21 de Setembro de 2014

Breve recensão de Uma vida chinesa

(e algumas considerações sobre as expressões banda desenhada e novela gráfica)

Nos anos 60, surgiu, em inglês, a expressão graphic novel para designar um certo tipo de banda desenhada a que se aplicavam mal as designações tradicionais, como comics ou funnies. Só em finais da década de 80, porém é que a expressão começou a ter grande divulgação. Não sei com que prontidão as expressões romance gráfico e novela gráfica foram adotadas em português (a primeira mais no Brasil, a segunda mais em Portugal), mas são hoje expressões habituais. Quero fazer aqui duas pequenas observações, antes de passar ao romance gráfico que aqui me traz:

A primeira é sobre a designação portuguesa das narrativas com sequências de figuras complementadas ou não por balões e caixas de texto. Banda desenhada, a expressão que uso por (mau!) hábito, parece-me bastante infeliz. Má tradução de bande dessinée, usando os cognatos das palavras da expressão francesa, banda desenhada refere de facto as historietas que eram publicadas em tiras diárias ou semanais – e erradamente, porque sempre lhes ouvi chamar tiras, precisamente, e nunca bandas. É preferível, apesar de tudo, a outra designação mais popular de histórias aos quadradinhos, embora seja melhor ainda a expressão brasileira, histórias em quadrinhos, pela preposição em (em episódios, em fascículos, etc.) e pelo nome, já que é de quadros e não de quadrados que se trata.

A segunda nota é sobre as expressões romance gráfico e novela gráfica. Também novela gráfica é uma má tradução usando o cognato português da palavra inglesa novel, e romance gráfico é que é, pois, a tradução correta. Agora, é certo que, pela relativa linearidade do enredo e pela sua brevidade, os romances gráficos são antes, na maior parte dos casos, contos gráficos ou novelas gráficas.

E este segundo apontamento traz-me, precisamente, à história de que vos quero falar, Une vie chinoise, de P. Ôtié [Phillipe Autier] (guião) e Li Kunwu (desenhos)*: acabo de ler um verdadeiro romance gráfico – 723 páginas, uma BD de fôlego.

Uma vida chinesa é uma a quase-autobiografia do ilustrador Li Kunwu e pretende ser a história da vida de “um chinês comum” como exemplo da vida dos chineses entre 1955 e 2010. Mas não tem ambições de ser descrição histórica ou análise sociológica: é apenas uma sucessão relativamente fragmentada de episódios de vida, de várias vidas. O autor do guião, o francês Phillipe Autier, recusa-se a fazer de Li Kunwu e das outras personagens principais apenas tipos sociais planos; e as personagens têm, dentro dos limites deste tipo de narrativa, uma relativa densidade.

Há quem acuse esta obra de repetir o que Li Kunwu fez toda a vida: propaganda do Partido Comunista Chinês. Não me parece que se o possa afirmar, até porque há partes de crítica veemente; mas a obra não é vazia, se não de óbvia exaltação, pelo menos de defesa do Partido Comunista. A dada altura, no terceiro volume, surge de repente esse tipo especial de construção em espelho em se assiste à discussão e criação da própria obra. Parece tratar-se de uma solução para um impasse: Otié e Kunwu discutem o que dizer de Tiananmen. Nessa história da história (com desenhos sombreados a cinzento, para não se confundirem com o resto da narrativa**), diz-se que houve em todo o guião uma vontade de objetividade. Pode bem ser. Provavelmente, a postura de Li Kunwu em relação ao partido, a si próprio e aos seus próximos parecerá crítica à maior parte dos leitores, mas ele está, o mais das vezes, a contar só o sucedido, sem o avaliar. De Tiananmen, porém, diz Li Kunwu que não sabe muito, que não conhece ninguém que tenha participado, que é uma coisa sem importância, enfim, e que já foi há tanto tempo... E parece-me indesculpável, esta desculpa. Tão indesculpável como a afirmação de que a China precisa de sossego e que, sejam quais forem as decisões e as políticas do governo, é preciso acatá-las sem causar conflitos, a bem do país...

Ainda assim, dos aspetos mais caricaturais aos mais tenebrosos, dos desmedidos anseios aos desenganos, num olhar que é, ao mesmo tempo, de simpatia e de crítica, externo e interior, não há nada muito linear em Uma vida chinesa e a única coisa que é mesmo a preto e branco é o excelente desenho de Li Kunwu – um traço em que se fundem a tradição de ilustração clássica chinesa, a estética épica e kitsch da propaganda comunista e uma vontade de modernidade que perverte esses dois conjuntos de convenções.


Agora, pode discutir-se se vale a pena uma banda desenhada tão longa para contar o que esta conta. Talvez a narrativa se arraste demasiado, aqui e ali. Mas, no geral, não se sente que perde ímpeto ou que se despacha no fim, como acontece às vezes às narrativas longas. A mim, o desenho de Li Kunwu não me cansa e achei o 3º volume o mais bonito do ponto de vista gráfico.
Tenho pena de não poder apresentar-vos aqui uma seleção minha de partes da obra. Como o formato dos livros não me permite digitalizar as imagens com qualidade, tive de me limitar ao que encontrei na Internet com uma resolução razoável. Mas espero que chegue para dar, a quem não conhece Uma vida chinesa, uma ideia da estética de Li Kunwu e vontade de ler a obra.

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* Edição original: Paris: Kana (Dargaud-Lombard, 2009 (tomo 1 e tomo 2); 2011 (tomo 3)
** Pode ler-se/ver-se esta parte da obra na terceira secção do artigo de Nick Stember “Putting 25 Years of Silence in Context with Comics and Animation”

19 de Setembro de 2014

É extraordinário…

…que eu, que testemunhei tantas vezes o insólito (vi uma vez um lama na praça central de uma pequena aldeia provençal!), nunca tenha encontrado na vida um deus, um extraterrestre, uma alma de outro mundo…

[Sem palavras]


A morte – a nossa, a dos nossos, a de todos os outros – é aquilo que mais importa na vida e, por isso, aquilo de que mais importa falar; e é também aquilo de que nada importante se consegue dizer.

Quando chego ao fim da frase, duvido do que isto seja verdade para toda a gente. É preferível dizê-lo na primeira pessoa:
A morte é aquilo de que mais me importa falar e de que não sei dizer nada importante.

11 de Setembro de 2014

Notas avulsas sobre regras e exceções

Pois é: sabemos que é paradoxal a regra “não há regra sem exceção” (se toda a regra tem exceção, então essa regra tem de ter uma exceção, que é a regra sem exceção, pelo que nem toda a regra tem exceção), mas continuamos, nem que excecionalmente, a aceitar como regras regras com exceções, não é verdade?

Nisto de regra e exceção, há, por regra, alguma confusão. Muitas vezes, a confusão advém de a palavra regra ter dois significados (ou mais, mas que não importam nesta discussão), conforme se aplique ao que as coisas são (as leis da Física, por exemplo) ou ao que as coisas devem ser (por exemplo, o Código Civil). Na discussão sobre língua, para puxar a brasa à minha sardinha, uma coisa são as regras que constatamos ao estudar a capacidade humana da linguagem e cada uma das línguas particulares em que esta capacidade se organiza e manifesta, e outra coisa diferente é a norma ou normas linguísticas vigentes numa determinada sociedade. Quando digo que, no português europeu, a marca de plural toma a forma /ʃ/, /ʒ/ ou /z/ consoante o som que se lhe segue, estou a enunciar uma regra do primeiro tipo (leiam respetivamente ch, j e z, se vos atrapalham estes símbolos fonéticos e, se vos parecer estranho, atentem em como pronunciam o s a negrito em “as casas castanhas”, “as casas brancas” e “as casas azuis”). Mas, se alguém disser, por exemplo “não se deve dizer «pode-se dizer», deve dizer-se «pode dizer-se»” está a propor uma (discutível) regra do segundo tipo.

