4 de agosto de 2015

O passado é uma reserva de sonho [Crónicas de Svendborg #23]

Gary Snyder tem um poema chamado “Earth verse”*, que traduzo por “Estrofe da Terra”, mas é uma tradução sem grande convicção. Traduzo com a mesma falta de convicção o significado dos versos, ou alguns dos seus possíveis significados, só para quem não os consiga ler no inglês original. Tinha primeiro traduzido enough por «que chegue». Depois optei por «suficientemente», mas nenhuma das soluções me agrada, sobretudo em termos rítmicos e visuais. Paciência.
Wide enough to keep you looking
Open enough to keep you moving
Dry enough to keep you honest
Prickly enough to make you tough
Green enough to go on living
Old enough to give you dreams
Suficientemente grande para continuares à procura
Suficientemente aberta para não parares
Suficientemente seca para continuares a ser honesto
Suficientemente espinhosa para te endurecer
Suficientemente verde para continuar a viver
Suficientemente velha para te fazer sonhar 
O poema não tem nada de especial. Dos seis versos, aliás, há quatro que, sem serem feios, são semanticamente banais. Mas depois há um que é surpreendente, como devem ser os versos dos poemas: aquele que diz que a Terra é suficientemente seca para continuarmos a ser honestos. Como se deriva honestidade de secura? E há outro que diz muito bem uma verdade fundamental, pelo que também deve ser elogiado: a idade de coisas, seres e lugares, a constatação simples do tempo passado, é sempre causa de sonho, não é?

No domingo, fui visitar Skarø. A ilha, que é habitada desde o séc. XIII, tinha em 1903 cerca de 200 habitantes, que viviam da agricultura e da pesca. Agora, tem menos de 40. Mas tem turistas, que antigamente não tinha. Tem uma capela e deve ter tido escola, quase de certeza. Alguma vez terá tido médico? Uma parte da terra é salgada demais para cultivar. Havia vacas, com certeza. Veem-se campos de aveia. Que mais cultivariam? Como seria viver num espaço tão limitado e numa comunidade tão pequena, não encontrar senão gente conhecida? Invernos húmidos e frios, haviam de ser, naquelas casas provavelmente mal aquecidas. Divisões pequeninas das casas, roupas pesadas. Aos olhos de uma pessoa do Sul, Skarø não parece fundamentalmente diferente do resto do Norte. É um ambiente, uma sensação, algo que não sei bem explicar. E o devaneio de perscrutar o passado é exatamente o mesmo em Skarø ou noutro lado qualquer. Acho que é disso que se fala quando se fala de fantasmas. Todos os sítios estão cheios deles. Numa semipresença apenas adivinhada, coexistem com o nosso tempo os outros tempos todos. Skarø é só um exemplo.

Falei com a Karen da frase de Snyder, old enough to give you dreams, e deste entressonho em que se tenta escrutinar o passado. Quando cheguei a casa e decidi escrever um pequeno texto sobre isso, encontrei no computador uma nota de fevereiro de 2013, creio que uma ideia para um poema:
o passado
é uma reserva de sonho
dormido ou desperto
Não me lembro bem do que queria dizer com isto, mas parece tratar-se, pelo menos em parte, da mesma ideia.


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* Mountains and rivers without end. Berkeley: Counterpoint, 1996

31 de julho de 2015

Reforma e acordo: a parte não ortográfica

Como já aqui disse algumas vezes, se não sou detrator do AO90, também não sou propriamente seu defensor – embora na prática o tenha sido muitas vezes, como outras pessoas, por reação a muitos ataques sem fundamento que são feitos à nova ortografia. Adotei-o há já algum tempo, por ser a grafia oficial. Já antes escrevia com a grafia oficial, de que também não era detrator nem defensor, pelo que, a esse respeito, não se alterou nada.

A minha experiência é que, ao contrário do que muitos afirmam (sobretudo quem não mudou), não é mesmo nada difícil mudar para as novas regras. Aliás, escrevo todos os dias com a nova grafia e com a grafia anterior ao acordo, porque escrevo muitos textos para Moçambique; e mesmo isso, saltar de uma grafia para a outra, não cria complicações nenhumas. Pode haver um engano de vez em quando, mas isso há sempre, use-se que grafia se usar.

Como também já aqui disse, não vejo que o AO90 tenha introduzido na escrita do português alguma incoerência que não existisse já[1] e acho que, nalguns aspetos, contribuiu para se avançar no espírito inicial – e fundamental! – da reforma ortográfica de 1911: abandonar a lógica essencialmente etimológica para passar a uma lógica essencialmente fonológica[2].

Uma parte das críticas ao AO90 diz respeito a aspetos não ortográficos. Já vi essas críticas isoladas[3] e são de facto questões completamente distintas das levantadas pela reforma ortográfica. É também útil, por uma questão de organização da discussão, distinguir reforma ortográfica de acordo de unificação da ortografia nos países de língua oficial portuguesa. Uma pessoa pode, em última análise, não ter nada contra as alterações introduzidas na ortografia, mas discordar da necessidade da reforma ou de acordo (ou, numa versão fraca deste desacordo, da sua oportunidade), achar que o processo foi pouco democrático, que a mudança é demasiado onerosa, a todos os níveis, que o acordo acaba por não alcançar os objetivos que se propunha alcançar, que um dos seus resultados é a proliferação de grafias oficiais (três em vez das duas que havia) e ter ainda outras objeções ao AO90 que eu não conheça ou de que me esteja agora a esquecer. Admito de bom grado a pertinência de algumas destas críticas e, embora nem sempre as possa avaliar devidamente, por falta de informação, passo em revista as objeções acima listadas.

Comecemos pela questão da necessidade e da oportunidade. Na realidade, uma reforma ortográfica nunca é necessária, se aceitarmos uma escrita tão opaca que se escreva Constantinopla e se pronuncie [ištãbul], como diz uma amiga minha. O inglês ou o francês, por exemplo, que têm uma grafia meio milénio atrasada em relação à língua, nunca tiveram problemas de maior por causa disso[4]. Por muito que isso não agrade a quem, como eu, prefira encontrar nas regras em geral, ortográficas ou não, um sistema o mais lógico possível, em vez da prevalência de uma tradição, a inércia ortográfica pode de facto defender-se[5]. Nem sequer é necessário, em última análise, definir normas ortográficas. Vivemos muito tempo sem isso, não foi[6]?

Que o acordo não é necessário, também o posso admitir: cada país podia continuar a ter a sua ortografia. Bom, é um pouco contra o espírito dos tempos, já que as outras línguas mais internacionais têm padrões comuns definidos (embora, no caso do inglês, com predominância regionalmente determinada das formas em que se admite variação) e é um pouco contra o meu espírito normalizador, mas é uma posição possível. Quando digo que tenho espírito normalizador, quero dizer que sempre me pareceu muito útil a padronização transnacional, quer se trate de passos de rosca, fichas e tomadas, sistemas de DVD ou medidas de comprimento e capacidade, e não vejo que mal possa advir da uniformização das regras ortográficas – mesmo que produzam algumas formas diferentes, como não pode deixar de ser, dada a grande variação dialetal do português. É de simplificação que se trata. Mas necessário, em sentido estrito, não é.

Juntando à constatação da falta de necessidade o postulado de que só se deve legislar quando necessário, tem-se um argumento sólido contra todas as reformas e toda a uniformização ortográfica – mas, insisto, terá de se aceitar que a grafia possa distanciar-se indefinidamente da língua. Senão, põe-se a questão da oportunidade. A questão complexa é definir qual o momento oportuno para um ajuste. Os defensores da grafia anterior ao AO aceitam que 1911 foi um momento oportuno. Porquê 1911 e não 1990? E quando será o próximo momento oportuno?

Se há argumento a que sou sempre sensível é o da (falta de) democracia. Mas não é, neste caso, um argumento muito óbvio.

Por um lado, é sempre complicado sobrepor o critério da democraticidade a outros critérios, em questões deste tipo. Já aqui discuti um pouco a questão há 4 anos, usando o exemplo da introdução da “vírgula lógica” no dinamarquês (semelhante à que se usa em português, inglês, francês, etc.), substituindo a tradicional “vírgula gramatical” (em que todas as orações são divididas por vírgula, como na ortografia alemã, por exemplo): é certo que o Sprognævn, a entidade que regula as coisas da língua na Dinamarca, deu um exemplo de democraticidade ao voltar atrás na sua proposta de novas regras de uso da vírgula, porque a maioria das pessoas preferia (claro) a pontuação que tinha aprendido e a que estava habituada; mas esse recuo faz com que a Dinamarca continue com um sistema de pontuação muito minoritário no contexto europeu e contribui para que os dinamarqueses, um dos povos mais competentes em inglês como segunda língua, continuem a dar erros na pontuação em inglês. É claro para mim que o Sprognævn tinha razão na sua proposta, como é claro que, em coisas de escrita, se a decisão for deixada aos utentes, estes preferirão sempre o que conhecem à introdução de sistema novos, por muito que obviamente melhores.

Por outro lado, quando a crítica à democraticidade do processo de imposição de uma escrita vem de defensores da ortografia anterior, é curioso que se recuse a atual grafia por imposta e se aceite a anterior, que não foi menos imposta. Aliás, ao que sei (mas é certo que não sou um especialista da matéria, pode haver casos que ignoro), tirando casos raros como o atrás referido da nova vírgula dinamarquesa, o estabelecimento de normas ortográficas não parece ser especialmente democrático em lado nenhum[7].

Mais uma vez, pode separar-se, se se quiser, a questão da democraticidade da reforma da questão da democraticidade do processo de acordo. Devo confessar que não acompanhei o processo de acordo e que não tenho, sequer, uma opinião clara sobre como deveria ser conduzido um processo deste tipo, mas, ao que sei, foi conduzido por (alguns dos) órgãos que se espera que conduzam um processo deste tipo: a Academia Brasileira de Letras, a Academia das Ciências de Lisboa[8], a CPLP, os Ministérios da Educação e os Governos dos países em questão. Podiam ter sido outros órgãos, podia seguramente ter-se alargado o processo de produção e debate do acordo, podiam ter-se feito – podem sempre fazer-se – as coisas de outra maneira, mas duvido que pudessem ter sido feitas de maneira a que toda a gente aceitasse a alteração da grafia sem uma contestação semelhante àquela a que se assiste agora...

