23 de novembro de 2007

Nem o mal é um direito / nem o bem é um dever

Imaginem que era assim: que a vida tinha uma lógica, um sentido, e que a morte chegava sempre no momento certo, quando a vida tinha sido já cumprida e não havia mais a viver. A proposta está longe de ser nova. Muita gente viu já, em momentos de arrebatamento místico, uma harmonia nisto tudo em que a maior parte de nós não consegue ver senão desordem. Lembro-me de uma nota de rodapé num livro bastante pateta que li na minha juventude, em que se fazia esta proposta muito menos pateta que o resto do livro: nirvana, que significa “ausência de sopro”, pode ser interpretado como morte, simplesmente, e o budismo bem pode ser, afinal, uma doutrina que afirma a perfeição da natureza, onde tudo acontece no momento certo. Uma canção bem bonita* diz a mesma coisa de uma forma talvez mais directa: “…até que a plenitude e a morte / coincidissem um dia /, o que aconteceria / de qualquer jeito…” .

No caso do poeta Alexandre O’Neill, parece-me que é verdade, que a plenitude e o fim coincidiram de facto. No caso do poeta Alexandre O’Neill, digo bem, que do homem nada sei. Vejam este poema do seu último livro, O princípio da utopia, o princípio da realidade seguidos de Ana Brites, balada tão ao gosto português & vários outros poemas (Lisboa: Moraes, 1986):

Muito desgosto te espreita
ao longo da tua vida,
mas a vara está direita:
tua missão foi cumprida.

E quando, por teus pecados,
te pesarem na balança,
tira-te dos teus cuidados:
tens pecados de criança.

Tens de pensar, meu rapaz,
duas vezes no teu curso.
A primeira, se és capaz,
será a segunda vez:
se foste capaz, meu urso!

E assim, à boa fé,
não te esqueças, meu otário:
é remar contra a maré
quando esperam o contrário.

Se na balança pesa igual
o que aos olhos dos mortais
passa por bem ou por mal,
muito bem ou muito mal
em tudo serão iguais.

Quero eu dizer cá na minha
que a pública virtude
só ilude quem ilude,
só no palco é a rainha.

Que o virtuoso a valer
não precisa de exibir
a virtude que tiver
no seu afã de existir.

E assim, o corpo da vara
direito sempre há-de ser.
Nem o mal é um direito
nem o bem é um dever.

Não sei se é o melhor poema do livro ou até se é um grande poema... Sei que é o penúltimo do livro, mas deve ser por engano. Devia ser o último, porque é a prova daquilo que eu dizia lá atrás sobre o poeta O’Neill… a poesia de O’Neill… ter chegado ao fim no momento certo. Não pensem que digo isto por se tratar de um poema de balanço da vida ou por descortinar entre as linhas a serenidade de quem a morte já não assusta. Não, não é isso, a minha ideia é outra: depois de escrever um poema assim, que mais se há-se escrever?
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* “Janelas Abertas nº 2”, de Caetano Veloso. Parece que a canção é inspirada em Castillo Interior o Las Moradas (1588), de Santa Teresa de Ávila...

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