23 de fevereiro de 2010

Uma conversa sobre advérbios (2)

Num post anterior, defendia eu que algumas “palavras” normalmente consideradas advérbios talvez não o fossem de facto – mas sem com isso pretender recusar a existência da categoria no seu todo.

Continuo agora essa conversa, sugerindo que talvez seja mais sensato falar em verdadeiros e falsos advérbios. A questão é que, tanto considerando o advérbio uma “classe de palavras” como considerando-o uma categoria apenas sintáctico-semântica, não deixam de se levantar dúvidas (pelo menos) quanto à validade da inclusão de muitas palavras consideradas advérbios numa categoria definida como de “modificadores”, mesmo que alarguemos o sentido de “modificar” de modo a incluir a quantificação, a duração, etc.

É que há advérbios de todos os tipos: há os que não “modificam” nenhuma parte da frase, como ; há os que podem ter no seu escopo qualquer elemento da frase, embora a palavra “modificar” se lhes aplique mal, como TAMBÉM e os advérbios ditos de dúvida; há os que “modificam” apenas o predicado, como muitos advérbios ditos de modo; há os que remetem forçosamente para enunciados anteriores, como DEPOIS.

A primeira coisa que podemos fazer é eliminar à partida, por demasiado espúrios, os que não modificam coisa nenhuma, como o propunha a saudosa Professora Henriqueta Costa Campos*:
(...) Fará muito sentido falar de advérbio, por exemplo, a propósito de na frase Ele já se levantou, em que já não modifica de forma alguma a frase, marcando antes a construção de uma localização no plano enunciativo? (...) E a definição de advérbio é, sem dúvida, demasiado insuficiente para ser atribuída a mesmo na frase Não, aqui assim na vila, a maioria, mesmo casadas, trabalham, uma vez que, ainda que a palavra mesmo determine a maioria e não casadas, esta determinação é inseparável de um pré construído enunciativo que diz respeito ao estatuto social das mulheres casadas – em princípio, mulheres casadas não trabalham”.
Henriqueta Costa Campos mostra também, no resto do artigo, que TAMBÉM e ATÉ (no seu uso dito adverbial) não podem, com propriedade, ser considerados advérbios.

Veja-se também o caso de EMBORA, entre outros passíveis de discussão. Provavelmente, não há acordo sobre como classificar EMBORA em frases como “Vou-me embora às cinco” ou “Cheguei lá, vim-me logo embora”, mas é, o mais das vezes, considerado um advérbio (à semelhança, por exemplo, do AWAY inglês em “He went away”, ao passo que o EN francês de “Il s’en alla” é considerado normalmente um “pronome adverbial”, para complicar mais as coisas…). Repare-se que, também neste caso, nem sequer de uma função adverbial se pode falar, uma vez que EMBORA não modifica nada, apenas vem preencher o lugar deixado vazio pela omissão de um locativo (donde que se pudesse considerá-lo, como o EN francês, um “pronome adverbial”, se alguém se tivesse lembrado disso…; mas talvez seja melhor nunca ninguém se ter lembrado de tal coisa…). De facto, IR e VIR podem ocorrer não-reflexivamente com um locativo, respectivamente de destino ou de origem, ou (quase sempre) reflexivamente com EMBORA e sem esse locativo: diz-se “Bem, eu vou para casa” ou “Bem, eu vou-me embora”, mas, pelo menos em português europeu moderno, ninguém diz só “Eu vou-me” e muitos menos “Eu vou”.

Mudemos de assunto e entremos então na última parte desta conversa: outra coisa que é interessante constatar é a instabilidade na distribuição de adjectivos e advérbios. O julgamento da gramaticalidade de uma frase como “Ele fez aquilo muito rápido” varia, entre falantes do português europeu. No entanto, esta frase é normalmente considerada bem formada por falantes de outras variantes do português, e a sua correspondente directa é também considerada bem formada por um grande número de falantes de uma língua muito próxima, o castelhano. Tenho um dicionário Oxford bilingue espanhol-inglês (Superlex para Windows, 1996, talvez o dicionários bilingue mais bem concebido que já vi, para o utilizador comum) que considera, aliás, RÁPIDO também um advérbio, de uma forma talvez pouco ortodoxa, mas que, de acordo com a intenção expressa no editorial, dá efectivamente conta do “espanhol (...) falado e escrito nos anos 90 do séc. XX de ambos os lados do Atlântico”. Eis a entrada do dicionário (omito o que não tem correspondência directa em português):
rápido –da advhablar/trabajar › quickly, fast; ‹ conducir › fast; ¡vamos, rápido, que es tarde! quick o hurry, we’re late!; tráeme un trapo ¡rápido! bring me a cloth, quick!; ¿puedes ir un poco más rápido? can you go a bit faster?; vámonos rápido de aquí let’s get out of here quickly o (colloq) quick.
É claro, não posso deixar de estranhar a possibilidade de flexão de um advérbio (ou mesmo, se se preferir, a possibilidade de flexão do uso adverbial de um adjectivo)... Não vejo como se possa usar alguma vez em contextos do mesmo tipo do dos exemplos dados a palavra RÁPIDA. Trata-se de um erro. Mas basta tirar o feminino e a proposta está correctíssima! Não considerariam gramaticais as frases directamente correspondentes em português? A mim, nenhuma delas me choca.

