11 de março de 2008

A língua: elemento de identidade, mas nem escantilhão nem espelho da cultura

Contou-me uma amiga guatemalteca que uma vez, na Bolívia, uma senhora da elite criolla lhe começou a falar mal dos indígenas bolivianos, assim como se esperasse dela alguma cumplicidade:
“Sabe lá”, dizia a mulher, “o que são estes índios – são estúpidos, mentirosos, traiçoeiros, o pior que se possa imaginar…”
A minha amiga respondeu‑lhe, entre surpreendida e indignada:
“Pois olhe, eu sou indígena e prezo a minha língua, a minha cultura e a minha gente!”
“Ah, mas você não é como estes daqui”, disse-lhe a mulher, obviamente sem compreender o efeito das suas afirmações na minha amiga, “você não fala como eles.”

Para um criollo do planalto boliviano, a maneira de falar da minha amiga guatemalteca é reconhecida como sendo “fina”, mais “fina” inclusive que a maneira de falar dos próprios criollos locais. E, como acontece muitas vezes, isso pode ser levado mais em conta que o próprio tipo físico – a amiga de quem vos falo tem um tipo marcadamente indígena, por exemplo.
Muitas vezes vi portugueses serem discriminados, em França ou na Suíça, por gente que, a mim, não me discriminava. E era claro que o que motivava essa diferença na maneira como eu era tratado relativamente à maneira como eram tratados esses outros portugueses era uma apenas – eu falo um francês reconhecido como “correcto” e “elegante”, ao passo que eles não.

Tudo isto para dizer que a língua é um elemento essencial da identidade. É verdade que temos sempre tendência a reconhecer como fazendo parte do mesmo grupo que nós uma pessoa que fale como nós. Mas também se tem exagerado muito quando se fala da relação entre língua e cultura…

Um mito que, nascido da linguística e da antropologia, extravasou para o chamado “senso comum” é a ideia que a língua modela a nossa maneira de ver o mundo. A ideia vem sobretudo de um senhor chamado Benjamin Lee Whorf, que, quando estudava uma tribo norte‑americana, os Hopi, ficou muito surpreendido com o facto de o sistema verbal deles não ser organizado à volta de conceitos como passado, presente e futuro, mas de algo que ele definiu como “o manifestado” e o “não manifestado” e concluiu daí que os Hopi, como tinham “outros conceitos” na sua língua, não podiam percepcionar o mundo como, por exemplo, quem falasse inglês. A língua, dizia ele, cria hábitos a nível do pensamento que agem sobre a cognição.

Onde é que está o erro de uma tão elegante e sedutora proposta? Quando se fala de categorias linguísticas, o erro está na confusão entre forma e conteúdo e no desconhecimento da realidade linguística do mundo. Há muitas maneiras de distinguir entre o que Whorf chamava o “manifestado” e o “não manifestado” sem ser através das formas verbais, e há, além disso, outras línguas em que as formas verbais também marcam distinções do mesmo tipo da que surpreendeu Whorf. Tudo leva a crer que a maior parte dos conceitos operativos em todas as línguas, como os que se relacionam com tempo, espaço, modo, quantificação, qualificação, etc., etc., não estão de modo nenhum relacionados com formas específicas. Não me interessa entrar aqui em pormenores, mas o facto é que, quanto mais sabemos de todas as línguas do mundo, mais sabemos que são constituídas pelas mesmas categorias e pelas mesmas possibilidades... que se manifestam de formas diferentes e através de formas diferentes.

Mas há também uma vertente lexical da questão: a de saber se há conceitos ou tipos de conceitos que, não havendo palavra para os definir especificamente, simplesmente não existem? Ou todos os conceitos existem fora das palavras? Alguns dos conceitos de objectos, processos, ideias, etc., parecem ter uma relação mais directa com as palavras que os referem do que os conceitos mais abstractos que referi acima, mas o facto de não haver palavra para dizer uma coisa não me impede de pensar nela – é por isso que se pensa em coisas em que ninguém pensou antes e só depois é que se lhes dá um nome... Além disso, mesmo que admitamos que a língua pode, de alguma forma, influenciar a maneira como introduzimos cortes no continuum que a realidade é (por exemplo no caso das cores ou na classificação em grupos de plantas ou animais), a percepção de todos os humanos é igual (excepto no caso de anomalias, claro está), de maneira que uma pessoa que fale uma língua em que não haja, por exemplo, a distinção básica entre azul e verde continua a ver as mesmas cores que eu e pode, se precisar de o fazer, ultrapassar a lacuna existente na sua língua, criando uma maneira de referir a diferença.