Quanto ao argumento de que a reforma é cara, vi-o algumas vezes usado relativamente ao AO90 em geral e algumas vezes relativamente aos casos particulares de Angola e Moçambique. A questão do preço é outra sobre a qual não tenho grandes dados, devo dizer. Tenho a ideia de qualquer reforma tem um custo, mas não faço ideia, nem aproximada, do preço que esta possa ter[9]. Compreendo bem que se possa argumentar que é um desperdício inutilizar manuais escolares com ortografia antiga e produzir novos com grafia nova, mas sinto-me incapaz de me pronunciar informadamente sobre a questão, porque não sei qual é a realidade no terreno em Angola e Moçambique, que níveis de reutilização de manuais há, e nem sequer se foi acordada alguma coisa sobre isto [10]. Agora, se o argumento é possivelmente válido para esses países, onde a ortografia ainda não foi alterada, em Portugal é válido agora apenas no sentido contrário: como já não há manuais com a ortografia antiga, voltar a ela, como alguns pretendem, é que implicaria custos adicionais. É de notar também que a questão só se põe em relação a manuais usados em níveis em que alunos que não tenham solidificada a competência de leitura, porque pode de facto ser confuso nessa altura contactar simultaneamente com duas ortografias. Os outros podiam e podem ler na ortografia anterior sem problemas, sobretudo porque há muito poucas diferenças (muito mais difícil é ler na ortografia anterior a 1911, mas, mesmo isso, não é muito difícil para quem leia bem). Quanto aos restantes livros (dicionários incluídos!), a questão não se põe: nenhum livro perde atualidade, e muito menos utilidade, só porque muda a ortografia.

Sobre o problema do aumento do número de grafias oficiais, acho não se deve confundir com o acordo os problemas criados pelo seu incumprimento. Se coexistem, neste momento, várias normas ortográficas, não é por ter sido assinado um acordo, é por ele ainda não ter sido posto em prática, é outra coisa.

Agora, se não se pode culpar a AO90 da sua não-aplicação, pode-se acusá-lo de ser de difícil execução. Mas isso já se sabia à partida. Eu, pelo menos, nunca tive ilusões quanto a isso. Aliás, a impressão que tenho é que, ao introduzir uma reforma ortográfica, ter em conta a dificuldade de execução leva forçosamente à inércia, sobretudo porque dar erros não é crime – nem deve ser – e, portanto, a fixação de uma norma de escrita nem chega a ser legislação em sentido estrito... Acho que quem tivesse refletido um pouco sobre as questões da ortografia e tivesse informação sobre a aplicação de reformas ortográficas esperava, com toda a certeza, muita resistência, alguma confusão, e um longo período até a reforma e o acordo estarem estabilizados. É sempre assim.


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[1] Ao que vejo, o mais polémico do AO90 é terem deixado de se escrever letras etimológicas não pronunciadas. Muito do resto se ignora, em qualquer sentido da palavra ignorar, agora os cc e os pp que desaparecem é que nunca. Um argumento frequente – e compreensível – era que deixa de ser marcado na escrita o timbre “aberto” da vocal átona anterior, mas essa falta de marca de “abertura” acontecia já na grafia anterior. Basta pensar em vocábulos tão comuns como aquecer ou arrefecer, mas há dezenas e dezenas de outros exemplos. Por vezes, o desaparecimento da letra veio criar coerência, como no caso de óptimo, cujo p era anómalo no sistema.
[2] Não fonética, mas fonológica. Tenho-me dado conta de que isto é uma questão demasiado técnica para a maior parte das pessoas e também não é agora que vou insistir neste ponto. Duma maneira simples, o que quero dizer com isto é que se mantém o mesmo símbolo para unidades que mudam de pronúncia conforme sejam acentuadas ou não e consoante os sons que têm antes ou depois, e que podem ou não pronunciar-se. Exemplos disto são: os dois dd de dado, no português europeu; os dois ll de leal, em toda a lusofonia; os oo de comer e de come; os ss de mesmo e de mestre, e os ss finais de olhos nas sequências olhos azuis, olhos verdes e olhos pretos; o e de mexe, que, mesmo não se pronunciando, existe no sistema (como se constata por o x se pronunciar sempre /š/ independentemente do que venha a seguir, ao contrário do que acontece com o s final de s em mês de janeiro) ou o e de vale, tanto verbo como nome, que também existe no sistema mesmo não se pronunciando (como o provam o plural vales ou a forma com pronome vale-o), etc., etc., etc.
[3] De facto, a ideia que tenho é que, como na grande maioria dos casos tem uma base essencialmente afetiva, a contestação ao acordo lança mão de todas as críticas, sem se dar conta, muitas vezes, de que umas são incompatíveis com as outras, quando não contraditórias. Um bom exemplo é acusar-se o acordo de ser “foneticista” e, ao mesmo tempo, de fazer desaparecer marcas do timbre das vogais…
[4] Há quem defenda que estas grafias causam de facto algumas dificuldades de aprendizagem e também há quem diga que o número de erros na escrita é muito maior numa língua de grafia muito opaca, como o francês, que numa língua de grafia muito transparente, como o finlandês. Também é verdade que já vi a tese contrária, de que a opacidade da escrita é benéfica para a aprendizagem, mas não conheço, infelizmente (não digo que não haja), trabalho experimental que o confirme.
[5] Uma das coisas que me desagrada no AO é precisamente continuar-se, nalguns pontos, a invocar a tradição, em vez de propor uma verdadeira regra – ou seja, uma regra computável. A meu ver, quer se trate de ortografia como de moral, a tradição é má justificação para uma regra. De facto, acho que é antes uma injustificação.
[6] Até 1911, nunca houve ortografia oficial.
[7] A minha amiga Edite Gonçalves tem um texto no seu blogue em que dá conta das preocupações de muita gente relativamente à ideia de sujeição a referendo de questões como esta, uma ideia defendida por certos opositores do AO90. É claro que a democraticidade de um processo deste tipo não passa forçosamente por um referendo, podendo antes pensar-se em constituição democrática dos órgão responsáveis. Bom, em órgãos responsáveis de política linguística, a tradição parece antes ser a nomeação, nos poucos casos que conheço, mas não digo que não pudesse haver formas mais democráticas de constituição desses órgãos, contanto que se assegurasse o nível científico indispensável – uma coisa que não acontece forçosamente com os sistemas de convite atuais, porque não é necessário ter conhecimentos técnicos sobre língua para se fazer parte destes órgãos, mas antes ser-se antes o que se poderia designar como «utilizador de alta qualidade».
[8] Ao contrário de muitos países, não temos um órgão exclusivo para coisas de língua, mas a as secções de Literatura e Estudos Literários e de Filologia e Linguística da Academia das Ciências de Lisboa são, creio eu, o que me mais se aproxima de uma «Academia Portuguesa». Notem que me escuso a discutir aqui a minha opinião sobre a competência e a utilidade desta (e doutras) instituições oficiais de língua, que é assunto à parte.
[9] Aliás, a própria ortografia tem um preço, como tudo na vida. Mas é um preço muito difícil, se não mesmo impossível, de contabilizar. Uma vez, propus aqui (uma provocadora brincadeira, a terminar um texto sério) que se calculasse a poupança de eliminar letras desnecessárias em inglês e francês. Imaginem que a coisa se alarga à grafia de todas as línguas… De facto, não sei, nunca fiz a experiência, mas seria interessante comparar o volume de texto das diversas grafias ao volume de texto das mesmas línguas com uma escrita racionalizada, por exemplo com o Alfabeto Fonético Internacional. Agora, sabiam que o português escrito (experiência própria, dezenas de vezes repetida sempre com os mesmos resultados) gasta cerca de 10% mais papel e tinta que o inglês? Parece-me extremamente improvável que a produção de som seja de facto maior numa língua que noutra, mas nunca vi nada sobre o assunto. Esta informação agradará, sem dúvida, aos defensores de ortografias opacas.
[10] A questão ortográfica tem um peso diferente em países onde a língua oficial é uma língua segunda ou estrangeira para a maior parte da população. Se a ortografia não afeta a pronúncia é porque não é pela escrita que aprendemos palavras e, mesmo quando as aprendemos pela escrita, ouvimo-las também uma quantidade de vezes suficiente para interiorizarmos assim a forma fonética comum. Só quando isto não acontece é que há influência da grafia na pronúncia e é isso o que acontece, precisamente, na aprendizagem de línguas estrangeiras, por exemplo em situação escolar, em que apenas o input da pronúncia do professor não é suficiente para se sobrepor ao impacto da grafia. Há sempre dois condicionadores da pronúncia, o sistema fonético interiorizado da língua materna e a grafia das palavras escritas. A questão da influência da grafia na pronúncia faz-se ainda mais sentir quando não só os alunos mas também os professores têm outras línguas maternas – e pouca formação pedagógica. Há, por exemplo, fenómenos que se observam na pronúncia dos moçambicanos que não têm o português como língua materna que dificilmente se explicam a não ser pela insistência, no ensino da língua, numa correspondência biunívoca som-letra. (Não conheço Angola, mas não me surpreenderia que se verifique lá o mesmo fenómeno.) É claro que, em certas zonas, a pronúncia estrangeira acaba por influenciar a pronúncia dos falantes nativos, que crescem com essa pronúncia como input principal. Pode argumentar-se que, nesta situação. o que ajudaria não é tanto uma escrita fonológica, mas antes uma escrita mais fonética, que, de qualquer forma, a reforma ortográfica, no geral, não produz. É certo, e é um problema para que não vejo solução – a não ser o tempo, que dizem que tudo soluciona. Também haverá quem diga que mais importante que a fixação da grafia é a definição de uma norma morfossintática (a norma europeia, que continua, por inércia, a vigorar, já está um pouco desfasada da norma usada na comunicação social, por exemplo), mas também tenho muitas dúvidas sobre o interesse – e a possibilidade – de se definir, pelo menos agora, uma coisa dessas…

28 de julho de 2015

Uma versão nova de um velho aforismo

Diz uma frase famosa: de um senhor chamado H. L. Mencken que «A cura para os males da democracia é mais democracia.»* Muitos aforismos comummente citados são mais bem achados que verdadeiros, mas não me parece que seja o caso desta frase: é que não vejo mesmo que soluções não democráticas se possam propor para quaisquer problemas que possam surgir de uma comunidade ou sociedade funcionar de forma democrática.

Quando tanta gente põe em causa a ideia de União Europeia, por razões compreensíveis, o que me vem à cabeça, a mim que acredito cada vez menos que haja ainda soluções nacionais para os problemas de cada nação, é uma adaptação da frase de Mencken: «A cura para os males da Europa é mais Europa.» Também se podia dizer de outra maneira: «A cura para os males da Europa é mais Europa mais democrática.»

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* Não conheço Mencken, nunca o li e não sei a que propósito escreveu a frase, e isso agora também pouco importa. Mas sei que a frase é de Notes on Democracy, 1926: The cure for the evils of democracy is more democracy.

