20 de Abril de 2014

Águias, sintaxe e água fria [Crónicas de Svendborg #20]

Temos uma amiga que sabe os ninhos todos de águias-rabalvas aqui na ilha de Tåsinge e na ilha vizinha de Langeland.
Foto: Wikimedia Commons
Por estranho que possa parecer quando se começa a reflectir sobre ele (parece que devia ser antes de todos os ninhos”, não era?), é possível este uso transitivo de saber, consagrado, por exemplo, num conhecido poema de Miguel Torga. (O’Neill também sabia transitivamente, mas sabia seios em vez de ninhos. Como uma pessoa pode aninhar-se no(s) seio(s) de outra, é capaz de não haver, bem vistas as coisas, grande diferença entre os objetos do saber de Torga e de O’Neill…)

A amiga que sabe ninhos de águias é banhista de inverno. Temos vários amigos que são banhistas de inverno e alguns deles começaram tarde, já depois dos 60 anos. Quem sabe se, em chegando aos 60, não me vem também a vontade de fazer buracos no gelo, em janeiro, para me enfiar nas águas refrescantes do Estreito de Svendborg? Uma das minhas filhas diz que vai experimentar ser banhista de inverno agora durante o verão e depois logo vê se continua. O meu filho experimentou ontem à tardinha. A experiência não faz dele banhista de inverno, mas banhista de água muito fria já é com certeza: a temperatura da água aqui devia andar pelos 7º.


P. S. Vimos anteontem algumas faias já com folhas. No lago ali em baixo, o barulho é ensurdecedor em todas as épocas do ano: cisnes, patos e gaivotas de vários tipos, galeirões, corvos-marinhos, uma festa.



13 de Abril de 2014

Gækkebreve, as cartas da Páscoa [Crónicas de Svendborg #19]

Este texto é pouco mais que uma tradução (muito livre...) da entrada “Gækkebrev” da Wikipédia em dinamarquês. Como se pode chamar a uma tradução sobre uma tradição? Assim à primeira impressão, traduição não me soa lá muito bem…

As cartas da Páscoa são uma tradição dinamarquesa. Originalmente, as gækkebreve continham uma flor de Galanthus nivalis, vintergæk em dinamarquês, donde o seu nome (brev significa “carta”). São as crianças que fazem e mandam cartas da Páscoa. A carta é escrita em papel recortado com padrões simétricos e é enviada anonimamente, substituindo-se por um ponto cada letra do nome do remetente, que o destinatário deverá adivinhar. Se não adivinhar, tem de dar um ovo da Páscoa ao remetente, quando este se identificar. Na prática, porém, o destinatário da carta dá sempre um presente a quem lha enviou, adivinhe ou não. O texto da adivinha é em verso e pode ser apenas uma frase disparatada ou um pequeno poema.

Papel recortado para uma gækkebrev e o resultado final
As cartas da Páscoa têm origem numa tradição mais antiga, com origem no séc. XVII: as bindebrev eram uma forma de carta de amor, muito bem decorada, com recortes de papel e flores, em que o destinatário também tinha de adivinhar o nome do remetente. Às vezes, o número de letras do nome a adivinhar não era dado em pontos no texto, mas sim em nós num cordel, donde o nome (binde significa “atar”)

(As duas primeiras imagens são da Wikipédia e a terceira é de uma página do Museu de Odense em que se anuncia uma exposição de gækkebreve. Têm aqui uma amostra mais variada com uma busca de imagens em Google.)

11 de Abril de 2014

Por que razão faz ão-ão a palavra cão?

Tenho com a minha cadela Saskia um desentendimento: às vezes digo-lhe Kom!, pedindo-lhe que venha, e ela põe-se a comer; outras vezes, é ao contrário – aponto-lhe um grão de comida de cão que lhe atiro para o chão (tanto ão!) e mando-a comer, Come!, e ela vem na minha direção, pensando que estou a chamá-la. Evidentemente, como pode a pobre bicha distinguir português de dinamarquês? Nem os elefantes do Parque Nacional de Amboseli, no Quénia, que dizem que conseguem distinguir massai de quicamba, conseguiriam tal proeza.

Mas enfim, faz-me isto lembrar um poema famoso de Robert Desnos: 
Come, diz o inglês ao inglês e o inglês vem.
Còmm, diz o chefe da estação e o viajante que vai a essa cidade desce do comboio, de mala na mão.
Come, diz o outro, e ele come.
Comme, digo comme e tudo se metamorfoseia, o mármore em água, o céu em laranja, o vinho em planície, o fio em seis, o coração em pesar, o medo em chinchorro[1]
A reflexão mais imediata, perante este problema de incomunicacão, que é como se chama ao fracasso do diálogo com canídeos, é que o signo linguístico é, Deus meu!, tão arbitrário, não é? – qualquer som pode querer dizer qualquer coisa, se assim se o convencionou. Ora, por evidente e trivial que possa parecer, esta ideia tem sido muito debatida, às vezes com argumentos mais convincentes que outras.

Uma das mais famosas defesas da ideia de que não é por pura convenção que a uma determinada sequência de sons corresponde um determinado significado é a que Platão põe na boca de Sócrates, em defesa de Crátilo e contra Hermógenes. É tão famosa, aliás, que se chama às vezes cratilismo à crença num relação de motivação entre o significado e a sua forma linguística. Sócrates segue os seguintes passos no seu raciocínio: primeiro, é possível encontrar motivação nas palavras a partir de unidades significantes mais pequenas – outras palavras (por exemplo, Astynax seria asty-anax, "senhor da cidade" ou anthrôpôs,"homem", seria anathrôn-ha-opôpé, "que faz o estudo do que viu", etc., etc.); em seguida, é possível encontrar motivação para as formas mais simples, primárias e irredutíveis, pela adequação das características articulatórias do som ao conceito (por exemplo, os sons d e t, que resultam de uma "compressão da língua, que se apoia nos dentes" são os indicados para descrever desmos, "ligação" e statis, "imobilização"...).

O cratilismo ressurge de várias maneiras ao longo dos séculos e, para dar um exemplo num género que conheço melhor, a adequação do som ao conceito que exprime é uma característica às vezes louvada em certas línguas imaginadas e ideais das também imaginadas viagens a sociedades ideias que genericamente se costumam designar pelo nome de utopias (ver alguma coisa sobre o tema neste texto da Travessa). Há 85 anos, porém, que se defende de forma menos impressionista uma relação simbólica entre os conceitos e os sons que os dizem.

Esta defesa de um simbolismo sonoro natural na nossa espécie e que se refletiria nas línguas humanas tem seguido principalmente duas linhas de investigação:

Em 1929, Wolfgang Köhler pediu a vários falantes do castelhano que associassem duas formas abstratas, uma de contornos redondos e outra de contornos rectilíneos, com bicos, às palavras inventadas baluba e takete e verificou que a maior parte das pessoas associava baluba à forma redonda e takete à forma com bicos.

No mesmo ano, Edward Sapir (cujo nome talvez conheçam da chamada hipótese Sapir-Whorf) fez um teste a cerca de 500 falantes de inglês e sete falantes de chinês, pedindo-lhe que, em pares de palavras que se distinguiam por uma vogal (uma com [i] outra com [a], como milha e malha, por exemplo), indicassem qual indicava maior ou menor tamanho e concluiu que, em 80% dos casos, as pessoas associavam [a] a maiores dimensões.

Eram trabalhos de metodologia muito duvidosa e feitos praticamente só com falantes de uma língua, mas deram origem a uma série de experiências metodologicamente satisfatórias, muitas vezes com resultados semelhantes, que se poderiam resumir da seguinte maneira: quando, perante palavras desconhecidas, as pessoas têm de avaliar tamanho – ou outros significados – baseiam-se no som para o fazer e, curiosamente, acertam em percentagens mais altas do que seria possível apenas por acaso, quando as palavras desconhecidas correspondem mesmo às suas intuições.

Uma experiência famosa da linha de testes iniciada por Sapir é a que foi feita pela equipa de Roger William Brown em 1955: Perante uma lista de 21 pares de palavras referindo extremos opostos do espetro sensorial (como bonito e feio, claro e escuro, seco e molhado, etc.), na sua língua materna, inglês, e em três línguas desconhecidas, chinês, checo e hindi, as pessoas concordavam, numa média bem acima do acaso, sobre quais as palavras desconhecidas que deveriam corresponder às palavras inglesas. Nem sempre este alto índice de acordo as levava a adivinhar as traduções corretas (às vezes, concordavam numa falsa suposição), mas, no geral, a taxa de êxito na tarefa é bem acima da que resultaria apenas do acaso.

Na linha de experiências iniciada por Khöler, um trabalho conhecido é o de Vilayanur Ramachandran e Edward Hubbard, no âmbito de um estudo sobre sinestesia, em que, mostrando figuras semelhantes às utilizadas por Khöler em 1929 e pedindo agora para as relacionarem com as palavras bouba e kiki, se obtêm impressionantes taxas de acordo da ordem dos 95%, tanto com falantes do inglês como com falantes do tamil.

