9 de novembro de 2011

Avós

Há pouco mais de uma semana, uma amiga minha publicou, no seu mural do Facebook, o seguinte texto:
Definição de avó – artigo redigido por uma menina de 8 anos no Jornal do Cartaxo, Portugal…
Uma avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros. As avós não têm nada para fazer, é só estarem ali. Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam as flores bonitas nem as lagartas. Nunca dizem «Despacha-te!». Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem apertar-nos os sapatos. Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou uma fatia maior. As avós usam óculos e às vezes até conseguem tirar os dentes. Quando nos contam histórias, nunca saltam bocados e nunca se importam de contar a mesma história várias vezes. As avós são as únicas pessoas grandes que têm sempre tempo. Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.
Toda a gente deve fazer o possível por ter uma avó, sobretudo se não tiver televisão.
Perante um texto assim, o mais natural é reagir, estou eu em crer, como reagiu João Soares Barros no seu blogue Perguntas sobre…
Este artigo circula na Internet como sendo redigido por uma menina de 8 anos e publicado no Jornal do Cartaxo. Provavelmente a história não será bem esta, até porque creio que nem existe um jornal exatamente com este nome, mas sim um Jornal O Povo do Cartaxo. Mas tudo isto são pormenores, perante a verdadeira delícia que é este texto.
Agora eu, embora concordando completamente que a origem do texto não afeta em nada o seu conteúdo e a sua graça, reagi de uma maneira um pouco diferente, porque aquele texto não era novo para mim. Foi-me oferecida em 1993 uma cassete do cantautor Paul Tracey. Chama-se Songs & Stories e inclui uma canção chamada “Grandmothers” [“Avós”], cuja letra não sabia toda de cor, mas de que me lembrava que começava com a grandmother is a woman with no children of her own… [“uma avó é uma mulher que não tem filhos seus…]” e terminava com …everybody should have one, especially if your living room has no television [“…toda a gente devia ter uma, sobretudo se a sala de jantar não tiver televisão]”. A minha reação foi, então: “Ah, mas que curioso – isto é uma tradução adaptada da canção de Paul Tracey!”

