15 de janeiro de 2019

Da trivialidade

Num romance ou num filme não se referem normalmente idas à casa de banho, as horas diárias de sono, compras e preparação de refeição, tudo aquilo que faz a maior parte da vida de toda a gente. Ou, se se referem, referem-se de passagem, talvez para ajudar a caracterizar uma personagem ou no meio de uma sequência de acontecimentos, mas nunca – nem de muito longe – se gasta com essas chatas banalidades espaço narrativo proporcional ao que ocupam na vida real. Isto é só uma introdução a outra coisa, que não é de narrativas que vos quero falar.


É comum afirmar-se que, ao aprender uma língua estrangeira, se ganha acesso à cultura das pessoas que a falam. Uma língua é, diz-se, uma porta aberta para as especificidades da cada cultura, para o que é único de um determinado grupo humano. E há muito de verdade nesta afirmação. A língua é, de facto, condição necessária para aceder à cultura – se bem que insuficiente. Para se conhecer a cultura do Idaho, do Yorkshire ou da Irlanda no Norte, por exemplo, não basta saber inglês, mas é de facto impossível conhecer devidamente (uma grande parte d)a cultura destes lugares sem falar inglês.

O que eu queria aqui sublinhar é, digamos assim, o outro lado da questão. Saber a língua de um grupo de pessoas serve também para perceber que elas são iguais a nós. E isto é tão importante como compreender as suas especificidades. Costumo dizer a brincar – mas ao mesmo tempo muito a sério – que os dinamarqueses eram mais interessantes antes de eu falar dinamarquês, porque, observando-os apenas sem compreender o que diziam, os imaginava a falarem entre eles das coisas de que falavam comigo em inglês. Nas conversas com estrangeiros, evita-se o trivial, como na literatura e no cinema. Quando alguém de fora me visita, falo-lhe, sei lá…, da história e da arquitetura da zona, de política, do que de mais interessante me ocupa o espírito. Não lhe falo das conversas da última reunião de pais, nem dos vulgares desentendimentos com colegas ou familiares, nem da diferença de produtos e preços das lojas locais, da vizinha que, coitada, tem andado adoentada, de utensílios de cozinha a precisar de substituição, ou os estofos de cadeira, nem da limpeza dos algerozes ou da revisão do carro… E, claro está, os dinamarqueses, os portugueses, os franceses, os moçambicanos, os bolivianos e os outros humanos todos passam uma grande parte da sua vida a falar de coisas corriqueiras. A sua quotidiana trivialidade é também uma parte essencial da sua cultura – que partilham com todas as outras pessoas.

12 de janeiro de 2019

«Este trabalho está pecável!» – uma pequena curiosidade linguística

Uma vez, no Facebook, alguém propôs um jogo, em inglês: arranjar palavras com um prefixo de negação a que não correspondesse um antónimo sem o prefixo. Por exemplo, há impeccable, mas ninguém ouviu falar de *peccable… Achei graça e propus aos meus amigos facebookianos de língua portuguesa o mesmo jogo na nossa língua. O resultado surpreendeu-me um pouco: há muito mais palavras desse tipo do que eu imaginava.

Antes de mais, conviria talvez explicar que os chamados prefixos de negação ou privação são, em português, os seguintes:
• a/an-, de origem grega, que se encontra em palavras como acrítico, agnóstico, amoral, assexuado, atípico, etc.;
• des-, de origen latina, que se encontra em palavras como desacerto, desonesto, desaconselhável, etc.; e
• in-, o prefixo de negação mais comum, que muda ligeiramente de forma (gráfica e/ou fonética) consoante o som que tem depois: inapto, inviável, insatisfeito; imbatível, impossível; ilógico, imoral; irreconhecível. (É preciso não confundir este prefixo com outro in-, que significa «movimento para dentro», às vezes transformado em em/en-, como em enterrar. Por exemplo, em impropério, que parece ser uma palavra com um im- que negaria algo próprio, no sentido de «apropriado», o im- não é, de facto, um prefixo de negação: vem do verbo latino impropero, que é «entrar de rompante», formado de propero, «apressar-se, acelerar», com a preposição in, «para dentro».)

É complicado se se deve considerar dis- um prefixo de negação/privação. Embora atualmente seja assim entendido, o sentido original grego é «mau»: dispneia, disenteria, dispepsia, disfasia, etc. E pode levantar-se a mesma dúvida relativamente ao dis- de origem latina, que é originalmente mais de separação que de negação e que se encontra, por exemplo, em discordar e discussão. Não considerarei aqui essas palavras.

Quanto às palavras com não, como em tratado de não agressão, o não não é propriamente um prefixo e, com a nova grafia, nem sequer se liga com hífen: não alinhado, não contradição, não intervenção. É interessante notar que há diferença entre prepor não a uma palavra ou usar outro prefixo negativo (pensem em não alinhado e desalinhado, por exemplo), mas, claro está, todas as palavras formadas com não têm uma correspondente sem não [sorriso], pelo que essas palavras também aqui não nos interessam.

Há ainda uma categoria de falsos negativos, em que o aparente prefixo negativo é de facto um elemento de reforço, como em desinfeliz, destrocar, desinquieto. Uma curiosidade, dentro deste tipo de palavras, é a palavra descascar. Na sua origem, creio que o des- de descascar é um prefixo de reforço, já que cascar significa o mesmo que descascar, «tirar a casca». Mas creio que descascar é atualmente sentido como tendo um verdadeiro prefixo de negação, como se cascar fosse pôr uma casca e descascar tirá-la. Não sei se contribuiu para essa perceção o facto de cascar, com o significado de «tirar a casca», ter caído em desuso ou se, pelo contrário, foi essa perceção que contribuiu para o desaparecimento do significado antigo de cascar.

***
Mas vamos então às palavras portuguesas com prefixo negativo de que não há antónimo positivo – normalmente porque só a forma com prefixo de negação evoluiu do latim ou porque só essa forma foi importada de alguma outra língua. Eis uma lista, forçosamente incompleta, de palavras desse tipo, com breves comentários a cada uma:

  • Analgésico é formado de analgesia, termo médico para «supressão da dor», negativo de algesia, «sensibilidade à dor», mas *algésico não existe.
  • Anemia, como o nome de muitas doenças, é de origem grega: haimas é sangue e anaimia é falta de sangue. O temo positivo, *(h)emia, não existe como vocábulo independente, mas -emia ocorre como elemento de formação de palavras como hipoglicemia ou leucemia, por exemplo.
  • Anónimo é «(feito por alguém) de que não se sabe o nome», mas não há *nómino para dizer o contrário. Uma palavra com a mesma raiz é denominar, mas denominado não é antónimo de anónimo.
  • Ateu e ateia são palavras curiosas. Se é claro que não há *teu e *teia para referir quem crê num deus, já ateísta e ateísmo, com a mesma raiz grega (theos, «deus»), têm um antónimo não prefixado, teísta e teísmo.
  • Diz-se descarado de alguém que não é envergonhado ou que não tem pejo em desrespeitar convenções sociais, mas *carado não existe. Os dicionários consagram um verbo descarar de onde teriam derivado o adjetivo, mas nunca o ouvi. É capaz de ter caído em desuso, não sei.
  • *Façatez não existe, só desfaçatez. Trata-se de uma palavra importada já com o prefixo, do castelhano desfachatez, que, por sua fez, a foi buscar ao italiano sfacciatezza. O s- inicial do italiano é um prefixo privativo correspondente aos nosso des/dis- que se junta à palavra faccia, «cara», pelo que a expressão é paralela ao nosso descaramento.
  • Desdenhar é o contrário de um *denhar que não existe, mas que, a ter existido, seria uma forma irmã de dignar. Originalmente, *denhar/dignar devia ser «tratar com dignidade», o que justifica o significado de desdenhar, mas dignar (que, em português moderno, só conheço como verbo reflexo) não é o contrário de desdenhar, é antes «condescender em», «fazer o favor de».
  • Desvirtuar, que tem origem em virtude, usa-se sobretudo no sentido de «trair ou deturpar o [bom] propósito ou sentido de alguma ação ou afirmação», mas *virtuar não existe.
  • Não consigo saber (acho que ninguém sabe) se o im- de imbecil é um prefixo de negação. Existe a teoria de que o latim imbecillus («fraco, débil»), que é o étimo da palavra, derivaria de um *imbacillus formado pelo prefixo privativo im- preposto a bacillus («pau», étimo de bacilo), e que significaria, por isso, «sem bengala», mas há quem considere esta hipótese fantasista.
  • Imberbe é quem não tem barba, mas quem tem não é *berbe. Esperava-se talvez algo como *imbarbe, da família de barba, mas não, aquele estranho -e- já existia em latim e nunca se «regularizou» nas línguas neolatinas.
  • Imune tem uma história curiosa. O latim immunis é «isento de impostos ou serviços públicos» e forma-se de munis, «sujeito a impostos ou serviços públicos», palavra de uma família que dá, entre outras, a palavra município em português. Só o imune sobreviveu e nunca houve *mune nas línguas latinas. Não sei se a palavra imune chegou alguma vez a ser usada em português no sentido de «isento», como foi usada em francês e inglês antigo. O sentido atual é provavelmente importado do francês no séc. XIX.
  • A palavra incólume vem do latim incolŭmis e creio que era uma palavra que só existia com o prefixo de negação. Segundo o que pude encontrar, *colŭmis poderia ser da família de calamitas, «calamidade».
  • Inédito é «não publicado» e não há o adjetivo *édito com o significado de «publicado», só o nome.
  • Inerte vem já prefixado do latim. Significava, ao que vejo, algo como «sem profissão/sem trabalho», porque o prefixo privativo se juntou originalmente a ars, artis, «arte, ofício» e depois o -a- passou a -e-.
  • Injúria também veio já do latim com o in- de negação. Forma-se de ius, que é «lei, direito, dever», da família de jus, justo, justiça...
  • Se não está partida ou dividida, uma coisa está intacta, mas não está *tacta se estiver partida. Na verdade, intacto é originalmente «não tocado», formado do particípio tactus do verbo tangere, «tocar». Da mesma raiz e com o mesmo significado original são as palavras íntegro e inteiro (duas formas divergentes do mesmo étimo latino) e integral, a que não correspondem nenhum *tegro, *teiro ou *tegral. Creio que um falante do português não tem consciência de que o in- inicial é, nestes casos, um prefixo de negação.
  • Comida sem sal é insossa, mas não é *sossa a comida com sal. Em latim, havia sulsus e insulsus, feitos do particípio de salire, «salgar», mas só a palavra com prefixo negativo chegou ao português. E com duas formas diferentes, curiosamente, já que os dicionários acolhem insulso (que eu não conhecia), com o mesmo significado de insosso – mas *sulso não há.
  • Quem sofre de insónia é ínsone. Não há *sónia nem *sone, mas pode discutir-se se sono se pode considerar o contrário de insónia...
  • Inupto é «solteiro, por casar», mas uma pessoa casada não é *nupta. A forma existia em latim, mas, mais uma vez, só a forma prefixada chegou ao português. Temos nubente, da mesma família.