Há uma quantidade muito grande de estudos sobre a questão do chamado simbolismo sonoro, ou seja, da hipotética motivação natural dos signos linguísticos, e não quero – nem posso, nem sei –fazer aqui um resumo do que foi dito sobre a questão[3]. O certo é que, por muito que nem todos os trabalho confirmem a hipótese de haver alguma relação universal entre certos sons e certos significados, há um número grande de estudos que parece confirmar essa hipótese[4]. Mas… O que motivaria então essa motivação, se se pode dizer assim?

Para Ramachandran e Hubbard, a resposta é a relação (sinestésica, em sentido lato) que existe entre movimento e som. Segundo eles, “a representação de certos movimentos dos lábios e da língua em mapas motores no cérebro pode ser mapeada de forma não arbitrária em certas inflexões sonoras e representações fonémicas em regiões auditivas e estas podem, por sua vez, ter ligações não arbitrárias com a aparência visual de um objecto”. Por outras palavras, “pronunciadas mudanças de direção visual das linhas na figura [com bicos] imitam as pronunciadas inflexões fonémicas do som kiki, bem como a pronunciada inflexão da língua no palato. (…) Pode haver uma ligação sinestésica mais estreita do que normalmente supomos entre os movimento dos lábios e da língua, e outras vocalizações, e os objectos e eventos a que se referem. Isto é: palavras que referem algo pequeno muitas vezes implicam a produção de um /i/ sinestesicamente pequeno com os lábio e o estreitamento do trato vocal (por exemplo, palavras como ‘little’, ‘petite’, ‘teeny’ and ‘diminutive’) e o contrário aplica-se a palavras que significam grande ou enorme”[5].

À esquerda, takete e baluba de Köhler; à direita, kiki e bouba de Hubbard e Ramachandran 

Outra maneira bem diferente de tentar explicar uma eventual motivação das palavras que referem tamanhos, e não só, é a chamada hipótese do código de frequências, desenvolvida sobretudo nos trabalho de Eugene Morton e John Ohala em 1994. A hipótese assenta também na biologia evolutiva, postulando que as pessoas, como muitos outros animais, desenvolveram uma associação instintiva de sons mais graves com tamanhos maiores. Há, de facto, uma relação direta entre frequências mais baixas dos sons e maior tamanho do animal que os produz, e pode-se também verificar a mesma relação entre maiores dimensões e som mais grave nos objetos de um determinado material. Para muitos animais, é vantajoso saber reconhecer o tamanho e a agressividade (também ela expressa quase sempre com frequências mais graves) dos outros animais que se aproximam, donde o desenvolvimento desta associação entre frequências sonoras e categorias do mundo real[6].

De maneira que, cara leitora ou caro leitor, se lhe vier à cabeça que uma pessoa que acaba de se apresentar como Júlia tem antes cara de Mariana, é capaz de haver para essa estranha ideia alguma razão mais lógica do que consegue imaginar…











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[1] Isto sou a traduzir do francês original, que é assim:
Come, dit l’Anglais à l’Anglais, et l’Anglais vient.
Côme, dit le chef de gare, et le voyageur qui vient dans cette ville descend du train sa valise à la main.
Come, dit l’autre, et il mange.
Comme, je dis comme et tout se métamorphose, le marbre en eau, le ciel en orange, le vin en plaine, le fil en six, le cœur en peine, la peur en seine.
Aborrece-me ter de pôr o nome da cidade italiana no lombardo que lá se fala, só para preservar o jogo sonoro em que assenta esta parte do poema… Ficava melhor o nome italiano, Como, que é igual ao português. Além disso, podia pôr o como comparativo também em português, na língua do poema, como no original, sem itálico nenhum. Mas, o que faço então ao come que o inglês diz quando chama alguém? Até arranjar um como, ou commo, ou kommo, ou komo, sei lá eu, que exista noutras língua qualquer, tenho de me ficar pelo comme. Vale a pena ler o poema todo (de Sans cou, 1932) e podem fazê-lo aqui, por exemplo.

[2] Às vezes, encontra-se também uma versão gráfica do cratilismo, em que não é o som, mas sim a grafia, que exprime tão adequadamente o conteúdo que é impensável que possa resultar apenas de arbitrária convenção. Num texto de que têm sido muito divulgadas certas passagens no âmbito da discussão da reforma ortográfica («A fisionomia das palavras», in A Águia, ano 1, I.ª série, n.º 5, de 1 Fevereiro 1911), escreve Teixeira de Pascoaes:
Olhemos a palavra escrita das duas maneiras – Peccado e Pecado: logo ressalta aos olhos o enigma penal que os dois cc revelam e que esta palavra, na verdade, contém, querendo traduzir o acto que ofende as misteriosas leis divinas. Nos dois cc existe, por assim dizer, a própria criminalidade da palavra.
Deve escrever-se, pelos mesmos motivos, afflicto e não aflito, bocca e não boca, espectro e não espetro, occulto e não oculto, etc., etc.
Todavia, palavras há que têm um sentido misterioso e se escrevem como se pronunciam, o que não quer dizer que a sua forma gráfica contradiga o seu espírito. Nestas palavras, a verdadeira harmonia existe entre o seu sentido e a sua expressão sónica. Por exemplo, nevoeiro; o sebastianismo da palavra está na surdez das suas primeiras sílabas e no prolongamento mais alto e nubloso da terminação.
Na palavra luar, a ideia que traduz, casa-se perfeitamente com a primeira sílaba muda e a segunda sílaba aberta; aquela é feita de sombra, esta é feita de luz; reunidas dão realmente a luz difusa, o luar…”
[3] Para um excelente resumo crítico da investigação sobre o assunto, ver, por exemplo, a tese de Sarah Hunter-Smith (2007) Understanding without Babblefish: Reviewing the Evidence for Universal Sound Symbolism in Natural Languages.

[4] Conheço também uma teoria que propõe uma organização natural e universal das sequências sonoras: a lei do segundo mais pesado, proposta por Claude Hagège em L’homme de paroles (Paris: Fayard, 1985), diz que pares fixos de palavras, como ida e volta, pai e filho, mais ou menos, etc., se ordenam em todas as línguas pelo peso dos seus elementos: vem sempre no fim o elemento mais longo ou com frequências mais graves. Embora Hagège não fale de simbolismo sonoro, é uma forma de relação não arbitrária entre a forma linguística e o significado (pelo menos, no sentido em que se sobrepõe à organização com base no significado, precisamente), seja qual for a razão desta organização.

[5] Acrescentam Hubbard e Ramachandran:
Isto seria um exemplo de sincinésia entre os mapas motores para a boca e a mão, que estão mesmo ao lado um do outro no homúnculo motor de Penfield do giro pós-central. No exemplo referido, a forma da boca para petite, teeny e diminutive poderiam imitar sincinesicamente a oposição em forma de pinça do polegar e do indicador para indicar tamanho reduzido. Da mesma forma, ao apontar, uso o indicador para indicar a pessoa com quem falo. Também faço um “beicinho” parcial com os lábios (como no inglês you, no francês tu ou vous e no tamil thoo), ao passo que, quando aponto para mim próprio, os meus lábios e a língua se movem para dentro (como no inglês me, francês moi e tamil naan). 
É importante sublinhar que, embora afirmem que se podem observar ainda resquícios dele, os autores não defendem que este mecanismo primitivo funciona de facto nas línguas atuais, mas antes que “pode aplicar-se sobretudo aos estágios iniciais da evolução da protolinguagem dos hominídeos ancestrais”, que depois se teria desenvolvido de acordo com esquemas evolutivos mais complexos: “Desta forma, um vocabulário primitivo de gestos e pantomina poderia evoluir (…) para um vocabulário correspondente de movimentos da língua/palato/lábios (causando vocalizações, sobretudo se acompanhados de produção de sons guturais)”. Como o resumo que aqui faço desta proposta é demasiado breve (não é de modo algum minha intenção discutir aqui esta hipótese) e, sem mais explicações, a hipótese pode parecer mais especulativa, se não mais delirante, que o que é na realidade, sugiro que consultem, na obra de Ramachandran e Hubbard (disponível aqui), sobretudo a secção “Evolution of language” (pág. 19-23), onde se desenvolve a argumentação.

[6] Também esta tese é menos simplista – e está mais bem documentada por estudos empíricos – do que se poderia supôr. É de notar que ela não se aplica só às frequências fundamentais – à altura do som numa escala –, mas parece poder também aplicar-se às frequências formantes dos sons produzidos pelas pessoas, ou seja, ao timbre das vozes. Uma hipótese que poderia explicar a descida da laringe na puberdade que se dá nos machos humanos é a vantagem seletiva da comunicação de maior tamanho. Encontram-se em linha alguns resumos mais detalhados desta hipótese, nomeadamente um texto de Ohala e outro de Hinton, Nichols e Ohala.

