3 de junho de 2008

Religião, mais uma vez: posso professar a minha ou tenho de professar a sua?

Não devia ser necessário insistir numa evidência, mas a realidade prova-me que esta evidência é, para muitos, pouco evidente: É preciso deixar claro que as estipulações de uma determinada religião dizem respeito apenas aos que a professam.

Convenhamos então que um católico não tem de seguir as regras de comportamento que seguem um ismaelita ou um baptista; que um sikh não tem de fazer o que é estipulado nem pela lei religiosa shintoísta nem pela lei religiosa baha’í; que quem adore a Pachamama pode comer peixe sem escamas e carne de porco, um adventista é que não; e que um luterano não é obrigado a fazer oferendas de arroz aos deuses hindus inúmeras vezes ao dia. E que eu, pobre ateísta, não sou obrigado a agir de acordo com códigos morais nenhuns que não sejam os da lei do sítio onde me encontro – e os meus próprios! Só que, em contrapartida dessa regalia, estou condenado à soma de todos os sofrimentos eternos previstos em todos os livros religiosos. Bom, a ideia não deixa de ser interessante e nem é completamente contraditória: vou reencarnar como aranhiço ao mesmo tempo que a minha alma padece num inferno de chamas; como um aranhiço não tem alma, pelo menos para os cristãos, este tipo de condenação ecuménica é de facto possível!

Desculpem lá a delirante excursão. Voltando ao tema, insisto em deixar claro o que parece óbvio e que, obviamente, nem sempre o é. Um excelente exemplo de que o princípio simples que aqui exponho é muitas vezes incompreendido é a confusão que surgiu relativamente à proibição da representação de animais pelo Islão, que a famigerada questão dos cartoons dinamarqueses trouxe à discussão (normalmente diz-se “de pessoas e animais”, mas isto é um erro de redundância, porque pessoas são animais, de maneira que aqui fica a versão corrigida, para uso dos teólogos muçulmanos). Para já, não é verdade que tal lei ou preceito seja comum a todas as tradições muçulmanas e a todos os períodos da sua história. Mas, enfim, isto é um aparte e o que importa é que a tal proibição, quando existe, diz apenas respeito aos muçulmanos que a querem aceitar, como a proibição de comer carne na sexta-feira santa diz respeito apenas aos cristãos que sejam tão beatos que saibam resistir aos acenos sedutores de um bife do acém. Ponto. Quer dizer, diz respeito a quem dê valor de lei ao texto onde ela é expressa. Estamos então entendidos?

Até porque, em última análise, o respeito dos códigos morais de outras religiões, dada a proliferação de crenças que há por esse mundo fora, nos levaria, no fim das contas todas, a não fazer nada… Um verdadeiro ecumenismo religioso impedir-me-ia, por exemplo, de trabalhar, porque duvido que haja algum dia no ano que não seja feriado religioso de uma ou de outra variante de alguma religião… Ou seja: o respeito das regras de todas as religiões seria uma coisa muitíssimo agradável, embora algo perigosa para a sobrevivência da espécie…

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