Quando se diz que uma regra referente ao mundo natural tem exceções, isso significa, em princípio, que essa regra não é uma verdadeira regra, mas sim uma pseudorregra simplificada – porque não se conhece a verdadeira regra ou por razões didáticas, por exemplo. Quando se diz que uma regra moral (em sentido lato, incluindo as leis) tem exceções, estamos a constatar que há quem não a respeite ou a acrescentar uma adenda à regra, uma regra suplementar: “esta regra pode não se respeitar nas seguintes condições:..”

A célebre máxima “as leis existem para ser violadas” não passa, ainda assim, a ter valor de verdade quando se constatam que existem, na maior parte dos casos, adendas às regras, que se percebem como exceções ou simplesmente desrespeito pontual das mesmas regras, pelos mais variados motivos. Ser violada não é finalidade de regra nenhuma nem seu constituinte necessário, é apenas um acidente extremamente frequente – se me perdoam a disparatada cacofonia…

Parece-me claro que, para a maior parte das regras – mesmo para as leis escritas –, se pressupõe, ou deveria pressupor-se, que deve ser o bom senso a imperar na sua aplicação. Eu, por exemplo, tenho para mim que a regra de não atravessar a rua quanto o sinal está vermelho só se deve de facto respeitar quando se verifica pelo menos uma de três condições: i) haver crianças por perto ou outras pessoas que ainda estão a aprender a interiorizar a regra, porque senão aprendem o que não devem; ii) haver veículos a circular na faixa de rodagem, porque senão pode ser-se atropelado ou causar acidente; e iii) haver por perto algum agente da autoridade, porque senão pode ser-se multado ou punido de outra forma. De resto, não há razão para não atravessar.

Como dizia uma amiga minha, se é importante, ao educar uma criança, ser firme na imposição de regras (para a criança interiorizar o conceito de regra e, em certos casos, para aprender as regras em questão; e ainda, numa perspetiva mais imediata, para facilitar a vida aos educadores e à própria criança), também é importante abrir uma por outra vez exceções às regras impostas, para a criança aprender que uma regra não deixa de o ser quando é esporadicamente desrespeitada.

2 de Setembro de 2014

A angústia do guarda-redes na altura do penálti

[O título é mais conhecido que a obra, creio eu – ou as obras, seja, porque há o livro de Peter Handke e o filme que Wim Wenders fez baseado no livro. Eu, pelo menos, conheço o título sem nunca ter lido o livro nem visto o filme, infelizmente. Assim sendo, não sei como se deve interpretar o título no contexto da obra e quero deixar claro que o que se segue não diz, de modo algum, respeito às obras de Handke e Wenders, mas apenas... à angústia do guarda-redes na altura do penálti.]

O meu filho disse-me hoje que não tinha querido marcar um penálti. Tiveram que desempatar um jogo a penáltis e, em princípio, cabia-lhe a ele marcar um, mas ele não quis:
Estava sem confiança e nunca se deve marcar um penálti quando se sente falta de confiança. 
Segundo o Alexander, além de não se poder hesitar, também não se pode nunca virar as costas ao guarda-redes.
É preciso olhar sempre para o guarda-redes, de preferência nos olhos, se se puder. E tem de se manter sempre a decisão inicial – se a primeira coisa que pensámos foi chutar rasteiro para a direita, tem de se chutar rasteiro para a direita. Senão, falha-se, não há nada a fazer, falha-se mesmo!
Numa coisa estamos de acordo, ele que percebe tanto de penáltis e eu que não percebo nada:
É extremamente difícil defender um penálti bem marcado e, quanto mais não seja porque se marcam mais penáltis do que se falham, espera-se mais o golo que a defesa. Quem marca o penálti sente-se com muito mais obrigação de marcar que o guarda-redes de defender. É natural que o guarda-redes sinta alguma angústia na altura do penálti, mas é muito maior a angústia de quem o marca.

Latas de coisa nenhuma e outras novidades

Enfim uma boa notícia: água em pó! As embalagens, com cerca de 1.000 gramas, têm apenas a seguinte instrução de utilização: “basta juntar água”. 
É uma piada que por aí circula, com várias redações. Mandou-ma um amigo, com a seguinte introdução: “Olha a tanga deste…”

Este amigo fez comigo um programa de rádio nos anos oitenta. Num sketch humorístico desse programa, entrevistava ele um tal Professor Agadois do Ó (eu), que tinha inventado a água liofilizada. O sketch foi improvisado, como muitas vezes eram os nossos sketchs no programa. Eu tinha alinhavado a história da água liofilizada, expliquei-lhe qual era a ideia e improvisámos.

“Ora bem”, explicava eu, “a liofilização é um processo que permite tirar a água a qualquer substância para assim a conservar, podendo depois reconstituir-se essa mesma substância acrescentando-lhe a água que lhe foi retirada. Agora, bem vê, se tirarmos a água à água, não fica grande coisa… A bem dizer, não fica nada… De maneira que é muito leve, muito fácil de transportar, por exemplo, nos sítios onde não há água, como os desertos. Depois, em a gente tendo sede, é só juntar água e pronto, temos outra vez água!”

O que o meu amigo queria dizer quando me escreveu “Olha a tanga deste…” era, pois, que o outro chegava tarde – aquela história era uma criação nossa, há quase 30 anos. Mas parece-me improvável. Não que eu tenha ido buscar a ideia a algum lado, que não fui – inventei-a eu; mas é provável que alguém tivesse já tido a mesma ideia antes de de mim, de óbvia que é a brincadeira.


Neste momento, a ideia até já está registada. Descobri o ano passado que, a 18 de junho de 2010, foi registada nos EUA a patente de “latas vazias” de “água desidratada” como “artigo humorístico” (aceito proposta de melhor tradução para novelty item). “Verta o conteúdo da lata num galão de água, mexa até estar dissolvido, ponha no frigorífico e sirva”, diz a lata.

Na realidade, a ideia de vender latas vazias também não é original. Conheço há muito tempo as latas de ar de Paris das lojas de souvenirs de Beaubourg e descobri agora que também se vende ar do mar-alto bretão. Não sei quando começaram a produzir-se as latas de ar de Paris, mas também não são uma ideia original: numa viagem que fez aos Estado Unidos em 1919, Marcel Duchamp ofereceu ao seu amigo Walter Arensberg uma ampola de ar de Paris, que é considerada um dos seus readymades e está hoje exposta no Museu de Arte de Filadélfia.

Também não é forçoso que quem inventou as latas de ar de Paris conhecesse a ampola de Duchamp – pode ter tido a mesma ideia, como o senhor Bernard teve a ideia da água desidratada mesmo sem ter ouvido a entrevista com o Professor Agadois do Ó no nosso programa radiofónico. “O segredo da criatividade”, disse Cyril Edwin Mitchinson Joad (e de muitas maneira diferentes!), “é saber esconder as suas fontes”. Mas não é bem assim, pois não*?


