22 de junho de 2018

Drofo e drofa e a língua ao contrário

Em vários sítios se usa a inversão dos sons das palavras – normalmente das sílabas – como forma de criar palavras novas, incompreensíveis para quem não conheça o truque. Dois casos conhecidos de códigos de inversão são o verlan, em França, e o vesre, no castelhano do Rio da Prata, mas há outros, como o podaná grego, o back slang londrino e o šatrovački servo-croata.

Não sei até que ponto é correto chamar calões a esses códigos, mas normalmente têm em comum com o calão propriamente dito as situações em que é utilizado e os utilizadores, além de que muitas dessas palavras acabam por entrar no calão propriamente dito, perdendo-se até às vezes a consciência de que são inversão de outras palavras. Para dar exemplos do francês, que é único caso que conheço bem, a palavra barjot em francês era já usada antes de o verlan entrar na língua corrente, sem as pessoas terem consciência que era um verlan de jobard; e, atualmente, termos como beur/beurette, keuf, keum e meuf, entre muitíssimos outros, entraram no calão geral e são usadas mesmo por quem não fala verlan.

 Agora, é curioso que, mesmo quando o processo de inversão deixou de se utilizar, persistem palavras formadas desta maneira. Um caso famoso é o fika sueco, mas encontrei também há uns tempos (e foi isso que motivou este texto) um exemplo em português.

Sempre conheci as palavras de calão Drofo e drofa (que aliás usei aqui no texto mais conhecido do blogue), com o significado de «Porto» (a cidade) e «porta», respetivamente, e muitas vezes as dei até como exemplo de como o calão segue de perto a língua standard, mas não fazia ideia da sua origem. Ora em Os Ciganos Portugal, com um estudo sobre o calão, memoria destinada á X sessão do congresso internacional dos orientalistas (Lisboa: Imprensa nacional, 1892, p. 119), escreve Francisco Adolfo Coelho, no capítulo sobre «Processos de formação do calão»:
No calão as inversões podem ser simples ou acompanhadas de outras modificações; as da primeira espécie são raras. Exemplos d'inversão simples: safo (lenço) por *fasso (d'onde falço, Bluteau), como vimos, de origem italiana; zouca por cousa; tapor por porta. Nos seguintes exemplos houve mais ou menos consideráveis modificações dos sons invertidos ou outras modificações concomitantes: soquinha por *zoquinha, de port. cozinha; lofo por *folo, de fr. fol; macallo por *vacallo, de port. cavallo (…); chona, choina, de hisp. noche; drepa por *drespa, *trespa, de port. presta; dropa por *drepa, de port. pedra; drofa por *trofa, *tropa, de port. porta; Drofo por *Trofo, *Tropo, de Porto (cidade). 
Evidentemente, como sempre em questões de etimologia, fica espaço para dúvidas, sobretudo quando há tantas formas intermédias não atestadas (por convenção, o * indica que a forma é deduzida pelo autor, mas não está atestada). Também é certo que, se a hipótese explica o estranho paralelo de porta/Porto com drofa/Drofo, esse paralelo pode explicar-se sempre de uma forma simples, independentemente de que origem se pressuponha para uma das palavras, considerando que a outra foi derivada dela seguindo, precisamente, o modelo do português standard. Mas não deixa de ser uma proposta interessante. Também me parece interessante a proposta etimológica de chona/choina. É termo que desconheço, mas que os dicionários registam como com o significado de «noite» num registo coloquial e de que deriva chonar, calão muito difundido para «dormir».

19 de junho de 2018

Um santo p'ra pular ou não e uma marcha de chacha... perdão, da chacha

Se há festa comum a toda a Europa (e a toda a América, mas disso não sei muito) é a festa do equinócio de verão, conhecida em muitos países como festa de S. João. É sempre uma festa com fogueiras, mas os pormenores da festa, variam, é claro, de país para país. Por exemplo, na Estónia, Letónia, Hungria e Portugal, salta-se a fogueira, mas na Dinamarca, em França, em Itália e na Noruega não. Etc. (A página "Midsummer" da Wikipédia em inglês tem um resumo das diferentes tradições)

Em Portugal, não nos basta o equinócio e alargámos a festa para os lados – de 13 a 29, ele é fogueiras e folia por todo o lado... Como, felizmente, não posso estar presente, deixo aqui a minha modesta contribuição para os festejos dos Santos Populares: uma marcha que escrevi há uns 35 anos e que nunca chegou a ser musicada. Uma marcha com uma perspetiva mais abrangente que o habitual, já que, em vez de falar da especificidade de um bairro de Lisboa, fala de uma especificidade da malta de todos os bairros de todas as cidades, vilas e aldeias portuguesas (e não me levem nisto a sério, sim?).

Marcha da chacha

Passa meio mundo a vida
a dar a volta a outro meio,
qu’isto em questão de paleio
‘tá a gente bem servida;
Mas, com conversa fiada,
o problema é que, no fundo,
dá-se a volta a meio mundo
sem se dar a volta a nada.

‘Tá no espírito do povo
a converseta de chacha;
se aparece um grupo novo,
que graça que a gente lh’acha!
E se houvesse um mundial
do falar só por falar,
vinha o ouro e vinha a prata,
vinha o bronze e vinha a lata,
vinha tudo cá parar.

Quando se arma algum banzé,
quem tiver mais converseta
é que leva a bicicleta
– e o outro vai a pé.
Muito fala este povinho,
‘tá sempre, sempre na tanga;
depois vai queixar-se ao ganga
quando anda a falar sozinho.

E é assim esta gente:
a converseta é que é obra!
Só fica mesmo contente
a vender banha da cobra.
Pois então que viva a chacha,
mas òs’pois ninguém se queixe,
que s’o caso ‘stiver feio,
não se vai lá com paleio
– pela boca morre o peixe.

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Imagens:
Em cima: P. S. Krøyer: Fogueira de S. João na praia de Skagen (Sankt Hansblus på Skagen strand), 1906. Skagens Museum.
Em baixo: A. Roque Gameiro: A fogueira do santo (?), s. d., de uma coleção de fascículos, Portugal de algum dia, 1931 (?, ver aqui)
(A página "Marchas Populares de Lisboa", do blogue Histórias com História tem bonitas ilustrações de Stuart Carvalhais, Roque Gameiro e  Almada Negreiros, entre outros, relativas aos Santos Populares, )

18 de junho de 2018

Mais coisas sem importância nenhuma

Acontece-me às vezes desviar-me ligeiramente da ortografia oficial, em certos contextos, quando creio ter razões lógicas para o fazer e quando me sobra paciência para assumir o desvio. Mas é muito raro. Normalmente, limito-me a seguir as regras ortográficas, concorde ou não com elas, porque insistir na lógica a contracorrente dá demasiado trabalho.

Vejam a questão do agá inicial, por exemplo. Para mim, é óbvio que o agá é um resquício de uma lógica ortográfica anterior à perspetiva fonológica que foi introduzida pela reforma republicana de 1911. Eliminaram-se muitas letras sem outra função que não fosse dar conta da «etimologia», mas, por alguma razão, considerou-se mais importante conservar o agá que outras letras apenas etimológicas. A verdade, ao que vou constatando, é que toda a gente acha impensável escrever «oje às duas oras», mas ninguém se importa de escrever espanhol, erva, arpão e agora, que, para seguirem a mesma lógica etimológica também deviam ter agá. É assim a vida e para mim está muito bem, paciência, não chateio ninguém com o agá inicial…

Pois, escrevo mais uma vez sobre ortografia – maldita mania –, mas, vá lá, não quero falar de nenhuma dessas grandes questões ortográficas que empolgam os ânimos, como os agás iniciais. Hoje falo só de picuinhices, coisas sem importância absolutamente nenhuma…

1. Considerem, a seguinte série:
Para que fim contribui isso?
Para que contribui isso?
Com que ferramenta cortaste isso?
Com que cortaste isso?
De que material é isso feito?
De que é feito isso?
Por que razão chegaste atrasado.
Porque chegaste atrasado?
Porque, pronome interrogativo? Hmmm, não há *paraque, nem *deque, nem *conque… Devia ser por que, claro, como em castelhano ou na tradição brasileira. Pobre palavra pronome, que é quase como advérbio, pau para toda a colher…

2. Uma coisa simples era também distinguir o verdadeiro advérbio afinal (=finalmente) de um sintagma preposicional a final de (=no fim de). Afinal de contas não está bem, por muito que seja grafia consagrada: é finalmente de contas ou no fim de contas que se quer dizer?