  • ***
    É de notar que algumas palavras têm antónimos não prefixados registados nos dicionários, mas que devem ser palavras raríssimas, algumas talvez arcaísmos (?). Eu, pelo menos, nunca as vi nem ouvi. Sei, por exemplo, que estão dicionarizadas ou fazem partes de corpos lexicais as palavras batível, pávido, pecável, perdível, placável, cansável, cógnito, delével, trépido e usitado mas não me lembro de as ter ouvido. (Aplacável, conheço, claro, com o mesmo sentido de «que se pode acalmar, sossegar, mitigar, aliviar») Algumas delas, nem faço ideia de como se poderão usar (??? «Não viste O marciano? Deixa estar, também é um filme perdível…») Só conheço imbatível, impávido, impecável, imperdível, implacável, incansável, incógnito, indelével, intrépido e inusitado. Como me dizia Helena Galvão Soares, pode-se suspeitar que «há verbetes de dicionários que foram criados só para justificar a estrutura de outras palavras».

    Deste grupo de palavras, de formas não prefixadas que me são desconhecidas, há algumas que me causam mais estranheza do que outras. Negável, por exemplo, que não me lembro de alguma vez ter ouvido, mas parece-me uma palavra normal, digamos assim, daquelas que, quando se ouvem pela primeira vez, se sabe bem que existiam mesmo antes de nos depararmos com elas.

    Há também outros antónimos sem prefixo que, embora já os tenha visto e ouvido, são incomparavelmente mais raros que as formas com prefixo negativo: cauto e sólito são bons exemplos dessas palavras rebuscadíssimas, de ocorrência muito mais escassa que o incauto ou o insólito que dizem o contrário.

    ***
    Há também algumas palavras que, embora não tendo um antónimo positivo direto, têm antónimos formada da mesma raiz. Por exemplo:
    • Não há *alfabeto com o sentido de «que sabe ler e escrever», ou seja, como contrário de analfabeto, mas usa-se para esse conceito a palavra alfabetizado.
    • Se uma coisa não tem cor, é incolor; se a tem, não é *color, porque isso não existe, mas pode ser colorida.
    • Não existe *menso, só imenso, mas existem mensurável e imensurável, com a mesma raiz.
    • Um lugar pode ser inóspito, mas *hóspito não pode ser, só hospitaleiro.
    • Se um crime não fica impune, é punido – mas *pune não há.

    ***
    Agora, interessante também é o caso de palavras em que a forma sem o prefixo negativo não é antónima da forma prefixada:
    • Está afónico quem não consegue falar, mas não está fónico quem o consegue fazer — fónico significa antes «respeitante aos sons da língua».
    • Os termos imobilizar e mobilizar não são, muitas vezes, o contrário um do outro, porque o primeiro tem frequentemente um significado físico de «fazer cessar o movimento», ao passo que o segundo se emprega sobretudo para dizer «recrutar» ou «angariar».
    • Dizemos impassível de alguém que não demonstra emoções – e a palavra passível, que é da família de paixão, significa originalmente «emocionalmente envolvido ou afetado», mas nunca a vi usada com esse significado. Creio que atualmente só se se usa no sentido de «que pode ser objeto»: «O que ele fez é passível de castigo».
    • Nem sempre indiferente é o contrário de diferente. O contrário de diferente é igual e indiferente tem muitas vezes outro significado. Diferente e indiferente podem ser antónimos em frases do tipo «É diferente escrever com ss ou ç, são palavras diferentes» e «É indiferente escrever com acento circunflexo ou não, as duas grafias são aceites», mas diferente não funciona como antónimo do indiferente em, por exemplo, «Ele mostrou-se indiferente às suas lamentações.»
    • Também disposto não é o contrário de indisposto. Indisposto é sinónimo de maldisposto ou não muito bem-disposto. Não é fácil encontrar-lhe um antónimo que funcione sempre. Bem-disposto, por exemplo, só às vezes funciona.
    • O dicionário regista para tratável o significado de «afável; sociável», mas eu só conheço tratável no sentido de «que se pode tratar». Como eu a conheço, a palavra intratável não é antónima de tratável, mas o dicionário não concorda comigo…
    ***
    Finalmente, há algumas palavras que me merecem comentários especiais.

    O grupo desgraça, desgraçar e desgraçado é curioso. Podemos considerar que existe graça como antónimo de desgraça, quando as palavras se usam nas expressões cair em graça e cair em desgraça, por exemplo, mas graça não é o contrário de desgraça no sentido de «infelicidade» ou «catástrofe», etc., como desgraça não é o contrário de graça no sentido de «encanto» ou «piada». O contrário de engraçado, que pode ser quem é «bonito», «simpático» ou «divertido», pode ser desengraçado, embora não me pareça que esta palavra seja o contrário de todas as aceções de engraçado. Já engraçar me parece exatamente o contrário de desengraçar, mas posso não estar a ver todas as situações do seu uso…

    Infame é outra palavra curiosa. Não existe a palavra *fame e infame não é quem não tem fama, mas sim «quem tem má fama». Podia pensar-se que mal-afamado, com a mesma raiz, podia ser um quase-antónimo e originalmente infame devia significar precisamente isso. Mas perdeu-se a consciência da relação com fama, e infame tornou-se um termo de apreciação negativa, sobretudo relativamente ao caráter ou à moral de alguém.

    Em latim, nocere é «causar dano» (de qualquer tipo) e nocuu- ou nocente- o que causa dano. Encontro nocente registado nos dicionários e encontro quem defenda que a palavra nócuo existe em português, embora não a tenha encontrado em nenhum dicionário. Nunca vi nem ouvi nem uma nem outra palavra. Seja como for, inocente tem hoje em dia um significado diferente de inócuo, o que quer dizer que, aceitando que nocente existe, não é o contrário de inocente. Agora, tanto nocente como o pretenso nócuo têm um sinónimo com a mesma raiz, nocivo, pelo que se pode dizer que inócuo também faz parte das palavras com um antónimo com a mesma raiz. Mas inocente não.



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    Alguma da informação veio inicialmente desta página (que a foi buscar a uma fonte que deixou de estar acessível), mas foi depois verificada, dentro do limite dos meios à minha disposição. Uma grande parte da informação etimológica vem do Online Etymology Dictionary, que usa fontes fiáveis. É um dicionário etimológico do inglês, mas, claro, pode também usar-se para a etimologia dos cognatos portugueses de palavras inglesas.
    Os cartazes dos filmes são todos Wikimedia Commons menos um (Les Implacables), mas a sua utilização com baixa resolução para identificação do filme (nesta caso para ilustrar uma palavra) não deve ser problemática. 

