13 de novembro de 2010

Da ignorância das novas gerações, mais uma vez

Fizeram há alguns meses um teste à cultura geral dos jovens americanos. Já é um teste standard, desde 1998 que o fazem todos os anos; e este ano, mais uma vez, muita gente se escandalizou com os seus resultados: para os jovens americanos, apregoavam indignados vários jornais, Beethoven não é senão um cão [*] e Miguel Ângelo (Michelangelo, seja) não é nem sequer uma tartaruga ninja mas apenas um vírus informático. E eu pergunto-me: sinceramente, é um problema muito grande? Porquê? Porque é que as pessoas acham que eles deviam mesmo saber isso? «Faz parte da nossa cultura geral», respondem-me, «dos conhecimentos mínimos que qualquer pessoa deve ter. E depois, se fosse só isso que eles não sabem…», insistem, «Mas é que não sabem nada…»
 
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Bom, a maior parte do teste é tão americano que não faz grande sentido para mim. Pelos vistos, parece mal não saber que o Dr. Kevorkian já teve licença para exercer medicina; que antigamente não havia automóveis coreanos nos Estados Unidos; que os insultos recíprocos de Leno e Letterman nem sempre existiram; que houve outros comissários da Liga de Beisebol antes de Bud Selig; que batata já se escreveu potato em Nova Jérsei, antes de um decreto vice-presidencial lhe apor um e final; que Ruth Bader Ginsburg nem sempre esteve no Tribunal Supremo; e que nem sempre houve Hondas a disputar as primeiras posições em Indianápolis. É claro, podia adivinhar que nem sempre existiram os tais Leno e Letterman, Bud Selig e Ruth Bader Ginsburg, mas os jovens inquiridos também sabem, com toda a certeza, que as pessoas nascem, crescem e morrem… Hmm, como lhes terão feito as perguntas – ou como estão a apresentar as respostas?...
Ok, mas conhecimentos mais gerais? É ou não uma vergonha não saber que John McEnroe jogou ténis, que Clint Eastwood foi um carismático actor antes de ser realizador, que houve uma altura em que nos supermercados Walmart se vendiam armas ao balcão? Taalvez, mas eu não sei, sinceramente, se acho que toda a gente devia saber História do Ténis, História do Cinema e História das Armas nos EUA.
 Mas vá, enfim, coisas mesmo importantes: os jovens americanos não sabem que houve um país chamado Jugoslávia, nem outro chamado Checoslováquia, nem sabem que a Alemanha nem sempre foi uma só [**]! É verdade que faz falta saber História e a Geografia política que lhe está associada e acho que fazia muito  bem aos jovens americanos terem uma ideia da História do mundo, pelo menos nos últimos cem anos; mas também é verdade que quem agora leva as mãos à cabeça perante a tão grande ignorância dos jovens é capaz de não ser o sabichão que pretende ser. 
 A maior parte das pessoas que acha ridículo não se saber que Beethoven foi um dos maiores compositores da tradição musical europeia (que depois se veio a transformar em ocidental), se eu lhe puser à frente um bocado de Schubert ou de Brahms, ou mesmo de Dvořak ou Prokofiev; e lhes disser que é Beethoven, aposto que acreditam… A maior parte dessas pessoas acreditava, não só se eu lhes mostrasse pinturas ou esculturas menos conhecidas de Leonardo da Vinci, Donatello ou Rafael (para ficarmos na onda das tartarugas ninja), e lhes dissesse que eram de Miguel Ângelo, mas era até bem capaz de aceitar também que era de Miguel Ângelo alguma estátua de Bernini, Thorvaldsen ou Frederic Leighton… A maior parte dessas pessoas que se queixam de a rapaziada nova já não saber o que era a Jugoslávia, e Checoslováquia e as Alemanhas de Leste e de Oeste tinha ela própria muito pouca ou nenhuma ideia de como era a Europa antes do seu tempo e era capaz de pensar que a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Alemanha tinham sempre existido. Aliás, essas pessoas eram muito capazes de dizer que Beethoven (o compositor, não o cão) tinha nascido na Alemanha, por nem sonharem que ele nasceu num Estado chamado Eleitorado de Colónia, antes de haver Alemanha; e de dizerem que o Miguel Ângelo nasceu em Itália, quando ainda vinha tão longe o país Itália no tempo do Miguel Ângelo… As mesmas pessoas que acham problemático os jovens portugueses não saberem nada no 25 de Abril (e quero sublinhar que eu sou uma delas!!!) sabem muito pouco ou nada do que aconteceu de importante na política portuguesa quinze anos antes de elas nasceram. Estou a exagerar? Acho que não. E onde quero eu chegar com isto? A que não acredito que haja nenhum défice de conhecimentos das novas gerações relativamente às gerações anteriores: cada geração sabe coisas diferentes e sempre assim foi. É bem provável até que, dado o aumento dos níveis de escolarização por todo o lado e do enorme aumento do acesso à informação, os jovens saibam de facto mais do que sabiam os seus pais. Não sabem as mesmas coisas, pois não, e porque haviam de as saber? Li algures que a finalidade deste inquérito Mindset era – e, provavelmente ainda é – alertar as autoridades na área da Educação para o facto simples de que as referências culturais se evaporam. Pois é, evaporam mesmo, mas isso toda a gente sabe, por muito que cada geração se esforce por preservar as suas referências culturais como as mais importantes… É isso que significa deitar as mãos à cabeça, não é? «Eles não sabem aquilo que eu sei!»
