4 de março de 2010

O educador de hoje

A literatura é, às vezes, expressão de ideais que só muito mais tarde são levados à prática. Foi em poemas e novelas, por exemplo, que as qualidades morais começaram a valer mais do que os dotes físicos, o poder militar ou a condição social herdada; os afectos mais do que as convenções sociais; etc. Vejam este texto que eu encontrei no outro dia:
«No meu tempo, estas questões resolviam-se com uma grande particular simplicidade», reflectiu ele. «Se um jovem era apanhado a fumar, levava uma sova. De facto, isto fazia que um rapaz de espírito pobre e cobarde desistisse de fumar, mas um rapaz esperto e valente passasse a trazer o tabaco escondido na bota depois da tareia e fosse fumar numa dependência.
Quando fosse apanhado no anexo e fosse de novo açoitado ia fumar para o rio, e assim sucessivamente até se tornar adulto. A minha mãe dava-me dinheiro e doces para eu não fumar.
Estes expedientes parecem-nos agora fracos e imorais. Assumindo uma posição lógica, o educador actual tenta instilar numa criança os primeiros princípios de justiça ajudando-a a compreendê-los e não provocando o medo ou o desejo de se distinguir e obter uma recompensa.»
Parece uma coisa escrita anteontem, não parece?, e a maior parte de nós considerará que se aplica bem à realidade que conheceu e conhece. Mas não é. Esta é a reflexão de Eugene Bikovski, umas das três personagens do conto “Em casa”, de Anton Tchekhov, quando descobre que o seu filho Serioja foi apanhado a fumar. Não consigo saber com certeza quando foi escrito o conto, mas ou é de 1887 ou de 1897. Duvido que houvesse, nessa altura, muita a gente a educar os filhos como o propunha o senhor Bikovski…

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