18 de janeiro de 2008

Dawkins: pontos fortes e pontos fracos

Li nas férias The God delusion, de Richard Dawkins [Londres: Black Swan, 2007]. O livro tem, de facto, características de um best-seller: é um page turner, como dizem os ingleses (quando o comecei a ler, adeus banhos de mar, passei dois dias colado a ele) e tem muitas passagens que apelam bastante aos sentimentos. Mas bom, não é um romance de amor nem de mistério – é um ensaio em que se ataca a ideia da existência de Deus e é uma apologia séria de um ateísmo activo.

Sendo Dawkins um cientista famoso, seria de esperar que os capítulos que tratam de ciência (defesa do darwinismo contra o “design inteligente”, teorias da psicologia evolutiva sobre a cultura e religião, etc., etc.) fossem a parte mais interessante do livro. Mas não são, na minha opinião. A parte política e moral é mais interessante. Quando sai da biologia e entra, por exemplo na sua controversa teoria dos memes como unidades culturais, Dawkins fraqueja, e chega até a fazer afirmações claramente incorrectas. Vou puxar a brasa à minha sardinha e falar da parte respeitante a língua.

Primeiro, Dawkins explica o conceito de deriva genética (traduzo eu e perdoem-me os eventuais erros de tradução, não estou a habituado a lidar com este tipo de linguagem em português):

Mesmo num modelo evolutivo, não tem de haver nenhuma selecção natural. Os biólogos reconhecem que um gene se pode espalhar numa população não por ser um bom gene mas simplesmente por ser um gene com sorte. Chamamos a isto deriva genética. A importância deste fenómeno relativamente à selecção natural tem sido objecto de controvérsia. Mas é agora amplamente aceite sob a forma da chamada teoria neutra da genética molecular. Se um gene mutar para uma versão diferente dele próprio que tem um efeito idêntico, a diferença é neutra, e a selecção não pode favorecer nem uma nem outra versão do gene. Ainda assim, pelo que os estatísticos chamam erro amostral ou variabilidade amostral ao longo de gerações, a nova forma mutante pode acabar por vir a substituir a forma original no acervo genético. Trata-se aqui de uma verdadeira mudança evolutiva ao nível molecular (ainda que não se observe mudança no mundo dos organismos completos). É uma mudança evolutiva neutra que não deve nada à vantagem selectiva.

Até aqui, muito bem. Depois, Dawkins passa à aplicação do conceito ao universo da cultura, nomeadamente à religião e às línguas. Continua ele:

O equivalente cultural da deriva genética é uma opção convincente, uma opção que não se pode desprezar ao pensar sobre a evolução da religião. As línguas evoluem de uma forma quase biológica e a sua evolução não parece ter um rumo definido, muito à maneira da deriva genética. São passadas de pais para filhos por um análogo cultural da genética, mudando lentamente ao longo dos séculos, até que vários ramos tenham divergido ao ponto de se tornarem mutuamente ininteligíveis. É possível que alguma evolução da língua seja guiada por uma espécie de selecção natural, mas esse argumento não parece muito convincente. Explico mais adiante que essa ideia foi proposta para importantes tendências da língua, como a Grande Mudança Vocálica que se deu no inglês, do séc. XV ao séc. XVIII. Mas uma hipótese funcional desse tipo não é necessária para explicar a maior parte do que observamos. Parece provável que a língua normalmente evolua pelo equivalente cultural da deriva genética aleatória. Em diversas partes da Europa, o latim evoluiu sem rumo específico tornando-se espanhol, português, italiano, francês, romanche e os vários dialectos destas línguas. Não é, no mínimo, nada óbvio que estas mudanças evolutivas reflictam vantagens locais ou “pressões de selecção”. (…) Pode pensar-se que certas vogais ou consoantes se propagam melhor em terrenos montanhosos, e poderiam, por isso, tornar-se características, digamos, dos dialectos suíços, tibetanos e andino, ao passo que outros sons seriam mais apropriados para murmurar em florestas densas e seriam, assim, característicos das línguas dos pigmeus ou da Amazónia. Mas o exemplo que eu dei de a língua ser seleccionada naturalmente – a teoria de que a Grande Mudança Vocálica possa ter uma explicação funcional – não é deste tipo. (…) Uma vogal mudou primeiro, por razões desconhecidas – talvez porque se tenha tornado moda imitar um indivíduo admirado ou poderoso, que é o que se diz estar na origem da pronúncia “sopinha de massa” do “z espanhol”. Não importa como começou a Grande Mudança Vocálica: segundo esta teoria, depois de ter mudado a primeira vogal, as outras vogais tiveram de mudar também, para reduzir ambiguidade, e assim sucessivamente numa reacção em cadeia.

