20 de maio de 2015

Burrice

Vivemos numa época em que prevalece um perspetiva de civilidade igualitarista, não só quanto à forma como se tratam os outros no espaço público, mas, mais essencialmente, a como os concebemos e os representamos no nosso imaginário; e penso que é precisamente assim que deve ser, que é precisamente essa perspetiva que deve prevalecer. Segundo a moral que defendo, ninguém tem o direito de criticar nos outros características ou crenças – o que se pode discutir e criticar são ações – ações controladas, isto é, as que se possa escolher não realizar. Continua a haver uma característica, porém, pela qual ninguém parece ter pejo em criticar os outros: a estupidez. Ou burrice, ou chamem-lhe como quiserem – não ser muito inteligente, enfim.

Pode ser-se olhado de lado por acusar alguém de ser gordo, coxo, velho ou suábio, mas ninguém se impressiona se se disser, sobretudo se for verdade, que uma pessoa é mesmo estúpida – a não ser a pessoa visada, claro, e as que estiverem do seu lado. É claro, eu sei que, normalmente, quando se diz de alguém que é estúpido não se quer mesmo dizer que é estúpido; é uma expressão apenas, uma maneira de exprimir desacordo de forma veemente. Mas é o mesmo que acontece com outras palavras que se usam para ofender, não é verdade?, e isso não as torna aceitáveis. Devo dizer, porém, que essa utilização do termo e dos seus sinónimos não me preocupa. O problema, para mim, é que as pessoas realmente sentem e pensam que a burrice é uma característica criticável*. Oiço, mesmo de quem está atento a muitas discriminações, coisas como “Se há coisa que não suporto é gente estúpida”. Porque será?

Conhecem a tristeza profunda – ou o horror, mesmo – de uma pessoa que ouve as outras a seu lado delirarem à gargalhada sobre as incapacidades da gente burra que conhecem e tenta desesperadamente esconder que é assim como essa gente com quem gozam, que é dela que falam?
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* Como a cobardia, aliás, de que falei aqui uma vez, num texto que este vem agora comple(men)tar.

18 de maio de 2015

Louvor do formato digital e a importância da facilidade

A primeira vez que fiz uma análise de um texto em formato digital foi em 1996. Muita gente trabalhava já com computadores há muito tempo, mas, para mim, era uma coisa completamente nova – e era mesmo a ferramenta que me fazia falta. Deu-me um jeitão o find e o find&replace para saltar de uma para outra ocorrência das palavras que me interessavam e para contar essas palavras. «Se eu tivesse tido esta ferramenta antes, de cada vez que fiz à mão levantamentos de ocorrências em textos longos!...», pensei eu.

Lembro-me de que a primeira obra de que fiz um levantamento de palavras foi Os Lusíadas. No meu primeiro ano na universidade, tive um cadeira cujo programa incluía a construção do nacionalismo na literatura portuguesa e, quando vi que Os Lusíadas faziam parte das obras a estudar, fiquei surpreendido («Nacionalismo? Como pode haver nacionalismo em Camões, no tempo de Camões?») e decidi ir ver o que dizia o texto. Demorou-me nessa altura muito tempo a fazer o que acabo agora de repetir em cerca de meia-hora (por ter sido tão à pressa, pode haver um ou outro erro de contagem, mas há de ser coisa pouca): Nação ocorre 7 vezes no singular, 5 das quais referindo Portugal. O nome pátria ocorre 33 vezes no singular. Tem, nalgumas dessas ocorrências, sentido genérico, mas, fora isso, nunca refere outra pátria que não seja Portugal. Reino ocorre no singular 86 vezes, referindo Portugal 40 vezes e referindo outros reinos em vários casos.

É claro, um levantamento deste tipo diz apenas que, como seria de esperar, não há quase nação na obra e que predominam as noções de pátria ou reino, mas não diz nada sobre elas. Isso seria outra conversa. Esta conversa é só sobre fazer levantamentos em textos, antigamente e agora, para dizer que agora se fazem incomparavelmente mais depressa. No outro dia, fiz, para um texto que aqui pus, um levantamento rápido de sossego, sossegado e formas do verbo sossegar na primeira edição dos Lusíadas. Faz-se em segundos, usando a versão em formato digital, mas, se não tivesse acesso a essa versão, é óbvio que nunca o teria feito.

Não sei se o material tem sempre razão, como costuma dizer-se, mas o suporte material da informação condiciona o que se pode pensar sobre essa informação. Analisar qualquer coisa é uma atividade como outra qualquer (como preparar terrenos para cultivo, por exemplo) e depende, em grande medida, não só da vontade e da possibilidade, incluindo conhecimentos, mas também da facilidade de acesso a dados e da facilidade de os manipular, não é verdade?, do esforço que para isso tenha de se fazer.

15 de maio de 2015

Um entre mais de cem mil milhões

Muitas ideias estranhas, como a transmigração das almas ou a de ser descendente de Carlos Magno, seriam abandonadas ou clarificadas se as pessoas se pusessem a fazer contas. É certo que quem acredita na metempsicose provavelmente não quer saber de contas para nada, mas quem ache que ser descendente de Carlos Magno é uma grande honra talvez esteja interessado em saber que isso não é, afinal, nada de especial, porque Carlos Magno tem centenas de milhões de descendentes. De facto, todas as pessoas que descendem de famílias europeias há muita gerações (e não só, mas sobretudo) são não só provavelmente descendentes de Carlos Magno como têm todas um antepassado comum, se recuarmos apenas 1200 anos. Há muitos textos que explicam isto na Internet, mas podem ler, por exemplo, aqui e aqui. O modelo que permite estes cálculos com relativa certeza, elaborado por Joseph T. Chang, existe já há cerca de 17 anos, mas, em 2013, um estudo genético aleatório de 2257 europeus veio confirmar a teoria que era só matemática: não haja dúvida, somos todos primos. (Estudo propriamente dito aqui, respostas a perguntas frequentes sobre o estudo aqui).

O que é que isto interessa? Nada. Ou muito, é conforme. Destrói completamente a ideia de identidade assente na linhagem (viva a República!), a não ser que se limite essa identidade às últimas dezenas, às vezes nem isso, de gerações. E diz-nos que não vale a pena procurar ser descendente daquela senhora ou daquele senhor para ser, como dizer?... especial, porque ela ou ele, se não tiverem vivido há pouco tempo, têm mais descendentes que chapéus há para os palermas.

Agora, uma questão interessante, quando a gente se põe a fazer contas sobre as pessoas que viveram antes de nós é, precisamente…quantas pessoas viveram antes de nós? No site Population Reference Bureau, Carl Haub publicou pela primeira vez as suas contas em 1995, atualizou-as em 2012 e voltou a atualizar os dados em 2011. Não se pode saber com exatidão, até porque a humanidade não começa num momento concreto, mas é bastante provável que Usain “Lightning” Bolt tenha, de facto, corrido 100, 150 e 200 metros mais depressa que mais de cem mil milhões de seres humanos que existiram até hoje.

14 de maio de 2015

A dimensão humana

Discute-se às vezes se a recusa de alguns sectores antirracistas de “descer” ao ponto de discutir em público com a extrema-direita racista contribui(u) para o crescimento dessa mesma extrema-direita, deixada assim livre para apresentar a sua versão dos “factos”, sem ninguém para lhe contrapor factos sem aspas. O mesmo se discute em relação a muito disparate de pseudociência, parapsicologia, medicinas ditas alternativas e toda a sorte de crenças bizarras que por aí pululam: uma pessoa deve rebaixar-se ao nível de discutir se as campanhas de vacinação da Organização Mundial de Saúde têm como finalidade a eliminação dos africanos, injetando-lhes venenos que os matam? E depois, aliás, como se discute um absurdo desses? E serve de alguma coisa tentar convencer quem acredita numa coisa assim?

Mais do que apenas uma questão estratégica para a ação antirracista ou para a divulgação da medicina científica[1], esta atitude de não querer “descer tão baixo” levanta também uma questão moral. E eu acho que, por muito que discorde radicalmente de uma pessoa, não posso deixar de considerar que ela tem exatamente a mesma capacidade moral que eu, pelo que é de uma grande arrogância (paternalismo é palavra que diz insuficientemente a imoralidade da atitude) recusar discutir, seja lá com quem for, ideias que têm em abstrato o mesmo valor que as minhas – até eu demonstrar, se o conseguir, que as minhas são melhores. É claro que uma recusa simples de discussão não pode ser moralmente equiparada à aniquilação física daqueles de quem discordo, mas é um mesmo princípio de dogmatismo fundamental que revela.

Por outro lado, eu sei que não é sempre arrogância, mas às vezes também cansaço, quando não desespero, que motiva a recusa de discussão. É até certo ponto compreensível que se desista de discutir com fanáticos, quer se trate de ideias sobre o conhecimento do mundo, incluindo religião, ciência, etc., quer se trate de questões morais, incluindo política. É que a discussão com quem se recusa liminarmente a ser convencido é muito mais cansativa que a discussão com quem tem apenas convicções fortes. E é, por norma, improdutiva. Por isso mesmo, admiro a paciência e louvo o trabalho de quem, por exemplo e para me centrar em áreas que acompanho, se dedica a discutir diariamente os fundamentos da religião e das religiões, e das ditas “medicinas” alternativas e de milhares de delirantes teorias de conspirações. Penso que não o faço eu próprio tanto como devia, mas hoje, para me redimir um bocadinho dessa falta, contribuo para a discussão da ideia da comunicação com Deus. O meu argumento é este: se existir a divindade suprema dos monoteísmos mais divulgados, os humanos não têm nenhuma possibilidade de a compreender, pelo que a própria crença e a própria prática dessas religiões negam os atributos que dizem que Deus tem.

Na palestra Cosmic Quandaries (Palladium, St. Petersburg, Flórida, 26-03-2009), Neil DeGrasse Tyson diz que não vê como seja possível comunicar com extraterrestres (tradução minha):
Se virmos o parente geneticamente mais próximo dos seres humanos, os chimpanzés – temos mais de 98% de ADN idêntico –, somos mais inteligentes que um chimpanzé. Vamos lá inventar uma medida de inteligência que faça dos humanos seres únicos. Digamos que a inteligência é a capacidade de compor poesia, sinfonias, fazer arte, matemática e ciências, digamos assim. Usemos por agora esta definição arbitrária de inteligência. Os chimpanzés não sabem fazer nada dessas coisas. E, no entanto, temos 98/99% de ADN idêntico. O chimpanzé mais inteligente de sempre talvez saiba comunicar com gestos. Bem, as crianças sabem fazer isso (...).
Tudo o que somos, que nos distingue dos chimpanzés, vem dessa diferença de 1% no ADN. Tem de ser, porque essa é a diferença. O telescópio Hubble [está] nesse 1% (...).
Imaginem outra forma de vida que seja 1% diferente de nós, no sentido em que somos diferentes do chimpanzé. Pensem nisso. Temos 1% de diferença e construímos o telescópio Hubble. Avance-se mais 1%. O que somos nós para eles? Seríamos patetinhas na presença deles (...). Pensem na inteligência que haviam de ter. A mecânica quântica seria intuitiva para os bebés deles. Os miúdos haviam de compor sinfonias inteiras. E, como eu disse, só para pôr na porta do frigorífico – assim como expomos na porta do frigorífico as colagens que os nossos miúdos fazem.
Portanto, a noção de que vamos encontrar seres inteligentes e conversar com eles... Quando é que foi a última vez que pararam para conversar com uma minhoca? Ou com um pássaro? Quer dizer, podem ter conversado som eles, mas acho que não estavam à esperava de uma resposta, ou estavam?
No sítio onde fui buscar a transcrição da palestra, porque não me apetecia nada estar eu próprio a transcrevê-la, tinha alguém comentado (traduzo com ortografia corrigida):
Sigo o raciocínio do Dr. Neil: se houver seres extraterrestres que tenham 1% de diferença do nosso ADN, também podem ser considerados deuses, porque a sua inteligência nos faz parecer parvos.
Bom, deixando de lado a discussão da abstrusa tese de que os deuses são astronautas, pode considerar-se que este comentário aponta precisamente para o que motivou este texto: a possibilidade de comunicação entre o humano e o divino. É certo que divindades há muitas, mas centremo-nos na que mais diametralmente se opõe aos humano por tudo poder, tudo saber e tudo ser, enfim. É claro, entre o Deus das religiões monoteístas e os seres humanos não há propriamente diferença genética, mas não é por isso que deixa de haver diferença entre a capacidade de entendimento do dito criador e das suas ditas criaturas. E convenhamos que seria seguramente considerado blasfemo, por quem acredita nesse deus, afirmar que não é infinitamente maior a diferença entre a inteligência de Deus e a inteligência de uma pessoa do que a diferença entre a inteligência de uma pessoa e a inteligência de, ponhamos, uma minhoca.