3. Surgiu-me no outro dia um exemplo de uma ambiguidade possível em português, que, de tão rara, nunca encontrei nada do tipo. Consideram a frase:
A proposta foi ética e eficazmente elaborada.
Já não vou ao ponto de sugerir que se grafe mente separado, o que a etimologia e a sintaxe até podiam justificar (é como tirar os agás iniciais, não vale a pena pensar nisso), mas, se se considera o advérbio uma unidade, bem que podia marcar-se a falta do elemento -mente nos casos em que ele é obrigatoriamente omisso. Uma sugestão óbvia é o uso de um hífen:
A proposta foi ética- e eficazmente elaborada.
Ficamos assim a dizer o que queremos. Este uso não é nenhuma invenção minha, quando muito uma importação: na escrita do inglês, isto é standard em palavras compostas com hífen (self- and peer-evaluation, pre- and post-war, etc.) e debatido, mas muitas vezes usado, em compostas sem hífen com uma parte naturalmente omissa na oralidade (up- and downwards para up[wards] and downwards ou super- and paranormal para super[normal] e paranormal). Na escrita de outras línguas, como as línguas escandinavas e o alemão, pelo menos, o procedimento é standard para todas as palavras com elementos omissos na(s) primeira(s) palavras de uma enumeração de compostas com o mesmo segundo elemento: okse- og lammekød («carne de vaca e borrego», DK), laut- und spurlos («sem [deixar] som nem rasto», DE]. Pode até acontecer que se omita mais que um elemento comum no início e no fim das palavras como no alemão Sonnenauf- und -untergang, («nascer e pôr do sol»), em que, na primeira palavra, o hífen marca a omissão de Gang e, na segunda, de Sonnen.

É certo que só por causa das ambiguidades entre adjetivos e advérbios em -mente, de tão insólitas que são, não valeria muito a pena pensar nisto, mas a verdade é que a mesma questão se põe muitas vezes com outros compostos: às vezes, sem o hífen, não ficamos com ambiguidade, mas ficamos com uma palavra inexistente, porque é um elemento sem autonomia que ali surge. Era melhor escrever «macro- e microeconomia», por exemplo – porque não falamos de nada chamado *macro, mas sim de uma coisa chamada macroeconomia –, como era melhor escrever-se «separadores pré- e pós-processamento», em vez de «separadores pré e pós-processamento», como agora se escreve – pelo menos se não quisermos recorrer a «separadores pré-processamento e pós processamento», que até não me soa mal, mas me parece escusado…


11 de junho de 2018

Da iniciativa individual [Crónicas de Svendborg #28]

A notícia é de outubro do ano passado, mas isto também não é um blogue de atualidades, de maneira que aqui vai (traduzo artigos de três jornais e deixo-vos os links,  por uma questão de princípio, mas são artigos em dinamarquês...):
Duas fotos de cima: Placas restauradas por Nils Bennicke
Terceira foto: Uma placa antiga a precisar de restauro (daqui)
Foto de baixo: Uma placa nova, de chapa perfurada.
Nils Bennicke, de 69 anos, começou, por iniciativa própria, a restaurar placas com os nomes das ruas no município de Svendborg.
– É um trabalho que o município pensa que deve custar 27 milhões de coroas (cerca de 3,6 milhões de euros), mas eu quero mostrar que se pode fazer  mais barato – diz o carpinteiro aposentado. Anda pela cidade com uma escada e uma caixa de tintas e pinta as placas de rua gastas e ilegíveis. (Daqui)
A ideia da câmara municipal é substituir todas as antigas placas toponímicas por placas mais simples, em vez de as restaurar – placas essas que, por sua vez, serão também substituídas quando estiverem velhas.
– Geralmente, demoro uma hora a restaurar uma placa – diz Nils Bennicke, e acrescenta: – Não podemos continuar a ter uma dívida de mil milhões de coroas e, ao mesmo tempo, gastar 27 milhões para substituir as placas toponímicas da cidade. Acho que é preferível manter as antigas placas em relevo em vez de as substituir. E isso pode ser feito com um investimento que cubra uma carrinha, uma escada, tinta e dois aprendizes de pintor que precisem de apanhar um bocado de ar fresco. (…) Porque não conservar o que temos? Devemos cuidar das nossas coisas e fazer manutenção, em vez de deitar tudo fora. O mesmo se pode dizer das mesas e bancos públicos. Só precisam de uma lavagem e e de uma pintura, e podem durar muito mais. (…) Algumas das antigas placas em relevo são dos anos cinquenta. Um senhor disse-me que foram feitas com alumínio de antigos aviões de guerra. (Daqui
Até aqui, parece tudo muito bem, mas a câmara municipal não aceitou a iniciativa de Nils Bennicke:
O município de Svendborg diz que é tarefa sua renovar o património municipal e que nem o carpinteiro reformado nem nenhum outro cidadão deve fazer esse trabalho. Além disso, acrescenta o município, Nils Bennicke também não cumpriu as regras sanitárias e de segurança no trabalho que fez. (Daqui
Pois foi, não fechou os passeios ao público (a verdade é que são ruas onde não passa quase ninguém) e, se calhar, o município tem medo de que, se o pintor sujasse de tinta algum transeunte, este acabasse por processar as entidades pública…
– A certa altura, um responsável da informação do município telefonou-me e convidou-me para uma reunião, para ver como se podia divulgar a iniciativa. Encontrámo-nos na câmara municipal, mas depois veio um engenheiro municipal dizer-nos que não podia ser. (…) Pediu-me para deixar de pintar as placas, que isso é trabalho dele. De maneira que a reunião ficou por ali; eu só disse «obrigado pela reunião e pelo café – mas agora tenho de me ir embora, tenho de ir pintar mais umas placas». (Daqui)
Parece que não há grandes novidades desde essa altura. Nils Bennicke lá continua a restaurar as placas – ilegalmente, ao que parece, mas ninguém de preocupa com isso...

31 de maio de 2018

Desventuras de um pilha-galinhas na Geórgia

Deve ser de estar a ir para a idade – dou por mim a recordar com saudade objetos da minha meninice ou da minha adolescência. Como hoje em dia é fácil encontrar tudo o que se procura, tenho adquirido – a preços razoáveis, ainda por cima – alguns desses objetos que nostalgia me traz à mente. Falo-vos hoje de dois livros.

Fala-se às vezes de livros que mudam a nossa vida. Publiquei aqui um texto, há muitos anos, em que argumentava que, ao contrário do que muitas vezes se diz – ou ao contrário de como muitas vezes se diz –, é muitíssimo raro um livro mudar a vida a alguém, sobretudo se for uma obra literária. Mais razoável é usar outra expressão comum: há livros que nos marcam. O que significa ser marcado por um livro difere com certeza de caso para caso – de pessoa para pessoa, de livro para livro… –, mas marcar parece ser, nalguns casos, uma descrição bastante literal do efeito de alguns livros: deixar em nós uma impressão perene. Lá está, é duvidoso que essa marca, essa impressão, tenha grande importância na nossa vida – ou é claro, o mais das vezes, que não tem. Mas é uma parte desimportante de nós, como a forma de um dedo pequenino do pé, uma coisa assim… Agora, o que é curioso é que, mais que os textos dos livros (de que recordo pouco), foram as suas ilustrações que nunca esqueci e foram elas que me levaram a comprá-los.

Birger Lundquist é um grande ilustrador, de traço rápido e muito expressivo. As ilustrações d'Um Rapaz da Geórgia são, muito provavelmente, a caneta de tinta permanente e sem esboço prévio, como ele muitas vezes fazia. Já Gabriel Ferrão não era propriamente um grande desenhador e o seu traço roça até o amadorismo; mas, como diz Jorge Silva no seu Almanak, «a patusca ingenuidade d[as suas] ilustrações (…) tem, passados sessenta anos, um irresistível encanto».
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[P.S.: Surpreendeu-me o tamanho dos livros, quando os recebi – são os dois livros de 12×18 cm e eu lembrava-me deles muito maiores. É estranho: quando li os livros infantis da Majora, era com certeza mais pequeno do que sou hoje, mas devia já ter o tamanho que tenho hoje quando li Caldwell... Tmabém não fazia ideia de que a tradução da novela de Caldwell era de Jorge de Sena.]

As sete primeiras ilustrações são de Birger Lundquist (in Erskine Caldwell, Um rapaz da Geórgia, Lisboa: Editora Ulisseia, 1954).
As quatro últimas são de Gabriel Ferrão (in Gabriel Ferrão, A desforra do Pilha-Galinhas, Porto: Editorial Majora, sem data).











30 de maio de 2018

De especialização e especialistas

Da especialização propriamente dita

«Sabe-se cada vez mais de cada vez menos», ouve-se e lê-se muitas vezes. E eu acho que, por sedutor que possa ser, este discurso não resiste bem a um bocadinho de reflexão.

O todo não é, como todo, apreensível nem analisável de forma organizada e racional – o todo é demasiado grande para os nossos sentidos e a nossa capacidade de abstração. Só faz sentido uma teoria geral fundamentada na totalidade possível do conhecimento específico. Neste sentido, a especialização não é um mal necessário, é um bem necessário, porque é de muitos conhecimentos especializados que é feito o conhecimento geral.

