7 de março de 2010

O funeral de Yogi Berra e a natureza humana

É importante ter consciência de que não há nada de intrínseco ao ser humano na democracia, na justiça social, na solidariedade, na tolerância, etc. – são apenas ideias morais que vão contra uma grande parte (a maior parte?) de tudo o que conhecemos em qualquer lugar e período da História, o que não poderia, por definição, acontecer se fossem naturais no Homo sapiens.

Isto já o devo ter dito aqui, de outras maneiras, mas, se o fiz, não faz mal, porque é algo que acho que vale a pena repetir. Agora, não há tão-pouco razões para ter uma ideia demasiado pessimista da natureza humana – o que implicaria, em última análise, a impossibilidade de democracia e justiça social. Nas últimas décadas, a velhíssima discussão entre visões essencialmente negativas e visões essencialmente positivas da natureza humana tem sido muito enriquecida com resultados experimentais (da teoria dos jogos, mas não só) que mostram que alguns constituintes das ideias de igualdade e justiça social (altruísmo e reciprocidade, sob várias formas) estão profundamente ancorados em todos nós. Dito de outra maneira: Muito provavelmente, na velha discussão entre o pessimismo hobbesiano e o optimismo naturalista-primitivista de que se costuma (não sei se um pouco apressadamente) dar Rousseau como exemplo primeiro, não há forçosamente que tomar uma ou outra posição, porque as instituições sociais tanto servem, conforme os casos, para “perverter” como para “moralizar” a pessoa humana e a pessoa humana, que é quem cria essas instituições sociais, é tão naturalmente “bruta” e “egoísta” como “sensível” e “generosa”. Aliás, talvez se deva transformar, diria eu, a mais comum relação adversativa entre egoísmo e generosidade numa relação causal: em vez de “As pessoas são generosas, apesar de serem também egoístas”, talvez se deva antes dizer “As pessoas são generosas, porque são egoístas”.

Tor Nørretranders, em Det generøse menneske (“A pessoa generosa”), um livro que se apresenta como sendo sobre “cerveja, gajas* e música de cornetas”, defende fundamentalmente que é a selecção sexual, um conceito frequentemente esquecido da teoria darwiniana, que justifica muito do que há de louvável na acção humana: ser bom (tanto no sentido moral como no sentido de ser competente) dá parceiros sexuais! A ideia não é só dele, claro está, mas ele di-lo de uma forma atraente. O livro acaba com uma listagem de aparentes paradoxos que, segundo Nørretranders, não o são. Eis quatro deles:

Defende os teus próprios interesses: sê generoso
Sê egoísta: divide tudo
Mostra a tua individualidade: cria comunidade
Sê voluptuoso: dá o melhor de ti

A maneira mais eficaz, porém, de explicar sinteticamente como é que a satisfação dos seus próprios interesses se transforma em solidariedade ainda é capaz de ser a do jogador de beisebol Yogi Berra, que diz que devemos ir ao funeral das outras pessoas se quisermos que elas também venham ao nosso funeral**.

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* A tradução de fisse por “gajas” não é muito literal, mas é porque a palavra portuguesa que corresponde de facto à dinamarquesa, a minha mãe proibiu-me de a utilizar, como diria Brassens.

** O seu a seu dono: não é minha a ideia de relacionar a famosa frase de Yogi Berra com a chamada “reciprocidade indirecta”, mas sim de Karl Sigmund, no seu artigo “Indirect Reciprocity, Assessment Hardwiring and Reputation”.

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