P.S. 1: Um dia destes, veio-me à cabeça uma maneira de aferir a genialidade de uma criação (o grau de criatividade, se se preferir): Quanto menos vezes ela tiver ocorrido autonomamente, mais genial ela é. Dito de outra maneira: se uma criação resultar de um cruzamento de capacidades, vivências e conhecimentos tão únicos que é improvável voltarem a acontecer, estamos perante uma verdadeira originalidade, um golpe de génio, um alto grau de criatividade. Foi essa ideia que motivou este texto. Mal comecei a escrevê-lo, porém, dei-me conta de que a ideia, que, à primeira vista, parece elegante, não tem, na prática, aplicação nenhuma… Teoricamente, é possível contar as ocorrências de uma determinada criação múltipla, mas na prática isso é, em muitos casos, completamente impossível…

Além disso, há imediatas objeções à justeza da proposta. Uma é que juntar sob a designação genérica de ideia ou criação descobertas, invenções e trabalho estético é um artifício que apaga especificidades de cada um dos tipos de criação, incluindo a maior ou menor possibilidade de ocorrência múltipla independente: descobrem-se coisas que existem no mundo real, sejam elas materiais ou conceptuais, pelo que é, nesse caso, mais provável que várias pessoas venham a descobrir o mesmo. O mesmo se pode dizer de muitas invenções, que também decorrem naturalmente do contacto com o meio, como a domesticação de animais, a agricultura ou a fotografia, e são, por assim dizer, um tipo de descoberta. A criação estética é diferente e é também mais difícil definir o que é criação neste caso: cada um dos elementos da obra ou a obra no seu todo? Se é verdade que uma determinada imagem literária pode ser criada autonomamente por muitas pessoas, é impossível duas pessoas escreverem o mesmo texto.

Além disso, o conhecimento bloqueia a segunda criação: se eu sei que uma coisa foi criada, já não a posso criar. (Posso apresentá-la como minha, mas deixemos agora de lado a questão do plágio, que é outra questão.) A diferente velocidade de divulgação de várias criações impede uma comparação justa da sua originalidade.

P.S. 2: Também se tenta às vezes comparar a importância de diversas criações, sejam elas descobertas, invenções ou outras. É uma empresa sem grande sentido, convenhamos, por muito que, por vezes, dê azo a conversas interessantes. Uma coisa me parece certa, porém: a importância que possa ter uma criação não tem nenhuma relação com a sua improbabilidade. Por exemplo: a descoberta da maneira de desenhar um círculo, que é altamente provável e que, por isso, foi com certeza feita independentemente por muita gente, é, ainda assim, mais importante que a descoberta da maneira de desenhar outras formas geométricas mais complexas e mais incomuns.
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 * Já uma vez aqui tinha falado de invenções múltiplas autónomas: “Tenho muitas vezes a sensação”, escrevi eu, “de que somos sobretudo lugares onde acontecem coisas. Podemos ser um lugar onde acontece uma invenção ou uma descoberta, por exemplo – que, se não acontecer em nós, acontece noutra pessoa qualquer.”

29 de Agosto de 2014

Parole, parole, parole (três textos sobre palavras)

1. Fervor e outros estados da mente e do corpo

O nome grego zelos deu zelus em latim e zelus deu, por sua vez, uma lista interessante em português: zelo, cio e ciúmes (que veio, ao que parece de uma forma latina zelumen). Se cio se usa hoje só para o apetite sexual, em princípio de animais, já o adjetivo dele derivado, cioso, pode qualificar não só quem tem cio, mas também quem ciúmes e, mais comummente, quem tem zelo. Do significado de zelos em grego antigo (derivado de zein, “ferver”, segundo o Dicionário da Real Academia Espanhola), dizem-me os dicionários que consultei que não diferia dos significados das palavras que dele derivam: “fervor, ardor, rivalidade, nobre paixão, ciúmes”.

Estar a ferver é estar a explodir de raiva. Fervor, porém, não significa “ira”, mas “empenho, dedicação, ardor, paixão”. Ardor refere originalmente alta temperatura, como fervor. A raiva põe-nos em brasa (em brasa é o mesmo que a ferver, pelo menos no meu dialeto), mas ardemos de paixão, curiosidade e desejo, por exemplo. De desejo, mais numas línguas que noutras: o cio é calor em francês e inglês (être en chaleur, to be in heat) e, em inglês, hot é sinónimo de sexy. No meu português, curiosamente, quente significa antes “ligeiramente embriagado”...

2. Petricor
É sempre muito lento o processo de dicionarização dos neologismos, mesmo quando são úteis e bem formados, como petricor. A palavra, parece que cunhada originalmente em inglês (petrichor), em 1964, por I. J. Bear e R. G. Thomas, num artigo da Nature, é formada das palavras gregas petros, “pedra”, e ichor, “o líquido que corre nas veias dos deuses na mitologia grega”, e significa “o cheiro característico que surge com a primeira chuva após um período seco”. Todos sabemos bem o que refere.

Passados 50 anos da sua criação, e apesar de ser usada (não muito, claro, mas é usada), a palavra ainda não foi acolhida pela maior parte dos dicionários. Em inglês, o Oxford já a regista, mas outros dicionários ainda não. Em português, nos dicionários em linha que consultei, não a encontrei em nenhum… Evidentemente, há centenas de outros casos de palavras úteis que são usadas e os dicionários ainda não registam, mas apeteceu-me divulgar aqui o petricor, que é bonito no som e no significado.

3. Jinguba e amendoim

Até há dias, pensava que jinguba (ou ginguba, o Porto Editora aceita ambas as grafias) era uma palavra angolana que tinha entrado no português europeu em meados da década de 1970, quando vieram para Portugal os portugueses que viviam em Angola. No conto “O tio da América”, de Fialho de Almeida (primeira edição 1881), porém, a palavra aparece sem itálico, ou seja, como termo suficientemente corrente para ser compreendido por todos (Fialho de Almeida usa itálico para palavras que considera fora do padrão, como gíria e regionalismos): “…hoje é rico como os primeiros negociantes do Pará, despacha gomas, jinguba e óleo de palma…” O Porto Editora regista o termo como angolanismo e são-tomensismo e diz que vem do quimbundo; o Aulete em linha diz que é palavra da Guiné, mas não é. Aliás, o termo guineense para amendoim é mancarra.

Na América do Sul, de onde é natural, o amendoim chama-se quase sempre maní, que parece que é um termo taino. A palavra portuguesa vem de um termo tupi-guarani (mendubi, mãdu’bi, mãdu’i, manduí, manu-ui, mandu'wi, varia um pouco consoante as fontes), mas, para ter o a inicial, deve ter-se metido pelo meio a amêndoa, por ser fruto seco também, mas já conhecido. Cheguei lá sozinho, porque a minha intuição funciona bem para estas coisas, mas vi depois que há mais quem proponha o mesmo (por exemplo, aqui e aqui).

26 de Agosto de 2014

De objetos e objetivismo

Era eu adolescente, usava-se no meu grupo de malta a expressão objetos de curtição. Costumam dizer-se decorativos os objetos que servem apenas para enfeitar as habitações, mas, quando penso agora nisso, curtir, pelo menos como nós usávamos a palavra, implicava uma atitude menos passiva que decorar, porque decorar é o que fazem os objetos estando apenas ali e independentemente do interesse que alguém tenha neles, ao passo que, em curtir, os objetos são… objetos diretos e o verbo implicava participação ativa dos sujeitos que nós éramos. Os quartos do pessoal eram mesmo uma espécie de museus, com visitantes realmente interessados na obra exposta.

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“Não há muitas casas com objetos tão bonitos como os que nós temos a decorar a nossa”, dizia eu à Karen, enquanto lavava os vidros das janelas da sala.
“Ora”, disse ela, “isso é o que toda a gente pensa dos seus objetos. As pessoas escolhem os que acham bonitos.”
“Ok”, insisti eu, “mas, independentemente dos gostos, os nossos objetos são objetivamente mais bonitos.”
Ela riu-se.

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A quem foi educado no descontraído relativismo pós-moderno (não é o caso da Karen, não me entendam mal), qualquer proposta de absoluto pode surpreender. No outro dia, numa conversa sobre música, ficou muito admirada uma amiga minha quando eu afirmei que, deem que voltas derem ao assunto, não se pode reduzir tudo a gostos, como se Bruckner e Elton John estivessem de facto ao mesmo nível.
“É curioso”, comentou ela, “já no outro dia também ouvi alguém dizer que se pode analisar objetivamente a qualidade da música.”

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Vocês, que me conhecem bem, digam-me lá: isto sou eu a brincar ou eu a falar a sério?