23 de julho de 2015

23 de julho, sete e meia da manhã

Acordei sobressaltado com um pesadelo horrível: uns homens disformes, monstruosos, queriam matar-me para se vingarem de qualquer coisa que o meu pai tinha feito. Ainda bem que consegui acordar antes de eles me matarem, porque morrer é uma experiência muito desagradável, mesmo que seja só em sonhos. Eu sei, porque já me aconteceu. E ser morto violentamente – isso nunca me aconteceu – deve ser ainda pior. Também acho que ninguém deve pagar pelo que os pais fizeram.

Eram cinco e pouco da manhã quando acordei. Já não voltei a adormecer. Ontem tive dores de cabeça à tarde, uma coisa que nunca tenho, e pensei que podia ser por ter dormido pouco. Espero não ter hoje dores de cabeça outra vez.

O céu estava ameaçador. Enfiei uns calções e fui apanhar a roupa que estava estendida no quintal. Estava toda quase seca e era uma pena deixá-la encharcar-se, se começasse a chover. Mas não choveu nem vai chover. O tempo limpou e vamos ter outro dia de sol.

Fui estender a roupa no quarto de hóspedes e pensei que faço tudo demasiado depressa, com pouca calma. Tenho de começar a desacelerar progressivamente os gestos, até ficar por fim completamente imóvel. Quando morrer, quero eu dizer.

Voltei para a cama e estive a ler Gary Snyder e John McWhorter. O livro de Gary Snyder é difícil para mim, tem muitas palavras que não conheço. Vou fazer uma leitura do livro sem dicionário e relê-lo depois com o dicionário. Achei graça ao truque literário simples de separar com vírgula nomes de adjetivos e pus-me a especular como traduziria
Dried, shrimp
       smoked, salmon 
Fiz também uma nota mental: procurar Dōgen em Google e a auto-estrada 99 em Google maps.

Poderia ter sido eu a escrever muitas das coisas que McWhorter escreve. Aliás, já escrevi muitas das coisas que McWhorter diz. A ideia de que a língua condiciona o pensamento pode ter surgido com a intenção louvável de reconhecer a diversidade cultural, o que foi sem dúvida importante num certo período histórico, mas parece-me que é hoje mais importante insistir na igualdade fundamental de todos os seres humanos. Ou, como o resume Steven Pinker na contracapa do livro,
«Algumas ideias populares são piores que erradas – têm uma ponta de verdade em questões de somenos importância, mas ajudam a criar incompreensões em questões muito importantes. (…) Apesar da sua superficial sofisticação, a hipótese [de que a língua modela o pensamento] oculta verdades profundas: que o pensamento é bem mais rico que a língua; que as línguas são mais o produto de uma caprichosa memética que reflexos de obsessões culturais; e que as semelhanças cognitivas entre as pessoas são mais fundas que as diferenças entre elas.» 

Decidi que vou começar a escrever poesia e contos outra vez – apenas pelo prazer que isso me dá.

A minha filha Siri faz hoje 11 anos. Está uma mulherzinha, como se costuma dizer.



7 de julho de 2015

Ambiguidade e ordem das palavras


[Homonímia e ambiguidade]
Dizia-me alguém, numa discussão sobre o acordo ortográfico, que a homonímia de ato (do verbo atar) e ato (ação) podia causar ambiguidade em certas frases. Se for verdade, é preciso dar muitas voltas à cabeça para encontrar um caso em que isso possa acontecer; e eu, que até tenho jeito (gaba-te, cesto…) para descobrir este tipo de curiosidades, não consigo inventar uma frase com uma ambiguidade que resulte de uma coisa dessas. Imaginem o que seria se se confundissem de alguma forma calo e calo, coma e coma, falo e falo, mato e mato, nada e nada, rio e rio, saia e saia… e os outros milhares de casos em que há uma forma verbal e um nome com a mesma forma fonética e gráfica (é um jogo engraçado, vejam lá quantas homónimas deste tipo conseguem encontrar).

Eu diria antes que, em princípio, nunca há ambiguidade entre homónimas de categorias morfológicas diferentes – que não podem, por isso, ocorrer no mesmo contexto. Mais provável seria a ambiguidade criada por homónimas da mesma categoria ou, como é mais comum, palavras que podem referir vários entes ou objetos, ou que podem deles predicar várias qualidades, estados, atividades, etc., como corrente, mangueira, número, esperar, comer, etc. Mesmo para estas palavras, porém, é preciso dar muitas voltas à cabeça e não vejo bem, por exemplo, em que situação alguém fique na dúvida, quando ouve falar de gatos, se se trata de felinos domésticos, de enganos nas contas, de grampos, ou de pieira…

Significa isto que não existem frases ambíguas? De modo algum. É claro que existem frases ambíguas!, mas são outras as causas da verdadeira ambiguidade – ou anfibologia, como só agora descobri que também se pode chamar. A ambiguidade mais comum, estou eu em crer, resulta da maneira como se ordenam na frase certos elementos – de não se poder decidir se uma expressão modifica, por exemplo, a frase toda ou um sintagma apenas. Dou-vos um exemplo tirado de um e-mail que recebi um dia destes:
Havemos de descobrir como fazer o pagamento antes de ele começar o trabalho.
Sem mais informação, uma pessoa não sabe se a ideia é fazer o pagamento adiantado ou apenas descobrir antes do início de trabalho como será feito o pagamento (era este último significado que se queria dar à frase.)

[Posição livre e posição fixa de advérbios nas frases]
Não vos vou maçar agora com uma lista de exemplos de ambiguidades, há dezenas de páginas na Internet sobre o assunto. Quero só referir uma coisa curiosa, a propósito da posição dos advérbios e locuções adverbiais nas frases: ouvi dizer várias vezes, algumas delas a mim próprio, que, nas línguas latinas, a posição dos advérbios é livre, ao contrário do que acontece em dinamarquês (e creio que várias outras línguas germânicas, mas só conheço bem o caso do dinamarquês). Mas isto nem sempre é verdade. E nem sempre é só para resolver ambiguidades que o advérbio tem de estar, em português, numa determinada posição. É certo que, como declaração simples, tanto faz dizer Amanhã vou a Copenhaga como Vou amanhã a Copenhaga como Vou a Copenhaga amanhã, mas Sempre vou a Copenhaga nas férias é diferente de Vou sempre a Copenhaga nas férias e tanto ?Vou a Copenhaga sempre nas férias como ??Vou a Copenhaga nas férias sempre são fases muito estranhas, se não claramente agramaticais.

Como se passam as coisas nas línguas em que há uma posição fixa dos adverbiais? Não pode isso também criar ambiguidades? Quando comecei a aprender dinamarquês, achava muito estranho, por exemplo, que se fizesse obrigatoriamente a negativa de verbos de opinião e afins e nunca das suas completivas. Não se pode, por exemplo, construir uma frase com a estrutura que corresponde diretamente a Acho que ele não tem razão, tem obrigatoriamente de usar-se a estrutura correspondente a Não acho que ele tenha razão. Pode pensar-se que a questão da negativa simples é outra história, mas, se substituirmos não por nunca ou sempre, a regra continua a aplicar-se. A verdade é que, por muito que a frase Acho que ele nunca tem razão não seja, stricto sensu, o mesmo que Nunca acho que ele tenha razão, não há, na prática, diferença nenhuma entre as duas frases e há que dar algumas voltas à cabeça para encontrar uma frase em que a negativa da principal produza um sentido diferente da negativa da completiva. E o mesmo se pode dizer em relação a um advérbio como sempre: Acho sempre que ele toca bem é, na prática, o mesmo que Acho que ele toca sempre bem.

Mas é sempre assim? Bom, a frase, Acho que ele não é muito inteligente, por exemplo, é já claramente diferente de Não acho que ele seja muito inteligente, se esta última frase se usar para negar a superior inteligência de alguém sem lhe negar inteligência – que é o que se faz com a primeira frase: nega-se-lhe a inteligência, precisamente. Mais complicadas também são frases como Penso às vezes que ele é uma pessoa atormentada e Penso que ele às vezes é uma pessoa atormentada, que são bem diferentes uma da outra, não é verdade? E então, como resolvem isto as línguas de posição fixa do advérbio? No primeiro caso, a ambiguidade desfaz-se normalmente com seleção de palavras diferentes: para negar a inteligência de alguém, dir-se-á o que, diretamente traduzido, corresponde a Acho que ele não é especialmente inteligente; e, para negar que alguém é tão inteligente como se afirma, usa-se a estrutura corresponde ao português Acho que ele não é [assim] tão inteligente; e em nenhum caso a frase com muito inteligente é bem aceite pelos falantes. No segundo caso, como se trata de desfazer realmente uma ambiguidade, aceita-se o que nos outros casos não se aceita, e pode passar-se a locução adverbial às vezes para a completiva. Como é mesmo necessário, pode dizer-se Penso que ele às vezes é uma pessoa atormentada, com a locução adverbial na subordinada.

Tudo isto para concluir que se deve ter confiança nas línguas, porque elas desenvolvem naturalmente maneiras de evitar as ambiguidades. As ambiguidades são raras e nunca resultam de defeitos do léxico ou da sintaxe, apenas de alguns usos abstrusos (a cacofonia é propositada) das possibilidades que as línguas nos dão.

[Uma digressão: modificadores apositivos e modificadores restritivos]
A propósito de ambiguidades e de línguas germânicas, uma pequena excursão. Saio do domínio da língua e passo para o da escrita. Problemático, por causar frequentes ambiguidades (aqui, podia ser também “por causar frequentemente ambiguidades”, com modificador do verbo, sem alteração do significado) é o uso da vírgula gramatical, à maneira alemã ou dinamarquesa, que obriga a delimitar todas as subordinadas e não distingue, por exemplo, relativas apositivas de relativas restritivas – isso cria ambiguidade:
As associações da região que integravam o projeto receberam formação sobre variedades híbridas.
Com uso obrigatório de vírgulas a delimitar a relativa, ficamos sem saber se receberam formação apenas as associações que integravam o projeto e as outras não (frase acima), ou se todas as organizações da região integravam o projeto e receberam por isso formação, que é o que diz a frase com vírgulas em português:
As associações da região, que integravam o projeto, receberam formação sobre variedades híbridas.
Esta história também tem uma moral: como na escrita se eliminam muitas redundâncias e se usam estruturas normalmente ausentes do discurso oral, podem criar-se na escrita ambiguidades que nunca surgem na oralidade. 

[Ambiguidade ou deselegância?] 
Mas voltemos às ambiguidades causadas pela má ordenação dos elementos da frase, para rematar. É de notar que muitos dos exemplos apresentados quando se fala de ambiguidade são um pouco exagerados. Quer dizer, são frases de facto textualmente ambíguas, mas o contexto ou o senso comum do interlocutor resolve a ambiguidade.