Mas enfim, como eu dizia, os juízos de gramaticalidade dividem-se muito nestas situações… Não deixa de ser curioso, porém, que haja absoluta coincidência de todas as opiniões quanto à gramaticalidade do uso adverbial de certos adjectivos, como em “Ele está a cantar muito alto”. Repare se ainda que o uso da forma adverbial correspondente no mesmo contexto sintáctico é reconhecida como agramatical, ou, em certos dialectos, como significando uma coisa diferente: um sinónimo de “muito bem”: ninguém diz “*Ele está a cantar muito altamente” como o sentido de “Ele está a cantar muito alto”, se bem que se possa ouvir “Ele está a cantar altamente” com o sentido de “Ele agora está a cantar muito bem”, em certas variantes do português.

No Brasil, há um célebre anúncio de cerveja, que diz: “X, a cerveja que desce redondo”. É uma frase que choca algumas pessoas, sobretudo se forem falantes do português de Portugal. Mas é muito difícil responder à pergunta: “Então, se não está bem, como é que devia ser?”. “A cerveja que desce redonda”? Parece que não soa tão bem, não é? Além de que continua a ser um adjectivo a ter a função adverbial (“Como é que a cerveja desce?” “Redonda.”)... “A cerveja que desce redondamente”? Nem pensar, quem aceitasse uma frase assim estaria redondamente enganado relativamente à sua gramaticalidade! Então? “A cerveja que desce de uma forma redonda”? “A cerveja que desce de um modo redondo”? “A cerveja que desce de uma maneira redonda”? Continua a ser muito discutível que tenhamos assim uma frase mais aceitável para quem não gostava do uso adverbial de redondo. O que é indiscutível é que perdemos uma frase publicitária...

P.S.: Quando andava a tentar descobrir se a frase da cerveja que desce... como desce... ainda era usada, porque as notas a partir das quais fiz este texto eram já antigas, descobri, no site Sua Língua, um excelente exemplo de como se tratam questões de língua de uma maneira ao mesmo tempo acessível e rigorosa.
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* “Pour une définition de quelques faux adverbes à partir de la description d’opérations énonciatives sous jacentes”, in Actes du XVIIIe Congrès Internationale de Linguistique et de Philologie Romanes, Université de Trèves (Trier), 1986, Tome II, Tübingen: Max Niemmeyer, 1991, traduzo eu.

2 comentários:

Paulo disse...

Olá, amigo!
Faz um bom tempo que não retornava a esse (ou será este, já que não deixo de estar aqui?) fantástico "blog".
Fico feliz em retornar, porque sei que ele é excelente. Muito bom mesmo. Porreta!(Conforme os baianos.) Porreiro (Conforme os galegos.)!

Bem, irmão: esta história de cerveja descer redondo nunca me desceu redondo...

Alías, relativamente às cervejas, os brasileiros temos a mania de inventar. Aqui, por exemplo, se pede cerveja "estupidamente" (ops! mais um advérbio?) gelada.

Abraço muito forte.

E, se puder, dê uma chegadinha no síto do Portal Galego da Língua (http://www.pglingua.org) sítio a partir do qual tive o imenso prazer de conhecer os seus preciosos artigos.

Um forte abraço.

Paulo

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Caro Paulo,

Obrigado pela dica do Portal Galego, que hei-de visitar daqui a bocadinho. Porreiro não é só galego, é também uma expressão do português europeu. Muito típica da geração do meu pai e da minha (aliás, estou convencido de que é mais antiga, mas sem ter a certeza absoluta), a palavra tem vindo a cair em desuso e é natural que venha mesmo a desaparecer. É assim a vida, também a das palavras…

Quanto à cerveja estupidamente gelada, é também assim que ela costuma ser pedida em Moçambique. Mas pode ser, dizem os moçambicanos, ainda mais fria do que estupidamente gelada – é quando é granulada.

Um abraço de Chimoio

Vítor