Outra maneira de ver a questão é que, sendo absoluto e perfeito o entendimento divino, há, para todos os efeitos práticos, a mesma diferença (uma diferença infinita) entre essa inteligência infinita e a inteligência de qualquer ser com inteligência finita, pelo que, na relação com um deus perfeito, um ser humano não está num plano superior a uma minhoca. E, se podemos aceitar que Deus nos possa compreender, porque ele, por definição, pode tudo, não faz sentido nenhum pensar que uma pessoa alguma vez possa entender o que quer, pensa ou planeia um entendimento infinitamente superior ao seu como é o do deus das religiões monoteístas. Seria infinitamente mais difícil que uma minhoca entender isto que estou aqui a escrever. E estamos de acordo que uma minhoca não entende isto, não estamos[2]?

Já se argumentou muitas vezes que é blasfemo agir em nome de um Deus que tudo pode; mas é pelo menos tão blasfemo acreditar que se pode compreender o que pensa esse Deus – e, por conseguinte, o que deseja de nós. De maneira que a única atitude religiosa que me parece coerente quando se tem uma conceção tão elevada do divino é a dos místicos que propõem, como única forma possível de comunicação com o divino, o esvaziar-se de todo o seu entendimento. No nada, cabe tudo; na nossa compreensão, não.
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[1] Peço perdão pela redundância, mas sou obrigado a usá-la, numa época em que prolifera o uso de expressões como “medicina tradicional”, “medicina natural”, “medicina alternativa”, medicina isto-e-mais-aquilo… Alguém me contava uma vez, mas esqueci nomes e pormenores, infelizmente, de um fundador de um departamento de Psicologia Experimental numa universidade que se queixava de ser necessário chamar-lhe assim, como se toda a Psicologia não tivesse de ser de alguma forma experimental…
[2] «Não!», ouvi uma voz gritar perto de mim. Assustei-me. Não estava ninguém em casa. Ou, pelo menos, não devia estar, àquela hora. A voz parecia ter vindo chão. Olhei e era uma minhoca. Tinha sido ela a gritar, claro. Pronto, estava esclarecido o mistério do grito. Mas faltava esclarecer outro mistério: como teria uma minhoca ido parar ao meu escritório?

13 de maio de 2015

Passar de é a deve ser

Pode ser que uma parte de valores e comportamentos sociais que temos tendência a considerar essencialmente culturais tenha origem em estruturas primitivas inatas, em lugares fundo das pessoas. Pode ser ou pode não ser, as discussões sobre o tema estão muito longe de ser conclusivas. E isto aplica-se tanto às atitudes que louvamos (a solidariedade, por exemplo) como às que criticamos (por exemplo, a discriminação). Talvez algumas das discriminações tenham até origem nos mecanismos que fundam também a solidariedade. O reconhecimento de parentesco, por exemplo, se de facto existir, é um mecanismo egoísta para os nossos genes se protegerem a si próprios em que pode assentar originalmente a criação de círculos de identidade e pertença («sou deste grupo»), que resulta forçosamente no reconhecimento simples da diferença («X não é deste grupo») que modela a discriminação. Tor Nørretranders (de quem já aqui falei) explora muito a noção de egoísmo como base do altruísmo e defende que é a vontade de se valorizar para seduzir os outros que nos leva a fazer coisas por eles, para eles. Pode dizer-se que, nesta perspetiva, há uma profunda relação entre dois sentidos comuns da expressão ser bom: «ser capaz, habilidoso, competente» e «ser bondoso».

Tirando a elegante formulação da questão que proponho na frase anterior, acabadinha de descobrir, não disse ainda, neste texto, nada que não tenha já dito noutros textos deste blogue. Não é, porém, para apresentar a minha descoberta retórica que escrevo, mas para sublinhar que, mesmo que acreditemos que estão assim fundamente ancorados em nós, que são tão naturais como inevitáveis, os vários mecanismos que fundam provavelmente todas as morais, não devemos perder de vista que esses mecanismos são moralmente contraditórios e nem por obsessão de realismo, portanto, a discussão ética se pode centrar na constatação do que é, do como somos – a constatação duma pretensa natureza humana. É que do que é, mesmo havendo sobre ele um consenso que atualmente não há, não pode fazer derivar-se direta e univocamente um deve ser – mas antes muitos, muitos!...

12 de maio de 2015

Uma página de paródia… Perdão, uma página da Paródia e algumas questões etimo(i)lógicas


A Paródia, Ano 1, N.º 1, 17 Jan. 1900, p. 5, na Hemeroteca Digital
Ao contrário do que se possa pensar, a reforma ortográfica de 1911 não foi uma reforma cem por cento contra a perspetiva etimológica. Acabou com uma lógica assente na tradição e instaurou uma grafia de base fonológica e se, em muitos casos, isto implicou recusar grafias etimológicas, pseudoetimológicas ou de outra forma… “tradicionais”, também houve casos em que a reforma veio acabar com grafias sem justificação etimológica que existiam antes dela, recuperando a forma etimológica.

Para não sair da página da Paródia aqui ao lado [clicar para ver em maior], socego e aceio voltaram a ter os ss que lhes vêm de *sessicare e *assedare, que se pensa que deram, respetivamente, sossegar e assear. É claro, pode sempre duvidar-se, porque são formas não atestadas (quando virem um * antes de um étimo, significa que se pensa ser esse o étimo, mas nunca se encontrou a palavra escrita em texto nenhum). É certo, porém, que, recuando mais no tempo, é com ss e não com c que sossego se escreve. Para continuar na página da Paródia, e aproveitando a citação dos Lusíadas que lá vem, podemos comparar com a grafia da primeira edição da obra de Camões. Se, em edições oitocentistas dos Lusíadas, estava a “linda Ignez” “posta em socego”, na primeira edição da obra, a linda Ines – sem g, sem z, sem acento – estava “posta em sosego”. Assim mesmo, com um s apenas, não é gralha. Ou antes, é provável que seja, mas não gralha minha. E é uma gralha que se repete três vezes*, mas, se calhar, não havia revisores naquele tempo. Seja como for, predominam no texto as formas com ss, por exemplo em «Iulga qualquer juyzo sossegado» e em mais 8 ocorrências do radical sosseg-. Assinalo, de passagem, que este y de juyzo não é etimológico e uso essa anomalia como ponte para o regresso a 1911 e ao tema do meu texto:

Houve ii etimológicos que foram também repostos na reforma ortográfica republicana, como é o caso de lyrio ou lagryma, que voltaram a escrever-se com o i de liliu- e lacrima- (que é também, já agora,  como se escreviam no tempo de Camões**). Ainda a propósito de yy, também cysne abandonou uma pretensa etimologia latina para passar a escrever-se como no francês antigo de que parece provir em português e castelhano. (É também cisne, note-se que se escreve na edição original dos Lusíadas: «A longo da agoa o niueo Cisne canta».) Mas, claro, quem goste de considerar as etimologias últimas e não as imediatas, achará que é de cycnus ou cygnus que a palavra vem…

Para essas pessoas, porém, podemos dizer (e agora, que me caiam em cima o Carmo e a Trindade, embora, juro, a intenção não seja provocar mas apenas tirar peso à conversa) que, no caso das palavras de origem grega, também o desaparecimento de th e ph é um restaurar da etimologia, pois não havia no étimo último duas letras que correspondessem a tais dígrafos. Transcrever ɸ por ph é um bocado sem razão, venha de que tradição vier, e perfeitamente desnecessário na latina; quanto a transcrever θ por th, se mais compreensível, por falta de símbolo latino adequado, não tinha, claro está, nenhuma vantagem em relação a uma transcrição por apenas t. (A julgar pela maneira como os portugueses pronunciam o som /θ/ em inglês ou castelhano, a transcrição mais natural de θ é, para nós, um s, eh eh eh…)

[Risos, uns francos e ruidosos, e outros bastante amarelos, sem som absolutamente nenhum; aplausos e apupos; desce o pano. E ouve-se outra voz:]

Para continuarmos nesta página de paródia… perdão, da Paródia, se a grafia tem mesmo influência na pronúncia, como insistem em afirmar alguns, temendo, pelos vistos, que se abatam cataclismos incontáveis sobre a maneira de dizermos certas palavras por causa da nova maneira de as escrevermos…, foi só por muita sorte que época, depois de ter-se escrito epocha tanto tempo, não passou a pronunciar-se [e’poʃɒ]. Ufa, e ainda bem!

[Mais ruídos diversos, semelhantes aos anteriores, de trás do pano.]

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* «Mas o velho a quem tinhão ja obrigado / Os trabalhosos annos, ao sosego», «Torna a dormir quieto & sosegado» e «Affonso que não sabe sosegar»
** Entre muitas outras ocorrências, em «Mas moura em fim nas mãos das brutas gentes, / Que pois eu fuy: & nisto de mimosa / O rosto banha, em lagrimas ardentes». Ups, outro y não etimológico em fuy, muito imaginativas eram estas grafias.

11 de maio de 2015

Nós mesmo nós e outros nós

Richard Rorty escreveu que é «um conjunto de crenças partilhadas que determina a referência da palavra nós*». Hmmm… Não vou discutir agora as ideias de Rorty (embora as ache, no mínimo, muito discutíveis…), mas sim a referência da palavra nós. E, embora a Rorty não devessem importar muito os factos linguísticos (nem outros factos…), a verdade é que a palavra nós pode ter muitas referências diferentes. Falo a seguir do português, mas do inglês poder-se-ia dizer mais ou menos o mesmo…[E sim, sim, eu sei que não é de língua que Rorty fala e que o que digo a seguir não serve de crítica às suas ideias, era só uma brincalhona provocação.]

Há línguas com formas diferentes (do pronome ou do verbo), conforme a primeira pessoa do plural inclua ou não a pessoa com quem se fala. Também pode haver formas diferentes para uma primeira pessoa do plural que inclua apenas a pessoa que fala e a pessoa com quem ela fala. A Wikipédia em português diz que «[e]m português, essa diferença se faz sentir entre os pronomes nós (inclusivo) e nós outros (exclusivo), e também entre nós (inclusivo) e a gente (exclusivo)», mas se isso for verdade em certas variantes do português do Brasil e do galego, não se aplica certamente ao português de Portugal. Em Portugal, onde a forma nós outros é quase inexistente, arcaica ou limitada a raros usos literários ou dialetais, tanto as formas nós como a gente podem ser inclusivas ou exclusivas.