Imaginem o Mindset em Portugal, organizado por mim. Resultados: já ninguém sabe o que é fava-rica, quanto mais um moço de fretes; Carlos Seixas e Joly Braga Santos devem ser apresentadores de televisão ou ciclistas profissionais. Barahona da Fonseca? “Não era aquele gajo que fazia sketches humorísticos?
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Agora, se perguntassem aos jovens americanos sobre Kepler? Será que diziam que Kepler também era um cão? De facto, William e Margaret Huggins tinham um cão chamado Kepler, que ficou famoso por adivinhar os números em que as pessoas pensavam (é a lenda, que quereis?, é a lenda...). Não sei se os jovens americanos teriam respondido que Kepler era um cão, mas o facto é que ninguém lhes perguntou nada sobre Kepler. E muitos menos sobre William e Margaret Huggins. Serão menos importantes que McEnroe e o Dr. Death? Kepler também? Ok, admitamos que mesmo Kepler não é muito importante (???), mas, sei lá, Steve Jay Gould, Stephen Hawking, Jared Diamond ou Richard Dawkins, um desses nomes mais conhecidos, enfim, da ciência e sua divulgação, não é mais importante conhecê-los do que conhecer Snoop Doggy Dogg?
A cultura que se deve ter é música e artes plásticas clássicas, desporto americano e cinema americano, muitas outras coisas americanas e um bocadinho de História e Geografia europeia. Também podiam fazer tudo americano, já agora: Charles Ives, William Grant Still e Aaron Copeland eram cães ou compositores? E Jean Ritchie e Alex Chilton, quem eram? Alexander Calder era um escultor ou um vírus de computador? A Califórnia sempre foi um estado dos Estados Unidos?
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Brincadeiras à parte, acho bom saber quem eram Beethoven, Bruckner, Varèse, Respighi, Joly Braga Santos e Schnittke, sim senhor (ou, pelo menos, não acho mal), e quem eram Miguel Ângelo, Maillol, Modigliani e Mirò. Mas não acho menos importante saber qual é a diferença entre um vírus, uma bactéria, um fungo e um parasita, como fazer uma pesquisa eficaz na Internet, como se organiza o sistema político e judicial do seu país, para onde vão os impostos que se paga, a quem compete administrar e reparar estradas, bibliotecas e espaços públicos em geral e aprovar construções, o que é uma alimentação equilibrada e quais os malefícios da obesidade, o que é preciso para uma estatística ter valor ou se dar por razoavelmente provada uma experiência científica, quais as diferenças políticas reais entre os partidos políticos, como vive a maioria das pessoas nos países pobres do terceiro mundo e o que se passa de facto no conflito entre israelitas e palestinianos, como se amanha peixe e como não repetir todos os dias as mesmas receitas desenxabidas   coisas básicas todas elas, mas, por isso mesmo, indispensáveis [***]. Agora McEnroe e Snoopy Dogg, doces e carros de corrida, o que é que isso importa mesmo para o bem-estar dos jovens americanos no teste?…
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Ah, uma curiosidade final: perguntei há bocado ao meu filho Alex, de 11 anos, quem eram Beethoven e Miguel Ângelo e ele respondeu-me que o primeiro era um gajo que fazia música e que o segundo era um desenhador. Não está mal. É sinal de que vive, o rapaz, num lar onde se gosta de música e artes plásticas, dois agradáveis passatempos para quem deles se agrada mas que não servem para grande coisa a quem por eles se não interesse…
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[*] E não explicavam mais nada, partindo do princípio que o leitor, como os jovens americanos, conheceriam esse Beethoven que é cão. Como não era o meu caso, tive de investigar; e fiquei a saber que há uma série de comédias, iniciadas em 1992, cujo protagonista é um cão chamado Beethoven. É este o Beethoven conhecido dos jovens nascidos no mesmo ano em que a comédia nasceu; o outro, nascido duzentos e vinte e tal anos antes, não sabem quem seja…
[**] Bom, se isso significa que eles sabem que há agora uma Eslováquia e uma República Checa, e conhecem a Bósnia e Herzegovina, a Croácia, o Cossovo, a Macedónia, o Montenegro, a Sérvia e a Eslovénia, não é nada mau – sabem mais do que muita gente que se admira com a ignorância deles. Mas não deve significar nada disso…
[***] Ora aqui está um apelo à colaboração dos leitores: contribuam lá com perguntas que faltam no Mindset sobre conhecimentos tão importantes como saber quem foi Beethoven ou Miguel Ângelo.