Ora bem, a aplicação do conceito de deriva genética à evolução linguística é pertinente na medida em que não há efectivamente pressão selectiva que justifique essa evolução. Como Dawkins diz e muito bem – e ao contrário do que pretendem algumas teorias intuitivas –, nenhuma língua, enquanto estrutura fonética e sintático-semântica, é mais ou menos adaptada ao meio em que é falada do que outra língua qualquer. Lembro-me de que, em rapaz, quando acreditei poder “constatar” que em português, francês e inglês, as vogais dos sotaques mais setentrionais eram mais “fechadas” do que as vogais dos sotaques mais meridionais, criei uma teoria segundo a qual o frio deveria ter influência na abertura das vogais. Mas era, obviamente, uma ideia de quem não percebia nadinha de língua – que era o meu caso nessa altura… Ainda há pouco tempo, um amigo meu (um homem culto e sem tendências para o delírio metafísico, note-se) me propôs que, se o português europeu e o holandês têm sonoridades tão parecidas, deve ser porque são ambas línguas de marinheiros e esses sons devem ser naturalmente adaptados à vida no mar. Evidentemente, estas ideias são completamente estapafúrdias para quem tenha um mínimo de conhecimentos sobre língua – ou até mesmo para quem, sem saber muito de língua, se dedique a analisar as contradições relativamente evidentes de teorias deste tipo… [Muitos argumentarão que, se isso é verdade para os aspectos fonéticos e sintático-semânticos, já não se passa o mesmo do ponto de vista lexical. A discussão é mais complicada e eu deixo-a agora de lado, com a vossa licença.]

Mas enfim, se o conceito de deriva genética parece aplicar-se à evolução linguística (este “parece”, é uma maneira de eu dizer que não me quero aventurar numa discussão da pertinência real da metáfora biológica na evolução linguística), o facto é que Dawkins faz afirmações sobre a questão que pecam por uma imensa falta de rigor e podem levar os menos entendidos no assunto a ficar com uma ideia falsa de como se processa a evolução linguística – que é precisamente o que ele parece ter. Senão vejamos:

A ideia de que de uma mudança linguística (além da introdução de palavras ou expressões, que não é uma mudança linguística em sentido estrito) pode ter origem na influência de um indivíduo é um mito. Um mito infelizmente muito espalhado, mas um mito. As línguas são sistemas demasiado coesos para se deixarem assim abalar por tão pouco. E a ideia concreta que foi o falar de um rei que deu origem à pronúncia actual do “z espanhol” (dito assim para simplificar) é um mito um bocado sem sentido, por um lado porque ninguém copia defeitos de fala, por muito que venham de reis, mas, sobretudo, porque quem é sopinha de massa não o é só em determinadas palavras e deixa de o ser noutras, e o s espanhol nunca passou a pronunciar-se como o z (excepto em muito poucas regiões em que se deu a anulação da distinção). De facto, o som que deu origem ao “z espanhol” era já diferente do som do s antes de se começar a pronunciar assim, e pronunciar-se assim era uma das opções disponíveis para conservar a diferença. Aliás, o ç e o c antes de e e i eram pronunciados também em português de uma forma diferente do s até que se anulou essa diferença no Sul do país e se alargou depois essa pronúncia “empobrecida” a todo o país, excepto a falares rurais de Trás-os-Montes, onde ainda há pouco tempo persistia – eu cheguei a ouvir pessoas fazerem essa diferença.

