5 de março de 2010

Elogio da abertura de espírito... e da desconfiança!

Para que a ciência funcione (e para que funcione qualquer forma séria de procura da verdade, seja normalmente considerada ciência ou não), é obviamente necessário, entre outras coisas, que haja efectiva vontade de reconsiderar posições sempre que seja apresentada evidência, observável ou de qualquer outra forma demonstrável, que invalide uma determinada teoria (ela própria, em princípio, assente em observáveis ou outros demonstráveis). E é aqui, penso eu, que muita gente torce o nariz e duvida de que os cientistas sejam de facto tão racionais como defendem que se deve ser… Pensa muita gente: «Quando chega à altura de ter de mandar fora convicções, às vezes arquitectadas durante anos, para aceitar simplesmente que se estava errado, como é que os cientistas e os académicos em geral podem ser menos dogmáticos do que os outros todos? O que eles fazem é entrincheirar-se no interior da sua teoria e recusar, por incompleto, imperfeito, inconcludente e etc., o que vier pôr em causa as suas “religiosas” certezas.» Não é minha intenção entrar aqui numa discussão detalhada da questão, mas posso propor uma maneira bastante rápida de os cépticos perceberem que os cientistas mudam mesmo de opinião perante evidência nova, que é lerem as 165 respostas à pergunta anual do Reality Club de 2008, que era a seguinte: «Quando o pensamento nos faz mudar de opinião, é filosofia. Quando Deus nos faz mudar de opinião, é fé. Quando os factos nos fazem mudar de opinião, é ciência. Em que mudou de opinião e porquê?» Aconselha-se, como se aconselha, aliás, a grande maioria do que vem do EDGE.

Agora, que haja reacção, defesa daquilo em que se crê, não tem nada de mal. Se for feito sem dogmatismo, o fincar pá nas suas ideias é apenas saudável. Triste seria, e muito pouco conducente ao progresso do conhecimento, que não houvesse resistência às tentativas de provar falsa uma teoria. Costumo dizer que, para se ser um bom pensador, tem de se ter uma dose igual de teimosia e de capacidade de se pôr a si próprio em causa. Os renitentes deviam ser ainda mais, as batalhas mais acesas e o crivo de triagem das boas provas de malha mais fina. A haver algum défice na ciência (e na Academia em geral), digo eu, não é o de abertura de espírito, mas o de advogados do diabo.

Outra coisa que é normal é que haja, entre quem faz ciência, gente negligente, incompetente ou até suficientemente desonesta para sacrificar conscientemente ao seu proveito a verdade para que deveria contribuir. Isto é normal, digo eu, porque não se vê por que razão a pesquisa científica deveria ser diferente de outras actividades humanas – e há, infelizmente, em todas as profissões e áreas de actividades quem não faça como deve o seu trabalho. O que já me parece menos normal (de facto, parece-me até bastante anormal, dê-se que sentido se der à palavra anormal…) é que, de cada vez que se descobre que há a possibilidade, mesmo que não provada, de terem sido falseados os resultados de alguma pesquisa, haja sempre alguém a aproveitar esse facto para gritar ó da guarda: «Estão a ver como é a ciência, estão a ver?». É amalgamar tudo e é uma vergonha, sinceramente. É como, sei lá, dizer que, porque há quem tome doping, é sem valor a prática do desporto, uma coisa assim…

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