30 de agosto de 2020

Bodil [Crónicas de Svendborg #38]

Um dia, na costa sudoeste de Tåsinge, perto da ponte para a ilha de Siø, Karen encontrou uma chávena no mar. A chávena estava a poucos metros da praia, num sítio onde a água não tinha mais de meio metro, em cima de um monte de pedras.

Era uma bonita chávena, com uma gaivota e o nome Bodil pintados à mão. Bodil não é um nome incomum, mas também não é um nome muito normal: há presentemente 11.444 Bodils na Dinamarca; e, no ano passado, só cinco meninas foram batizadas com esse nome. Karen pôs-se a especular sobre a dona da chávena: o mais provável era ser uma mulher com mais de 50 anos e de classe média alta, pensava ela.

Tirou uma foto à chávena e pô-la no Facebook, com o seguinte texto:
Quem conhece a Bodil? Uma lindíssima chávena pintada à mão encontrada na água perto da ponte para Siø, do lado de Tåsinge. Conheces a Bodil? Creio que há de ficar contente se recuperar a sua chávena.
É inacreditável o que um post destes pode desencadear nas redes sociais. As pessoas bem podiam estar apenas caladas, quando não são os destinatários do post. Mas não. Fazem comentários e mais comentários, cada um menos a propósito que o outro. E o post foi muito partilhado.

Além dos muitos comentários, Karen recebeu três mensagens de Bodils que reclamavam a chávena. Quando insistiu, porém, que queria saber como a chávena tinha ido parar à praia onde a achou, todas elas acabaram por confessar que a chávena não era delas.

Karen descobriu, entretanto, quem tinha feito a chávena: uma ceramista chamada Ulla. Escreveu-lhe a perguntar se sabia a quem tinha vendido aquela chávena, mas Ulla nunca lhe respondeu.

Finalmente, ao fim de duas semanas, alguém escreveu a Karen, dizendo que se chamava Bodil e sabia quem tinha feito e vendido a chávena. Chamemos a esta pessoa Bodil A, para facilitar a narrativa e chamemos Bodil X à pessoa que Karen procura. Karen respondeu-lhe que também tinha descoberto Ulla e lhe tinha escrito, mas que ainda não recebera resposta. Bodil A respondeu-lhe então que a ceramista era sua amiga e ia falar com ela pessoalmente.

Dois dias depois, Bodil A escreveu de novo a Karen: tinha falado com Ulla, Ulla sabia muito bem a quem vendera a chávena e contactou Bodil X. E Bodil X disse-lhe que não queria reaver a chávena. A chávena, explicou ela, estava ligada a uma história que lhe tinha feito muito mal e que preferia esquecer. Não tinha sido ela a perder ou a deitar fora a chávena na praia. Mas ela sabia, claro, quem tinha sido. Não queria, enfim, ouvir mais falar da chávena.

Karen perguntou então a Bodil A se não queria ficar com a chávena. Bodil A disse-lhe que tinha inicialmente pensado nisso, mas que, depois de saber da história de Bodil X, e mesmo sem saber ao certo o que se tinha passado, não, não queria uma chávena assim.

No mesmo dia, Karen recebeu uma mensagem de outra Bodil: «Tinha uma chávena assim, quando trabalhava no dentista em Østergade. Deixei-a lá ficar quando me vim embora. Como é que pode ter ido parar a uma praia em Tåsinge?»

Karen não lhe escreveu mais e ela também nunca disse mais nada. Há quatro dentistas na Dinamarca com consultório numa rua chamada Østergade: em Aarhus, Assens, Hjørring e Silkeborg.

«Só depois de o meu post ter sido partilhado dezenas de vezes é que me dei conta de que era bem possível que a chávena não tivesse sido perdida na praia», diz-me Karen. «Pus-me a imaginar o que podia ter-se passado. Até pensei que a Bodil podia ter morrido e alguém que costumava tomar café com ela podia ter ali posto a chávena naquele montinho de pedras, assim como um memorial. Havia tantas razões possíveis para aquela estátua ali estar, mas eu, ao princípio, só pensei que uma Bodil a tinha perdido.»

22 de agosto de 2020

Da etnicidade de corpos e almas


Há uma dezena de anos, fiz uma viagem de carro de Maputo a Joanesburgo, na companhia de um enfermeiro sul africano. Era um homem mais ou menos da minha idade, nascido e crescido, portanto, no regime de apartheid; e gostava de se queixar da desgraça a que o regime pós-94 tinha levado o país – sem se atrever, ainda assim, a louvar abertamente o regime anterior. E, se ele tinha a cautela de deixar subentendida a sua posição política, eu tinha também a cautela de não confrontar com demasiada veemência o que ele deixava subentendido, para não tornar insuportáveis as muitas horas de viagem que tínhamos de partilhar.
– Você não imagina o conservadorismo da África do Sul antigamente – disse o meu companheiro a certa altura. É a parte da conversa de que lembro melhor. – O corpo era tabu. Não passavam nos cinemas filmes com cenas de nudez e nem uma mulher de bikini se via em revistas e os jornais. Pornografia, então, era impossível de encontrar. Éramos uns frustrados. Os rapazes da minha geração nunca tinham visto um corpo de mulher nu antes de irem para a cama com uma mulher pela primeira vez – quase sempre na noite de núpcias, porque não havia sexo antes do casamento.
Eu, por acaso, nem precisava imaginar – tinha conhecido uma sociedade em muitos aspetos parecida, o Portugal onde eu tinha crescido. Também tinha certeza de que as coisas não tinham sido para todos os sul-africanos como ele agora as descrevia, mas não duvidava de tivessem sido assim na comunidade africânder onde ele tinha crescido.
– O que a gente não dava só para ver as mamas de uma mulher… Bom, tínhamos todos vistos muitas mamas étnicas na televisão e em revistas, mas isso para nós não contava, era outra coisa. E a gente não se excitava com as africanas. 
Há quem diga que, mais que lutar contra o racismo através de leis e práticas institucionais, importa – e custa – tirá-lo das mentes. E há quem diga que, como em todas as questões morais, não se pode exigir de ninguém que mude de sentimentos, conquanto que, sinta o que sentir, não aja de forma discriminatória. Não cabe neste texto a longa e complexa discussão das estratégias, prioridades e alvos preferenciais do trabalho antirracista. Onde esta história quer chegar é que não é só nas mentes que o preconceito se instala, mas no corpo também. Não é que toda a gente tenha de se sentir atraída por toda a gente. As pessoas podem, naturalmente, sentir-se mais ou menos atraídas por determinados tipos físicos. Mas o que está aqui em causa é outra coisa. Ouvi mais histórias como esta, de pessoas que têm entranhado na carne o desprezo do Outro. Alguns religiosos ou místicos dirão que a carne mata o espírito; e eu constato que o contrário também é verdadeiro.
Agora, é claro, se a completa ausência de desejo pelas pessoas de outros grupos étnicos ou de outros tipos físicos (cheguei a ouvir falar de «nojo» do corpo das pessoas racializadas) revela uma forma profunda de racismo, nunca o desejo – ou até a preferência – de um tipo físico diferente é, por si só, sinal de ausência de racismo. Pode discutir-se o que desumaniza mais o Outro: não servir nem para o sexo ou só servir para o sexo…
A recordação da conversa na viagem a Joanesburgo e a ideia deste texto surgiram deste quadro de 1800, que conheci há uns meses no Tout ceci est magnifique. O Retrato de uma negra, que no ano passado se passou a chamar Retrato de Madeleine, é uma obra pouco canónica de Marie-Guilhelmine Benoist, que tem merecido análises interessantes (ver aqui e aqui, por exemplo).

11 de agosto de 2020

[Sem título]


Um cemitério de Carcassonne, visto da Cité
Tinham-nos dito que havia um sítio muito bonito para tomar banho a cerca de um quilómetro do centro da aldeia, onde o rio tinha uma espécie de albufeira natural. «Passa-se o cemitério e vira-se à direita no segundo caminho de terra.»

Mas nós não sabíamos onde era o cemitério. Fui perguntar a um senhor de idade avançada, que estava sentado num banco de jardim, à sombra de um plátano.

– Não tem nada que enganar: vai sempre por este caminho e vai lá dar. São uns 300 ou 400 metros, uma coisa assim.

Agradeci-lhe.

– Eu também para lá vou, mas não é já – riu-se ele. – Quer dizer, espero eu...


A velhice, mais uma vez


Publiquei aqui na Travessa, há mais de dez anos, um poema meu em que ando às voltas de uma ideia que Jorge Luis Borges apresenta em forma lírica no início do seu maravilhoso “Elogio da la sombra” (traduzo eu):
A velhice (tal é o nome que os outros lhe dão)
pode ser o tempo da nossa ventura.
O animal morreu já ou morreu quase.
Restam o homem e a sua alma.
É capaz de ser sobretudo entusiasmo de literato essa ideia de que a velhice (seja qual for o nome que os outros lhe deem) é «o tempo da alma», PORQUE desapareceu já a parte mais animalesca, mais ssssibilante de nós — o anseio de sabores e sexos e toda a classe de satisfações... Não sei se tem muito a ver com a realidade de envelhecer para a maioria das pessoas. Há com certeza velhices assim, em sendo boa a saúde, e é possível que a de Borges tenha sido como a quis, homem e alma, esvaziada de animalidade.