Veja-se, por exemplo, a frase O José falou com o Rui deitado no chão. Vi uma frase semelhante referida como exemplo de anfibologia e é, de facto, uma frase ambígua, mas só se não houver mesmo contexto nenhum, e uma frase assim costuma fazer parte de uma narrativa. Vi algures outro exemplo do tipo O homem disparou sobre o assaltante de pijama. Bom, neste caso, mesmo que não haja contexto nenhum, é difícil imaginar um ladrão de pijama, não vos parece?

O mesmo em relação a estas duas frases curiosas:
Durante o julgamento, a defesa protestou contra o uso de algemas pelo traficante, alegando que ele feria decisão do Supremo 
e
Resgatada mulher sequestrada após passar 21 anos em uma cova
Também é certo que, sem mais contexto, cada uma delas tem duas leituras possíveis, mas uma das leituras é tão estranha que a recusamos imediatamente: o que seria um traficante ferir uma decisão do Supremos e isso ser motivo para recusar o uso de algemas? E não seria azar a mais ser sequestrado depois de passar 21 anos numa cova? Ambiguidade? Em última análise, sim, mas, na prática, é mais de deselegância, de falta de estilo, que se trata nestes três últimos casos, não vos parece?, que propriamente de ambiguidade…

24 de junho de 2015

Penteados, corpos, paixão

Como já aqui contei, uma vez foi-me diagnosticado um ataque cardíaco. Vá lá, foi um diagnóstico errado, feito por uma máquina, se bem que, claro, a culpa das semanas de ansiedade que se seguiram ao erro não tenha sido da máquina, mas do médico que confiou num diagnóstico automático.

Estava em Moçambique quando tive o falso ataque. A minha companhia de seguros informou-me de que tinha de ser observado por um cardiologista na África do Sul, mas, como uma pessoa que teve um ataque cardíaco não pode andar de avião sozinha, tinham de mandar um enfermeiro para me acompanhar. Demoraram muito tempo a arranjar quem me pudesse vir buscar a Chimoio e acabei por ser observado só ao fim de duas semanas – para chegar à conclusão de que, afinal, o meu coração estava muito bem, obrigado.

O enfermeiro que me veio buscar era sul-africano. De Maputo para Joanesburgo, fomos de carro e conversámos muito. Quer dizer, ele falou muito e eu fui respondendo de vez em quando.

– A África do Sul era um país muito conservador, quando eu era novo. Crescemos sem nunca ver uma mulher nua. Nem em revistas, nada. Nunca vi os seios de uma mulher até ir para cama com uma mulher para a cama a primeira vez. Quer dizer, viam-se seios étnicos [acho que foi esta a expressão que ele utilizou], nas revistas e na televisão, mas isso não contava, porque não pensávamos nessas mulheres como mulheres. Nem esses seios nos excitavam, sequer.

Não devia ser bem assim, pensei eu. Quer dizer, talvez assim fosse para alguns sul-africanos brancos, mas não para todos: havia-os que não desdenhavam o sexo com sul-africanos negros, quer o assumissem ou não. E falava-se dos que vinham a Moçambique precisamente para poderem concretizar desejos que não se atreviam a concretizar na África do Sul. Dizem, aliás, que o continuam a fazer, mas não sei.

A reação ao corpo do Outro é muito variada e amiúde contraditória, tanto na literatura como no discurso quotidiano. Às vezes, fica-se fascinado por esse corpo. Foi o que aconteceu muitas vezes quando os europeus entraram em contacto com o corpo nu dos povos das zonas tropicais das Américas e de África, embora com atitudes diferentes relativamente a esse fascínio. A referência às beleza desses corpos faz, às vezes, parte do louvor de uma vida ou de uma ordem social “natural” que é idealizada. Outras vezes, é um fascínio adversativo, se se pode dizer assim: constata-se essa beleza, apesar de os nativos serem seres inferiores, quando não sub-humanos. Parece-me claro que, independentemente da maneira como são valorizados os habitantes da América e de África e as suas sociedades, o deslumbramento perante os seus corpos resulta sobretudo de estes serem visíveis, simplesmente. É uma revelação: como o enfermeiro que me levou a Joanesburgo, os viajantes europeus vêm de sociedades onde o corpo se oculta.

Agora, também acontece a negação da beleza primitiva ou selvagem: a caracterização da negatividade do Outro pode incluir também os seus corpos, escuros, disformes, simiescos, doentes… Outras vezes, o discurso sobre o corpo do Outro é às vezes hesitante, contraditório. A mesma voz pode alternar entre exaltar a beleza do Outro e sublinhar a sua fealdade. E, às vezes, arranja-se maneira de anular o corpo do outro, embora mostrando-o. Encontrei num livro de 1905 sobre o Congo belga* esta curiosa fotografia. Segundo a legenda, estes corpos nus são apenas “exemplos de penteados”. “Amostras” talvez seja até um termo melhor, para indicar que é de mostrar que aqui se trata.

É a mesma redução etnográfica, chamemos-lhe assim, que faz com que, na juventude do enfermeiro que me acompanhou a Joanesburgo, se pudessem mostrar seios das mulheres xhosas ou zulus na África do Sul, quando não se podiam mostrar seios de mulheres africânderes: transforma-se o corpo do Outro num objeto de estudo etnográfico, em documento da vida selvagem. Em grande medida desumanizado, o corpo é, por isso, des-sexualizado. Ou antes, pretende-se que seja. Mas nem sempre se consegue.

A um conjunto de ideias sobre o Outro e de imagens desse Outro corresponde, em princípio, um conjunto de sentimentos sobre ele. Algumas ideologias racistas levam à a recusa do corpo do Outro – os corpos nus das etnias desprezadas não excitam sequer. Como me explicava o enfermeiro. É aquilo a que se chamou “o racismo da aversão”, por oposição a um “racismo da dominação”, que não desdenha apropriar-se sexualmente do dominado. Agora, tenho a certeza de que, em muitos casos, não é diretamente sobre os sentimentos que a censura do racismo age, mas sim sobre a expressão desses sentimentos. Parece-me muito provável que a exposição do corpo selvagem como curiosidade etnográfica escondesse, afinal, um deslumbramento por esse corpo. Um deslumbramento que as regras sociais não deixavam dizer.
*** 
Encontrei no outro dia, num passeio pela Internet que nem me lembro já que objetivo tinha, uma passagem interessante de um romance que nunca li, de Carlos Fuentes**.
A pergunta essa noite foi proposta por mim: Porque refreamos as nossas grandes paixões?
– O que é que queres dizer? – perguntou o ator – Que se as refrearmos voltamos à lei selva? Isso já nós sabemos – disse ele, com um gesto acre do nariz e os lábios torcidos, muito característico dos seus papéis no cinema.
– Não – expliquei-me. – Peço-lhes que muito pessoalmente declarem por que razão, na maioria dos casos, quando surge a oportunidade de viver uma grande paixão pessoal a deixamos passar, fazemo-nos tontos, parecemos, às vezes, cegos, diante da melhor oportunidade de nos empenharmos numa coisa que nos dará una satisfação superior, uma...
– Ou uma profunda insatisfação – disse Diana.
– Também é verdade – disse eu. – Mas vamos por partes. Lew.
– Ok, não direi que toda a grande paixão nos devolve ao estado animal e dá cabo das leis da civilização. Mas está sempre a acontecer, desde o sexo com a nossa mulher até à política. Talvez o mais secreto temor seja que uma paixão cega, irrefletida, nos faça sair do grupo a que pertencemos, nos torne culpados de traição...
O velho falava de forma dorida. Interrompi-o, sem me dar conta de que estava a violar a minha própria premissa. Não o deixava entregar-se à sua paixão, porque senti que estava a personalizar, a pensar demasiado na sua própria experiência... Diana olhou para mim com curiosidade, sopesando a minha propensão às boas maneira, a evitar fricções...
– Dizes isso por causa do sexo, referes-te à paixão sexual?
Não, disse-me Cooper com o olhar. – Sim. É isso. A paixão arranca-nos ao grupo familiar. Pode violar a endogamia. Endogamia e exogamia. São essas as duas leis fundamentais da vida. O amor com o grupo ou fora dele. O sexo dentro ou fora. Decidir isso, saber se o sangue fica em casa ou se faz vagabundo, errante, é isso que nos impede de seguir a grande paixão. Ou nos atira de cabeça para o abismo do desconhecido. Necessitamos de regras. Não importa que sejam implícitas. Têm de ser seguras, claras para o nosso espírito. Casas-te dentro do clã. O casas-te fora dele. Os teus filhos serão da nossa família ou serão estranhos. Ficas aqui junto ao lar dos teus avós. Ou sais para o mundo.
Ao ler isto, lembrei-me de um amigo me falar, há muitos anos, de uma teoria segundo a qual a paixão amorosa teria tido origem na necessidade de exogamia, de “renovar o sangue”. Por mais voltas que dê a palavras-chave, não consigo descobrir na Internet que teoria era essa. Talvez esteja a lembrar-me mal. Mas não importa. O que me parece fazer sentido é que, independentemente de ter ou não surgido para arrancar as pessoas ao seu clã, a paixão amorosa acaba sempre por ter também essa função, quando as pessoas não conseguem controlar-se como o Lew Cooper da novela de Fuentes (e muita gente…) acha que se devem controlar. “Na perspetiva evolutiva, a dosagem de exogamia e endogamia foi sempre delicadamente equilibrada para garantir ao mesmo tempo coesão do grupo e diversidade genética.”*** Há casos, porém, em que não é equilíbrio nenhum, delicado ou não; em que se torna simplesmente um inferno a vida de quem se deixe deslumbrar por um corpo Outro, por uma alma Outra. Mas não há como o impedir: nem que só muito raramente, há de haver quem se deslumbre. Quem deixe o lar dos avós e se atire de cabeça para o abismo do desconhecido, quem saia para o mundo. Ámen.

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* Wack, Henry Wellington. The story of the Congo Free State; social, political, and economic aspects of the Belgian system of government in Central Africa. Nova Yorque & Londres: G. P. Putnam's sons, 1905. Foto da página 151.
** Fuentes, Carlos. Diana, o la Cazadora Solitaria (Mexico: Alfaguara Hispánica, 1994. Traduzo eu.
*** Graham Richards, Race, Racism and Psychology: Towards a Reflexive History Paperback, Londres e Nova Iorque: Routledge, 2011. Traduzo eu. Foi no mesmo livro que encontrei a distinção que uso neste texto entre racismo de aversão e racismo de dominação (aversive racism e dominative racism). 

