9 de setembro de 2018

Breve defesa de um ateísta

O epilóbio-eriçado (Epilobium hirsutum ) dispersando semente. Foto de Colin, 2012, Wikimedia Communs, daqui
A propósito de um texto de Hans Magnus Enzensberger publicado em El País em julho último (“Breve defensa de un agnóstico”, pouco mais de 1400 palavras), quero esclarecer aqui algumas ideias simples do ateísmo – ou, pelo menos da parte dele com que me identifico, porque não creio que haja alguma postura concertada dos ateístas. 



Hans Magnus Enzensberger assume-se como agnóstico. Não sente inclinação para a fé, mas não pode deixar de assumir a sua bagagem cultural cristã (traduzo eu todas as citações):
Que se saiba, ninguém, nem sequer um suíço ou um sueco, consegue livrar-se da bagagem histórica que traz consigo. Uma parte desse legado e dessa carga, arrastamo-la connosco através da religião. Uma fada bondosa privou-me do talento para a fé no monoteísmo. Os deuses são tantos que a escolha é dolorosa. Os gregos e os romanos acompanham-nos no céu e nos dias da semana, e as tradições egípcias e asiáticas, de Tutancámon a Buda, também não desapareceram por completo. (...)
Por isso, para mim o ateísmo não é uma opção, mas sim uma ideia fixa. Não quero pertencer a esse club. Em geral, custa-me decidir-me por una filiação. Faltam-me dotes para ser um colega de fiar. Naturalmente, haverá quem considere isto una carência. (…)
O agnosticismo tem numerosos prós e contras. Permite-nos mover-nos com maior liberdade e não temos de submeter-nos a toda o tipo de preceitos concebidos por qualquer instituição. Libertar-se da disciplina do partido ou da Igreja em questão pode ser um alívio, e mais ainda se se trata dos entraves de uma ideologia política. O inconveniente é que o agnóstico não chega a de pertencer a nada.  
Estou completamente de acordo com o primeiro parágrafo citado acima*. Ninguém com um mínimo de autoconhecimento e honestidade negaria o peso que a religião tem na sua cultura. Mas como é que a consciência desse legado histórico pode levar quem não abraça uma religião a preterir o ateísmo a favor do agnosticismo? O «por isso»  que sublinhei é, no mínimo, muito estranho. Como é que uma coisa causa – ou implica, se quiserem – a outra? A consciência da parte fundamental que ocupa o cristianismo na sua cultura não é modo algum razão para se ser agnóstico e não ateísta. Enzensberger não explica o «por isso». Pede ao leitor aquilo que muitas vezes se designa como «um salto de fé» ou um «salto de confiança». O leitor ateísta** e atento recusa-lhe esse salto. Aquele «por isso» cabe mal numa argumentação razoada.

É que o ateísmo é uma posição de razoabilidade e, ao contrário do que Enzensberger diz, não é um clube nem uma ideia fixa, nem se assemelha mais a uma igreja ou a um partido que o agnosticismo. Em rigor, um agnóstico não pertence menos a uma instituição que um teísta ou um ateísta – cada um pertence à sua e devia defendê-la com o mesmo empenho e a mesma lógica com que os teólogos medievais debatiam as espinhosas perguntas filosóficas que a si mesmo faziam. Não considero que «A minha fé diz-me que é assim» ou «Não quero pertencer a um clube» sejam fundamentos razoáveis para uma posição relativamente à existência de deuses – impossibilitam a discussão.

***
Talvez haja mesmo quem, como Enzensberger diz, defina a opção do agnóstico como carência. Não sei. Creio que alguns ateístas acusarão os agnósticos de terem escolhido uma posição mais cómoda, menos frontal e, por isso, menos conflituosa, que os ateístas. Pessoalmente, não acredito – até porque conheço agnósticos de grande coragem e frontalidade – que, no geral, haja seja lá o que for de falta de frontalidade no agnosticismo. É de uma divergência filosófica que se trata. O que me parece é antes que o agnosticismo trata a questão da existência de deuses de uma forma parcial, já que, a ter a mesma atitude relativamente a tudo o resto que não é imediatamente observável, há que declarar-se agnóstico em relação a muitas outras coisas não provadas mas altamente prováveis. Os ateístas aplicam a o mesmo princípio a todos os seres e fenómenos: ao que sabemos atualmente, X é provável ou improvável. É só isto. Aquilo que os ateístas defendem é um método de conhecimento feito de observáveis, para poder ser comunicável, isto é, tornado comum – e aquilo em que é mais sensato acreditar, à luz das constatações feitas usando esse método.

Os ateístas, pelo menos os que conheço, não põem em causa a impossibilidade de «saber se existem ou não [deuses], nem que forma têm»***. Os ateístas insistem até amiúde num princípio epistemológico de base, segundo o qual não se pode provar uma não existência a partir de observáveis, pelo que também é impossível afirmar que não existem o Pai Natal, unicórnios azuis e um número infinito de seres e fenómenos. O que os ateístas dizem é tão-só que é altamente improvável, à luz dos conhecimentos atuais, que exista algum ser com as características atribuídas aos seus deuses pelos crentes das diversas religiões; e que a ideia de um criador absoluto de todas as coisas dificulta muito mais a compreensão do universo do que a facilita.

_______________

* Ou quase: a referência aos suíços e aos suecos parece-me incompreensível a não ser, talvez, num quadro de ideias feitas sobre estes povos que eu partilho com Enzensberger.

** Prefiro a palavra ateísta ao termo mais clássico ateu, por várias razões: a) é um termo comum de dois, ou seja, o masculino e o feminino têm a mesma forma, o que é sempre bom – além de que ateia se presta a jogos de palavras de mau gosto; b) o elemento -ista marca a inscrição num -ismo (ateísmo), um sistema de ideias ou crenças, o que não acontece de forma tão clara e direta com o termo ateu; e c) tem um antónimo imediato com a mesma formação, teísta, o que não acontece com ateu, que é uma daquelas palavras construídas com um prefixo de negação de uma palavra inexistente na mesma língua (um dia, hei de falar aqui disto, que é um tema engraçado).

*** Protágoras citado por Enzensberger: «Quanto aos deuses, não tenho meios de saber se existem o não, nem que forma têm. Impedem-mo a obscuridade da questão e a brevidade da vida humana».

28 de agosto de 2018

Verosimilhança a duas dimensões

Quando se olha para o desenho acima, além de se notar logo que não foi feito pelo melhor ilustrador do mundo (este desenho o desenho abaixo são meus e foram feitos propositadamente para este texto de blogue), há algo que nos parece errado: tronco e pernas parecem-nos desproporcionados, a perna esquerda dos calções é-nos incompreensível, e a perna e o pé esquerdos parecem estar num aposição completamente impossível. No desenho abaixo, esses «erros» foram «corrigidos» e tudo nos parece mais normal.
Henri Cartier-Bresson (1908-2004) Rue Mouffetard, 1954.
P
onho uma versão pequena da foto, para fins didáticos, digamos
assim, porque a fotografia não é do domínio público, mas podem
vê-la com maior definição por exemplo neste site de leilões.
No entanto, o primeiro desenho está correto e o segundo é que tem erros. Os desenhos foram tirados da fotografia de Henri Cartier-Bresson que podem ver aqui à esquerda e as «correções» do segundo desenho foram inventadas por mim . Provavelmente, não há nenhum ângulo de que o rapaz se possa ver como eu o desenhei na segunda foto e as sombras que inventei são impossíveis. Mas não chocam o olho.

É curioso. Quando se fixa a duas dimensões um pedaço de realidade, há representações imediatas (no sentido original de «sem mediação») da perspetiva com que lidamos mal, ao passo que aceitamos sem problema perspetivas que não correspondem a nada no mundo real. Os ilustradores sabem isto – banem conscientemente certas perspetivas reais e usam outras que parecem bem, mas são irreais.

Notem que não se pode inferir daqui nenhuma desadequação geral dos sentidos à realidade, mas apenas uma esporádica desadequação dos sentidos à representação bidimensional. Mesmo que seja em fotografia. A fotografia de Henri Cartier-Bresson de que aqui falo é estranha. É claro, o realismo inerente à fotografia faz-nos aceitar como real a perspetiva que nos apresenta, ao contrário do que acontece com o desenho nela baseado – mas não deixa de ser estranha... Se estivéssemos onde ela foi tirada e víssemos a cena precisamente daquele ângulo mas a três dimensões, já nada nos pareceria estranho, não é verdade?

25 de agosto de 2018

Coco, matapa, mucapata e galinha à zambeziana

A verdade é esta: comer (morfar, dar ao serrote, mandar para a blusa ou como queiram dizer, enfim…) é a atividade mais importante da vida das pessoas, voilà! É certo que, a partir de uma certa idade, o sexo compete com a comezaina, mas nunca lhe tira o primeiro lugar…

Agora, se o comer em si não tem muito que se lhe diga (é só não se esquecer de fechar a boca quando se mastiga, que senão parece mal...), já o fazer a paparoca é assunto vasto e que interessa muita gente, não é verdade? E parece impossível que, sendo das coisas que faço todos os dias, e com gosto!, fale aqui tão pouco de culinária. Está mal. A ver se começo a dar mais receitas, dicas ou conselhos de cozinha, ou, pelo menos, a falar de come e bebes. Hoje, deixo-vos três receitas moçambicanas. Se não as conhecerem, experimentem, que são naices; se já conhecem, vejam lá se as minhas receitas coincidem com o que conhecem. Mas antes, como as três receitas que vos proponho levam todas coco, deixem-me falar um pouco do coco, que é uma fruta interessante.

Coco 
O coqueiro é uma palmeira, que é uma coisa que parece uma árvore, mas não é. Mas como é de comida e de não botânica que se trata, fica essa conversa para outra altura, sim? A fruta do coqueiro é o coco, que é o que aqui nos interessa.