A questão é também como se deve entender alma. Se se entender alma como espiritualidade, ou mesmo como mente, creio que a velhica é muitas vezes ao revés de como Borges a quer: vai-se esvaindo a espiritualidade, se alguma houve, como se esvai tudo o resto: as forças, enfim, a memória, a paciência, a concentração… 

É claro, velhices há muitas. Na velhice que tenho à minha volta, porém, vejo antes simplificarem-se a vida e os seus prazeres: comer, dormir, gozar a inatividade e o calor do sol, se dele se apanha um bocadinho  — o que, por muito que possa soar a demasiado animal, também está muito bem.

Esquerda: Autor desconhecido: Velha dormindo, sem data, gravura, cópia de Rembrandt. The Met, Nova Iorque, daqui
Direita: Rembrandt: Velho sentado numa poltrona, 1631, daqui.

3 de julho de 2020

Do pão estaladiço da infância [Crónicas de Svendborg #37]


Os escandinavos têm umas bolachas finas e crocantes, com mais centeio que trigo, a que chamam pão estaladiço.

Este knäckebröd (deixem-me usar o nome sueco, já que parece que foi na Suécia que ele surgiu) tem uma característica curiosa: é mais ondulado de um lado que do outro, para assim satisfazer tanto quem gosta de o barrar com muita manteiga ou muito doce como quem gosta de menos manteiga ou menos doce no pão.

Alguns de vocês lembrar-se-ão, como eu me lembro, de um adulto alguma vez vos repreender que «oh filho, isso é não é pão com manteiga (ou queijo, ou o que fosse), isso é mais manteiga com pão»; mas, como não comiam knäckebröd, nunca ninguém vos disse, como a mãe de uma amiga minha lhe dizia, «olha que te enganaste no lado, é do outro lado é que se põe manteiga».


26 de maio de 2020

Herança cultural [Crónicas de Svendborg #36]


Foto: Stockphoto Needpix
Um dos cartões de visita de Svendborg é, creio eu, o grande edifício Wiggers Gård na praça central, Torvet. Muitos visitantes pensarão tratar-se de um edifício antigo, por causa do estilo de construção, com estrutura de enxaimel, mas, na realidade, data apenas de 1939 e foi contruído onde havia antes uma loja e fábricas que tinham sido construídas em meados do séc. XIX.

Foto: Kåre Thor OlsenWikimedia Commons, daqui.












Antiga de facto é a Casa de Anne Hvide, ali mesmo ao pé, que data de 1560. É o edifício de habitação mais antigo de Svendborg e é dos mais antigos que vi aqui na Dinamarca, se não mesmo o mais antigo.


Tirando a Casa de Anne Hvide e uma casa de meados do século XVI, que foi reparada há três anos, os outros edifícios de habitação mais antigos datam, aqui na zona, do século XVII.











Foto: Lars Schmidt.
Wikimedia Commons, daqui
A nossa aldeia, Troense, a quatro quilómetros de Svendborg, é quase uma aldeia museu. Dos 100 edifícios reconhecidos como Património Cultural no Município de Svendborg, 31 são casas da nossa aldeia: casas de habitação – e habitadas, de facto – de um ou dois pisos, na sua grande maioria de estrutura de enxaimel e telhado de colmo. A maior parte delas ficam na Grønnegade, a «Rua Verde». As casas classificadas como Património Cultural estão identificadas com uma placa de metal, colocada ao lado da porta. Este diaporama que encontrei no YouTube, infelizmente a preto e branco, mostra várias casas dessa rua.



 A casa amarela à direita na foto de cima tem uma placa com a data 1675. Se for verdade, é a casa mais antiga da aldeia, mas foi renovada sem cuidado nenhum e não faz parte da lista dos edifícios classificados como Património Cultural.

O mais antigo dos edifícios classificados é o da fotografia de baixo, que é anterior a 1750. Curiosamente, não tem telhado de colmo.

A casa com um campanário, mais abaixo, é também um dos edifícios classificados da aldeia. Construído em 1790, foi escola primária até meados do séc. XX e depois museu, e agora é uma casa particular.






Foto de Artur Franco


25 de maio de 2020

Lentilhas

Livro da Génese, XXV 29-34:
Hendrick ter Brugghen: Esaú vende o direito de primogenitura, ca. 1627
Thyssen-Bornemisza Museum, Madrid
Um dia, quando Jacob preparava uma sopa de lentilhas, chegou Esaú do campo. Vinha muito cansado.
E disse a Jacob: «Dá-me dessa sopa vermelha, porque me sinto derreado de cansaço.» Por esta razão é que lhe foi posto o nome de Edom – ou seja, o vermelho. 
Respondeu-lhe Jacob: «Vende-me ainda hoje o teu direito de primogenitura.»
Continuou Esaú: «Sinto-me morrer: de que me servirá o meu direito de primogenitura?»
«Pois jura-mo», disse-lhe Jacob. «Hoje mesmo.»
E Esaú jurou e vendeu a Jacob o seu direito de primogenitura.
E este deu-lhe pão e sopa de lentilhas. Esaú comeu, e bebeu, e depois foi-se embora, dando-se-lhe bem pouco ter vendido o seu direito de primogenitura.
Que bem entendo Esaú! Eu teria feito a mesma coisa. Mais: mesmo que não estivesse cheiínho de fome. O direito de primogenitura não me serve de nada e gosto muito lentilhas. Vocês não?

As lentilhas são dos primeiros produtos agrícolas: foram domesticadas há cerca de 9.000 anos, ou talvez antes Não sei se em Portugal alguma vez foram populares, mas, pelo menos no Portugal que eu conheço e no meu tempo de vida, comem-se muito pouco. Creio que comi lentilhas pela primeira vez em Espanha, onde são tradicionais as lentilhas guisadas com morcela e/ou com chouriço. Em França, as lentilhas com carne de porco de salmoura são também um prato muito tradicional. Aqui em casa, comem-se muito, a malta gosta.

As lentilhas guisadas à minha maneira levam sempre cenoura e talo de aipo, ambos às rodelas, que refogo em azeite, juntamente com cebola e alho. Junto depois as lentilhas lavadas, molho com um bocadinho de vinho branco e, em desaparecendo o cheiro a vinho, junto tomate picado. Quando começa a secar, ponho líquido (um caldo, de preferência, mas, se não houver, água também serve, paciência...) e deixo cozinhar até estarem as lentilhas cozidas, juntando mais líquido quando necessário. O tempo de cozedura varia muito, conforme a qualidade das lentilhas.

Sopa de lentilhas vermelhas. Foto de nchenga, daqui (Creative Commons)
Tempero sempre as lentilhas com muitos cominhos e muita semente de coentro em pó. Dizem que se deve pôr o sal só no fim, porque senão as lentilhas demoram mais tempo a cozer, não sei se é verdade ou se é mais um mito culinário... O que não é mito é que há que lavar sempre as lentilhas bem lavadinhas e ter cuidado com as pedrinhas que nelas possam vir misturadas.

Acho que as lentilhas ficam muito bem com borrego, não sei se são da mesma opinião. Aqui têm uma sugestão para aproveitar bocados menos nobres do borrego (costelas, pescoço, coisas assim): cozinhem-nos com uns quantos legumes que tenham à mão, para lhes dar mais sabor, numa panela de pressão ou num tacho coberto de ir ao forno, até a carne se separar bem dos ossos; depois, tirem a carne toda, o mais possível sem gordura, juntem-na às lentilhas guisadas e deixem apurar um bocadinho.

Já agora: a mesma coisa – ou parecida, seja – mas com mais água, dá uma rica sopa magrebina. Bom proveito!


10 de maio de 2020

Lisboa em dois poemas suecos

Lisboa em dois poemas suecos Erik Axel Karlfeldt (1864–1931) era um poeta sueco, que ganhou postumamente o Prémio Nobel em 1931. Muitos poemas de Karlfeldt foram musicados e um dos poemas que deu uma canção conhecida é “Em Lisboa dançam” (“I Lissabon där dansa de”)*, que foi musicado por Bo Sundblad no início dos anos 30.



Esta versão é interpretada pelo autor. Desconheço a data de gravação e de edição. Outras versões conhecidas da canção são, por exemplo, a de Margareta Kjellberg (1938), a de Sven-Olof Sandberg (1943) e a de Olle Adolphsson (1963).

