12 de dezembro de 2010

O que nem a brincar se diz e o que a brincar nunca se sabe se se diz ou não

Tantas vezes que me tem acontecido: eu achar que uma piada é a troçar de uma coisa e a pessoa a meu lado julgar que é a troçar de outra. Até já vi gente zangar-se, e muito!, por não concordar sobre aonde pretende chegar uma graça: uma pessoa, que interpreta a graça de uma certa maneira, acha que graças assim não têm gracinha nenhuma; a outra, que a interpreta de outra maneira, diz-lhe que é patetice não achar graça à tal graça… Uma das questões que se coloca frequentemente em relação a cartoons, sketches de comédia e outras intervenções de sátira moral, de costumes ou directamente política, é que são, de facto, interpretados de diversas maneiras, algumas antagónicas entre elas...
O que é ao certo o humor, não sei dizer. Uma ideia que me parece produtiva, no entanto, para explicar o que nos faz rir é a de que o humor surge da quebra da ordem de coisas considerada natural pela pessoa que ri – contanto que essa quebra da ordem natural não cause real sofrimento: uma pessoa que escorrega numa casca de banana e cai faz rir, se não ficar desmaiada ou cheia de sangue.
Como a ordem natural de certas coisas não é a mesma para toda a gente, o que é, para alguns, quebrá-la não o é forçosamente para outros. Isto pode estar relacionado com a cultura de cada um, em sentido lato, mas também pode ter que ver exclusivamente com, por exemplo, os conhecimentos, a ideologia e os sentimentos do indivíduo – a cultural no sentido mais pessoal que a palavra possa ter. Um exemplo do que acabo de afirmar: o grupo Les Luthiers fez uma experiência interessante de humor musical: sobrepor, no tema “Concerto grosso alla rustica”, uma peça barroca, tocada com uma orquestra de cordas, e uma música de tipo popular andino, tocada com instrumentos tradicionais (não é, note-se, uma peça de humor em que se pretenda dar uma opinião, mas estou agora a falar de uma característica geral do humor).



As reacções que tenho observado à peça vão desde desatar à gargalhada (reacção de muita pouca gente, com alguma educação musical e que conhece bem os dois tipos de música que ali se fundem) até ficar perfeitamente impassível, sem perceber o que se pretende com aquilo (reacção da grande maioria das pessoas).  
Além disso, não basta que a obra humorística nos provoque estranhamento, temos de reconstruir a ordem pervertida para perceber a piada. Essa reconstrução pode levar também diferentes pessoas a diferentes ideias do que foi destruído, consoante os seus pressupostos ideológicos ou culturais, e a que compreendam, pois, a piada de diversas maneiras. Creio, por exemplo, que a leitura de alguns cartoons de Dan Pararo relacionados com questões religiosas depende da posição de quem vê o cartoon relativamente a estas questões.

Embora provavelmente certos cartoons deixem menos espaço para várias interpretações do que outros (não é o caso deste último, relativamente aos quatro anteriores pelo menos na resposta à pergunta: “Este cartoon é contra a religião ou contra o ateísmo?”), a ambiguidade nunca desaparece completamente. Não quero dizer com isto que o humor implique forçosamente, como nestes exemplos, a possibilidade de leituras plurais. Apenas que pode perfeitamente trazer agarrada a ele essa possibilidade – e a traz de facto muitas vezes agarrada.
Outra questão é a do limite da gravidade que bloqueia o humor. Para diferentes pessoas, situa-se em diferentes pontos a fronteira onde a gravidade dessa quebra da ordem natural deixa de fazer rir para provocar vários tipos de reacções negativas, desde o puro estranhamento ao incómodo ou à repulsa. Dito de outra forma, variam também ideológica e culturalmente os limites daquilo com que se pode brincar – ou daquilo que pode fazer parte de brincadeiras, mesmo que não seja o seu objecto central.
Estava no outro dia a ouvir o álbum Beleléu, leléu, eu, de Itamar Assumpção e a pôr-me esta questão relativamente à canção “Luzia”). 