Mas desculpem a digressão. Propor uma coisa assim é bastante descabido e, claro está, não fui eu o primeiro a notar esta falha grave num trabalho que se quer de rigor científico. Para quem esteja interessado, há uma discussão pormenorizada da questão num fórum de discussão do próprio site de Dawkins, em que um Daniel Chiara e uma Kaja Brix desmontam o erro em pormenor.

Poderiam ainda apontar-se outras pequenas falhas nas passagens que citei e na que imediatamente se lhe segue, mas não quero entrar aqui em grandes discussões sobre evolução das línguas. Agora, para quê estar a insistir aqui num errozinho destes, quando esse erro até nem é importante por aí além para aquilo que Dawkins quer demonstrar, que é a pertinência do seu conceito de memes? É precisamente essa a pergunta que alguém faz no já citado fórum de discussão. E o também já referido Daniel Chiara responde, e muito bem:

Tem razão quando diz que a referência que ele faz é só de passagem, e que, de certa forma, o rigor dessa referência não é importante por aí além para o que ele quer demonstrar. No entanto, vistas as coisas de outra forma, o facto de o erro dele ser tão grande não só empobrece a discussão em questão (imitação e memes), mas possivelmente qualquer outro argumento apresentado por analogia a matérias fora da especialidade do Sr. Dawkins. O leitor pode facilmente ficar a pensar: “Se ele é tão leviano na recolha de dados para as suas analogias linguísticas, que confiança se pode ter no resto da informação citada ao longo do texto?”

Foi exactamente o que eu pensei ao ler aquela passagem…

O que não significa que o livro de Dawkins não tenha pontos fortes, que os tem. Eu não sou bem o leitor ideal de um livro assim, porque sou um convertido à partida à causa de Dawkins, mas, como o que é óbvio para uns não o é para outros, acho importante que se insista nalguns pontos:

No que respeita a tolerância religiosa, chega de tolerar apenas: é preciso que os ateístas comecem a reivindicar os seus direitos e o respeito das leis – que são, uns e outras, frequentemente atropelados pelas religiões e pelo seu poder [notem que ateísta aqui não é um anglicismo – a palavra existe mesmo em português –, mas mais a tentativa de distinguir quem professa e defende seriamente o ateísmo como princípio filosófico de que não acredita em deuses… sem mais].

Não se pode admitir, como Dawkins assinala e muito bem, que se incluam menores nas contagens das percentagens de fiéis de religiões. Se uma filha de uma marxista ou de uma liberal não é contada como marxista ou liberal, por que é que uma filha de uma cristã ou de uma muçulmana é considerada cristã ou muçulmana?

Não se pode admitir que, por tradição ou regulamentos especiais, as religiões gozem de privilégios especiais (por exemplo, o caso da concordata de Portugal com o Vaticano, que é, bem vistas as coisas, contra a constituição …).

Não se pode admitir a incoerência fundamental que é a de a fé bastar como argumento apenas na discussão das questões religiosas (já viram alguém defender-se em tribunal dizendo que acredita sinceramente não ter estado naquele lugar àquela hora?).

Chega também de considerar a religião um fenómeno natural e necessário à psique humana – se há tanta gente que vive bem sem ela, por que é que ela é assim tão natural e necessária?

E há que responder taco a taco a toda a argumentação pseudocientífica do criacionismo, tome lá ela que forma tomar. Acho que a história recente prova bem que não querer rebaixar-se a “discutir patetices” não dá muito bons resultados – além de que a postura de recusar uma discussão, seja lá ela qual for, não é moralmente aceitável. Para os ateístas, quero eu dizer. Para os religiosos, é um princípio de base da sua fé…

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