O montante de Ricardo e a cimitarra de Saladino

Do Talismã de Walter Scott, que li na juventude, lembro-me de uma única cena: uma parte do encontro de Ricardo Coração de Leão com Saladino: Saladino pede a Ricardo uma demonstração da qualidade da sua espada. Ricardo põe em cima de um cepo uma maça que ali encontra e, com um golpe do enorme montante, quase tão alto como ele, corta-lhe ao meio o cabo de metal de polegada e meia de diâmetro. Depois de louvar o golpe de Ricardo e a sua arma, Saladino pergunta-lhe se consegue também cortar com a mesma facilidade uma almofada de seda com recheio de penas que lhe mostra. Ricardo responde que isso é impossível, pois nenhuma espada corta o que não oferece resistência. Saladino desembainha então a cimitarra e, com um golpe leve, corta uma ponta à almofada. Perante o espanto de Ricardo e do seu acompanhante, Saladino resolve fazer outra demonstração, ainda mais surpreendente para os europeus: atira ao ar um lenço de seda e, sem que se exerça a menor pressão, a lâmina da cimitarra divide-o em dois*.

Não sei por que me veio isto hoje à cabeça. Às vezes, deve acontecer-vos o mesmo, não consigo perceber o que é que, no fio dos meus pensamentos ou no que vejo, oiço ou cheiro à minha volta, convoca recordações que me surgem de repente, como neste caso. Mas deve haver muita gente a recordar, como eu, o romântico episódio, pelo menos nos países de língua inglesa, e mesmo sem ter lido o Talismã. Fiz uma pesquisa na Internet e creio que, pelo menos nos países de língua inglesa, a história de Scott foi recontada em vários textos muitos divulgados ao longo de várias gerações, como, por exemplo, Old Time Tales, de Lawton B. Evans e sobretudo Richard the Lionheart (Adventure from History), de L. Du Garde Peach, que foi editado na conhecida coleção Ladybird. Na Internet, encontrei, aliás, mais referências ao episódio do encontro de Ricardo e Saladino contado por Du Garde Peach que ao original de Scott.

Ilustração de John Kenney da edição Ladybird de Richard the Lionheart de Du Garde Peach
Diz-nos o historiador Christopher Tyerman, numa nota a uma figura retirada da edição Ladybird, que a ideia da sofisticação oriental comparada com a força bruta ocidental se pode encontrar já em Edward Gibbon no século XVIII e mesmo antes. É também, creio eu, uma ideia recorrente na literatura romântica de vários países – incluindo a portuguesa. Não tenho opinião própria sobre a imagem dos britânicos e dos árabes que o Talismã transmite (teria de o reler…), mas não pode ser, com certeza, uma desvalorização dos europeus perante os árabes que a obra pretende. O episódio termina com um comentário de Ricardo (traduzo eu):
“Por minha fé, irmão”, disse Ricardo, “não tens igual no manejo da cimitarra e é grande perigo defrontar-te! Ainda assim, ponho alguma fé num simples golpe inglês. Compensamos com a força o que nos falta em destreza.
Sofisticados que os árabes possam ser, os ingleses são-lhes superiores na força: parece ser antes esta a mensagem de Scott. Nalguns casos, porém, este episódio levantava no espírito dos jovens leitores algumas dúvidas, recorda T. J. Lustig em Knight Prisoner: Thomas Malory Then and Now (traduzo eu):
Um dos meus livros Ladybird tinha uma imagem de Saladino cortando um pano de seda com a cimitarra, enquanto Ricardo Coração de Leão despedaçava uma barra de ferro com a espada. Saladino… seda… cimitarra: tudo muito sibilante, subtil e sinistro. Mas era estranho que a principal qualidade de Ricardo fosse a força bruta. Pus-me a pensar, na altura, se dar cabo de coisas com espadeirões era o melhor que a Inglaterra conseguia fazer.





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* Encontrei em linha uma tradução portuguesa algo simplificada desse trecho do Talismã, que não sei de quem é. Achei-a num documento curioso: um guião do edição de 3 de Março de 1962 do programa “Os grandes momentos da história do mundo”, da Emissora Nacional, da autoria de Miguel Trigueiros. Quem saiba e queira ler o original inglês, encontra-o aqui (Capítulo XXVII).

10 de Abril de 2014

Cortar e tirar e outros verbos fora do vulgar

Esta manhã, fui tirar sangue para uma análise. Não será talvez a maneira mais elegante de o dizer, mas acho que não surpreende ninguém. Se disser que Fui cortar o cabelo, então, a maior parte dos falantes do português (europeu, pelo menos, mas talvez também das outras variantes) nem sequer conseguirá encontrar na frase deselegância nenhuma – é mesmo assim que se diz, não é? Os dicionários em linha que consultei, porém, não registam as aceções de tirar e cortar nestas frases[1]. Não sei se haverá outros que as registem, vocês me dirão.

A verdade é que são aceções estranhas. O verbo continua a ser transitivo, no sentido em que tem um objeto direto, mas passa a ter um significado inverso, digamos assim, do seu significado “de base” (se é que tal coisa existe…): o sujeito, que era agente da remoção ou do corte, passa a ser o lugar onde essa remoção ou esse corte se dá – e o agente, nem eu[2]… E é volta que não se pode dar a outros verbos, ademais: se eu disser que Fui arranjar os sapatos quando os fui pôr a consertar, muita gente achará a frase estranha; e, se disser antes que Fiz um fato em La Paz, porque são bons e baratos, fica tudo a olhar para mim com estranheza. “Mandaste lá fazer um fato, é isso?” Porque é só assim que se pode dizer. Noutras línguas, também não se pode cortar o cabelo, quando é o barbeiro ou o cabeleireiro que no-lo corta: on se fait couper les cheveux, you have your hair cut, e por aí em diante.

É claramente abusivo o uso da palavra inverso no parágrafo anterior, como hão de ter reparado. Não é uma forma passiva. Forma passiva seria Foi-me tirado sangue ou Foi-me cortado o cabelo. Por semelhanças que tenham com Fui tirar sangue e Fui cortar o cabelo, são frases diferentes – como todos vocês podem sentir, mesmo sem saber explicar –, como diferentes são as duas ativas de sujeito indeterminado que diretamente correspondem às passivas, Tiraram-me sangue e Cortaram-me o cabelo[3].

Agora, o que costuma passar-se quando o verbo deixa de ter um sujeito que faz qualquer coisa e passa a ter um sujeito onde acontece alguma coisa ou a quem acontece alguma coisa, é que passa de transitivo a reflexo: o que era objeto passa a sujeito e deixa um pronome no lugar onde estava, para marcar essa transformação. Por exemplo, Eu abri a porta, mas a A porta abriu-se, se não digo por força de quê ou de quem. Às vezes, porém, coexistem a forma reflexiva e não reflexiva com o mesmo sentido. Casar, por exemplo, pelo menos em certos contextos. Tanto se diz Casei aos 40 anos como Casei-me aos 40 anos, não é?

E depois, há os casos em que o verbo devia ter pronome e não tem, e não se percebe porquê. Em princípio, mudar devia ser como alterar, por exemplo: A segurança social alterou as regras, logo As regras alteraram-se; A segurança social mudou as regras, logo As regras mudaram-se. As regras mudaram-se? Não existe. Os meus alunos dinamarqueses, como os reflexivos em dinamarquês funcionam como em português, dizem instintivamente mudaram-se com pronome reflexivo, quando não é transitivo. Mas nós não dizemos assim, pois não?, dizemos As regras mudaram ou até, com maior frequência, Mudaram as regras[4]. Quer dizer, já se disse mudar-se, noutros tempos, mas depois mudaram-se os tempos e as vontades e mudar deixou de ser como soía…

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[1] Estou a ser injusto: o Michaelis tem Tirar o retrato: fazer-se retratar, que é um uso de tirar semelhante ao que refiro em tirar sangue. É de notar que tirar o retrato não é só “fazer-se retratar” (galicismo, esta definição, não é?), é também “fazer um retrato de alguém (com máquina fotográfica)”.
 
[2] Como dizia a minha avó. Não sei se os meus leitores compreendem a expressão, que deve ser dialetal (de Lisboa?), mas nem eu significa “desapareceu, não se sabe onde está”. É mais uma expressão que não encontro nos dicionários em linha que consultei. Presumo que venha de “Tu não sabes? Nem eu.”, mas isto é pura especulação.

[3] Não me surpreenderia que, no português de Moçambique, se dissesse Fui cortado o cabelo (embora não me lembre de o ter ouvido), numa daquelas passivas que resultam de transformar em sujeito não o objeto direto mas sim o objeto indireto da ativa e a que chamavam, quando as aprendi em inglês, “passivas idiomáticas”, um nome completamente disparatado. É de notar que, no caso de Moçambique, não é por influência do inglês que estas passivas se fazem, mas por influência das línguas bantas que são línguas maternas da maioria dos falantes e que têm, como muitas línguas em muitos lugares do mundo, este tipo de passiva.

[4] Esta questão da inversão do sujeito em português tem muito que se lhe diga, mas guardo para outra ocasião o pouco que sobre ela sei dizer.