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A descrição dos objetos, de cima para baixo e da esquerda para a direita: cinco tacinhas romenas, que nos ofereceu a nossa amiga Claudia; um pégaso de pendurar e, ao lado, um castiçal-bode, balineses os dois, comprados em Ubud, se me não falha a memória; uma estátua de autor desconhecido comprada em Chimoio, Moçambique; uma faca da Lapónia, com o cabo em osso de rena, prenda de Natal  do Sr. Innala em Haparanda; um trabalho da escola da minha filha Joana; uma escultura do meu sogro Kaj Lindegaard, vista de dois lados; trabalho de um artesão moçambicano que não sei quem é, comprado em Maputo; uma curiosa peça de cerâmica da Guatemala, que deve ser um vaso, mas que nunca usámos como tal; um galo que seria de Barcelos, não fosse o meu amigo Pedro Malaquias lhe ter dado uma bonita volta, para mo oferecer; mais uma escultura de autor desconhecido, também de Chimoio, que como podem ver, é terra de escultores imaginativos; e uma cabeça de pedra de sabão, também de autor desconhecido, comprada há 16 anos em Mutare, no Zimbábuè – já resistiu a quatro mudanças de continente, com várias mudanças de casa entre elas.

13 de Agosto de 2014

Cidades de som: uma página de blogue quase só musical

Nasci numa cidade grande e cresci numa simpática aldeia que rapidamente se transformou num monstruoso subúrbio. Vivi noutras cidades grandes, em cidades mais pequenas e em vilazinhas muito pequenas, quase aldeias. Agora, vivo numa aldeia mesmo aldeia e gosto muito de aqui viver. Mas podia voltar a viver numa cidade, porque continuo a gostar de cidades. E gosto também de cidades em música.

Quando Peter Sculthorpe* compôs Small Town (1963), queria “cantar todas as cidades pequenas australianas”. A peça inspira-se em parte no romance Kangaroo (1923) de D. H. Lawrence, que se passa em Thirroul (e foi lá escrito) e tem uma parte declamada que é um excerto dessa obra:
Era uma Rua Principal maravilhosa e (...) ao abrigo do vento. Havia vários hotéis castanhos, grandes mas assustadores, com varandas a toda a volta: havia uma igreja de estuque amarelo com um campanário de lata pintado de vermelho, como um estranho brinquedo: havia telhados altos e telhados baixos, todos de chapa ondulada, e chegava-se a um largo e lá estavam um ou dois bungalows abandonados atrás de vedações de madeira, e depois o vazio. (...) O memorial aos soldados caídos pela pátria (…) dizia “Não esqueceremos”. No primeiro degrau, lia-se “Inaugurado pela Avó Rhys”. Um monumento municipal a sério, com todos os nomes possíveis: os nomes dos soldados mortos, os nomes de todos que tinham envergado um uniforme, os nomes das pessoas que tinham oferecido o monumento e o nome da Avó Rhys.


Peter Sculthorpe, Small Town, com texto de D. H. Lawrence (1963) | Tasmanian Symphony Orchestra; David Porcelijn; Bruce Lamon, trompete; Joseph Ortuso, oboé; texto declamado pelo autor

Um tema que muitas vezes vem à mente de quem ouve esta peça, a julgar pela referências que lhe são feitas em comentários e críticas, é Quiet City (1940) de Aaron Copland. É claro, a cidade tranquila de Copland não é uma cidade pequena, até porque uma city não é uma cidade pequena. Quiet City foi escrita para uma peça do mesmo nome de Irwin Shaw, que se passa de facto numa grande cidade.


Aaron Copland, Quiet City (1940) | Cincinnati Pops Orchestra; Erich Kunzel

Também não se sabe qual a cidade de “Town feeling” de Kevin Ayers. Kevin Ayers nasceu e cresceu numa cidade pequena, mas nada nos diz que é da sua cidade natal que fala nesta canção.
Hoje, a cidade parece um túmulo. Toda a gente fechada no quarto. (…) Se formos passear, somos capazes de encontrar alguém. Se for alguém conhecido, dizemos “olá” e “até logo”.


Kevin Ayers, “Town feeling”, 1969

É uma grande mudança, não é?, de Peter Sculthorpe e Aaron Copland para Kevin Ayers… Mas é assim, as músicas são como as cerejas: uma pequena cidade, uma cidade tranquila, o sentimento de uma cidade...
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* Só conheci Peter Sculthorpe no passado dia 8 de agosto, quando faleceu aos 85 anos. Small Town não é com certeza uma das suas melhores peças, nem mais representativas da sua obra, mas não é exatamente da música de Sculthorpe que aqui se trata.

10 de Agosto de 2014

O paraíso na mata amazónica, mais uma vez

Dito de uma maneira muito simplificada, surgem na Europa após o Renascimento dois ideais políticos radicais que balizam toda a discussão do desenvolvimento: o ideal utópico e o ideal primitivista[1]. Se são, em grande parte, diametralmente opostos, estes ideais assentam, porém, numa visão coincidente dos outros povos com que os europeus acabavam de entrar em contacto, sobretudo os povos americanos: incompreendidos pelos europeus[2], os outros são sempre vistos negativamente – são povos que não têm alguma coisa.

Ora é precisamente em termos negativos que sempre foi definida a Idade de Ouro ou a primordial barbárie humana. Conforme se valoriza ou não as ausências “constatadas”, os outros são idealizados ou demonizados: ou são felizes porque não têm leis, roupa e propriedade ou são brutos selvagens porque não têm leis, roupa e propriedade. Quando se pensa que são as leis, o dinheiro, as hierarquias, a arquitetura, etc., que corrompem a natural felicidade e bondade humana, temos o ideal que designei como primitivista. E é curioso como, em muito do etno-romantismo[3] que por aí anda, se mantém essa definição negativa do Outro.

Esta imagem foi partilhada por amigos meus no Facebook. A foto de homens iáguas do Peru é de Chany Cristal, embora, como é costume, não seja referida a autoria[4]. Explica Chany que, “se lhes pediam, faziam com todo o gosto espetáculos para os turistas, nestes trajes tradicionais – como forma de fazer algum dinheiro e divulgar o seu antigo modo de vida. Aqui, estão a ensinar a usar uma zarabatana.”

Não sei se pensam que a zarabatana sempre se utilizou apenas para matar animais, mas não é bem assim. A ideia de que não há crimes entre os iáguas deve radicar na ideia de que não têm leis ou então na ideia que todos as cumprem – duas ideias estranhas...

É evidente que as sociedades tribais da Amazónia têm algumas coisas que a imagem diz não terem. Nem todas, é certo, mas a terra onde eu vivo também não as tem todas. Não digo que não possamos ter perdido, nas sociedades desenvolvidas, algo que a “idade de ouro” pré-desenvolvimento mantém nas sociedades mais atrasadas. É bem possível que haja sempre algo a perder com o desenvolvimento, mas o que o ideal primitivista se esquece muitas vezes de fazer é equacionar ponderadamente o que se tem a perder e a ganhar com esse mesmo desenvolvimento.

Para não entrar em discussões estéreis, vejamos o que as pessoas querem. E o que as pessoas querem em todo o mundo é a vida menos trabalhosa e mais segura, para elas e para os seus filhos. Agora, claro, só pode escolher de facto quem conhece, não é verdade? É isso que torna difícil a discussão. Poucas são as pessoas que conhecem os dois mundos em oposição, para os comparar. Tenho a impressão que são bem mais os que, depois de viverem em sociedades pré-modernas, voltam à sua modernidade original que os que, depois de experimentarem as terríveis sociedades modernas, decidem voltar ao seu primitivo paraíso. Mas é só uma impressão, não tenho maneira nenhuma de o provar...