Por favor, não considerem o que se segue uma tradução do poema de Erik Axel Karlfeldt. O poema é muito difícil de traduzir e é numa língua que não domino, pelo que não sou capaz de fazer uma tradução propriamente dita. O que se segue é só uma versão simplificada e muito livre (e, a espaços, feia), para ficarem com uma ideia de que se trata.
Em Lisboa, dançam
no palácio vermelho do rei,
– coroado, condecorado –
com vivas e salvas de tiros.
Soa o mar como trombone
e violino distantes
e as faces são coradas
da cor do vinho do Porto. 
E cantam os rouxinóis
em escuros bosques de moscada
para os príncipes e as princesas
no sono dorido da noite.
E esvoaçam cupidos
de asas de cristal
entre condes e barões,
que passam o dia a suspirar:
Tu, vento oeste de Salvador,
que sopras forte e suave,
desperta a cerva deitada nos lírios,
que é já tempo de folgar.
Sou um cervo na murta orvalhada,
A minha coroa é de ouro
e trago em cada haste uma rosa
que diz de mim o desejo.
Nas falésias da praia de Munga
que atroada se ouve.
Dançam os pares de mãos dadas
na alegre casa de Pillman.
E cada homem que pula
de regozijo na sala
é um imponente toureiro
e Príncipe de Portugal.
Passa uma nuvem, pesada e baça,
que sopra uma granizada,
mas a rapariga encosta a pele primaveril
aos braços esguios de Pillman.
Do alto do poste curvo, em acento outonal,
canta um galo cata-vento,
mas a rapariga sorri nos braços de Pillman
como maio no vale de Munga.
Baloiça um ramo vermelho de fruta,
contra a parede e a vidraça,
p’lo carreiro, ouve-se cantar
a voz grave do nascente.
Vento de outono, enche os foles amplos
e sopra como quem toca a trombeta!
Sou um alce casamenteiro de alta coroa
entre tramazeiras na charneca de Munga.
Abre-se o colchão pardo da nuvem
com o ribombar de um trovão
e a barca da lua, em traje dourado,
avança em roxo ondular.
Naveguemos com ela, desta
murcha casa outonal
até cidades cobertas de lírios
e castelos no silvo das murtas.
Como veem, não é de Lisboa que o poema fala. Como eu o percebo, o poema diz o cio de bichos e gente como fazendo parte do ciclo da natureza, e contrasta primavera e outono, e o frio norte e um sul idealizado – e usa apenas Lisboa como imagem ideal de gáudio e opulência. É uma imagem sem dúvida surpreendente aos meus olhos – e, arriscaria eu, aos olhos de muitos portugueses. Seria esta a imagem da capital portuguesa que prevalecia há cem anos na Suécia, ou é antes uma criação de Karlfeldt que não assenta em nenhuma ideia feita sobre um pretenso fausto português?

***
Passados 60 anos, é muito diferente a imagem de Lisboa que transparece no poema “Lissabon” de outro poeta sueco que também ganhou o Nobel, Tomas Tranströmer**. Evidentemente, um poema de Tranströmer sobre Lisboa não podia deixar de interessar os literatos portugueses. Vasco Graça Moura traduziu o poema para a coletânea 21 Poetas Suecos (Vega, 1980) (ver aqui), e encontro também uma tradução de Luís Costa no blogue Aventar. O poema de Tranströmer é muito mais fácil de traduzir que o de Karlfeldt. É um poema quase todo de frases narrativas curtas e diretas, sem grandes imagens literárias, e ambas estas traduções dão dele uma boa ideia***. Atrevo-me, ainda assim, a apresentar também a minha tradução:
No bairro de Alfama, cantavam os elétricos nas calçadas íngremes.
Havia duas prisões. Uma era para ladrões
e os ladrões acenavam através das grades.
Gritavam que queriam ser fotografados.
«Mas aqui», disse o condutor, rindo baixinho, inseguro,
«aqui estão políticos». Vi a fachada, a fachada, a fachada
e vi, lá em cima, um homem a uma janela,
com binóculos, a olhar para o mar.
Havia roupa estendida a secar no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma senhora de Lisboa:
«Isto é verdade ou fui eu que sonhei?»

______________________

* In Flora och Pomona, 1906. Texto original em sueco aqui.
** In Klanger och spår, 1966. Texto original em sueco aqui (e traduções em alemão, inglês e português).
*** Um pequeno comentário a alguns pormenores destas traduções:
Na primeira linha da segunda estrofe, está, no original, «som en kluven människa». Graça Moura traduz por «como se cortado ao meio» e Luís Costa por «como um afectado».  É certo que kluven significa «rachado; cortado ao meio» (um toro de lenha, por exemplo), mas en kluven människa é uma expressão fixa e não uma criação individual de Tranströmer e significa «uma pessoa dividida» (entre duas ou mais lealdades, gostos, crenças, etc.).
Graça Moura traduz kikare por «óculo». É verdade que kikare também pode ser um óculo, mas é muito provavelmente de vulgares binóculos que se trata.
É curioso que Vasco Graça Moura acrescente «branca» à roupa estendida a secar. Não é que não fique bem o branco da roupa à cidade branca, mas não há branco no original.
Quanto à «dama» de Luís Costa, acrescenta ao dam sueco uma dimensão que ele não tem: dam é só a palavra comum para «senhora», sem mais.



21 de abril de 2020

Daqui e dali, dos dois lados do grande mar [Crónicas de Svendborg #35]

Halfdan é um nome escandinavo, que significa originalmente «meio dinamarquês»*. Nem todos os Halfdans, porém, são meio dinamarqueses: há muitos que são completamente dinamarqueses e outros que não têm nada de dinamarquês, já que o nome é também popular na Noruega (eis uma lista de Halfdans famosos).

Conheço um Halfdan que é mesmo meio dinamarquês, filho de pai dinamarquês e mãe estado-unidense. O irmão dele, que é tão meio dinamarquês como ele, chama-se Eik. Eik é também um nome escandinavo, que significa originalmente «carvalho».**

Eik tem uma árvore sua. Quer dizer, não sei se tem mais árvores, mas tem uma que é especialmente sua. Não um carvalho, como se poderia esperar, mas sim um castanheiro-da-índia vermelho. A árvore foi plantada para Eik quando ele nasceu – sobre a placenta que o envolvera. Não sei se isto é ou foi tradição nalgum lugar ou nalgum tempo, mas quem sabe se, entre os descendentes de Eik, não se virá a tornar tradição.***

O castanheiro-da-índia vermelho (Aesculus × carnea) é um híbrido do castanheiro-da-índia europeu (Aesculus hippocastanum) e de um arbusto americano, Aesculus pavia, de que não sei o nome português. A árvore de Eik é, portanto, euro-americana, como ele – mas isto os pais de Eik não sabiam quando a plantaram.


Red horse chestnut in flower in Oaklands Park” (“Castanheiro-da-índia vermelho em Oaklands Park”, Patrick Roper, 2002. Creative Commons Licence, daqui.


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* Ou, com mais rigor, «meio dano», já que não há correspondência direta entre a tribo germânica dos danos e os dinamarqueses atuais.
** Uma palavra sem parentes fora das línguas germânicas: eik em norueguês, ek em sueco, eg em dinamarquês, eik em neerlandês, Eiche em alemão e oak em inglês.
*** Diz Wil Huygen na sua maravilhosa obra Os Gnomos (título original: Leven en werken van de Kabouter, com extraordinárias ilustrações de Rien Poortvliet, 1976 [traduzo eu da edição dinamarquesa]):
Para saberem a idade, [os gnomos] usam carvalhos. São carvalhos que os pais plantam quando eles nascem. Também se podem plantar tílias em vez de carvalhos. Quando a árvore já está suficientemente grande, faz-se nela uma inscrição. A mesma inscrição é também feita numa pedra lisa que cada gnomo recebe de presente quando faz 25 anos e que guarda toda a vida.



1 de abril de 2020

Dick Annegarn, Li Bo, a lua e as sombras

Dick Annegarn é um cantautor dos Países Baixos que tem vivido e trabalhado sobretudo na Bélgica e em França. Quando o conheci (a música dele, seja…), na segunda metade da década de 70, era muito mal visto gostar de Dick Annegarn nos círculos que eu frequentava, mas eu, mesmo assim, gostei logo das poucas canções dele que ouvi. Na altura, “Sacré géranium” e “Bruxelles” eram as mais conhecidas, acho eu. Depois, perdi o contacto com ele durante muitos anos, até que ouvi uma canção, num CD bónus de uma revista de televisão, e gostei tanto dela que não hesitei em comprar o álbum em que ela vinha, Approche-toi (1997). E não me arrependi. Comprei depois o disco seguinte, Adieu Verdure (1999), e são dois discos que vos aconselho. São álbuns que em que ele percorre todos os estilos possíveis de músicas e de orquestrações, desde o blues à música da Europa Central e do Médio Oriente, desde a pequena orquestra de jazz até ao exclusivamente eletrónico, mas são sobretudo Dick Annegarn e Dick Annegarn é um bocado difícil de explicar o que é, até porque não se parece mesmo com mais nada…

 A canção de 1997 que me veio relembrar que Dick Annegarn existia e fazia boas canções chama-se “Buvant seul” e é mais uma atualização do motivo do bebedor solitário. O que eu vim a descobrir mais tarde, já não me lembro como, é que se baseia num poema famoso de um grande poeta chinês, Li Bai (também Li Po, Li Pai ou Li Bo), que viveu entre 701 e 762. Aliás, em vez de dizer que a letra da canção de Dick Annegarn se baseia no poema de Li Bai, poderia até dizer que é uma tradução muito livre do poema.