Sobre o nome do fruto, uma curiosidade: Parece que o nome do fruto, semelhante em várias línguas, vem do nome de uma antiga entidade fantástica portuguesa, que era usada para assustar crianças – ou seja, o equivalente do moderno papão ou homem do saco. É esta a origem proposta, por exemplo, pela Real Academia Espanhola. Descobri na Wikipédia que João de Barros «conta» esta origem na terceira das suas Décadas da Ásia (1563):
Um fantasmagórico coco (Wikimedia Commons)
Tem mais este pomo tão proveitoso outra casca de mui duro páo , per cima da qual ficam os finaes daquelles nervos , e fios da outra , á maneira do entre-casco da sovereira ou (por melhor dizer ) á maneira de huma noz descuberta da casca verde. Esta casca per onde aquelle pomo recebe o nutrimento vegetavel , que he pelo pé , tem huma maneira aguda , que quer semelhar o nariz posto entre dous olhos redondos , per onde elle lança os grellos , quando quer nascer : por razão da qual figura , sem ser figura , os nossos lhe chamáram coco , nome imposto pelas mulheres a qualquer cousa , com que querem fazer medo ás crianças , o qual nome assi lhe ficou , que ninguem lhe sabe outro, fendo o seu proprio , como lhe os Malabares chamam, Tenga, e os Canarijs, Narle.
É claro, pode agora discutir-se de onde vem o nome da aventesma, como o faz Joan Coromines, por exemplo, mas, como é de comida e não de etimologia que se trata, fica também isso para outra vez. E sobre cocos e coqueiros acrescento que:
   • a parte dura (o caroço) do fruto está envolta numas fibras chamadas cairo, que têm várias utilidades;
   • em Moçambique chama-se cafurro à casca dura do coco, que é usada como lenha;
   • a polpa seca do coco chama-se copra e é dela que se faz o óleo de coco;
   • a folha do coqueiro e outras palmeiras, trançada ou não, usa-se como cobertura de casas – é conhecida em Moçambique com o nome de macute, macúti ou macubar; e
   • da seiva do coqueiro faz-se uma bebida (alcoólica) chamada sura em Moçambique, que, para o meu gosto, é fixe quando está pouco fermentada e menos fixe quando fermenta muito.
E por agora chega – mas quem queira saber mais pode ver aqui mais usos dos cocos e dos coqueiros.

Leite de coco 
Passamos agora à parte mais propriamente culinária. Quando o coco é jovem, chama-se lanho. Só mais tarde ganha o nome de coco mesmo coco. Para se saber se um coco ainda é lanho ou já é coco, abana-se. Se não chocalhar, é porque está completamente cheio de água – é lanho e a água é boa para beber, mas a polpa não presta para fazer leite de coco. Se a quantidade de água já tiver diminuído lá dentro e, por isso, chocalhar, já é coco – a água não é tão boa, mas a polpa pode usar-se para cozinhar. O leite de coco é simples de fazer, mas dá algum trabalho:
Em Moçambique, usa-se um ralo, que é mais prático que um ralador, mas, 
claro, poucos serão os leitores deste texto que tenham uma coisa dessas…
Abre-se um coco, tira-se a polpa branca e rala-se com um ralador. Põe-se a polpa ralada dentro de água acabada de ferver e coa-se com um passador. Pode repetir-se a operação e pode espremer-se bem a polpa do coco no passador com uma colher.

É só isto. Agora, não estejam à espera que o leite de coco cheire logo muito: ele só começa a cheirar mesmo depois de cozinhado. Não havendo cocos à mão, pode comprar-se leite de coco já feito, em lata – não é a mesma coisa, claro está, mas também fica bem.


Matapa
Bom, há matapa com vários ingredientes e várias grafias, mas não quero aqui discutir se a verdadeira matapa é a de folhas de mandioca e só é matapa se levar amendoim e camarão seco. Se não quiserem chamar matapa ao prato de que aqui dou a receita, pois muito bem (saberá bem com qualquer nome, como a rosa do outro…), mas é esse o nome que lhe dá a minha amiga moçambicana com que o aprendi a fazer. Leva cebola, alho, óleo ou azeite, tomate, folhas de abóbora (jovens, tenrinhas, que não sejam ainda muito fibrosas), coco e sal.

Primeiro, faz se um refogado normal, com cebola e alho. À parte entalam-se as folhas de abóbora. Depois, picam-se as folhas e juntam-se ao refogado. Junta-se em seguida o tomate, pelado e picado. Enquanto a hortaliça apura, prepara-se o leite de coco, que depois se junta ao resto. Deixa-se cozer tudo muito tempo e pronto, é grande petisco!

«E não se pode substituir as folhas de abóbora por outra coisa qualquer, porque folhas de abóbora tenrinhas não se arranjam em lado nenhum?» Podem usar espinafres ou acelgas. De preferência acelgas, porque o espinafre tem muito sabor… a espinafre. Também fica bom.

Mucapata
Feijão-soloco com casca (Wikimedia commons) e
um saco de feijão-soloco já descascado.
A designação Phaseolus aureus é incorreta.
Mucapata é um acompanhamento moçambicano muito fixe e muito fácil de fazer: é só cozer arroz com leite de coco e com uma leguminosa chamada em Moçambique feijão-soloco (ou soroco ou holoco, com agá pronunciado), cujo nome técnico é Vigna radiata. Há quem ponha duas porções de arroz para uma de feijão-soloco, há quem faça metade-metade; há quem coza o arroz e o feijão-soloco em água e ponha o leite de coco no fim, há quem coza já com o leite de coco. Eu ponho metade-metade (mais ou menos) e cozo um bocado só com água e depois é que junto o leite de coco e deixo cozer até ficar tudo muito bem cozido. Decidam vocês o que vos agrada mais, depois de experimentar as várias possibilidades. Agora, cuidado, que o arroz e o feijão-soloco cozidos juntos têm tendência a pegar – deixem lá o Facebook para depois do jantar.

«Mas», perguntam agora vocês, «onde se arranja esse tal feijão taralhouco ou lá o que é?» Pois, não sei, mas devem conseguir encontrar numa dessas delikatessen exóticas que há. Aqui em Svenborg, arranjo com facilidade e já descascado – e ainda bem, porque descascar feijão-soloco é uma seca, e mucapata com a casca do feijão, nein danke!

Galinha à zambeziana 
Finalmente, a galinha à zambeziana à minha moda:
Arranja-se, se possível, uma galinha rija, galinha mesmo galinha. Coze-se a galinha em pouca água com leite de coco e uns bocados de cebola e pimento, mas só até estar meio cozida. Depois, pincela-se a galinha com azeite e alho e põe-se a assar na grelha. Vai-se pincelando sempre com o leite de coco (eu agarro na varinha e passo a cebola e o pimento dentro do leite de coco que usei para entalar a galinha, de maneira a que fique uma mistura relativamente espessa) até estar a pele bem tostada. Também se põe piripiri, onde se quiser: no líquido de cozer e pincelar; no frango juntamente com o azeite e alho; ou no prato depois de cozinhado... Quando se usa frango de aviário, como é geralmente muito mole, o mais avisado é não se cozer primeiro, paciência, e pincelar-se só com os temperos e com o leite de coco enquanto se assa.

Bom proveito! E perdoem-me a falta de fotografias dos pratos, mas não quis esperar até à próxima vez que os fizesse para publicar este texto. Enfim, deixo-vos pelo menos um bocadinho de música de fundo para a patuscada.



20 de agosto de 2018

Enfim...

Quatro excertos de textos que encontrei na Internet (traduzo e sublinho eu):
A famosa sequência de Fibonacci cativou matemáticos, artistas, designers e cientistas por séculos. Também conhecida como Proporção Áurea, a sua omnipresença e a sua surpreendente funcionalidade na natureza sugere a sua importância como característica fundamental do universo. (Daqui.) 
Os números de Fibonacci são o sistema numérico da natureza. Aparecem em toda parte na natureza, desde a organização de folhas nas plantas até ao padrão das flores reduzidas no capítulo de uma flor composta, as escamas de uma pinha ou de um ananás. (Daqui
A Proporção Áurea manifesta-se em muitos lugares do universo, incluindo a Terra, faz parte da natureza da Terra e faz parte de nós. (Daqui)
Não seria estranho se precisamente o mesmo padrão fosse encontrado em diversas formas de vida em todo o universo? Bem, esse padrão existe e chama-se Proporção Áurea. (Daqui
São exemplos de afirmações que se fazem sobre duas coisas relacionadas, a progressão de Fibonacci e a Proporção de Ouro. Podia falar da muita batota que há no fazer coincidir formas naturais e formas geométricas, podia dizer que pretender conhecer os padrões de formas de vida em todo o universo (ena!) me parece algo exagerado, mas não, deixo isso tudo de lado. digo só que me parece muito estranho pressupor que a taxa de ocorrência na natureza de formas geradas por uma determinada sequência numérica seja superior à das formas geradas por outras sequências geométricas. Hmmm…

Posso estar a ver mal a coisa, mas parece-me que o valor de verdade da afirmação de que há uma grande taxa de ocorrência na natureza – mesmo que isso queira significar apenas «acima da média» – é claramente inverificável. Para não ser impressão contra impressão, que não leva a lado nenhum, proponho o seguinte: Observem qualquer porção aleatoriamente escolhida da natureza, como a imagem abaixo, e digam-me quantas formas ocorrem; quais ocorrem mais, no caso de haver repetições; e, já agora, que sequência numérica as gera. Repitam a experiência com um número de paisagens que considerem significativo (um bocado de maqui provençal, que sei eu?, de desfiladeiro andino, de floresta de miombo, de deserto indiano, de… de… de…) e digam-me a que conclusões chegaram sobre que formas são mais recorrentes e em que lugar aparece a espiral gerada pela sequência de Fibonacci. Depois, retomamos a conversa.