Quando se critica o demasiado enfoque na especialização e a proliferação de especialistas, porém, normalmente não se quer com isso dizer que há pouco quem tenha um conhecimento da Teoria Geral da Relatividade ou outra teoria bastante geral do universo, mas fala-se antes do declínio da erosão de um saber antigo – «enciclopédico», digamos – em que todas as áreas do saber se misturavam e se confundiam em relações estranhas, meio mágicas muitas delas. O problema é que só era possível saber bastante de tudo no tempo em que se sabia pouco de quase tudo. Hoje, não só há uma (incomparavelmente) maior acumulação de conhecimento em cada área, como há muito mais áreas de conhecimento, de maneira que um saber «generalista» correspondente é agora, pode dizer-se, não saber quase nada de quase tudo – o que não deve ser melhor que saber quase tudo de quase nada, pois não?

Uma parte da crítica à especialização é mais uma versão do catastrofismo milenarista que diz que o passado é que era bom e o presente é lugar de decadência. Neste caso, eram bons os intelectuais que cobriam todas as áreas de saber e a decadência é a especialização. Na realidade, mesmo aprofundando conhecimentos numa área específica, provavelmente nunca houve tanta gente a saber tanto de tanta coisa. Não parece ser a especialização a matar a cultura geral. (E provavelmente, quem sabe muito pouco de quase nada também sabe mais do que quem antigamente sabia muito pouco de quase nada…)

Por fim – e notem que é de uma impressão que aqui se trata, não é nada que eu consiga demonstrar –, causa mais danos a ânsia de «holismo» do que a resignação de se conformar com a especialização. É que o centrar-se com rigor em objetos específicos tem a vantagem de nos fazer perceber quais são os limites concretos da procura concreta de conhecimento e não incentiva, como o parece fazer alguma procura de «holismo», a tentar preencher com uma alegre e seguramente bem-intencionada falta de rigor, quando não puro delírio, os espaços de ignorância que, claro, não deixam nunca de existir. Que vos parece?

Sejamos claros, enfim: se é sem dúvida importante para a vida de cada um o conhecimento «generalista», «enciclopédico», «holístico», e simplesmente a cultura geral, enfim, os avanços técnicos devem-se diretamente à especialização. A longa história da redução do tempo de trabalho e aumento do tempo de lazer, do aumento da esperança e da qualidade de vida – o viver-se, enfim, mais tempo em melhores condições e com menos esforço – é em grande medida a história do aumento do conhecimento especializado.

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Da desvalorização dos especialistas, e mais duns que doutros

Uma coisa curiosa, a propósito de especialização: parece-me evidente que a especialização se aceita melhor em certas áreas que noutras – o que, para mim, não faz qualquer sentido. Para conceber ou construir um edifício ou uma ponte, ninguém hesita a recorrer a técnicos altamente especializados. Se se discute alguma questão de física ou de química, aceita-se sem problema como referência a opinião de especialistas das áreas em discussão. Sobre a biologia, há mais reservas, sobretudo quanto à sua vertente técnica, a medicina: se é verdade que a maior parte das pessoas vai ao médico quando está doente, infelizmente aceitam-se ainda muitas opiniões de leigos sobre como lidar com problemas físicos de toda a ordem. Já se se discute língua ou história, quase toda a gente se sente capaz de ter uma opinião sobre temas de que não sabe grande coisa. Há casos até em que a condição de especialista, se não é considerado um handicap na discussão, é, pelo menos, vista como indesejável: «Esta saloiice do especialista, sobretudo nas ciências humanas», escrevia alguém no outro dia, num comentário no Facebook, «é uma idiossincrasia de país atrasado». Lá está: «sobretudo nas ciências humanas».

Será porque as pessoas as considerarem áreas «não científicas» e não dão, por isso, o mesmo crédito aos especialistas dessas áreas? Não creio que seja essa a razão, mas se fosse, seria uma atitude pouco razoável e incoerente. Sejam quais forem as especificidades das ciências sociais e humanas relativamente às ciências naturais (o seu grau de «dureza» varia muito de umas para as outras e de uma para outra área dentro de cada uma delas) deveria ser óbvio que os especialistas de uma determinada área de estudos sabem incomparavelmente mais dela que as outras pessoas e parece, no mínimo, sensato, ouvir com muita atenção o que têm a dizer sobre essa matéria.

O problema pode bem ser antes que certas áreas sejam sentidas por todas as pessoas como mais diretamente constitutivas da sua identidade, do lugar que a si próprias se atribuem no mundo e que, por isso, se sintam mais no direito de ter uma palavra a dizer, sobretudo quando há algo que vem mexer com partes muito fundas dos afetos. Não é fácil abdicar de crenças e automatismos solidamente enraizados para se abrir a dados factuais – a que falta muitas vezes, ainda por cima, o conforto da simplicidade a preto e branco dos preconceitos…

Enfim… O certo é que a postura, quando não a crença explícita, de muita gente é que – pelo menos nalgumas áreas – todas as opiniões valem o mesmo, nem que sejam sobre assuntos em que nunca se pensou antes de surgirem polémicas em que imediatamente se toma partido. Isto é, para mim, um bocado assustador, porque é dar cabo, de um golpe fácil, de toda a base do conhecimento humano e da sua possibilidade de continuar a evoluir.

***
 Dois exemplos óbvios de polémicas em que muita gente pessoa crê ter opiniões tão válidas como as de quem sabe do tema em discussão são a da reforma ortográfica e a da designação do futuro museu de Lisboa que se pretende dedicar às viagens e à expansão territorial portuguesas.

Participei algumas vezes na discussão da reforma ortográfica. Defendi-a contra vários ataques sem pés nem cabeça. Há gente que não sabe ou não quer distinguir entre língua e grafia, que defende a influência da grafia na pronúncia (sem se quer se dar conta, sequer, de que o seu argumento implicaria que não existissem as tais «consoantes mudas» que acha que devem continuar a existir), gente que não compreende a diferença entre as várias lógicas que podem subjazer a uma grafia, gente que não sabe sequer o que está em discussão, gente que nunca pensou dois minutos sobre grafia antes de a reforma entrar em vigor, mas que expressa, ainda assim, de forma veemente, quando não virulenta, opiniões não fundamentadas. Como o assinalava um comentador anónimo numa discussão em linha, esse violento debitar de disparates teve como consequência afastar do debate público a maior parte das pessoas que sabem alguma coisa de língua, linguistas ou não, académicas ou não, defensoras ou não da reforma, porque a discussão era demasiado má, a todos os níveis – e ficou, com essa ausência, ainda pior… A verdade é que não havia muito a discutir, porque a esmagadora maioria dos detratores da reforma não estava e não está disposta a uma discussão racional. A única coisa que querem é continuar a escrever como aprenderam e alguns chegaram a justificar de formas abstrusas o seu conservadorismo. Cheguei a ver, por exemplo, quem afirmasse que o tempo que tinha passado a aprender a escrever como escrevia justificava bem nunca mudar de ortografia.

A defesa da designação «Museu das descobertas» e o ataque à carta de mais de uma centena de académicos que denuncia a carga ideológica dessa designação é também significativa. Di-lo bem o historiador Paulo Pinto, um dos signatários do documento (artigo aqui):
Há um indiscutível aroma lunático em tudo isto. Primeiro, porque é incompreensível a ligeireza e o desprezo que continuam a merecer historiadores e especialistas das Ciências Sociais e Humanas; depois, porque o que deveria ser um debate intelectual construtivo e sereno é reduzido, afinal, a um destilar de bílis e paixões; finalmente, porque o nosso ego nacional, aparentemente sólido e robusto, revela-se, uma vez mais, um véu frágil e inseguro. Não se encontra uma opinião fundamentada a contestar a carta, só achismos, mitos, calor e ignorância. 
Há também outro aspeto que ajuda, provavelmente, à postura antiespecialistas. O conhecimento sério, seja ele de história, língua ou seja lá do que for, não só é complexo como é chato para a maior parte das pessoas. O simplismo dos mitos é muito mais reconfortante – e mais mediático. Cabe aos especialistas, é certo, tentar tornar a complexidade das suas áreas acessível a toda a gente, mas e complexidade das questões não pode ser nunca razão para os deixar de lado no debate público – é antes razão para lhes dar mais visibilidade. Como diz a historiadora Ângela Xavier Barreto (artigo aqui),
[a] revisitação histórica e a recusa de visões simplistas e parcelares são exercícios fundamentais de e para uma cidadania consciente, informada, crítica — aquilo que tantas vezes se acusa de, na sociedade portuguesa, não existir. Entre os signatários [da carta aberta publicada no Expresso online de 12 de Abril] encontram-se, precisamente, muitas das pessoas que, nas últimas décadas, produziram conhecimento científico de referência sobre temáticas associadas à expansão dos portugueses. É verdade que a maior parte delas não escreve colunas nos jornais, nem aparece na televisão. É por isso que é tão importante que M[iguel] S[ousa] T[avares] se disponha a dialogar com elas e que os leitores possam partilhar a discussão sobre os problemas que existem com as palavras que reproduzem a imaginação histórica em que foram educados.*   
***
Mas então, quero eu dizer com isto que todas as discussões se devem reservar aos especialistas de cada área, que os não especialistas não têm direito a opinião? Não, não quero dizer absolutamente nada disso; apenas que, para ter uma opinião sólida, para participar numa discussão de maneira construtiva e rigorosa, uma pessoa deve informar-se… junto dos especialistas – que têm muitas vezes, aliás, posições diferentes uns dos outros. E que em situação nenhuma, mas nenhuma, a ignorância pode ser usada como argumento («eu não sei nada do assunto, por isso recuso-me a ter em conta o que se sabe desse assunto») e o conhecimento considerado um handicap na discussão. Só isto.