3 de janeiro de 2019

Quebrado da friúra

Diz George Orwell em “New words”, um texto em que defende a criação de palavras novas como forma de maior rigor na expressão:
Encontra-se um exemplo de invenção eficaz de palavras, embora rudimentar e em pequena escala, entre os membros de famílias numerosas. Todas as famílias grandes têm duas ou três palavras que lhes são peculiares – palavras que inventaram e que transmitem significados refinados que não se encontram nos dicionários.
É bem capaz de ser verdade, e até em famílias mais pequenas, mas nem sempre é fácil saber que palavras, das que só ouvimos em casa, foram inventadas na família. Pode haver algumas que nunca tenhamos ouvido fora de casa, porque fora de casa não contactamos com pessoas de gerações mais velhas em determinadas situações do quotidiano.

Foto de Artur Franco (pormenor) 
Isto vem a propósito de me ter vindo à memória uma expressão que só me lembro de ter ouvido à minha avó — talvez também à minha mãe, não sei… — e que facilmente podia considerar uma expressão lá de casa: «quebrado da friúra». Acho que se percebe: «quebrado da friúra» é menos que tépido; é, por exemplo, água da torneira a que, no inverno, para a higiene diária ou para lavar roupa, se juntou um pouco de água aquecida ao lume, para não ficar tão desagradável de gelada, mas que não chega a estar morna. Uma expressão, enfim, de antes dos esquentadores… Mas não, não é expressão pessoal da minha avó, diz-me Google. E encontro até quem, como eu, a recorde com nostalgia.

De maneira que é assim, como diz o outro, aquele que diz muitas coisas… Os dicionários registam palavras e expressões caídas em desuso, como, sei lá, «demandar» ou «quebrar lanças por alguém», mas um dicionário não regista a expressão «quebrar da friúra», porque o seu significado é apenas a soma do significado de cada uma das partes, digamos assim. É capaz de não ficar dela grande rasto e é pena, porque é uma expressão bonita.


21 de dezembro de 2018

Boas Festas!


Que o Natal é uma quadra
parece-me a mim bem dito,
que sextilha do Natal
soa mal, fica esquisito.

(Talvez cestinha, isso sim,
ou talvez antes cabaz,
como aqueles que havia
nos meus tempos de rapaz...) 

É então essa a razão,
percebem vossemecês?,
de irem os versos aos quatro
e não aos cinco ou aos três... 

Mas já chega de conversa,
vamos ao essencial:
um Natal muito feliz
nesta quadra do Natal!



15 de dezembro de 2018

Salada de couve

Há quarenta anos (xiii!, já?) escrevi uma letra chamada «Iss’é qu’é p’ciso blues», que um amigo meu depois musicou, mas que nunca ninguém chegou a gravar. Era uma lengalenga muito comprida, em versos também muito compridos (redondilha dupla, quem já viu uma coisa assim?), que descrevia um dia da minha vida de jovem frique suburbano. Dizia assim uma das estrofes da coisa:
‘Tava com fome, fui comer, fiz ‘ma salada de couve,
a minha avó chamou-m’maluco, qu’eu ‘tava sempre a indear.
Eu chamei-lhe ignorante. «’Tá bem», disse ela, «mas ouve,
Vai mas é fazer a cama, qu’a tua mãe ‘tá a chegar.»
Indear era palavra da minha avó. Acho que era uma amálgama de idear com índio: «inventar coisas exóticas, disparatadas…» A salada de couve era uma das inovações que tinha trazido das minhas viagens. Ao contrário de outras extravagâncias minhas, a minha avó nunca a adotou. E eu também a fui esquecendo.

Lembro-me muito bem de um agradável reencontro com a salada de couve num bar americano, algures nas Caraíbas, onde comi uma das melhores sandes da minha vida: coleslaw, a tal salada de couve, com corned beef, muita e cortada em fatias muito fininhas, com mostarda e molho de rábano, num excelente pão de centeio torrado (uma variação da sandes Reuben). Mas foi em Moçambique que a salada de couve se tornou um elemento constante da nossa alimentação. Importada dos países vizinhos em tempos de escassez de alimentos, a salada de couve passou a fazer da dieta de muitos moçambicanos – e da nossa.

Que mais? O que de mais importante há para dizer sobre a salada de couve, di-lo Louis Jordan na canção que vos deixo aqui mais abaixo: «Coleslaw … is just cabbage raw». É isso mesmo: seja no Arkansas ou lá onde for, é só couve crua. Mas pode desenvolver-se um pouco o assunto:

Use-se repolho ou couve coração-de-boi. De preferência, esta última, para o meu gosto. Não é que não se possa usar outra couve, mas não é a mesma coisa. Corte-se a couve em tiras muito fininhas, quanto mais fininhas, melhor. Aconselho tirar as partes grossas do centro da couve. É claro, tem de se usar uma faca de cozinha grande (normal, enfim, mas sei que há quem tenha a mania de facas pequenas…) ou então uma faca de pão, também, funciona bem.


A coleslaw propriamente dita costuma ser uma mistura de couve e cenoura ralada com maionese, mas cá em casa é raro comer-se dessa salada de couve. Normalmente, temperamos a couve cortada com azeite, vinagre balsâmico e sal, e fica assim a cozer um bocadinho no tempero. Cuidado com o sal, que a couve encolhe muito e, se uma pessoa não conta com isso, pode a salada ficar salgada. Depois, antes de servir, junta-se o que se quiser. Muitas vezes, usamos nozes, cortadas grosseiramente, e passas de arandos. Também é bom polpa de toranja aos bocados, depois de muito bem limpinha daquelas peles grossas que a envolvem. Mas, como se costuma dizer, a imaginação é o único limite.

Agora, a rainha das saladas de couve é, para mim, a salada de couve com manga e caju. Não é uma salada barata, pelo menos aqui na Dinamarca, mas vale a pena. Usem manga verde. Quer dizer, verde-verde não, mas meio verde — ainda firme e sem sumo, pronto. Podem cortá-la às tirinhas fininhas ou em lâminas também muito fininhas (feitas, por exemplo, com o descascador de batatas). O caju, escusam de o cortar.

Se a couve trabalha muito no estômago? Há quem diga que sim, um bocadinho. Paciência.

Louis Jordan, “Coles Slaw”, 1949


22 de novembro de 2018

Outono [Crónicas de Svendborg #28]

Aqui na Dinamarca – e seguramente noutros países – o conceito de estação do ano é um pouco diferente daquele que temos em Portugal – e também noutros países, claro está. Em Portugal, temos uma maneira científica, astronómica, de definir as estações: começam num equinócio e duram até ao solstício seguinte ou começam num solstício e duram até ao equinócio seguinte.

Aqui, não é assim: costuma dizer-se que, em princípio, a primavera começa no início de março, o verão no início de junho e assim sucessivamente. Há também marcas naturais, porém, que assinalam as estações. Diz-se que o aparecimento de Erantis e Galanthus anuncia a primavera, mas há quem diga que são os amentilhos das aveleiras que marcam de facto a sua chegada. O aparecimento das últimas folhas (em carvalhos, olmeiros e tílias) marca o começo do verão. E a queda das últimas folhas marca o início do inverno.

De Santos a Natal, é inverno natural, diz um provérbio português. Também na Dinamarca, acho eu. A foliação das árvores dá-se sempre mais ou menos na mesma altura do ano, porque, além da temperatura, depende em grande parte da quantidade de luz solar, que é sempre a mesma de ano para ano. A queda das folhas também se dá sempre mais ou menos na mesma altura, mas depende também do vento, que pode ou não haver. Este ano, o frio e o vento chegaram tarde e tivemos um outono longo, quase que a respeitar a calendarização tradicional: setembro-outubro-novembro. Vi gente cortar relva em meados de novembro, o que nunca tinha visto nos meus sete anos de Tåsinge. E as árvores tinham ainda, até essa altura, muitas folhas outonais. Só esta semana chegou o vento e a paisagem se invernizou.

Muita gente concorda: se o outono aqui é sempre muito bonito, este ano foi ainda mais bonito do que costuma ser. As fotografias são aqui da nossa aldeia, Troense.







1 de novembro de 2018

Rua da Rosa

Na Rinchoa, onde cresci, as ruas têm nomes de plantas – árvores e flores: Avenida dos Choupos, Avenida das Acácias, Rua dos Cravos, Rua das Violetas...

A última rua onde morei em Lisboa foi a Rua da Rosa. Aqui onde moro agora, mesmo aqui ao lado, também há uma rua chamada Rosenvej, que, com boa vontade, se pode traduzir por Rua da Rosa. As Ruas da Rosa são como os chapéus dos palermas: há muitas.

Inspirei-me na Teresa O do blogue Diário de Bordo, que lá faz várias coleções, e resolvi fazer uma coleção de Ruas da Rosa. Já vários amigos contribuíram para a minha coleção e toda a gente pode contribuir, se conhecer ou encontrar uma Rua da Rosa e tiver à mão algo com que fotografar.

(Continua – espero eu...)




