5 de março de 2008

A culpa

Normalmente, os protestantes queixam‑se do peso do luteranismo ou do calvinismo, e dizem que é dessas doutrinas que lhes vem o sentimento de culpa que os oprime: “Que sorte têm os católicos”, já lhes ouvi várias vezes, “de poder des‑culpar-se pela confissão e poder deitar assim fora este sufoco que a nós não nos larga”. Curiosamente, os católicos acham sempre que é neles que o sentimento de culpa é mais forte e que tem precisamente no catolicismo a sua origem. No fundo, passa‑se apenas o mesmo que acontece com muitos mitos, pretensamente definidores de identidade, mas que se baseiam no desconhecimento das outras identidades: insiste‑se em que determinado fenómeno ou traço cultural é só nosso (ou mais nosso que dos outros) sem se ter o cuidado de ir ver se de facto existe também fora de nós. Não sei o que dirão ou pensarão da culpa os asiáticos ou os africanos, porque nunca discuti o tema com ninguém desses continentes. Parece‑me, no entanto, pelo que tenho visto por todo o lado, que o sentimento de culpa é como a razão de Descartes – algo muito bem distribuído por todos os seres humanos. Pode ser que haja culturas em que o sentimento de culpa seja mais forte que noutras, mas não é de cultura a cultura que tenho observado a maior variação, mas antes de cultura a falta dela. O que eu tenho visto é que o sentimento de culpa diminui quando há uma relaxação das normas de comportamento; quando os valores da sobrevivência começam a contar mais que as regras de relacionamento social; quando o desespero faz de cada um o ser mais importante do mundo; quando a marginalização, seja de que tipo for, leva à revolta e à perda do sentido de pertencer a um grupo determinado. Mas, mesmo nos casos mais extremos de situações caóticas de guerra, de exclusão, ou de qualquer outra causa forte e repentina de perda de valores sem que venham outros substituí‑los, o sentimento de culpa nunca desaparece. E ainda bem, digo eu, porque é dos bens preciosos que a humanidade tem. Que só a humanidade tem. Um dos instrumento básicos para fazer de cada um nós mais do que um apenas. Uma coisa sem a qual a vida haveria de ser mais complicada do que é.

A maior parte dos meus amigos com quem tenho discutido o assunto não concorda comigo. Há alguns que acham a culpa uma espécie de defeito, quase uma tara. Outros não vão tão longe como isso, mas argumentam, ainda assim, contra o sentimento de culpa invocando a sua inutilidade. “Se o mal está feito”, dizem eles, “de que serve sentir-se culpado?” Evidentemente, pode argumentar-se a mesma coisa relativamente a qualquer tipo de castigo, digo-lhes eu: se o mal está feito e o castigo não remedeia, de que serve castigar? Pode até argumentar‑se, em última análise, que com o castigo de uma má acção se está só a aumentar o número de más acções neste mundo. Mas esta argumentação radica num entendimento da função da punição diferente do meu: para mim, a punição só faz sentido como acção preventiva. Ou dissuasiva, como costuma dizer-se. O que interessa quando se pune quem infringiu uma regra não é vingar-se dessa pessoa, mas demovê‑la – a ela e às demais – de repetir o mal que fez. Aliás, é precisamente com base nesse entendimento do castigo que se advoga, muitas vezes, uma redução das punições muito longas ou violentas: “Para não brincarem com o fogo, o que é preciso é que as pessoas saibam que se vão queimar. Se se queimam com lume a 100 graus ou a 1300 graus, é indiferente” (não me lembro quem disse mais ou menos isto, mas a ideia não é minha…) E isto não faz sentido se se encarar a pena como pura retaliação…

A culpa é apenas a primeira das punições, a mais simples e natural forma de nos dissuadir de fazer mal, e a que tem uma acção mais abrangente; porque não é preciso que o crime e o seu culpado venham a ser descobertos pelos outros para que haja castigo; e nem sequer é preciso que a acção de que nos sentimos culpados seja considerada um crime por mais alguém. É neste sentido que digo que o sentimento de culpa é um dos nossos bens mais preciosos. Quem acredite poder fazer o que quiser sem vir a ser castigado pode ir muito longe no mal que faz. E passa‑se exactamente o mesmo com quem não tenha em si, preparado para o afligir de cada vez que cometer o que acha ser uma falta para com outro alguém, um sentimento de culpa eficaz.

1 comentário:

Lídia disse...

Concordo que a culpa é de facto um bem precioso essencial para o ser humano crescer mentalmente.
Cumprimentos
Lidia Craveiro