Os ombros do ofício

Já não me lembro como, encontrei no outro dia um vídeo de um homem que diz que o seu ombro esquerdo é mais alto que o direito, porque pratica arco há muito tempo. O que há de uma pessoa pensar de uma coisa assim? Não vou pôr aqui imagem nenhuma para o provar, até porque eu sei que vocês confiam em mim, mas o meu ombro esquerdo é muito mais alto que o meu ombro direito e nunca fiz arco na vida. A conclusão é capaz de ser que fazer tiro ao arco e trabalhar com o rato do computador têm um efeito semelhante sobre os ombros de uma pessoa – pelo menos em indo para a idade…

13 de agosto de 2018

Geografia e língua

Quando era rapaz novo, adolescente ainda, tinha a teoria que o frio fazia fechar as vogais. Isto para que vocês vejam que há muito tempo que sou obcecado por coisas de língua e  que surgem facilmente teorias muito esquisitas na cabeça de uma pessoa que pense muito num determinado assunto sem o ter estudado de uma forma organizada e sistemática. A minha ideia vinha da constatação de que as vogais do português europeu eram mais «fechadas» que as do português africano e americano, como as vogais do inglês do sul da Grã-Bretanha eram mais «fechadas» que as dos dialetos do norte da ilha, Escócia incluída, e que o francês do sul de França também tinha vogais mais abertas que o francês do norte e do Canadá. Não me lembro se pensava mesmo que se abria menos a boca para não deixar entrar o ar frio ou que explicação arranjava para a minha ideia, mas, enfim, parece-me hoje uma coisa tão sem pés nem cabeça que não faço ideia hoje de como a posso ter pensado.

Lembro-me também de que uma vez, um amigo meu dinamarquês, que viveu em Portugal um ano e que encontra semelhanças entre as pronúncias do português e do neerlandês*, pôs uma vez a hipótese de que o português e o neerlandês, línguas de navegadores, se tivessem adaptado à comunicação a bordo, onde era preciso falar mais alto (?), e que, por isso, tivessem desenvolvido características comuns às duas línguas. A ideia não era nem mais nem menos estapafúrdia que a minha hipótese da relação entre temperatura média de um lugar e abertura das vogais da fala dos seus habitantes. E, como a outra, é ideia que não faz grande sentido. Digamos que é um bocado como a história que tantas vezes se ouve de que o r gutural de Lisboa é de origem francesa: é uma teoria de quem não faz grande ideia de como se processa a evolução de uma língua.

Há, porém, quem saiba de línguas e defenda que as condições geográficas e climáticas possam afetar a fonologia das línguas. Descobri até, há pouco tempo que foi já proposta, por exemplo, uma variação da minha tese de adolescente, mesclada um bocadinho com a ideia do meus amigo dinamarquês de que uma língua pode evoluir para se ouvir melhor em certas condições, segundo a qual «as línguas indígenas de climas tropicais e subtropicais, em contraste com as línguas faladas nas zonas temperadas e frias, manifestam altos níveis de sonoridade», nomeadamente um maior recurso a vogais relativamente a consoantes (artigo aqui), já que «uma sonoridade elevada, por exemplo nas vogais (versus consoantes), aumenta o poder de transmissão dos sons da fala e, consequentemente, a audibilidade à distância».

Mas não é esse o artigo que aqui me traz, até porque não o li ainda. Quero antes falar dum artigo que Caleb Everett publicou em junho de 2013 e que teve bastante fortuna na imprensa da época, em que defendia uma relação entre a existência de sons ejetivos (ver nesta lista de vídeos de que sons se trata) numa língua e a altitude a que essa língua é falada:
Constatou-se que as línguas com consoantes ejetivas fonológicas ocorrem mais perto de regiões habitáveis de alta altitude, quando comparadas com as línguas sem essa classe de sons. Além disso, constatou-se que as elevações médias e medianas das localizações de línguas com sons ejetivos eram comparativamente altas.
A explicação que Everett dá para esta correlação positiva entre ejetivas e altitude é a seguinte:
Sugerimos que sons ejetivos possam ser facilitados em maiores elevações devido à diminuição da pressão do ar ambiente, o que reduz o esforço fisiológico necessário para a compressão do ar na cavidade faríngea (…). Além disso, pomos a hipótese de os sons ejetivos poderem ajudar a fazer diminuir a perda de vapor de água através do ar expirado. Isto explica como uma redução da densidade do ar ambiente pode fazer aumentar o uso de fonemas ejetivos numa determinada língua.
Em abstrato, não tenho nada contra o (neo)determinismo geográfico (como já aqui o disse uma vez), mas o estudo de Everett não me convence. Antes de mais, há algumas questões de base nos trabalhos feitos com este tipo de metodologias (estatísticas de ocorrência de traços linguísticos relacionadas com fenómenos não linguísticos) que põem de sobreaviso muita gente. Um artigo de Mark Liberman no blogue Language Log dava bem conta de algumas questões levantadas pelas correlações encontradas pela análise estatística.
Quer a correlação altitude/ejetivas revele ou não uma relação causal, é de esperar que surjam, no futuro próximo, um grande número de análises correlacionais espúrias, a par de algumas análises significativas.
(1) A existência de conjuntos de dados digitais torna cada vez mais fácil fazer verificações quantitativas de hipóteses sobre possíveis relações entre variáveis linguísticas e não linguísticas;
(2) O número astronómico das relações possíveis faz com que muitas delas revelem, por puro acaso, fortes relações de pares, mesmo que todas as distribuições fossem estatisticamente independentes; (…)
Assim sendo, os editores de jornais responsáveis devem insistir, pelo menos, numa coisa simples: a comparação da correlação proposta com a distribuição completa das relações logicamente possíveis no(s) conjunto(s) de dados analisados.
E acrescenta que essa verificação não fora feita para o artigo de Everett, mas foi feita por Sean Roberts em alguns minutos, enquanto esperava por um avião no aeroporto de Singapura. Os resultados de Sean Roberts (que não recusa a hipótese de Everett) mostram que características impossíveis de explicar pela altitude, como a ordem de objeto e verbo e a relação entre a ordem de objeto e verbo e a ordem de adjetivos e nomes estão mais diretamente relacionadas com a altitude que a presença de ejetivas. Além disso, a variante tamanho das populações de falantes prevê melhor a ocorrência de ejetivas que a altitude.

Evidentemente, isto não prova que a tese de Everett não seja boa. Mas também não há, no trabalho de Everett, verdadeira prova da veracidade da hipótese. Everett parece descurar, na elaboração da sua hipótese e na metodologia que usa, algumas questões propriamente linguísticas e biológicas de base. Como no caso da famosa proposta da relação entre existência de futuro numa língua e as poupanças dos seus falantes ou em propostas semelhantes de uma pretensa relação causal entre língua e cognição, por muito que o trabalho seja feito com rigor, os pressupostos que o fundamentam são, no mínimo, discutíveis.

Os comentadores do Language Log levantam logo, por exemplo, uma questão óbvia: se a produção de ejetivas requer 25% menos força a 2500 m que ao nível do mar, mas a menor pressão faz também que essas mesmas ejetivas sejam menos percetíveis em altitude, porque não se produzem ejetivas com 25% menos esforço ao nível do mar, ainda perfeitamente percetíveis? (A resposta é que muitas das zonas de línguas ricas em ejetivas são de zonas de baixa altitude, de maneira que…). Quero acrescentar à discussão algumas dúvidas que me vêm de imediato à mente. Se a produção de ejetivas for facilitada – ou mesmo motivada – pela altitude, isto deve implicar uma predominância das ejetivas em todos os períodos históricos, já que a altitude não muda, o que deve implicar, por sua vez, que esse traço se tenha mantido sempre estável nas línguas faladas em altitude, mas que tenha tido tendência a perder-se nas línguas que desceram para regiões mais baixas e que tenha começado a surgir nas línguas que se tenha deslocado para regiões mais altas. Além disso, não vejo razão para essa vantagem – ou motivação – das ejetivas se revelar especialmente em sons com pertinência fonológica, isto é, com valor no sistema, pelo que se deveria incluir na análise as ejetivas que ocorrem como variantes contextuais (como acontece, por exemplo, em certos dialetos ingleses e alemães). E não há, no texto de Everett, referência a este aspeto histórico, nem às ejetivas que não fazem parte do inventário de fonemas das línguas.

Acho haveria que verificar isto tudo –  e mais** – , mas isto dá mais trabalho que analisar conjuntos de dados já organizados, prontos a analisar em programas estatísticos… E acho também que, até me serem apresentadas provas mais concludentes, vou continuar a pensar na influência da geografia na língua sobretudo como uma hipótese tão imaginativa como infundada que pus na minha adolescência…
__________________

* Tenho encontrado mais pessoas com a mesma opinião. Provavelmente, esta impressão é motivada sobretudo por dois traços comuns bastante conspícuos: os ll são muito semelhantes nas duas línguas e ambos diferentes da maior parte das outras línguas mais próximas, e o «r gutural» português soa-me igual ao g neerlandês da zona da Holanda (em rato e gaat, por exemplo). Mas não sei…
** Ver também, por exemplo, o artigo de Asya Pereltsvaig e Martin W. Lewis, que dá conta de outras incoerências na proposta de Everett.

7 de agosto de 2018

Vítor com cê

Uma vez, demorei quatro horas para fazer os 45 quilómetros que separam Nicoadala de Quelimane, numa camioneta de caixa aberta que tinha apanhado em Mocuba. (Digo «apanhado», porque a camioneta, como todos os automóveis na altura, servia de transporte público – ou, como se dizia, «fazia chapa».) A camioneta ia atafulhada de gente e a estrada era uma faixa de grandes crateras. Mesmo num veículo ligeiro e com tração às quatro rodas (um «fòbaifó», como se diz em Moçambique), não se conseguia andar muito mais depressa. Muitos buracos da estrada tinham bem meio metro de fundura e era como viajar em mar picado, aquele descer e subir crateras. Uma pessoa ficava maldisposta. Do Alto Molócuè, onde eu morava, eram cerca de 350 km até Quelimane. Nessa altura, quem não tivesse transporte próprio só podia fazer assim a viagem, de chapa – e chapas eram todos os carros que passassem e onde se conseguisse encafuar mais um passageiro mediante o pagamento de uns quantos meticais. Dessa vez, o motivo da minha viagem a Quelimane era um cê. A sério.