O mesmo se passa em muitas outras línguas. É possível determinar, a partir de outros elementos discursivos, o valor inclusivo ou exclusivo de nós e o seu valor dual (referindo apenas o locutor e mais uma pessoa, o interlocutor ou outra) ou plural, mas a única coisa que se pode com certeza afirmar que é comum a todos os seus valores de base é referir a pessoa que fala e mais alguém.

Esperem, esperem, não é bem assim! Referir a pessoa que fala e mais alguém é o mais comum dos valores de nós, mas não é comum a todos os seus valores. Há um valor de nós, vejam lá, que nem é de primeira pessoa do plural, mas de segunda pessoa do singular: «Então, como nos sentimos hoje?» Eu chamo-lhe o «nós dos médicos», mas não são só médicos que o usam.

E há ainda, claro, um nós mais majestático que o dos senhores doutores, singular como ele, mas sem chegar a ser segunda pessoa – primeiríssima pessoa apenas. Agora, há algumas restrições ao uso deste nós dos monarcas: se o jovem Luís XIV tivesse dito «O Estado somos nós», não sei se se teria tornado famosa a sua afirmação; mas não teria, com certeza, sido entendido que o Estado era ele

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*«According to this view, what counts as rational or as fanatical is relative to the group to which we think it necessary to justify ourselves – to the body of shared belief that determines the reference of the word “we”.» “The priority of philosophy to democracy” (in Objectivity, Relativism, and Truth: Philosophical Papers, Vol. 1. Nova Iorque: Cambridge University Press, 1991, p. 177) Não é o único caso em que Rorty fala, neste sentido, da referência do pronome da primeira pessoa do plural. Outro exemplo: «For pragmatists, the desire for objectivity is not the desire to escape the limitations of one's community, but simply the desire for as much intersubjective agreement as possible, the desire to extend the reference of 'us' as far as we can.» (“Solidarity or objectivity” (ibid. p. 23).

8 de maio de 2015

Nacionalismo, mais uma vez

Vejo alguns amigos divulgarem, por e-mail ou no Facebook, textos de Eça de Queirós e Guerra Junqueiro sobre o estado da nação no seu tempo, louvando a atualidade desses textos[1]. É conhecido o processo de engrandecimento das nações que consiste na sua subtração a todas as realidades históricas para as transformar em gloriosos entes fantásticos cujo espírito e valor permanecem inalterados através dos tempos. Nesta reação à consciência sofrida do estado atual de Portugal, porém, já não é o Bem que é a-histórico, mas sim o Mal: a “atualidade” destes textos diz-nos que Portugal sempre sofreu (quase século e meio é um pouco como uma eternidade em ponto pequeno) dos males de que sofre agora. O que se diz, afinal, é que o problema reside no imutável espírito dos (maus) portugueses e não nas condições históricas atuais.

Também começaram a circular, há uns tempos, excertos do “Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX”, de Almada Negreiros (Portugal Futurista, 1917[2]). É um texto estranhíssimo, a espaços assustador[3]. Não é minha intenção analisá-lo aqui, mas quero referi-lo como exemplo daquilo que eu chamo uma apelativa suspensão da racionalidade.
Eu não tenho culpa nenhuma de ser português, mas sinto a força para não ter, como vós outros, a cobardia de deixar apodrecer a pátria. 
A primeira parte da frase está certa, embora se perceba mal o uso da palavra culpa. Espera-se a negação de culpa relativamente a características ou ações consideradas negativas, não é verdade? Se dissermos Ele não tem culpa de ver mal ou Ele não teve culpa de ter deixado entrar a bola, assumimos que ver mal ou deixar entrar a bola são coisas negativas. Como pode Almada Negreiros, em pleno fervor nacionalista, assumir a portugalidade como algo negativo de que não tem a responsabilidade? Não se espera antes, neste tipo de discurso, uma asserção como «Eu sei que não sou português por decisão própria, mas…»? Talvez o uso de culpa tenha implícita uma crítica aos outros portugueses que têm a “cobardia de deixar apodrecer a pátria” – talvez Almada Negreiros pretenda implicar que é assim que esses tais cobardes sentem a sua portugalidade, como uma culpa… Também a ligação lógica entre as duas proposições da frase me surpreendeu: deve esperar-se uma correlação positiva entre a culpa de ser português e a força de não deixar apodrecer a pátria? Pode ser apenas que Almada Negreiros seja bastante descuidado na sua lógica, e que, por isso, não valha a pena tentar encontrar o meio dia às quatro da tarde, como dizem os franceses; ou, neste caso, encontrar lógica e coerência num texto que prima pela emotividade pré-racional e pela incoerência... O certo é que textos como este são altamente apelativos: quando é de apelo ao patriotismo que se trata, suspende-se muitas vezes a racionalidade, pondo-se a dedicação incondicional à pátria como valor a priori (Almada Negreiros, mais adiante no mesmo texto: «[O] patriotismo condicional degenera e suja; o patriotismo desinteressado glorifica e lava.»). Qualquer pessoa, porém, que recuse a infantilidade do adquirido acriticamente como forma de orientar a sua conduta tem, mais que direito, o dever de ser interrogar: que boas razões há para ser nacionalista ou patriota [4][5]?

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Acompanhando de longe a reação do meu círculo de relações à situação de crise em Portugal, vejo surgir em vários amigos meus que nem considerava especialmente nacionalistas um nacionalismo assertivo, por vezes eivado, ainda por cima, de um confrangedor discurso antialemão e antieuropeu. Agora, por muito que nem sempre seja agradável e chegue, às vezes, a ser aterradora, essa efusão nacionalista não me surpreende por aí além. Tempos de crise exacerbam sempre o nacionalismo. Uma das respostas mais imediatas ao que sente ser o degradar da nação é a exortação ao patriotismo heroico de salvação nacional – algo em que uma parte da esquerda nunca se distinguiu da direita, aliás… Quero deixar claro que sou também fortemente crítico das políticas do atual governo, das medidas austeritárias em geral e da obsessão da economia neoliberal que domina muitos dirigentes europeus. Mas entristece-me ver as pessoas suspenderem a racionalidade, como o Almada Negreiros do texto acima, ao ponto de se recusarem a analisar a situação atual, reduzindo-a a um mal permanente, intemporal, ou a amalgamarem a CDU alemã com a Alemanha ou o povo alemão, o predomínio da ideologia neoliberal na União Europeia atual com a própria União Europeia. Esta amálgama encerra, aliás, uma contradição fundamental: seguindo a mesma lógica e identificando a nação e o povo portugueses com o seu governo atual, que recusam, deveriam também recusar Portugal… Mais uma vez, para aceitar este tipo de generalizações nacionalistas, é preciso mesmo suspender a racionalidade.

Tudo isto é óbvio e foi já muitas vezes repetido. Também já expliquei aqui que não acredito em conceitos trans-históricos ou a-históricos de identidade nacional, que haja alguma coisa essencial que me faça semelhante aos portugueses de há três, cinco ou sete séculos; e que também não acredito em identidades nacionais em bloco: sou muito mais parecido, mas muito mais!, com muitos alemães que conheço que com outros portugueses da minha geração. Juntando isto tudo, sou, enfim, um português sem vergonha nem orgulho nenhum de o ser. E vejo mal como poderia ter uma atitude diferente se fosse croata, balúchi ou filipino… Mas, por banais que sejam, aqui ficam estas observações, nem que apenas como notas a que possa rapidamente lançar mão para alicerçar futuras discussões sobre o tema.

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Não sei até que ponto o que se segue é menos banal. É, em certa medida, um aparte, mas diz também respeito à discussão do nacionalismo. Quero defender aqui que, seja em que circunstâncias for, não acho correto defender ou criticar um programa de governação por ele favorecer ou desfavorecer uma nação. Um amigo meu defendia uma vez, respondendo a uma crítica minha à atuação do ministério dos negócios estrangeiros de um determinado país, que essa atuação se justificava, porque estavam a defender os interesses do seu país. Ora, para uma pessoa que, como eu, entende a política com uma parte da ética, um programa político só pode ser louvado ou condenado por estar ou não de acordo com os princípios – éticos em sentido lato – que essa pessoa defende. Aceitar que a defesa dos interesses nacionais é fundamento suficiente para a atuação política implica considerar que mal ou bem ou não contam ou não são atributos do que se faz, e que a mesma ação possa ser julgada de duas formas diferentes consoante quem a executa e a favor de quem.

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Não me entendam mal: não tenho nada contra uma pessoa gostar do sítio onde nasceu, como não tenho nada contra uma pessoa gostar de pais e irmãos e amigos de infância. Acho natural que gostemos daquilo com que convivemos há muito tempo, daquilo que conhecemos bem: “familiaridade gera gosto”, dizem, vertendo assim, não sei se da melhor maneira, familiarity pelo seu cognato português… E é assim mesmo, gostamos do que o acaso nos pôs na vida, como havia de ser doutra maneira? Aliás, distinguir entre esses afetos resultantes apenas de uma fortuita proximidade e outros afetos escolhidos (“não se escolhe a família, mas escolhem-se os amigos”, etc.) é provavelmente uma distinção artificial, porque ninguém escolhe de facto gostos nenhuns – em última análise, é sem grande sentido a ideia de haver uma entidade exterior ao eu que gosta a decidir de que gosta esse eu. Mas adiante. Não tenho absolutamente nada contra gostar-se da sua terra em geral, ou de aspetos particulares da sua terra, nem tenho nada contra não gostar dela, ou de alguns dos seus aspetos, ou ser-lhe indiferente; como não tenho nada contra não gostar de pais e irmãos ou ser-lhes indiferente, se isso acaso acontecer… Gosta-se do que se gosta e pronto, não vejo nisso nenhum mal nem nenhum bem. Não é que não haja nada a fazer relativamente aos gostos que temos, porque há sempre algo a fazer quando nos inquieta gostar do que gostamos ou vice-versa (no gosto não há moral; e a moral não deve subjugar-se ao gosto, acho eu), mas, enfim, que se goste do que nos é familiar, repito, isso eu compreendo. Aquilo com que não concordo é que se infiram do gosto deveres e valores. Também compreendo que toda o empenhamento cívico ou político tem de ter um âmbito e que uma das escolhas mais razoáveis é empenhar-nos na comunidade em que mais imediatamente nos inserimos, incluindo, claro está, a nação. Mas essa escolha não implica nenhuma das atitudes nacionalistas que critico neste texto.
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[1] Têm tido grande fortuna os excertos de “Uma campanha alegre”, de Eça de Queirós, e do “Balanço patriótico” das “Anotações” a Pátria, de Guerra Junqueiro, que aqui aparecem os dois numa única página da Internet.
[2] Pode ler-se aqui o texto integral.
[3] Assustam-me, por exemplo, os seguintes incitamentos:
Fazei predominar os sentimentos fortes sobre os agradáveis.
Tende a arrogância dos sãos e dos completos.
Fazei a apologia da Força e da Inteligência.
Fazei a apoteose dos Vencedores, seja qual for o sentido, basta que sejam Vencedores. Ajudai a morrer os vencidos.
[4] Fui buscar o termo infantilidade e uma parte da formulação deste parágrafo à discussão proposta aqui por Aires Almeida.
[5] Em rigor, podem distinguir-se estes dois conceitos e até afinar-se ainda mais a distinção entre vários tipos de sentimentos positivos pelo seu país, mas não o farei aqui.

