24 de agosto de 2011

Passeio matinal: coelhos, lebres e o género da marcha

Os campos recém ceifados perto da nossa casa estão cheios de vida. Hoje de manhã fui passear e vi uma ratazana e um coelho, além dos muitos corvos que debicavam os restos de cereais*. A ratazana, vi-a à beira da estrada, longe dos bandos de corvos. O coelho, esse, saltitava de um lado para o outro mesmo no meio dos corvos. Quer dizer, não sei se era um coelho ou uma lebre, porque não consigo distinguir coelhos de lebres...

Aliás, é uma confusão a distinção entre lebres e coelhos. Há até um género, Carolus, que às vezes é considerado lebre e outras coelho. Não convém nada, sobretudo, tentar esclarecer essa confusão recorrendo a outras línguas, porque não há correspondência biunívoca entre lebre e, por exemplo, hare em inglês… A Wikipédia, que muita gente diz que não é de fiar mas que até nem costuma ser má nestas coisas simples (?) de ciências da natureza, diz que “uma das diferenças entre lebres e coelhos é o fato de que os filhotes daquelas já nascem com pequena capacidade motora e visual, enquanto que os filhotes desses nascem completamente cegos e ficam no ninho por algumas semanas até poderem sair sozinhos”. Presumo que isto seja verdade para o género Lepus. Mas diz também, na entrada coelho, que “seu corpo também é sempre menor que o das lebres” e isso custa-me muito a acreditar

Cruzaram-se comigo, durante o meu passeio matinal, várias pessoas de fato de treino e cão pela trela. Muita gente aproveita passear o cão para fazer exercício – ou vice-versa. E dei-me conta de uma coisa simples, daquelas que, de tão óbvias, talvez, tão banais, nunca nos suscitam reflexão: a grande distância, muito antes de ter possibilidade de distinguir as formas do corpo e muito menos ainda os traços do rosto, já sabia o sexo da pessoa que se aproximava. Pelo andar, está claro. E isto é interessante, acho eu. Temos um programa de reconhecimento de movimentos que sabe distinguir a marcha dos dois sexos, por muito que ninguém seja, nem de longe, capaz de descrever a diferença entre a maneira de andar dos homens e das mulheres**. As coisas complexas que nós sabemos sem muitas vezes saber que as sabemos e nem sonhar como as sabemos…
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* Ainda escrevi aqui que "os corvos andavam a pastar", mas resolvi refazer a frase, porque achei que o pastar era capaz de ser aqui mal recebido. Mas que estaria correto, isso sem dúvida.
** Há, isso sim, um estereótipo de andar feminino, que consiste basicamente em andar com um pé sempre diante do outro, a ponta do pé apontando sempre na direção que se segue, mas praticamente não há mulheres que andem dessa maneira.

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