Lugares e autores, de cima para baixo e da esquerda para a direita: Rosenvej, Troense, Dinamarca, foto minha; Carrer de la Rosa, Barcelona, Espanha, foto minha; Rua da Rosa, Macau, daqui (obrigado, Joana Sant'Ana); Calle de la Rosa, Madrid, foto: Sofia MarSim; Rua da Rosa, Angra do Heroísmo, foto: Guiomar Belo Marques; Rua da Rosa, Caldas da Rainha, foto: José Silva; Rosensgade, Aarhus, Dinamarca, foto: B. Jorge Leitão; Rozengracht, Amesterdão, daqui (obrigado, Wieke Huizing Edinger)

A Sofia MarSim mandou-me outra foto de uma placa mais recente da Calle de la Rosa em Madrid, com um link para uma página que explica o nome: «La calle del Amparo, la travesía de la Comadre y la calle de la Rosa son 3 populares calles del barrio de Lavapiés en el centro de Madrid. Y las 3 le deben su nombre a una partera, comadrona o comadre: Amparo de Granada. // A principios del siglo XVII, en tiempos de Felipe IV, existía en Lavapiés una buena mujer que se ganaba la vida ayudando a otras a traer a sus hijos al mundo. Se trataba de una partera, comadrona o comadre, pues los 3 nombres reciben las mujeres de este oficio tan necesario y socorrido. Y más en aquellas épocas en que la medicina estaba a oscuras y se daba a luz en las casas.» (Ler mais aqui)

30 de outubro de 2018

De diminutivos e doninhas

...
António Nobre, embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele (ai de mim, coitadinho!)
...
Alexandre O’Neill, em «Autocrítica», in Feira Cabisbaixa, 1965

«Sós: assim somos todos nós». Soa bem, podia ser o título ou a primeira linha de um ensaio ou de um poema. Já «Sozinhos: assim somos todos nós» parece que não soa tão bem. Pode ser apenas uma questão de rima e ritmo, mas creio que é também – e sobretudo – uma questão de significado. e sozinho não são bem a mesma coisa, pois não? E é curioso, ninguém pensa em sozinho como sendo o diminutivo de , mas é isso que é – ou, pelo menos, que começou por ser.

Falemos um pouco de inhos. -Inho é o mais comum dos vários sufixos ditos diminutivos que há em português. A designação diminutivo, como muitas expressões antigas de gramática, é um bocadinho enganadora. É certo que o -inho pode significar «pequeno», isto é, ser qualificativo e efetivamente diminutivo: «só um golinho para provar», «uma cadeirinha de brinquedo», «uma coisinha de nada», etc. Mas é capaz de não ser o uso mais comum. Muitas vezes, tem um uso – que não sei se se pode chamar modal, mas é um tipo de modal… – que marca uma apreciação: quase sempre, uma apreciação positiva («na caminha é que se está bem», «um vinhinho de primeira»), mas, às vezes, também pode assinalar depreciação («Eh pá, a carinha que ele tem!...» (os dicionários dão conta desse valor depreciativo, por exemplo, em mulherzinha, que constitui entrada própria).

Este uso afetivo do -inho português pode, nalgumas línguas, construir-se com um adjetivo. Em dinamarquês, por exemplo, «mit lille hus», literalmente «a minha pequena casa», pode corresponder exatamente a «a minha casinha» em frases em que não se descreve o seu tamanho, mas se dá antes conta de uma valoração afetiva da casa. Note-se, a propósito, que, ao contrário do que às vezes oiço dizer, a existência e o uso de diminutivos em português não tem nada de especial: os afixos «diminutivos» existem em muitas línguas (em todas as que conheço…), embora possa variar o que a tradição gramatical de cada língua considera «diminutivo». [Eis uma lista de afixos diminutivos em muitas línguas.]

 E depois, há os diminutivos que mais parecem aumentativos. De facto, não são aumentativos no sentido em que casarão ou canzarrão o são, mas marcam antes uma quantificação que, basicamente, significa «completamente»: «não fiz nadinha», «cheguei a casa encharcadinho», «é uma bestinha», «o depósito estava cheiínho», etc.

Às vezes, este uso parece instável sem uma ajudinha. «Está maluquinho» é possível, mas é mais natural «está mesmo maluquinho» ou «está maluquinho de todo», uma coisa assim. É com adjetivos e advérbios que isto se verifica e verifica-se na maior parte dos casos. Às vezes, a entoação e o contexto podem, com alguns destes adjetivinhos ou adverbiozinhos, determinar qual é a tal apreciação modal tão comum nos nomezinhos, se mais ou menos positiva. Por exemplo, «É mesmo parvinho» pode, com contextos e entoações distintas, variar entre o claro despeito («é um perfeita idiota») e uma valorização afetiva de uma tirada jocosa ou humorística.

Agora, é capaz de ser possível fazer uma descrição geral da forma, suficientemente abstrata para explicar os vários usos, mas, se há, não a conheço. E é com certeza muito, muito difícil. A questão é sempre a mesma: um falante nativo do português sabe quando e como usar um -inho, sem nenhuma consciência do que faz, também em frases que nunca ouviu e em situações novas. Para isso, usa, com certeza, ou uma única regra que tem na mente sem sonhar que a tem e que gera todos os usos. Ou então usa, com a mesma inconsciência, uma série de regras para os diferentes usos para as quais a forma está disponível. Agora, saber quais… Estão a ver que a Linguística é, afinal, uma coisa complicada?

***

Uma curiosidade:

Não é só em sozinho que o diminutivo se lexicaliza, isto é, que passa a constituir outra forma que os falantes não reconhecem como simples diminutivo. Sombrinha é outro exemplo. E carrinha, e doninha… Também doninha não é palavra que um falante do português reconheça como diminutivo, mas é de facto essa a sua origem. Em La creación metafórica en el lenguaje (Montevideu: Universidad de la República, 1956), Eugenio Coseriu, explica a história da palavra e dos termos para designar a Mustela nivalis noutras línguas próximas da nossa (traduzo eu):
[Uma] razão que determina substituições de signos e, por conseguinte, facilita a difusão (aceitação) das criações, metafóricas ou não, é o chamado «tabu linguístico», quer dizer, o fenómeno pelo qual se evitam certas palavras relacionadas com superstições e crenças, palavras essas que se substituem por empréstimos, eufemismos, circunlóquios, metáforas, antífrases, etc. (...)
Charles Le Brun: Fisionomias inspiradas pela doninha, cerca de 1670, pena.
Museu do Louvre, Paris (daqui
Um exemplo (…) famoso [de é o da doninha: o termo próprio latino que a designava, mustela (francês antigo mousteile, catalão mustela, provençal mustelo) desapareceu da maioria dos dialetos romances ou só se encontra esporadicamente em zonas muito limitadas (leonês mostolilla, biscainho mustela e musterle, galego mustela), tendo sido substituído por uma série de nomes metafóricos, diminutivos e carinhoso, que revelam o desejo dos falantes de granjear a simpatia do animalejo. A mustela é hoje, conforme os dialetos, a «bela» ou «bonita» (francês belette, piemontês lombardo bellola e benula, veneziano belita, corso bellula, siciliano beḍḍula e espanhol dialetal bilidilla, bonuca, monuca, bunietsa e munietsa) ou uma «senhora», «menina» ou «esposinha» (italiano donnola, português doninha, romeno nevǎstuicǎ, galego donociña donicela, asturiano donecilla); é uma «bela dama» (pirenaico danabere), ou «comadre» (castelhano comadreja, tolosano kumairelo, campidanês abruzo cummatrella e cummarella, romeno cumetrita), ou «nora» (português dialetal norinha); é «dama ou senhora das paredes» (galego dona das paredes, sardo dona de muru) ou «[a que tem cor de] pão e queijo» (aragonês navarro paniquesa, com variantes ou diminutivos noutras zonas de Espanha; anconitano panakašu e panaccacia). E, mais uma vez, o fenómeno é interidiomático, já que também se encontra noutras línguas europeias não românicas: também para os alemães a doninha é uma «jovem senhora» (Jüngferchen) ou um «formoso bichinho» (Schöntierlein), para os ingleses é uma fada (fairy); para os húngaros é uma «pequena dama» ou «esposinha» (menyét), e para os bascos «pão e queijo» (oguigaztai).

23 de outubro de 2018

«E tu, tu que pensavas?»

Se não escrevo aqui sobre a atualidade política, não é de modo nenhum por desinteresse, mas sobretudo porque, não tendo um conhecimento aprofundado da maior parte das questões que me importam, não creio, sinceramente, ter nada interessante a acrescentar a muito do que leio nos meios de comunicação e nas redes sociais. Abro hoje uma exceção. Preocupa-me muito a evolução política dos últimos anos, com o surgimento, o avanço ou a consolidação de neofascismos em vários países – a perspetiva da eleição de Bolsonaro é aterradora para qualquer pessoa de bom senso – e quero insistir em algumas ideias que, por banais que possam ser, quero repetir, mesmo sem acreditar que tenham qualquer efeito...