A letra da canção é a seguinte:
[Falado, várias vozes de mulheres:] Olha aqui, Beleleú! Tá limpo coisíssima nenhuma, meu, não tô mais afins de curtir a tua e nem ficar tomando na cara, essa de ficar na de que o Brasil não tem ponta direita, o Brasil não tem isso, o Brasil não tem aquilo, que black navalha é você, Beleléu? Tá mais é parecendo chamariz de turista e isca de polícia, onde tá tua malícia, meu, onde tá tua malícia?
[Voz de homem, cantado:] Deixa de conversa mole Luzia  / Porque senão eu vou desconsertar a sua fisionomia / Porque senão eu vou desconsertar / Você quer harmonia mas que harmonia é essa Luzia? / Só me enche o saco (só chia, só chia) / Me obriga à mais cruel solução / Desço pro porão da vil covardia, mas te meto a mão / Chega de conversa mole, Luzia / Eu sei que tua mãe já dizia, é mais um / Malandro talvez ladrão / Já não chega a sogra e agora a cria, que decepção / Você nem vai ter o prêmio de consolação / Quando eu pintar, trazer a taça de tetracampeão / E uma foto no jornal / Chega pra lá Luzia, ainda vou desfilar / Tetracampeão Luzia, porta estandarte
O tom de música e letra leva nitidamente a/o ouvinte a interpretá-la como humorística. Mas o que diz esse humor? O primeiro problema é o da ambiguidade da sátira. O que é que está a ser satirizado? A personagem feminina da canção, a personagem masculina ou ambas? Em seguida, põe-se o problema dos limites do humor: só pode haver humor se a/o ouvinte não interpretar o machismo – e, principalmente, a violência doméstica – como algo tão grave que suspenda toda a possibilidade de fazer rir ou sorrir.
E onde quero eu chegar, então? Quero com isto dizer que não pode exprimir-se opiniões através de anedotas, cartoons e sketches de comédia? Não, pode. Mas, a não ser que sejam muito especiais, tem de se aceitar à partida que aquilo que se quis dizer pode ser – e vai ser, provavelmente… – interpretado também de outra maneira…
***
Nota final a propósito de uma obra recentemente lida, que de humorístico não tem nada:
O problema da ambiguidade da opinião que se quer fazer passar não é, obviamente, só do humor. Também o discurso literário pode ser interpretado de várias maneiras, possivelmente até muito diferentes umas das outras. A ideia é antiga e banal, e não vou repisá-la aqui; mas descreve, a meu ver, de forma eficaz, uma parte importante do fenómeno literário e artístico em geral. Não é esta, no entanto, a única razão possível para limitar a eficácia da literatura como meio de exprimir opiniões morais, políticas ou outras. Outra razão pode ser que a densidade psicológica das personagens ou das pessoas líricas, quando existe, interfira com a mensagem que se pretende transmitir. Dito doutra maneira, revelar a complexidade profunda dos sentimentos e das acções humanas torna-se muitas vezes incompatível com tomadas de posição sobre determinadas questões, porque dilui a distinção do que se apresenta como certo e errado.
Por exemplo, li recentemente The Power and the Glory, de Graham Greene. A história do livro passa-se no México dos anos trinta, na época das perseguições aos católicos por parte do governo de Plutarco Elías Calles, que foram especialmente violentas no Estado de Tabasco, governado pelo feroz anticlericalista Tomás Garrido Canabal. Não tenho dúvidas de que Graham Green tenha escrito a novela com intenções de denunciar as perseguições aos católicos e os crimes de que foram vítimas muitos padres. Apesar disso, como faz uma caracterização psicológica extremamente densa das personagens, vasculhando em contradições universais da mente humana, sejam quais forem as suas convicções, o livro não se pode usar como instrumento político nem a favor de nada nem contra coisa nenhuma. De facto, conforme esteja para isso predisposto ideologicamente, o leitor pode ler nele desde um panfleto contra o militantismo revolucionário anticlericalista até um panfleto contra a própria religião e, sobretudo, a religião católica.
[Escrevi isto antes de saber que, de facto, o cardeal Bernard Griffin tinha condenado a novela acusando-a de “paradoxal” e exigindo que Greene alterasse partes do texto. Deixo aqui um link para uma página com alguns excertos da autobiografia Ways of Escape, em que Greene fala sobre as personagens da novela.]

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