Muito se diz não dizendo

Uma noção pode representar-se por um espaço fechado que tem no centro o seu sentido ideal, o seu significado por excelência[1]. Tomemos, por exemplo, a noção irritante. Se dissermos, por exemplo, “não o acho nada irritante”, estamos no exterior da noção. Se dissermos “bom, já está a tornar-se irritante”, estamos a entrar na noção, mas ainda muito perto da fronteira[2]. Depois, avançando pela noção adentro em direção ao tal centro, uma pessoa pode ser “um pouco irritante” “bastante irritante”, “muito irritante”, “extremamente irritante”, etc. Tudo isto parece trivial, talvez o que se segue o seja menos:

Quando se acabam os advérbios, quando estamos mesmo a chegar ao centro, à noção de irritante no seu estado mais puro, uma solução para exprimir o alto grau de irritante é a referência à própria noção de irritante: “O gajo é irritante, irritante, aquilo que se chama mesmo ser irritante!” E a partir daí, como avançar? Com o interdito – o que, segundo as regras sociais, não se pode dizer; porque o que não se pode dizer é mais forte do que os mais fortes quantificadores e qualificadores que se podem dizer. E surgem então “irritante com’ò rai’ qu’o parta”, “irritante com’à merda” e o (muito!) mais de que seja capaz a imaginação de cada pessoa[3]

O que vem a seguir já é a teoria minha. Quer dizer, não sei se já alguém se lembrou da mesma coisa, mas pensei no outro dia que também o por-dizer pode ter a mesma função que o interdito, não é?, porque também dizemos, para dizer que alguém ou alguma coisa é mais que muito irritante, que “é irritante que eu nem te digo nada” ou “é irritante que eu vou-te dizer” (não digo agora quando o digo, portanto…).

Hmmm… Até que ponto se deve levar a sério uma coisa destas, eis o que vocês me dirão – ou não…
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[1] Faço aqui um resumo muito simplificado de algumas ideias da Teoria das Operações Enunciativas, desenvolvida pelo linguista Antoine Culioli e pelos seus seguidores

[2] Convém acrescentar aqui que, na maior parte dos casos, as fronteiras têm espessura: uma pessoa não é ou irritante ou não irritante: há uma gradação entre não ser irritante e ser irritante, e tornar-se irritante assinala, precisamente, o atravessar dessa fronteira; mas em casos como vivo e morto, a fronteira não tem espessura, porque não há gradação entre os dois estados, pelo que é impossível a interpretação literal de Estou mais morto que vivo (sorriso).

[3] Há um texto da Travessa em que falo de palavrões e a que talvez queiram dar uma vista de olhos: "Cavalo verde, cibório e cancro: Não seja malcriado, está bem?"

14 de Março de 2014

Increase Your Website Traffic!



Não sei se vos acontece o mesmo, mas sugerem-me muitas vezes (ou querem vender-me…) esquemas  para aumentar o tráfego nos meus sites, que é como quem diz o número de visitas a este blogue e ao meu glossário de moçambicanismos. Foi coisa que nunca me interessou. Se eu aqui vendesse alguma coisa de jeito, talvez valesse a pena, mas eu aqui só vendo a banha da cobra das minhas solitárias congeminações, que deixa pouco e que duvido que valha a pena publicitar… Seja como for, hoje em dia, se se quiser aumentar o tráfego de um site qualquer, há uma maneira mais fácil, mais rápida e mais eficiente que tudo o que nos queiram aconselhar ou vender: é pôr lá um artigo sobre o Acordo Ortográfico…

6 de Março de 2014

Mais um texto sobre a reforma ortográfica

Tenho dito que não sou especialmente a favor no Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), nem especialmente contra, mas, na prática, tenho-me revelado a favor, sobretudo porque me tenho sentido na obrigação de criticar, por incoerentes ou infundados, alguns argumentos dos seus detratores[1]. Eis um resumo das críticas que tenho encontrado e do que penso delas.

A alteração mais criticada no AO90 é o desaparecimento das letras etimológicas não pronunciadas, a maior parte das vezes referidas como “consoantes mudas”. Costumam misturar-se, nesta crítica, que é na maior parte das vezes apenas afetiva, argumentos que se contradizem uns ao outros. Assim, invoca-se muitas vezes o argumento de que é precisa, na grafia, uma marca da “abertura” das vogais átonas. Diz-se, por exemplo, que sem o p de concepção, conceção se lê forçosamente como concessão, isto é, com o e “fechado” ou “mudo”. Nunca vi esta preocupação relativamente à norma anterior, em que havia já várias palavras, algumas do vocabulário fundamental, em que não se marcava graficamente a abertura da vogal átona. Custa-me a perceber por que é que, se isso nunca foi problema antes, passou agora a ser problema. Nunca ninguém achou que se devesse escrever de outra maneira esquecer nem aquecer, porque é que projetar ou afetar se tornaram de repente problemáticos? É estranho. Um dos cavalos de batalha dos antiacordistas é o exemplo de espetadores em vez de espectadores, que muitos acham ridículo, senão revoltante, mas nunca vi ninguém indignar-se, pelas mesmas razões, perante pregadores. É estranho.

Uma objeção válida a esta alteração é que aumenta o número de vogais átonas abertas não assinaladas na escrita: antes do AO90, algumas vogais átonas abertas tinham uma marca dessa abertura, agora nenhumas a têm. É certo. E pode ser uma solução manterem-se as “consoantes mudas” que “abrem” vogais, mas isso não resolve o caso das vogais átonas “abertas” que já não tinham consoante a marcar a abertura. Conservar as “consoantes mudas” preserva, assim, uma incoerência que a nova grafia elimina. Uma solução óbvia para eliminar esta incoerência é recuperar e alargar o uso do acento grave como marca de abertura das vogais átonas abertas, mas uma proposta deste tipo seria, seguramente, muito mal recebida por toda a gente[2]

Há também quem vá ao ponto de defender que, mesmo nas sílabas tónicas, as “consoantes mudas” não devem desaparecer porque são uma marca tímbrica – por exemplo, que, sem c, projeto ou inseto se leem “naturalmente” projêto ou insêto, porque essa é a pronúncia “predominante” do -eto em final de palavra. Não só não é verdade (já falei disso aqui), como nunca vi preocupações, nem dessas pessoas nem de nenhumas outras, com as pronúncias “predominantes” de, sei lá, -edo ou -elo, por exemplo. É estranho. No caso de -edo final (que é diferente dos de -eto e de -elo finais), não há dúvida que, na grande maioria das palavras onde ocorre, esta sequência final se pronuncia -êdo. Dever-se-ia então marcar a abertura em credo, vedo, arredo, etc? Com quê? E por aí fora…

Evidentemente, prende-se com esta questão uma outra: a da influência da escrita sobre a pronúncia. Alguns detratores do AO90 defendem que, sem as marcas de abertura das vogais, as palavras passarão a ser mal pronunciadas, mas nunca explicam por que não aconteceu isso às palavras que sempre tiveram e continuam a ter átonas abertas sem essas marcas. Se alguém usasse o argumento sensato (nunca ninguém o fez em discussões comigo) de que, por muito que isso não se aplicasse a palavras que se ouvem frequentemente, podia aplicar-se a palavras que quase nunca se ouvem e que, por isso, se aprendem sobretudo através da escrita, eu poderia aceitar – mas isso reduz o problema a meia dúzia de palavras. Ainda assim, é muitíssimo duvidoso que essa influência se possa dar: por exemplo, nunca ouvi palavras menos comuns como colação ou ilação pronunciadas com aa fechados. A explicação é que as poucas pessoas que usam as palavras menos vulgares ouvem-nas pronunciadas por outras poucas pessoas que as usam; e só mesmo as palavras estrangeiras é que podem, às vezes, ser conhecidas por escrito sem nunca serem ouvidas. Quero, a propósito, acrescentar que não conheço trabalhos sobre este fenómeno e ficaria grato a quem me indicasse algum. O único exemplo que vi apresentarem sobre influência da escrita na pronúncia são os verbos em -scer, como nascer ou crescer, mas, sem mais provas ou bons argumentos, acho extremamente duvidosa essa tese. A sequência -sce- tem um história seguramente complicada, que pode bem ter levado a um apagamento do s em várias zonas do país (esse apagamento persiste nalgumas zonas, aliás), mas é duvidoso que a difusão de um eventual reavivar do s, se se pode dizer assim, se tenha feito por influência da escrita em sentido estrito.

A grafia tem efetivamente influência na pronúncia, mas não das línguas maternas: das línguas segundas e das línguas estrangeiras. Nesse sentido, é uma bênção desaparecerem consoantes não pronunciadas para quem tem de ensinar ou aprender o português como língua segunda ou estrangeira. Mas é esse o único problema que a nova escrita resolve. Para contribuir para resolver outros problemas de pronúncia, a escrita deveria ter um caráter eminentemente fonético e não tem (nem acho que deva ter), de maneira que, como não têm interiorizadas as regras fonético-fonológicas do português, os falantes do português como língua segunda ou estrangeira continuarão a pronunciar mal muitas outras coisas. Os oo que deviam ser /u/, por exemplo, etc., etc. ...