Uma é que é preciso lembrarmo-nos constantemente de que a democracia é uma instituição naturalmente frágil. Por muito que tenhamos agora a ilusão de que a democracia é «o normal» – o que não seja democracia até nos parece aberrante, contra natura –, a democracia é, de facto, uma ideia de organização social materializada apenas em muitos poucos tempos e lugares, e está constantemente em perigo. Tem de se fazer alguma coisa para ela ser preservada. Quem vive numa democracia estável, e, nalguns casos, até já muito longa tende muitas vezes a pensar que nunca o seu país aceitará, ou voltará a aceitar, um fascismo.... Mas é pecar por excesso de otimismo. Em muitos países com tradições democráticas surgiram ditaduras em certos períodos históricos. Porque não voltariam a surgir outra vez? As ditaduras não foram banidas de vez, nem nunca serão.
E tu, tu que pensavas?
Que eram tudo águas passadas?
Que esta trágica e mísera história
não se repetiria mais?


Brunori Sas, "L'uomo nero", 2017, ao vivo em 2018

Outra é que às vezes é importante pensar democracia definindo-a pela negativa – uma ausência de ditadura. Se pensarmos na democracia como possibilidade de igual participação de todos na definição de regras e políticas que governam uma sociedade, o que mais importa assegurar constantemente não é que todos participem dessa maneira, mas que ninguém seja excluído dessa participação e que ninguém se dê a si próprio ou a um grupo de pessoas mais prerrogativas que a outros – ou seja, que a possibilidade de participar nunca seja retirada, seja ela usada ou não. É de sublinhar que, dando prioridade à recusa da ditadura, podemos e devemos conservar, como bússola, moral, a ideia do tipo de democracia, de governo, de Estado, que queremos (como muito bem no-lo lembra Eliana Brum
Como resistir em tempos brutos. Um manual para enfrentar as próximas três semanas e transformar luto em verbo», El País, 9.10.2018):
Em momentos de tanta gravidade, como já viveram outros países ao longo da história, tudo o que se pode fazer é ser contra. Contra o autoritarismo. Contra a opressão. Contra a ameaça da ditadura. Contra o extermínio das minorias. Contra o sequestro da liberdade. Mas, mesmo fazendo campanha e votando contra, é preciso jamais perder de vista do que somos a favor.
«Insegurança» e «imigração» são palavras-chave da ascensão dos fascismos. Creio que nisso podemos assentar, como também podemos assentar em que as dimensões reais destes fenómenos variam muito de país para país e em muitos lugares não são problemas reais, mas apenas fantasmas de que a propaganda neofascista se serve – e há sempre muita gente, de várias classes sociais e tradições políticas, a responder bem à retórica do «perigo» que correm o «povo» e a «nação». Ora, os culpados de um problema, real ou inexistente, são sempre os outros. Se o estrangeiro não for suficientemente visível, acusam-se os opositores de estarem ao serviço de potências, de ideologias e de maneiras de viver «estrangeiras», de serem traidores dos «valores essenciais» da pátria – cola-se a etiqueta de uma alteridade criminosa a todos os opositores. Que acabam às vezes por a assumir para se demarcar da conceção de nação e nacionalismo que lhes querem impor. O sufoco que se sente na garganta quando se lê uma frase como a que escreveu uma amiga minha húngara quando se soube o resultado das últimas eleições legislativas no seu país!...
A Hungria é húngara, diz Orbán. Mas minha já não é.
Não se pode abdicar da discussão. Sei bem que é difícil, senão impossível, tentar argumentar com quem não está disposto a aceitar nem argumentos nem factos. Uma pessoa desiste, muitas vezes, antes de começar, só de imaginar a dimensão e a inutilidade da discussão. Por mim falo – ou contra mim, se preferirem. Mas história recente dos avanços de todo o tipo de populismo, sobretudo dos nacionalismos xenófobos, mostra que eles se dão muito bem com a ausência de confronto direto. Não debater com os seus defensores, «para não lhes dar mais visibilidade mediática» ou «para não descer ao seu nível» acaba por resultar em que a mentira e a irracionalidade raivosa se espalhem sem que ninguém as contrarie. Agora, mais difícil que dar permanentemente resposta à desinformação e à incoerência populistas e xenófobas é fazê-lo num tom sereno e o mais cordato possível (como ter uma atitude calma perante a fúria de todas as intolerâncias?), mas é essa a única maneira de se poder ganhar alguma coisa com a discussão. Responder a insulto contra insulto pode ser inevitável em certas ocasiões, mas tem normalmente o efeito perverso de tornar mais empedernido na sua raiva quem acha que o mal do mundo são estrangeiros, homossexuais, feministas, intelectuais e, em geral, quem defenda uma sociedade aberta e tolerante – democrática.

E também não se pode abdicar do direito a criticar governos ou candidatos fascistas ou fascizantes, ou qualquer tipo de totalitarismo, para, como alguns querem, não interferir nas questões internas de um determinado país. A ideia de que cada país tem o governo que quer, ou porque o elegeu ou porque não o depõe, coisa que poderia sempre fazer, é de um simplismo irrazoável que todos os ditadores agradecem – e deixa fundamentalmente de lado, no caso dos ditadores eleitos, o facto de que, ao contrário do que acontece quando não há ditadura, os eleitores não poderem mudar de opinião nas eleições seguintes ou castigarem os eleitos, se estes se desviarem do que defenderam nas suas campanhas. Mas a moral – e, dentro dela, a política – não tem fronteiras territoriais.

19 de outubro de 2018

Sobre a ilha de Langeland [Crónicas de Svendborg #27), comprimentos, larguras e alturas


Esta imagem e a última:  Wikimedia Commons
Ninguém pergunta a ninguém por que razão a ilha de Langeland se chama assim, porque a resposta parece demasiado óbvia: det lange land significa «a terra comprida» e Langeland chama-se assim porque é comprida.

É certo, mas este «comprida» tem mais que se lhe diga. Langeland tem 52 km de comprimento e 11 km de largura na parte menos estreita. Se tivesse o mesmo comprimento, mas 36 km de largura, muito provavelmente não se chamava Langeland. Langeland significa então «com um comprimento muito maior que a largura». Até se podia chamar Smalleland, «terra estreita».

É sempre assim? Por definição, é assim com o comprimento e a largura, mas a altura tem um valor absoluto, para que não há que ter em conta as outras dimensões. Uma pessoa é alta quando tem dois metros, independentemente de ser gordo ou magro, como é alta uma montanha de 4000 metros, tenha que forma tiver. Curiosamente, a palavra comprido conserva as mesmas propriedades quando se usa para significar «alto» (o que não é muito frequente, mas pode acontecer). O Manel Comprido, um rapaz com quem eu jogava à bola em miúdo, provavelmente não se chamaria assim, se fosse gordo. Era mais provável que lhe chamassem antes Manel Grandalhão ou Manel Gigante, ou qualquer coisa desse tipo.

A razão para isto é, creio eu, que a altura está associada à verticalidade, que é uma categoria não relativa, ao passo que comprimento e largura são categorias puramente relacionais: o comprimento só é comprimento, porque é a dimensão maior de uma superfície, faça ela ou não parte de um objeto.

Em português europeu, pode acontecer usar-se a relação entre a altura e a largura para fazer distinções que não se fazem noutra variantes da língua, ou noutras línguas — estou a pensar em tacho e panela, e maçã e pero, os primeiros mais largos que largos e os segundos mais altos que largos.

Tirando isso, Langeland é uma ilha bem bonita. A zona de Bagenkop, no sul da ilha, é boa para observar pássaros – e cavalos bravos. Se se interessarem mais por física que por animais, podem visitar Rudkøbing, a capital da ilha, que é a cidade natal de Hans Christian Ørsted, e podem ver onde é que ele nasceu e meditar sobre a importância das suas descobertas, enquanto contemplam a sua estátua lá muito perto. Mas, independentemente do interesse que se tenha em Ørsted, Rudkøbing é uma cidade muito bonita, que vale mesmo a pena visitar. Outra localidade muito, muito bonita, a cerca de 12 quilómetros de Rudkøbing, é Tranekær.

Deem-me uma apitadela quando cá vierem, boa viagem e boas férias.


































Alfinetes de ama

Vocês sabem que eu nem sou nada purista, mas... alfinete de dama? Alfinete de ama, isso sim, como, aliás, épingle à nourrice em francês ou spilla da balia em italiano.  E sim, eu sei que alguns dicionários já registam alfinete de dama e fazem muito bem, se há de facto muita gente a dizer assim. Mas não gosto, não há nada a fazer...

Duas marcas de automóveis tiveram a mesma ideia de usar o alfinete de ama na sua publicidade. Ora, não me parece que seja o objeto propriamente dito que suscita a ideia de segurança, mas sim o seu nome em várias línguas (safety pin, sikkerhedsnål, Sicherheitsnadeln, etc), de maneira que, em quem, como eu, pensa em fraldas e punks quando vê a imagem do alfinete, o anúncio não tem exatamente o efeito pretendido...