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* Ângela Xavier Barreto refere Miguel Sousa Tavares, porque responde ao seu ataque à carta aberta dos académicos, mas o que ela afirma diz, obviamente, respeito a todos os participantes em qualquer debate nestas condições. Sobre a questão do museu, é interessante também ver a opinião não só de historiadores, mas também de museologistas como Maria Isabel Roque (artigo aqui) e Maria Vlachou  (artigo aqui – no fim deste artigo, há uma lista de links para 20 artigos sobre este tema)

23 de abril de 2018

Refugiados e imigrantes na Dinamarca e no resto da UE

Nuno Serra publicou no Ladrões de Bicicletas um artigo sobre a posição dos cidadãos europeus relativamente aos refugiados. O artigo baseia-se em dois relatórios do Eurobarómetro, um sobre Opinião pública na União Europeia e outro sobre Integração de emigrantes na União Europeia (em inglês) e dá informação interessante sobre a perceção dos refugiados nos 28 países da UE. O autor verifica que «ao contrário do que se poderia supor à partida – existe uma correlação entre estes resultados e a percentagem de residentes estrangeiros em cada país.» De facto, «os Estados-membros menos favoráveis a políticas de apoio a refugiados são também, em regra, os que têm menos residentes estrangeiros, em termos relativos» e conclui o seguinte:
Estes dados transmitem uma noção bastante clara: quanto menos um país se relaciona, dentro das suas fronteiras, com os que provêm de outras paragens, maior a propensão para deixar instalar o medo do desconhecido. Uma sociedade que acolhe o «outro» e incorpora a diferença protege-se melhor do efeito dos discursos xenófobos e dos simplismos que associam – sem fundamento – a imigração ao desemprego ou a chegada de refugiados à insegurança.
Tenho tido sempre tendência a concordar com Nuno Serra. Aliás, disse mais ou menos o mesmo por altura das últimas eleições aqui na Dinamarca, ao constatar que a percentagem de votos no Partido Popular (Dansk Folkeparti, um partido que parece ter como única causa concreta o combate à imigração, sobretudo de muçulmanos) é mais ou menos assim, inversamente proporcional ao número de imigrantes em cada círculo eleitoral. Em Nørrebro, o meu antigo bairro de Copenhaga, onde há a maior concentração de muçulmanos (e estrangeiros, em geral) do país, o Partido Popular teve uma votação extremamente baixa, 5,4%. Já, por exemplo, em Aabenraa, na Jutlândia do Sul, ou em Frederikshavn, na Jultlândia do Norte, onde a quantidade de imigrantes é muitíssimo pequena, o Partido Popular teve 31,8% e 26,8% dos votos, respetivamente.

Um comentador anónimo do texto de Serra propõe, contudo, que «[p]ossivelmente a causalidade entre as variáveis é inversa, ou seja, é a pré-disposição a aceitar refugiados que se traduz num maior acolhimento dos mesmos». Esta objeção merece escrutínio. Tantas vezes que se invertem as relações de causalidade, bem poderia ser este mais um caso: quem conheça refugiados dá-se conta de que são pessoas como as outras, de quem não há nada a temer ou os refugiados vão para sítios onde as pessoas estão mais dispostos a recebê-los? É precisa muita informação para poder ajuizar acertadamente e eu não a tenho, mas posso, ainda assim, tentar alinhar algumas ideias sobre a questão. Falarei de «não ocidentais» em geral, em vez de me limitar apenas a refugiados. A categorização parecerá a muitos algo estranha, mas é a que usa, por exemplo, o Partido Popular dinamarquês, que propõe medidas diferentes para diferentes grupos de imigrantes. «Não ocidentais», assim, com aspas, para deixar claro que não é categorização minha, mas de uma parte do «senso comum» europeu, referirá aqui tanto refugiados como os chamados imigrantes económicos oriundos de África e da Ásia[1], já que perceções e atitudes variam pouco ou nada relativamente a estes dois grupos, por muito que sejam muito diferentes, e a perceção dos refugiados tem, pelo menos em parte, raízes na perceção dos imigrantes «não ocidentais» que os precedem. Não que os imigrantes sejam na sua maioria dos mesmo países de origem dos refugiados, mas quem distingue, sobretudo entre quem recusa «não ocidentais», um sírio de um iraniano, um libanês ou uma paquistanês? Nem sequer de um turco[2]

A hipótese de que é «é a pré-disposição a aceitar refugiados que se traduz num maior acolhimento dos mesmos» implica que os refugiados saibam onde são mais bem recebidos ou então que decidam fixar-se aqui ou ali por metodologia de tentativa e erro: experimentamos aqui, não gostam de nós, vamos para outro lado. É possível. Ou também pode significar, se pensarmos em termos de legislação e da qualidade do acolhimento, que sabem onde existe legislação mais ou menos favorável ao seu acolhimento – e, neste caso, há uma correspondência entre a perspetiva do legislador e a opinião do cidadão, o que é sinal de bom estado de saúde da democracia na Europa. Tendo em conta estes aspetos, não encontro nada que impeça a inversão da causalidade – nem nada que a prove. Não deixa de ser curioso, por exemplo, que na Dinamarca, que tem leis muito restritas de imigração e acolhimento de refugiados [3], haja uma perceção positiva dos refugiados e apoio expresso dos cidadãos ao seu acolhimento.

Numa questão tão complexa, entram seguramente em jogo outros fatores que levam os estrangeiros a fixar-se num determinado lugar e os fazem ser mais bem aceites num sítio que noutro. O primeiro que nos vem à mente é, claro está, a economia. É evidente que as boas perspetivas económicas atraem os chamados «imigrantes económicos» e não é impossível que isso tenha uma influência indireta sobre as movimentações de refugiados, porque a existência, à partida, de compatriotas ou comunidades culturalmente semelhantes é sempre um fator de escolha do destino de todos os migrantes, refugiados ou não. Outra influência que a situação económica do país tem sobre o número e a perceção dos «não orientais» é que uma população mais rica, no país de destino, não sente a mesma pressão para defender os seus escassos recursos, tentando impedir o acesso de forasteiros a esses recursos. Este último fator é muitas vezes convocado para explicar a subida da extrema direita antiemigrantes em zonas empobrecidas e com altos níveis de desemprego, algumas delas tradicionais feudos dos partidos de esquerda. Os números dos relatórios parecem confirmar a relação entre perceção da economia e dos refugiados: quem vê a sua economia como boa, tende a ter uma atitude mais positiva dos emigrantes e a defender que seja dado apoio aos refugiados. Há, porém exceções, como o caso de Portugal, com uma perceção negativa da economia e positiva de emigrantes e refugiados, ou da República Checa, com perceções opostas às portuguesas.

Passemos da Europa comunitária a um país específico (usarei, por facilidade o exemplo da Dinamarca), para ver se o nível local nos ajuda a confirmar ou a questionar algumas das possibilidades acima delineadas.

Bom, a questão da legislação e da qualidade do apoio a refugiados é irrelevante a nível nacional, porque é igual em todo o país. Mas também nunca ouvi falar (e duvido mesmo muito) de que tenha havido tentativas frustradas e retificadas de fixação de grandes quantidades de estrangeiros nas zonas onde as pessoas menos o querem. Mas continua a ser possível que eles tenham já a à partida a informação de que têm ali terreno hostil.

Ao nível nacional, não parece haver relação direta entre rendimento e perceção dos refugiados. Se é certo que, dos exemplos que dei atrás, Frederikshavn é uma zona pobre e Copenhaga uma zona rica, já Aabenraa é também uma zona das mais ricas do país, com uma perceção negativa dos «não ocidentais», a julgar pelo sucesso da extrema direita. Vejler e Sønderbog, das regiões mais ricas do país, têm também das votações mais elevadas no Partido Popular, mais do dobro de Rudersdal e Horsholm, as regiões mais pobres da Dinamarca.

Outro fator importante que nos vem de imediato à mente quando analisamos a questão a nível intranacional é a oposição campo/província vs metrópole. Compreende-se que os «não ocidentais» prefiram as grandes cidades, porque no geral aí há, de facto, mais possibilidades de refazer a sua vida e parece certo que as pessoas das cidades têm uma mentalidade mais aberta e estão mais habituadas a lidar com o diferente e a incorporá-lo. Esta distinção entre uma mentalidade rural/provinciana e a uma mentalidade urbana/metropolitana, nalguns casos cosmopolita, é, substituindo apenas país por localidade, a distinção que Nuno Serra faz entre países com uma atitude positiva ou negativa face aos refugiados: quanto menos os habitantes de um lugar se relacionam com forasteiros, maior tendência têm a ter medo deles.

