22 de fevereiro de 2011

É cadáver, é pó, é sombra, é nada

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[1. Longa faz-de-conta-que-introdução]

Tem havido propostas de ouvir como música qualquer ambiente sonoro, seja ele feito dos sons da natureza ou das cidades – descobrir música no som que existe, mesmo que ninguém o tenha destinado a ser música. Não sei se há quem tenha proposto um exercício semelhante no domínio da literatura: descobrir literariedade em textos que não foram feitos com o propósito de serem literários. Deve haver, porque a ideia é simples demais para não ter havido já mais gente a tê-la. Pessoalmente, já aqui o propus uma vez e volto agora a propô-lo: vejam lá se esta passagem da biografia de Sóror Juana Inés de la Cruz que se encontra na Wikipédia em castelhano não é um pedaço de grande literatura? A primeira coisa que pensei, quando a li, foi que parecia uma biografia de uma personagem de algum conto de Borges (Borges diz no prólogo à primeira edição de História universal da infâmia que abusa do procedimento de “redução de vida um homem a duas ou três cenas”). Traduzo eu:

A menina passou a infância entre Amecameca, Yacapixtla, Panoaya – onde o seu avô tinha uma fazenda – e Nepantla. Ali aprendeu nauatle com os escravos das fazendas do seu avô, onde se semeava trigo e milho. O avô de Sóror Juana morreu en 1656, ficando a mãe com os rendimentos das quintas. Juana aprendeu a ler e a escrever aos três anos, em aulas que tinha com a irmã mais velha, às escondidas da mãe.
Rapidamente lhe veio o gosto pela leitura; descobriu a biblioteca do avô e assim se afeiçoou aos livros. Aprendeu tudo o que se conhecia na sua época, ou seja, leu os clássicos gregos e romanos, e a teologia da altura. A sua ânsia de saber era tal que tentou convencer a mãe a mandá-la à universidade disfarçada de homem, já que as que mulheres não podiam frequentá-la. Diz-se que, ao estudar uma lição, cortava um pedaço do seu próprio cabelo se a não tivesse aprendido correctamente, pois não lhe parecia bem que a cabeça estivesse coberta de belezas se carecia de ideias. Aos oito anos, entre 1657 e 1659, ganhou um livro por uma loa composta em honra do Santíssimo Sacramento, segundo conta o seu biógrafo e amigo Diego Calleja. Assinala ele que Juana Inés se radicou na Cidade do México aos oito anos, embora haja informações mais verazes de que só se instalou ali aos treze ou quinze.

[2. Onde eu queria chegar]

Soneto CXLV - A su retrato [que não me atrevo a traduzir, nem é preciso (vejez = velhice, hado = fado, polvo = pó e o resto é igual ao português…)

Éste que ves, engaño colorido,
que, del arte ostentando los primores,
con falsos silogismos de colores
es cauteloso engaño del sentido;

éste, en quien la lisonja ha pretendido
excusar de los años los horrores,
y venciendo del tiempo los rigores
triunfar de la vejez y del olvido,

es un vano artificio del cuidado,
es una flor al viento delicada,
es un resguardo inútil para el hado:

es una necia diligencia errada,
es un afán caduco y, bien mirado,
es cadáver, es polvo, es sombra, es nada.

Sor Juana Inés de la Cruz

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