2 comentários:

sem-se-ver disse...

«Mas não acho menos importante saber qual é a diferença entre um vírus, uma bactéria, um fungo e um parasita, como fazer uma pesquisa eficaz na Internet, como se organiza o sistema político e judicial do seu país, para onde vão os impostos que se paga, a quem compete administrar e reparar estradas, bibliotecas e espaços públicos em geral e aprovar construções, o que é uma alimentação equilibrada e quais os malefícios da obesidade, o que é preciso para uma estatística ter valor ou se dar por razoavelmente provada uma experiência científica, quais as diferenças políticas reais entre os partidos políticos, como vive a maioria das pessoas nos países pobres do terceiro mundo e o que se passa de facto no conflito entre israelitas e palestinianos, como se amanha peixe e como não repetir todos os dias as mesmas receitas desenxabidas – coisas básicas todas elas, mas, por isso mesmo, indispensáveis.»

eu também não acho.

pena, portanto, que os nossos jovens não soubessem responder a nenhuma dessas questões.

(generalizo, pois, pelo que encontro por aí, anda toda a gente a generalizar... ao contrário).

abraço

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Concordo, cara sem-se-ver, que a maior parte das pessoas continua a não saber muito do que devia – mesmo que não seja eu a decidir o que deveriam as pessoas saber e sejam elas próprias a definir que conhecimentos lhes importa ter. Por mim falo: sei muito pouco do que deveria de facto saber e tenho a cabeça cheia de nomes de músicos e ilustradores, que é coisa que deixa bem pouco... É certo: ainda falta muito para chegarmos a ter gerações de gente efetivamente sabedora. Mas para trás, pelo menos, não creio que estejamos a andar, ao contrário do que muita gente afirma. E depois, a constatação de que a maior parte das pessoas continua a não saber muito do que devia não invalida outras duas ideias simples que aqui esboço: que é estranho avaliar-se a cultura geral de uma geração com base na cultura da geração anterior; e que costuma haver uma clara sobrevalorização, quando se trata de cultura geral, dos conhecimentos sobre artes. Que lhe parece?

Um abraço