19 de junho de 2015

Ao correr do teclado, sobre investigadores e investigações

Tenho andado a re/ver no YouTube algumas aulas e conversas de Richard Feynman, que é alguém que vale sempre a pena ouvir: grande capacidade de comunicação, grande poder de síntese, exemplos sempre à mão e muitos conhecimentos e ideias interessantes. Um dos vídeos que primeiro me chamou a atenção é de uma aula na Universidade de Cornell em 1964. Feynman fez aí uma descrição do trabalho de procura de uma lei científica que ficou famosa, ao que percebo, e que foi depois publicada em livro:
Em geral, procura-se uma nova lei pelo seguinte processo: começamos com uma conjetura; depois, calculamos as consequências dessa conjetura para vermos as implicações da lei, se estivesse correta; depois ainda, comparamos o resultado do cálculo com a Natureza por meio da experiência ou da experimentação. A comparação é efetuada diretamente com as observações para vermos se a lei funciona. Se não concordar com a experiência, está errada. Nesta simples afirmação reside a chave da ciência. Não importa a beleza da nossa suposição. Não importa a nossa inteligência ou a reputação de quem fez a conjetura − se a lei não concordar com a experiência está errada. E é tudo[1].
Tomando a expressão lei científica em sentido lato, referindo-se, sei lá...,  tanto às leis da termodinâmica como à aquisição da pronúncia da língua materna, poderia dizer-se que, neste resumo, Feynman descreve de facto todo o processo científico; mas seria uma grande injustiça para todos os que, pacientemente, vão apenas recolhendo informação, sem por isso proporem quaisquer leis. É essencial em ciência o papel das bases de dados (não forçosamente no sentido informático da expressão, claro), ou seja, do conjunto de descrições da realidade que nos permitem, precisamente, aferir a validade de qualquer lei ou teoria.

Como interagem a formulação de hipóteses e os dados recolhidos é uma questão interessante. No outro dia, comprei em segunda mão uma edição ilustrada das quatro novelas de Sherlock Holmes. Nunca tinha lido nenhuma história de Sherlock Holmes, vejam lá. Tinha lido coisas de Conan Doyle e até já falei aqui dele, mas não eram aventuras de Sherlock Holmes. Na primeira novela, o célebre investigador adverte para o perigo de formular hipóteses antes de ter recolhido os dados. Diz ele (e traduzo eu):
É um erro enorme teorizar antes de ter os indícios todos. Faz-nos ser tendenciosos.[2]
Descobri depois, na Wikipédia, que Holmes repete a mesma ideia em As aventuras de Sherlock Holmes:
É um erro enorme teorizar antes de ter dados. Sem o sentir, uma pessoa começa a distorcer os factos para os fazer corresponder às teorias, em vez de fazer teorias que correspondam aos factos.[3]
Exame do crânio de Piltdown. John Cooke, 1915 (de Wikimedia Commons)
Na história verídica do Homem de Piltdown juntam-se a aventura de detetives e a investigação científica
(e talvez também Conan Doyle, mas isso é só uma conjetura… 
O trabalho do detetive é basicamente o mesmo que o do cientista e de quem quer que procure a verdade com base em observações que podem ser feitas por toda a gente. Pode pensar-se, talvez, que as conclusões da investigação criminal costumam ser mais definitivas (descobre-se o culpado, pronto) que as da Química, da Linguística ou da História, por exemplo, que são mais passíveis de posterior revisão, para serem aperfeiçoadas ou substituídas por novas conclusões. Mas, mesmo na investigação criminal, também não há verdades definitivas, como no-lo mostram os muitos casos em que se revela, às vezes muitos anos depois, que o condenado não era afinal culpado. Em qualquer tipo de investigação, é fundamental a honestidade do investigador, antes de mais consigo mesmo – tentar sempre pôr em causa os seus sentidos e toda a classe de sentimentos. Deve observar-se, digamos assim, uma rigorosa ética de renúncia ao eu, um pouco como a propõem alguns místicos de várias religiões.

Dito isto, e por fundamentados que sejam os receios de Sherlock Holmes relativamente à tendência de confirmar na observação aquilo em que se acredita à partida, é importante realçar que o controlo da validade das conclusões de uma investigação não é apenas pessoal, interior: vai haver (devia sempre haver…) outras pessoas a julgar as provas e as deduções do detetive e do historiador, e a refazer os cálculos e as experiências do cientista, e é assim que se certifica que os dados não foram escolhidos a dedo ou torturados até dizerem o que o investigador queria que eles dissessem.

Se continuarmos a seguir a aula de Feynman atrás referida, vemos que não é qualquer palpite que serve de ponto de partida ao trabalho científico, mas que deverá ser, é claro, uma conjetura abalizada[4]. Não basta “montar um grande computador com uma roda que faz uma sucessão de conjeturas” ao acaso e testá-las todas, quanto mais melhor. Quer dizer, se não forem possibilidades realmente intestáveis e que, por isso, não podem aspirar ao estatuto de observáveis, sobre, por exemplo, o que sentiram os americanos originais quando viram chegar os primeiros europeus, a reprodução das sereias ou a alma das nações, podem de facto verificar-se até hipóteses mesmo muito disparatadas, mas não há razão nenhuma para se gastar tempo e dinheiro para o boneco (a não ser em casos em que se pretende justamente desmantelar uma hipótese disparatada que alguém insista em considerar “um facto”, como certos postulados das pseudociências...).

Fazer uma boa conjetura é, pois, uma parte importante do trabalho. Tão importante que, se a hipótese for boa, recorda-nos Priyamvada Natarajan numa conversa recente no site Edge, ninguém passa a considerar menos o seu autor quando ela se revela falsa. A beleza da ciência, diz ela, é poder provar-se que uma pessoa tem ou não razão. Uma das belezas, sem dúvida. Outra é essa de ninguém perder valor por não ter razão, se tiver feito devidamente o seu trabalho. Notem que não é de modo nenhum de astrofísica que aqui se trata, até porque não é assunto sobre o qual me sinta com capacidade de escrever seja lá o que for, pelo que salto a explicação das teorias que ela descreve e que poderão conhecer, se for do vosso interesse, seguindo a link atrás. Notem também como este processo segue rigorosamente a descrição de Feynman: há um fenómeno que não se sabe explicar, pelo que é necessário uma lei nova; aventa-se uma proposta de explicação; calculam-se as consequências que essa lei teria, a ser verdadeira; e verifica-se se essas consequências se observam ou não na realidade. Traduzo eu:
Propusemos [a] ideia dos Buracos Negros de Colapso Direto que são muito maciços e se formam muito cedo no universo […]. Claro, há consequências da formação de buracos negros, ou de uma população deles, desta maneira, em vez de ser por meio de estrelas. A principal previsão deste cenário é que se devem ver quasares muito brilhantes muito mais cedo no universo […] É uma previsão que será testada pelo Telescópio Espacial James Webb, que esperamos que seja inaugurado em 2018.

Vai ser muito emocionante provar-se se temos razão ou não. É essa a beleza da ciência. Uma pessoa poder sentar-se no seu escritoriozinho em New Haven e fazer um cálculo que uma comunidade leva suficientemente a sério para o testar, e é fantástico que o façam num prazo de dez, quinze anos […]. É claro, seria bom ter razão.

A questão de se provar várias vezes que uma pessoa está errada e essa pessoa ser, ainda assim, uma cientista respeitada é uma excelente questão. Tem havido muitos casos em que houve grandes espíritos que propuseram ideias fortes, muitas das quais se tem provado que estão erradas, e eles são considerados, ainda assim, os mais brilhantes astrofísicos.
Eu sei o que estão a pensar: que este tipo de reconhecimento não é de modo algum exclusivo da ciência, que há muito quem continue a ser admirado depois de se provar que não tinha razão – e não só por familiares e amigos. É certo. Quando, porém, se trata de formas de “conhecimento” não sujeitas à confrontação com a observação e ao escrutínio de outros especialistas, sejam elas religiosas, pseudofilosóficas ou pseudocientíficas, o mais normal é nunca se provar que alguém não tem razão, simplesmente porque não há nada a provar, é tudo só uma questão de crer[4]...
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[1] Richard Feynman, O que é uma Lei Física, Lisboa: Gradiva, 1989. Tradução de Carlos Fiolhais. No vídeo da aula de Feynman de que é tirado o texto,os alunos riem-se quando ele diz “First, you guess”, o que não aconteceria, penso eu, se alguém dissesse, em português, “começamos com uma conjetura”. Isto tem a ver com o leque mais amplo de significados da palavra guess, mas não me parece que a tradução seja incorreta, parece-me até muito acertada.
[2] “A Study in Scarlet” in Sherlock Holmes, The Complete Illustrated Novels, Londres: Bounty Books, 2005: “It is a capital mistake to theorize before you have all the evidence. It biases the judgment.”
[3] “A Scandal in Bohemia”, in The Adventures of Sherlock Holmes, Londres: George Newnes, 1892: “It is a capital mistake to theorize before one has data. Insensibly one begins to twist facts to suit theories, instead of theories to suit facts.” Uma coisa que me veio logo à cabeça, quando li estas sentenças de Sherlock Holmes (não me atrevo a sugerir que se deve ler nas afirmações do investigador a opinião do seu autor…), foi que, em abstrato, pode também pensar-se exatamente o contrário: que basear-se sempre em dados previamente recolhidos pode influenciar a formulação da hipótese, limitando-a. Por cercear a imaginação, digamos assim. É-me difícil, porém, pensar em exemplos concretos dessa possível limitação.
[4] E depois, mas isso é outra história, há os casos de vários guias espirituais de todo o tipo que, depois de serem desmascaradas as suas fraudes ou as enormes incoerências entre o que pregam e o que fazem, não perdem a legião de discípulos e admiradores – os discípulos não reconhecem que o seu mentor espiritual estava errado, nem sequer, muitas vezes, aceitam as críticas que lhe fazem, sobretudo porque, se o fizessem, teriam de aceitar o seu próprio equívoco… Como me sugeriu j.j.amarante, esta referência a guias espirituais deve também incluir políticos.

Mais 3 notas avulsas sobre coisas da língua

1 [Concordância de tempo] 
Quando era rapaz novo, havia músicas de que não gostava, porque eram repetitivas e não tinham solos instrumentais, e hoje gosto dessas mesmas músicas, porque são repetitivas e não têm solos instrumentais. Como as coisas são!...

E como é a gramática!... Vejam lá: essas músicas eram repetitivas e hoje são repetitivas, como se tivessem um antigamente e um agora… Mas digam-me, que eu tenho dúvidas em relação a isto: apesar de ser normalmente o presente que designa, em português, o que não tem tempo («A toninha é um mamífero», «A 7ª sinfonia de Sibelius só tem um andamento»), não se diz «havia músicas de que não gostava, porque são repetitivas e não têm solos instrumentais”, pois não? Não é pergunta retórica, queria mesmo saber o que dizem e ouvem dizer, e agradeço antecipadamente a vossa colaboração.

