8 de maio de 2011

Hoje é a brincar

Não há que esperar de letras de canções populares prodígios de literariedade. A canção popular é, normalmente, “um domínio muito pobre”, como dizia Jacques Brel, e, claro, isso aplica-se tanto à música como às letras. Sobretudo as que são escritas para uma determinada melodia (e é assim que se trabalha muitas vezes na canção popular…) são muito limitadas e não devem, por isso, ser comparadas com poesia. Na poesia, em princípio, as limitações de métrica e de extensão do texto ou não existem (na poesia moderna) ou são muito menores – mesmo quando pensamos em formas rigidamente codificadas, o autor pode escolher a forma codificada que quer para o seu poema, o que lhe dá, ainda assim, muito mais liberdade*.

O que há que esperar da letra de uma canção popular é que soe bem. No mínimo, acentuações rítmicas rigorosas (na sua forma ideal a soar como percussão:

nega do cabelo duro / qual é o pente que te penteia**” – tchikitchi… tchikitchi…),

e elegância nos jogos de timbres de vogais e consoantes

(I will compose / in fancy rhyme / or just plain prose / a song of praise / for you / my prairie rose***).

Depois, se se puder acrescentar-lhe algum significado digno desse nome, melhor.

Apresento então a quem a não conheça, ou recordo-a apenas a quem tem já esse prazer, a canção “A Luz Azul”, dos Rádio Macau, com letra de Pedro Malaquias. É que me apeteceu, vá lá eu saber porquê, dizer sobre ela umas palavrinhas:



P’la janela entra a luz azul da lua. / Das cortinas desliza p’lo chão. / Enche o quarto o frio silêncio nu da rua, / envolvente em mansa lassidão. // Tenho em mim / ruim pressentimento / de já ter vivido este momento. / Se estou a sonhar, / quando acordar, / vou correr o estore e vou deixar / a luz entrar. // Baila sobre o fio brilhante e tentador / um pontinho azul que me seduz / e num gesto exacto e breve / bebo a minha vida em contraluz. // Tenho em mim / ruim pressentimento / de já ter vivido este momento. / Se estou a sonhar, / quando acordar, / vou correr o estore e deixar / a luz entrar. // Um pontinho azul que me seduz, / fecho os olhos tento não pensar… / Não pensar…

Parece-me que se trata de um caso em que a elegância formal está sempre ao serviço de um significado. Vejam a frase “P’la janela entra a luz azul da lua”. A luz da lua é azul porque tem z. Azul é lua ao contrário mais o z final de luz, que é quase lua também. Já o frio que enche o quarto vem da rua, não da lua, embora talvez também pudesse vir da lua por ser silêncio (e se nada disto é líquido para vocês, para mim é-o com certeza, porque é isso que são o r e o l: consoantes líquidas). Será que vê letras do alfabeto quando escreve letras de cantigas, o Pedro Malaquias? Se o faz, faz bem. E fá-lo bem, também.

Agora, o que na letra mais importa, na minha opinião, é que luz azul, luzazul, é um palíndromo. No centro há um a, o princípio, rodeado de dois zz, que são o fim. É essa a sedução. O brilho ofuscante do princípio rodeado de fim por todos os lados. Que remédio há, perante tão sedutora e luminosa revelação, senão beber, de repente, a vida em contra|luz?

Um déjà-vu? Um sonho? Seja lá o que for, a vida há-de continuar. Não pensemos agora nisso, sim? Como a interpreto, a letra fala de um flirt com o suicídio. Também a interpretam assim? E, já agora: não é desse flirt que fala também “Hoje é a brincar”, do álbum seguinte, também com letra de Pedro Malaquias?

Sobre o pulso tenso a bater / Encosto o aço frio devagar / Amanhã talvez seja a valer / Hoje é a brincar.



Hoje é a brincar às análises estruturalistas, se ainda não tinham percebido. O que a gente se diverte! E um grande abraço ao Pedro Malaquias, mestre de cantigas.
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* Enfim, tudo isto é muito discutível, eu sei, porque a lírica, tal como nós a conhecemos hoje, autónoma e livre na forma, nasceu para ser cantada em canções que não eram, muitas delas, fundamentalmente diferentes da canção popular actual. Reconheço que a simplificação que faço do assunto, de tão exagerada, pode facilmente soar mais a mentira do que a simplificação. Se, ainda assim, opto por ela, é porque não é de discutir a letra da canção popular como manifestação estética que aqui se trata, mas de fazer uma análise algo delirante de uma letra de uma canção em particular. E, para introdução a uma análise dessas, estas afirmações, por muito que pouco rigorosas, até nem ficam mal de todo, acho eu…

** “Nega do cabelo duro”, de David Nasser e Rubens Soares, 1942

*** “Prairie rose”, de Brian Ferry, 1974 [Prairie rose é também o nome de uma flor, a Rosa arkansana.]

3 comentários:

beijo de mulata disse...

Não imagina como me divirto a lê-lo! Acho os linguistas e os matemáticos pessoas absolutamente fascinantes...

(um) beijo de mulata

a última estação disse...

ah, queres festa!... analize this!

da vida duvidosa dividida
da dúvida que duvida da vida

da vária desvairada variedade
que dá de viva voz
a outra verdade

a verdadeira dor que doendo diz
o que dizendo
disse o que não quis

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Obrigado, beijo de mulata.

E obrigado, última estação, eu hei-de analisar isso. Espero que não seja nada de muito grave...