Também há quem critique o caráter demasiadamente “fonético” do AO90 (às vezes, as mesmas pessoas que defendem a necessidade de uma marca de abertura das vogais átonas, por contraditório que isso seja), dizendo que não se pode deitar fora a História da língua ou até que algumas palavras do português passam, assim, a ter uma escrita diferente das palavras com o mesmo étimo noutras línguas. Mas não explicam que critérios se devem seguir na decisão de que letras etimológicas manter. Curiosamente, nunca vi ninguém defender, nem antes do AO nem depois, producto, fructo, escripto ou dictado (já nem falo de th, ph e y, e duplos pp, mm, nn, tt, ff, etc.). Nem sequer do nome contracto… Enfim. Além disso, as seleções de palavras internacionais e das línguas em que elas são comparadas nunca é imparcial. E o italiano não entra nunca, porque estas consoantes não existem em italiano. E elas não existem em italiano pela mesma razão que o AO90 as elimina: deixaram de se pronunciar.

Às vezes, critica-se também o desaparecimento das marcas de timbre do antigo pára, terceira pessoa do singular do presente do indicativo de parar, que se tornou homógrafa da preposição para. É certo que o desaparecimento do acento faz confusão a quem a ele está habituado (para mim, foi muito difícil deixar de o usar), mas há que reconhecer que faz pouco sentido ter uma marca tímbrica deste tipo quando desapareceram todas as outras. O hábito, pois, a malvado hábito… Mas uma pessoa habituada a não usar o acento nunca sentirá falta dele. Parecem-nos estranhas sequências como “para para pensar”, mas, convenhamos, não é uma sequência comum por aí além, além de que, com alguma boa vontade, encontramos sequências do mesmo tipo com outras expressões que perderam as marcas tímbricas: eu, por exemplo, tenho um filho que se pela pela bola[3]

E guardei para o fim o que mais estranho: a identificação de língua com ortografia. Dizem que não se pode decretar mudanças na língua ou que o acordo prejudica a língua, que defender a antiga ortografia é defender a língua, eu sei lá. Mas a língua e a ortografia não são a mesma coisa, longe disso. A língua é um sistema complexo de relações entre sinais e noções de vários tipos que temos na cabeça, que não interiorizamos pela escrita e que ninguém comanda. A escrita é uma convenção, que se pode alterar como e quando quisermos, sem que isso afete a língua. Durante muito tempo, houve muitas línguas que não se escreviam, para as quais não estava fixada uma transcrição, e não eram, por isso, menos línguas que as outras. Há línguas que se podem escrever com mais que um alfabeto e, às vezes, com alfabetos e sistemas de escritas não alfabéticos. Discutir ortografia deveria ser discutir a lógica de um sistema, reduzido e controlado, de transcrição de outro sistema muito mais complexo e muitíssimo mais vasto, a língua. É claro, pode chamar-se à discussão a tradição e o mais que se achar que se deve, mas propor uma reforma ortográfica não é, mas nem de longe nem de perto, propor seja lá que alteração for na língua. Nem que se passasse a escrever com alfabeto khmer a língua era afetada. Custa-me perceber por que custa perceber isto…

No resto, ninguém está mesmo interessado. Não que não haja mais coisas a discutir, mas ninguém está interessado em discutir hífenes e tremas, prefixação e sufixação, aglutinação e justaposição (se calhar, ainda faço eu um textozito sobre isso, um dia destes.), até porque muitas pessoas não conhecem nem as antigas nem as novas regras e escrevem como lhes apetece as palavras compostas…

A conclusão do que tenho visto é a seguinte: há poucas pessoas interessadas em discutir o AO90. Parece-me impossível, aliás, que alguém que queira mesmo refletir sobre a ortografia do português e discuti-la possa estar completamente de acordo com a norma anterior ou com a nova[4]. A maior parte dos críticos explica, de forma normalmente atabalhoada, quando não contraditória, porque não gosta (é o termo) do desaparecimento das “consoantes mudas” e pronto. Quando se argumenta a favor desse desaparecimento, os antiacordistas acabam por responder muitas vezes (muitas vezes…), que sim, pode ser incoerente, mas querem continuar a escrever como aprenderam, não estão para alterar um hábito velho. Convenhamos que, por compreensível que seja a atitude, é uma argumentação um pouco fraca, para não dizer que não chega a ser argumentação. Alguns vão ao ponto de chamar à conversa Camões ou Pessoa, por exemplo, para defender uma ortografia que o primeiro nunca conheceu, obviamente, e que o último recusava...

O processo foi pouco transparente e não incluiu um número suficiente de instituições? Não há necessidade da reforma? A maior unificação da ortografia não chega para unificar as diversas variantes do português? Tudo isto se pode e deve discutir, mas nada disto tem relação com as questões ortográficas concretas que se discutem. É claro, pode sempre recusar-se qualquer reforma e até pode optar-se por uma grafia ilógica e complicada, como a do francês ou do inglês, sem que daí venha mal maior ao mundo. Mas não foi isso que se fez em 1911 e a questão para mim é que quem aceita a grande reforma de 1911, que foi incompleta, deveria querer levar o seu espírito até ao fim – independentemente de como isso unifica ou não a escrita nos países de língua portuguesa. Alguns pontos do AO90 são um avanço nesse sentido.

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[1] E já não falo daqueles que se limitam a espalhar informação falsa, dizendo que o c de facto desapareceu ou que desapareceram os acentos nas palavras esdrúxulas. A esses, que não conhecem o AO90, só se pode dizer: leia o acordo antes de o criticar, sim? Não acredito que seja por má fé que espalham essa falsa informação, mas não é de modo algum aceitável que se critique o que não se conhece, muito menos o que não está no que se desconhece…
[2] A grafia portuguesa – e a grafia do português em geral – é uma grafia fonológica e não fonética, isto é, uma grafia que dá conta do sistema e não de como as palavras são realmente pronunciadas. Para dar um exemplo simples e de forma simplificada, comer escreve-se com o e não com u, porque é um o que existe no sistema, como se pode verificar em como ou comes. Em Portugal, existe uma regra fonética que funciona na cabeça de todos os falantes que diz que a língua se eleva e recua de cada vez que um /o/ não é acentuado, passando esse /o/ a pronunciar-se [u]. No Brasil, esta regra só se aplica ao /o/ que está depois da sílaba tónica, pelo que o o de comer tem uma pronúncia diferente: [o]. Mas, como o elemento do sistema é o mesmo, pode escrever-se igual no Brasil e em Portugal. O espírito da reforma ortográfica de 1911 foi passar de uma lógica essencialmente etimológica a uma lógica essencialmente fonológica, mas ninguém advoga uma ortografia fonética, que separaria completamente o português do Brasil do português europeu (a norma da pronúncia africana é instável, mas a norma usada na comunicação social é ainda semelhante à norma europeia). Agora, é discutível até que ponto a oposição entre as vogais átonas abertas e as suas correspondentes fechadas tem caráter fonológico, mas é uma discussão complicada, que deixo aqui de lado.
[3] Pois, eu sei: não quis exagerar, e pela é mesmo uma maneira rara de dizer bola, mas pensei o mesmo que vocês pensaram agora: «Mais giro ainda era “tenho um filho que se pela pela pela”!».
[4] Também não é, de modo algum, necessário estar completamente de acordo nem com a antiga grafia nem com a reforma para escrever português segundo a norma. Sempre houve e continua a haver coisas que não acho que se deviam escrever como as escrevo, mas escrevo-as assim porque é essa a norma. Evidentemente, depende do contexto. Há tipos de texto em que cada um é livre de escrever exatamente como lhe apetecer. Em última análise, cada um é sempre livre de escrever como lhe apetecer, mas tem de se sujeitar a que, em certos textos, lhe sejam corrigidas certas formas para as harmonizar com a norma vigente.

Um texto sobre estranhos pedaços de vida que se encontram em livros em segunda mão

A quase totalidade das fotografias que conservo são fotografias que, de uma forma ou de outra, documentam a minha vida. Penso que sucederá o mesmo convosco. Mas tenho também, algures no meio das minhas fotos, várias outras que não têm nada a ver com a minha vida e que guardo antes por serem mistérios, focos de sedução e de magia. Algumas, nem sei de onde vêm e o fascínio que têm é precisamente serem misteriosas apenas, pedaços impressos de vidas que desconheço completamente. De todas elas, a que aqui nos interessa é uma que me veio numa bíblia em francês comprada em segunda mão: vê-se três senhoras de meia idade, vestidas de uma forma de tal maneira clássica que seria impossível identificar a época em que a fotografia foi tirada, se não estivesse com elas um jovem alto, com um cabelo comprido, uns bigodes desenhados até ao queixo, umas calças à boca de sino e uns sapatos de tacão alto que só existiram nos anos setenta do século vinte. A fotografia tem escrito atrás, em letra redonda de portuguesa, «Senhor, ensina-me a ser instrumento da tua Graça», e a data, «16.VII.1987», que não só está escrita de uma forma pouco normal em Portugal como também é, com toda a certeza, muito posterior à fotografia. O livro pertenceu a uma tal Maria da G. Galhardo, moradora na Travessa da Senhora da Glória, 26, 1.º Esq. Nunca encontrei desenvolvimento para o G. abreviado que não fosse Graça como a do Senhor, de que ela queria ser instrumento, ou Glória, como da Senhora (curiosamente, a Travessa da Senhora da Glória, não sei se sabem, é na Graça…).
Até agora, o parágrafo anterior servia apenas de introdução a um conto meu chamado “Valdemar, o marinheiro”. Agora, passa a servir de introdução também a este texto, que é sobre estranhos pedaços de vida que se encontram em livros em segunda mão.

