20 de fevereiro de 2008

Blasfémia, disse voss’ mercê? (Mais um panfleto anti-religioso. O último, prometo…)

Por incrível que possa parecer, há, em pleno ano 8º do século 21, uma quantidade de países com religião de estado. Na Dinamarca, por exemplo, o §4 da constituição consagra a igreja luterana-evangélica como religião da nação, que é, “nessa condição, apoiada pelo Estado”. Quer dizer, se fosse só a Dinamarca… Há 20 países que reconhecem o cristianismo como religião oficial, 27 países oficialmente muçulmanos, 6 onde o budismo é religião de estado. Como saberão também, há vários países em que a blasfémia é um crime – na Alemanha, para não ir mais longe, o parágrafo 166 do código penal sanciona a blasfémia.

Pelo amor de Deus! Valham-me os anjinhos todos do céu! Então mas isto admite-se? Admitir que alguém possa ser processado por ofensas a uma divindade ou às crenças de outra pessoa é, por Zeus!, meter-se num labirinto muito mais escuro do que o breu e sem saída absolutamente nenhuma. É que, se se parte do princípio de que o que é proibido é ofender a divindade e de que, à falta de melhor, chega a fé do crente para identificar a supernatural criatura, bom, a partir daí qualquer pessoa pode levar outra a tribunal por ofender os gnomos, os duendes ou os leprechauns; e se a ofensa não é encarada como sendo ao incomprovado criador, mas antes à fé daquele que nele crê, continuamos desgraçados, porque fés há tantas como há chapéus de palermas... Além de que falta sempre definir o que é ofensa e o que não é, o que também não é nada fácil…

“Está bem”, pode argumentar-se, “mas não compliques demasiado a questão: trata-se apenas de não dizer mal de nenhuma religião” – ou, numa formulação ainda mais imprecisa mas mais divulgada, “respeitar todas as religiões”.

Fixe! Digam-me lá então o que é, onde começa, o respeito por uma religião? E o que é, onde começa, o respeito por todas as religiões? Apesar de tudo é mais fácil respeitar apenas uma desrespeitando todas as outras, que é o que, sobretudo em privado, mas também muitas vezes em público, fazem todas as pessoas que professam uma religião… Não, a sério: o que é ofender Deus ou os que nele crêem? Dizer ou escrever que Deus é gordo, como Jorge Amado, naquele curioso diálogo de Dona Flor com Vadinho:

- E a terra, vista de lá de cima, como é, Vadinho?
- É toda azul, meu bem. (...)
- E Deus, como ele é?
- Deus é gordo.


Ou é antes dizer que Deus não existe?; que Deus é o ópio do povo?; que Deus é o resultado da ignorância?; que Deus é a manifestação simbólica de certos instintos inatos do ser humano?; que Deus morreu? Vamos tentar ordenar estas injuriosas afirmações por grandeza de blasfémia. É difícil, hem? Mas acho que dizer Deus não existe deve ser, ainda assim, a pior de todas. Eu, pessoalmente, ficava mais ofendido se me negassem a existência do que se me chamassem gordo. Mas não sei… Nem eu nem ninguém! Louvado seja o grande Manitu!

A biologia evolutiva (de facto, toda a biologia!), por exemplo, é uma blasfémia objectiva contra a fé cristã! É irreconciliável o saber que penosa e laboriosamente foi acumulando esta fascinante área de estudos e os irredimíveis disparates que dão conta da criação do mundo na maior parte das religiões (a adjectivação algo barroca mostra claramente a minha parcialidade, não é?). É mais blasfemo o Porque não sou cristão de Russell, o O mestre e Margarita de Bulgakov, os Versículos satânicos de Rushdie, Deus e o Estado, de Bakunine ou O fanatismo, ou Maomé, o profeta, de Voltaire? O Mein Kampf é obviamente contra as leis e as crenças da maior parte dos Europeus. Está proibido? Deve proibir-se? O que é se vai aceitar e o que é que se vai proibir por “atentado à fé de cada um”? O imperador Toyotomi Hideyoshi proibiu o cristianismo em 1587, por blasfemo, porque os missionários europeus andavam a ensinar aos japoneses que Deus era o Bem: “A nossa terra”, explicou ele na carta em que anunciava a proibição, “é a terra de Deus, e Deus é espírito. Tudo na natureza existe pelo espírito. Sem Deus, não há espiritualidade. Sem Deus, não há caminho. Deus reina em tempos de prosperidade como em tempos de declínio. Deus é positivo e negativo e incompreensível. Por isso, Deus é a origem de toda a existência.” Ora toma! Também afirmar que é o Criador que rege a vida dos homens é blasfemo, para quem acredite que são demiurgos e não o Criador que o fazem, como os iezídis. Muito provavelmente, é impossível fazer seja lá que afirmação for sobre Deus sem ferir os sentimentos de alguém. Donde que o tal respeito parece impossível, pelo menos se não guardarmos um rigoroso voto de silêncio. Ora francamente, que venha Wicca em meu auxílio, que já não sei mais a quem pedir ajuda!