5 de maio de 2015

Mudar de ideias: uma experiência muito interessante

Isto de fazer experiências consigo próprio é complicado, sobretudo quando as experiências implicam uma descrição do que se sentiu, como é o caso da experiência que se descreve mais adiante. Parece-me improvável que Rodolfo Llinás esteja a mentir sobre o que sentiu (isso é, aliás, fácil de verificar fazendo a experiência com outras pessoas, mas não sei se foi já feito ou não), mas, claro, é uma possibilidade que os mais céticos poderão pôr. Outra possibilidade é que Llinás esteja a ser vítima de um viés que o faz sentir o que ele acredita que se sente naquela situação. Mas também é muito possível que esteja apenas a dar conta de um facto simples, sem nenhuma interpretação tendenciosa. E, se assim for, estamos perante uma prova – para muitos perturbadora, tenho a certeza – de que a ideia de livro arbítrio precisa mesmo de ser repensada. Não forçosamente abandonada, mas muito bem repensada, com um olhar novo sobre o que significa, para cada um de nós, tomar decisões.

Há muito tempo que existe a proposta de que as nossas pretensas decisões sejam de facto posteriores às ações a que dizem respeito. São célebres as experiências de Benjamin Libet, embora não haja nenhum consenso sobre que conclusões delas se podem tirar. Mas a experiência de Llinás vem dar uma nova dimensão à questão: mesmo a perfeita consciência de que uma determinada decisão não está a ser tomada por mim na altura, mas foi antes previamente planeada – por mim ou outra pessoa –, não impede que, se quando a ponho em prática, eu sinta forçosamente que foi aquilo que quis fazer. Traduzo eu, de uma conversa entre Rodolfo Llinás e Roger Bingham num filme da TSN em 2007 (transcrição disponível). Llinás não é muito eloquente, pelo menos em inglês, mas creio que, apesar do registo hesitante e, por vezes, confuso, se percebe bem a descrição desta fascinante experiência:
Llinás: ... O que eu quero eu dizer com “mente”? Quero dizer “estado interno do cérebro”. Definível. Há quem me diga que não se pode definir a mente. E a resposta é: que disparate! Agora, se disser “livre-arbítrio” – como se define o livre-arbítrio? Mas posso dizer-lhe que defino livre-arbítrio como as atividades que acontecem que o cérebro sabe que estão prestes a acontecer. (...) Entendo que o livre-arbítrio não existe; entendo que a única maneira racional de nos relacionarmos uns com os outros é assumir que existe, embora no fundo saibamos que não é assim. Agora, a pergunta que você pode fazer-me é: “Como sabe?” E a resposta é que, bem, eu fiz uma experiência muito bonita comigo mesmo. Foi de facto extraordinário.
Há um instrumento usado em neurologia chamado estimulador magnético (...). É um instrumento que tem uma bobina que se põe junto à cabeça e onde passa corrente de forma a gerar um grande campo magnético que ativa diretamente o cérebro, sem necessidade de se abrir nada. Portanto, se se pega numa bobina dessas e se a põe junto à cabeça, pode gerar-se um movimento. (…) Então, pode estimular-se diretamente  diversas partes do cérebro e ter uma sensação do que acontece quando ativamos o cérebro, sem, entre aspas, sermos nós a fazê-lo. (…) Então, decidi pô-la no alto da cabeça, onde considero ser o córtex motor, e estimulá-lo, e encontrar um sítio bom que fizesse o meu pé direito mexer-se para dentro. E zás, não foi difícil. Fizemos isso várias vezes e tive de dizer ao meu colega: “Sei anatomia, sei fisiologia, posso dizer que estou a fazer batota. Dê o estímulo e eu mexo, sinto que estou a mexê-lo”. E ele disse: “Bem, sabe, não há maneira nenhuma de saber mesmo.” Eu disse: “Eu digo-lhe como sei. Eu sinto, mas dê o estímulo e eu vou mexer o pé para fora. Vou fazer isso.” Então, dou o estímulo e o pé mexe-se para dentro outra vez. E eu disse: “Então, que se passa?” E disse: “Mudei de ideias”. E repeti. Repeti meia dúzia de vezes.

Bingham: E mexeu-se sempre para dentro?

Llinás: Sempre. E eu então disse: “Deus meu, não consigo distinguir a diferença entre a atividade exterior e o que considero ser um movimento voluntário. Se sei que vai acontecer, penso que o fiz (…). Agora entendo essa coisa do livre-arbítrio e da volição. Volição é o que está a acontecer noutro lugar no cérebro, de que eu sei e, portanto, decido que fui eu que fiz. (…)

Bingham: (…) Então, está a dizer que, como há essa ligação direta entre o estímulo e o pé mexer-se para dentro e que isso acontece sempre, mesmo que queira mexê-lo para fora, ele continua a mexer-se para dentro… Está a dizer que, ainda assim, pensou que a sua sensação era tê-lo mexido para fora?

Llinás: Não! A sensação foi outra: fui eu que fiz aquilo.

Bingham: Embora estivesse a mexer-se para dentro.

Llinás: Mexeu-se para dentro e a sensação é: “Bom, mexi-o para dentro”. Não podia, o meu sistema, não podia ter uma sensação diferente da que teria se o tivesse mexido para dentro. (…) «Sentiu que havia algum problema?» «Não, não senti que houvesse problema nenhum. Mexi-o para dentro.» «Mas pensou, decidiu, que ia movê-lo para fora!» «Sim, mas mexi-o para dentro.» E depois, uma pessoa pensa e dá-se conta de que está a dizer isso depois de o ter mexido para dentro, porque ele se mexeu para dentro e sabia que isso ia acontecer, portanto apropria-se disso. Por outras palavras, o livre arbítrio é saber o que vai fazer, é só isso. Não forçosamente desejá-lo. Lamento imenso.

27 de fevereiro de 2015

Línguas mortas

No dia 4 de Fevereiro de 2014, morreu Hazel Sampson e, com ela, a língua klallam, que ela era a última pessoa a ter como língua materna. Embora haja ainda algumas (poucas) pessoas que o falem como segunda língua, o klallam pode considerar-se uma língua morta. Língua morta pode precisamente definir-se como uma língua que já não é língua materna de ninguém.

Ninguém sabe ao certo o que é uma língua. Há muitas definições bastante satisfatórias de língua, mas, por um lado, é impossível definir-se os seus limites, na sua variação no tempo e no espaço; e, por outro lado, não se sabe de que consta ao certo a língua enquanto programa mental. Trocando por miúdos, e insistindo no que interessa mais para a questão que aqui trato, quer isto dizer, por exemplo, que ninguém sabe em que momento é que o romance falado na parte ocidental da península ibérica se pode passar a designar como português; e quer dizer também que não se sabe onde estão armazenados, como estão estruturados e como funcionam ao certo a imensa base de dados e os inúmeros mecanismos que nos permitem falar e compreender uma língua.

Para compreender o que é a morte de uma língua, é útil ter presente esta conceção de que a língua é uma estrutura que, em abstrato, pertence à comunidade dos seus falantes e que nela evolui, mas que, em concreto, se encontra instalada, na sua forma integral, no cérebro de cada uma das pessoas que a têm como língua materna. A língua morre de facto quando morre o seu suporte físico – quando deixa de ter falantes. Por muito que haja uma descrição exaustiva do léxico e da gramática dessa língua, essa descrição fica sempre muito aquém da estrutura complexíssima que os falantes nativos têm na mente. A analogia com um programa de computador funciona aqui relativamente bem: imaginem um programa que, por uma razão qualquer, já só existe no disco rígido de um único computador e que esse disco rígido é destruído. O programa desaparece. Pode haver uma descrição detalhada do que ele produzia, mas isso não impede que já não haja aquele programa[1].

Há dois tipos de línguas mortas: as línguas com mortes datadas (seja ou não conhecida a data da morte) e as línguas de que é impossível determinar quando morreram[2]. No primeiro caso, está uma língua como o klallam; no segundo, uma língua como o latim. No primeiro caso, o que acontece normalmente é que, por terem pais falantes de duas línguas diferentes, os filhos não adquirem a língua de um dos pais. Ou adquirem-na em bebés, mas, por não a usarem, acabam por perdê-la. Quando uma língua é muito minoritária, vão ficando, por este processo, cada vez menos falantes da língua e, a certa altura, morre o último – e, com ele, a língua. No segundo caso, a língua vai-se modificando e, ao fim de muito tempo, já toda a gente fala uma versão tão diferente da língua que é considerada outra língua. Para usar o exemplo do latim, o latim falado em grandes zonas do império foi evoluindo lentamente e foi-se diferenciando de região para região, e a certa altura, deixou de ser referido e entendido como latim[3] – passou a ser chamado português, galego, castelhano, asturiano, aragonês, catalão, valenciano, etc., etc., etc. Mas é impossível determinar-se quando o latim deixou de ser falado, porque ele foi sempre sendo transmitido de pais para filhos, sem a interrupção que se verifica em casos como o do klallam.

Lembro-me de duas máximas muito úteis que aprendi quando comecei a estudar linguística: “em cada momento, uma língua é sempre o resultado da transformação de um seu estado anterior” e “uma língua é um dialeto com exército e marinha”. O que esta última máxima quer dizer é que a identificação de uma língua é mais frequentemente de caráter político que propriamente linguístico. O norueguês bokmål e o dinamarquês são sempre considerados línguas diferentes, mas, se a Noruega e a Dinamarca não fossem países distintos, haveria, muito provavelmente, quem os considerasse duas variantes dialetais da mesma língua. Se se pensar também em variantes temporais em vez de apenas variantes dialetais, temos que o latim deixa de ser considerado latim quando desaparece o império romano e se criam, no espaço que este ocupava, várias outras unidades políticas. Mas as pessoas não mudaram de língua no ano de 476 ou lá quando se queira considerar o fim da Roma imperial, nem em nenhum momento concreto: os filhos continuaram sempre a aprender a língua dos pais – que se foi sempre alterando um bocadinho, como as línguas sempre se alteram[4].

Parecerá agora claro (espero…) a toda a gente que destas constatações simples se pode derivar que são línguas mortas todos os estados anteriores, que já ninguém fala, de uma língua atual. Usando qualificações como arcaico, antigo, medieval, clássico, etc., para as línguas existentes, obtemos forçosamente línguas mortas. Agora, se a designação de língua morta é standard para, ponhamos, o grego antigo ou clássico, a que se opõe a língua viva grego moderno, é-o talvez menos para línguas mortas como o português, o espanhol ou o francês arcaicos[5]. É claro que a proximidade temporal e, por conseguinte, a proximidade linguística, do que se designa como português arcaico e do português atual é muito maior que a do grego do tempo de Sócrates e do grego atual (e provavelmente até que a do inglês do tempo de Chaucer e do inglês atual), mas duvido que um português atual entenda sem problemas o português dessa época e até que reconheça o português dessa época como sendo a sua língua – o português atual é provavelmente mais próximo do castelhano atual, por exemplo, que do português do tempo de Afonso Henriques...

Dito de uma maneira mais pomposa, que é como se costumam resumir as coisas em fim de texto, para a grande maioria das línguas atualmente existentes[6], há um continuum de língua(s) morta(s) que são as suas fases passadas – que já ninguém fala. No fundo, a língua é (como) um organismo vivo: também para a língua, a morte é o preço a pagar pela possibilidade de evoluir.

Finalmente, a propósito da gravidade da morte das línguas, gostava de dizer algumas palavrinhas. É frequente considerar-se um drama o desaparecimento de um língua, porque, defende-se muitas vezes, é uma cultura ou uma mundovisão que desaparece com a língua que morre. Não cabe aqui desenvolver as complexas questões da relação entre língua e cultura ou entre língua e conceção/perceção da realidade (já o fiz aqui, por exemplo), mas parece-me que há uma grande dose de (etno-)romantismo nesta ideia[7]. Evidentemente, há a parte moral (e política, forçosamente) da questão: são aceitáveis os motivos que levam a que as línguas fracas sejam destruídas pelas línguas fortes? – e fraco e forte aqui também tem mais a ver com exército e marinha, que é como quem diz prestígio e poder económico, que com alguma característica propriamente linguística… E há a parte científica, sobretudo se a língua desaparecer sem dela haver bons registos e/ou descrições… E há a parte emotiva, claro. Acho muito bem que se faça tudo o que se pode para preservar uma língua de que se gosta, claro, e esse esforço nem precisa, aliás, de outras justificações que não sejam o amor que se tem a essa língua. Mas, se há alguns exemplos de revitalização de línguas, não há grandes provas de que, nas condições em que morre a maior parte das línguas, tais esforços tenham qualquer resultado e discutem-se os prós e contras de políticas de revitalização[8].