A Bíblia de que falo, comprei-a na Feira da Ladra e por uma ninharia, se bem me recordo, mas não me lembro já por quanto. É uma tradução ecuménica francesa, impressa no Canadá, e tem uma grande quantidade de notas sobre dificuldades de tradução e questões históricas e culturais, além de remissões constantes de umas para outras partes que tratam temas ou acontecimentos relacionados. É do melhor que vi até hoje para quem, como eu, encara a Bíblia como um conjunto de documentos históricos e obras literárias, e não como uma recolha de revelações divinas.

A história da fotografia encontrada na Bíblia não é completamente fictícia; mas, como seria de esperar, também não é exatamente como a descrevo no conto. Não são três mulheres e um homem que se veem na fotografia, mas sim duas mulheres e dois homens. Além disso, a frase “Senhor, ensina-me a ser instrumento da tua Graça” não está escrita nas costas da fotografia, mas sim na primeira página da Bíblia e a data que tem é 19.VII.80. Numa das guardas, estão escritas com a mesma letra um nome, uma morada e outra data. Nem o nome nem a morada não são os que refiro no conto. A morada é da Estrada da Luz. Luz não é sem relação com Graça e com Glória, claro, mas a Estrada da Luz fica a uns quantos quilómetros da Graça. A outra data é 24.III.1980. Estranho, não é?, duas datas diferentes a duas páginas uma da outra?

A foto que vinha dentro da Biblia é a que deixo aqui a seguir e tem a data 15.05.86. Achei que a fotografia era fundamental neste texto, mas cortei as caras, porque não tenho autorização das pessoas fotografadas para a publicar – nem tenho, bem entendido, maneira de a pedir – e porque ela se enquadra assim melhor no texto, que é sem grande cabeça, convenhamos.

Uma coisa assim faz-nos sonhar. É como encontrar uma mensagem numa garrafa trazida pelo mar em que não se identifique remetente nem proveniência. Também é como ficar, sem querer, na posse de uma pedaço de vida alheia a que, em princípio, não temos direito. A reação mais racional é, provavelmente, deitar fora a foto e não pensar mais no assunto. No extremo oposto está a minha: interrogar-se sobre quem são as pessoas da fotografia e o que estão a fazer, imaginar como se poderia contactá-las, dizer-lhes que temos a foto, que veio numa Bíblia, que estamos, claro, dispostos a devolvê-la, se a quiserem, quase que pedir desculpa do nosso, como dizer?, voyeurismo… Procurar o remetente desconhecido da mensagem na garrafa, enfim, para lhe contar onde ela foi parar e às mãos de quem. Ou escrever um texto de blogue sobre o assunto, também pode ser. Estranhar é o meu divertimento preferido.

No sábado comprei, numa loja de coisas em segunda-mão, uma versão de Moby Dick para jovens. Quero propô-la à minha filha mais nova, que gosta de ler. Talvez ela passe também, não sei, pelo deslumbramento que Moby Dick me causou – primeiro, no fim da infância, quando conheci a história e as personagens, numa versão destas simplificadas; e, sete ou oito anos mais tarde, quando li enfim o romance em versão integral. Mas isto é um excurso. O que interessa aqui é que o livro trazia lá dentro uma fotografia e uma ficha de enfermeira.

Diz nas costas da fotografia, em dinamarquês: “A primeira coisa que se nota são duas plantas chamadas plantas de cânhamo que enchem o cenário”. A letra e os erros ortográficos parecem de adolescente, mas, claro, é impossível saber. Também é impossível saber se a rapariga que se vê na fotografia é a mesma a que diz respeito a ficha cor de rosa que vinha mais adiante. É uma ficha da enfermeira que visita os bebés ao domicílio e diz respeito aos primeiros quatro meses de vida de uma menina. Vê-se que nasceu em 1963 e que a mãe residia nessa altura em Copenhaga, onde fazia um estágio numa livraria. O nome da mãe e da bebé e o seu apelido são demasiado corriqueiros para que valha a pena, sequer, fazer uma pesquisa em Google.

As coisas que os livros em segunda-mão trazem lá dentro e o estranhamento que elas nos causam… Estranhar, não sei se já vo-lo disse, é o meu divertimento preferido.

11 de Fevereiro de 2014

Laticínios e mais laticínios e elogio moderado de (alguns) estrangeirismos [Crónicas de Svendborg #18]

aqui falei da dificuldade de traduzir para uma língua termos que designam realidades desconhecidas dos falantes dessa língua. A solução costuma ser adotar simplesmente o termo da língua de origem, adaptando-o apenas à estrutura fonética da língua alvo. É um dos mecanismos mais produtivos na criação de neologismos, estou em crer. Se nunca se viu batatas, importa-se com a planta um nome taino; se nunca se viu anoraques, passa a designar-se a peça de vestuário com o seu nome gronelandês; se nunca se viu uma chita, passa a designar-se o animal com o seu nome hindi; se nunca se viu iogurte, importa-se com o produto o seu nome turco, e por aí fora.

Sempre se falou de coisas ainda sem nome na língua em que se fala, mas hoje fala-se mais ainda, porque há muito mais comunicação entre os lugares quase todos do mundo. Os conceitos novos nas áreas técnicas chegam-nos fresquinhos (como sempre chegaram) ainda na língua em que foram criados, sem serem filtrados por propostas de tradução dos especialistas dessas áreas que têm a mesma língua que nós. Em jornais e revistas, são-nos apresentados em línguas exóticas (como sempre foram!) nomes de bichos, plantas e artefactos culturais. E há (como sempre houve) algumas destas palavras estrangeiras que passam a ser usadas com maior ou menor regularidade.

Muitas vezes, há resistência a estas importações, e é natural, porque as pessoas estão fartas do uso desnecessário de palavras estrangeiras. É que também há muito quem use barbarismos que ouviu sem ter o cuidado de verificar como determinada noção, às vezes mais que traduzida, se diz na sua língua. E, como não é fácil decidir quando é ou não preciso recorrer ao empréstimo, acontece então que se vá longe demais nesta recusa do estrangeirismos. Dou a palavra a Cláudio Moreno:
Faço questão de frisar (…) que muitas vezes a caça aos vocábulos estrangeiros é motivada por falta de informação (ou cultura) do caçador, que pensa, erroneamente, ter encontrado um sinônimo idêntico no Português. Não faz muito um jornalista vociferava, no rádio: “Parem com essa mania de usar nome importado para fingir que a coisa é fina! Mas quando se ouviu falar em iogurte? Parem com isso! Iogurte é a nossa velha coalhada!” – e dê-lhe ponto de exclamação! Confesso que fiquei impressionado com a veemência de seu discurso; no entanto, como sempre desconfio daquilo que vem gritado, seja na fala ou na escrita, fui consultar um queijeiro amigo, que me aconselhou a não levar a sério o jornalista, já que os dois – o iogurte e a coalhada – são tão parecidos quanto um porco e uma ovelha...
Também é verdade que as pessoas, lexicólogos e gramáticos incluídos, não têm de ser gastrónomos, nem zoólogos nem botânicos. Podem é ter cuidado. E abrir mão do nacionalismo linguístico, chamemos-lhe assim, quando for caso disso. Notem que a minha intenção aqui é mais lançar a confusão – e mostrar que a realidade é suficientemente complexa para justificar importações, às vezes realmente necessárias. Dou exemplos com nomes de laticínios, porque a outra intenção deste texto é apresentar alguns laticínios destas terras ou que por aqui se encontram e é por isso que faz parte das Crónicas de Svendborg.