Seja o for que os povos da Amazónia tenham de bom que nós já não temos, o certo é têm também muitas coisas más que já não temos e ainda bem que já não as temos e é uma pena eles terem-nas ainda. Cada um leva até onde quer a idealização das sociedades tribais de que a imagem que motivou este texto pretende ser exemplo, mas há que ter cuidado para não ir demasiado longe nessa idealização e não propor como ideal uma vida que, entre as muitas coisas boas que há de ter, é infelizmente muito mais breve que a nossa e se caracteriza também por muito mais escassez, doença, perigo e violência. É que, senão, parece que se está a fazer pouco da miséria, como dizia a minha avó.

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 Nota final: Quero salientar que, nos comentários ao post no Facebook, há, naturalmente, quem se insurja contra este tipo de afirmações. Por exemplo, um comentador lista algumas das coisas que as comunidades tribais amazónicas têm e ele não queria ter (e que correspondem, em grande medida, ao que eu refiro no texto como “muitas coisas más que já não temos e ainda bem que já não as temos e é uma pena eles terem-nas ainda”): vermes, parasitas e fungos de todos o tipo, alta suscetibilidade a todo o tipo de doenças invalidantes e fatais, graves problemas dentais, péssimos hábitos higiénicos, uma esperança de vida de 35-40 anos, um dia de trabalho de 12 a 14 horas, um sistema patriarcal brutal em que as mulheres são consideradas propriedade, uma mortalidade infantil elevadíssima e tendência a matar ou abandonar as crianças que nascem com deficiência congénitas. A lista podia é claro, ser maior e mais bem organizada, mas não é essa intenção deste texto. Outro comentário, realçando também a elevadíssima mortalidade de crianças e de todos os mais fracos, desafia quem concorde com esta visão idílica da vida das comunidades tribais amazónicas a passar dez anos entre elas. Lê-se ainda, num comentário, que “esta imagem … é insultuosa para a maior parte das tribos que ainda existem, porque menospreza os seus problemas”.
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[1] Para não me afastar do assunto central do texto, deixo aqui por explicar o quero dizer com ideal utópico, remetendo antes o leitor para os textos anteriores sobre esse tema.
[2] Não há razão para os europeus se autoflagelarem por isso, como às vezes fazem. É apenas o resultado forçoso das circunstâncias históricas, já que não havia, nesta altura, nenhuma possibilidade de compreender a alteridade como a compreendemos hoje e esta incompreensão estava longe de ser apenas dos povos da Europa.
[3] Pequena nota ortográfica: Surgiu-me agora a dúvida de que seja esta a grafia correta, mas, enquanto não reflito mais sobre a questão, continuo a usá-la.
[4] De certa maneira, este post é uma continuação do post anterior, sobre a leviandade do click&share nas redes sociais. Mas é mais que isso: é a continuação de uma reflexão antiga sobre primitivismo/etno-romantismo e as relações com a alteridade em geral.

7 de Agosto de 2014

De lugares demasiado comuns (relambório com interlúdio musical)

Ena, o que para aí anda de sabedoria em pacotes a circular na Internet e por correio eletrónico!

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A exortação a sermos nós próprios, por exemplo, deve ser do que mais recorrente há dessa internética filosofia de algibeira. Já se sabe que a ideia de uma identidade essencialmente dualista é cara à maior parte das pessoas: parece que há o que nós somos de facto e o que nós somos sem ser de facto, mas não sei bem o que é uma coisa e a outra. Aliás, isso nunca é explicado, provavelmente porque não há nada a explicar. Pode alguém ser quem não é? Mesmo quando se finge ser outra pessoas, vá, caso extremo, somos nós a fingir, ou não? E se fingimos é porque somos, de facto, fingidores. Mas enfim...

É certo que uma frase muito divulgada sobre o tema é também “Sê tu próprio. Os outros já estão todos ocupados”, que resume, com saudável ironia, tudo o que há a dizer sobre o assunto, mas não chega para neutralizar os disparates[1].

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Outra ideia estranha muito divulgada nas redes sociais é a da oposição entre ser e ter. Digo outra ideia, mas ela segue, em grande medida, a oposição que referi no parágrafo anterior entre algum eu essencial e outro eu acessório e falso: o ser é o essencial e o ter é o acessório, o descartável. Evidentemente, louva-se o ser e, conforme o grau de radicalismo do aforismo, exorta-se a desvalorizar ou a abandonar o ter.

A realidade é, infelizmente, um bocadinho mais complicada: ter e ser são muitas vezes usados como léxico alternativo a predicações iguais: ter uma grande inteligência ou ter uma grande capacidade é a mesma coisa que ser muito inteligente ou ser muito capaz. Mesmo que limitemos o ter ao seu sentido material de “possuir, ser dono de” e restrinjamos o seu “complemento direto”[2] a palavras que referem objetos materiais, nem tudo se torna tão claro como alguns pretendem que seja, porque ter muitas coisas é ser rico e ter poucas coisas é ser pobre e, segundo a lógica que se propõe, parece que é preferível ser rico ou ser pobre a ter respetivamente muitas coisas ou poucas. Pensar que o que se tem só acessoriamente nos define (no tal estranho sentido do não fazer verdadeiramente parte do nosso ser) é uma proposição indefensável, creio eu: a riqueza, a posição social, o poder, enfim, – ou a sua falta! – modelam obviamente o mais essencial no nosso ser, seja lá isso o que for.

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Outra ideia com grande fortuna é o elogio da “loucura”, sobretudo através de uma citação de Jack Kerouac:
As únicas pessoas para mim são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que nunca bocejam nem nunca dizem um lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem, como fabulosos fogos de artifício explodindo com aranhas entre as estrelas e no meio vê-se irromper a luz central azul e toda a gente diz «Ena!»[3] 
Não deixa de ser curioso que a maior parte das pessoas que partilha esta frase siga muito pouco do que ela prega, quanto mais não seja porque partilhar a frase é, em si mesmo, uma negação do que ela defende, pelo menos desde que se tornou um lugar-comum, e porque partilhar citações na Internet tem pouco a ver com arder, arder, arder e suscita antes um grande bocejo...

A minha ideia (inverificada e generalizada – como não se deve, peço desculpa! – a partir dos exemplos das pessoas cujas vidas conheço e vejo partilharem a frase…) é que, quanto mais banal e mesurada for a vida de uma pessoa, mais probabilidade há de ela partilhar alguma forma de elogio da vida vivida na faixa de ultrapassagem. Hmmm...

Prefiro a esta outra frase que não me levarão a mal se a atribuir a Leo Mathisen, embora seja provavelmente (muito!) anterior: “Take it easy, boy, boy!”


Leo Mathiesen/Svend Hauberg, "Take it easy, boy, boy", 1940
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São milhares de chavões que por aí circulam à força de clique&partilhe, e não consigo dizer mal falar de todos neste texto, mas não quero deixar de referir o aforismo “Há gente tão pobre que só tem dinheiro”, que muda de autor de cada vez que é repetido (e é muito repetido…), quando não aparece, uff…, sem menção da autoria.