Por via das dúvidas, meti-me a pesquisar na Internet. Cheguei relativamente depressa à conclusão de que o texto é muito popular, circula em muitas línguas[1], e atribuem-se-lhe origens várias: nalguns casos, diz-se que foi escrito por uma menina, cuja idade varia entre os 4 e os 9 anos; noutros, que foi escrito por um rapaz de 8 anos e encontrado numa igreja galesa; noutros, que foi compilado de trabalhos de uma turma de crianças de 8 anos, etc. 
No blogue de Raquel Moura, de Mogi Mirim, São Paulo, encontrei uma primeira referência concreta à origem da frase[2]:
Li isto num livro chamado Lar Doce Lar de um dos meus autores prediletos, o Dr. James Dobson. Ele conta que "há muitos anos, uma menina de 4 anos, chamada Sandra Louise Doty, sentou-se numa banqueta numa floricultura, enquanto sua avó atendia os compradores. Quando a avó e a neta conversaram, a menina começou a descrever o que ela achava ser uma avó. A idosa senhora anotou as palavras de Sandra, que têm sido citadas em todos o mundo. Sandra é atualmente a Sra Andrew De Mattia, e deu-nos permissão para transmitir a você sua composição original, intitulada “O que é uma avó”.
O texto que se seguia tinha, em parte, o mesmo conteúdo que o texto publicado pela minha amiga no Facebook, mas acrescentava-lhe alguns pontos: acrescentava referência ao avô (“Um avô é um homem avó” [que] sai para passear com os meninos e eles falam sobre pescaria, tratores e outras coisas semelhantes”) e acrescentava à descrição das avôs que “são velhas, por isso não devem brincar muito nem correr”; que “já fazem muito quando nos levam de carro até as lojas, onde está o cavalo de mentira, e levam uma porção de moedinhas separadas”; que, além de óculos, usam também “roupas de baixo esquisitas”; que não sabem tirar só os dentes, mas também as gengivas”; que “não têm de ser muito inteligentes, somente responder a perguntas como «Por que os cachorros odeiam os gatos e Deus não é casado?»; e que “não falam como os bebés falam, como fazem os visitantes, porque é difícil de entender”.
Ao princípio, pensei que se tratasse de uma referência ficcional, sobretudo porque não encontrei nenhum livro de James Dobson chamado Home sweet home e porque, juntando numa única pesquisa “James Dobson” e “Sandra Louise Doty”, só me apareceram páginas em português e espanhol[3]. Mas descobri que a referida edição de James Donson em português existe mesmo: é de 2000 e é a tradução de um livro chamado Home with a Heart (Living Books, 1999). Mais recente, portanto, que a cassete de Paul Tracey, pensei eu.
No dia seguinte, depois da grande limpeza de sábado de manhã, fui buscar a cassete de Paul Tracey (uma das poucas cassetes que conservo), para tirar a letra. E dei-me conta de que acabávamos de deitar fora o único leitor de cassetes que havia cá em casa. Era uma aparelhagenzinha que estava na cozinha e que estava funcionar tão mal que decidíramos, nessa mesma manhã, deitá-la para o lixo. Mas fui buscar a aparelhagem ao lixo e tirei a letra da canção [traduzo eu]:
Uma avó é uma senhora que não tem filhos seus, / mantém-se sempre ocupada a coser coisas que precisam de ser cosidas. / Gostam das meninas dos outros e dos meninos também, / mas tens de ter cuidado, senão tropeça-te nos brinquedos. / Não tem de fazer muito, a não ser só estar ali, / nunca tem de dizer «Despacha-te lá» nem de olhar quando estás nu. / As avós usam todas óculos e roupa interior esquisita, / e conseguem tirar dentes e gengivas e depois levá-los a consertar. / Não têm de ser espertas, mas têm de saber, as avós, / por que Deus não é casado e que altura tem o céu. / Nunca falam à bebé, como as outras visitas, / e são incrivelmente justas a fazer coisas à vez – agora és tu, agora é ela. / Um avô é um homem-avó; traz o carvão para dentro, / vai pôr o lixo lá fora, depois acha que vai dar uma voltinha… / As avós leem-te histórias, todos deviam ter uma, / sobretudo se na sala de estar não houver televisão[4].
Agora, como podia ter a certeza de que era este texto que tinha dado origem a todos os outros? O melhor, pensei eu, era perguntar ao autor se eram dele estas ideias. E foi o que eu fiz: “O texto é inteiramente seu, como eu parto do princípio que é”, escrevi eu a Paul Tracey, “ou baseou a sua canção em textos, anedotas ou aforismos preexistentes sobre as avós?”