A minha mulher lembrava-me, quando ontem discuti com ela algumas ideias deste texto, que, quando fala com as pessoas conhecidas de Frederikshavn (ela é de lá) que não querem lá imigrantes, todas se apressam a acrescentar que não é aquele turco da mercearia da esquina nem o barbeiro libanês, que por acaso até são excelentes pessoas. São os muçulmanos dos guetos de Copenhaga que constituem o problema, é por causa deles que votam no Partido Popular. A diferença entre os primeiros e os segundos é que esses pessoas conhecem os estrangeiros locais e não fazem ideia, a não ser por meio de boatos e propaganda antiemigrante, de quem sejam de facto os muçulmanos de longe. A afirmação da minha mulher é, aliás, banal: toda a gente sabe que as pessoas que descriminam algum grupo poupam sempre a essa discriminação um ou outro membro desse grupo, que conhecem e até são, por acaso, umas joias de pessoas.

Haverá, com certeza, várias razões que se interligam e que podem variar de país para país para os seus cidadãos terem uma perceção mais ou menos negativa dos estrangeiros, e principalmente dos «não ocidentais»; mas, seja ou não a principal causa dessa perceção, o isolamento e o desconhecimento do Outro não podem senão ser – sempre foram – um fator importante na rejeição desse Outro. O medo é mesmo, como diz Nuno Serra, um país distante.

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[1] A perceção de chineses e vietnamitas é, com certeza muito diferente, da dos outros asiáticos, já que muitas vezes que se considera, com ou sem razão, que, fora das suas relações comerciais com os locais, se mantêm «invisíveis», vivendo uma vida completamente à parte.

[2] Vi algumas vezes iranianos furiosos por os referirem como árabes – e, assentemos, com mais razão que a que leva um português a enfurecer-se quando confundem Portugal com Espanha; e vi «não ocidentais» ateístas como eu a reagir mal a chamarem-lhes muçulmanos, como eu reajo mal a quem parta do princípio que sou católico porque sou português. Mas isso é outra conversa…

[3] Algumas destas medidas restritivas à imigração e acolhimento de refugiados têm sido muito criticadas internacionalmente. Devem-se, por um lado, à influência do Partido Popular, a quem vários governos tiveram de fazer cedências para conseguir maioria parlamentar; e, por outro, à necessidade que outros partidos têm sentido de tentar satisfazer uma grande parte do eleitorado para quem esta questão é importante. O debate sobra a imigração tem tido sido desproporcionado relativamente à dimensão real da mesma.

7 de abril de 2018

O comboio das cinco e um quarto

Autor não identificado (6 anos de idade), daqui
As crianças continuam a desenhar casas assim, por muito que vivam em casas muito diferentes e nem sequer tenham tido muito contacto com casas deste tipo. Muito provavelmente, algumas crianças nunca viram uma casa como as que desenham*. A verdade é que, normalmente, não se aprende a desenhar como base no mundo real, mas sim em desenhos.

O mesmo se pode dizer da canção. O que justifica a repetição de versos, motivos, imagens e nomes ao longo do tempo é que, ao criar uma canção nova, quem a escreve não se baseia apenas no vivido ou no observado – mas muito também em canções anteriores. Não há forma artística sem história, claro, e a história de qualquer forma tem sempre duas componentes distintas que se ajustam permanentemente: uma canção inscreve-se sempre numa determinada época, num determinado contexto histórico, em sentido lato; mas inscreve-se também numa linhagem, por assim dizer: na história de um tema ou motivo, na história de um género – e na história da canção, enfim.

A primeira canção chamada “5:15” que ouvi foi a do Quadrophenia, dos The Who (1973). É claro, nunca me passou pela cabeça que estivesse perante um motivo recorrente da música popular. Nem sequer pensei no assunto, mas, se tivesse pensado, teria provavelmente concluído que Pete Townshend tinha escolhido o comboio das cinco e um quarto, porque lhe dava jeito para rimar – ou até porque tinha apanhado muitas vezes um comboio a essa hora, qualquer coisa assim...



Quando conheci a canção “5:15” de Chris Isaak, porém, comecei a suspeitar de que o mesmo título nas duas canções era capaz de ser mais do que apenas coincidência.



Uma busca rápida revelou-me que há mais uns quantos “5:15”, uns mais conhecidos que outros, e um até instrumental**. Não diria que é um motivo muito recorrente. Aliás, nem motivo chega a ser, é só uma designação de um comboio disponível no universo da canção popular de língua inglesa, que foi usado em canções de motivos e temáticas várias.

A canção mais antiga que encontrei que alude ao comboio das 5:15 (não me atrevo a dizer que seja a primeira) é de Stanley Murphy e Henry Marshall e foi composta por volta de 1915. A Wikipedia diz  que é «uma sátira do sistema de comboios suburbanos e do ritmo rápido da vida "moderna" nas grandes cidades, uma situação já perfeitamente estabelecida na altura da Primeira Guerra Mundial».



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Rato Michey adaptado do cartaz de Get a Horse! (2013);
foto de rato daqui
* A questão é muito interessante, mas não a desenvolverei agora aqui. Da mesma forma, uma criança aprende a reconhecer – e talvez a produzir – como rato ou cão figuras que pouco têm a ver com os animais representados, animais esses que pode até nunca ter visto.

** Também há várias canções chamadas 5:15 que não têm nada a ver com comboios, referem apenas uma hora. E é provável que haja mais referências ao comboio das cinco e um quarto na letra de canções que não incluem 5:15 no título, mas isso é mais difícil de pesquisar.


31 de março de 2018

Um Buda sorridente

Diz-me uma página do site da Televisão da Índia que a estátua do «Buda sorridente brincando com crianças (normalmente cinco)» «simboliza boa fortuna vinda dos céus. Também dá sorte e energias positivas» e que, estando o Buda sentado, essa postura «é considerada a postura do amor e simboliza equilíbrio no pensamento e tranquilidade».

Seguem-se uma série de instruções sobre onde e como pôr ou não pôr o Buda, de que destaco apenas que «pôr o Buda nos escritórios dá clareza à mente, reduz tensões e elimina o efeito dos inimigos». É no escritório que tenho há coisa de um mês o meu Buda sorridente com cinco crianças. Não me preocupam muito os inimigos, mas padeço amiúde de falta de clareza mental e de excesso de tensão. Infelizmente, não acredito que o meu Buda me cure desses males. Se o tenho aqui no escritório é por outra razão muito diferente: irremediável nostalgia.

Em miúdo, só muito tarde tive o meu próprio quarto. Não me lembro exatamente até que idade, mas sei que dormi muitos anos no quarto da minha avó. Na mesinha de cabeceira do lado esquerdo da cama, havia um candeeiro permanentemente coberto por um lenço de seda das Canárias com um mapa em cores garridas. No psiché (que a minha avó pronunciava pchiché, com uma muito desculpável assimilação do s pelo ch), havia um Buda anafado e sorridente, com cinco miúdos espalhados pelos ombros e pelo regaço. Durante muito tempo, pensei que fossem as mulheres do Buda, porque era isso que a minha avó me dizia: era o Buda com as suas mulheres, porque ele tinha muitas mulheres. Estas duas peças de decoração tinham em comum uma característica que lhes conferia uma magia especial: vinham as duas de bordo. «Foi o teu padrinho que mas deu, são coisas boas, vieram de bordo.»

Todos conhecem a madalena de Proust; ficam agora a conhecer a minha estatueta do Buda sorridente. Entrei numa loja de coisas em segunda mão, vi a estátua e dei comigo, de repente, na penumbra do quarto da minha avó, as formas difusas do mapa de Tenerife projetadas no teto manchado de humidade e o Buda a sorrir-me de cima do psiché. Tive de comprar a estatueta. Custou-me 100 coroas. Não é bem igual à da minha avó. É pintada com menos pormenor, menos bonita. Mas é uma máquina do tempo tão eficaz como a madalena de Proust.

Visito agora muitas vezes o meu quarto de criança. Era húmido e frio, e, apesar disso, acolhedor. A minha avó morreu há quase 20 anos. Disse-me muitas vezes, nos últimos anos de vida, que não me devia assustar se me aparecesse depois de morta, era só para estar um bocadinho ao pé de mim, que havia de ter saudades minhas no outro mundo. Revejo-a muitas vezes, e mais ainda agora que tenho ali o buda sorridente. Tem um bibe velho por cima da camisola de lã e expressões de outro tempo, que já ninguém usa: «São coisas boas, vieram de bordo.» A minha querida avó.

Plus à peindre qu’à blâmer

Suzy Polidor por Man Ray, 1929
Quando mostrei à minha mulher uma foto da cantora e atriz francesa Suzy Solidor e lhe disse que era uma das pessoas de quem tinham sido pintados mais retratos, ela respondeu-me que achava natural:

«Compreende-se bem porquê, tem uma beleza fascinante».