[Abro aqui um parêntesis para esclarecer que há várias línguas em que a distinção entre azul e verde não existia ou não existe no léxico de forma evidente, embora se a possa dizer (claro!). Em vez de desenvolver aqui o assunto, mando-vos à página da Wikipedia em que se trata a questão, página essa em que se dá conta também da interessante tese de Brent Berlin e Paul Kay segundo a qual há um padrão universal de evolução linguística relativamente às palavras que designam cor. Quero só notar que: i) no que respeita concretamente às cores, a tese de Whorf foi logo criticada no início dos anos 50, com base em métodos mais rigorosos do que as “observações” do linguista americano; que ii) quando se trata de cores, todas as línguas são imprecisas, donde a necessidade de criação propositada de vocabulário especializado nesta área, que é desconhecido da maior parte dos falantes; e que iii) a distinção entre azul e verde não é ou não foi de modo algum a única a faltar em determinadas (todas?) as línguas – o cor-de-laranja, por exemplo, é uma cor com designação específica recente em muitas línguas europeias, em que era, até há pouco tempo, designado como um tipo de amarelo ou um tipo de vermelho.]

Por tudo isto, há que ter muito cuidado com as generalizações fáceis sobre a maneira como a mundovisão é influenciada pela língua. A mesma língua, com pequeníssimas diferenças, pode ser falada em culturas completamente diferentes e culturas muito parecidas podem usar línguas completamente diferentes. Veja-se o caso dos zimbabueanos ou sul‑africanos de língua materna inglesa, que têm, muitos deles, um inglês muito próximo do inglês de Inglaterra e que, no entanto, têm uma cultura que é, em muitos aspectos, muito, muito pouco inglesa; ou, para continuar aqui na região, o de alguns moçambicanos que falam um português quase igual ao meu sem que isso os faça de modo algum ter uma cultura portuguesa; ou no caso dos bascos de língua materna basca (euskera), que têm uma cultura muito semelhante, se não exactamente igual, à do resto dos espanhóis, mas que têm uma língua que nem indo‑europeia é. Se a língua moldasse a maneira de ver o mundo, um finlandês de língua materna finlandesa teria de ver o mundo de uma maneira completamente diferente de um finlandês de língua materna sueca, porque a diferença entre as duas línguas é enorme (muitíssimo maior do que entre o sueco e o português, por exemplo), mas não é com certeza esse o caso. E podia dar dezenas de outros exemplos, mas passo antes ao ponto seguinte da conversa, que diz respeito a outra ideia bastante divulgada em que eu também não acredito: a ideia de que a língua reflecte a sociedade.

Muitas pessoas acreditam que um estado determinado da evolução da língua num determinado espaço geográfico reflecte o estado dessa sociedade. Isto não só não pode ser provado, como, em muitos casos, pode ser demonstrado o contrário. É claro que não se pode negar completamente a influência das evoluções dos fenómenos sociais sobre a evolução da língua. Mas essa influência, nos casos em que existe, está longe de ser imediatamente perceptível. Uma das dificuldades é estabelecer com rigor quando é que são as condicionantes que vêm do interior do sistema linguístico – que goza sempre de uma relativa autonomia em relação aos outros sistemas (económico, cultural, político, etc.) – que vingam sobre os outros tipos de constrangimentos. É bem provável que o quase desaparecimento, nas línguas escandinavas, da forma “de respeito” da 2ª pessoa do singular seja o resultado de uma desierarquização dessas sociedades, mas não é por haver uma oposição entre du e Sie em alemão que a sociedade alemã é mais hierarquizada que a sociedade inglesa (longe disso!...), em cuja língua essa oposição desapareceu, excepto em raras variantes regionais, há já muito tempo… [Bom, no caso do inglês foi, de facto, como no espanhol da Argentina ou no Português do Brasil, a forma de tratamento informal (thou) que desapareceu. O que também não significa que tenha havido uma hierarquização das sociedades onde o fenómeno se deu…]

Entretanto, a discussão continua entre os que querem mudar o mundo: Para acabar com as discriminações várias que há, insiste-se em lutar contra as palavras e as expressões que se crê que modelam ou que espelham essa discriminação? Ou deixa-se a língua de lado e tenta mudar-se apenas a sociedade, acreditando que a maneira discriminatória de referir grupos de pessoas desaparecerá naturalmente com a mudança social?

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