É certo que não tenho direitos sobre as imagens, mas achei que as podia aqui utilizar, por se tratar de um texto de caráter obviamente didático – sobre ícones que afinal o não são –  e, além do mais, de publicidade gratuita (pelo menos, para a marca da direita, a outra não é imediatamente reconhecível...).

18 de outubro de 2018

Agulhas e alfinetes e a Lei do Segundo Pesado

O linguista francês Claude Hagège enuncia, no seu livro L’homme de paroles (Paris: Fayard, 1985) uma lei a que chama a Lei do Segundo Pesado, segundo a qual, numa sequência de um par de termos da mesma natureza e com a mesma função, como mais ou menos ou tal pai, tal filho, etc., aparece «em segunda posição o termo mais pesado, isto é, aquele que tem um maior número de sílabas, ou as consoantes ou vogais mais longas ou mais posteriores, ou as consoantes com um espectro acústico que apresente as mais fortes concentrações nas frequências baixas», independentemente do que pareça ser a sequência natural das noções em questão[1].

Uma organização natural e universal de certas sequências sonoras da linguagem humana pode explicar, por exemplo, que, em português, francês, e dinamarquês se diga, respetivamente, mais ou menos, plus ou moins ou mere eller mindre e em neerlandês e urdu se diga min of meer e بیش کم و (/kɘm o béš/), «menos ou mais»; que em português, francês e dinamarquês se diga mais cedo ou mais tarde, tôt ou tard e før eller senere, mas em castelhano se diga tarde o temprano.

Na realidade, as coisas não são assim tão simples. Aliás, o próprio Hagège constata várias exceções e explica que a sua lei é de facto uma tendência e não uma verdadeira lei (embora prefira chamar-lhe lei por razões de ordem prática: «porque uma formulação estrita facilita a invalidação se se encontrar um maior número de não aplicações»). Eu preferiria, por a considerar insuficientemente provada, chamar-lhe apenas uma (boa) hipótese. Se é verdade que se aplica bem a regra a soap and water e a água e sabão e a girls and boys e a rapazes e raparigas, já as coisas são menos claras se falamos, por exemplo, de higiene e saneamento: embora esta ordem tenha mais ocorrências em Google, saneamento e higiene ocorre muito – e sanitation and hygiene parece claramente ser a ordem preferida em inglês. Além de que há muitos casos em que a lógica não fonética parece sobrepor-se sempre à tendência do segundo mais pesado: dizemos sempre o princípio e o fim, por exemplo, por muito que o princípio seja foneticamente muito mais pesado que o fim, porque o princípio vem mesmo antes do fim (pelo menos fora de universos muito psicadélicos e em certos delírio para mim infelizmente incompreensíveis diz-que-quânticos-ou-lá-o-que-é…); e dizemos cinco ou seis minutos, cinco ou dez minutos, e nunca ao contrário[2], porque é essa a ordem de grandeza dos números…

De facto, parece haver muitas condicionantes não fonéticas que podem agir sobre os pares de termos. Duas regras gerais para a ordem das palavras numa frase que podem também agir sobre os pares são que a sequência das palavras deve corresponder 1) à sequência dos eventos no mundo, como em «o princípio e o fim» ou «vim, vi e venci» (fala-se então de iconicidade), e 2) à proximidade, no tempo ou no espaço, de quem diz a frase, ou seja, à proximidade de «eu», como em «cá e lá», «isto e aquilo» e «hoje e amanhã», por exemplo (fala-se neste caso de indexicalidade). William Cooper e John Ross listam – para o inglês apenas, mas alguns princípios têm um alcance seguramente mais vasto – 22 condicionantes da ordem dos pares de palavras, embora algumas delas tenham pouca relevância. Eles próprios propõem uma condicionante fonológica de contraste curto/longo, que é semelhante à lei de Hagège e que pode explicar as exceções que notam na sua proposta de 22 condicionantes: não havendo outras condicionantes a atuar, past and present e dead or alive, por exemplo, deviam ser, segundo as suas propostas, present and past e alive or dead) [4][5]. Evidentemente, é difícil saber o que há de universal na lista de Cooper & Ross e o que é culturalmente determinado.

***

Em 2010, Phillipe Mérigot fez, para a sua tese de doutoramento, um estudo em que analisa os efeitos da transgressão Lei do Segundo Pesado na publicidade e comunicação, testando experimentalmente «os efeitos da transgressão da Lei do Segundo Pesado na memorização e reconhecimento de anúncios e a atitude para com o anúncio em dois estudos de laboratório» e ainda examinando «os efeitos sobre o impacto de uma campanha de envio de e-mail real, manipulando a linha de assunto de um e-mail comercial enviado a 88.000 consumidores.»

Provar-se a hipótese de Hagège pode ter implicações curiosas, e não só nos domínios da propaganda e da comunicação para um fim determinado. Pode pensar-se o que significaria a constatação de um mecanismo mental inato dessa natureza para a perceção do literário – a perceção da força e da beleza da palavra como arte. Falei aqui na Travessa de uma pessoa a quem ouvi dizer que, «se Camões tivesse escrito «aquela leda e triste madrugada», em vez de «aquela triste e leda madrugada», teríamos não só uma banalidade semântica como uma banalidade fonética»; e comentava que «a ideia de quem disse isso é (…) que há uma ordem natural nos elementos do discurso, [rompendo o poeta] essa ordem natural para reorganizar o mundo numa voz única, sua apenas». Segundo a hipótese do Segundo Pesado, o segundo elemento da coordenação leda e triste é mais pesado e, por isso, esta sequência é mais natural; além disso, é também mais natural, segundo a proposta de Cooper e Ross, que o elemento positivo venha antes do elemento negativo. Triste e leda seria «desviante», para o dizer de uma forma simplificada, mas será o desviante mais atraente?

O estudo que refiro procura, precisamente, dar resposta a este tipo de interrogações – se bem que não analise o discurso literário, mas sim as mensagens publicitárias, em sentido lato. Ora, alguns estudos da comunicação publicitária constatam que quanto mais tempo se demorar na leitura de uma mensagem, mais bem memorizada ela é, como pode parecer óbvio aliás. Assim, seria de prever que uma ordem menos natural faça aumentar o tempo dedicado à leitura e, ao mesmo tempo, a atenção que se presta à frase, o que resultaria em melhor memorização/reconhecimento da mensagem. Os resultados dos testes parecem indicar que a inversão simples da ordem que, segundo a hipótese do segundo pesado, seria a mais «natural» não tem efeitos por aí além na receção da mensagem – a não ser que essa inversão se faça em expressões fixas, isto é, expressões que não foram criadas pela pessoa que escreve o texto, mas existem já na sua cultura como forma cristalizada – como tal pai, tal filho, para voltar a um exemplo já referido, ou a preto e branco ou à grande e à francesa, etc.. Diz o resumo do trabalho:
Os resultados mostram que a transgressão da [Lei do Segundo Pesado] afeta a memorização e o reconhecimento apenas no caso de expressões fixas. No que respeita à [atitude para com o anúncio], o nosso estudo mostra que a transgressão da [Lei do Segundo Pesado] resulta numa tensão que deve ser resolvida no final da mensagem. Além disso, quando uma mensagem contém várias frases transgredindo a [Lei do Segundo Pesado] é sentida como menos irritante, menos aborrecida e mais fiável.
Note-se que esta última frase se deve ler como «em comparação com mensagens em que só há uma transgressão dessa ordem». Ou seja, não parece haver neste estudo nada que confirme o efeito positivo do «desvio» na perceção – nem que o infirme. Mas também é um estudo só, com 93 pessoas. A conclusão é a habitual: são precisos mais estudos sobre o assunto – se alguém achar que é coisa que valha a pena estudar…

agulhas e alfinetes

Em inglês, quando se fala de agulhas e alfinetes, diz-se às vezes pins and needles, de acordo com a Lei do Segundo Pesado, e outras vezes needles and pins. É esta última forma «irregular» que dá o título a uma famosa canção de Jack Nitzsche e Sonny Bono gravada originalmente por Jackie DeShannon em 1963. Se calhar, a inversão torna a expressão mais apelativa. Já pins and needles é o nome corrente da doença parestesia. É difícil saber qual é, atualmente, a influência do título da canção e do nome da doença na escolha da ordem das duas palavras, quando usadas para referir apenas… agulhas e alfinetes.


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[1] Já referi, aliás, esta lei num texto da Travessa, especulando que, se a lei não se aplicasse apenas a pares de nomes mas também a conjuntos de três, se podia também explicar porque se diz stone, paper, scissors em inglês (como em português), mas sten, saks, papir («pedra, tesoura, papel») em dinamarquês.
[2] Nunca? Não sei, alguém me disse uma vez que, na Venezuela, ouvia frequentemente as pessoas trocarem a ordem «normal» em sequências e números, como em diez o cinco minutos
[3] Ver aqui um resumo da discussão e uma análise das restrições propostas que valida estatisticamente 12 delas.
[4] Um outro exemplo, seria ladies and gentlemen, mas parece-me que a questão se complica aqui um pouco. A quinta condicionante da proposta de Cooper e Ross é que o masculino vem antes do feminino (husband and wife, brother and sister). Se é certo que o poder dos homens nas sociedades patriarcais pode bem explicar esta ordem, também é certo que esse mesmo domínio masculino se reflete às vezes em cavalheirismo: «as senhoras primeiro!» Creio que essa atitude patriarcal e o facto de ela se aplicar mais facilmente a «senhoras» que a mulheres (esposas) ou irmãs pode explicar a diferença entre ladies and gentlemen e husband and wife.

