10 de fevereiro de 2008

Tradução, mais uma vez: as reais dificuldades

É verdade que há coisas intraduzíveis e outras só parcialmente ou mal traduzíveis. Não palavras isoladas em abstracto como saudade (e ele a dar-lhe!...), mas frases ou palavras em contextos específicos.

Alguém me contou uma vez que tinha tido um teste na universidade cujo enunciado era o seguinte: “«Esta frase está escrita em português». Traduza a frase para qualquer língua à sua escolha e justifique a sua tradução.” Neste caso, é preciso fazer uma escolha entre (digo assim para simplificar) traduzir a frase como tal ou a relação entre a frase e a língua em que está escrita. Sem contexto, parece que nenhuma das opções é satisfatória. Tenho a certeza de que, sem mais informação, muita gente acabaria por preferir traduzir a auto-referência da frase, por exemplo para inglês, como “This sentence is written in English”. Mas, se tivermos um contexto do tipo “Quando leu o papel, o Dr. Nobre exclamou: «Esta frase está escrita em português. Mas é português do séc. XVI…»”, a tradutora não hesita em traduzir, para inglês, “This sentence is written in Portuguese”.

Felizmente, problemas deste tipo não se colocam muitas vezes na prática. Mas é pena, porque são divertidos. Vejamos uma outra situação de impossibilidade de tradução satisfatória – uma tirada de um sketch humorístico dos argentinos Les Luthiers: “Escena séptima del cuadro tercero del acto primero. El Rey Enrique Sexto ha rezado la novena en su cuarto y después de unos segundos atraviesa la quinta.” Não há grande problema em traduzir a frase para português e conservar as intenções humorísticas dos autores, com a concatenação abusiva de numerais ordinais: “Cena sétima do quadro terceiro do primeiro acto. O Rei Enrique Sexto rezou a novena no seu quarto e, passados uns segundos, atravessa a quinta.” Mas já se perde alguma coisa: noveno, por muito que exista em português como ordinal, não é um sinónimo comum de nono, pelo que não vai ser imediatamente entendido por toda a gente como fazendo parte da sucessão de ordinais. Muito mais se perde, claro está, se se traduzir para outras línguas em que o jogo de palavras não se pode traduzir, como o inglês, por exemplo. Há que optar: ou se perde o jogo de palavras e se traduz o “sentido” da frase [se ponho sentido entre aspas é porque acho que aqui o sentido primeiro é, precisamente, o jogo de palavras], ou se mantém esse jogo, se se achar que é isso o fundamental, e abandona‑se a “literalidade” da tradução. Mas é difícil, porque ninth (“nono”), fourth (“quarto”) e fifth (“quinto”) não têm segundos significados com que possamos construir outro jogo de palavras. No caso de fourth, como se trata de um texto oral, seria fácil usar antes a palavra forth (“para fora; para a frente, adiante”), que se pronuncia da mesma maneira. Mas, e ninth e fifth? É difícil, deixo‑vos a tradução como trabalho para casa...

Outro caso difícil é aquele em que há que traduzir, juntamente com uma frase, uma referência cultural específica. Mais um exemplo de um texto do mesmo grupo argentino, também muito simples. No meio de uma canção em que se descreve uma batalha, ouve‑se uma voz gritar: “¡Defensa y Victoria, Libertad e Independencia, Triunvirato y Avenida de los Incas!” Acho que todos percebem que o efeito humorístico resulta de se passar abruptamente de exclamações patrióticas a nomes de avenidas de Buenos Aires. A tradução parece fácil, porque há em todo o lado avenidas com nomes que se prestam. Pensando num público português, poderia traduzir‑se, por exemplo: “Defesa e Vitória, Independência e Liberdade, Almirante Reis, Areeiro!” Mas em Lisboa não é comum dizer só Liberdade por Avenida da Liberdade (já Almirante Reis se diz sem dizer Avenida). E, mais importante do que isso, em Lisboa não há, como em Buenos Aires, carrinhas de transporte colectivo em que os cobradores gritam o destino para que as pessoas que esperam na paragem saibam para onde vai o autocarrinho.

Este problema das referências culturais põe-se também quando se trata de comparações e metáforas. É claro que estas imagens só fazem sentido quando se conhece o seu termo real, aquilo com que o que se descreve é directa ou indirectamente comparado: se eu disser que “Francisco esbugalhou os olhos. «Parece uma jágara», pensou Mariana”, a imagem não surte grande efeito num leitor que nunca tenha visto estes animais... Ou quando se faz apelo a conhecimentos comuns a um determinado público: se alguém escrever “uma dessas casas típicas do Sul” num texto que fala de Inglaterra, o mais normal é não vir nenhuma imagem à cabeça de alguém que leia o texto e não conheça o Sul de Inglaterra. Ou então, pior ainda, vem‑lhe à cabeça a imagem de uma casa de um Sul que conheça (uma casa algarvia, no caso de um português comum...).

Mas tudo isto já não são questões linguísticas, e o tradutor pouco pode fazer. Talvez pôr uma nota de rodapé com uma explicação, mas disso também não se pode abusar[1]...

[1] Porque é chato estar sempre a ir às notas de rodapé, não é?

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