Deixo-vos a seguir: a canção de Annegarn, com o respetivo texto em francês; uma tradução portuguesa do poema de Li Bai por António Graça de Abreu; e um link para um página onde, além do poema original de Li Bai se podem ainda ler mais 43 (!!!) traduções em inglês, uma das quais de Ezra Pound. Estão a ver que não exagerei quando escrevi que o poema era famoso...

 

Dick Annegarn, “Buvant seul”, 1997

Je suis solitaire à boire dans les fleurs
Une cruche de balthazar comme consœur
Je me lève et lève mon verre à la lune
Sa silhouette me suit nous sommes trois
La lune ne sait même pas boire que nenni
C'est en vain et sans histoire qu'elle me suit
Il fait vivre avec plaisance au printemps
Quand la lune et la nuit dansent pour un temps
Nous sommes sobres et solidaires camarades
Nous sommes ivres et nos chimères nous baladent
La bonne nuit nous envahit bien trop tôt
Nous vivrons dans d'autres vies d'autres eaux

_______________

“Bebendo ao luar”
Tradução de António Graça de Abreu, in Abreu, António Graça, Poemas de Li Bai, Macau: 1990

Um jarro de vinho entre as flores,
bebo sozinho, sem amigos.
Levanto o copo e convido o luar,
com a minha sombra somos três.
Ah, mas a lua não sabe beber,
a sombra só sabe acompanhar meu corpo.
O luar por amigo, a sombra por escrava,
vamos todos fruir a primavera, festejar.
Eu canto e passeiam no ar
os raios de luar.
Eu danço e volteia no espaço
a sombra de mim.
Lúcidos, nós três desfrutámos prazeres suaves,
bêbados, cada um segue seu caminho.
Que possamos repetir muitas vezes
nosso singular festim
e nos encontremos, por fim,
na Via Láctea.
_______________

 Li Bai bebendo sozinho (com a lua, a sua própria sombra e 43 tradutores) 

花間一壺酒
獨酌無相親
舉杯邀明月
對影成三人
月既不解飲
影徒隨我身
暫伴月將影
行樂須及春
我歌月徘徊
我舞影零亂
醒時同交歡
醉後各分散
永結無情遊
相期邈雲漢

P. S.: Este texto já tinha estado no blogue e foi apagado quando desapareceu do YouTube o vídeo de “Buvant seul”  de Dick Annegarn, sem o qual, pensei eu, perdia o sentido. Ei-lo de volta.

1 de março de 2020

Polenta


Falei-vos no outro dia da palavra milho, falo-vos hoje de polenta. Sempre alimenta mais que a palavra milho…

O milho é já há bastante tempo um dos mais importantes produtos alimentares da África subsaariana, se não o mais importante. Introduzido em África no séc. XVI, o cultivo do cereal americano foi-se espalhando até se tornar uma parte fundamental da identidade cultural de muitos povos africanos. A que se deve esse sucesso do milho? A ser fácil de cultivar, sem dúvida, e a não ter um sabor muito marcado, provavelmente. Em Moçambique chama-se sadza, úchua ou chima, entre outros nomes, à massa de milho (massa é a palavra «portuguesa» do português de Moçambique...) que praticamente toda a gente come praticamente todos os dias[1]. Há até quem considere que comer sem massa não é bem comer... A massa de milho é um acompanhamento tão neutro como o arroz ou as batatas, e é assim que têm de ser, ao que dizem, todos os alimentos de base. Já li algures que é precisamente essa a razão pela qual os africanos preferem o milho branco ao milho amarelo: tem menos sabor.

Creio que na América Central e do Sul, de onde é originário, o milho não se come assim em papa salgada[2]. Quer dizer, nunca vi nem ouvi falar. Mas talvez… Ao que vejo na Internet, existem papas de milho praticamente iguais em toda a Europa de Leste[3] e nas Ilhas Canárias (gofio escaldado). Antes da pesquisa que fiz para este texto, porém, nunca tinha ouvido falar delas. Em Portugal, como no resto da Europa Ocidental, as papas de milho parecem ter tido mais fortuna como prato doce que como acompanhamento salgado. Mas não é que não existam. A minha avó fazia às vezes papa laberça, uma papa de milho com couve, e já vi uma ou outra referência a essas papas ou outras desse tipo, mas não é coisa que tenha encontrado muitas vezes na vida. O Algarve parece ser uma exceção, com as suas papas de milho ou xarém. Agora, as papas de milho na Europa são quase sempre, ao que vejo, feitas com milho amarelo — o milho branco não entrou muito nos hábitos europeus.

Pietro Longhi:   La polenta, 1740. Coleção Ca' Rezzonico (daqui)
Mas enfim, vamos à parte mais substancial do texto. Creio que a sadza de milho europeia mais conhecida internacionalmente é a polenta italiana. É acompanhamento que se come muitas vezes cá em casa e passo a descrever a polenta à minha maneira. Talvez um italiano a achasse pouco ortodoxa, não sei – também há tantas maneiras de a preparar em Itália…–, mas havia de gostar, tenho a certeza:

Faço um refogado em azeite com vários legumes (cebola, curgete, cenoura e pimento, e mais, conforme o que tenha à mão e me apeteça), deixo apurar bem e junto líquido. O melhor é caldo de carne, acho eu, depois de retirada a gordura, mas um caldo de legumes ou mesmo leite também funcionam bem. Deixo ferver e deito a farinha de milho em chuva, mexendo sempre. Tem de ser farinha de milho moída grossa, senão não fica bem. Contam-se, em princípio, quatro medidas de líquido para uma de farinha, mas isto pode variar um pouco de farinha para farinha e também depende de se querer a polenta mais ou menos grossa. Agora, o importante é deixar cozer em lume brando durante pelo menos quarenta minutos, mexendo de vez em quando, para não se pegar. Isto pode parecer um exagero, mas é assim que os italianos fazem e quando se experimentou vários tempos de cozedura, torna-se óbvio que a polenta cozida muito tempo sabe mesmo melhor. Depois de pronta, pode deitar-se queijo ralado lá dentro ou até cobri-la de queijo ralado e levar ao forno a gratinar. Lembrem-se que os restos de polenta que ficarem se podem aproveitar mais tarde cortando-os aos palitos grandes e fritando-os. É bom.

No Vale de Aosta, fazem a polenta com leite, manteiga
e gratinada com muito queijo.  Também já a fiz assim
– e é bem bom, claro! Foto: Wikimedia Commons (
daqui)
Quando vivia em Moçambique, dei algumas vezes dei a provar a moçambicanos a minha polenta. «Mas isto é melhor do que massa!», disse-me uma vez uma senhora, «É massa melhorada!» E o nome pegou, lá em casa: ficou a chamar-se massa melhorada. Mas lá está: se a comesse todos os dias, talvez se fartasse mais depressa de polenta que da sua massa…










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[1] Em princípio, come-se massa com caril. Caril não significa, neste contexto, o que estamos habituados que signifique, uma mistura de especiarias indiana ou um prato com elas preparado. Caril é tudo o que acompanhe a massa para não a comer apenas seca, muitas vezes um estufado de legumes. Quer dizer, caril também pode, portanto, ser… caril; mas a maior parte das vezes não é.

[2] Sei que há várias mazamorras de milho na América Latina, mas ou são doces, ou são líquidas ou levam muitos outros ingredientes além do milho, não são propriamente como a massa de milho africana.

[3] Pelo menos na Albânia (harapash), na Bulgária (kachamak), na Croácia (palenta ou pura), na Hungria (puliszka), na Moldávia (mamaliga), na Polónia (mamałyga), na Roménia (mămăligă), na Sérvia (kachamak) e na Ucrânia (tokan). Mas há mais. E há papas, como o močnik e o žganci eslovenos, que não são forçosamente de milho, mas também podem ser feitos de milho. É fácil encontrar na Internet fotos e receitas de todas estas massas de milho.



21 de fevereiro de 2020

Uma garrafa de whisky num bar em Camargo

As pessoas acreditam no que lhes dá jeito. E a crença de que há muito mais mulheres que homens no mundo dá jeito a muitos homens para justificar o direito que creem ter a mais que uma mulher. Quando se fala de poligamia, fala-se normalmente de poliginia (um homem com mais que uma esposa) e de sociedades ou grupos sociais em que esta tem força de lei, escrita ou consuetudinária; mas há muitas outras sociedades em que a poliginia, embora não reconhecida na lei, é aceite e faz efetivamente parte das instituições sociais. Em Portugal, por exemplo, era normal até há relativamente pouco tempo que homens «com posses» para isso tivessem, além da esposa oficial, uma mulher (ou mais…) «por conta», a quem «punham casa».

Na realidade, nascem no mundo mais homens que mulheres e, embora as mulheres vivam mais tempo que os homens, há mais homens que mulheres no mundo. (Para mais detalhes sobre a questão do rácio de género à nascença e as questões com ele relacionadas, veja-se, por exemplo, este artigo de Hannah Ritchie e Max Roser, no Our World in Data, da Universidade de Oxford). Mas a diferença é mínima: se dissermos que há, em quase todo o lado, praticamente o mesmo número de homens e mulheres, nunca andamos muito longe da verdade.