Muitos não concordarão. É sempre assim, nas questões de beleza e, sobretudo, quando se avalia uma beleza pouco canónica, como a de Suzy Solidor. Mas houve mais quem tivesse a opinião da minha mulher, pelos vistos – segundo Marie-Hélène Carbonel, sua biógrafa, existem 220 retratos de Suzy Solidor, muitos deles de artistas famosos. Retrataram-na Francis Bacon, Georges Braque, Yves Brayer, Jean-Dominique Van Caulaert, Jean Cocteau, Jean-Gabriel Domergue, Kees van Dongen, Raoul Dufy, Léonard Foujita, Arthur Greuell, Marie Laurencin, Tamara de Lempicka, Francis Picabia, Pablo Picasso, Man Ray e Maurice de Vlaminck, entre dezenas de outros.

De cima para baixo: Suzy Polidor por Francis Bacon, 1957,
Jean Cocteau, 1937 e Francis Picabia, 2x, ambas 1933
« Je suis plus à peindre qu’à blâmer », terá ela dito. É uma frase bem achada. Para quem não fale francês: plus à plaindre qu’à blâmer é uma expressão francesa que se usa quando achamos que uma pessoa acusada de algum delito é, na verdade, uma vítima das circunstâncias, que merece mais compaixão que crítica. Plus à peindre qu’à blâmer é um jogo de palavras baseado nessa expressão: «Vale mais pintarem-me do que dizerem mal de mim», uma coisa assim.

Diz a Wikipédia em inglês que a única paga que Suzy Solidor pedia para posar era que lhe dessem depois um retrato, para ela pôr na parede do seu cabaré. Não encontro referência a esta exigência em nenhuma das várias minibiografias que li dela, mas é certo que foi colecionando retratos de si própria, quarenta dos quais doou, em 1973, à vila de Cagnes-sur-Mer e podem ser hoje apreciados no museu local (Château-Musée Grimaldi).

Da muito interessante vida de Suzy Solidor não vos falo aqui, não tenho nada a acrescentar às várias biografias que se encontram com facilidade na Internet (por exemplo aqui e aqui, e também aqui, acrescida de uma discografia); mas deixo-vos uma maravilhosa canção de 1933, “Obsession”, de Jean Rualten e Léo Laurent, como letra de Edmond Haraucourt.



Chaque femme je la veux
Des talons jusqu'aux cheveux
J'emprisonne dans mes vœux
Les inconnues

Sous leurs jupons empesés
Mes rêves inapaisés
Glissent de sournois baisers
Vers leur peau nue

Je déshabille leurs seins
Mes caresses par essaims
S'ébattent sur les coussins
De leurs poitrines

Je me vautre sur leurs flancs
Ivre du parfum troublant
Qui monte des ventres blancs
Vers mes narines

Douce, je promène ma main
Aux rondeurs du marbre humain
Et j'y cherche le chemin
Où vont mes lèvres

Ma langue en fouille les plis
Et sur les torses polis
Buvant les divins oublis
J'endors mes fièvres

O mais famoso retrato de Suzy Solidor é o de Tamara de Lempicka de 1933.
Segundo a Wikipedia em inglês, teria sido Suzy a pedir a Tamara que a pintasse,
ao que esta acedeu, na condição de a poder pintar nua. 






21 de março de 2018

Tentativa de dizer o que não muda

Um texto de outra pessoa, para variar. Raramente me apaixono por poemas, mas este foi um caso de amor à primeira vista. Aliás, gosto muito de tudo o que li de Naomi Shihab Nye, que é pouco, mas há de ser mais. Depois de decidir aqui pôr este texto, vi que hoje é Dia Mundial da Poesia. Nem de propósito, hem?
Tentativa de dizer o que não muda
Naomi Shihab Nye 
Roselva diz que a única coisa que não muda
são os carris dos comboios. Tem a certeza.
O comboio muda, e muda a erva que cresce dos lados
como aranhas, mas os carris não.
Há três anos que ando a observar uma linha de comboio, diz ela,
e não dobra, não parte, não cresce.
Peter não tem a certeza. Viu uma linha abandonada
perto de Sabinas, no México, e diz que uma linha sem comboio
já não é a mesma linha. O metal tinha perdido o brilho.
A madeira estava rachada e tinham desaparecido algumas travessas.
Às terças-feiras, em Morales Street,
cortam o pescoço a uma centena de galinhas.
A viúva da casa torta
tempera a sopa com canela.
Perguntem-lhe o que é que não muda.
As estrelas explodem.
A rosa encarquilha como se tivesse as pétalas a arder.
O gato que me conhecia está enterrado debaixo do arbusto.
O apito do comboio ainda tem o mesmo som doutras eras,
mas, de cada vez que se afasta assustado
das paredes do cérebro,
leva com ele uma coisa diferente.

in Words Under the Words: Selected Poems. Portland, Oregon: Far Corner Books, 1995, trad. minha. (O poema original em inglês)
Fotografia: Russell Lee, Setembro de 1940. Caminho de ferro abandonado para uma mina abandonada. San Juan County. Quando as minas fecharam, desapareceram povoações inteiras e as respetivas indústrias (“Colorado Abandoned railroad leading to abandoned mine. San Juan County, Colorado. When the mines moved out, whole towns and affiliated industries folded up”) (daqui


20 de março de 2018

Torresmos

Uma história de torresmos, verdadeira e muito instrutiva:

 Temos uns amigos que já nos vieram visitar várias vezes aqui à Dinamarca e que, simpáticos como são, nos trazem sempre alguma coisa de que acham que eu possa ter saudades. Da última vez, trouxeram uns pacotes de torresmos e, claro, ficaram um pouco dececionados quando os meus filhos lhes explicaram que é uma coisa que se come muito aqui, que há em todos os talhos e supermercados.

Torresmos são como socas e barretes, que também existem em toda a Europa (ou existiam, seja).* Podia, aliás, dizer-se que, em termos da chamada «cultura material», um europeu se pode (ou podia, seja...) caricaturar como uma pessoa de barrete e socas a comer torresmos. (Aqui entra um sorriso, claro.) Ouvi dizer que os croatas tentaram ficar com a patente dos torresmos (eles chamam-lhes čvarci**), mas não sei se é verdade, acho que é só uma história.

 __________

* Pode bem ser que existam também fora da Europa, não sei. Nunca vi nem socas, nem barretes nem torresmos na África nem na América que conheço, mas também só conheço uma parte muita pequena desses continentes. Quer dizer, já vi ilustrações de trajes tradicionais canadianos com barretes. E na América Latina há chicharrón, mas não é como os chicharrones espanhóis, que são exatamente como os nosso torresmos, às vezes prensados em blocos e tudo, como em Portugal. O chicharrón que eu conheço na América tem muita carne, é mais como os rillons franceses — é preciso alguma boa vontade para lhes chamar mesmo torresmos.
** Em sérvio é Чварци. As pessoas que misturam língua com ortografia, que acham de ter uma língua como o servo-croata que se pode escrever não com duas normas ortográficas, mas com dois alfabetos diferentes?

29 de janeiro de 2018

... Mas gosto dele assim...

«Sempre quis ter um homem bonito, espadaúdo, valente e elegante, mas estou apaixonada por um tipo que é o contrário disso tudo…» Não sei até que ponto se trata mesmo de um motivo recorrente da canção popular da primeira metade do século XX, mas conheço algumas canções com este tema. Eis duas delas: “Er heißt Waldemar” de Zarah Leander (1940) e “Tel qu’il est” de Fréhel (1938). E, se as apresento por esta ordem não cronológica, é porque tenho mais a dizer sobre a canção de Zarah Leander que sobre a canção de Fréhel.

Zarah Leander é uma das artistas que, por serem populares durante o nazismo, foram acusadas de ser nazis. Ela sempre o negou. Aliás, também foi acusada de ser espia russa e também o negou. Seja como for, quando uma pessoa ouve os primeiros versos da canção, em que a voz feminina da canção deixa claro que o seu ideal masculino é um louro, destemido e forte, que se chame Ralf ou Per, fica-se à espera de que se siga o louvor nazi do ariano puro. Mas não, nada disso: segue-se de imediato a explicação de que o homem por quem ela está apaixonada não é nem Ralf nem Per, mas sim o Waldemar, um berlinense de cabelo preto, pobretana e que não é propriamente nenhuma estrela de cinema… Se se souber que a letra da canção foi escrita por Bruno Balz, que foi várias vezes preso pelos nazis por homossexualidade e que esteve até proibido de usar o nome como autor, pode pensar-se que, afinal, é antes uma canção a fazer pouco do ideal ariano. Os nazis, porém, não o entenderam assim — pelo menos, a canção não foi censurada.

E é possível que não seja mesmo essa a ideia de Balz, não sei... Talvez tenha querido fazer apenas uma variação sobre o tal motivo que refiro no início deste texto. Dois anos antes, Fréhel, tinha cantado um tango em que dizia quase a mesma coisa, mas de maneira bem mais divertida.