Tinham-me roubado o passaporte em Chocas-Mar, uma praia idílica na província de Nampula, mesmo em frente à Ilha de Moçambique. Para se fazer novo passaporte, era preciso o meu assento de nascimento, que pedi que me enviassem de Lisboa. Felizmente, não era necessário ir a Maputo; havia um cônsul honorário em Quelimane, cuja secretária se ocupava deste tipo de coisas. Foi dessa senhora que recebi uma mensagem no Alto Molócuè. Nessa altura, não havia telefone na vila, mas podia comunicar-se por rádio com a estação dos correios e foi o funcionário dos correios a minha casa dar-me o recado:
– A senhora diz que há problema com o seu pedido de passaporte e que tem de lá ir falar com ela.
E eu fui, logo na manhã seguinte. Quando falei com a senhora, fiquei a saber que o problema era o cê de Victor – ou a sua falta.

O meu bilhete de identidade dizia que eu me chamava Vítor, mas o assento de nascimento dizia Victor. Não podia ser.
– Sempre tive Vítor no BI e o passaporte que me roubaram também tinha Vítor. Sempre escrevi assim o meu nome. Nem sabia que o assento de nascimento tinha Victor – disse eu à senhora. – É capaz de ter sido quando houve aquela reforma em 1973 em que se acabaram com os acentos graves, sabe? Se calhar, decidiram passar todos os Victores a Vítores…
Eu sabia que era uma explicação pateta, porque uma coisa não tinha nada a ver com a outra, porque o meu primeiro BI era anterior a 1973 e porque continuava a haver muitos Victores, mas a senhora lá se convenceu de que me podia passar o passaporte, «mas como estava no assento de nascimento». Fiquei com uma discrepância entre o BI e o passaporte, mas não me preocupei muito com isso. E continuei a escrever Vítor em todo o lado, como sempre tinha feito.

Quando fiz o pedido de residência na Dinamarca, escrevi Vítor. A funcionária que recebeu o pedido deu logo pela falta do cê.
– Nem sabe escrever o seu nome! – disse-me ela num tom de desdém.
Fiquei sem vontade de lhe explicar fosse o que fosse sobre as subtilezas da grafia dos antropónimos. Na realidade, eu sabia muito bem escrever o meu nome e a grafia Victor está simplesmente errada: uma palavra sem acento gráfico terminada em erre é forçosamente aguda e ninguém se chama [vitor]. Mesmo com o tal cê etimológico, era Víctor que se devia escrever. Mas nunca tal vi – ou é Vítor ou Victor.

Prevendo mais chatices, quando me registei no Consulado em Copenhaga, pedi um documento (sem qualquer valor legal, mas enfim…) em que se explicasse que Vítor e Victor eram ambas variações corretas de um mesmo nome, o meu. E passaram-mo.

Quando renovei o bilhete de identidade, acederam em passar-mo com a grafia que tinha no BI. O meu nome – agora acrescido do apelido da minha mulher, que adotei – era de novo sem cê tanto no passaporte como no BI: Vítor Manuel Lucas Santos Lindegaard. Mas foi sol de pouca dura.
Quando fui, há três semanas, substituir o BI pelo Cartão de Cidadão, disseram-me que tinham de escrever o meu nome como estava no assento de nascimento, entretanto digitalizado. E voltou a haver discrepância, mas agora ao contrário da que tinha sido iniciada em Quelimane: é o passaporte que não tem cê e o cartão de cidadão que o tem. A ver quanto quilómetros vou ter de fazer de chapa-cem por causa disto…

6 de julho de 2018

A influência das línguas que não falamos no pensamento – e no resto

Tenho dito aqui que, ao contrário do que agora parece estar na moda, não vejo boas razões para acreditar na influência da língua no pensamento; mas quero agora dar a mão à palmatória e reconhecer que, afinal, a língua pode mesmo ter influência no pensamento: ignora-se a informação existente em línguas que não se falam. Se vos parecer que estou a brincar, é verdade, estou, sim senhora, mas estou a brincar com uma coisa muito séria, que de facto não tem graça nenhuma.

Dou-vos exemplos da área da Linguística, porque é a que conheço melhor, mas tenho a certeza de que é fácil encontrar exemplos em todas as áreas. Lembro-me de alguém de dizer uma vez que, se o linguista dinamarquês Louis Hjemslev era menos conhecido que outros pioneiros da Línguística, era porque tinha escrito em dinamarquês. Não sei se será essa a razão mais importante para o desconhecimento de Hjemslev, até porque há muitas traduções de obras suas em francês e inglês, mas é capaz de não ser razão desprezável. No caso do trabalho do grande Antoine Culioli, que faleceu em fevereiro passado, não tenho dúvidas que é por ser feito em França e em francês que não tem a divulgação que merece, numa área em que o inglês é claramente a língua que domina. Há traduções de alguns trabalhos de Culioli e dos seus colaboradores e seguidores em inglês, claro, mas é insuficiente. O que não haverá por esse mundo fora de estudos, ensaios, conhecimento, enfim, escrito em línguas que a maioria dos académicos não lê?

Bem vistas as coisas, aliás, há vários problemas em vez de um só: um é a ignorância própria dita (não nos chega a informação do que existe noutras línguas), outro é mais incapacidade (sabemos que existe, mas não termos maneira nenhuma de o traduzir) e um terceiro é uma compreensível inércia, vá, para não lhe chamarmos preguiça (bom, com algum esforço, arranjava-se quem traduzisse, mas é tanto trabalho!…). Lembro-me de ter feito uma vez um trabalho sobre as Lettres d’une péruvienne, de Madame de Grafigny (que referi aqui de passagem). Era na altura uma obra pouco estudada e o único artigo que encontrei que me interessava para o tema do meu trabalho era em alemão. Ena, o trabalho que eu tive para arranjar uma cópia do artigo numa biblioteca estrangeira e depois andar a pedir ás pessoas que eu conhecia que falavam alemão para me irem traduzindo oralmente – um bocadinho uma, um bocadinho a outra, para não enjoar – que o dizia o artigo e depois arranjar mesmo quem me traduzisse mesmo como devia ser a passagenzinha que queria citar no meu trabalho…

Tenho uma história curiosa que se passou comigo há cerca de quatro anos que ilustra bem este problema:

Numa época em circulam na Internet tantos aforismos e excertos de prosa falsamente atribuídos a pessoas célebres, Garson O’Toolle faz um excelente trabalho, no seu Quote Investigator  procurando descobrir a verdadeira origem de frases famosas. A 7 de Setembro de 2014, o Quote Investigator publicou um artigo sobre o aforismo Education is what remains after you have forgotten everything you learned in school («A educação é o que fica depois de se esquecer tudo o que se aprendeu na escola»), que me lembro de ter conhecido ainda em em miúdo e que foi já atribuída a Albert Einstein, B. F. Skinner, Edouard Herriot, C. F. Thwing, Ralph Waldo Emerson, Agnes F. Perkins, James Bryant Conant, E. F. L. Wood, George Savile e Lord Halifax – e talvez a outros. A conclusão da investigação é que circulam há mais de um século frases com um conteúdo semelhante, umas referindo a educação, outras a cultura, mas que não há prova nenhuma de que alguma delas tenha sido criada por nenhum dos autores que lhes atribuem. A ocorrência mais antiga de uma variação da frase que o Quote Investigator encontrou era de dezembro de 1907.

Pouco dias depois, escrevi a Garson O’Toole um e-mail, em que lhe dava conta de uma ocorrência mais antiga e lhe propunha uma linha de investigação. Dizia-lhe eu que, num texto de 1900, que é de facto uma republicação de um artigo originalmente publicado em 1891, Key escreveu (traduzo eu) o seguinte:
Mas a educação é, felizmente, não só o conhecimento dos factos, mas, por grande paradoxo, «o que resta, quando esquecemos tudo o que aprendemos».
E acrescentava que, não sendo eu falante de sueco, devia confirmar a minha tradução e também que me parecia claro que, pelo uso de parênteses, Key não se assumia como autora da frase.

Garson O'Toole respondeu-me, agradecendo o meu trabalho e pedindo-me autorização para publicar o meu esclarecimento, que prontamente lhe dei. Mas a minha carta nunca foi publicada, nem foi nunca seguida a linha de investigação que eu propunha. A explicação mais plausível é que o Quote Investigator sofra da tal entranha influência da língua sobre o pensamento que faz com que, por inércia, se dê como inexistente o que exista só em línguas exóticas. É compreensível, insisto, é compreensível… Mas o conhecimento não ganha nada com isso. É certo que, no caso que acabo de referir como exemplo, é de conhecimento muito irrelevante que se trata – mas noutros não é.

O que se pode fazer contra isto, além de ter muito trabalho quando for necessário? Não se pode fazer muito, mas, já que as palavras são como as cerejas e estamos agora na época delas – das cerejas, quero eu dizer –, há uma questão que está intimamente ligada a esta: a do conhecimento de línguas estrangeiras que é preciso haver em todas as sociedades. E sobre isso pode fazer-se alguma coisa.