J. Waterloos: Homens a cantar (Zingende mannen), 1680–1684.
Rijksmuseum, Amesterdão (daqui)
E foi isso que eu disse uma vez, num bar, na vila de Camargo, na Bolívia, onde eu vivia na altura. Podia lá ser!, insurgiram-se os meus companheiros de chuflay*. Então se eles sempre tinham ouvido dizer que havia sete mulheres para cada homem. Imaginei como seria um sítio com sete mulheres para cada homem. Então, mas eles, olhando apenas à sua volta na rua, não viam que não era assim, que não podia ser assim? Mas as pessoas acreditam no que lhes dá jeito. A estranha crença justificava-lhes o direito à infidelidade conjugal – e a lógica do dever de fidelidade das suas mulheres, provavelmente…

Um dos meus companheiros, mais disposto a repensar mitos que os outros, aceitou que, de facto, isso de sete mulheres para cada homem não podia ser; mas que havia muito mais mulheres que homens, pelo menos o dobro, disso ele não tinha dúvida nenhuma. Já não me lembro de quem propôs a aposta, mas o facto é que apostámos uma garrafa de whisky.

A questão era como provar que tinha razão. Isto foi em 2000. O acesso à Internet era por modem e era limitada a informação disponível em linha. Tive muita sorte. Tinha acabado de sair um documento oficial boliviano (um livro grande, em bom papel e com boa qualidade gráfica, por tal sinal, cheio de ilustrações) com dados demográficos atualizados. Encontrei o livro no escritório do programa de desenvolvimento agrícola onde trabalhava a minha mulher e pedi-o emprestado um dia. Os meus conhecidos do bar não podiam refutar a fonte. Tiveram de reconhecer que na Bolívia há mais ou menos tantos homens como mulheres, só com uns quantos homens a mais, coisa muito pouca. Como no resto do mundo... E eu achei por bem dividir com eles a garrafa de uísque que acabava de ganhar, para os tentar consolar das mulheres que cada um acabava de perder.

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* Chuflay é uma bebida boliviana: gasosa com singani, aguardente de uva moscatel.

19 de fevereiro de 2020

Personalidade e circunstâncias

Tomamos às vezes conta de uma cadela de uma senhora nossa amiga, que às vezes toma conta da nossa cadela (a senhora, não a cadela, bem entendido). As duas cadelas são da mesma idade e conhecem-se desde pequenas. Acho que são aquilo a que as adolescentes chamam agora BFF, best friends forever.

Para facilitar a narrativa, chamemos à nossa cadela Sally e à sua amiga Nelly. A Sally tem, além desta grande amiga, mais duas grandes amigas de infância aqui na vizinhança, a que chamaremos, também para facilitar a narrativa, Molly e Lilly.

Molly e Lilly são duas pazes de alma – nunca as ouvi a ladrar nem a bichos nem a humanos. A Sally e a Nally são menos pacatas: Sally zanga-se muitas vezes com outros cães e ladra muito a pessoas que passam ou que entram no quintal; Nelly não costuma ladrar a humanos, mas é muito agressiva com outros animais, incluindo os da sua espécie. Às vezes passa-se, como se costume dizer. É cadela de caça, enfim. Da última vez que tomámos conta dela, saltou para o quintal vizinho e matou uma galinha que lá andava a passear.

Podemos dizer que os cães têm personalidades diferentes, como as pessoas e outros bichos. Que resultam, claro, da sua natureza e da maneira como são educados. Mas vejam: quando está com a Nelly, a Sally mostra-se também agressiva com outros cães, mesmo com as suas melhores amigas, Molly e Lilly. Uma pessoa fica sem saber o que pensar… Ou antes, uma pessoa é obrigada a pensar que essa coisa de personalidade tem muito que se lhe diga… Bom, neste texto falo de personalidade em sentido lato, no sentido de «conjunto de ações espontâneas e reações de um indivíduo, incluindo gostos nas reações». Se não vos agradar este conceito alargado de personalidade, leiam, no que se segue, apenas «ações e reações» onde escrevo personalidade.

Este texto é uma continuação de uma conversa iniciada aqui em fins de agosto de 2013, com o texto «Impessoal e transmissível». «Impessoal e transmissível» é como eu qualificava a personalidade de cada um, que, ao contrário do que se costuma pensar, muda conforma as circunstâncias – e sobretudo segundo o contexto social em que nos encontremos. Dizia eu no meu texto de 2013 que, embora não me custe aceitar que traços de personalidade ou capacidades—como gentileza, agressividade, criatividade, inovação, etc.—possam, em absoluto, variar de pessoa para pessoa, «nem o riso nem a crueldade estão apenas dentro das pessoas». Estão também nas suas circunstâncias e no seu papel social.

Porque escrevi eu riso e crueldade? Bom, quando escrevi crueldade, estava provavelmente a pensar em experiências célebres, como a de Phillip Zimbardo, em que estudantes a quem foi dado o papel de guardas maltrataram estudantes a quem foi dado o papel de prisioneiros, a de Stanley Milgram, em que os participantes davam choques elétricos a outros participantes, para obedecer ordens de alguém a quem reconheciam algum tipo de autoridade e outras semelhantes. Não sabia na altura que os estudos de Zimbardo e Milgram sofrem de graves problemas metodológicos, se é que não se podem mesmo considerar fraudulentos (já para não falar dos seus aspetos éticos), mas não são precisos estes resultados espetaculares para se reconhecer que, em maior ou menor grau, a posição de uma pessoa na hierarquia das relações de poder, se não determina, influencia grandemente a maneira como trata os outros.

Quanto ao riso, não sei se já teria lido, na altura, um estudo de 2007, What’s So Funny About Not Having Money? The Effects of Power on Laughter, em que se testava «a hipótese de que ocupar uma posição de pouco poder aumenta a probabilidade de riso, presumivelmente como meio de ganhar amigos e adeptos». Pelo menos, as suas conclusões gerais não me eram estranhas. Mas acabo de o ler agora e é essa leitura (ou releitura, não sei) que, juntamente com a observação do comportamento da minha cadela, que motiva diretamente este texto.

Toda a gente sabe que a graça que se acha a uma anedota não depende só da própria anedota, mas também de quem a conta. Algumas pessoas, porém, poderão não ter consciência de que isso depende também das relações de poder entre quem conta e quem ouve a anedota.

Para o estudo em questão, Tyler Stillman, R. Baumeister e C. De Wall fizeram duas experiências, uma com 36 estudantes e outra com 96 estudantes (todas do sexo feminino, não sei porquê) e duas colaboradoras, uma que fazia de entrevistadora e outra que fazia de investigadora.

Na primeira experiência, as estudantes eram entrevistadas por uma investigadora que, no decurso das entrevistas, dizia quatro piadas sem graça nenhuma, sempre em tom monótono. Nalguns casos, era dito à entrevistada que ela poderia ser selecionada pela entrevistadora para um prémio em dinheiro, o que colocava a entrevistada numa situação de «dependência» da entrevistadora. Noutros casos, não havia prémio. O resultado é que as entrevistadas que acreditavam depender da apreciação da entrevistadora para receber o prémio (que eram, pois, assim colocadas numa posição inferior na escala de poder) riam mais das anedotas sem graça que as outras.

Mas nem é preciso haver interação direta entre as pessoas com uma relação assimétrica de poder. Na segunda experiência, numa entrevista gravada num vídeo, uma mulher respondia a um questionário sobre informações e competências pessoais, que incluía, a certa altura, a pergunta «Qual é a sua anedota preferida?» E ela contava a famosa anedota do muffin (que era também, aliás, umas das piadas da entrevistadora na primeira experiência). Não sei se conhecem a anedota do muffin, mas é considerada—com ou sem razão, vocês decidirão —uma das anedotas mais parvas que dar se pode:
Estavam dois muffins num forno, quando um deles se vira para o outro e diz:
– Está aqui muito calor, não está?
O outro vira-se e grita assustado:
– Ai, o que é isto? Um muffin que fala!!!
Agora, à estudante que assistia a este vídeo, eram dadas diferentes informações sobre a mulher filmada—às vezes, dizia-se-lhe que, numa fase posterior do trabalho, a mulher filmada seria sua chefe e decidiria quanto ia receber pela participação no estudo; outras vezes, dizia-se-lhe que a mulher filmada seria sua colega ou uma sua subordinada. Nestas duas últimas situações, a estudante testada ria-se pouco ou nada da anedota contada pela mulher no vídeo; mas quando esta mulher era apresentada como sua futura superiora, ria-se muito mais. Ora, não havia aqui qualquer contacto presencial, pelo que não podia ser para impressionar favoravelmente a sua «futura chefe» que o fazia. 

