravelas portuguesas ou castelhanas, pelo que se a gávea alguma vez teve esse nome era, como no caso do carall bernat catalão, por metáfora ou exagero de semelhança entre o caralho e o pau maior onde encaixava essa cesta, que seria a ponta do caralho.
É caso de dizer que apetece pôr de castigo na gávea quem, inventa e difunde estas – e muitas outras – patranhas…

2 comentários:

jj.amarante disse...

Já não me lembro de ver explicações razoáveis dessas frases idiomáticas. Essa da cor do burro quando foge parece-me auto-explicativa, o quando foge é uma expressão de realce pois quando ele está a fugir, a afastar-se do observador, a parte visível é a traseira, que ocupa menos campo visual do que quando se vê o burro de lado, sendo ainda mais difícil identificar uma cor já de si bastante incaracterística.

Ouvi uma vez uma explicação para "Quem tem boca vai a Roma" tão despropositada que já nem me lembro como era.

Mas agora é mais fácil procurar na net versões da mesma frase noutras línguas, sobretudo europeias para eventual validação de explicações à primeira vista razoáveis.

E tenho-me surpreendido com a frequência com que uso estas frases feitas quando falo com estrangeiros em inglês, francês ou portunhol. A maior parte das vezes não conheço o equivalente e as traduções literais destas frases são quase sempre más.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Pois, também vi alguém escrever que «quem tem boca vai a Roma» devia ser antes «quem tem boca vaia Roma». Tanto disparate, enfim... O provérbio, que é aliás bastante transparente, existe em várias línguas. Só em italiano tem duas versões (com inúmeras variações regionais): «chi ha lingua in bocca, va fino a Roma» (ou «in Sardegna») e «chi lingua ha, a Roma va». Em espanhol, também se diz «El que lengua (ou «boca») tiene, a Roma va» e em francês também: «Qui langue a, à Rome va». Alguns provérbios, como «todos os caminhos vão dar a Roma» existem não só nas línguas latinas, mas também nas línguas germânicas, pelo menos.

É claro, há muitos provérbios e expressões que são locais e não têm uma tradução literal consagrada. Destes, há dois tipos:

Alguns são uma imagem e podem ser compreendidos por quem não os conheça, pelo menos em certos contextos. Por exemplo, se eu traduzir literalmente para português a expressão dinamarquesa «da ruder konge var knægt» por «quando o rei de ouros ainda era valete», em contexto, compreende-se sem dificuldade que isso quer dizer «há muito tempo». Às vezes, os usos de expressões literalmente iguais são restritos numa determinada língua. Por exemplo, em francês, diz-se «en huit» para as rodas de bicicleta acidentadas, mas não se diz «ficar feito num oito» de uma pessoa, como se diz muitas vezes em Portugal. Mas, como conhece a expressão da bicicleta, um falante do francês talvez compreenda, como metáfora que de facto é, a expressão portuguesa noutros contextos.

Outras expressões não são imagens e só quem as tenha aprendido as pode compreender. Por exemplo, «arriar a giga» ou «estar com os azeites». Estas expressões são muitas vezes chamadas expressões idiomáticas, mas é uma designação enganadora (devia ser antes «expressões locais» ou «expressões culturais»), porque não chega ser falante do idioma para as compreender: um brasileiro, por exemplo, não compreenderá as duas expressões que utilizei como exemplo.