25 de fevereiro de 2009

Ciência e bom senso: la vie en prose (1)

Está bastante difundida a concepção de ciência como forma de conhecimento “à parte”. É, em certa medida, compreensível essa ideia, porque muito do trabalho científico exige um grau de especialização que o torna inacessível à maior parte das pessoas fora da área técnica a que ele diz respeito (inclusive, naturalmente, a cientistas de outras áreas); mas essa distância é característica da especialização, não da ciência como tal: para mim, é incompreensível o trabalho de um compositor, por exemplo...

Na realidade, estou eu em crer, não há nada de específico na maneira de pensar ou de agir de um cientista nem no objecto do seu trabalho que distingam a ciência de outras áreas da actividade humana. Coloca-se um problema e tenta-se encontrar uma resposta, é só isso. E, sobretudo, não há nenhuma maneira especial de confirmar ou infirmar as proposições a que o trabalho científico vai chegando. Quer se trate dos efeitos do aumento ou da redução dos níveis de receptores D2 de dopamina, da aniquilação dos dinossauros por uma parte do asteróide Baptistina, da presença de tribos célticas no Norte da Península Ibérica, da geração das formas irregulares dos verbos através de regras computacionais da nossa mente, de o Pedro ter devolvido à Luísa o livro que ela diz que ele não lhe devolveu, ou da existência de fadas (deixo-vos decidir o que, desta lista, é ou não passível de ser estudado “cientificamente”…), as afirmações que se fazem são baseadas em observáveis e outras evidências ou não, lógicas ou não, e, em última análise, verdadeiras ou falsas [Em última análise, digo bem, o que não significa que seja óbvio saber o que é verdade e o que não é. A plausibilidade do valor de verdade e, sobretudo, a possibilidade do valor de verdade, no entanto, são normalmente mais óbvias do que muitos pretendem!].

Ser cuidadoso e sistemático, usar instâncias de controlo e duvidar de generalizações fáceis são características de todo o raciocínio rigoroso, mas não delineiam bem a fronteira (que eu digo que, no fundo, não há) entre ciência e não-ciência. Até porque muitas teorias que, numa determinada altura, são exclusivamente aceites pela comunidade científica – ou pela comunidade académica em geral –, passam, mais tarde a fazer parte do chamado senso comum.

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