17 de janeiro de 2018

Cor de burro quando foge, vinho a martelo e… o pau da gávea das caravelas

Uma coisa que parece agora estar na moda é arranjar novas explicações, tão complicadas como falsas, quando não completamente disparatadas, para expressões cuja origem não é óbvia para a maior parte das pessoas.

Há, por exemplo, quem afirme que a expressão cor de burro quando foge tem origem em corro de burro quando foge (ver aqui um exemplo de um desses artigos que não diz nada que se aproveite).
Burro muda de cor quando foge??? Qual cor ele fica??? Porque ele muda de cor??? Eu queria porque queria ver um burro fugindo para ver a cor dele! Sério! O correto é: ‘Corro de burro quando foge!
Não faz grande sentido e, de facto, confunde mais do que explica seja lá o que for. Em que contexto pode «corro de burro quando foge» – frase estranhíssima, aliás – evoluir para passar a designar uma cor indefinida? Ora, francamente…

Uma hipótese menos disparatada é que, como burro pode ter designado uma cor apenas, antes de ter começado a designar o animal, a expressão derive de uma cor de burro antiga, a que se tenha acrescentado quando foge com intenções humorística, quando burro já não era senão o nome do bicho (vejam aqui). Mas é uma discussão muito especulativa, e, sobretudo, passa ao lado de um facto simples que não se pode ignorar em nenhuma proposta de explicação da expressão: tanto em castelhano como em italiano existe a expressão «cor de cão que foge», com o mesmo significado –respetivamente color perro que huye e colore del cano che fugge. Ora não me parece que perro ou cane alguma vez tenha sido, nestas línguas, nome de cor. A partir de que língua se difunde a expressão ou se vão as três buscá-la a outra língua, eis o que haveria que descobrir...

Interlúdio musical:

Outra explicação delirante do mesmo tipo é uma que há da expressão vinho a martelo, por exemplo aqui:
A expressão remonta ao século XX quando o Engenheiro Simão de Martel descreveu os dados estatísticos oficiais da produção de vinho como muito enganadores. 
Eu sei bem que estas explicações «etimológicas» são sedutoras e, como até podem parecer lógicas à primeira vista, é fácil aceitá-las. Mas eu sou um chato. Para já, quando leio «A expressão remonta ao século XX» fico logo com uma ideia clara do rigor do que segue. Num texto escrito em 2014, dizer que a expressão «remonta ao século XX» é um bocado disparate, para não dizer mais. Mas adiante…
A questão que me surge de imediato é que o facto de Simão de Martel ter criticado as estatísticas da produção de vinho (penso que isto se refere a um estudo dele de 1911 que é muito citado, mas não tenho a certeza) não explica em nada a expressão. Começa por ser «a Martel»? Com que lógica se usa aquela preposição? Mais uma vez, não faz grande sentido.

Ora, na realidade a expressão é anterior a Simão de Martel. Para dar um exemplo apenas, vejam aqui que, em 1885, tinha Simão de Martel 6 anos de idade, já se falava de vinho a martelo, não só em Portugal, mas também no Brasil:
Os vinhos continuam a dar que fallar de si. Uns querem que elle só seja extrahido das uvas. Outros, porém, contentam-se de que elle seja feito—a martello.  
A verdade é que não é preciso ir buscar explicações esotéricas. Infelizmente, não tenho à mão dicionários com datações de primeiras ocorrências, mas a expressão a martelo deve ser bem mais antiga. Parece-me claro que significa inicialmente «à força; à bruta» e o significado alarga-se facilmente para «mal feito, feito de qualquer maneira» e daí para «contrafeito». Como o explica, aliás, Gonçálvez Viana nas suas Apostilas aos Dicionários Portugueses, de 1906:
martelo, marteleiro
— «O paiz está cheio de mixórdias, abarrotado de vinho a martello... Sabem os poderes publicos, porque conhecem e convivem com os marteleiros» — O sentido de vinho a martelo é evidente; quere dizer «vinho aldrabado», e a locução a martelo pertencia à língua comum, querendo dizer «à fôrça», «sem dever ser».
Muita fortuna tem também tido uma explicação completamente disparatada da expressão mandar/ir para o caralho. Sobre essa, não preciso de escrever nada eu, basta-me citar a Wikipédia, que, numa nota de rodapé à discussão etimológica da palavra, a desmonta bem:
Às [as várias etimologias propostas] (…) acrescentou[-se] muito recentemente uma lenda urbana em circulação na Internet que, tanto em português como em castelhano, alega que caralho ou carajo era o nome dado ao pau maior da cesta ou gávea das antigas caravelas, e que seria essa a origem desta designação de caralho para o membro viril masculino. Tudo parece indicar que a lenda nasceu de uma tentativa de explicação para as frases "¡Vete al carajo!" ou "Vai para o caralho!", que supostamente se refiririam [sic] ao castigo que recebiam alguns marinheiros a quem se obrigava a subir à gávea, onde estavam os vigias, e aí permanecer algum tempo. O uso do termo caralho está documentado, no entanto, em épocas muito anteriores à das caravelas portuguesas ou castelhanas, pelo que se a gávea alguma vez teve esse nome era, como no caso do carall bernat catalão, por metáfora ou exagero de semelhança entre o caralho e o pau maior onde encaixava essa cesta, que seria a ponta do caralho.
É caso de dizer que apetece pôr de castigo na gávea quem, inventa e difunde estas – e muitas outras – patranhas…

15 de janeiro de 2018

Dançar, bolçar, axandrar

[Este texto é mesmo só para quem gosta de coisas de língua. Para a maior parte das pessoas, é provavelmente uma grande seca. Quem vos avisa, vosso amigo é.]

Diz Ana Luísa Alves no ESCS Magazine que «[u]ma das particularidades da poesia de Sophia [de Mello Breyner Andresen] é a maneira simples como esta escreve a palavra dança: dansa. Com “s” porque, nas suas palavras, “tem muito mais movimento que um ‘ç’”. (…)
Tudo me é uma dansa em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real. (…)»
Consultando-se apenas um dicionário de português (o Porto Editora, por exemplo, aqui e aqui) pode pensar-se que Sophia de Mello Breyner Andresen tem razão em escrever assim. Desde que, em quase todas as variantes do português, deixámos de fazer a diferença entre os sons que correspondiam antigamente a s e a ç ou a x e a ch1, o que justifica uma ou outra grafia é apenas a etimologia. Então, se dança e dançar vêm do francês danse e danser, porque não escrever-se dansa e dansar? A questão é complicada. Não sei a data de importação da palavra e se foi importada diretamente ou por intermédio de outra língua; mas, antes de serem danse e danser, as palavras francesas foram dance e dancier (e também dancer e dauncer) e encontra-se o equivalente ao ç em muitas línguas, do inglês dance ao alemão tanzen e ao italiano danzare. Nas línguas ibéricas, que conservaram, algumas delas a distinção de pronúncia entre s e c/z, também não é s que se usa: é danciar em asturiano, danzar em galego e castelhano.  A grafia dançar em português é antiga e parece justificada, mesmo que o ç não lhe dê o movimento ondulatório que o s lhe dá…

Há casos em que isto não é tão claro. Quando se dicionariza uma palavra, nem sempre se tem uma hipótese sobre a sua origem, e a escolha de s ou ç, x ou ch pode ser perfeitamente fortuita. Eis dois casos que investiguei recentemente, a pedido de amigos.

Bolçar
Muita gente se surpreende com a grafia de bolçar2. Os dicionários seguem o mais famoso etimologista português, José Pedro Machado, justificando o ç com um étimo latino *vomitiare (este asterisco significa que a palavra se supõe ter existido, mas que nunca foi atestada). Mas as formas antigas registadas pelos filólogos têm todas s (bomssar, bonssar, boomsar, bõssar), numa altura em que precisamente s e ç correspondiam a dois sons distintos. E é de notar também que não tem sempre havido completo acordo dos dicionaristas relativamente à grafia e etimologia –  o dicionário Lello de 1931, por exemplo, regista bolsar e a etimologia proposta é o latim versare. Ora regista-se em castelhano uma forma antiga bosar, não *bozar (o z castelhano é o que corresponde ao ç português), que também pode querer dizer «vomitar» e para a qual o Dicionário da Real Academia propõe como étimo o latim vorsāre ou versāre, «mexer, revolver, dar volta, …»  A mais antiga atestação que encontrei da forma bolçar é de 1836 (data referida no Houaiss) e creio, pois, que há boas razões para considerar bolçar uma in(o)vação ortográfica oitocentista, que nem sequer decorre, provavelmente, de nenhuma proposta etimológica, já que a proposta da etimologia *vomitiare é posterior e parece ser antes uma maneira de justificar essa grafia.

Joan Coromines é da mesma opinião que eu relativamente ao ç. No seu Diccionario crítico etimológico castellano e hispánico, na discussão de rebosar, diz Coromines sobre outra pretensa origem de bolçar, *voltiare (que me parece, apesar de tudo, proposta mais lógica que *vomitiare):
«La grafía bolçar (…) carece totalmente de valor, por ser reciente y sólo portuguesa. La generalidad de la ss en cast. y port. antiguos obliga a desechar esta etimología sin vacilaciones.» Esta e *vomitiare, pelas mesmíssimas razões3.