2 [Ainda a propósito de ]
Escrevi eu aqui uma vez que, a par das duas propostas mais conhecidas da origem de (de rapaz e de compadre), se podia considerar outra, a das onomatopeias epá e opá, comuns a uma vasta zona de línguas ibéricas (ver aqui o desenvolvimento da ideia). Há ainda, tinha-me esquecido, a possibilidade de vir de pai. Já vi e ouvi algumas vezes na minha vida “Ó paizinho” como vocativo popular, dirigido não ao progenitor, mas a um desconhecido, e também a exclamação “Ena pai!”, que voltei a encontrar há pouco tempo no conto “José Valentim”, de Fialho de Almeida (Mem Martins: Europa-América, s/d). É claro, pode muito bem ser ao contrário: que de se tenha “reconstruido” um étimo fictício pai, talvez por analogia com tio, que também se usava muito como vocativo na língua popular. Vá lá uma pessoa saber…

3 [Bacon: da necessidade, ou não, de palavras importadas, mais uma vez] 
Bacon é um bom exemplo de uma palavra estrangeira que se adota com um produto novo. A minha avó conheceu o produto bacon na mesma altura em que eu o conheci e aceitou o nome inglês, que pronunciava beique. À pergunta “É mesmo necessária a palavra inglesa?”, a resposta é que não, como nunca é, nem que tenha de se criar uma palavra nova. Como se diz então bacon em português?

Em abstrato, creio que não se pode mesmo traduzir diretamente sempre da mesma maneira, porque a palavra inglesa não refere um produto apenas, mas vários e, ao que sei, não temos nenhum termo ou expressão que cubra os mesmos significados. A tradução toucinho fumado, que já vi proposta, pode funcionar às vezes, se for de smoked bacon que se está a falar, mas nem todo o bacon é fumado, e nem sequer curado, porque há bacon fresco (green bacon). O bacon do ombro e outros cortes de bacon não têm mesmo nada de toucinho.

Mas é certo que isto são produtos mais raros, não precisam tanto de tradução... Atenhamo-nos então ao bacon mais comum, o chamado streaky bacon, vá, para não nos perdermos em complexidades gastronómicas. Como a palavra toucinho é muito abrangente (fumado ou não, é às vezes fat, às vezes lard e às vezes bacon), para o streaky o melhor seria, provavelmente, usar entremeada, que é como se costuma chamar a esse toucinho entremeado. Até porque toucinho fumado só, sem mais, faz-me antes vir à mente um tipo específico de bacon com pouca ou nenhuma carne – que se encontra, sob várias designações, em vários países (o que se vê nesta imagem). Posso, aliás, querer dizer que no outro dia (é verdade), o supermercado tinha bacon fumado (røget bacon) mais caro que (arrisco…) toucinho fumado (røget spæk). Não sei se se tinham enganado a pôr os preços, porque normalmente é ao contrário

Entremeada curada, ou salgada e defumada, ou algo assim, tem poucas possibilidades de vingar e é mais realista aceitar, estou eu em crer, que bacon é palavra importada que veio para ficar em português e em muitas outras línguas. Talvez se possa começar antes a pensar numa maneira de aportuguesar a grafia, mas bêicone, hmmm, não me cheira… (E depois, em resolvendo isto do bacon, a ver se começamos a pensar em como chamar em português às costeletas kasseler…)

5 de junho de 2015

Objetos artificiais, pessoas e outros animais atingidos por meteoritos

Na Internet encontra-se de tudo (e já se encontra muito de grande parte das coisas…). É como na botica, a bem dizer, mas, boticas assim, há muito que não nas há, a não ser no Canadá.

Até se encontra quem conte objetos artificiais, animais e pessoas atingidas por meteoritos! E fica a saber-se que só se conhece com relativa certeza de um caso antes de 1775 e que, a partir daí, o número de casos registados aumenta progressivamente. Porque caem agora mais meteoritos? Claro que não.

Isto ensina, entre outras coisas, a ter bom senso e a nunca se esquecer de ter em conta todos os fatores: seja doentes de asma ou quedas de meteoritos, não basta dizer que há cada vez mais, é preciso contar também que somos mais agora e que há cada vez mais registos de tudo. Além de que, no que toca a doenças com maior incidência em idades mais avançadas, se vive muito mais tempo hoje; e, claro, se se morria de uma infeção na boca aos 25 anos não se chegava a morrer de cancro da próstata aos 65

31 de maio de 2015

Arqueiros, setas e alvos

Já uma vez aqui pus na Travessa este poema (é um poema completo ou um excerto?) de António Maria Lisboa:
A Seta já contém o Alvo, mas só percorre a Seta aquele que lhe conhece o Alvo. Assim é de olhos vendados que o Grande Atirador alveja.
(Isso Ontem Único. Lisboa: Contraponto, 1953)
Conheci o poema na adolescência e sempre gostei muito dele, mas não sei bem porquê. Não o consigo transformar em nada de racionalmente entendível, não consigo fazer dos seus elementos metáfora de nada que me sirva para deduzir dele uma proposição lógica; mas deve ser precisamente por isso que ele me fascina. Soa a uma sentença de alguma filosofia esotérica, e talvez o seja de facto, porque também as há assim (e muitas…) incompreensíveis para os não-iniciados que não têm a chave para as decifrar. Também pode ser apenas um arremedo desse tipo de frases, um falso aforismo místico. Ou pode ser um daqueles koans zen, que se destinam mais a fazer caretas à razão que a comunicar seja lá o que for. [Bom, nem toda a gente concordará comigo e eu próprio não tenho certeza nenhuma do que escrevo, devo confessar. É bem possível que pelos menos alguns koans sejam também metáforas, apenas de difícil interpretação...]

Seja lá como for, é inegável a força das imagens do arqueiro, da seta e do alvo. O alvo, sobretudo, é uma metáfora tão comum que o seu uso metafórico ultrapassa, nas línguas com que lido, o seu uso literal. Este texto não tem intenção outra que não seja juntar coisas díspares, que só têm em comum arqueiros, setas e alvos. Conto-vos a seguir uma história verídica. Quer dizer, eu garanto-vos que é verídica, mas, claro, eu compreendo de duvidarem da sua veracidade, porque os contadores de histórias não são nunca de fiar…
Arqueiro japonês, autor desconhecido, 1878 (Wikimedia Commons)






G.L. é dentista e caça cudos e impalas e búfalos e leões e hipopótamos, etc., com arco e flechas! Só elefantes é que não. Quer dizer, ele diz que se pode, mas que nunca o fez. Elefantes, caça-os com espingarda. Parece que caçar com arco e flecha, quando se matam muitos animais, não afugenta a bicharada de uma determinada zona, ao contrário do que acontece quando se caça com armas de fogo. Por isso, quando há excesso de animais de alguma espécie nalguma reserva no país onde G.L. mora e é preciso abater uns quantos desses supranumerários, as autoridades contactam-no, para ele ir lá caçá-los. E ele vai, de boa vontade – assim caça sem ter de pagar (e não é tão barato como isso, o que se paga para caçar animais destes) e presta um serviço à reserva. Agora, quando vai à caça, G.L. tem de levar quem oiça por ele os ruídos do mato – é que ele é muito surdo…

Os arcos e as flechas, fá-los o próprio G.L. numa oficina que tem lá casa. Uma coisa sofisticada e moderna. Aliás, tem de ser – é trabalho de precisão, digo-vos eu, que já lá fui visitar aquilo. Mas por que é que ele faz arcos e flechas em vez de os comprar apenas? Porque os arcos profissionais não são suficientemente bons. Os que ele faz são mais fortes e mais certeiros. Devem ser, não sei, é o que ele diz. Que ele mete as flechas todas na muche a uns bons 200 metros, isso é verdade. Ou mais, não sei.

Diz ele que, quando era jovem, podia ter ficado nos primeiros lugares do campeonato mundial e que foi mesmo por azar que não participou. Ossos do ofício… Ou melhor, dentes do ofício. Andava há dois anos a treinar para o campeonato mundial cinco a seis horas por dia, depois das horas de serviço. Tinha, ao que diz, marcas excelentes e até possibilidades de vir a ficar nas medalhas. Dois dias antes de partir para os campeonatos, estava a trabalhar sem óculos, saltou-lhe um bocado de dente infetado para o olho, e apanhou uma infeção na vista: adeus mundial. Ficou tão triste, tão desiludido que abandonou o tiro ao arco de competição.

O meu texto acaba aqui. O resto é a ilustração que enfeita a página e dois vídeos do YouTube (ambos em inglês).

O primeiro é sobre a ciência da flecha e do seu percurso, que é bastante interessante. Antes de ver este vídeo, não sabia que, embora a linha que vai do arco ao alvo seja reta, a trajetória do corpo da flecha o não é. E claro, não tinha sequer pensado, sequer, na questão fundamental, que é o arco estar ali mesmo no meio, entre a cauda da flecha, com que se visa, e o alvo. (G.L. usa um arco como o que se vê no vídeo a 3'30'', que não se intromete entre o atirador e o alvo.)



O segundo vídeo é sobre uma espécie de artista de circo, um arqueiro dinamarquês que desenvolveu técnicas espetaculares de tiro ao arco, que, diz ele, são as que usavam os arqueiros de antigamente, para caçar e em combate.

30 de maio de 2015

"Espiritual negro"

Flak apresentou anteontem [28.05.2015] o seu segundo álbum a solo, Nada escrito, que aconselho. Não é bem para fazer publicidade ao disco, porém, que aqui o refiro[1], mas para, a propósito da letra de uma das canções, vos falar um pouco da minha experiência de um período muito difícil da vida do Zimbábuè[2].

O texto original do que veio a ser a letra de “Vi escrito a fogo”[3] é o seguinte:
Vi escrito a fogo na água: / Vê a mágoa à tua volta! / Que ela seja mais que mágoa,
Que seja fé e revolta. // Nunca a gente desespera, / Chora só, e ri e espera / Que nos pague quem nos deve / Que a vida seja mais leve / E que haja quem que nos leve / A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! // Vi escrito a fogo na terra: / Olha bem ao teu redor, / Faz por ti a tua guerra, / Nunca por nenhum Senhor // Nunca a gente desespera / Chora só, e ri e espera / Que a dor que sempre teve / Seja algum dia mais leve, / E que haja quem que nos leve / A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! // Vi escrito a fogo no ar: / Vem, irmão, vamos embora / Vamos abrir este mar, / P’ra passar, chegou a hora!
No documento original, o texto chama-se “Espiritual negro”, tem a data de 13 de novembro de 2008 e foi escrito em Chinhoyi, no Zimbábuè. Isto ajuda a compreender o texto. Ou a intenção com que o escrevi.