Adotámos e adaptámos portanto o yoğurt turco em toda a Europa, já há muito tempo, e fizemos bem, mas isso não resolve todos os problemas. Acho que a questão não se porá muito em Portugal, mas pode ser preciso traduzir para outra língua palavras como ymer, por exemplo, filmjölk ou skyr[1] ou muitos outros produtos do mesmo tipo… Muitos pensarão: “Tanto preciosismo para quê? Se é parecido com iogurte, chama-se-lhe iogurte – ou outro nome próximo que se use na língua para que se traduz.” Pode ser. Até ao momento em que alguém tenha de explicar a diferença entre os dois produtos, ou dizer, simplesmente “Que chatice, não há iogurte no frigorífico, só há ymer e eu só gosto de iogurte, detesto ymer”. (Pode ser uma personagem de uma narrativa de ficção, mas também pode ser o meu filho, que adora iogurte e detesta ymer… Já a minha filha mais nova prefere tykmælk[2] e não é grande fã de iogurte.) Uma boa descrição destas dificuldades é a do primeiro parágrafo da entrada “Quark” da Wikipedia em inglês (traduzo eu, deixando por traduzir alguns nomes de laticínios, quando acho que devo):
Quark é um tipo de laticínio fresco. É feito aquecendo leite fermentado até se atingir o grau pretendido de coagulação (desnaturação) de proteínas lácteas e depois é coado. Os dicionários [ingleses] traduzem normalmente o termo como curd cheese ou cottage cheese, embora a maior parte das variedades comerciais de cottage cheese sejam feitas com rennet, ao passo que o quark tradicional não é. É mole, branco e fresco, semelhante a alguns tipos de queijo fresco[3]. É diferente do ricotta porque o ricotta (em italiano: "recozido") é feito de soro de leite aquecido. É semelhante ao chakka indiano.
Usa-se muitas vezes natas azedas para traduzir sour cream. Mas sour cream é um laticínio específico e que quem lê natas azedas pode pensar que é de nata azeda, nata que azedou, que se trata e não é. É nata cuja fermentação foi controlada, com bactérias específicas. Bom, eu conheço uma receita mesmo com natas que azedaram, uma espécie de soupe de chalet[4] que aprendi a fazer na Suíça, mas não é a isso que se referem as receitas que se encontram normalmente. Há vários tipos de sour cream, mais ou menos gordas e mais ou menos azedas, mas, no geral, nem sequer são azedas por aí além, pois não? Na Dinamarca (como noutros países), chama-se à sour creamcrème fraîche! E não deixa de ser curioso: se se traduzir do francês usando a mesma lógica que se usa para traduzir do inglês, temos nata fresca em vez de nata azeda – duas expressões que parecem ter significados bastante diferentes... Mas atenção: a sour cream inglesa é diferente da americana; e, em francês, crème frâiche pode designar dois produtos diferentes – é claro que é a crème fraîche espessa que é sour cream e não a líquida, a fleurette.

É então necessário usar estas palavras estrangeiras? Depende do (con)texto. Em (con)textos em que não é o rigor da descrição do produto que importa, pode adaptar-se tudo ou quase tudo e, às vezes, a tradução só ganha com isso. Pode dizer-se, por exemplo, em português, que “John disse que não queria natas no bolo de maçã, que as natas lhe caíam mal”. Só natas chega, não vale a pena dizer que eram azedas. Até chantili se pode dizer neste contexto, juntando às natas, na tradução, açúcar que não tinham no original. Mas quando se quiser mesmo falar de comida, do sabor, do produto, usem-se os estrangeirismos, explicados se se julgar necessário, só para não enganar ninguém.
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Bónus: Completamente grátis e um bocadinho a despropósito, deixo-vos aqui um link para um quadro muito informativo sobre a percentagem de lactose em diversos laticínios (façam favor) e um mapa da distribuição da intolerância à lactose no mundo (tirado daqui). Os dados variam um pouco conforme as fontes, mas nunca andam muito longe disto.







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[1] Comi ontem skyr pela primeira vez; é muito mais parecido com iogurte que ymer, mas é mais azedo e a consistência também é diferente, muito mais cremosa.
[2] A entrada da Wikipedia em inglês para que o link remete diz que este laticínio é semelhante ao leitelho, o produto lácteo que sobra do fabrico de manteiga, mas a verdade é que, em sabor e, sobretudo, em consistência, os dois produtos são diferentes – leitelho bebe-se, tykmælk não. Não sei porque não há leitelho comercializado em Portugal, uma bebida tão boa.
[3] Traduzi fromage blanc por queijo fresco, para simplificar, mas quem conhece queijo fresco e fromage blanc sabe que não são o mesmo produto…
[4] Deixo soupe de chalet em francês, com as minhas desculpas, porque é uma sopa específica, não apenas uma sopa feita num chalé – quanto mais não seja porque os chalets em questão são cabanas de pastores)

8 de Fevereiro de 2014

In memoriam

Não sei quem disse, mas ouvi algures: a morte é um lugar estranho. Não é nada. Bem que a gente se quer disso convencer, fazer dela sítio que, credo!, nunca pisamos, ou só pisamos em tempos que nunca nos hão de chegar, arrepio que só aos outros diz respeito. Mas a verdade, infelizmente tão fácil de comprovar, é que é ela o lugar dos nossos passos todos, quando percorremos contentamentos e morrinhas, rotinas públicas ou celebrações da nossa intimidade. A morte não é nenhum lugar estranho. É este lugar, pensem bem, onde nascemos e vamos vivendo, que conhecemos como a palma da mão. Bem vistas as coisas, o único lugar que conhecemos, não é? Que a morte se disfarce de lugar estranho é truque de cenografia. Não nos deixemos enganar por paisagens de papelão.
 ***
A morte de cada um dos outros é uma das formas que toma a nossa morte, essa que nunca nos larga e que, como dizia António Joaquim Lança, que nela não cria, só morre quando um dia a vida morre. E quanto mais os outros fazem parte de nós, mais nossa é a morte deles, como todos sabem.

Morreu anteontem o meu amigo Tozé. Vocês não o conhecem e este texto é mais para mim que para vocês, nisso terão de me desculpar. Não poder ir ao funeral dos que lhes são queridos é um peso para quem tem as pessoas de quem gosta espalhadas por sítios distantes. É um peso não poder afrontar de perto a materialidade da morte, deixar os nossos mortos por enterrar, saber só de longe – sem o ter sentido, na mais primordial aceção da palavra – que o coração lhes parou. Deixá-los assim, vagos, a pairar em nós.

Já aqui falei do Tozé, quando falei da Floresta de Oma
(… Foi viver lá para casa um amigo meu com quem eu acabava de retomar um contacto perdido durante muitos anos, e passávamos muitos serões à conversa. Era um prazer ouvi-lo: contava histórias interessantes das muitas viagens que tinha feito e tinha muitas vezes propostas de novas viagens, umas mais exequíveis do que as outras… Foi ele quem me propôs fazermos uma viagem ao País Basco, perto de Guernica, para irmos ver uma floresta mágica. A viagem mais simples e mais barata das muitas que propôs: “É um floresta pintada. Quer dizer, a floresta é a própria pintura. Há quem pinte em papel, há quem pinte em tela, há quem pinte murais e este tipo, olha…, pinta florestas! Não é pintar uma árvore aqui e outra ali, não é isso – a pintura é a floresta toda!” Não sei se me disse o nome do pintor, mas, se mo disse, nunca o fixei. A ideia era boa e combinámos mais de uma vez datas concretas para a viagem, mas, já não sei por quê, acabámos por nunca ir.)
…e falei dele no post anterior.
(Um dia, um amigo, certamente tão progressista e tão livre-pensador como eu acreditava ser, mostrou-me um lado óbvio da questão que eu, não sei porquê, nunca tinha querido ou nunca tinha podido ver: nenhuma morte diz respeito apenas a quem morre. Quem se suicida age sobre os outros que cá ficam. Ao meu amigo, interessava sobretudo a forma como o suicida age sobre os que lhe são próximos. Que direito tem alguém de tirar um familiar aos seus familiares, um amigo aos seus amigos? “Claro, se uma pessoa não tiver ninguém que a ame ou que precise dela, é diferente”, dizia-me o meu amigo. E eu comecei a rever a minha posição sobre o suicídio.)
E gostava agora de saber fazer um obituário regular, mas mais bonito que os obituários regulares, a contar o Tozé, vida e alma, mas sinto-me tão incapaz nessa tarefa…

Entre muitas outras coisas, o Tozé deixou-me Gary Snyder, João da Cruz e Van Morrison e homenageio com eles o meu amigo que vocês não conhecem:
ele sabia o que tem de se saber para ser poeta
(… os seis sentidos que temos, com a mente atenta e elegante … sonhos. os ilusórios demónios e os ilusórios deuses resplandecentes … e depois amar o humano: mulheres maridos e amigos … exaustão, fome, repouso. fome, repouso. … a iluminação solitária e silenciosa … o verdadeiro perigo. apostas. e o limiar da morte);
sabia mais que saber apenas
(Estaba tão embebido, / tão absorto e alheado, / que ficou o meu sentido / de todo sentir privado / e o espírito dotado / de entender não entendendo, / toda a ciência transcendendo);
e sabia bem que no amor se renasce.



E foi espalhando à sua volta isso que sabia. Ensinou-me que a vida é essencialmente sofrimento e que é dessa constatação que devemos partir para a tentar melhorar. E dói-me muito que tenha morrido.

28 de Janeiro de 2014

Suicídio: o direito a renunciar e o dever de persistir

Lembro-me de um amigo me falar, há muitos anos, de um comunicado de uma célula de um partido ou de um grupo político, já não me lembro qual, em que se criticava o suicídio de um militante como abandono da luta dos seus companheiros – ou qualquer coisa nesse sentido. Durante muito tempo, considerei esse episódio um exemplo extremo de como a obsessão ideológica pode desumanizar: como era possível ser assim insensível a um desespero tão extremo que levava uma pessoa a desistir da vida?

Na altura, achava que o suicídio não podia ser condenado. A única condenação do suicídio que  conhecia era a condenação religiosa (só Deus pode dispor da vida) e considerava agora que, recusando esse pre(con)ceito, o suicídio era uma questão pessoal – que cada qual tinha, precisamente, o direito a dispor da sua vida como quisesse. Foi esta a minha posição relativamente ao suicídio durante muito tempo.