Uma maneira de desdramatizar a questão é pensar que, com rigor, a língua que qualquer ser humano fala ou falou será um dia ou é já… uma língua morta.

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[1] No caso de um programa de computador, é provavelmente mais fácil, a partir apenas da descrição das funções e resultados de um programa que não sabe qual é, criar outro programa que, embora diferente, tenha funções e produza resultados semelhantes. No caso da língua, as ciências linguísticas e as neurociências estão muito, muito longe de conseguir (por exemplo), a partir de uma descrição do klallam, pôr na cabeça de alguém alguma programação linguística que produza os mesmos resultados que produzia aquela que Hazel Sampson e os outros falantes da língua tinham no cérebro…
[2] Já encontrei quem distinga os dois tipos chamando línguas extintas e não línguas mortas às primeiras, mas não me parece que esta distinção seja muito comum.
[3]
Na região do Trentino-Alto Adige e do Vêneto, em Itália, porém, continuou sempre a ser designado como ladin. Também a língua dos judeus sefarditas continuou sempre a chamar-se ladino.
[4] Isto não acontece sempre de forma contínua e progressiva. Pode haver momentos de ruptura em que há grandes transformações, devido a, por exemplo, imposição política de uma língua estrangeira, grandes migrações de populações, etc. Mesmo estas convulsões não produzem mudanças num momento determinado, mas sim num espaço de tempo mais alargado, de várias gerações.
[5] …e provavelmente menos ainda para coisas como ndebele arcaico…
[6] Os crioulos, línguas nascidas “de repente”, “sob pressão”, são exceção a esta regra geral.
[7] Um bom exemplo de uma visão hiper-romântica da questão é a ideia de suicídio linguístico como forma de suicídio cultural, que se encontra neste texto de Caroline Davies (em inglês). Proponho, para contrabalançar tanto romantismo, uma discussão simples e muito sensata (também em inglês) da questão das morte das línguas por Morris Alper.
[8] A entrada da Wikipédia sobre a questão da revitalização das línguas dá informação básica sobre o assunto e pode também ser um bom ponto de partida para quem queira aprofundar a questão.

17 de fevereiro de 2015

O tempo e a sua falta

Sempre me custou perceber a afirmação, tantas vezes repetida, de que o tempo não tem realidade, que é só ilusão que criámos e veneramos. Nunca tal se diz do espaço, porque será?, só do tempo – como se se pudesse ficar nalgum lado ou ir a algum lado sem que passe tempo. Existir no espaço sem tempo e no tempo sem espaço é atributo de ubíquas e eternas divindades, nada que os animais conheçam. O que os animais conhecem é o que lhes dizem os sentidos. E eu e o meu cão, os tordos e as abelhas, todos sentimos o tempo passar. E ainda bem que assim é. Tentem conceber alguém que não tivesse a capacidade de sentir o tempo, para quem não houvesse antes e depois. Não conseguem, pois não?, é-vos tão impossível conceber tal coisa como conceber alguém para quem o mundo não tivesse profundidade e vivesse apenas dentro de uma imagem plana.

Ilusão, o tempo? Criação nossa apenas, ficção? Ora, haverá no mundo alguma coisa em que esbarremos mais que no tempo, outra coisa que tenha uma tão cruel materialidade? Ah, porque se pode perceber de maneiras várias, porque uma hora com uma rapariga bonita é mais curta que um minuto sentado em cima do bico aceso de um fogão*… Claro, como tudo o que existe. Mas isso só mostra bem que existe fora da maneira como cada um o percebe, senão como poderia ser percebido por cada um de maneira diferente?

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Às vezes, uma pessoa esforça-se tanto por dizer coisas novas que acaba por dizer coisas que têm pouca ou nenhuma relação com a realidade. E está muito bem assim. Outras vezes, quer mesmo falar do que acha importante e não tem remédio senão repetir o que já disseram milhares de pessoas antes dela, porque o que é importante para cada um de nós foi e continua a ser importante para muitos outros em muitos tempo e lugares. Escrevi muitos textos sobre tempo, quase todos a rimar. Falam do contra-senso que encerra a expressão matar o tempo, que é coisa que não se pode (pois se é o tempo que nos vai matando a nós!); falam de envelhecimento como consciência cada vez mais aguda de que um dia tudo se acaba. Que pode haver de mais importante e de mais banal que isto?

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Quando era rapaz novo, impressionava-me a deslumbrada ânsia de viver de Dean Moriarty, personagem de On the road de Jack Kerouac, e o seu “conhecimento do tempo”. “Nós conhecemos o tempo”, repete ele várias vezes no livro. Para Dean, conhecer o tempo é ser capaz de o desacelerar e curtir a vida, e, para isso, é preciso deixar de tomar decisões, de querer decidir o futuro, deixar-se ir apenas – atrás da vida, para onde ela o chamar. E eu e os meus amigos, aspirantes a beatnicks que éramos, tentávamos convencer-nos mutuamente da validade dessa fascinante ideia e de que tínhamos essa superior capacidade. “Nós conhecemos o tempo!”, repetíamos nós, “Nós conhecemos o tempo!”

A personagem de Dean Moriarty é inspirada numa pessoa concreta, Neal Cassady. Em The First Third, um texto autobiográfico, Neal Cassady conta que o seu irmão Jimmy o fechava numa cama embutida na parede, às vezes horas a fio. Neal diz que, literalmente emparedado, sentia que o tempo “ia acelerando até atingir o triplo da sua velocidade normal”. E ele, horrorizado, com medo de se mexer e de gastar a sua reserva de oxigénio, aprendeu a “viajar no tempo”, deixando-se, às vezes, ir na corrente do tempo e transformando-a, outras vezes, numa enxurrada. A única maneira de resistir ao pânico, ao mais absoluto desespero, era aprender a “conhecer o tempo”, a modelar a perceção que dele tinha. Que mais pode fazer – se o conseguir… – quem deixa literalmente de ter tempo, quem não vê, depois deste agora que está a chegar ao fim, nem um bocadinho de futuro?

Não é dar o dito por não dito, não é isso. É dar conta de dor, de impotência. É certo – pode ser certo – que, às vezes, o tempo não existe. Falta-nos, não há. Se for só para acabar de pintar a cave ou para dar forma definitiva a um texto de blogue ou para ler aquele livro que queríamos mesmo ler, ainda é como o outro… Que nos falte, não há problema. Mas pode-se, aos 28 anos, por exemplo, não ter já tempo para nada a não ser sofrer dores e a angústia da morte iminente. Um mês mais, mais seis meses? Uma vez, ouvi alguém desimportantizar um anúncio de morte: “Morte anunciada, como na crónica do outro, o que é isso?” A morte, dizia essa pessoa, é-nos anunciada a todos em criança. É uma afirmação insuportavelmente cruel para aqueles a quem tenha sido anunciado que não lhes resta já muito tempo. E é assim também, não é?, a asserção ligeira de que “o tempo, isso não existe, nós é que o fazemos, o tempo”, para uma pessoa que não pode fazer – nem desfazer – tempo nenhum...


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* Esta explicação que Einstein deu da relatividade mostra que nem ele a consegue explicar de maneira simples – é que esta explicação não explica nada, convenhamos… (Mas desta vez, é mesmo dele, vá lá, são referidas em três obras formulações ligeiramente diferentes da mesma ideia: James B. Simpson:1957; William Hermanns:1983; Alice Calaprice: 2005)

12 de fevereiro de 2015

O motivo da sombra como origem do desenho

Giorgio Vasari, Autorretrato, 1561-1569
Em meados do século XVI, Giorgio Vasari pintou um fresco chamado Autorretrato, em que uma personagem se desenha a si própria, usando os contornos da sua sombra na parede.

Matías de Arteaga, A Origem da Arte da Pintura, 1665?

Cerca de 100 anos posterior a este fresco é um quadro chamado A Origem da Arte da Pintura, de Matías de Arteaga[1], que repete o motivo do desenho do contorno de uma sombra na parede. Não é agora um autorretrato que a obra representa, mas um homem que desenha, também numa parede, o contorno da sombra de outro homem, perante vários observadores. No dístico em baixo à direita, lê-se “Tubo [sic] de la sombra origen la que admiras hermosura en la célebre pintura” [“Teve na sombra origem a que admiras formosura na célebre pintura”].

Joachim von Sandrart, 1675
A estranha ideia de que se começou a desenhar contornando uma sombra surge em dois textos clássicos do séc. I, publicados com poucos anos de intervalo entre eles. No livro X da Institutio Oratoria (95), Quintiliano diz que, se todos se tivessem limitado a imitar os seus predecessores, “não haveria poesia superior à de Livius Andronicus, nem em História nada que ultrapassasse os Anais dos Pontifícios; os nossos barcos seriam ainda jangadas e a arte da pintura limitar-se-ia a contornar com um risco as sombras que projetam os corpos à luz do sol[2]”. No capítulo 12 do livro XXXV da sua História Natural (77-79), Plínio, o Velho, conta que Cora, a filha de um oleiro de Sicião chamado Butades, traçou numa parede o contorno da sombra nela projetada pelo rosto de um rapaz por quem estava apaixonada e que partia para o estrangeiro. O gravador alemão Joachim von Sandrart publica em 1675, na sua Teutsche Academie, uma gravura representando os dois textos fundadores da ideia. A imagem de Quintiliano, que era muito mais simples, nunca se tornou um motivo da pintura europeia; a de Plínio, porém, que era muito mais sedutora pela história de amor que incluía, foi, desde essa altura, pintada várias de vezes.

Para vos dar uma lista reduzida, a cena de Cora desenhando a sombra do seu amado foi pintada, no séc. XVIII e no séc. XIX, por Jean Raoux (1717), David Allan (1775), Joseph Wright (1784), Jean Baptiste Regnault (1785), Joseph Benoit Suvee (1793), Felice Giani (data desconhecida, início do séc. XIX), Heinrich Eddelien (1830), Karl F. Schinkel (1830), Eduard Daege (1832), Mariano Fortuny (1858) e Ignotas Mauricijus Ščedrauskas (1865).


La fanciulla di Corinto, de Felice Giani, início do séc. XIX e duas versões de Cora, A filha de Butades de Sicião, de Mariano Fortuny (1856-1858)
O motivo extravasa também da pintura. Particularmente interessante é esta fotografia e o seu título: “O primeiro negativo”.
Oscar Gustav Rejlander, The First Negative, 1857
Aparece nalgumas edições de obras de Johann Kasper Lavater uma máquina de desenhar silhuetas por ele concebida. Esta é uma das gravuras que a representam, desenhada por J. R. Schellenberg para uma edição inglesa de 1781, mas há outras imagens desta máquina. Não sei se alguma vez chegou a ser produzida e também não sei se o inventor se inspirou ou não na história de Plínio.