Num artigo no New York Times, Tyler Stillman explica o fenómeno da seguinte forma (traduzo eu):
O riso parece ser uma reação automática à situação em que uma pessoa se encontra, e não uma estratégia consciente (…). Quando conto a anedota do muffin às minhas turmas na universidade, os alunos riem-se muito.» Mas o mesmo não se passou numa pequena conferência para outros investigadores nesta área. «Quando me ouviram, um simples estudante de mestrado, contar a anedota do muffin, fez-se um silêncio muito desconfortável. Até se ouviam as moscas.
«Nem era preciso fazer a experiência», pensarão vocês, «toda a gente sabe que é assim que as coisas se passam». É bem capaz, mas é preciso fazer as experiências e com metodologia e dados mais fiáveis que os de muitas experiências anteriores.

Agora, a questão que se coloca em relação à reação às anedotas é a mesma que se pode colocar a todas as outras manifestações de personalidade. Se considerarmos que há um núcleo essencial de personalidade que determina a reação a uma situação, como saber que núcleo é esse, quando, na prática, ele varia constantemente consoante a situação? Mais: que sentido faz postular a existência desse núcleo, se nenhuma observação no-lo revela? O mais provável é que, assustados pela ideia de sermos, em grande medida, um produto apenas das nossas circunstâncias, optemos por considerar a «base» da nossa personalidade a nossa maneira de sentir ou agir que resulta da situação em que «somos» mais de acordo com uma imagem ideal de nós mesmos.

***
No meu outro texto, terminava com um apêndice moral: independentemente de acreditarmos que a personalidade é ou não estável, ou mais ou menos estável, é de louvar a sua estabilidade? Quer dizer, é de louvar o tentar esforçar-se por manter os mesmo traços de caráter, gostos, etc., de uma situação para a outra e ao longo do tempo? A minha conclusão era—e mantém-se—que a estabilidade da personalidade não pode ser considerada por si só moralmente defensável, nem uma virtude, já que são as ações que contam e não o facto de se manterem inalteráveis em diferentes contextos; e que esta estabilidade pode significar teimosia ou resistência à mudança.

Desta vez, quero propor, para terminar e afastando-me também um pouco do rumo inicial do texto, uma reflexão. Por mais que se reúna evidência sobre a inexistência de um núcleo estável de personalidade (ou, pelo menos, sobre a extrema dificuldade ou impossibilidade de o determinar), a maior parte das pessoas parece não aceitar esta ideia com facilidade. Trata-se, creio, do mesmo mecanismo mental que faz com que recusamos aceitar que somos o nosso corpo, cérebro incluído, e postulamos instintivamente um estranho eu exterior a esse corpo: «tem um controlo perfeito do seu corpo», «o nosso cérebro muitas vezes engana-nos», etc. Há, pelos vistos, qualquer coisa de muito fundo em nós, qualquer coisa de muito primordial, que nos faz acreditar numa instância pura de nós próprios, independente de mecanismos físicos e sociais. Afinal de contas, nem só as pessoas religiosas acreditam numa alma, chamem-lhes lá o que lhe chamarem—uma coisa em que, quando se escrutina a ideia com rigor, não faz nenhum sentido acreditar... Porque será?
***
Ainda mais afastada do tema geral do texto, uma nota lateral que é também outra proposta de reflexão:
Bill Stevenson: Prison guards gather inmates into a corner
at Kingston Penitentiary after a two-hour riot
on Aug
. 16, 1954 (Creative Commons, daqui)
Uma das várias coisas que se criticam no estudo de Zimbardo é os investigadores terem condicionado os «guardas», de forma mais ou menos expressa ou mais ou menos subentendida,  para uma determinada atitude relativamente aos «prisioneiros».

Mas não existirá o mesmo tipo de condicionamento nos verdadeiros guardas prisionais que guardam prisioneiros verdadeiros?, pergunta Maria Konnikova num interessante artigo do New Yorker:
[A] experiência na prisão de Stanford sugere que instituições extremas provocam um comportamento extremo. As prisões não são folhas de papel em branco. Os guardas escolhem de facto o seu emprego, tal como os alunos de Zimbardo escolheram participar num estudo da vida na prisão. Como os homens de Zimbardo, os guardas são bombardeados com expectativas desde o início e moldados por normas e padrões de comportamento preexistentes. A lição de Stanford não é que qualquer ser humano pode cair no sadismo e na tirania. É que certas instituições e ambientes exigem esses comportamentos—e talvez os possam alterar.»



17 de fevereiro de 2020

Nomes velhos para coisas novas: milho e feijão

Já aqui falei uma vez de coelhos e do nome Hispania. Uma das propostas etimológicas para Hispania é que os fenícios, ao encontrarem aí um bicho novo, os coelhos, lhe deram o nome do bicho mais parecido que conheciam, os damões, e chamaram então à Ibéria i-shapan, «ilha de damões». Ora, independentemente de ser ou não esta a verdadeira origem de Hispania, o processo que ela implica é comum e compreensível: inventar um nome novo para um animal ou uma planta que se descobre é mais trabalhoso que reciclar um nome já existente.
Por exemplo: o milho (Zea mays), que é um cereal americano, recebeu em português o nome de um outro tipo de cereais da família Poaceae, hoje conhecidos como milho miúdo ou painço, originários de várias partes do mundo e que os portugueses conheciam há muito. Em francês, mantém-se no Canadá a designação de blé d’Inde, «trigo da Índia» (entendendo-se aqui Índia como Américas, «as Índias Ocidentais»).

Também é curioso pensar que o facto de se usar um nome de um animal ou planta que se conhece para outro animal ou planta «semelhante» que se descobre pode afetar a designação original, se o novo animal ou planta se tornar mais popular que o original. O milho antigo passou a designar-se como miúdo ou painço, quando se divulgou o novo milho, que lhe usurpou o nome[1]. O mesmo se passou com o peru, animal também americano, a que os espanhóis deram o nome do pavão, pavo, por com este se parecer, e que passou a ser ele o pavo propriamente dito, tendo-se acrescentado ao desgraçado do pavo original o termo real para o distinguir do usurpador onomástico americano.


Outro bom exemplo deste fenómeno é o feijão. O chamado feijão comum, esse com que se fazem feijoadas, dobradas e sopas de feijão, é o Phaseolus vulgaris, uma espécie de um género que inclui também a feijoca, Phaseolus lunatus. Todos os tipos de feijão – branco, encarnado, catarino, preto, manteiga, etc. – são variedades diferentes da mesma espécie e os diversos tipos de feijão verde são também o mesmo legume: as suas vagens antes de se desenvolverem as sementes[2]. O feijão comum é originário da América Central e do Sul, pelo que só começou a ser consumido na Europa no séc. XVI. Já aqui vos falei de feijão e disse que alguns dos nomes que se lhe dão hoje se usavam antes de os europeus o conhecerem, mas para designar outras leguminosas. De facto, ao passar em revista os nomes do feijão na nossa língua e nalgumas línguas mais próximas da nossa, chegamos à conclusão que, dos muitos nomes que o feijão tem, apenas poucos são importados das línguas dos povos que originalmente o cultivavam. Senão vejamos:

Feijão, em português (e feijoca, claro), fagiolo, em italiano, flageolet e fayot, em francês, e frijol, fríjol, frejol e fréjol[3], em castelhano, vêm todos do latim faseŏlus ou phaseŏlus, que dá o nome botânico ao género, como já referido, e que vem, por sua vez, do grego φάσηλος (phásēlos), que designa o feijão-frade (Vigna ungiculata, um legume sem relação com o Phaseolus). Também o termo alubia, outro nome do feijão em Espanha, vem de uma palavra persa, لوبیا‎ (lubeyā)[4], que designa o feijão-frade.

Faba, termo galego e asturiano, vem obviamente do termo latino faba, que designa a fava[5] (Vicia faba, outro legume sem relação com o Phaseolus). Habichuela[6] é, claro, um diminutivo de fava, tenha ele sido formado já da haba castelhana, ou venha de formas anteriores, como uma hipotética fabichuela moçárabe ou uma fabicella latina.

O inglês bean e os seus parentes germânicos, como o neerlandês boon, alemão Bohne e o dinamarquês bønne, estão também etimologicamente relacionados com o latim faba, «fava», o grego phakos, «lentilha», e o albanês bathë, «fava», e vários outros termos indo-europeus que designam leguminosas euroasiáticas.

Quanto ao termo judía, que se usa em Espanha, vem provavelmente do etnónimo judío, mas como e porquê não se sabe… Também ninguém parece saber a origem de caraota, o nome venezuelano do feijão, nem ter a certeza sobre a origem do francês haricot. Quer dizer, conhece-se a história de haricot no sentido de «guisado»[7], e pensa-se que se deu o nome da preparação culinária ao feijão, por este ser assim preparado, mas há outras propostas[8].