Um dia, um amigo, certamente tão progressista e tão livre-pensador como eu acreditava ser, mostrou-me um lado óbvio da questão que eu, não sei porquê, nunca tinha querido ou nunca tinha podido ver: nenhuma morte diz respeito apenas a quem morre. Quem se suicida age sobre os outros que cá ficam. Ao meu amigo, interessava sobretudo a forma como o suicida age sobre os que lhe são próximos. Que direito tem alguém de tirar um familiar aos seus familiares, um amigo aos seus amigos? “Claro, se uma pessoa não tiver ninguém que a ame ou que precise dela, é diferente”, dizia-me o meu amigo. E eu comecei a rever a minha posição sobre o suicídio.

A ideia, descobri depois, é um dos argumentos clássicos contra o suicídio – ou, de forma mais geral, contra o sacrifício da vida. É em nome do dever para os que ficam, por exemplo, que, n’Os Miseráveis de Victor Hugo, Combeferre incita os homens a abandonar a barricada, em vez de ficarem para serem massacrados:
Vá lá, é preciso ter um bocadinho de piedade. Sabem do que se trata qui? Trata-se das mulheres. Vejamos. Há mulheres, sim ou não? Há crianças, sim ou não? Há ou não há mães, que empurram os berços com o pé, rodeadas de uma catrefada de miúdos? Levante a mão quem nunca viu um seio que amamenta. Ah! Vocês querem deixar-se matar, eu também, eu que vos estou aqui a falar, mas não quero sentir à minha volta fantasmas de mulheres que sofrem. Morram, muito bem, mas não façam morrer os outros. Suicídios como este que aqui se vai cometer são sublimes, mas o suicídio é estreito e não se deve alargar; e, se atinge o próximo, o suicídio chama-se assassínio.
Há outras perspetivas da questão do suicídio e outras maneiras de o considerar assassínio. Pode-se considerá-lo uma questão de saúde pública, por exemplo. Tenho a impressão de que muita gente não tem uma noção realista da amplitude do fenómeno suicídio. Segundo a Organização Mundial de Saúde, “morrem anualmente de suicídio quase um milhão de pessoas”, o que “corresponde aproximadamente a uma morte de 40 em 40 segundos”. “O suicídio é, nalguns países, uma das três principais causas de morte de pessoas entre os 15 e os 44 anos e a segunda causa de morte no grupo dos 10 aos 24 anos; estes números não incluem tentativas de suicídio, que podem ser muito mais frequentes que o suicídio (10 ou 20 vezes mais frequentes, ou mais, segundo alguns estudos). No mundo inteiro, calcula-se que o suicídio representasse 1,3% da morbilidade global total em 2004.” Morre mais gente de suicídio que de homicídio ou na guerra.

Em Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It[1], Jennifer Michael Hecht afirma que “a influência suicida é suficientemente grande para o suicídio poder ser também considerado homicídio. Quer lhe chamem contágio, focos de suicídio ou criação de um modelo sociocultural, as nossas ciências sociais demonstram que suicídio causa mais suicídio, tanto entre os que conheciam a pessoa como entre os estranhos que se identificavam com a vítima.” Fala-se há muito tempo do efeito Werther. A novela de Goethe, cujo protagonista se suicida, terá desencadeado, ao difundir-se na Europa, uma vaga de suicídios[2]. É sempre assim, dizem alguns: suicídios de pessoas célebres (não forçosamente de carne e osso, a julgar pelo caso de Werther) causam suicídio. Após o suicídio de Marilyn Monroe, por exemplo, houve 200 suicídios mais que a média para essa época do ano. Mas não só os suicídios de pessoas célebres são contagiosos, diz Hecht: há numerosos estudos que indicam que, se uma pessoa conhece o suicídio, se esteve em contacto com um suicida ou com a ideia de suicídio, tem mais possibilidades de vir a cometer suicídio.

Há vários argumentos contra o suicídio, além do que referi atrás. Quero discutir um deles, o argumento utilizado por Hecht que assenta fundamentalmente na ideia de compromisso com a humanidade.
Somos humanidade, diz Kant. A humanidade precisa de nós porque nós somos humanidade. Kant acredita no dever e considera manter-se vivo um dever humano essencial. (…) Os seres humanos têm de se compreender como uma força do bem, uma força da moral. Como seres humanos, cabe-nos preservar esses ideais. (…)
É um erro moral intelectual e moral considerar a ideia de suicídio uma escolha aberta que cada um de nós é livre de fazer. Os argumentos contra o suicídio pedem-nos que nos empenhemos no projeto humano. Pedem à humanidade que largue os punhais e as taças de cicuta e se afaste deles para sempre. (…)
Rejeitar o suicídio é um ato enorme numa comunidade. Também penso que muda o universo. Ou o universo é um lugar frio e morto com uma colónia de seres sencientes mas divididos, tentado criar sentido cada qual por si, ou estamos num universo vivo, com uma colónia de seres sencientes, cujos membros fizeram uns com os outros um pacto de perseverar.
No fundo, Hecht parece concordar com os autores do comunicado que referi no início deste texto: suicidar-se é criticável porque é abandonar (a luta d)o resto do grupo, o seu compromisso com ele – só que o grupo que se abandona é mais abrangente. É-me difícil perceber se se deve ler, nas entrelinhas destas proposições, uma acusação concreta de falta de solidariedade, ou apenas de fraqueza, talvez até cobardia[3]. Seja como for, e apesar de aceitar vários argumentos contra o suicídio, continuo a ter dificuldade em aceitar esta ideia do compromisso com a humanidade.

Aceito que existe, de facto, numa maioria esmagadora das ações humanas, um compromisso com a espécie no seu todo, uma solidariedade da espécie que faz realmente parte da natureza humana – e, provavelmente, da natureza de muitos outros animais; mas vejo mal como se faz deste compromisso um dever. Que se combata o suicídio como se combate qualquer causa de morte parece-me natural. Se se acreditar que, de cada vez que alguém se suicida, isso aumentará as possibilidades de outro alguém se suicidar, deve condenar-se o suicídio como ação contra pessoas concretas – embora indeterminadas ou virtuais. Até aqui, o argumento funciona. Mas pode-se ir mais longe? Pode falar-se de um compromisso, um dever? Cabe-nos perseverar, preservar a força moral que somos. Se o meu dever para com a humanidade é apenas manter-me vivo, não posso ser criticado se me mantiver vivo comendo e dormindo apenas – o que, para a humanidade tem o mesmo resultado que eu não existir[4]. Por isso, a proposta de compromisso com a espécie, a proposta de manter-se vivo para preservar uma força moral, só parece fazer sentido se se definir que há o dever de contribuir ativamente para a humanidade. É possível, mas, como em todas as propostas de uma moral positiva, de um dever de agir bem, é muito difícil, se não impossível, definir que contribuição ativa deve ser essa. Se tiver, à partida, a capacidade de inventar a cura para uma doença e não o fizer, porque decidi não estudar medicina, e não salvar, por isso, muitas vidas humanas, estou a faltar ao meu dever para a humanidade? O compromisso com a humanidade, o dever de me preservar como força moral é, para mim, um dever demasiado vago, demasiado grande…
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[1]
Jennifer Michael Hecht, Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It. New Haven: Yale University Press, 2013. Não li o livro, mas apenas o artigo de Maria Popova sobre ele, no site Brain Pickings. O artigo (3455 palavras) é muito completo e aconselho vivamente a sua leitura. Foi esse artigo que me motivou a escrever este texto.

[2]
Nicholas Christakis e James Fowler têm feito muitos trabalhos sobre redes sociais e defendem a ideia de que o que se difunde não são hábitos (isso faria com que os contágios fossem mais lentos do que são), mas normas – ideias do que é aceitável, por exemplo. Ver, por exemplo, a apresentação de Christakis no site Edge do seu trabalho sobre a difusão da obesidade. É de notar que os trabalhos de Christakis e Fowler têm sido criticados, nomeadamente pela metodologia que usam – para um resumo das dúvidas relativamente à metodologia e conclusões de Christakis e Fowler ver, por exemplo, um texto de David John no Slate.

[3]
É o que pode indiciar, por exemplo, o título do artigo de Hecht em The American Scholar, “Viver é um ato de coragem”. Mas talvez esteja a ver fantasmas – é certo que esta estratégia retórica não implica forçosamente que “não viver é cobardia”. Este artigo, em que Hecht defende as mesmas ideias que encontramos resumidas no artigo de Maria Popova atrás referido, centra-se nos soldados americanos, entre os quais há “uma tremenda crise: há mais soldados a suicidar-se que a morrer em combate, e 52% dos suicidas nunca foram colocados em zonas de combate. Em 2012, suicidou-se em média um soldado por dia. Entre os veteranos, a taxa de suicídio atingiu, nesse ano, a média de 22 por dia (!!!). Esta tendência não tinha declinado em meados de 2013, na altura em que o artigo foi escrito.

[4]
Exceto, sublinho, no facto de não levar outros a suicidarem-se, que é até onde acho que o argumento chega.