[5] Também se costuma propor, pelo menos para o inglês, uma ordem relativamente fixa da adjetivação múltipla, no caso de não se querer destacar nenhum dos adjetivos: 1 opinião, 2 tamanho, 3 características físicas, 4 forma, 5 idade, 6 cor, 7 origem, 8 material, 9 tipo e 10 qualidade (ver aqui) Trata-se evidentemente, de uma questão completamente diferente. Se a trago a esta nota de rodapé, porém, é só porque me parece interessante constatar que não conheço, neste caso, propostas de uma motivação fonética da sequência natural dos adjetivos, uma coisa que talvez se pudesse esperar…

16 de outubro de 2018

Sopa de feijão

«Sopa, sopa, sopa, sopa de feijão», canta-se muitas vezes cá em casa, com a música dos patinhos que sabem bem nadar, «Faz bem à barrigui-inha e aquece o coração». De feijão, já aqui falei, mas de sopa de feijão nunca, e é tema interessante. Vamos então à sopa de feijão. A uma receita de sopa de feijão, seja.

Aprendi esta receita, vejam lá vocês, num livro da escola — da Alliance Française — teria pouco mais de 20 anos. É claro, sopa de feijão branco nunca tem muito que se lhe diga, mas esta é ligeiramente diferente da que se costuma fazer em Portugal, porque é com o feijão inteiro. Quer dizer, o feijão pode desfazer-se um bocadinho com a cozedura, isso depende, mas é uma sopa sem fazer puré.

Põe-se a cozer feijão branco com um bocado de bacon ou outro bocado de carne de porco que vos convenha e agrade, e vai-se escumando – escumar é muito importante para o sabor! Quando o feijão já está quase cozido, aí pelos 45/60 minutos de cozedura, deita-se-lhe os legumes cortados aos pedaços – pequenos cubos de meio centímetro de aresta, uma coisa assim. Batata e cenoura, ponho sempre, mas, de resto, uma pessoa põe o que tem em casa, não é?, não há receita muito fixa. Pode pôr-se talo de aipo, alho francês, uma raiz qualquer (bolbo de aipo, nabo, cherovia…) e alguma couve branca (repolho, coração-de-boi, lombarda…).

No fim, quando está tudo cozido, ligo a sopa: numa frigideira, derreto um bocado de manteiga com farinha, e deito a mistura na sopa. Quando ferve, está a farinha cozida e pode servir-se – com um bocadinho de bacon em cada prato. Esta mistura de farinha e manteiga dá à sopa um sabor cremoso. É um processo comum em muitos lados para engrossar sopas sem fazer puré, mas a minha avó não conhecia e por isso é que tive de aprender no tal livro da escola...

Uma alternativa com resultados semelhantes é estufar os legumes num tacho, salpicá-los depois com um bocadinho de farinha, dar-lhe umas voltas para a farinha se incorporar no estufado, juntar-lhe o feijão previamente cozido e água da cozedura, e deixar ficar ali um bocado a apurar.

Agora, eu gosto de bastante pimenta na sopa de feijão, não sei o vosso lado.


Quanto a mister Coleman Hawkins, tinha a alcunha de Bean e tinha sopa própria.

Coleman Hawkins and his Orchestra, “Bean soup”, 1945


15 de outubro de 2018

Nascut al Born o a altre lloc (sobre Barcelona em particular e o turismo em geral)

São as vantagens de ter muito boa pronúncia: a senhora do café pensa que eu sou espanhol e pensa, por isso, que eu sei de onde ele é. E é meio verdade—sei reconhecer à légua o sotaque do Río de la Plata, embora não saiba distinguir uruguaios de argentinos. Mas espanhol não sou. Sou turista, como os outros todos que enchem as ruas de Barcelona. Faço parte dessa praga.

Não há mal nenhum em ser turista, deixemo-nos de conversas; e, por muito que alguns se empenhem em afirmar o contrário, não há diferença real entre turista e viajante – ambos os termos referem quem passa nalgum lugar, quem observa com olhos que veem o que o residente não vê, quem sente menos o peso da pressão social e abusa até, de vez em quando, da liberdade que isso lhe dá, para o bem e para o mal; quem recolhe imagens e sons e cheiros que arquiva em álbuns de recordações, o mais das vezes apenas no ficheiro tão perecível—pobres de nós!—do seu sistema nervoso.

Turista ou viajante não se pode explicar como «estrangeiro». Estrangeiro é o que tem outra nacionalidade, mas o estrangeiro pode fazer parte do local, não estar ali a viajar, a fazer turismo – pode pagar impostos e ter cartão de saúde. E há turistas que não são estrangeiros, há-os que vêm apenas de outra província, talvez até de uma cidade vizinha. Um turista pode saber o nome de muitos bolos na montra da pastelaria, mas talvez não espere que lhes perguntem se quer a empada aquecida, porque isso se calhar não se faz lá na terra dele. «Ah, mas deve ser [deve ser, ele não tem a certeza] porque a senhora do bar é argentina.»

[Não sei como serão as empadas em Salta—e também não sei porque é que a senhora havia de ser de Salta, mas havia cafés na Bolívia, onde comia empadas salteñas quentes e davam-nos uma colher de café para comer o molho: trinca-se uma ponta, come-se com a colherzinha o líquido que sai e depois é que se leva a empada à boca. Na Bolívia, fui residente estrangeiro e turista só nalguns lugares: em Rurrenabaque e em Guayaramerín, uma vez que lá fui de férias; ou no Chapare—tirei fotografias da Karen com macacos ao colo, como os turistas costumam tirar.]
A senhora do bar deve antes ser uruguaia. É a tal coisa, não sei distinguir o sotaque argentino do sotaque uruguaio. Mas vende rosca de chicharrones, vejo agora, e isso é um petisco uruguaio, não é? Aqui, enquanto saboreio a empanada, sou ao mesmo tempo turista e estrangeiro. Um dos muitos que há em Barcelona. E na minha Lisboa Natal. O mais engraçado é que eu agora sou, a bem dizer, tão turista em Lisboa como em Barcelona. OK, concedo-vos que exagero um bocadinho, pronto, mas não tanto como possam pensar. É que a Lisboa em que eu não era turista é doutro tempo; e o tempo—deixem-me insistir nisto, que é uma verdade importante—é uma dimensão tão real e tão sólida como as três outras que estruturam o nosso espaço.

Em Svendborg, sou estrangeiro, mas nunca viajante turista. «O centro? O centro é aqui mesmo», explico ao turistas norte-americanos. «A parte antiga…», insistem eles. «Também é aqui. Esta parte da cidade está cheia de edifícios antigos. Cheguem aqui. Veem ali aquela casa? É a mais antiga da cidade, de meados do séc. XVI.» Conheço em Svendborg uma janela decorada com umas miniaturas de plástico que representam uma sessão de strip-tease. Tenho residência na comuna e voto para as autárquicas. Estrangeiro sou, claro, com um sotaque que me denuncia tão imediatamente como a minha fisionomia. Aqui, o sotaque não me denuncia, nem a pinta sulista. É claro que não sou catalão, porque não falo a língua, mas bem que podia ser imigrante de outra parte de Espanha.

Não digam mal de turistas nem de viajantes nem de estrangeiros residentes. É impossível, pensem bem, que haja algum mal em ter-se nascido noutro lugar. «Quer moedas? Tenho o bolso cheio, a ver se me livro delas. Quanto é que lhe devo?»

Um turista austríaco diz-me que gostava de conhecer Lisboa, que ouviu dizer muito bem. «Lisboa é uma bonita cidade, sim, senhor, como há milhares por esse mundo fora. Agora está na moda, tem quase tantos turistas como Barcelona… E de que nos podemos queixar… nós, que também somos turistas?» «Pois, é verdade, mas há turistas e turistas… Há turistas de vários tipos.» A diferença entre turistas bons e maus é como a diferença entre turistas e viajantes—inventada pelos que se querem dar a si mesmo boa consciência, quando não afirmar algum tipo de superioridade. Conheci uma vez em Bordéus, há mais de 40 anos, um vagabundo profissional, esse sim, viajante essencial, porque não tinha casa nem terra a que chamar sua. «Turista em dificuldades, é isso que eu sou. Turista em dificuldades.» Pode ser essa a diferença, o grau de dificuldade. Para quem viaja com dinheiro que chegue para matar a fome e dormir abrigado todas as noites, não há diferença entre viajantes e bons e maus turistas.