Bom, não quero deixar de o referir, mas não sei bem o que dele hei de dizer… Que se há de dizer de uma frase assim, digam-me lá? Não que não nos possamos ralar com a pobreza de espírito dos ricos, se tivermos muito espaço mental para toda a sorte de ralações, mas, pela alma de quem lá têm, então o que nos deve preocupar não é antes a situação dos muitos milhões de pessoas que são tão pobres que não têm mesmo dinheiro?
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Para terminar, um pequeno comentário a uma frase diz-que-de-Einstein[4]:
Temo o dia em que a tecnologia ultrapasse a nossa interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas. 
A conclusão costuma ser, claro está, que “esse dia já chegou”. Evidentemente, Einstein nunca disse tal coisa (obrigado, Quote Investigator), até porque não se vê nenhuma razão para que pensasse algo parecido com isso; mas é certo que a tecnologia é realmente temível! Se assim não fosse, aliás, nunca teria escrito este texto. Permitam-me, portanto, que afine a frase falsamente atribuída a Einstein. Devem, naturalmente, atribuir-me a mim a versão melhorada da sentença, mas, se quiserem atribuí-la a Rudyard Kipling ou a Luís XIV, também pode ser:
Temo o dia em que a tecnologia permita difundir informação fantasiosa cuja veracidade ninguém verificará e cuja plausibilidade ninguém questionará; e permita a toda a gente armar-se em esperta exibindo aforismos de grande efeito e informação pseudocientífica e toda a sorte de apatetadas teorias da conspiração...
Se pensarem que esse dia já chegou, pensem melhor: infelizmente, ele sempre existiu…

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[1] Como não podia deixar de ser, a razoável proposta “Be yourself. Everyone else is already taken.” é quase sempre erroneamente atribuída a Oscar Wilde, que nunca disse nem escreveu tal coisa

[2] Não se trata de um verdadeiro complemento direto, porque ter não se porta o mais das vezes como um verbo transitivo. Por exemplo, “muita fome era tida por ele” não se pode dizer, pois não?, por muitas voltas que se queira dar à língua…

[3] É claro, para não se fugir à regra em voga de nunca citar corretamente, mesmo esta citação de Kerouac é o mais das vezes substituída por outra que também lhe é atribuída, mas que não foi de facto escrita por ele, mas sim por Rob Siltanen e Lee Clow para uma campanha publicitária da Apple. A versão em português do Brasil, que é a mais divulgada, é assim (ligeiramente emendada):
Isto é para os loucos; os desajustados; para os rebeldes; os desordeiros; para aqueles que possuem 4 olhos, para aqueles que veem as coisas de maneira diferente, para aqueles que não seguem as regras, para aqueles que não respeitam o status quo. Você pode humilhá-los, discordar deles, ou tentar atingir seu fogo interior, mas o que você simplesmente não pode fazer é ignorá-los, porque eles mudam as coisas, empurram a raça humana para frente. Embora alguns possam parecer loucos, são os melhores. Porque as pessoas que são suficientemente loucas para pensar que podem mudar o mundo são o futuro. 
[4] Coitado de Albert Einstein, é a maior vítima das citações erradas, porque é o mais popular dos grandes cientistas – ou o único grande cientista realmente popular… Se alguém disser que uma frase é de Richard Feynman ou Rodolfo Llinás, por exemplo, não tem o mesmo impacto, pois não?

3 de Agosto de 2014

Jutlândia do Norte [Crónicas de Svendborg #21]

Como sempre que há reuniões de amigos ou familiares, fala-se dos velhos tempos. Uma coisa que surpreende os Lindegaard, quando revisitam os locais de infância, é como tudo se tornou mata: desapareceram prados e terrenos de lavoura (os poucos que havia…), há mais árvores e árvores mais altas. (A Karen, a quem falei das minhas paisagens de infância e a quem mostrei o que delas resta, sabe que, na zona onde cresci, Rinchoa, Mercês, Meleças, é exatamente o contrário: onde havia pinhais e mato, só há agora cimento e asfalto.)

O Norte da Jutlândia sempre foi terra pobre. “O melhor investimento que se podia fazer nesta terra era comprar um bilhete para a América e nunca mais cá pôr os pés.” Foi um investimento que muita gente fez. Agora, já não é para a América que as pessoas vão, e sim para Aarhus ou Copenhaga, mas a região continua a despovoar-se. Uma das características curiosas desta parte da Jutlândia do Norte onde a Karen cresceu e passámos agora férias é a paisagem de rimmer e dobber. Traduzo o artigo da Wikipédia em dinamarquês que explica essa paisagem:
Rimmer e dobber são um tipo de paisagem natural que existe na bacia sedimentar marinha de Vendsyssel. Esta paisagem é um vestígio de uma antiga área de praia rasa, com uma ligeira inclinação. Nestas condições, as ondas causam um depósito de materiais na forma de bancos de areia sob a água e barreiras que se erguem acima do nível do mar. Se houver regressão (baixa do nível de água), os processos que criaram a barreira param e pode começar a formar-se uma nova barreira, mas a um nível ligeiramente abaixo da anterior. Se houver nova transgressão (subida do nível do mar), a barreira é movida para dentro. Formar-se-á, pois, uma paisagem plana ondulada de cristas de areia que se estendem por muitos quilómetros. Estas cristas de areia, chamadas rimmer, podem ser ampliadas pela formação de dunas, ao passo que as depressões entre elas, chamadas dobber, se tornarão húmidas e se transformarão em pântanos.
As estruturas de rimmer-dobber têm geralmente entre 10 m e 100 m de largura, com uma altura que pode variar entre 1 m e 8 m. As rimmer são compostas por areia de dunas e das praias, ao passo que as dobber se caracterizam pela formação de turfa.
As rimmer que ainda existem têm muitas vezes por uma vegetação de charneca ou árvores e arbustos espontâneos, enquanto nas dobber se costumam encontrar turfeiras e prados velhos.
As maiores áreas do tipo de paisagem de rimmer e dobber na Dinamarca encontram-se no Norte da Jutlândia, na Charneca de Jerup, a noroeste de Jerup, 13 km a noroeste de Frederikshavn, mas este tipo de paisagem também se encontra no Grenen
rimmer e dobber perto da casa de escoteiros que o meu cunhado alugou para as férias da família. Ena, a quantidade de matizes de verde que há numa charneca assim! Infelizmente, ilustram muito mal a descrição as fotografias que aqui vos deixo, porque não faço ideia de como se fotografe esse colorido.
À tardinha, desaparecem as cores e surge uma névoa mágica. É a mesma paisagem, mas é também outra paisagem muito diferente, vestida agora de uma beleza nova. “Mosekonen brygger”, é o que se diz nessa altura, “a mulher do pântano está a fazer cerveja”.

A mulher do pântano é uma criatura sobrenatural que, como o seu nome indica, vive nos pântanos e não tem outra atividade conhecida que não seja fabricar cerveja, produzindo esta névoa baixa que aparece nas zonas húmidas quando a temperatura desce de repente ao fim do dia. (Eis a mulher do pântano numa ilustração de G. Achen para um conto de Henrik Pontoppidan, 1887)
A praia de Skiveren
Não são as rimmer e dobber a dar à paisagem as dezenas de tonalidades de verde que ela tem. Na charneca entre as falésias de Skiveren e a igreja de Råbjerg, não há rimmer e dobber, mas continua o espetáculo de cor.

“O que é que estás a fotografar, se não há aqui para fotografar?”, pergunta-me o meu cunhado. Digo-lhe das matizes de verde.
“Ah, isso é verdade! E se pedires a um pintor para te pintar a paisagem, põe-te tudo verde – dois ou três tons de verde, vá – e já está. E o verde da paisagem nem sempre é realmente verde, às vezes são castanhos, amarelos ou pretos que se misturam.” Dependerá muito dos pintores, com certeza. Os grandes pintores dinamarqueses, suecos e noruegueses que se juntavam em Skagen fascinados pela luz desta terra preferiam olhar para o mar a olhar para a terra, quando não faziam retratos uns dos outros ou pintavam os tipos pitorescos dos pescadores da região. Se fizeram pinturas da fascinante paisagem da charneca, não são, pelo menos, muito conhecidas e não as encontro.


A igreja de Råbjerg não tem torre. A fé move montanhas, mas nem sempre chega para convencer os banqueiros a fazer empréstimos: como o dinheiro não chegava para um torre regular, pôs-se o sino numa torre de madeira ao lado da igreja. (Estou a vender-vos a história ao mesmo preço a que a comprei, como costuma dizer-se, mas não vos aconselho a comprar a preço de pechincha as histórias que vos contem.)