Lembro-me de que, da primeira vez que fui ao Zimbábuè, em 1997, vi um artigo num jornal cujo título era “Estradas apresentam sinais de deterioração”. «É ao contrário de Moçambique», comentei eu, «lá a deterioração apresenta sinais de estrada.» Cinco anos depois do acordo de paz, uma grande parte das infraestruturas continuava por reabilitar e faltavam, aqui e ali, pontes e troços de estrada. Lembro-me de demorar quatro horas para fazer 32 quilómetros de Nicoadala a Quelimane, num camião. A rede comercial também estava ainda por restabelecer, em parte devido ao mau estado das estradas. Fora das maiores cidades, continuava a haver escassez da maior parte dos produtos. As viagens eram difíceis. Era preciso ter algum espírito de aventura para ir a certos sítios, até porque às vezes não se sabia se se ia encontrar onde dormir ou comer.

Por isso, entrar no Zimbábuè, nessa altura, era como entrar noutro mundo. Tudo funcionava bem, havia de tudo – pelo menos para quem tivesse dinheiro. É claro, havia também coisas que nos impressionaram muito negativamente. Escrevi, numa carta de novembro desse ano, que, muitas vezes, o Zimbábuè se parecia estranhamente com a Rodésia[4]:
Nas livrarias de Harare, ao lado da biografia do Mandela, A road to freedom, via se um outro livro, cujo tema posso apenas adivinhar: Rhodesians never die. E deve ser verdade. O país ainda é dos brancos e ainda é um país de apartheid. Há restaurantes para brancos e turistas e restaurantes para “indígenas”. A expressão indigenous é comummente usada pelos zimbabueanos. Em Moçambique, se se pergunta por um restaurante, ou há ou não há. No Zimbábuè, às vezes há, mas não é para brancos, porque só tem comida “indígena”. (…)
Não há terra que chegue para as pessoas cultivarem, porque a terra é toda dos farmeiros brancos. Bem, quase toda. O governo começou agora um programa de redistribuição da terra, que tem dado broncas atrás de broncas: os brancos estão descontentes, obviamente, por estarem a ser expropriados, e a população e a comunidade internacional também, porque a terra expropriada está a ser entregue a ministros e generais do Sr. Mugabe...
E acrescentava mais algumas impressões de turista, num texto de outubro do ano seguinte, escrito numas férias em Bvumba:
A população negra trabalha aqui invariavelmente nas quintas dos brancos. O sistema é de tipo feudal: as aldeias dos trabalhadores são dentro da propriedade do senhor, bem como as suas machambas, normalmente terrenos pequenos, na periferia das plantações (...). Uma parte das infraestruturas para os trabalhadores, incluindo, sempre, as suas casas, poços e lavadouros, e, às vezes, escolas e postos de saúde, são fornecidos pelo “senhor”. Mas, como estas infraestruturas nem são piores que as infra-estruturas públicas das chamadas zonas comunais, não é amanhã a véspera do dia em que rebente aqui uma jacquerie ou outra revolução qualquer. E os zimbabueanos brancos lá vão jogando o seu ténis ou o seu senúcar ao fim da tarde, no clube local, que tem um empregado de libré vermelho e tudo, e uma vista maravilhosa sobre a montanha...
A desvalorização do dólar zimbabueno tinha já começado nessa altura, vejo agora ao reler estes textos. E a queda da qualidade de vida:
Além disso, a vida no Zimbábuè, sobretudo com esta desvalorização constante que o dólar zimbabueano tem sofrido ultimamente, é muito barata. Quer dizer, para nós... Os zimbabueanos, que até tinham, em geral, uma vida bastante razoável comparada com a dos outros povos da África Austral, estão cada vez pior...
É claro, era uma desvalorização que não se podia comparar com o que viria depois. Aliás, o que veio depois estava fora do alcance mesmo da mais delirante imaginação. Quando voltámos a Moçambique em 2006, para aí vivermos 5 anos em Chimoio, o Zimbábuè era um país irreconhecível. Escrevi eu nessa altura:
A situação de dois dos países vizinhos, o Zimbábuè e o Maláui, deteriorou-se tão drasticamente que Moçambique, que tinha um nível de vida muito inferior a ambos, lhes passou claramente à frente. Uma das implicações que isso tem é que as correntes de emigração se inverteram: em vez de serem os moçambicanos a emigrar para o Zimbábuè e para o Maláui, são os zimbabueanos e os malauianos a virem procurar a sua sorte em Moçambique. E não só gente pobre – também os farmeiros brancos do Zimbabue se vieram tentar estabelecer do outro lado da fronteira, quase todos nesta província de Manica, que é das que tem mais potencial agrícola. Entre 2001 e 2004, instalaram-se 42 zimbabueanos (entre particulares e firmas) aqui na província. Falou-se do “milagre de Manica”: de repente, havia aqui montes de gente a fazer agricultura industrial, o que produz forçosamente desenvolvimento: 5000 postos de trabalho assalariado, mesmo mal pago, são ouro numa terra onde o que mais falta é dinheiro. Além disso, abriram unidades de processamento para exportação de rosas e legumes, e para produção de óleo de girassol e produtos lácteos para o mercado local e regional, que criaram centenas mais de postos de trabalho. Mas, a partir do ano passado, os zimbabueanos começaram a abandonar Moçambique. Neste momento, restam aqui em Manica meia dúzia de famílias, as mais teimosas[5].
Mas não tinha ainda ido ao Zimbábuè, quando escrevi isto. Eis um excerto de um texto de março do ano seguinte, depois da nossa primeira viagem ao Zimbábuè:
No Zimbábuè, muito provavelmente, o pior ainda está para vir, por muito que seja difícil imaginar a situação pior do que está. Fomos lá uma vez e nem queríamos acreditar no que víamos. Se há alguém que, com toda a propriedade, pode afirmar que não é deste mundo o seu reino, não há dúvida que esse alguém é Robert Mugabe… 
À primeira vista, está tudo igual, ou quase: as estradas e as infraestruturas em geral continuam a parecer muito melhores do que em Moçambique, as enormes propriedades agrícolas à beira da estrada continuam a parecer – e são, com certeza – muito mais desenvolvidas do que as farmas moçambicanas. Bom, tinha-nos chocado um bocado termos de pagar, entre dois adultos, três crianças e um carro, 125 dólares só para entrar no país. Mas, por muito que tivéssemos ouvido dizer vezes sem conta que o país estava muito mal, só nos apercebemos de como o país estava quando chegámos ao fim da tarde ao nosso destino, a pequena cidade de Chinhoyi, uns duzentos quilómetros a oeste de Harare. 
A primeira e maior surpresa foi que, como estrangeiros não residentes, não podíamos pagar o hotel com dólares zimbabueanos – tinha de ser em divisas. Agora, ao câmbio oficial, que é, claro está, o único que se pode usar nesta situação, o preço de um quarto chungoso, bastante chungoso até, era de 385 dólares americanos, isto é, para quem não está habituado a dólares, cerca de 295 euros! De longe, o quarto de hotel mais caro que pagámos, tanto eu como a Karen, em toda a nossa vida. E ficámos praticamente sem um tostão. Era preciso trocar com urgência, no mercado negro, o pouco dinheiro que nos restava, para ver se conseguíamos comer qualquer coisa, mas à noite, numa cidade pequena, sem conhecer ninguém, não sabíamos o que fazer. Acabou por ser uma senhora qualquer que passou na rua que nos vendeu os dólares zimbabuenos a metade do preço oficial. E assim, os pratinhos de esparguete que comemos ao jantar, mais a garrafinha de litro e meio de água para os cinco, ficaram-nos em cerca de 17 euros em vez dos 34 que seriam ao câmbio oficial.
Descobrimos no dia seguinte que, ao câmbio real, o dólar zimbabueano é entre 10 e 15 vezes mais barato do que ao câmbio oficial. Quer dizer, se nós fôssemos residentes no Zimbábuè e pudéssemos pagar em zim dollars, o preço real da nossa dormida teria sido entre 20 e 30 euros, o que já era mais aceitável… Mesmo assim, ao preço real, a vida é impossível para os zimbabueanos. Segundo eles dizem, o salário mínimo dá para uma família comer um dia. Mas também, que interessa isso num país onde há mais de 80% de desempregados? A inflação, oficialmente, foi de 1600 por cento no ano passado (a mais alta do mundo, claro está), mas há produtos que duplicam de preço de semana em semana. Os restaurantes já não têm preços fixos, porque o preço dos pratos aumenta de refeição para refeição. Harare é, segundo o Economist, a cidade mais cara do mundo, embora seja a capital de um dos países mais pobres!
Evidentemente, o turismo desapareceu, como vão desaparecendo os zimbabueanos que têm alguma possibilidade de sair do reino de Mugabe para fora. E Mugabe e os seus generais mantêm-se firmes no poleiro – com boicote internacional ou sem ele, com um país a apodrecer-lhes nas mãos, com a indústria e a agricultura, que eram poderosas na região, a esboroarem-se completamente, o que é que isso lhes interessa? Eles estão bem, porque o reino deles é dum mundo diferente do dos desgraçados dos seus compatriotas que não sabem o que fazer à vida. É dum mundo só deles…
Meses depois, uma descrição atualizada da situação:
O país tornou-se surrealista: o valor do dólar zimbabueano no mercado negro era, até 6 de Setembro [de 2007], mil (mil!) vezes mais baixo do que no mercado oficial: no banco um dólar americano valia 250 dólares zimbabueanos; no mercado negro valia 250 000. Depois, o dólar zimbabueano foi repentinamente desvalorizado de tal forma que um dólar americano passou a valer 30.000, mas, como esse pseudoajuste fez disparar para mais do dobro o dólar americano no mercado negro, agora o valor oficial do dólar americano é só (!) 20 vezes menos do que o câmbio real. Conseguem imaginar uma coisa assim?
Desta última vez, vimos já as lojas e as bombas de gasolina todas vazias. Para quando a rutura? «Bom, isso em África, não existe, não é?», dizia-nos alguém. «A situação pode piorar sempre mais, que a malta vai-se sempre desenrascando – cada vez pior, é certo, mas sem chegar a nada que se possa chamar uma situação de rutura…» Pode ser que sim, pode ser que não. 
Nunca tive uma nota destas, mas tive algumas com muit000000000s zeros (Imagem: Wikimedia Commons)
Imaginem o que é fazer 800 quilómetros de estrada sem ver ninguém na rua, sem ver uma loja aberta. Meia dúzia de pessoas em Harare, uma outra loja, mas literalmente nada no resto do caminho. Um cenário mesmo daqueles filmes de ficção científica em cenários pós-apocalípticos. Ninguém. Faz medo. Faz mesmo medo.

