4 de outubro de 2009

Recuperado de um blogue apagado 1: Singer songwriter, não: cantautor

Apaguei o meu blogue Rádio Sim Carolina, que era sobre música e que, concluí eu, não interessava a ninguém. Dos textos que lá tinha, quando os reli, achei que havia uma meia dúzia, ou pouco mais, de que se podia dizer benza-te deus e que não queria deitar fora. Vou então pô-los aqui na Travessa, adaptando-os quando necessário à lógica deste blogue, que é outra, e alternando-os com os textos que para aqui vou escrevendo. O texto que se segue foi originalmente publicado a 6 de Maio de 2008 e fala da palavra cantautor, de entradas de dicionário e do grupo argentino Les Luthiers.

Diz o Wikcionario que cantautor é um substantivo masculino, que significa “que canta as suas próprias composições poéticas, normalmente críticas”, e que é um “neologismo criado a partir de cantor + autor, certamente por influência do castelhano cantautor”. Diz ainda que, “embora seja utilizada nos meios de comunicação tanto de Portugal como do Brasil, esta palavra não se encontra ainda dicionarizada”, apesar de ser “referida no Ciberdúvidas como palavra bem construída” e “utilizada em vários artigos da Wikipédia”. Eis o que eu tenho a acrescentar, que não é muito:

É verdade que é convencional considerar a forma masculina singular a forma de base de um nome e que é essa forma que é usada nas entradas dos dicionários, mas talvez já seja tempo de, em vez de considerar cantautor substantivo masculino sem mais (e as outras palavras todas com duas formas flexionais, uma forma masculina referente a seres do sexo masculino e uma forma feminina referente a seres do sexo feminino), fazer antes uma entrada do tipo

cantautor n. m.; cantautora n. f. : pessoa que canta as suas próprias canções

Ou não? Se o feminino e o masculino forem palavras diferentes, por exemplo, cadela e cão, acho devia haver duas entradas, ambas com referência uma para a outra:

cadela n. f.; cão n. m.: mamífero canino doméstico, Canis familiaris

e

cão n. m.; cadela n. f.: mamífero carnívoro doméstico, Canis familiaris
Já agora, para quem não esteja muito dentro destas coisas, houve já propostas, com argumentos mais sólidos do que os que se usam para defender a convenção actual (nenhum, ao que sei...), de propor o feminino singular como forma das entradas de dicionário. De facto, com base no velho mas sempre produtivo conceito de forma marcada e não marcada, parece ser o masculino singular a forma marcada, já que o feminino, singular e plural, e o masculino plural partilham algumas características que o masculino singular não tem: vejam, por exemplo, a pronúncia nóva, nóvas, nóvos por oposição a nôvo. Mas a tradição tem muito peso – e a tradição é masculina…

Mas, voltando a cantautor e à sua definição no Wikcionário, não vejo bem o que é que faz “poéticas” depois de “composições” sem lá estar também “musicais”. Quer dizer que é cantautor quem canta as suas letras com música de outros, mas o contrário não? “… as suas próprias composições”, pronto, ponto, chega bem. E por que hão-de ser as composições dos cantautores “normalmente críticas”? E críticas de quê, já agora? J. J. Cale não é um cantautor? E Bobby Lapointe?

Mas enfim, onde eu quero chegar com isto tudo é que acho é mesmo de aproveitar a boleia do espanhol e usar cantautor/a. Autor/a-compositor/a-intérprete é pesado que se farta. Os franceses abreviam ACI, mas entre ACI e cantautor/a escolho o que soe menos a associação para a cooperação internacional…

Cantautor/a, que se adopte então! Aliás, a palavra não está consagrada só em espanhol, mas também noutras línguas ibéricas e em italiano (cantautore/a) – em qual delas terá sido inventada?

Agora, a propósito, fiquem lá com um excerto de um maravilhoso sketch do impagável grupo argentino Les Luthiers em que, para referir o grande cantautor Manuel Darío [fictício, não fiquem a pensar...], se introduz o conceito de autocantor…:

Manuel Darío: O professor López Jaime reconheceu que as minhas canções tocam a alma, que, os meus recitais, não há que pensá-los, há que senti-los.
Professor [Openheimmer, e não López Jaime]: De facto, fui a um dos seus recitais... E realmente... Sinto muito.
Manuel Darío: Confessei-lhe que tocava e compunha de ouvido. Mas enfim, muitos inspirados compositores populares não sabem escrever música.
Professor: Mas pelo menos sabem escrever o nome deles…
Manuel Darío: Conforme lhe ia cantando as minhas canções, ia-me apercebendo de que o professor começava a ficar visivelmente emocionado, até me pareceu ver duas lágrimas que queriam escapar-se-lhe dos olhos...
Professor: Bom, as lágrimas… Escapar-se... não… Eu é que me queria escapar!

Manuel Darío: Por fim, perguntei-lhe: “Professor, o que acha de mim como cantautor?” E ele aconselhou-me que continuasse a cantar.

Professor: Ah, sim. Eu disse-lhe: “Você deve cantar... Onde ninguém o oiça. Você deve cantar para si próprio! Porque eu, a si, não o vejo como cantautor, vejo-o mais como autocantor”.

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