Continuei a pesquisar na Internet. E encontrei uma referência bibliográfica clara num texto de Steven J. Cole: Adoro esta perspicaz redação de uma menina da terceira classe, chamada “O que é uma avó?” (James Dobson, What Wives Wish Their Husbands Knew About Women [Tyndale], pp. 47-48).
A lista de livros de James Dobson da Wikipedia diz que o livro é de 1995, mas verifiquei que há pelo menos duas edições mais antigas deste livro, uma de 1981 (Living Books) e uma de 1982 (Tyndale House Publishers). A cassete de Paul Tracey, essa, não fazia ideia de quando seria, porque não tem qualquer data… Aliás, o próprio autor também não sabe quando gravou a música, como me explicou na resposta ao meu e-mail. Paul Tracey foi extremamente amável e respondeu-me imediatamente, contando-me a história da canção:
A minha mãe vivia em Inglaterra e há muito tempo – anos antes de haver Internet – encontrou as ideias de base para a canção sobre as avós, apresentadas como se tivessem sido criadas algures por uma criança. A minha mãe mandou-me o texto. Não faço ideia de quem o terá escrito de facto, mas fiquei desconfiado e duvidei de que tivesse realmente sido uma criança.
Transformei o texto na minha canção, tirando alguma coisas que não conseguia encaixar e fazer rimar, e acrescentado alguns bocados meus.
Tenho de admitir, porém, que é uma das minhas canções de que gosto menos! Talvez seja porque sou agora tão egocêntrico que só canto canções que tenha escrito eu próprio! Não é bem verdade, mas quase. Decididamente, roubei as ideias do original e não é nada o meu estilo!
E acrescentava que ele próprio tinha conhecimento de que o texto circula por aí:
Para o seu blogue, sugiro que esta obra em particular de facto não viajou nada depressa. Se, como me diz, anda agora a circular, isto demorou muito tempo a acontecer. Acho que, pessoalmente, já topei com ela 3 vezes desde que escrevi a canção há cerca de 40 anos
Fiquei assim a saber que, ao contrário do que eu pensara inicialmente, o conteúdo do texto não foi criado por Paul Tracey. Provavelmente, devia simplesmente partir do princípio que a autora era mesmo a tal Sandra que James Dobson referira. Mas, enquanto não me decidia a dar por terminada a pesquisa, ia displicentemente variando um pouco as pesquisas em Google. E tive de repente novos resultados: Há no site Jokes from the Web, de Richard Lowe, uma carta de uma senhora chamada Sandra L. DeMattia, que reclama a autoria do texto [traduzo eu]:
A obra que publicou chamada “O que é uma avó?” não foi escrita por uma turma de crianças de oitos anos nem por uma menina da terceira classe. Foi uma conversa que uma menina de 3 anos teve com a avó em 1952. Foi publicada pelo primeira vez em meados dos anos setenta pelo Dr. James Dobson e depois noutro livro seu de 1996 chamado Home with a Heart. Esta entrada aparece nas páginas 20 e 21. Se for possível, poderia corrigir a autoria? Como já disse a outros administradores de sites da Internet, sei que sou um bocadinho forte – como a minha avó – mas não tanto que se me possa considerar um grupo ou uma turma. Continue, por favor, a usar o texto, já que ele parece fazer sorrir avós em todo o mundo. Como já deve ter adivinhado, sou eu a menina de três anos – 53 anos mais tarde. Se quiser mais alguma informação sobre o assunto, sinta-se à vontade para me contactar[5].
É fácil verificar que James Dobson publicou de facto livros nos anos 70. O facto de a referência ser mais uma vez vaga (só a referência à edição de 1996 é que dá páginas) e de não haver uma identificação mais concreta desta Sra. DeMattia não ajuda muito a acreditar que estejamos finalmente perante a verdadeira autora do texto original[6]. Bom, podia ter escrito a Richard Lowe a perguntar, podia ter encomendado um ou mais livros de James Dobson, ou até ter-lhe escrito também, para tentar descobrir mais alguma coisa, mas não – prefiro desistir desta história e dedicar-me antes a outras… como direi?... atividade mais proveitosas.