Não me vou agora adiantar muito sobre a questão das políticas de ensino de línguas estrangeiras, que é tema demasiado vasto para esta pequena nota final. Quero só lembrar um paradoxo interessante, que se relaciona com o tema deste texto: é fundamental um muito bom domínio, por toda a população, da língua internacional mais importante, o inglês – sem o qual não há, hoje em dia, nem informação, nem educação nem negócios (e Portugal está longe de ter alcançado um nível satisfatório); mas o investimento no inglês não deve fazer esquecer que é também necessário aumentar o número de pessoas com bons conhecimentos noutras línguas internacionais importantes, como o mandarim, o castelhano, o árabe e o alemão, entre outras. A lição dinamarquesa serve para muitos países: na perspectiva de se abrir ao mundo, os dinamarqueses decidiram fazer da Dinamarca um país funcionalmente bilingue dinamarquês-inglês e conseguiram-no. O nível de inglês é até superior, na Dinamarca, ao de países de língua inglesa. Hoje, porém, empresas e instituições de ensino queixam-se de o forte investimento no inglês ter tido como efeito lateral o desinvestimento noutras línguas, algumas das quais, como o alemão e o francês, faziam até parte da tradição educativa e cultural dinamarquesa. E hoje há falta de pessoas que falem outras línguas – espanhol, por exemplo, mas não só –, até porque, noutros países, o conhecimento do inglês não se desenvolveu tanto como na Dinamarca e nem sempre o inglês funciona como devia como língua de comunicação…

22 de junho de 2018

Drofo e drofa e a língua ao contrário

Em vários sítios se usa a inversão dos sons das palavras – normalmente das sílabas – como forma de criar palavras novas, incompreensíveis para quem não conheça o truque. Dois casos conhecidos de códigos de inversão são o verlan, em França, e o vesre, no castelhano do Rio da Prata, mas há outros, como o podaná grego, o back slang londrino e o šatrovački servo-croata.

Não sei até que ponto é correto chamar calões a esses códigos, mas normalmente têm em comum com o calão propriamente dito as situações em que é utilizado e os utilizadores, além de que muitas dessas palavras acabam por entrar no calão propriamente dito, perdendo-se até às vezes a consciência de que são inversão de outras palavras. Para dar exemplos do francês, que é único caso que conheço bem, a palavra barjot em francês era já usada antes de o verlan entrar na língua corrente, sem as pessoas terem consciência que era um verlan de jobard; e, atualmente, termos como beur/beurette, keuf, keum e meuf, entre muitíssimos outros, entraram no calão geral e são usadas mesmo por quem não fala verlan.

 Agora, é curioso que, mesmo quando o processo de inversão deixou de se utilizar, persistem palavras formadas desta maneira. Um caso famoso é o fika sueco, mas encontrei também há uns tempos (e foi isso que motivou este texto) um exemplo em português.

Sempre conheci as palavras de calão Drofo e drofa (que aliás usei aqui no texto mais conhecido do blogue), com o significado de «Porto» (a cidade) e «porta», respetivamente, e muitas vezes as dei até como exemplo de como o calão segue de perto a língua standard, mas não fazia ideia da sua origem. Ora em Os Ciganos Portugal, com um estudo sobre o calão, memoria destinada á X sessão do congresso internacional dos orientalistas (Lisboa: Imprensa nacional, 1892, p. 119), escreve Francisco Adolfo Coelho, no capítulo sobre «Processos de formação do calão»:
No calão as inversões podem ser simples ou acompanhadas de outras modificações; as da primeira espécie são raras. Exemplos d'inversão simples: safo (lenço) por *fasso (d'onde falço, Bluteau), como vimos, de origem italiana; zouca por cousa; tapor por porta. Nos seguintes exemplos houve mais ou menos consideráveis modificações dos sons invertidos ou outras modificações concomitantes: soquinha por *zoquinha, de port. cozinha; lofo por *folo, de fr. fol; macallo por *vacallo, de port. cavallo (…); chona, choina, de hisp. noche; drepa por *drespa, *trespa, de port. presta; dropa por *drepa, de port. pedra; drofa por *trofa, *tropa, de port. porta; Drofo por *Trofo, *Tropo, de Porto (cidade). 
Evidentemente, como sempre em questões de etimologia, fica espaço para dúvidas, sobretudo quando há tantas formas intermédias não atestadas (por convenção, o * indica que a forma é deduzida pelo autor, mas não está atestada). Também é certo que, se a hipótese explica o estranho paralelo de porta/Porto com drofa/Drofo, esse paralelo pode explicar-se sempre de uma forma simples, independentemente de que origem se pressuponha para uma das palavras, considerando que a outra foi derivada dela seguindo, precisamente, o modelo do português standard. Mas não deixa de ser uma proposta interessante. Também me parece interessante a proposta etimológica de chona/choina. É termo que desconheço, mas que os dicionários registam como com o significado de «noite» num registo coloquial e de que deriva chonar, calão muito difundido para «dormir».

19 de junho de 2018

Um santo p'ra pular ou não e uma marcha de chacha... perdão, da chacha

Se há festa comum a toda a Europa (e a toda a América, mas disso não sei muito) é a festa do equinócio de verão, conhecida em muitos países como festa de S. João. É sempre uma festa com fogueiras, mas os pormenores da festa, variam, é claro, de país para país. Por exemplo, na Estónia, Letónia, Hungria e Portugal, salta-se a fogueira, mas na Dinamarca, em França, em Itália e na Noruega não. Etc. (A página "Midsummer" da Wikipédia em inglês tem um resumo das diferentes tradições)

Em Portugal, não nos basta o equinócio e alargámos a festa para os lados – de 13 a 29, ele é fogueiras e folia por todo o lado... Como, felizmente, não posso estar presente, deixo aqui a minha modesta contribuição para os festejos dos Santos Populares: uma marcha que escrevi há uns 35 anos e que nunca chegou a ser musicada. Uma marcha com uma perspetiva mais abrangente que o habitual, já que, em vez de falar da especificidade de um bairro de Lisboa, fala de uma especificidade da malta de todos os bairros de todas as cidades, vilas e aldeias portuguesas (e não me levem nisto a sério, sim?).

Marcha da chacha

Passa meio mundo a vida
a dar a volta a outro meio,
qu’isto em questão de paleio
‘tá a gente bem servida;
Mas, com conversa fiada,
o problema é que, no fundo,
dá-se a volta a meio mundo
sem se dar a volta a nada.

‘Tá no espírito do povo
a converseta de chacha;
se aparece um grupo novo,
que graça que a gente lh’acha!
E se houvesse um mundial
do falar só por falar,
vinha o ouro e vinha a prata,
vinha o bronze e vinha a lata,
vinha tudo cá parar.

Quando se arma algum banzé,
quem tiver mais converseta
é que leva a bicicleta
– e o outro vai a pé.
Muito fala este povinho,
‘tá sempre, sempre na tanga;
depois vai queixar-se ao ganga
quando anda a falar sozinho.

E é assim esta gente:
a converseta é que é obra!
Só fica mesmo contente
a vender banha da cobra.
Pois então que viva a chacha,
mas òs’pois ninguém se queixe,
que s’o caso ‘stiver feio,
não se vai lá com paleio
– pela boca morre o peixe.

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Imagens:
Em cima: P. S. Krøyer: Fogueira de S. João na praia de Skagen (Sankt Hansblus på Skagen strand), 1906. Skagens Museum.
Em baixo: A. Roque Gameiro: A fogueira do santo (?), s. d., de uma coleção de fascículos, Portugal de algum dia, 1931 (?, ver aqui)
(A página "Marchas Populares de Lisboa", do blogue Histórias com História tem bonitas ilustrações de Stuart Carvalhais, Roque Gameiro e  Almada Negreiros, entre outros, relativas aos Santos Populares, )

18 de junho de 2018

Mais coisas sem importância nenhuma

Acontece-me às vezes desviar-me ligeiramente da ortografia oficial, em certos contextos, quando creio ter razões lógicas para o fazer e quando me sobra paciência para assumir o desvio. Mas é muito raro. Normalmente, limito-me a seguir as regras ortográficas, concorde ou não com elas, porque insistir na lógica a contracorrente dá demasiado trabalho.

Vejam a questão do agá inicial, por exemplo. Para mim, é óbvio que o agá é um resquício de uma lógica ortográfica anterior à perspetiva fonológica que foi introduzida pela reforma republicana de 1911. Eliminaram-se muitas letras sem outra função que não fosse dar conta da «etimologia», mas, por alguma razão, considerou-se mais importante conservar o agá que outras letras apenas etimológicas. A verdade, ao que vou constatando, é que toda a gente acha impensável escrever «oje às duas oras», mas ninguém se importa de escrever espanhol, erva, arpão e agora, que, para seguirem a mesma lógica etimológica também deviam ter agá. É assim a vida e para mim está muito bem, paciência, não chateio ninguém com o agá inicial…

Pois, escrevo mais uma vez sobre ortografia – maldita mania –, mas, vá lá, não quero falar de nenhuma dessas grandes questões ortográficas que empolgam os ânimos, como os agás iniciais. Hoje falo só de picuinhices, coisas sem importância absolutamente nenhuma…

1. Considerem, a seguinte série:
Para que fim contribui isso?
Para que contribui isso?
Com que ferramenta cortaste isso?
Com que cortaste isso?
De que material é isso feito?
De que é feito isso?
Por que razão chegaste atrasado.
Porque chegaste atrasado?
Porque, pronome interrogativo? Hmmm, não há *paraque, nem *deque, nem *conque… Devia ser por que, claro, como em castelhano ou na tradição brasileira. Pobre palavra pronome, que é quase como advérbio, pau para toda a colher…

2. Uma coisa simples era também distinguir o verdadeiro advérbio afinal (=finalmente) de um sintagma preposicional a final de (=no fim de). Afinal de contas não está bem, por muito que seja grafia consagrada: é finalmente de contas ou no fim de contas que se quer dizer?