De maneira que são uma minoria os nomes do feijão nas línguas europeias que foram importados das línguas faladas pelos povos que o domesticaram e cultivavam: poroto (Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai Perú, Uruguai), que vem do quéchua purutu; ejote, que se usa para o feijão verde (América Central e México) e que vem do nauatle exōtl, «feijoca»; e chaucha (Argentina, Paraguai, Uruguai), que parece vir de um termo quéchua que significa «verde, por amadurecer»[9]. Pois, porque, como eu dizia, é mais fácil dar-se a uma coisa nova um nome de uma coisa que já se conhece…




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Notas

[1] Evidentemente, isto não se passa de repente, longe disso. Durante muito, usaram-se expressões várias para distinguir o novo milho do milho antigo, até que o milho americano passou a ser simplesmente milho, sem mais. Lê-se na entrada Milhom (p. 134) do Elucidario das palavras, termos, e frases, que em Portugal antiguamente se usárão, e que hoje regularmente se ignorão: obra indispensavel para entender sem erro os documentos mais raros, e preciosos, que entre nós se conservão, de Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo (Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1798)
Em hum Testam. De S. Simão da Junqueira de 1289 se diz: It : a Stevão Joannes de Pera fita, ou a seos heréés, hum quarteiro de milhom. Daqui se poderia inferir, que já então havia em Portugal milho Maíz, ou grosso, a que hoje chamão naquella terra Milhão. Mas a verdade he, que os Antigos punhão muitas vezes m sobre o o ultimo de algumas palavras sem necessidade alguma : v. g. juriom por jurio, &c. E da mesma sorte se disse ali Milhom por Milho, pelo qual se entendeo sempre o milho branco, ou miudo , até que no Sec. XVII. hum certo Paulo de Braga o trouxe á sua terra, vindo da India. Ao principio, dizem, se prohibio o semeallo, e só alguns cultivárão poucos pés nas suas hortas, e jardins. Hoje hé o mais frequente pão naquella Provincia, e lhe chamão Milho Zaburro, Milho grande, Milho graúdo, Milho Maíz, Milhão, ou Milho grosso, e Milho de Maçaroca.
Na entrada Maçaroca (p. 47 do Suplemento ao Eluciário), lê-se o seguinte:
Milho de maçaroca, milho grósso. V. Milhom. No tempo d'El Rei D. João II., e no descubrimento de Guiné, dizem alguns descubrírão os Portuguezes o Milho grosso de maçaroca, donde o trouxerão a Portugal; e que se principiou a cultivar nos campos de Coimbra.
Joaquim de Viterbo não sabia, pois, da origem americana do milho.

[2] Apesar de ser a mesma planta, o feijão verde tem, por vezes, designações diferentes do feijão maduro. Às vezes, acrescenta-se apenas verde ao nome do feijão, como se faz em feijão verde, haricots verts, judías verdes ou porotos verdes; às vezes, designam-se como o que de facto são, vagens (norte de Portugal), vainitas (Peru); mas às vezes têm a sua palavra própria, como ejote, habichuela ou chaucha.

[3] Frijol e as suas variantes usam-se principalmente no México, na América Central e no Peru. A estranha forma com -r- e terminada em -ol resultaria da contaminação do termo diretamente derivado do faseolus latino pelo moçárabe brísol ou gríjol, «ervilha». O termo francês flageolet tem origem na palavra italiana e fayot chega ao francês pelo provençal faiol ou fayol.

[4] A palavra chega ao castelhano pelo árabe andaluz اللُوبِيَا‎ (allúbya), variação do árabe لُوبِيَاء ‎ (lūbiyā).

[5] A palavra latina vem do proto-itálico *fafā, do protoindo-europeu *bʰabʰ-, que, além da palavra latina, dá muitas palavras germânicas e eslavas.

No francês canadiano ainda se usa, como em francês antigo, a palavra fève para designar o feijão comum – palavra que, nas outras variantes do francês moderno, designa apenas a fava.

[6] O termo é usado em Castilla La Mancha, Múrcia, República Dominicana e Porto Rico para designar o feijão comum maduro e na Andaluzia, Canárias, Cuba, Colômbia, Panamá e Venezuela para designar o feijão verde.

[7] O nome haricot é formado a partir de um verbo antigo, harigoter, «desfazer, partir ou cortar aos bocados», que viria do frâncico *hariōn e está relacionado com vários termos germânicos com a ideia de «desfazer, destruir, dar cabo de».

[8] Segundo o dicionário do Centre Nationale de Ressources Textuelles et Lexicales (um excelente dicionário para quem trabalhe com francês) o mais provável é o nome do legume vir do termo que significa guisado. Considera-se improvável a hipótese da etimologia mexicana (ayacotli) e recusa-se outra proposta, a de ter origem no topónimo Calicut.

[9] Sobre a etimologia de Chaucha, diz Valentín Anders no seu site algo que parece razoável (e bastante curioso), para explicar os diversos significados da palavra na América latina (traduzo eu):
É provável que o sentido de chaucha na América do Sul se tenha indo alterando semanticamente à medida que se deslocava para norte, mais ou menos da seguinte forma:
No DRAE, diz-se que vem de um termo quéchua que significa «verde, não amadurecido» e daí que, na Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, signifique «feijão verde» (por amadurecer) e no Chile, «batatas pequenas que não valem a pena comer e são deixadas para semente» (também por amadurecer). Daí, passa ser «algo de pouco valor» no Chile e no Uruguai, «pouco dinheiro» no Chile e, na Argentina, «moedas pequenas, trocos». Mais um passo e já temos o significado do Equador, «um trabalho de pouca importância, um biscate», para completar o salário. E daí que, nas Antilhas, se tenha tornado sinónimo de sustento diário, a comida de cada dia (…).
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Ilustrações: em cima, uma maçaroca de milho. Bernardino de Sahagun, 1577 (Wikimedia Commons, daqui); em baixo: Phaseolus vulgaris no Libri picturati de Carolus Clusius et al., ca. 1600 (Wikimedia Commons, daqui)

1 de fevereiro de 2020

Não sei se vos acontece o mesmo


Não sei se vos acontece o mesmo. A mim, acontece-me todos os dias. Todos os dias penso: «Hoje vou ser uma boa pessoa.» No sentido, estão a ver?, de não fazer nada que ache mal, nada que me possa, muito ou pouco, pesar na consciência. E depois nunca sou essa boa pessoa que decidi ser.



27 de dezembro de 2019

Três pequenas notas sobre charro, insumo e sótão

Charro

Há um caso conhecido de contribuição do híndi para o vocabulário dos amadores de Cannabis sativa em Portugal. Ganza vem obviamente do híndi ganja, गांजा, termo cujo uso nas línguas europeias está documentado há séculos, com o seu significado original, isto é, referindo apenas o produto. Os outros usos em português moderno, para significar «uma dose de Cannabis» («fumar uma ganza») ou o seu efeito («estar com uma grande ganza») surgem, obviamente, por extensão do significado original.

Menos óbvia é a etimologia de charro, mas parece-me provável que também tenha origem indiana — embora, como ganja, deva ter chegado ao português pelo inglês, língua de comunicação na Índia e língua franca do quem, nos anos sessenta, a divulgou no Ocidente—e à Cannabis... Muitos amadores de Cannabis anglófonos conhecem—sobretudo se tiverem viajado na Índia, mas não só—o termo inglês churrus (pronunciado [tchâras], mais ou menos), ou as suas variantes charras ou charas, que designa um tipo de haxixe (do híndi चरस, urdu چرس). É bem possível que o termo, originalmente um nome não contável como haxixe, imediatamente se tenha tornado contável em português, passando a designar não o produto, mas os cigarros em que ele se consome — possivelmente por analogia com cigarro, precisamente, a que também pode ter ido buscar o rr «longo».

Insumo

Quando faz falta uma palavra, a língua arranja-a logo. Ou se cunha uma palavra nova ou se importa uma palavra de outra língua. Acho que muitos falantes do português sentiam e sentem muitas vezes dificuldades em traduzir o inglês input. É certo que, quando se traduz, não é em palavras isoladas que se deve pensar, e sim em frases completas, mas todos, mesmo os melhores tradutores, se deixam apanhar na armadilha de emperrar em palavras concretas.

Traduzo as definições de input do Cambridge em linha: «aquilo que se introduz num sistema, organização ou máquina (como energia, dinheiro ou informação) para que este/a possa funcionar; ajuda, ideias ou conhecimento que alguém fornece a um projeto, organização, etc.; um recurso, como sejam materiais ou mão-de-obra, que entra na produção de qualquer coisa e cujo custo tem influência nos lucros».

Se procurarem no dicionário técnico da União Europeia, depois de escolher EN como língua de partida e PT como língua de chegada, obterão 513 entradas com a palavra e as suas correspondentes em português em cada caso. Input pode traduzir-se por entrada, fluxo, meio, fator de produção, aporte, contributo e seguramente muito mais, consoante o contexto em que ocorra. Ah, e por insumo, claro!

Lido muito com a palavra insumo há cerca de 20 anos. Em agricultura, por exemplo, fala-se muito de insumos agrícolas para referir sementes, adubos pesticidas e herbicidas, alfaias e maquinaria, tudo aquilo que é necessário para produzir. Mas pode falar-se de insumos para qualquer atividade produtiva. Pessoalmente, uso a palavra apenas para referir coisas materiais, mas há quem lhe dê um uso mais vasto. Por exemplo, eu nunca diria “insumos para a elaboração de um relatório” (nesse caso, usaria contributos), mas há quem o faça.