Um texto – ou uma canção, ou qualquer outro objeto intelectual, artístico ou não tem sempre um autor concreto. Mesmo que seja uma variação sobre um objeto anterior, essa variação tem um autor, como o tem o objeto sobre o qual foi feita. Quando se fala de objetos artísticos “tradicionais”, por exemplo, aquilo de que se está a falar de facto é de objetos de autoria(s) desconhecida(s). A história do texto das avós ilustra bem, acho eu, o processo, ora voluntário ora involuntário, de apagamento ou ficcionalização da autoria de um objeto literário – e da sua transformação ao passar de mão em mão. Agora, se as coisas se passam assim no séc. XXI, imaginem como se passavam antes, quando a ideia de autor tinha muito menos importância do que agora e ninguém tinha aprendido a fazer referências bibliográfica – nem que se as deve fazer… Lembro-me de um documentário muito interessante de Adela Peeva chamado Whose song is this?, sobre uma canção que gregos, macedónios, turcos, sérvios e búlgaros acreditam todos ser uma canção tradicional da sua terra. Há centenas de casos assim. A “Raspa”, para dar o primeiro exemplo que me vem à cabeça, de que país acham que é?

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[1] Eis os resultados das minhas pesquisas em francês, português e inglês: uma pesquisa fechada com aspas de "une grand-mère est une femme qui n'a pas d'enfants" deu-me 17.200 ocorrências em Google; "une grand-mère est une femme qui n'a pas d'enfant" (é preciso contar com este pormenor, veem?, quando se faz pesquisas de frases específicas em francês…) tinha 18.600 ocorrências; “uma avó é uma mulher que não tem filhos” deu-me 10.400 ocorrências; e “grandmother is a lady who has no children” deu-me 12.800. Também se encontram versões com dame, senhora e lady em vez de femme, mulher e woman, respetivamente, mas têm muito poucas ocorrências. Evidentemente, nem todas as frases fazem parte de variações do texto em causa, mas a esmagadora maioria faz, como qualquer verificação aleatória rapidamente nos indica… O texto tem especial popularidade em setores religiosos do ciberspaço. 
[2] Publicado a 30 setembro 2007. Edite Esteves, de Lisboa, publicou no seu blogue, o mesmo texto, a 26 de julho de 2011, mas com uma referência bibliográfica (quase) completa: James Dobson, Lar, Doce Lar, Editora United Press Ltda, 2000
[3] A Sandra Louise Doty mais fácil de encontrar é uma esposa de um diplomata, que veio a tornar-se agente da CIA e que faleceu a 8 de abril 8 de 2010 com 69 anos. Não se pode tratar desta Sandra Louise Doty, porém, porque esta nunca se tornou DeMattia. Pelo contrário, ganhou pelo casamento o apelido Doty. O site Census Data Online diz que há 11 pessoas com o nome Sandra DeMattia nos EUA. E diz também que, para saber mais, há que pagar, imaginem vocês…
[4] A grandmother is a lady with no children of her own, / She’s always keeping busy sewing things that should be sewn. / She likes other people’s little girls and also little boys, / But you’ve got to be so careful or she’ll trip up on you toys, / She doesn’t have to do much except for just be there, / She should never say “Now, hurry up!” or look when you are bare. / Grandmothers all wear spectacles and funny underwear, / They can take their teeth and gums off and then take them for repair. / They don’t have to be clever, but grandmothers should know why / Why God isn’t married and how high up is the sky. / They never talk baby talk like others visitors, / They’re awfully fair at taking turns – it’s yours and then it’s hers. / A grandfather is a man grandmother; he brings in the coal, / He takes out the garbage, then he thinks he’ll take a stroll… / Grandmothers read you stories, everybody should have one,  / Especially if your living room has no television. Television é pronunciado de maneira a rimar com one, para obter efeito humorístico.
[5] A versão do texto apresentada neste blogue era ligeiramente diferente das que tinha visto até essa altura. Além de estar apresentada por pontos (15 pontos numerados), aparecem algumas ideia diferentes das que se encontram na maior parte das outras versões. Há sobretudo, mais perguntas a que as avós têm de responder: “As minhocas bocejam?”, “Porque é que os cães perseguem os gatos?", "A vaca saltou mesmo por cima da lua [referência a uma lengalenga infantil inglesa]?" e "Porque é que as pessoas se beijam debaixo do visgo [referência a uma velha tradição do Norte da Europa]”?"
[6] Além de que a riqueza retórica do texto é tal – e assente, ainda por cima, numa lista cuidadosamente elaborada dos clichés associados à imagem da avó na cultura ocidental – que só por ingenuidade, digo eu, se o atribui a uma menina de três anos. Mas isto é só uma impressão, não o posso provar.  

2 comentários:

arte pública disse...

obrigada pelo exaustivo trabalho - verdadeiramente detectivesco! - porque... aparece agora este texto no facebook, e logo se suspeita que é demasiado específico e sucinto para ser uma «redacção» de uma criança. vim aqui ter, e gostei deste blogue - e do outro - parabéns!

Vítor Santos Lindegaard disse...

Obrigado eu, arte pública, por ter lido os textos, pelos elogios e por me ter feito voltar a este post, o que me permitiu corrigir umas quantas (bastantes...) gralhas. Como tudo o que escrevo, a história das avós estava inçada delas.