3. Surgiu-me no outro dia um exemplo de uma ambiguidade possível em português, que, de tão rara, nunca encontrei nada do tipo. Consideram a frase:
A proposta foi ética e eficazmente elaborada.
Já não vou ao ponto de sugerir que se grafe mente separado, o que a etimologia e a sintaxe até podiam justificar (é como tirar os agás iniciais, não vale a pena pensar nisso), mas, se se considera o advérbio uma unidade, bem que podia marcar-se a falta do elemento -mente nos casos em que ele é obrigatoriamente omisso. Uma sugestão óbvia é o uso de um hífen:
A proposta foi ética- e eficazmente elaborada.
Ficamos assim a dizer o que queremos. Este uso não é nenhuma invenção minha, quando muito uma importação: na escrita do inglês, isto é standard em palavras compostas com hífen (self- and peer-evaluation, pre- and post-war, etc.) e debatido, mas muitas vezes usado, em compostas sem hífen com uma parte naturalmente omissa na oralidade (up- and downwards para up[wards] and downwards ou super- and paranormal para super[normal] e paranormal). Na escrita de outras línguas, como as línguas escandinavas e o alemão, pelo menos, o procedimento é standard para todas as palavras com elementos omissos na(s) primeira(s) palavras de uma enumeração de compostas com o mesmo segundo elemento: okse- og lammekød («carne de vaca e borrego», DK), laut- und spurlos («sem [deixar] som nem rasto», DE]. Pode até acontecer que se omita mais que um elemento comum no início e no fim das palavras como no alemão Sonnenauf- und -untergang, («nascer e pôr do sol»), em que, na primeira palavra, o hífen marca a omissão de Gang e, na segunda, de Sonnen.

É certo que só por causa das ambiguidades entre adjetivos e advérbios em -mente, de tão insólitas que são, não valeria muito a pena pensar nisto, mas a verdade é que a mesma questão se põe muitas vezes com outros compostos: às vezes, sem o hífen, não ficamos com ambiguidade, mas ficamos com uma palavra inexistente, porque é um elemento sem autonomia que ali surge. Era melhor escrever «macro- e microeconomia», por exemplo – porque não falamos de nada chamado *macro, mas sim de uma coisa chamada macroeconomia –, como era melhor escrever-se «separadores pré- e pós-processamento», em vez de «separadores pré e pós-processamento», como agora se escreve – pelo menos se não quisermos recorrer a «separadores pré-processamento e pós processamento», que até não me soa mal, mas me parece escusado…


11 de junho de 2018

Da iniciativa individual [Crónicas de Svendborg #28]

A notícia é de outubro do ano passado, mas isto também não é um blogue de atualidades, de maneira que aqui vai (traduzo artigos de três jornais e deixo-vos os links,  por uma questão de princípio, mas são artigos em dinamarquês...):
Duas fotos de cima: Placas restauradas por Nils Bennicke
Terceira foto: Uma placa antiga a precisar de restauro (daqui)
Foto de baixo: Uma placa nova, de chapa perfurada.
Nils Bennicke, de 69 anos, começou, por iniciativa própria, a restaurar placas com os nomes das ruas no município de Svendborg.
– É um trabalho que o município pensa que deve custar 27 milhões de coroas (cerca de 3,6 milhões de euros), mas eu quero mostrar que se pode fazer  mais barato – diz o carpinteiro aposentado. Anda pela cidade com uma escada e uma caixa de tintas e pinta as placas de rua gastas e ilegíveis. (Daqui)
A ideia da câmara municipal é substituir todas as antigas placas toponímicas por placas mais simples, em vez de as restaurar – placas essas que, por sua vez, serão também substituídas quando estiverem velhas.
– Geralmente, demoro uma hora a restaurar uma placa – diz Nils Bennicke, e acrescenta: – Não podemos continuar a ter uma dívida de mil milhões de coroas e, ao mesmo tempo, gastar 27 milhões para substituir as placas toponímicas da cidade. Acho que é preferível manter as antigas placas em relevo em vez de as substituir. E isso pode ser feito com um investimento que cubra uma carrinha, uma escada, tinta e dois aprendizes de pintor que precisem de apanhar um bocado de ar fresco. (…) Porque não conservar o que temos? Devemos cuidar das nossas coisas e fazer manutenção, em vez de deitar tudo fora. O mesmo se pode dizer das mesas e bancos públicos. Só precisam de uma lavagem e e de uma pintura, e podem durar muito mais. (…) Algumas das antigas placas em relevo são dos anos cinquenta. Um senhor disse-me que foram feitas com alumínio de antigos aviões de guerra. (Daqui
Até aqui, parece tudo muito bem, mas a câmara municipal não aceitou a iniciativa de Nils Bennicke:
O município de Svendborg diz que é tarefa sua renovar o património municipal e que nem o carpinteiro reformado nem nenhum outro cidadão deve fazer esse trabalho. Além disso, acrescenta o município, Nils Bennicke também não cumpriu as regras sanitárias e de segurança no trabalho que fez. (Daqui
Pois foi, não fechou os passeios ao público (a verdade é que são ruas onde não passa quase ninguém) e, se calhar, o município tem medo de que, se o pintor sujasse de tinta algum transeunte, este acabasse por processar as entidades pública…
– A certa altura, um responsável da informação do município telefonou-me e convidou-me para uma reunião, para ver como se podia divulgar a iniciativa. Encontrámo-nos na câmara municipal, mas depois veio um engenheiro municipal dizer-nos que não podia ser. (…) Pediu-me para deixar de pintar as placas, que isso é trabalho dele. De maneira que a reunião ficou por ali; eu só disse «obrigado pela reunião e pelo café – mas agora tenho de me ir embora, tenho de ir pintar mais umas placas». (Daqui)
Parece que não há grandes novidades desde essa altura. Nils Bennicke lá continua a restaurar as placas – ilegalmente, ao que parece, mas ninguém de preocupa com isso...

31 de maio de 2018

Desventuras de um pilha-galinhas na Geórgia

Deve ser de estar a ir para a idade – dou por mim a recordar com saudade objetos da minha meninice ou da minha adolescência. Como hoje em dia é fácil encontrar tudo o que se procura, tenho adquirido – a preços razoáveis, ainda por cima – alguns desses objetos que nostalgia me traz à mente. Falo-vos hoje de dois livros.

Fala-se às vezes de livros que mudam a nossa vida. Publiquei aqui um texto, há muitos anos, em que argumentava que, ao contrário do que muitas vezes se diz – ou ao contrário de como muitas vezes se diz –, é muitíssimo raro um livro mudar a vida a alguém, sobretudo se for uma obra literária. Mais razoável é usar outra expressão comum: há livros que nos marcam. O que significa ser marcado por um livro difere com certeza de caso para caso – de pessoa para pessoa, de livro para livro… –, mas marcar parece ser, nalguns casos, uma descrição bastante literal do efeito de alguns livros: deixar em nós uma impressão perene. Lá está, é duvidoso que essa marca, essa impressão, tenha grande importância na nossa vida – ou é claro, o mais das vezes, que não tem. Mas é uma parte desimportante de nós, como a forma de um dedo pequenino do pé, uma coisa assim… Agora, o que é curioso é que, mais que os textos dos livros (de que recordo pouco), foram as suas ilustrações que nunca esqueci e foram elas que me levaram a comprá-los.

Birger Lundquist é um grande ilustrador, de traço rápido e muito expressivo. As ilustrações d'Um Rapaz da Geórgia são, muito provavelmente, a caneta de tinta permanente e sem esboço prévio, como ele muitas vezes fazia. Já Gabriel Ferrão não era propriamente um grande desenhador e o seu traço roça até o amadorismo; mas, como diz Jorge Silva no seu Almanak, «a patusca ingenuidade d[as suas] ilustrações (…) tem, passados sessenta anos, um irresistível encanto».
______________

[P.S.: Surpreendeu-me o tamanho dos livros, quando os recebi – são os dois livros de 12×18 cm e eu lembrava-me deles muito maiores. É estranho: quando li os livros infantis da Majora, era com certeza mais pequeno do que sou hoje, mas devia já ter o tamanho que tenho hoje quando li Caldwell... Tmabém não fazia ideia de que a tradução da novela de Caldwell era de Jorge de Sena.]

As sete primeiras ilustrações são de Birger Lundquist (in Erskine Caldwell, Um rapaz da Geórgia, Lisboa: Editora Ulisseia, 1954).
As quatro últimas são de Gabriel Ferrão (in Gabriel Ferrão, A desforra do Pilha-Galinhas, Porto: Editorial Majora, sem data).











30 de maio de 2018

De especialização e especialistas

Da especialização propriamente dita

«Sabe-se cada vez mais de cada vez menos», ouve-se e lê-se muitas vezes. E eu acho que, por sedutor que possa ser, este discurso não resiste bem a um bocadinho de reflexão.

O todo não é, como todo, apreensível nem analisável de forma organizada e racional – o todo é demasiado grande para os nossos sentidos e a nossa capacidade de abstração. Só faz sentido uma teoria geral fundamentada na totalidade possível do conhecimento específico. Neste sentido, a especialização não é um mal necessário, é um bem necessário, porque é de muitos conhecimentos especializados que é feito o conhecimento geral.

Quando se critica o demasiado enfoque na especialização e a proliferação de especialistas, porém, normalmente não se quer com isso dizer que há pouco quem tenha um conhecimento da Teoria Geral da Relatividade ou outra teoria bastante geral do universo, mas fala-se antes do declínio da erosão de um saber antigo – «enciclopédico», digamos – em que todas as áreas do saber se misturavam e se confundiam em relações estranhas, meio mágicas muitas delas. O problema é que só era possível saber bastante de tudo no tempo em que se sabia pouco de quase tudo. Hoje, não só há uma (incomparavelmente) maior acumulação de conhecimento em cada área, como há muito mais áreas de conhecimento, de maneira que um saber «generalista» correspondente é agora, pode dizer-se, não saber quase nada de quase tudo – o que não deve ser melhor que saber quase tudo de quase nada, pois não?