Alguns estrangeiros têm algo em comum com os turistas em dificuldades: os estrangeiros em dificuldades. Saem de casa—do prédio onde estamos a morar, no Born—com trouxas muito grandes de peças de artesanato, que abrem nos sítios onde os turistas se concentram e que num ápice voltam a entrouxar quando aparece a polícia.

[Dumba nengue, diz-se em ronga: «confia no pé», que é o que tem de fazer o vendedor furtivo que a polícia persegue; ou chunga moio, como se diz em ndau, «coragem no coração».]
«Não se rouba nada a não ser cigarros para a noite», repetia sempre o Apache aos seus companheiros de turismo em dificuldades. Arranjar que fumar também pode ser difícil para alguns estrangeiros, creio eu. Os três indonésios por que passo interromperam o trabalho para fumar. Sei que são indonésios porque fumam kreteks, aqueles cigarros de tabaco e cravinho que há na Indonésia. Não lhes deve ser fácil encontrá-los em Barcelona. Ou então sim, em Barcelona encontra-se de tudo. Dois deles têm carrinhos de mão e um tem um triciclo de caixa de madeira, em que se vê escrito apenas um URL dos Países Baixos, qualquercoisa.nl... Se calhar, fazem entregas ou transportes para alguma companhia neerlandesa… Isto sou eu a inventar, sei lá o que fazem. Antigamente, as pessoas que faziam transportes e entregas para uma empresa chamavam-se paquetes, não sei se a designação ainda se utiliza. De 1861 a 1949, o que é hoje a Indonésia chamava-se Índias Orientais Neerlandesas.

[Em Moçambique, chama-se tchova-xitaduma aos carrinhos de mão de aluguer para transporte seja lá do que for, de mobílias a materiais de construção. É ronga e significa «empurra que há de pegar»—os moçambicanos gostam muito de fazer pouco das suas próprias dificuldades, para usar a expressão com que o Apache descrevia o tipo de turismo que fazia.]
Os nomes das coisas vão mudando e nem sempre é fácil manter-se atualizado. Outras vezes, os nomes mantêm-se e mudam as coisas que eles designam. O nome Lisboa já não refere exatamente a mesma cidade que conheci em rapaz novo; e Barcelona também mudou muito desde que a vi pela primeira vez, em outubro de 1976 – há 42 anos, quem diria? O tempo é uma dimensão duríssima, tão dura como as pedras das catedrais. Em 1976, havia incomparavelmente menos turistas que agora.
Os turistas de agora—sobretudo se forem desses turistas que se chamam a si próprios viajantes—queixam-se do excesso de turistas e são nisso iguais a muitos residentes, que se queixam também do excesso de turistas. Muitos residentes espanhóis queixam-se também do excesso de residentes estrangeiros e há até residentes estrangeiros que também se queixam do excesso dos estrangeiros que lhes são estrangeiros. Muitos residentes estrangeiros trabalham em bares, restaurantes e lojas para turistas, que parecem ser metade do comércio da cidade. Estranho comércio de decorativas inutilidades. Dito assim, parece depreciativo, mas não tem de o ser: ser inútil e decorativo é uma caraterística da maior parte das obras de arte, não fica mal a nenhuma artesania para turistas ser também inútil e decorativa.

Uma grande oficina de serralharia o ar livre na Sagrada Família – ou o que dela se consegue ver através 
da vedação de metal. As obras continuam, hão de continuar. 
Por que coisas úteis é conhecida Barcelona? Nem o aço de Toledo, os relógios de La Chaux-de-Fonds nem o sal de Aveiro, históricas preciosidades? Haverá ainda quem fume cigarros balsámicos do Dr. Andreu, com que eu tentava combater a asma da minha infância?  Alguém ainda compra Pastillas Juanola, comercializadas, ademais, em castelhano? Barcelona vende Gaudí e Picasso em forma de visitas guiadas, postais e bibelôs.

Estava magnífica, Barcelona, num início de outubro ainda estival. Quando voltar, fico no Poble Sèc ou em Sants, onde não há tantos turistas. Pode ser que da próxima vez me decida finalmente a ir visitar por dentro o Temple Expiatori de la Sagrada Família, todos me garantem que vale mesmo a pena.


22 de setembro de 2018

Ora... Batatas!

A batata, que todos os europeus hoje consideram tão sua, é coisa que se come há pouco tempo na Europa – e ainda há menos tempo em Portugal que noutros países europeus, onde é um alimento de base já há mais de 200 anos.

Uma coisa que é engraçada no planalto andino, de onde as batatas são nativas, é observar-se a variedade de batatas que por lá há e que na Europa não se conhecem (embora também haja na Europa batatas muito exóticas). Costuma ser assim, não é? – no centro genético de um ser vivo, a variação é maior que nos sítios para onde ele depois se deslocou ou foi levado.

As três fotos da esquerda são de variedades andinas, mas a foto da direita é de uma variedade francesa, a Vitelotte. Todas as fotos deste artigo: Wikimedia Commons. 


Dois tipos de pisa-batatas, um utensílio
que, não sei porquê, falta em muitas 
cozinhas portuguesas,
A maior parte dos dinamarqueses comem muita batata, sobretudo cozida. Cá em casa, come-se menos que na maior parte dos outros lares, mas come-se, claro, apesar de tudo: cozida às vezes; outras vezes, salteada; às vezes em puré; muito raramente, no forno. Batatas fritas, se as fizer uma vez ao ano, é muito. Ah, estava-me a esquecer, gostamos de rösti, e faço às vezes.

De batatas cozidas e de batatas salteadas, não digo nada, porque não há nada a dizer. Relativamente ao puré, dou-vos dois pequenos conselhos: que não façam puré nem com máquinas nem com passe-vite, porque o acho melhor só esmagado com um pisa-batatas – ou simplesmente com uma chávena ou um garfo; e que não tenham medo de juntar à batata outro legume que tenham à mão; conseguem-se misturas saborosas com abóboras, curgetes, bróculos, cenouras, sei lá, muitas coisas. É uma coisa que neerlandeses e belgas fazem muito, mas eles também misturam com a batata couves e endívias, o que cá, em casa, não costumamos fazer.

Interlúdio musical: 
Ian Dury and the Blockheads, "Mash it up Harry", 1998,
uma cantiga sobre gente e batatas (?)



Batatas assadas no forno são fixes, com murros ou sem eles. Por aqui, como noutros países da Europa central e do norte, compram-se batatas muito grandes para assar no forno. Uma batata por pessoa já dá, se não se for muito glutão. Depois de assadas com casca, abre-se-lhes uma fenda longitudinal, que se enche de manteiga. Não é nada mau.

As batatas Hasselback têm o nome do restaurante de Estocolmo,
onde, em 1953, foram inventadas por by Leif Elisson
Outro tipo completamente diferente de batatas assadas são as batatas Hasselback, que eu também faço muito raramente. Se virem uma depressão oval numa tábua de cortar e se interrogarem para que serve, eis aqui a resposta: para fatiar uma batata (ou outra coisa...) sem a cortar de lado a lado. Não é que não se possa fazer sem ter uma tábua dessas, mas dá mais trabalho.

Os franceses e os belgas disputam, como se sabe, a invenção da batata frita (eis um resumo da discussão, em francês). Na falta de certezas, assentemos que nasceu algures entre Paris e Bruxelas, pronto, e não devemos andar longe da verdade. O que é importante saber sobre as batatas fritas é que têm de ser fritas em óleo limpo e sem muito sabor, e que têm sempre de ser fritas em duas vezes. É só isso.

Rösti é uma receita suíça, como quase se adivinha quando se ouve o nome (quando acaba em i, ou é suíço, como rösti ou müesli, ou quase suíço, como spätzli, não é?). São batatas raladas e depois salteadas, às vezes com bacon ou salsa, às vezes sem nada, que parecem quase um pastelão de ovos, porque o amido da batata aglutina as raspas.

Há várias maneiras de fazer rösti, é só escolherem a que mais vos agrada – ou convém. Uma maneira comum é cozer as batatas e deixá-las no frigorífico de um dia para o outro antes de as ralar (ver aqui), mas também há quem rale as batatas cruas. Eu, muitas vezes, nem uma coisa nem outra: entalo-as sem as cozer completamente e depois é que as ralo e salteio. Claro, em não estando completamente cozidas, têm de se saltear mais tempo com lume mais brando – não há nada pior que batatas mal cozidas… Agora, ultimamente, tenho feito mais uma variante menos clássica, que fica também muito boa: Ralo as batatas cruas na lâmina de ralar mais fina do robô de cozinha (com certeza que também se pode fazer à mão com um ralador muito fininho, mas nunca fiz), depois junto-lhe alho muito picadinho (aí uns três dentes por quilo de batatas), sal, mexo tudo muito bem, escorro a água que as batatas deitam e salteio depois. Os suíços haveriam de considerar um crime esta falta de ortodoxia, mas a verdade é que fica bom e, em cozinha, conta sempre mais o sabor que a tradição.

Bom proveito!