Axandar
O Porto Editora regista a grafia axandrar para o verbo que classifica como transitivo e popular, e que define como «acalmar forçadamente». Muito provavelmente, quem dicionarizou o termo com aquela grafia não tem nenhuma proposta sobre a sua história que justifique o x; é, quase de certeza, uma grafia fortuita.  Mas haverá alguma boa razão para optar por x ou por ch? Talvez… Pelas razões que passo a explicar, penso que é achantrar que se devia escrever (e, por isso, escrevo com ch neste texto). Antes de explicar porquê, porém, quero referir de passagem duas questões que não se relacionam diretamente com a grafia do som [ʃ],

A primeira diz respeito à forma da palavra. A minha impressão é que achandrar-se é uma forma recente. A expressão que sempre ouvi desde miúdo foi achantrar-se, não achandrar-se. Uma discussão alargada no Facebook4 confirma esta impressão: as pessoas da minha geração ou mais velhas usam a forma com /t/5. Tratando-se de um termo de calão pouco dicionarizado (não o encontrei noutros dicionários), uma busca na Internet mostra que, como seria de esperar, que tanto a grafia como a forma da palavra são instáveis: alternam as formas com t (achantrar, axantrar) e com d (achandrar, axandrar). Em princípio, a postura conservadora que, na dicionarização,  preside normalmente à escolha de uma das formas em uso (neste caso, não se pode falar propriamente de norma culta) deveria levar, eem princípio, a preferir-se a forma com /t/.

Em segundo lugar, há a questão da classificação do verbo como intransitivo e o seu significado. Nunca na minha vida ouvi o verbo usado nem transitiva nem intransitivamente. Para mim, achantrar-se é um verbo exclusivamente reflexivo. Além disso, parece-me que o significado registado no Porto Editora é distorcido (porquê «forçadamente»?) e bastante incompleto. O achantrar-se que eu conheço tem dois significados básicos distintos: 1) acalmar-se, baixar a bola; e 2) orientar-se, fazer pela vida, decorrendo também deste último achantrar-se a qualquer coisa = fazer-se a qualquer coisa ou apoderar-se de qualquer coisa. Constatei que outras pessoas têm exatamente o mesmo entendimento da palavra.

Mas passemos à questão da etimologia e grafia. A minha primeira reação, quando me consultaram sobre o tema, foi fazer uma pesquisa em castelhano6. Não encontrei a palavra, mas encontrei uma palavra muito semelhante, achantar, que significa o mesmo. Não pode ser coincidência. Ainda por cima, vi na citada discussão do Facebook, que uma pessoa «comentou a conversa q provocou este post com uma colega q tem 61 anos e ela disse-lhe que (…) “antigamente” se dizia achantar». A etimologia de achantar é clara7: do latim plantare, com uma evolução standard em galego e português. Mas como se chega de achantar a achantrar? Pois, não tenho uma resposta clara... A aceção 2 de achantrar relaciona-se facilmente com chantra, um termo depreciativo exclusivamente para as mulheres, que, se não quer dizer mesmo prostituta, quer dizer uma mulher que seduz para obter proveitos materiais. É possível que este seja o achantrar original e achantar tenha sido contaminado por ele8. Numa situação como «pronto, o gajo já se achantrou», podem confundir-se o ter-se orientado com o ter-se acalmado… Mas isto é tudo pura especulação.


P. S.:  Não tem nada a ver com ss e xx, mas só mais uma coisa – não faria mais sentido escrever culher que colher? É que culher mata dois coelhos de uma só cajadada: fica mais próximo do étimo imediato, cuillère9, e inscreve-se naturalmente num miniparadigma de palavras terminadas em /ér/ com u na sílaba anterior: mulher, puser e puder – que se opõe a outro de palavras terminadas em /êr/ com o na sílaba anterior (são muitas…). Puder opõe-se a poder como colh[é]r se opõe a colh[ê]r.


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1 Explico estas diferenças noutro texto deste blogue.
2 Uma discussão completa da questão seria demasiado maçuda para a quase totalidade dos leitores do blogue, pelo que resolvi não a incluir aqui. Não que esta versão reduzida não seja também chata para muita gente, mas enfim…. Agora, o que falta fazer é ver como pronunciam a palavra as pessoas que ainda distinguem ç de s. Estou um bocadinho longe de Trás-os-Montes e Beira Alta, mas talvez algum dos meus leitores se queira dar a esse trabalho….
3 Agradeço a Luís Pinto a informação sobre o dicionário Lello e o artigo de Coromines e a Helena Bastos a informação sobre a entrada do Hoauiss. Corominas não tem certezas definitivas quanto à origem de rebosar, mas parece-lhe que o mais lógico é que de versare se tenha feito reversare, que deu rebo(r)sar, donde se formou depois bo(l)sar. Parece-me uma proposta mais sensata que a de José Pedro Machado, mas não explica nem a nasalação do o (bomssar, bonssar, bõssar) nem o hiato dos oo (boomsar), nas formas medievais atestadas.
4 A discussão, que prolongava uma conversa noutro lugar, foi lançada por Shyznogoud no Facebook. Evidentemente, uma conversa destas, por muito participada que seja, tem o valor que tem… Mas serve para dar alguns indícios sobre (a variação n)o uso da palavra.
5 Pode haver, é claro, variação dialetal e socioletal. No entanto, constatei que uma pessoa da zona do Porto e sensivelmente da minha idade diz como eu e reconhece à palavra exatamente os mesmos significados que eu, criado no calão lisboeta. O calão é menos regional do que muitas vezes se pensa e este termo parece ser usado em todo o país. Aliás, o facto de muitas palavras de calão português existirem também em castelhano, ou em variantes do castelhano, indica precisamente esse caráter não dialetal do calão.
6 O calão português partilha com o calão espanhol vários termos, nomeadamente os oriundos do caló  (que dá a palavra calão, aliás) e tem também vários termos em comum com o lunfardo rioplatense. Procurei, no dicionário da Real Academia e em vários dicionários de lunfardo em linha, todas as variantes plausíveis em castelhano,com ch (*achantrar, *achentrar, *achandrar, ªachandrar) e com j (*ajandrar, *ajendrar, *ajantrar, *ajentrar), que corresponderiam ao x, se este se justificasse etimologicamente. (Quero acrescentar, a propósito da forma com -en-, que se regista também achentrar-se em Portugal, embora provavelmente seja uma forma bastante marginal.) Finalmente, por descargo de consciência, procurei também em dicionários de calão francês, mas em vão.
7 Agradeço a Rui Tavares este link. Rui Tavares notou também que a palavra tem, pois, a mesma origem que o termo meridional português prantar, com o qual se pode ver também uma relação semântica.
8 A questão é, agora, a origem de chantra. Também é possível que se o possa relacionar com o calão castelhano. Um termo da gíria do Cone Sul é chanta, comum de dois, que significa «intruja; vigarista; alguém que vende gato por lebre» e que, portanto, se relaciona facilmente com chantra em português. Uma etimologia proposta é o italiano ciancia, «burla; mentira», mas também é possível relacionar a palavra com chantagem e chantagear, do francês chantage, de faire chanter, «chantagear» (literalmente «fazer cantar»). Não deixa de ser curioso que haja quem veja na origem do termo chanta o já referido (a)chantar: «La palabra chantar se utilizaba en sus inicios para reemplazar la frase "dejar plantado a alguien"». Ou seja, é possível que os dois significados do nosso achantrar atual estejam ligados entre si e a este chanta, o que nos deixa com uma questão de ovo e galinha. Quero notar que, a haver relação com as formas castelhanas, não faço ideia de como se pode explicar a epêntese do r das formas portuguesas…
9 Muito provavelmente, a palavra escrevia-se já com u – que refletia e reflete a pronúncia – quando foi importada, embora se tivesse efetivamente escrito (e pronunciado) com o. A ideia da grafia com o é, muito provavelmente, dar conta da etimologia última da palavra francesa importada, o latim cochlear(e)-.



14 de janeiro de 2018

Gavrock

Gavrock é uma palavra que eu inventei, uma amálgama de gavroche e rock – uma coisa entre, digamos, Aristide Bruant  e Ian Dury.

Há muitos anos, sonhei (literalmente – foi coisa que vi num sonho) que havia de ter uma tatuagem com esta figura, mas acabei por nunca a mandar fazer. A semana passada, a minha filha mais nova disse-me que quer ter uma tatuagem quando «tiver idade para isso» (!). Contei-lhe a história do sonho e expliquei-lhe como era a imagem sonhada, e ela achou que uma tatuagem assim havia de ser bonita. Decidi fazer o desenho, para ela ficar com uma ideia mais clara o que eu imaginara. Ela gostou muito e disse que estava decidido: um dia terá ela a tatuagem que o seu pai nunca chegou a ter.