6 de Junho de 2014

Dia D

Não tenho tido grande tempo para escrever textos para este blogue, mas o blogue continua vivo. E à laia de sinal de vida, precisamente, uma história da minha adolescência vagabunda.

Deve ter sido em 1977 e já não me lembro de onde para onde íamos, talvez de Fontenay-le-Comte para Paris. O que sei foi que apanhámos boleia, a Dani e eu, de um camionista normando. Quando a Dani começou a falar, ele ficou uns segundos a tentar perceber de onde ela era.
“Ah, tu és canadiana.” Que sim, disse ela, da cidade de Québec, mais precisamente.
“Esse sotaquezinho lá do lugarejo onde o diabo perdeu os calções…”
O que ele disse mesmo foi fond de terroir, accent de fond de terroir.
“Ao princípio, não se percebe bem de onde é. Das Vosges, podia ser. De repente, até parece de alguns sítios isolados lá na Normandia. Lembro-me de 44, era eu miúdo. Os primeiros soldados que nos apareceram eram quebequenses e as pessoas ficaram muitos surpreendidas quando eles se lhes dirigiram naquele francês mesmo de camponês, que só os velhos das aldeias é que falavam.”


A foto é do site World War II European Theater of Operations 1944 (http://www.stolly.org.uk/ETO/). Não tem indicação do autor nem do lugar onde foi tirada. A legenda diz apenas (traduzo eu): “Soldado canadiano do regimento da Chaudière pergunta o caminho a uma civil francesa”.
 (Ou eram do Régiment de la Chaudière, os soldados de que o camionista se lembrava, ou do Régiment de Maisonneuve; ou então eram os fuzileiros de Mont-Royal.)

29 de Abril de 2014

Barrela homeopática

Há nódoas muito renitentes! Eu desesperava,  às vezes, com alguma delas. Experimentava todos os detergentes, todos os tira-nódoas, todas as receitas milagrosas que os amigos me davam e que nunca funcionavam... Até que um dia descobri a barrela homeopática – nunca mais tive problemas com nenhum tipo de nódoas!  Não me parece bem guardar para mim tão útil segredo e quero, pois, ensinar-vos aqui como se faz esta barrela. Não é difícil.
O problema da roupa suja é a sujidade. O remédio para a sujidade precisa, naturalmente, de ter na roupa os mesmos efeitos que o problema que pretende resolver:  tem de a sujar. Terra é o mais aconselhável, na opinião de vários especialistas, mas também se pode usar qualquer outra substância que suje (até porque, depois do processo de diluição que descrevo a seguir, vai tudo dar ao mesmo …). Há que diluir a substância ativa e agitá-la vigorosamente, para lhe dar potência. Pode começar por diluir 1 ml de terra em 99 ml de água destilada e agitar muito bem com movimentos rítmicos e enérgicos. Do líquido obtido, retire 1 ml, que deverá em seguida diluir em 99 ml de água destilada e agitar.  Volte a retirar 1 ml e a diluí-lo em 99 ml de água destilada. Repita este processo 60 vezes e, do líquido obtido, ponha 15 gotas em 5 litros de água, na qual deve em seguida deixar a roupa de molho durante 8 horas.

E pronto! Nem as nódoas mais tenazes resistem a esta barrela. (Bom, às vezes, há algumas, muito tenazes, que resistem mesmo... Muitas até. Mas não interessa. No geral, o método é de uma eficácia a toda a prova. Muitos céticos argumentarão que é só água que há na água. É porque não compreenderam nada do método  homeopático! Mas, mesmo que seja só água, qual é o problema? Água não lava?)

Apenas eu

(É-me difícil perceber se quem não utiliza o Facebook terá ou não dificuldade em perceber este contozinho. Espero que não, mas vocês me dirão. Quando aqui a pus, a história era contada na primeira pessoa, mas dei-me conta (através de comentário no Facebook) de que algumas pessoas não perceberam que era um conto e pensaram que estava mesmo a falar de mim e do meu perfil do Facebook e decidi então mudar a narrativa para a terceira pessoa. A história propriamente dita não muda nada com essa mudança, se me perdoam a deselegância desta formulação.)

Ele importa-se sempre muito com as outras pessoas. Não gosta de chatear ninguém, pronto.

No Facebook, ao princípio, quando publicava uma coisa qualquer, fosse uma música, uma ligação para um artigo de jornal ou para o site de algum ilustrador, fosse lá o que fosse, ficava sempre a pensar que devia ser uma chatice para certas pessoas estarem a ver posts dele sobre coisas que não lhes interessavam nada. Música, por exemplo. Sabia que muitos dos seus amigos não têm os mesmos gostos que ele, de maneira que, para eles, não tinha interesse nenhum o que ele lá punha, e podiam até considerar, pensava ele, que era uma atitude agressiva pôr lá tanta música.

Felizmente, descobriu que se podem organizar em grupos os amigos do Facebook e escolher, em cada post, que grupo o vê. Fez então um grupo de música, outro de ilustração, outro de ciência, e por aí fora. Assim, já não aborrecia as pessoas com assuntos que não lhes interessavam.

Com o tempo, porém, começou a ver que eram sempre as mesmas pessoas que reagiam às suas publicações. Para ele, era sinal claro de que as outras não estavam interessadas no que publicava e que, por isso, as estava a chatear. Começou por tirar dos grupos as pessoas que nunca tinham reagido a um post seu e decidiu que, a partir daí, retiraria de cada grupo quem não reagisse a cinco posts seguidos. Não queria estar a aborrecer as pessoas.

A pouco e pouco, os grupos acabaram por reduzir-se muito. Durante bastante tempo, teve, em cada grupo, uma meia dúzia de pessoas que viam os seus posts e que lá iam, de vez em quando, pondo um gosto ou fazendo um comentário. Mas, pensou ele, não seria só por hábito ou por obrigação, ou para serem simpáticos com ele? Se calhar, nem liam os textos nem ouviam a música que ele sugeria…

Foi nessa altura que descobriu (ao fim de tanto tempo, distraído que era!...) que há também no Facebook a opção de publicação “Apenas eu”, que, como o nome indica, faz com que só a pessoa que publica veja o seu próprio post. E pronto, foi essa a opção que passou a utilizar. Agora, só ele vê o que publica. Assim, pelo menos, não chateia ninguém.

O raio U: uma história de todas as aventuras

Um texto sobre uma banda desenhada de E. P. Jacobs

O enredo de Le Rayon U, de Edgar Pierre Jacobs, parece-nos hoje algo disparatado, as personagens falhas de densidade e o desenho peca às vezes por banalidade, perspetivas e enquadramentos imaturos, e falta de movimento. Evidentemente, não se pode esperar de uma banda desenhada da primeira metade do século XX o que se espera de outras narrativas, mas parece-me que se pode dizer que Le Rayon U já na altura não era nenhuma obra-prima de guião nem de grafismo. Ainda assim, penso que há meia dúzia de coisas que vale a pena dizer sobre a obra (ou este texto não existiria, claro está…), como documento de um contexto histórico, como etapa na obra de E. P. Jacobs e como mostruário de imagens estereotipadas de alteridade e de aventura.

Flash Gordon por E. P. Jacobs em 1942.
Le Rayon U foi publicado entre 1943 e 1945 na revista Bravo, um semanário belga de BD, em episódios de uma página. As pranchas da edição original são quase quadradas e mais pequenas que as páginas das edições posteriores, e não há balões de diálogo, apenas caixas de texto narrativo*. A série tem uma história curiosa:

Quando os americanos entraram na guerra em 1942, as bandas desenhadas americanas deixaram de poder publicar-se na Bélgica. Como muitas séries eram produzidas em folhetins diários ou semanais, muitas histórias ficaram, assim, incompletas. No caso da série Flash Gordon, nessa altura desenhada por Alex Raymond, a solução da revista Bravo foi pedir a E. P. Jacobs que a continuasse, imitando o estilo do autor americano. E os responsáveis da revista ficaram, pelos vistos, satisfeitos com o tratamento que E. P. Jacobs deu à série, porque, quando a censura nazi exigiu a interrupção da mesma, em inícios de 1943, lhe pediram que criasse uma nova série no mesmo estilo.