Agora imaginem que eu, que não quero guardar votos de silêncio, digo que acreditar em Deus não tem ponta por onde se lhe pegue. Como qualquer outra afirmação sobre a divindade, isto fere, com certeza, muita gente. Pode ser. Mas é que isto é a minha convicção! Peço então estatuto de igualdade para o ateísmo relativamente às religiões todas e começo a levar a tribunal quem quer que diga que Deus existe, porque isso me ofende profundamente – e sabe Deus que é verdade!

Blasfémias? Ofensas? Que me acuda Malak Ta’us, o Anjo Pavão! Está tudo maluco! Ofende-se a Virgem Maria, ofende-se o profeta Maomé, Zoroastro provavelmente também, e ofende-se a Bíblia, o Corão e os Vedas. E A evolução das espécies, ninguém a ofende? Ora valham-nos Ceres e Minerva, senão quem é que nos pode valer?

Não sou contra as pessoas que professam as religiões, só contra as religiões que elas professam. As pessoas, essas, que o Pai do Céu lhes perdoe, porque não sabem o que fazem, e respeitar as convicções daqueles que nos rodeiam no nosso relacionamento directo com eles é uma questão elementar de bom senso. Ofender, provocar, não, não gosto disso. Ou então só em circunstâncias muito especiais… Mesmo os professores primários da terceira república francesa, que são a personificação mítica do anticlericalismo, tinham alguma noção de estratégia… Percebem? Não vou começar a dizer a todas as pessoas que eu conheço e que são religiosas que são parvas. Mal feito fora… Também não ponho a tocar Ornette Coleman quando a minha sogra vem cá a casa – pela mesmíssima razão!

Mas quero ter o direito a escrever seja onde for que Jesus, se é que alguma vez existiu, não nasceu com certeza de uma virgem, porque não havia fecundação artificial naquela época; nem ressuscitou ao terceiro dia, porque três dias após a cessação das funções vitais não é possível reanimar uma pessoa, muito menos há dois mil anos, em que, pura e simplesmente, não existiam conhecimentos nem para reanimar quem tivesse morrido há dois minutos; e que muito menos subiu ao céu, porque naquela época não havia naves espaciais. Quero ter o direito a escrever seja onde for que a religião sempre trouxe ao mundo mais mal do que bem. Quero, numa palavra, ter o direito a escrever seja lá onde for que Deus não existe e que nos compete a nós, humanos, resolver os nossos problemas sem o divino a atrapalhar. Quero ter o direito a deixar bem claro que, para mim, bispos, muftis e gurus, é tudo a mesma camarilha; que quero uma república efectivamente laica, sem concordatas com autoridades religiosas absolutamente nenhumas, em que toda a gente pague os mesmos impostos sobre edifícios, sejam eles para fins de culto ou para armazenar batatas; e em que não se metam Krishna, Deus e Odin na legislação e nas campanhas eleitorais!

Sam Harris diz, num excelente texto, que, “embora a tolerância religiosa seja com certeza melhor do que a guerra religiosa, a tolerância também não deixa de ter os seus pontos fracos. O nosso medo de provocar ódio religioso tornou-nos incapazes de criticar ideias que são agora obviamente absurdas e cada vez mais maladptativas. E obrigou-nos também a mentir-nos a nós próprios – repetidamente e aos mais altos níveis – quanto à compatibilidade da fé religiosa com a racionalidade científica”.

É verdade que as tentativas de conciliar as duas, por exemplo atribuindo a cada uma um “departamento” diferente, como fez Stephen Jay Gould, desculpem lá, mas não funcionam – até porque, como tem sobejamente sido apontado, nem a religião pode abdicar de pronunciar-se sobre matérias de facto, nem se vê porque é que a ciência não tem a mesma capacidade e o mesmo dever que a religião de pronunciar-se sobre questões morais…

E então eu, como sou um bocadinho mais bruto, digo a mesma coisa que Sam Harris diz, mas de outra maneira – a religião, de cada vez que ela sai do seu lugar para se vir meter na vida pública, é nosso dever devolvê-la a onde ela pertence, que é o interior de cada um. Se é blasfémia insistir que Deus não existe e que as religiões não nos servem para nada a não ser para arranjar mais problemas, se isto é blasfémia, digo eu, então já nem é o direito à blasfémia o que eu defendo – é o dever de blasfémia!

Mas então, pá, está tudo maluco? Que nos acudam bhagat Kabir e os bhagats todos do Guru Granth Sahib!

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