Tenho quase de certeza de que o termo surgiu simplesmente para traduzir o inglês input. Tenho também quase a certeza de que surgiu no Brasil e que foi importado do castelhano, onde se terá formado já há mais tempo como deverbal de insumir, palavra que não importámos (ver aqui). Depois, do português brasileiro, a palavra espalhou-se rapidamente, sendo agora comum também noutras variantes. Eu conheço-a sobretudo de Moçambique, mas o Porto Editora, por exemplo, acolhe a palavra como termo de economia, sem indicar que é brasileirismo ou moçambicanismo. O mesmo o Priberam

Uma coisa é certa: gostemos ou não dela, é, como se costuma dizer, uma palavra bem formada. Podia ter sido cunhada na nossa língua e segue os preceitos clássicos da «boa formação» de palavras: tem origem latina e tem familiares há muito residentes na nossa língua, como consumo, consumir, eximir, prémio, pronto, presunção, redimir, resumo, resumir, subsumir, etc., etc., todas elas com origem no emere latino, «tomar, obter», ou em sumere, variante de subemere.

Sótão

Mostrava-me um amigo meu, no outro dia, uma foto de uma placa anunciando um restaurante chamado O Sótão na cave de um edifício. Eu percebo a piada da foto, claro, mas, pensando bem na palavra, mais surpreendente que um sótão na cave é que sótão não signifique mesmo cave, como se poderia esperar.

Em castelhano, sótano significa «cave» e o cognato italiano, sottano, é expressão regional para designar uma habitação térrea pobre, também conhecida como basso. Não parece haver consenso quanto à etimologia de sótão: uns propõem uma forma latina não atestada, *subtānu-; outros outra forma latina, subtulu-, que teria dado uma forma intermédia sótalo em castelhano. Mas, seja como for, o significado etimológico é sempre «o que está debaixo; a parte de baixo»—o que é patente nos cognatos castelhano e italiano. A explicação que se costuma dar para a deriva de sentido do termo português é que o sótão está debaixo do telhado, mas é uma explicação convincente, sobretudo quando não se aplica aos cognatos nas línguas próximas?

Uma outra explicação poderia ser (isto é puramente especulativo, como muitas propostas de explicação de evoluções semânticas—sou só eu a pensar em voz alta, como se costuma dizer) que o termo, originalmente designando a cave, tivesse ganho um sentido de «arrecadação», que passou a aplicar-se independentemente da situação da arrecadação no edifício e que depois de especializou nos espaços usados para esse fim na parte superior das casas.

23 de dezembro de 2019

Feliz Natal

Como todos sabem, a tradição já não é o que era, sobretudo porque, de facto, já não era muito o que era quando ainda era aquilo que já não é... Além disso, o melhor ainda é cada qual arranjar a tradição que lhe convenha, se acaso lhe não convier a tradição que há. De maneira que, cá em casa, a tradição costuma ser peru no Natal, exceto nos Natais em que a tradição foi ganso e nos Natais em que a tradição foi pato, que também os houve. Nos anos em que a tradição foi peru, assou-se o peru no forno, coberto de bacon, a muito baixa temperatura (o dia todo), e aconteceu também acrescentarmos-lhe recheio de ameixas secas e maçãs, que fomos buscar ao primeiro ano em que a tradição foi ganso...

O nome inglês do peru diz que ele que vem da Turquia, mas, na realidade, é bicho originário da América do Norte, tendo sido domesticado mesmo no sul desta parte do mundo, na zona que é atualmente o México. Quanto ao nome português, há que compreender que Peru designava muitas vezes não o Peru atual, mas as colónias americanas de Espanha. Do nome francês, que o diz da Índia, também não se pode dizer que esteja incorreto, porque a América eram as Índias Ocidentais, não é verdade? Aliás, os canadianos francófonos também chamam ao milho trigo da Índia.

Foto: Paulo Guedes, sem data: Venda ambulante de perus na época do Natal, Largo de São Domingos, Lisboa (daqui)

Este ano, para variar, vamos introduzir uma tradição nova, um fiambre glaceado, ou seja, neste caso,é barrado com uma mistura de mostarda de Dijon e mel e assado no forno a baixa temperatura, talvez com um bocadinho de calor forte no fim para caramelizar a superfície.

Tradição inalterável no Natal da nossa família, só o gelado caseiro â sobremesa – os sabores é que podem variar, entre chocolate, rum com passas ou caramelo com amêndoas. Bem veem, os nossos filhos tinham dois, quatro e seis anos quando fomos viver para Moçambique, de maneira que foram quentes os Natais mais importantes da vida deles. E nem o inverno dinamarquês lhes tira o gelado natalício.

A todos os leitores habituais do blogue, e também a quem venha por acaso aqui parar, desejo um Feliz Natal, com as iguarias que as tradições de cada um lhes ponham na mesa da consoada.

22 de dezembro de 2019

Importante nunca esquecer


Quer se fale de massa ou de arroz, al dente não significa cru.

Sim?

Solstício de inverno [Crónicas de Svendborg #34]


Anteontem, perguntei a um senhor meu conhecido, natural desta ilha de Tåsinge e que tem agora a bonita idade de 95 anos:
 – E então, tudo a postos para o Natal?
– Não celebro o Natal – respondeu ele. – Mas celebro o solstício. Comprei uma garrafa de vinho branco e uns lagostins e depois de amanhã celebro o solstício, como sempre fiz.

E eu que pensava que isto de celebrar o solstício de inverno em vez do Natal era moda recente de neopagãos new age

8 de dezembro de 2019

De pé, como as árvores [Crónicas de Svendborg #33]

Quando eu era miúdo, vi várias vezes (?) na televisão uma peça de teatro chamada As árvores morrem de pé, com Palmira Bastos no papel principal. Também vos recordais? As coisas que nos vêm à cabeça…. Fui agora ver ao Google e fiquei a saber que a peça é de um dramaturgo espanhol chamado Alejandro Casona e que Palmira Bastos tinha 90 anos quando a gravou para a RTP, um ano antes da sua morte. Não sei nada de Palmira Bastos nem me lembro nada da peça, a não ser que tinha um final trágico que impressionou muito os oito aninhos que eu tinha, em que a atriz declamava (também vi isto agora no Google): «Morta por dentro, mas de pé, de pé, como as árvores!».

Agora, isto de as árvores morrerem de pé, enfim, é conforme… Há de facto árvores que morrem de pé, como o castanheiro da primeira foto. Este morreu à míngua de luz, rai’s parta’ os abetos que o rodeavam, que o atabafaram, antes de terem desbastado, tarde demais, o espaço à sua volta.

E há outras que caem mortas, como a faia da segunda foto. Diz que ar e vento é meio sustento, mas ela, com o ar em tanto movimento, não se sustentou. (Também deve haver árvores que não têm onde cair mortas, mas isso é outra história…)

Já agora, continuando a avaliar como se enraízam no real as metáforas vegetais, pode constatar-se que morrer ou não de pé é independente de se ter ou não raízes no local onde se morre: o castanheiro da foto, que mantém intactas as suas raízes, é árvore imigrante, ao passo que a desenraizada faia é árvore com raízes locais.

23 de novembro de 2019

Nørreskov [Crónicas de Svendborg #32]


A Nørreskov, a «mata norte», é uma das matas da ilha de Tåsinge.
Escreveram-se em casca de bétula textos religiosos, tratados de matemática, medicina e gramática, provérbios, fórmulas encantatórias, trabalhos escolares e, com toda a certeza, cartas comerciais e de amor, entre muitas outras coisas. Mas não foi em casca destas bétulas, claro está.
Este é um exemplo extremo, mas na Nørreskov dobram-se as árvores para o mar que a ladeia. Estamos habituados a que sopre o vento do mar para a terra, mas aqui é ao contrário, o vento empurra as árvores para a praia: «Vão, vão, vão, ali em frente há mais terra, mais terras, lugares para novas raízes.»
Há pessoas que vão passear para centros comerciais ao fim de semana. (E porque não?)
Na Dinamarca, não há rios. Há regatos e ribeiras, mas rios não. «Muitos riachozinhos fazem uma grande ribeira», diz um provérbio dinamarquês que é primo do nosso «grão a grão enche a galinha o papo». A palavra å, que significa «ribeira», é com certeza um dos mais curtos nomes do mundo, pelo se nos guiarmos pelo critério do número de letras com que se escreve — juntamente com ø, que significa «ilha». (Sobretudo se não contarmos o nome das letras do alfabeto.)
Faias. A folhagem esconde uma parte da beleza das árvores.
Não deixa de ser curioso que o latim silva-, «mata, bosque, floresta», tenha dado em português duas coisas tão diferentes como selva e silva. Já agora, que falamos de silvas, também não deixa de ser curioso que em português se dê o mesmo nome de amoras aos frutos das silvas (arbustos do género Rubus) e das amoreiras (árvores do género Morus).
«De Santos a Natal, é inverno natural», diz o provérbio português. E mais aqui. Pouco já resta das cores outonais e vai-se esgaçando o tapete de folhas.