Na realidade, Le Rayon U é tanto ao estilo de Flash Gordon que, em certos aspetos, parece que apenas se mudou o nome às personagens e, nalguns casos, o seu lugar na hierarquia de heróis: Babylos, o imperador da Austrádia, parece o imperador Ming das histórias de Flash Gordon; Marduk é parecido com Zarkov, o lorde Calder com o príncipe Barin, o major Walton com Flash Gordon, Sylvia Hollis com Dale Arden e só o mau da história, Dagon, não se inspira numa personagem de Flash Gordon, mas antes, ao que parece, no próprio desenhador. Também se podem ver algumas das personagens do Rayon U como personagens de transição entre Flash Gordon e Blake & Mortimer, a série que E. P. Jacobs começaria a produzir em 1946 e que lhe traria fama mundial: Calder dará origem a Blake e Dagon será o Olrik da nova série. E, se lhe substituirmos o bigode por uma barba, o sargento MacDuff é muito parecido com Mortimer (ver mais aqui sobre as pessoas em que se inspiram as personagens).

Em cima: 1. Zarkov, de Flash Gordon 2. Marduk, do Raio U 3. Flash Gordon 4. Major Walton, do Raio U 5. Dale Arden, de Flash Gordon 6. Sylvia Hollis, do Raio U Em baixo: 1. Professor Philip Angus Mortimer 2. Sargento MacDuf, do Raio U 3. Lorde Calder, do Raio U 4. Capitão Francis Percy Blake
Do ponto de vista do imaginário, Le Rayon U é, mais que uma salada, uma verdadeira salganhada de algumas das mais famosas aventuras do século XX, com os dinossauros e os macacos-homens do Mundo perdido de Conan Doyle, um El Dorado inca e subterrâneo, dracares viquingues, moai da Ilha da Páscoa (!) e um kraken vermelho às pintas. Tem também um imperador malvado, desejoso de se apoderar, para o mal, de uma arma que um cientista altruísta acaba de inventar, para o bem; e o imperador tem ao seu serviço um espião astuto e cruel, ao passo que, do lado do cientista, há uma assistente atraente e destemida e um explorador intrépido, ajudado por um servo devoto e valente, de turbante e nome orientais, e não menos valentes militares de pose aristocrática. O fato do herói faz lembrar Robin dos Bosques e o sargento tem um capacete a bem dizer de legionário romano… A assistente do professor é tão bonita que o chefe dos macacos-homens e o imperador inca se apaixonam perdidamente por ela e a querem para mulher. Os macacos-homens vivem em aldeias que evocam sem dúvida, para o leitor da época, aldeias africanas... Le Rayon U é um repositório completo de personagens, situações, criaturas, cenários e preconceitos que, das Minas de Salomão de Rider Haggard aos Indiana Jones de George Lucas e Steven Spielberg, nos oferecem as narrativas de aventura.
Em Portugal, existem duas edições do livro. A segunda tem, inexplicavelmente, o U do título entre aspas: O Raio «U». É mesmo caso de figurar naquele blogue que há, sabem?, só sobre aspas desnecessárias. Será que quem escreve assim também escreve “raios «X»”? Mas isto é um excurso, desculpem lá. Se não conhecerem ainda a obra e se cruzarem com ela, podem pensar que não vale a pena lê-la, de tão bem que a conhecem agora, depois de lerem este texto. Mas olhem que eu tive o cuidado de não vos contar a história propriamente dita. E há muitos desenhos para ver.
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* Em 1974, foi publicada, primeiro na revista Tintin e depois como álbum, uma nova versão do Rayon U, com a paginação, a cor e os desenhos atualizados e balões de diálogo. Foram também publicadas duas versões a preto e branco, na Bélgica em 1966 e em França em 1967, mas não consigo encontrar delas nenhumas imagens em linha. O texto introdutório da edição dinamarquesa (U-strålen. Copenhaga: Cobolt, 2011) diz que a edição original a preto e branco já não existe – são duas incorreções numa frase só.

20 de Abril de 2014

Águias, sintaxe e água fria [Crónicas de Svendborg #20]

Temos uma amiga que sabe os ninhos todos de águias-rabalvas aqui na ilha de Tåsinge e na ilha vizinha de Langeland.
Foto: Wikimedia Commons
Por estranho que possa parecer quando se começa a reflectir sobre ele (parece que devia ser antes de todos os ninhos”, não era?), é possível este uso transitivo de saber, consagrado, por exemplo, num conhecido poema de Miguel Torga. (O’Neill também sabia transitivamente, mas sabia seios em vez de ninhos. Como uma pessoa pode aninhar-se no(s) seio(s) de outra, é capaz de não haver, bem vistas as coisas, grande diferença entre os objetos do saber de Torga e de O’Neill…)

A amiga que sabe ninhos de águias é banhista de inverno. Temos vários amigos que são banhistas de inverno e alguns deles começaram tarde, já depois dos 60 anos. Quem sabe se, em chegando aos 60, não me vem também a vontade de fazer buracos no gelo, em janeiro, para me enfiar nas águas refrescantes do Estreito de Svendborg? Uma das minhas filhas diz que vai experimentar ser banhista de inverno agora durante o verão e depois logo vê se continua. O meu filho experimentou ontem à tardinha. A experiência não faz dele banhista de inverno, mas banhista de água muito fria já é com certeza: a temperatura da água aqui devia andar pelos 7º.


P. S. Vimos anteontem algumas faias já com folhas. No lago ali em baixo, o barulho é ensurdecedor em todas as épocas do ano: cisnes, patos e gaivotas de vários tipos, galeirões, corvos-marinhos, uma festa.



13 de Abril de 2014

Gækkebreve, as cartas da Páscoa [Crónicas de Svendborg #19]

Este texto é pouco mais que uma tradução (muito livre...) da entrada “Gækkebrev” da Wikipédia em dinamarquês. Como se pode chamar a uma tradução sobre uma tradição? Assim à primeira impressão, traduição não me soa lá muito bem…

As cartas da Páscoa são uma tradição dinamarquesa. Originalmente, as gækkebreve continham uma flor de Galanthus nivalis, vintergæk em dinamarquês, donde o seu nome (brev significa “carta”). São as crianças que fazem e mandam cartas da Páscoa. A carta é escrita em papel recortado com padrões simétricos e é enviada anonimamente, substituindo-se por um ponto cada letra do nome do remetente, que o destinatário deverá adivinhar. Se não adivinhar, tem de dar um ovo da Páscoa ao remetente, quando este se identificar. Na prática, porém, o destinatário da carta dá sempre um presente a quem lha enviou, adivinhe ou não. O texto da adivinha é em verso e pode ser apenas uma frase disparatada ou um pequeno poema.

Papel recortado para uma gækkebrev e o resultado final
As cartas da Páscoa têm origem numa tradição mais antiga, com origem no séc. XVII: as bindebrev eram uma forma de carta de amor, muito bem decorada, com recortes de papel e flores, em que o destinatário também tinha de adivinhar o nome do remetente. Às vezes, o número de letras do nome a adivinhar não era dado em pontos no texto, mas sim em nós num cordel, donde o nome (binde significa “atar”)

(As duas primeiras imagens são da Wikipédia e a terceira é de uma página do Museu de Odense em que se anuncia uma exposição de gækkebreve. Têm aqui uma amostra mais variada com uma busca de imagens em Google.)