Uma parte da crítica à especialização é mais uma versão do catastrofismo milenarista que diz que o passado é que era bom e o presente é lugar de decadência. Neste caso, eram bons os intelectuais que cobriam todas as áreas de saber e a decadência é a especialização. Na realidade, mesmo aprofundando conhecimentos numa área específica, provavelmente nunca houve tanta gente a saber tanto de tanta coisa. Não parece ser a especialização a matar a cultura geral. (E provavelmente, quem sabe muito pouco de quase nada também sabe mais do que quem antigamente sabia muito pouco de quase nada…)

Por fim – e notem que é de uma impressão que aqui se trata, não é nada que eu consiga demonstrar –, causa mais danos a ânsia de «holismo» do que a resignação de se conformar com a especialização. É que o centrar-se com rigor em objetos específicos tem a vantagem de nos fazer perceber quais são os limites concretos da procura concreta de conhecimento e não incentiva, como o parece fazer alguma procura de «holismo», a tentar preencher com uma alegre e seguramente bem-intencionada falta de rigor, quando não puro delírio, os espaços de ignorância que, claro, não deixam nunca de existir. Que vos parece?

Sejamos claros, enfim: se é sem dúvida importante para a vida de cada um o conhecimento «generalista», «enciclopédico», «holístico», e simplesmente a cultura geral, enfim, os avanços técnicos devem-se diretamente à especialização. A longa história da redução do tempo de trabalho e aumento do tempo de lazer, do aumento da esperança e da qualidade de vida – o viver-se, enfim, mais tempo em melhores condições e com menos esforço – é em grande medida a história do aumento do conhecimento especializado.

***
Da desvalorização dos especialistas, e mais duns que doutros

Uma coisa curiosa, a propósito de especialização: parece-me evidente que a especialização se aceita melhor em certas áreas que noutras – o que, para mim, não faz qualquer sentido. Para conceber ou construir um edifício ou uma ponte, ninguém hesita a recorrer a técnicos altamente especializados. Se se discute alguma questão de física ou de química, aceita-se sem problema como referência a opinião de especialistas das áreas em discussão. Sobre a biologia, há mais reservas, sobretudo quanto à sua vertente técnica, a medicina: se é verdade que a maior parte das pessoas vai ao médico quando está doente, infelizmente aceitam-se ainda muitas opiniões de leigos sobre como lidar com problemas físicos de toda a ordem. Já se se discute língua ou história, quase toda a gente se sente capaz de ter uma opinião sobre temas de que não sabe grande coisa. Há casos até em que a condição de especialista, se não é considerado um handicap na discussão, é, pelo menos, vista como indesejável: «Esta saloiice do especialista, sobretudo nas ciências humanas», escrevia alguém no outro dia, num comentário no Facebook, «é uma idiossincrasia de país atrasado». Lá está: «sobretudo nas ciências humanas».

Será porque as pessoas as considerarem áreas «não científicas» e não dão, por isso, o mesmo crédito aos especialistas dessas áreas? Não creio que seja essa a razão, mas se fosse, seria uma atitude pouco razoável e incoerente. Sejam quais forem as especificidades das ciências sociais e humanas relativamente às ciências naturais (o seu grau de «dureza» varia muito de umas para as outras e de uma para outra área dentro de cada uma delas) deveria ser óbvio que os especialistas de uma determinada área de estudos sabem incomparavelmente mais dela que as outras pessoas e parece, no mínimo, sensato, ouvir com muita atenção o que têm a dizer sobre essa matéria.

O problema pode bem ser antes que certas áreas sejam sentidas por todas as pessoas como mais diretamente constitutivas da sua identidade, do lugar que a si próprias se atribuem no mundo e que, por isso, se sintam mais no direito de ter uma palavra a dizer, sobretudo quando há algo que vem mexer com partes muito fundas dos afetos. Não é fácil abdicar de crenças e automatismos solidamente enraizados para se abrir a dados factuais – a que falta muitas vezes, ainda por cima, o conforto da simplicidade a preto e branco dos preconceitos…

Enfim… O certo é que a postura, quando não a crença explícita, de muita gente é que – pelo menos nalgumas áreas – todas as opiniões valem o mesmo, nem que sejam sobre assuntos em que nunca se pensou antes de surgirem polémicas em que imediatamente se toma partido. Isto é, para mim, um bocado assustador, porque é dar cabo, de um golpe fácil, de toda a base do conhecimento humano e da sua possibilidade de continuar a evoluir.

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 Dois exemplos óbvios de polémicas em que muita gente pessoa crê ter opiniões tão válidas como as de quem sabe do tema em discussão são a da reforma ortográfica e a da designação do futuro museu de Lisboa que se pretende dedicar às viagens e à expansão territorial portuguesas.

Participei algumas vezes na discussão da reforma ortográfica. Defendi-a contra vários ataques sem pés nem cabeça. Há gente que não sabe ou não quer distinguir entre língua e grafia, que defende a influência da grafia na pronúncia (sem se quer se dar conta, sequer, de que o seu argumento implicaria que não existissem as tais «consoantes mudas» que acha que devem continuar a existir), gente que não compreende a diferença entre as várias lógicas que podem subjazer a uma grafia, gente que não sabe sequer o que está em discussão, gente que nunca pensou dois minutos sobre grafia antes de a reforma entrar em vigor, mas que expressa, ainda assim, de forma veemente, quando não virulenta, opiniões não fundamentadas. Como o assinalava um comentador anónimo numa discussão em linha, esse violento debitar de disparates teve como consequência afastar do debate público a maior parte das pessoas que sabem alguma coisa de língua, linguistas ou não, académicas ou não, defensoras ou não da reforma, porque a discussão era demasiado má, a todos os níveis – e ficou, com essa ausência, ainda pior… A verdade é que não havia muito a discutir, porque a esmagadora maioria dos detratores da reforma não estava e não está disposta a uma discussão racional. A única coisa que querem é continuar a escrever como aprenderam e alguns chegaram a justificar de formas abstrusas o seu conservadorismo. Cheguei a ver, por exemplo, quem afirmasse que o tempo que tinha passado a aprender a escrever como escrevia justificava bem nunca mudar de ortografia.

A defesa da designação «Museu das descobertas» e o ataque à carta de mais de uma centena de académicos que denuncia a carga ideológica dessa designação é também significativa. Di-lo bem o historiador Paulo Pinto, um dos signatários do documento (artigo aqui):
Há um indiscutível aroma lunático em tudo isto. Primeiro, porque é incompreensível a ligeireza e o desprezo que continuam a merecer historiadores e especialistas das Ciências Sociais e Humanas; depois, porque o que deveria ser um debate intelectual construtivo e sereno é reduzido, afinal, a um destilar de bílis e paixões; finalmente, porque o nosso ego nacional, aparentemente sólido e robusto, revela-se, uma vez mais, um véu frágil e inseguro. Não se encontra uma opinião fundamentada a contestar a carta, só achismos, mitos, calor e ignorância. 
Há também outro aspeto que ajuda, provavelmente, à postura antiespecialistas. O conhecimento sério, seja ele de história, língua ou seja lá do que for, não só é complexo como é chato para a maior parte das pessoas. O simplismo dos mitos é muito mais reconfortante – e mais mediático. Cabe aos especialistas, é certo, tentar tornar a complexidade das suas áreas acessível a toda a gente, mas e complexidade das questões não pode ser nunca razão para os deixar de lado no debate público – é antes razão para lhes dar mais visibilidade. Como diz a historiadora Ângela Xavier Barreto (artigo aqui),
[a] revisitação histórica e a recusa de visões simplistas e parcelares são exercícios fundamentais de e para uma cidadania consciente, informada, crítica — aquilo que tantas vezes se acusa de, na sociedade portuguesa, não existir. Entre os signatários [da carta aberta publicada no Expresso online de 12 de Abril] encontram-se, precisamente, muitas das pessoas que, nas últimas décadas, produziram conhecimento científico de referência sobre temáticas associadas à expansão dos portugueses. É verdade que a maior parte delas não escreve colunas nos jornais, nem aparece na televisão. É por isso que é tão importante que M[iguel] S[ousa] T[avares] se disponha a dialogar com elas e que os leitores possam partilhar a discussão sobre os problemas que existem com as palavras que reproduzem a imaginação histórica em que foram educados.*   
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Mas então, quero eu dizer com isto que todas as discussões se devem reservar aos especialistas de cada área, que os não especialistas não têm direito a opinião? Não, não quero dizer absolutamente nada disso; apenas que, para ter uma opinião sólida, para participar numa discussão de maneira construtiva e rigorosa, uma pessoa deve informar-se… junto dos especialistas – que têm muitas vezes, aliás, posições diferentes uns dos outros. E que em situação nenhuma, mas nenhuma, a ignorância pode ser usada como argumento («eu não sei nada do assunto, por isso recuso-me a ter em conta o que se sabe desse assunto») e o conhecimento considerado um handicap na discussão. Só isto.