Agora, que se chame a estes quadros a “invenção” ou a “origem” da “pintura” ou do “desenho” mostra que, como seria talvez de esperar, a ideia se espalhou oralmente e não através da leitura de Plínio, já que a história original descreve não a invenção da pintura ou do desenho por Cora, mas sim da invenção da “arte de modelar retratos de barro” pelo seu pai (embora Butades tenha feito essa invenção “por intermédio dela”). O capítulo chama-se, aliás, “Os inventores da arte de modelar” e a história acaba assim[3]:
Aplicando-lhe barro a este contorno, fez um modelo em relevo, que cozeu depois com os seus outros trabalhos de cerâmica. Diz-se que este modelo foi conservado vários séculos no Santuário das Ninfas, em Corinto, até Lúcio Múmio destruir a cidade.



[Este pequeno artigo não tem muito de original, já que apenas reorganizei, acrescentando apenas um ou outro ponto, a informação e as pinturas já recolhidas noutros blogues, nomeadamente aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Há também várias obras mais modernas em que o motivo subsiste, mas começa a aplicar-se a novas personagens e a novos jogos de referência com intenções diversas. Encontram algumas delas nas cinco hiperligações no primeiro período deste parágrafo. Fico também sempre com muitas dúvidas sobre como se vê uma página com tantas imagens em ecrãs mais pequenos ou maiores que aquele em que foi concebida. Se a formatação vos surgir disparatada, peço desculpa, é obviamente uma das limitações deste formato de blogue. No meu ecrã, está tudo certo...]

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[1] O quadro encontra-se no Museu Nacional de Arte da Roménia. Segundo o site do Museu, o quadro é da autoria de Matías de Arteaga, se bem que encontre o nome Esteban Murillo na moldura. Noutros sites, bem menos fiáveis, é certo, o quadro é atribuído a Murillo, que foi professor de Arteaga. Segundo Jesusa Vega González, em Ciencia, arte e ilusión en la España ilustrada, o quadro era antigamente atribuído a Murillo, mas é atualmente atribuído a Arteaga.

[2] Traduzo eu, a partir desta e desta traduções inglesas.

[3] Traduzo eu desta tradução inglesa

Não saber

Dizia alguém no outro dia (já não me lembro quem, peço desculpa) que é raro assumir-se a ignorância no espaço público, que ninguém quer dizer que não sabe, mesmo quando é óbvio que é esse o caso. Não sei se é bem assim. Também não faço ideia se a assunção da ignorância é mais rara no espaço público que em privado. É curioso: dou-me conta de que a frase “não sei se é bem assim” não é normalmente uma simples declaração de ignorância, que era o que eu aqui queria fazer, mas antes um desacordo cortês ou moderado, correspondendo a algo como “creio que não é bem assim”…

Sublinha-se muitas vezes, e com toda a justeza, que a assunção da ignorância, nem que só perante si próprio, é uma posição cognitivamente válida, e umas das mais válidas até, porque é o ponto de partida para o inquérito e, portanto, para a expansão do conhecimento: se não assumir que não sei, não vou estar disposto a aprender. Mas não só: a assunção da ignorância pode valorizar-se também como posição puramente negativa de racionalidade, arrumação da vida e modéstia, que não leva forçosamente à procura de conhecimento: “Isto não sei e não vou saber, porque não é o que mais me interessa e não tenho tempo para procurar saber tudo – deixo isto a quem saiba ou queira saber desta questão.”

Uma questão relacionada com esta é a dos resultados negativos, seja na investigação científica seja em qualquer outro tipo de pesquisa: “Pensei que podia ser isto, mas não é; depois, pensei que podia ser antes isto, mas também não é… Não sei o que poderá ser.” Muitas vezes, estes resultados não se aceitam, pura e simplesmente, e são outras vezes olhados de soslaio: “Então?” Mas eu acho que se devem aceitar os resultados nulos de qualquer investigação como tendo exatamente o mesmo valor de qualquer conclusão positiva, até porque os resultados nulos não são nulos em sentido estrito – saber que não é o que se pensou que pudesse ser já é saber muito. [Ah, apesar dos preconceitos contra os resultados negativos, existem algumas revistas especializadas na publicação de resultados negativos, como o Journal of Negative Results e outros.]

5 de fevereiro de 2015

Do correto e do incorreto, politicamente ou não

Parece que dizer mal do “politicamente correto”, da pretensa tirania do “politicamente correto”, se tornou politicamente correto em certos círculos, mas eu acho isso incorreto (também politicamente), como acho incorreto definir-se o politicamente correto como se se tratasse de um determinado conjunto de ideias ou posições. Esta frase diz, a bem dizer, tudo o que quero dizer, mas, para não ser mal interpretado, explico-me melhor:

O que é politicamente correto varia conforme a perspetiva política de cada pessoa. Correto é um termo de aprovação*. Para um conservador, é correto (em qualquer sentido do termo) afirmar que o feminismo veio dar cabo da ordem social, que é natural as mulheres terem menos cargos de chefia, etc., ou que a desigualdade é um fenómeno natural entre humanos, pelo que o igualitarismo é uma utopia com maus resultados, e por aí fora. Para um feminista ou uma igualitarista, como eu, é o contrário disto que é correto. Não se vê, portanto, por que razão há de um conservador chamar politicamente correto ao que acha incorreto, para vir, em seguida, dizer que o “politicamente correto” causa muitos problemas, em vez de dizer, muito simplesmente, que acha incorreto o que afirmam certas pessoas (e explicar porquê, de preferência, mas não obrigatoriamente…).

Insisto: correto é, quando aplicado a ideias morais, exatamente como bom: um termo de aprovação, sem veleidades referenciais. Imaginemos que eu acho que aquilo de que o meu amigo Zé gosta é feio. Em vez de dizer que acho feio, devo antes pôr-me a dizer que o bom gosto dele é problemático? A ideia, muitas vezes implícita, às vezes explícita, na crítica ao politicamente correto é que o pretenso “politicamente correto”, por ser dominante, implica autocensura ou ostracismo de quem pense de outra forma. Mas continua a ser uma ideia estapafúrdia: a autocensura e o ostracismo existe sempre que há uma posição dominante, independentemente de ela fazer ou não parte do que os críticos do “politicamente correto” definam como “politicamente correto”. Quando racismos e xenofobias várias (acho que não poder dizer mal ou troçar das pessoas de outras etnias e crenças é um dos pretensos erros que imputam ao tal “politicamente correto”, gostava de perceber porquê…) eram a maneira de pensar dominante, por exemplo, muitas pessoas autocensuravam declarações igualitárias ou eram ostracizadas por as terem feito. E se uma pessoa é criticada por afirmações racistas ou xenófobas, não é porque exista a tirania de nenhum politicamente correto, é porque as pessoas que a criticam acham, com toda a justeza, que são criticáveis afirmações desse tipo. Voilà!

A moral da história é simples: politicamente correto é, para cada pessoa, o que ela achar politicamente correto. Quando essa pessoa quiser discordar das ideias políticas dos outros, faça isso mesmo, discorde, por favor, diga que acha essas ideias políticas incorretas, sem o disparatado artifício retórico de dizer que há algum problema num pretenso conjunto fixo de ideias a que se possa chamar politicamente correto.

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* Correto é sempre um termo de aprovação, mas não tem sempre o mesmo valor modal: há contextos em que correto significa “verdadeiro”:
“Grande parte de Lisboa foi destruída por um terramoto em 1755”
“Sim, isso é correto”
ou
“Sete vezes seis são quarenta e nove”
“Não, isso não é correto”.
No contexto da discussão que aqui tenho, a expressão não tem este valor. Isto não significa que a expressão signifique uma coisa para cada pessoa: é porque ela significa o mesmo para toda a gente que podemos discordar daquilo a que ela se aplica. Isto também não significa de modo algum que eu defenda algum tipo de relativismo radical segundo o qual o recurso a universais ou observáveis de algum tipo não cabe na discussão moral (a política é uma parte da moral); mas não posso arredar da discussão política quem se recuse a aceitar evidência, além de que, sobre muitas questões morais, não há evidência conclusiva ou as partes em conflito invocam evidências mutuamente contraditórias, cada qual a seu favor.

Defesa de um bocadinho de realismo, mais uma vez: um argumento económico

Interrogar-se-ão os meus amigos e talvez também outros leitores: “Mas porque insiste este homem nesta conversa?” Bom, não será bem espírito de missão, mas é certo que esta é uma das minhas guerras, digamos assim, e, para não ser tão pesada a insistência, achei por bem mudar de tom – uma vez sem exemplo, vá. A razão mais imediata do texto, porém, foi uma aparição. Um ser bastante fantástico, talvez anjo, talvez demónio, apareceu-me em sonhos, revelou-me a verdade e instruiu me. “Os argumentos económicos têm muita força”, disse-me ele para concluir a sua revelação, “porque o que manda na vida da malta é o carcanhol…”

Às minhas leitoras e aos meus leitores que acreditem que verdade é apenas outra maneira de dizer crença e que acreditem que não há nada objetivo, mas apenas olhares sobre o mundo, cada qual tão válido como qualquer outro, quero comunicar que me devem 120 euros, que agradeço que me paguem com a maior brevidade possível, muito obrigado, porque (cito não uma pessoa específica, mas muitas pessoas ao mesmo tempo) “a vida custa a todos e isto ‘tá mau”.

Podem argumentar que não têm conhecimento da dívida e que não posso provar que me devem esse dinheiro. Mas isso é a vossa visão, eu tenho outra diferente, que também é verdade, não se esqueçam. Ou seja, é verdade que me devem dinheiro. Além disso, sabem com certeza que é impossível provar a inexistência seja lá do que for, de maneira que é inútil tentarem provar que a vossa dívida não existe – o que seria, aliás, contra os vossos princípios de que não há provas definitivas de coisa nenhuma e que a verdade é só uma crença. Evidentemente, podem não pagar e eu não tenho maneira de vos obrigar a fazê-lo, porque a lei retrógrada que temos se baseia no disparatado princípio positivista de que é preciso provar que alguém nos deve dinheiro para se lhe exigir pagamento; mas não se livram de vos considerar uns grandes caloteiros, porque essa é que é a (minha) verdade.

As outras minhas leitoras e os outros meus leitores que acreditam que o bom senso nos obriga a aceitar por verdade apenas aquilo que se pode demonstrar de modo a ser percebido por todos, esses não me devem nada.

30 de janeiro de 2015

Paisagem desabitada e paisagem com gente a mais

Apesar das (boas) intenções de muita gente de promover, em várias partes do mundo, um desenvolvimento assente na agricultura e na pecuária, a verdade é que desenvolvimento, pelo menos no sentido mais comum da palavra, implicou sempre e continua a implicar migrações de uma grande parte da população do campo para a cidade. Em todo o mundo houve e continua a haver quem, mitificando ou não as vantagens de um estilo de vida urbano, se disponha a abandonar o campo e a vida do campo, sem saber ao certo o que a espera na cidade. Um dos resultados de uma fase inicial desse movimento é sempre a criação de enormes bairros da lata nos subúrbios das cidades, que, em vários aspetos, contrastam tanto com os centros urbanos como com as zonas rurais. Se a escolha dos migrantes tem ou não alguma base de racionalidade é algo que se discute: enquanto muitos chamam a atenção para os perigos dos subúrbios pobres, insalubres e desorganizados das grandes metrópoles e apelam à necessidade de travar o êxito rural, outros afirmam que, contra a impressão maioritária, mesmo nos caóticos bairros da lata das cidades do terceiro mundo, as pessoas têm melhores condições de vida que nas zonas rurais e que trocar a aldeia pelo bairro da lata é, pois, uma decisão mais razoável do que muitas vezes se pensa.

