22 de junho de 2018

Drofo e drofa e a língua ao contrário

Em vários sítios se usa a inversão dos sons das palavras – normalmente das sílabas – como forma de criar palavras novas, incompreensíveis para quem não conheça o truque. Dois casos conhecidos de códigos de inversão são o verlan, em França, e o vesre, no castelhano do Rio da Prata, mas há outros, como o podaná grego, o back slang londrino e o šatrovački servo-croata.

Não sei até que ponto é correto chamar calões a esses códigos, mas normalmente têm em comum com o calão propriamente dito as situações em que é utilizado e os utilizadores, além de que muitas dessas palavras acabam por entrar no calão propriamente dito, perdendo-se até às vezes a consciência de que são inversão de outras palavras. Para dar exemplos do francês, que é único caso que conheço bem, a palavra barjot em francês era já usada antes de o verlan entrar na língua corrente, sem as pessoas terem consciência que era um verlan de jobard; e, atualmente, termos como beur/beurette, keuf, keum e meuf, entre muitíssimos outros, entraram no calão geral e são usadas mesmo por quem não fala verlan.

 Agora, é curioso que, mesmo quando o processo de inversão deixou de se utilizar, persistem palavras formadas desta maneira. Um caso famoso é o fika sueco, mas encontrei também há uns tempos (e foi isso que motivou este texto) um exemplo em português.

Sempre conheci as palavras de calão Drofo e drofa (que aliás usei aqui no texto mais conhecido do blogue), com o significado de «Porto» (a cidade) e «porta», respetivamente, e muitas vezes as dei até como exemplo de como o calão segue de perto a língua standard, mas não fazia ideia da sua origem. Ora em Os Ciganos Portugal, com um estudo sobre o calão, memoria destinada á X sessão do congresso internacional dos orientalistas (Lisboa: Imprensa nacional, 1892, p. 119), escreve Francisco Adolfo Coelho, no capítulo sobre «Processos de formação do calão»:
No calão as inversões podem ser simples ou acompanhadas de outras modificações; as da primeira espécie são raras. Exemplos d'inversão simples: safo (lenço) por *fasso (d'onde falço, Bluteau), como vimos, de origem italiana; zouca por cousa; tapor por porta. Nos seguintes exemplos houve mais ou menos consideráveis modificações dos sons invertidos ou outras modificações concomitantes: soquinha por *zoquinha, de port. cozinha; lofo por *folo, de fr. fol; macallo por *vacallo, de port. cavallo (…); chona, choina, de hisp. noche; drepa por *drespa, *trespa, de port. presta; dropa por *drepa, de port. pedra; drofa por *trofa, *tropa, de port. porta; Drofo por *Trofo, *Tropo, de Porto (cidade). 
Evidentemente, como sempre em questões de etimologia, fica espaço para dúvidas, sobretudo quando há tantas formas intermédias não atestadas (por convenção, o * indica que a forma é deduzida pelo autor, mas não está atestada). Também é certo que, se a hipótese explica o estranho paralelo de porta/Porto com drofa/Drofo, esse paralelo pode explicar-se sempre de uma forma simples, independentemente de que origem se pressuponha para uma das palavras, considerando que a outra foi derivada dela seguindo, precisamente, o modelo do português standard. Mas não deixa de ser uma proposta interessante. Também me parece interessante a proposta etimológica de chona/choina. É termo que desconheço, mas que os dicionários registam como com o significado de «noite» num registo coloquial e de que deriva chonar, calão muito difundido para «dormir».

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