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* Ângela Xavier Barreto refere Miguel Sousa Tavares, porque responde ao seu ataque à carta aberta dos académicos, mas o que ela afirma diz, obviamente, respeito a todos os participantes em qualquer debate nestas condições. Sobre a questão do museu, é interessante também ver a opinião não só de historiadores, mas também de museologistas como Maria Isabel Roque (artigo aqui) e Maria Vlachou  (artigo aqui – no fim deste artigo, há uma lista de links para 20 artigos sobre este tema)

23 de abril de 2018

Refugiados e imigrantes na Dinamarca e no resto da UE

Nuno Serra publicou no Ladrões de Bicicletas um artigo sobre a posição dos cidadãos europeus relativamente aos refugiados. O artigo baseia-se em dois relatórios do Eurobarómetro, um sobre Opinião pública na União Europeia e outro sobre Integração de emigrantes na União Europeia (em inglês) e dá informação interessante sobre a perceção dos refugiados nos 28 países da UE. O autor verifica que «ao contrário do que se poderia supor à partida – existe uma correlação entre estes resultados e a percentagem de residentes estrangeiros em cada país.» De facto, «os Estados-membros menos favoráveis a políticas de apoio a refugiados são também, em regra, os que têm menos residentes estrangeiros, em termos relativos» e conclui o seguinte:
Estes dados transmitem uma noção bastante clara: quanto menos um país se relaciona, dentro das suas fronteiras, com os que provêm de outras paragens, maior a propensão para deixar instalar o medo do desconhecido. Uma sociedade que acolhe o «outro» e incorpora a diferença protege-se melhor do efeito dos discursos xenófobos e dos simplismos que associam – sem fundamento – a imigração ao desemprego ou a chegada de refugiados à insegurança.
Tenho tido sempre tendência a concordar com Nuno Serra. Aliás, disse mais ou menos o mesmo por altura das últimas eleições aqui na Dinamarca, ao constatar que a percentagem de votos no Partido Popular (Dansk Folkeparti, um partido que parece ter como única causa concreta o combate à imigração, sobretudo de muçulmanos) é mais ou menos assim, inversamente proporcional ao número de imigrantes em cada círculo eleitoral. Em Nørrebro, o meu antigo bairro de Copenhaga, onde há a maior concentração de muçulmanos (e estrangeiros, em geral) do país, o Partido Popular teve uma votação extremamente baixa, 5,4%. Já, por exemplo, em Aabenraa, na Jutlândia do Sul, ou em Frederikshavn, na Jultlândia do Norte, onde a quantidade de imigrantes é muitíssimo pequena, o Partido Popular teve 31,8% e 26,8% dos votos, respetivamente.

Um comentador anónimo do texto de Serra propõe, contudo, que «[p]ossivelmente a causalidade entre as variáveis é inversa, ou seja, é a pré-disposição a aceitar refugiados que se traduz num maior acolhimento dos mesmos». Esta objeção merece escrutínio. Tantas vezes que se invertem as relações de causalidade, bem poderia ser este mais um caso: quem conheça refugiados dá-se conta de que são pessoas como as outras, de quem não há nada a temer ou os refugiados vão para sítios onde as pessoas estão mais dispostos a recebê-los? É precisa muita informação para poder ajuizar acertadamente e eu não a tenho, mas posso, ainda assim, tentar alinhar algumas ideias sobre a questão. Falarei de «não ocidentais» em geral, em vez de me limitar apenas a refugiados. A categorização parecerá a muitos algo estranha, mas é a que usa, por exemplo, o Partido Popular dinamarquês, que propõe medidas diferentes para diferentes grupos de imigrantes. «Não ocidentais», assim, com aspas, para deixar claro que não é categorização minha, mas de uma parte do «senso comum» europeu, referirá aqui tanto refugiados como os chamados imigrantes económicos oriundos de África e da Ásia[1], já que perceções e atitudes variam pouco ou nada relativamente a estes dois grupos, por muito que sejam muito diferentes, e a perceção dos refugiados tem, pelo menos em parte, raízes na perceção dos imigrantes «não ocidentais» que os precedem. Não que os imigrantes sejam na sua maioria dos mesmo países de origem dos refugiados, mas quem distingue, sobretudo entre quem recusa «não ocidentais», um sírio de um iraniano, um libanês ou uma paquistanês? Nem sequer de um turco[2]

A hipótese de que é «é a pré-disposição a aceitar refugiados que se traduz num maior acolhimento dos mesmos» implica que os refugiados saibam onde são mais bem recebidos ou então que decidam fixar-se aqui ou ali por metodologia de tentativa e erro: experimentamos aqui, não gostam de nós, vamos para outro lado. É possível. Ou também pode significar, se pensarmos em termos de legislação e da qualidade do acolhimento, que sabem onde existe legislação mais ou menos favorável ao seu acolhimento – e, neste caso, há uma correspondência entre a perspetiva do legislador e a opinião do cidadão, o que é sinal de bom estado de saúde da democracia na Europa. Tendo em conta estes aspetos, não encontro nada que impeça a inversão da causalidade – nem nada que a prove. Não deixa de ser curioso, por exemplo, que na Dinamarca, que tem leis muito restritas de imigração e acolhimento de refugiados [3], haja uma perceção positiva dos refugiados e apoio expresso dos cidadãos ao seu acolhimento.

Numa questão tão complexa, entram seguramente em jogo outros fatores que levam os estrangeiros a fixar-se num determinado lugar e os fazem ser mais bem aceites num sítio que noutro. O primeiro que nos vem à mente é, claro está, a economia. É evidente que as boas perspetivas económicas atraem os chamados «imigrantes económicos» e não é impossível que isso tenha uma influência indireta sobre as movimentações de refugiados, porque a existência, à partida, de compatriotas ou comunidades culturalmente semelhantes é sempre um fator de escolha do destino de todos os migrantes, refugiados ou não. Outra influência que a situação económica do país tem sobre o número e a perceção dos «não orientais» é que uma população mais rica, no país de destino, não sente a mesma pressão para defender os seus escassos recursos, tentando impedir o acesso de forasteiros a esses recursos. Este último fator é muitas vezes convocado para explicar a subida da extrema direita antiemigrantes em zonas empobrecidas e com altos níveis de desemprego, algumas delas tradicionais feudos dos partidos de esquerda. Os números dos relatórios parecem confirmar a relação entre perceção da economia e dos refugiados: quem vê a sua economia como boa, tende a ter uma atitude mais positiva dos emigrantes e a defender que seja dado apoio aos refugiados. Há, porém exceções, como o caso de Portugal, com uma perceção negativa da economia e positiva de emigrantes e refugiados, ou da República Checa, com perceções opostas às portuguesas.

Passemos da Europa comunitária a um país específico (usarei, por facilidade o exemplo da Dinamarca), para ver se o nível local nos ajuda a confirmar ou a questionar algumas das possibilidades acima delineadas.

Bom, a questão da legislação e da qualidade do apoio a refugiados é irrelevante a nível nacional, porque é igual em todo o país. Mas também nunca ouvi falar (e duvido mesmo muito) de que tenha havido tentativas frustradas e retificadas de fixação de grandes quantidades de estrangeiros nas zonas onde as pessoas menos o querem. Mas continua a ser possível que eles tenham já a à partida a informação de que têm ali terreno hostil.

Ao nível nacional, não parece haver relação direta entre rendimento e perceção dos refugiados. Se é certo que, dos exemplos que dei atrás, Frederikshavn é uma zona pobre e Copenhaga uma zona rica, já Aabenraa é também uma zona das mais ricas do país, com uma perceção negativa dos «não ocidentais», a julgar pelo sucesso da extrema direita. Vejler e Sønderbog, das regiões mais ricas do país, têm também das votações mais elevadas no Partido Popular, mais do dobro de Rudersdal e Horsholm, as regiões mais pobres da Dinamarca.

Outro fator importante que nos vem de imediato à mente quando analisamos a questão a nível intranacional é a oposição campo/província vs metrópole. Compreende-se que os «não ocidentais» prefiram as grandes cidades, porque no geral aí há, de facto, mais possibilidades de refazer a sua vida e parece certo que as pessoas das cidades têm uma mentalidade mais aberta e estão mais habituadas a lidar com o diferente e a incorporá-lo. Esta distinção entre uma mentalidade rural/provinciana e a uma mentalidade urbana/metropolitana, nalguns casos cosmopolita, é, substituindo apenas país por localidade, a distinção que Nuno Serra faz entre países com uma atitude positiva ou negativa face aos refugiados: quanto menos os habitantes de um lugar se relacionam com forasteiros, maior tendência têm a ter medo deles.

A minha mulher lembrava-me, quando ontem discuti com ela algumas ideias deste texto, que, quando fala com as pessoas conhecidas de Frederikshavn (ela é de lá) que não querem lá imigrantes, todas se apressam a acrescentar que não é aquele turco da mercearia da esquina nem o barbeiro libanês, que por acaso até são excelentes pessoas. São os muçulmanos dos guetos de Copenhaga que constituem o problema, é por causa deles que votam no Partido Popular. A diferença entre os primeiros e os segundos é que esses pessoas conhecem os estrangeiros locais e não fazem ideia, a não ser por meio de boatos e propaganda antiemigrante, de quem sejam de facto os muçulmanos de longe. A afirmação da minha mulher é, aliás, banal: toda a gente sabe que as pessoas que descriminam algum grupo poupam sempre a essa discriminação um ou outro membro desse grupo, que conhecem e até são, por acaso, umas joias de pessoas.

Haverá, com certeza, várias razões que se interligam e que podem variar de país para país para os seus cidadãos terem uma perceção mais ou menos negativa dos estrangeiros, e principalmente dos «não ocidentais»; mas, seja ou não a principal causa dessa perceção, o isolamento e o desconhecimento do Outro não podem senão ser – sempre foram – um fator importante na rejeição desse Outro. O medo é mesmo, como diz Nuno Serra, um país distante.

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[1] A perceção de chineses e vietnamitas é, com certeza muito diferente, da dos outros asiáticos, já que muitas vezes que se considera, com ou sem razão, que, fora das suas relações comerciais com os locais, se mantêm «invisíveis», vivendo uma vida completamente à parte.

[2] Vi algumas vezes iranianos furiosos por os referirem como árabes – e, assentemos, com mais razão que a que leva um português a enfurecer-se quando confundem Portugal com Espanha; e vi «não ocidentais» ateístas como eu a reagir mal a chamarem-lhes muçulmanos, como eu reajo mal a quem parta do princípio que sou católico porque sou português. Mas isso é outra conversa…

[3] Algumas destas medidas restritivas à imigração e acolhimento de refugiados têm sido muito criticadas internacionalmente. Devem-se, por um lado, à influência do Partido Popular, a quem vários governos tiveram de fazer cedências para conseguir maioria parlamentar; e, por outro, à necessidade que outros partidos têm sentido de tentar satisfazer uma grande parte do eleitorado para quem esta questão é importante. O debate sobra a imigração tem tido sido desproporcionado relativamente à dimensão real da mesma.