A tendência para o êxodo rural não parece inverter-se em lado nenhum do mundo. Nos países europeus do século XXI, porém, tem características diferentes do de outros tempos e lugares, porque, em princípio, os habitantes das zonas rurais dos países ricos têm um nível de vida que lhes permite (ou devia permitir) viver no campo com condições de vida semelhantes às da cidade. Mas não ficam nas zonas rurais. Algumas delas estão a ser rapidamente abandonadas.


Parte sul de Ærø, foto de Aconcagua, 2011, de Wikimedia Commons
A motivação imediata deste texto foi a ilha de Ærø, aqui perto de onde moro, na Dinamarca, mas fiz depois uma viagem mental a algum Portugal do interior que conheço de povoações semiabandonadas e população envelhecida. Em Ærø, a tendência há muito constante de abandonar a ilha está a agravar-se: soube que, do decréscimo anual de cerca de 75 habitantes que se verificava há vários anos, passou a haver este ano menos 150 pessoas com domicílio na ilha. “Éramos 12 mil quando a minha família para lá se mudou, era eu rapariga. Agora, somos só 6 mil”, disse-me uma senhora que conheci no comboio de Odense para Svendborg.

É igual em todo o lado, apenas mais visível em ilhas pequenas como Ærø, o ciclo vicioso dos efeitos do êxodo rural nos serviços existentes, cuja deterioração leva a mais êxodo rural: as escolas fecham, porque o preço por aluno é inaceitável – e isso obriga as famílias com crianças a abandonar a ilha; os serviços vão desaparecendo um a um – e, com eles, os poucos postos de trabalho locais; a assistência médica passa a estar disponível apenas nos centros urbano mais próximos – o que motiva os mais velhos a mudarem-se para lá…

Não analisei o assunto em pormenor. É só um esboço de reflexão que proponho – partilha de apontamentos mentais, se quiserem, de questões para que não tenho resposta satisfatória. Por exemplo: A tendência tem sido interrogar-se sobre como fazer chegar aos cada vez menos habitantes das zonas rurais os serviços disponíveis nas zonas urbanas, mas é ou não possível e desejável tomar medidas para travar e – sobretudo – inverter a tendência de êxodo rural nos países ricos? Muitos jovens deixam voluntariamente o campo, mas há também muita gente que só o faz por falta de condições para aí continuar a viver – deve obrigar-se essas pessoas a mudarem-se contra a sua vontade? Satisfaz-nos uma distribuição da população em que a grande maioria dos habitantes se concentre nas capitais e o resto do país fique deserto de gente ou queremos ver vida humana em todas as regiões? E porquê? Traz ou não problemas a concentração maciça de pessoas?

Quem acha que a economia não se deve regular e que deve ser a economia desregulada a determinar os movimentos de populações achará que tudo isto é, quando muito, uma evolução triste – mas inevitável. Quem pensa que compete à política ajudar a modelar o futuro de um país, empurrando na direção que a maioria das pessoas acha correta, e tendo em conta mais que apenas o custo imediato das diversas opções, pode tentar tomar medidas para contrariar a tendência de êxodo rural. Que haja muito mais gente a viver da terra, mesmo que se incentive e se desenvolva a produção biológica, é impensável hoje em dia. Para alterar esta tendência,  é preciso, no fundo,  ponderar, calcular e propor uma forma de manter fora dos grandes centros urbanos uma vida com as características associadas durante muito tempo à vida urbana, mas sem a concentração de prédios e pessoas. As regalias fiscais, quer para as empresas que criem postos de trabalho no campo, quer para as pessoas que aí comprem propriedade e aí se instalem, parecem uma das medidas mais óbvias. Mas é uma questão complexa, parece-me a mim, e, a menos que se gaste muito dinheiro – que literalmente de alguma forma se pague às pessoas para ficar ou investir onde os outros não ficam nem investem –, ninguém vai querer viver nem investir onde os impostos são baixos e o imobiliário barato, se não houver escolas, clínicas médicas e outros serviços básicos. E estes têm de existir à partida para atrair as pessoas; não acredito que possam ser criados numa segunda fase em que, depois de as pessoas terem sido atraídas sem eles, se justifique a sua criação.

Como disse, são sobretudo dúvidas que tenho. Também pode ser que se esteja a empolar o problema de ficar com países inteiros de paisagem humanizada por séculos de vida rural e agora desabitada de humanos, e com a população toda – ou quase – reunida nas grandes metrópoles. Mas, insisto na pergunta inicial, é isso que queremos? Ou é isso que devemos aceitar?, se preferirem. No caso de Portugal, por exemplo, o que pensamos da ideia de tornar literal o velho rifão localista que diz que Portugal é Lisboa – ou o Porto – e o resto é paisagem?

22 de janeiro de 2015

O inglês em Portugal e o inglês dos portugueses

I
Em meados de Novembro último, foi publicada em jornais de vários países, uma notícia sobre a competência em inglês em 63 países em todo o mundo, 23 dos quais europeus, mas nem todos da União Europeia. Vi alguns portugueses reagiram à notícia de que Portugal era dos países onde pior se falava inglês na Europa (só a Eslováquia, a Itália, a França, a Rússia e a Ucrânia têm piores resultados) com alguma surpresa e até indignação – como é possível que digam que os espanhóis falam melhor inglês que nós? E houve quem apontasse que o estudo referido na notícia não era fiável, porque os números resultavam sobretudo de um teste voluntário em linha, feito por uma escola de línguas.

Tem a razão a crítica. Mas os resultados que apresenta não me parecem, no geral, surpreendentes por aí além. Não consegui, na pesquisa rápida que fiz, encontrar informação fiável sobre a competência em inglês como língua estrangeira na Europa e sobre qual o nível dos portugueses nessa língua. Mas encontrei alguns números que me parecem interessantes sobre o conhecimento de línguas estrangeiras em estudos da UE. Falar mais e falar melhor são, naturalmente, coisas diferentes e a informação que se segue diz, às vezes, respeito só a quantidade, às vezes a qualidade, e outras vezes às duas coisas.

Segundo o estudo da UE How many adults actually speak a foreign language?, com dados de 2007 e publicado em outubro de 2010 (UE 2010)[1], 26% dos portugueses dizem falar bem pelo menos uma língua estrangeira e outros 22% dizem ter conhecimentos básicos/razoáveis de pelo menos uma língua estrangeira[2]. Portugal está abaixo da média europeia e também da média dos outro países latinos. Portugal e a Hungria são os países onde menos adultos falam línguas estrangeiras. Estes números são confirmados em 2012, no relatório Europeans and their Languages (UE 2012)[3]. Segundo este estudo, Portugal, com 61% de pessoas que não falam nenhuma língua estrangeira, está efetivamente na cauda da UE em termos de cohecimentos de línguas estrangeiras. Só a Itália e a Hungria têm maior percentagem de pessoas que só falam a sua língua. Os portugueses, juntamente com os húngaros, são também os que menos falam duas línguas estrangeiras (só 13%). Em Portugal, as línguas estrangeiras mais faladas são o inglês (27%) e o francês (15%); em Espanha, são também o inglês (22%) e o francês (16%); em França, o inglês (39%) e o espanhol (13%); e, em Itália, inglês (34%) e francês (16%). Os franceses, apesar dos preconceitos existentes contra o seu interesse e capacidade em inglês, têm de facto uma média acima da europeia. Portugal ocupa, juntamente com a Eslováquia, o quarto lugar a contar do fundo da tabela da percentagem de pessoas que dizem falar suficientemente bem o inglês para manter uma conversa nessa língua. Além disso, e isto é também muito interessante, em Portugal, 68% das pessoas que falam línguas estrangeiras usam só ocasionalmente a sua primeira língua estrangeira. Com apenas 7% de pessoas que a usam todos os dias ou quase, Portugal tem a mais baixa percentagem de uso diário regular de língua estrangeira – é um país onde a vida decorre a bem dizer sempre em português. Portugal tem também a maior percentagem de inquiridos que nunca estudaram uma língua estrangeira (48%), seguido da Espanha (41%), e de Itália e do Reino Unido (32% cada um). Parece-me também interessante que Portugal tem de longe a maior percentagem de pessoas (32%) que, quando lhes perguntam que duas línguas estrangeiras considera mais importantes para seu desenvolvimento pessoal, respondem “nenhuma”.

Tendo em conta a história da educação em Portugal, com níveis altíssimos de analfabetismo até há meio século, pode pensar-se que estes resultados refletem resíduos dessas lacunas anteriores. Parece-me provável, até porque, mesmo nos países com maiores níveis de escolarização há mais tempo, se notam acentuadas diferenças geracionais: segundo UE 2010, a média europeia de 63% de conhecimento de pelo menos uma língua estrangeira sobe para 74% se contarmos apenas a faixa etária dos 25 aos 34 anos e desce para 47% para as pessoas entre os 55 e os 64 anos. Esta tendência é confirmada em UE 2012: 74% da população dos 15 aos 24 falam pelo menos uma língua, baixando esta percentagem para 64% na faixa etária dos 25 aos 39, para 45% dos 40 aos 54 e para 38% para as pessoas com mais de 55. Além disso, segundo o Eurobarometer survey on languages in Europe, de novembro de 2009, a classe ocupacional que mais línguas estrangeiras fala é, como seria de esperar, a dos estudantes, de que 80% falam pelo menos outra língua além da sua. Segundo UE 2012, esta percentagem é de 86%[4].

E, se além do “estudo” referido no início do texto, não conheço documentação do nível geral dos portugueses em inglês, existe um estudo do desempenho dos alunos do secundário (14-16 anos) em 14 países da UE, o First European Survey on Language Competences[5]. Segundo este estudo[6], os alunos do ensino secundário que aprendem inglês em Portugal têm, de facto, um desempenho melhor que o dos alunos franceses e flamengos (a Bélgica foi dividida em 3 comunidades) e muito próximo dos espanhóis e polacos, mas muito inferior aos dos países com melhores resultados, a Suécia, Malta e os Países Baixos, bastante inferior aos dos três seguintes, a Estónia, a Eslovénia e a Croácia, e um pouco inferior aos da Grécia, das comunidades francófona e germanófona da Bélgica, e da Bulgária.

II
Há mais coisas, porém, que gostava de dizer sobre esta questão, mesmo correndo o risco de ter de ser, às vezes, um bocadinho técnico demais para o gosto de alguns leitores. Uso, porém, uma transcrição fonética simplificada baseada na escrita do português, esperando que o que se perde assim em rigor se possa ganhar em facilidade de leitura – para quem não conheça o alfabeto fonético, bem entendido.

A pronúncia não é o fator principal de um bom desempenho linguístico, e é muitas vezes sobrevalorizado. Para dar um exemplo extremo e famoso, Joseph Conrad, que é considerado por muitos um dos grandes nomes da literatura de língua inglesa, nunca se livrou de um forte sotaque polaco, porque só começou a aprender inglês aos vinte e tal anos. A questão é que há vários tipos de desempenho linguístico em que se pode ser bom, alguns dos quais, como o de Conrad na escrita, não implicam boa pronúncia – nem pronúncia nenhuma. Conheço o caso de uma excelente tradutora de literatura portuguesa que fala pouco português. Não sei qual o seu grau de entendimento do português falado, mas, pelos vistos, entende muito bem o português escrito.

Lembro-me que li, há já uns bons anos (perdoar-me-ão não vos apresentar referência, mas foi documento que ardeu – literalmente), um artigo em que se defendia que a boa pronúncia é mais valorizada pelos falantes nativos (e não só?) que outras competências dos falantes estrangeiros. Não há, porém, razão objetiva para dizer que uma pessoa com melhor pronúncia fala melhor que outra que tenha uma sintaxe mais correta ou um vocabulário mais rico – a não ser, claro, que tenha uma pronúncia tão deficiente que seja difícil entendê-la, mas é raríssimo isso acontecer em pessoas com boa sintaxe e um léxico amplo.