Em finais de 2008, veio visitar-nos a Chimoio um amigo inglês, que aproveitou para dar um saltinho a Harare, para visitar uns amigos que não via há muito tempo, uma senhora inglesa casada com um senhor zimbabueano. A senhora era professora universitária e o senhor, ex-combatente do ZANU, ocupava-se da farma onde viviam. O meu amigo veio de lá descorçoado. O salário mensal de um professor universitário, disse-me ele, dava para comprar três quilos de arroz.
«E a cabeça daquele homem», indignava-se ele, «ele não compreende, não compreende.»
Nas discussões que tinha tido com o amigo, com muito cuidado para não ofender o hóspede, o ex-combatente insistia que era óbvio que Mugabe não podia entregar o poder à oposição:
«Eles não fizeram nada, como é vão agora mandar no país? Fomos nós que acabámos com a Rodésia, não eles. Fomos nós que fizemos o Zimbábuè, vamos agora entregar-lhes o país?»
Costumo usar ironicamente a expressão «A revolução a quem a trabalha!» para designar esta atitude, que não existe apenas no Zimbábuè, infelizmente.

Depois de um processo eleitoral longo e violento e de muitas pressões e negociações, acabou o ZANU por ter mesmo de partilhar o poder com a oposição, cujo dirigente foi nomeado primeiro-ministro em fevereiro de 2009; mas não parece ter havido mudanças políticas significativas. A vida começou a melhorar um bocadinho, quando, em janeiro de 2009, começaram as divisas a circular oficialmente e o dólar zimbabueano desapareceu. Pagava-se tudo em dólares americanos ou randes, às vezes pagava-se numa moeda e recebia-se o troco na outra. Como estará agora aquele país? Li no outro dia que Mugabe quer indemnizar os agricultores expropriados. O que há de uma pessoa pensar de uma coisa assim?

Quero notar que houve quem não visse apenas resultados negativos do processo de “redistribuição” de terra. Não sei o suficiente do assunto para tomar posição sobre esta análise, como também não tenho conhecimentos para tentar fazer aqui uma análise política rigorosa de causas e motivações desse processo e da crise. Se não sabem nada sobre o Zimbábuè, também não quero que fiquem com a ideia que a violência do regime de Mugabe se abateu apenas sobre os poderosos farmeiros brancos, ou, como muitas vezes se salienta, sobre o grupo étnico ndebele. Nada disso. Foram vítimas de repressão todos os que se lhe opunham.

Aquilo que testemunhei foi um país em ruínas e pessoas na miséria, sobretudo as mais pobres. A ideia das imagens bíblicas na letra da canção veio-me do muito contacto que tive com imigrantes zimbueanos em Chimoio – não farmeiros brancos, que, esses, não os conheci, mas gente de todas as classes que tinha fugido a uma vida que já não se aguentava. Fiquei com a ideia – que já tinha, aliás, das minhas viagens ao Zimbábuè – de que é um país muito cristão. De que é gente habituada a sofrer, também não tenho dúvida nenhuma: «Babilónia, cativeiro, sempre assim foi toda a vida.»
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[1] Mas, claro, um bocadinho de publicidade é um efeito secundário positivo...
[2] Enquanto não escrevo um texto que tenho pensado sobre algumas propostas ortográficas que acho mal o AO90 não ter integrado, reitero aqui este desvio: uso a norma consagrada por muitos topónimos moçambicanos, que é a que para mim faz mais sentido (ver aqui)
[3] A letra que Flak canta é a seguinte:
Nunca a gente desespera, / Chora só, e ri e espera / Que nos pague quem nos deve / Que a vida nos seja leve / E a morte suave e breve (os três versos itálico são substituídos na segunda parte da cantiga por apenas dois: Que a dor que a gente sente / Seja algum dia mais leve) / E que haja quem que nos leve/ A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! / Vi escrito a fogo na água: / Vê a mágoa à tua volta! / Que ela seja mais que mágoa, / Que seja fé e revolta. / Vi escrito a fogo na terra: / Olha bem a teu redor, / Faz por ti a tua guerra, / Nunca por nenhum Senhor.
Que se modifiquem versos, se altere a estrutura do texto e se omitam partes (uma quadra, neste caso) ou mesmo que se acrescentem versos ou estrofes não é anómalo quando se compõem canções a partir de letras já escritas. Reconhece-se obviamente o esquema – não será o mais comum, mas também não é tão raro como isso – em que uma estrofe quase-refrão se altera um pouco de cada vez que aparece. É também óbvio que, assentando o esquema destes “refrães” nos quatro elementos clássicos, escolhi repetir sempre o fogo, relacionando-o, de cada vez, com um dos outros elementos, a água, a terra e o ar. Porque decidi destacar o fogo, não sei, já não me lembro. Provavelmente, a ideia que me surgiu para o refrão (e para a letra no seu todo) foi «Vi escrito a fogo…», ainda antes de decidir usar os quatro elementos. 
[4] Todos os excertos de textos meus que aqui incluo são de cartas coletivas, um boletim informativo sobre a minha vida, se se pode dizer assim, que, em certos períodos da minha vida, enviava aos amigos com alguma regularidade, primeiro em papel e depois por correio eletrónico. Chamaram-se Crónicas do Alto Molócué, Crónicas de Camargo, Crónicas de Copenhaga e Crónicas de Chimoio. Cada carta incluía, além do texto igual para toda a gente, uma parte pessoal.
[5] Foram apontadas várias causas para o fracasso do “milagre de Manica”: a insuficiência do investimento inicial, porque muitos farmeiros zimbabueanos estavam completamente descapitalizados; o peso da legislação moçambicana; a falta de apoios e infraestruturas a que os zimbabueanos estavam habituados, desde combustível subsidiado (como em muitos países, aliás) a estradas e a controlo fitossanitário; a falta de pesquisa sobre espécies adaptadas ao clima e ao solo locais; e o facto de os zimbabueanos não terem contactos entre a elite moçambicana nem falarem português – nem terem aceitado que isso é mesmo necessário em Moçambique…

27 de maio de 2015

Cidades com artigo e combate ao tédio

Sobre os nomes de localidades que têm artigo definido, dizem às vezes os professores de português aos seus alunos estrangeiros que, se o nome do lugar significa alguma coisa além de referir a localidade, leva artigo; senão, não leva. O Porto é o exemplo mais comum. Mas não é verdade: ninguém diz “o Castelo Branco” nem “a Vila Franca”, e diz-se “a Bobadela” e “a Azambuja”…

Não há de facto regra nenhuma para o uso de artigo com os topónimos e há até muita oscilação de falante para falante: se todos estão de acordo que se diz “a Beira” (e, consequentemente “na Beira”, “pela Beira”, “da Beira”, etc.) e que nunca se diz “o Faro”, já há quem diga, por exemplo, “o Chimoio” ou só “Chimoio” (“vivo no Chimoio” ou “vivo em Chimoio”), “o Maputo” ou só “Maputo” (“ela está no Maputo” ou “ela está em Maputo”), “a França” ou só “França” (“estivemos em França” ou “estivemos na França”), “a África” ou só África(“viveu muito tempo em África” ou “viveu muito tempo na África”), “o Algueirão” ou só “Algueirão”. Neste último caso, se alguém me disser que esteve “em Algueirão”, fico logo a saber que não é dali da zona; mas não fico nunca a saber nada de uma pessoa por ela usar ou não o artigo em Chimoio ou Maputo… 

Talvez fosse boa ideia, não sei, que se aceitasse que o artigo faz parte do nome, como se faz às vezes em França (Le Mans, Le Puy-en-Velay, Le Havre, Les Vans...): « Je viens du Puy, je vais au Mans et puis après au Havre »). Uma proposta brincalhona que ouvi várias vezes aos meus alunos estrangeiros é que, nas placas com os nomes das localidade, se ponha por baixo de cada uma “cidade/vila/etc. com artigo/sem artigo” conforme o caso: “Luanda – cidade sem artigo”; “Rio de Janeiro – cidade com artigo”; “Chimoio – cidade com ou sem artigo, à vontade do freguês…” Não sei se estão a ver…

Agora, porque é que os professores dão a tal regra aos alunos, se não é verdade? Bom, há alunos que ficam apreensivos quando se lhes diz “não há regra”. Ou mais ainda, creio eu, se se lhes diz “não sei a regra” ou “não quero dizer a regra”. (Na realidade, é bem possível que se conheça uma regra que o professor não sabe ou que a regra, por provável que seja a sua existência, seja desconhecida de toda a gente; ou que o professor até saiba a regra, mas que ela seja demasiado complicada para quem não tenha um nível muito elevado de conhecimentos de língua…). Mas nem sempre é por causa dos alunos. Também há professores que não gostam de dizer “não sei”. Conheço casos (felizmente raríssimos) de professores que inventam regras estapafúrdias só para não dizerem que não têm regra para dar. Tudo isto é bastante inútil, enfim, na maior parte dos casos, porque a grande maioria das pessoas não aprende a usar a língua tomando consciência das suas regras – mas isso é outra conversa. Outra conversa também, com uma relação mínima com o que fica para trás, é a que se segue:

Estávamos no outro dia, como sempre acontece quando se juntam pessoas que trabalharam muito tempo com cooperação para o desenvolvimento, a tentar avaliar as razões da sua falta de eficácia e a alvitrar formas possíveis de a melhorar. A certa altura, alguém comentou que as grandes mudanças de políticas de cooperação para o desenvolvimento não resultam da constatação no terreno de que a estratégia utilizada não está a funcionar, mas de uma ideia inovadora, num gabinete qualquer, de alguém que não tem de facto informação sobre o que está ou não a resultar. Isto fez-me pensar nos professores e na evolução das técnicas e materiais.

É claro que há muita investigação feita sobre aprendizagem e que essa investigação se reflete nas reformas educativas – nos programas e nos materiais disponíveis, elaborados em função de metodologias específicas. Já há muito tempo que assim é, aliás, e assim deve continuar. Mas, a um nível mais local, digamos assim, notei muitas vezes que se muda – sem saber, sem poder saber, o que se está a fazer bem e a fazer mal – apenas porque se quer variar, porque se está farto do tédio e da rotina, porque se quer fazer uma coisa nova, experimentar uma ideia que se teve, por mais indocumentada que seja a sua eficácia.

E está muito bem assim, porque não? Também conta na aprendizagem (não sei se muito, mas um bocadinho) o entusiasmo com que o professor incentiva o aluno a aprender – um professor que gosta do que faz. Tudo o que contribua para ele não se deixar enredar na rotina e no tédio está muito bem…

P.S.: Não depreendam daqui que a minha experiência me diz que os professores gostam, em geral, de passar a vida a mudar o que ensinam e como o fazem. Até há alguns que, pelo contrário, barafustam de cada vez que têm de mudar seja lá o que for…