Muitas vezes, também, a ideia de má pronúncia é criada a partir de um traço muito conspícuo, sem que, efetivamente, se possa falar de pronúncia especialmente má: um caso óbvio é o da ideia de que Mário Soares fala um francês péssimo, apenas porque rola os rr. De resto, a pronúncia de Mário Soares tem os mesmo erros que a pronúncia da maior parte dos portugueses, mas a maior parte dos portugueses não sabe ver isso. A maior parte dos portugueses também não sabe que há pessoas de língua materna francesa, algumas delas francesas, que também rolam os rr – mas há.

Alias, os falantes de uma língua têm, naturalmente, grande dificuldade – se não impossibilidade, a maior parte deles – de perceber que erros dão ao falar uma língua estrangeira, porque são surdos para muitas distinções fonéticas das outras línguas. Muitos falantes do português têm uma crença estranha na qualidade da sua pronúncia das línguas estrangeiras. Ora a mim, a pronúncia portuguesa nas outras línguas chama-me especialmente a atenção. É uma reação algo pateta e exagerada, mas creio que vem de ser essa a pronúncia que tenho combatido toda a vida para falar melhor outras línguas – sem, em muitos casos, a ter conseguido afastar dos meus automatismos.

Evidentemente, as características da língua materna condicionam a pronúncia das línguas estrangeiras e o espanhol e o francês dão aos seus falantes algumas desvantagens na pronúncia do inglês (e de outras línguas, claro), sobretudo a impossibilidade de encontros consonânticos do espanhol e a acentuação fixa na última sílaba do francês. Não digo que a pronúncia portuguesa do inglês não soe algo mais elegante ou menos marcada aos ouvidos dos falantes nativos que a pronúncia espanhola ou francesa. É natural que sim, embora não tenha maneira de o comprovar. Agora, a confiança dos portugueses na sua natural aptidão para a pronúncia do inglês assenta sobretudo em ouvirem o inglês com ouvidos portugueses. Eis uma lista simples dos erros típicos que eu noto na grande maioria dos portugueses ao falarem inglês:

Excesso de [z], às vezes excesso de [s]: Se a grafia não influencia a pronúncia da língua materna, influencia sem dúvida nenhuma a pronúncia das línguas estrangeiras aprendidas na escola. Assim, os portugueses tendem a pronunciar como [z] o s entre vogais e em fim de palavra e os ss depois de consoante ou duplos. Ora, se se pode confiar na grafia portuguesa relativamente à distinção entre [z] e [s]. o mesmo não acontece em inglês: muitas vezes, os ss escritos entre vogais ou no fim de palavra leem-se [s], como em house, close (advérbio), case, etc. e a grande maioria dos plurais; e há ss depois de consoante ou duplos que se leem [z], como em observe, dissolve ou dessert. Os franceses fazem geralmente o mesmo erro que os portugueses, mas os espanhóis, que não têm o som [z], pronunciam normalmente todos os ss e zz como [s], um erro que fazem também os escandinavos, pois também não há [z] em nenhuma língua escandinava.

Não pronunciar o h: Um erro típico dos falantes europeus de línguas latinas, exceto os espanhóis, que pronunciam o h como o jota espanhol[7]. Muitas vezes, por excesso de correção, os portugueses pronunciam também o h onde não devem: como sabem que têm de pronunciar o h de hate, os mais zelosos são capaz de dizer hi hate – ou até hi ate[8].

Não distinguir o chamado i breve do chamado i longo: Mais um erro que partilhamos com os falantes das outras línguas latinas – e não só. De facto, estes “ii” não são longos nem breves, mas dois sons diferentes, sendo que o i breve é mais próximo dos nosso [ê]. Mas soa mal dizer hit como heat, bit como beat ou beet, live como leave e assim por diante, não soa?

Não distinguir a de e: Porque a maior parte dos portugueses não consegue ouvir a distinção entre aquele som que fica entre o [á] e o [é] na pronúncia educada britânica ou na maior parte dos outros países de língua inglesa (em bad, por exemplo) e o [é] propriamente dito (de bed), reduzem o primeiro a [é] e pronunciam bad como bed e assim sucessivamente. E isto soa mesmo estranho. Não há jet leg, só jet lag e as duas vogais da expressão são diferentes! De facto, em muitas variantes do inglês, a pronúncia destes (e muitos!) aa é como a do [á] português da palavra , por exemplo, de maneira que este erro não se justifica: basta pensar que bad é [bád] e bed é [béd], voilá!, e dizer [djét lág] e por aí fora.

Confundir o th surdo com s e o th sonoro com d: Pronunciar they como day, etc., é um erro que também se nota muito. É certo que há falantes de muitas outras línguas que também pronunciam o th surdo, de think ou both, por exemplo, como [s] e o th sonoro de this ou they como [d] ou [z]. Agora, por muito engraçado que achemos os franceses ou os alemães pronunciarem o th como [z] (zey speak like zis), pelo menos mantêm, assim, a coerência do sistema, ao passo que quem pronuncia o th como [s] e [d] já não mantém a oposição entre a versão surda e sonora do “mesmo som” e não o distingue de [d]. O problema, para os portugueses – e não só, insisto – é que, em português europeu, o som inicial de they é uma variante do som [d] em certos contextos, pelo que não é entendido como som diferente: se ouvirem com muita atenção, os dois sons ocorrem em dado, o d de day na posição inicial e o th de they entre as vogais[9].



Pronúncia de vogais nasais: Uma coisa muito portuguesa e francesa, porque não há muitas línguas que tenham vogais nasais: em vez de dizer [tent], os portuguese dizem [tẽt], em vez de dizer [paint] dizem [pãit], em vez de [stand] dizem [stãd] e assim sucessivamente. É muito difícil livrar-se disto, é muito difícil ouvir o erro e, pela minha experiência, é um dos primeiros traços a ser comentados, quando alguém comenta a nossa pronúncia (“uma pronúncia assim nasal, um bocado francesa”.

E chega de pronúncia. Para terminar: Distingue-se agora às vezes entre inglês verdadeiro e inglês língua franca, mas as fronteiras entre os dois conceitos são difíceis de definir, se não se usar apenas o critério de ser ou não língua materna. O nível de inglês de muitas pessoas que têm o inglês como língua segunda é muito próximo do inglês verdadeiro e pode ser em muitos aspetos mais rico que o dos falantes nativos. O certo é que, à medida que se vai internacionalizando como língua de comunicação, o inglês língua franca começa a ter peso suficiente para se impor como regra alternativa ao inglês verdadeiro: há às vezes propostas de nomenclatura em inglês ou criação de expressões que depois vingam, em diversas áreas técnicas, que vêm de falantes do inglês como língua estrangeira e há diversas propostas de ensino do inglês como língua estrangeira assentes no inglês língua franca e não no inglês verdadeiro. O facto de terem de lidar desde pequenos com a sua língua falada por estrangeiros faz com que os falantes do inglês sejam melhores que os falantes de outras línguas a compreender a sua língua falada com as pronúncias, expressões e sintaxes mais diversas e mais estranhas que imaginar se possa. E dá-lhes, pelos vistos, uma humildade que nós não temos, de aceitar que venha gente de fora imiscuir-se na nossa língua. Mas eu tenho, às vezes, pena deles…

[Repito, na parte II deste texto, algumas ideias de um texto de dezembro de 2008, “Do you speak English? Atão amanda a corda!”]

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[1] Os resultados assentam em autoavaliação e não em observação ou testagem e são calculados pelo CEDEFOP com base no Inquérito sobre a Educação de Adultos da Eurostat. Esta metodologia muito simplificada deve, em princípio, produzir resultados acima dos reais, pelo que o nível real (também o número?), em Portugal e nos outros países, pode ser inferior ao declarado.
[2] Agora, quando se fala de falar línguas estrangeiras, de que línguas se está a falar? Segundo o Eurobarometer survey on languages in Europe (2009), o inglês é falado como língua estrangeira por um terço da população da UE, seguindo-se-lhe o alemão (12%), o francês (11%) e o russo e o espanhol ex æquo no quarto lugar. Em UE 2012, a situação descrita é diferente: inglês (38%), francês (12%), alemão (11%), espanhol (7%) e russo (5%). Evidentemente, há também diferenças geracionais. Como se sabe, o conhecimento do francês como primeira língua estrangeira é típico de gerações mais velhas (e não só em Portugal, onde é a língua em maior declínio, com -9% que num estudo da UE de 2005 (UE 2012)), tendo sido substituído pelo inglês nas gerações mais novas. O lugar de destaque do russo é um resíduo da União Soviética e do bloco socialista, sendo falado sobretudo por pessoas mais velhas nos países do Leste europeu. Sem querer fazer futurologia, parece-me provável que o espanhol, depois de ultrapassar o russo, venha a ultrapassar, dentro de relativamente pouco tempo, também o francês e o alemão. É isso que, tendo em conta a importância das línguas europeias à escala mundial faz mais sentido.
[3] Elaborado pela TNS Opinion & Social para as direções-gerais de Educação e Cultura, Tradução, e Interpretariado da EU, e para a Direção-Geral de Comunicação da União Europeia. É, mais uma vez, um inquérito, não um estudo objetivo, mas, principalmente nos aspetos negativos (não falar, não ter estudado, não considerar importante, falar só uma língua), não me parece provável que haja grandes exageros dos inquiridos.
[4] Há (como seria talvez previsível?) uma relação inversa da idade (a partir dos 15 anos) e uma relação direta dos anos de escolaridade com os conhecimentos de/em línguas estrangeiras: quanto mais novo se é e mais anos de estudo se tem, melhor se falam línguas estrangeiras e mais línguas estrangeiras se falam (ver quadro p. 18). Os estudantes são a classe ocupacional que mais línguas estrangeiras fala.
[5] Trata-se aqui de um estudo de competência feito com testes e não de autoavaliação em resposta a um inquérito.
[6] Ver na, página 94, um resumo dos resultados agregados das três competências testadas, leitura, escrita e compreensão oral. A produção oral não foi testada.
[7] É certo que se encontra o fenómeno de hipercorreção ao lado dos hh por pronunciar, que atestam, na literatura, o soldado Ortheris de KiplingNow I’m sick to go ‘ome - go ‘ome go ‘ome! … I’m sick for London again; sick for the sounds of ‘er, an’ the sights of ‘er, and the stinks of ‘er; orange-peel and hasphalte an’ gas comin’ in over Vaux’all Bridge. Sick for the rail goin’ down to Box’Ill, … an’ the Copper that takes you up is a old friend that tuk you up before,when you was a little, smitchy boy lying loose ‘ tween the Temple an’ the Dark Harches..»), por exemplo, ou a Eliza Doolitlle de G. B. Shaw («In 'artford, 'ereford and 'ampshire 'urricanes 'ardly hever 'appen.»), mas o que acontece com mais frequência nos falares menos educados de quase toda a Inglaterra (e só aí) é não se pronunciar o h e não pronunciar hh a mais.
[8] Os falantes do português do Brasil pronunciam o h como r gutural. Se bem que não seja a mesma coisa, é um som próximo e vale mais essa pronúncia ligeiramente ao lado que a sua ausência, acho eu. Quanto aos falantes das variantes de português africano, não sei. Creio que a maior parte dos moçambicanos, devido ao contacto com as línguas bantas, não têm problemas com a pronúncia do h, até porque há palavras de uso corrente em português de Moçambique, como mahala, em que se pronuncia o h.
[9] Também é certo que th é reduzido a [t] e [d] em vários dialetos do inglês, ou a [f] e [v], mas em nenhuma variante se transforma em [s] e [d], só quando é falado por estrangeiros.