13 de julho de 2017

A tentativa de convencer e a colonização do outro

Um dia destes, houve alguém que se retirou de uma discussão que estava a ter comigo (devo ter sido assertivo demais, se é que não fui mesmo bruto) com uma citação que dizia ser de Saramago:
«Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.» 
Não consegui confirmar se a frase é mesmo de Saramago, mas pode bem ser. Pelo menos, é citada por muita gente como sendo dele. Mas também não importa: não são as ideias de Saramago que quero discutir, até porque as não conheço, mas a ideia expressa nesta frase, seja ela de quem for.

No geral, discordo completamente da ideia de que não se deve tentar convencer ninguém. Não querer convencer o outro implica sempre não dizer o que se pensa — ou dizer o que se pensa, mas recusar-se à sua discussão com os outros, que é apenas outra forma de não dizer o que se pensa.

[Note-se que escrevi «recusar-se à sua discussão com os outros». O discutir consigo próprio é um processo que não pode ser visado na crítica de «falta de respeito» ou «colonização do outro», pelo que o ignoro nesta discussão.]
É que não há, como é óbvio, maneira de discutir tentando não convencer a pessoa com quem se discute, porque o que se faz ao defender uma posição é sempre justificá-la, isto é, tentar convencer o outro da validade dos pressupostos ou observáveis em que essa posição se baseia. É o que estou a fazer agora aqui: tentar convencer quem me leia de que tenho razão. Ora, não fazer nenhum esforço para tentar convencer o outro da validade da nossa opinião acaba por ser sempre sinónimo de não dizer o que pensamos, porque o omitimos na justificação da nossa opinião. Não tentar convencer o outro é, assim, uma recusa de exprimir aquilo em que se acredita.

Não tentar convencer o outro é também uma atitude de egoísmo e/ou desprezo: é ignorar o outro, excluí-lo do que cremos ser a verdade — e, portanto, do que cremos ser o bem. Se se pensa estar na posse de uma verdade, seja ela qual for, que boa razão pode haver para a guardar para si e deixar os outros no que se acredita ser a mentira ou a ignorância?

*** 
É claro, toda a verdade é falível e é preciso ter consciência disso. Aliás, por mais profundamente convencidos que estejamos do valor de verdade das nossas opiniões, não podemos derivar desse valor de verdade em que cremos o direito de impor seja o que for a quem não queira partilhar a nossa convicção. Por outras palavras, o eventual valor de verdade de um postulado não lhe dá superioridade moral. A descrição de como é o universo, incluindo a psique humana e as relações sociais, não serve de justificação a uma proposta de como devem ser as relações entre pessoas. Uma crença não pode nunca justificar imposições de práticas ou ordens sociais.

Creio que é este o problema essencial do aforismo em discussão: uma lamentável confusão entre imposição e tentativa de convencimento. Da imposição pode dizer-se que é uma falta de respeito. A colonização, no sentido literal, é uma imposição, não uma tentativa de convencimento. Por isso mesmo, justifica-se o seu uso metafórico relativamente à imposição, mas não parece correto neste aforismo.

Em vez de falta de respeito, tentar convencer o outro é antes uma prova — a única possível? – de respeito. Sendo a única possibilidade em qualquer discussão racional, é o dever de quem considera que os outros estão ao mesmo nível na discussão. Implica, ou deveria implicar, que as opiniões se baseiam em algo suficientemente objetivo para ser exterior a cada um e estar ao alcance de todos.

[É de notar que as tentativas de convencimento não se fazem no vazio: têm agarradas a elas condições económicas, sociais, relações de poder várias, etc. Aceitamos com menos reservas as propostas de pessoas a quem atribuímos algum tipo de estatuto superior – ou a quem a sociedade atribua um estatuto superior. Se tivermos em conta também formas de imposição mais subtis que a imposição pela lei e pela força, podemos considerar que uma grande aprovação social, a sedução, ou a força da autoridade intelectual ou espiritual resultam em formas indiretas de imposição, mais que de verdadeiro convencimento. Isto é algo a ter em conta na análise da transmissão de convicções, mas, note-se, não afeta em nada o argumento de que se pode e deve tentar convencer.]
Além disso, não querer convencer implica – a não ser que se aceitem assimetrias nas relações – não querer ser convencido!... Ou seja, não querer convencer redunda, bem vistas as coisas, no louvor do dogma. O conhecimento não evolui, nunca evoluiu, sem que haja alguém a convencer e a alguém a ser convencido...

Por mim, gostava de convencer toda a gente da necessidade de discutirmos tudo, de não ignorarmos ninguém, de tentarmos sempre convencer os outros da nossa verdade até haver quem nos convença de que essa verdade afinal não o é. O que dirá Saramago sobre reconhecer que o outro tem razão?

11 de julho de 2017

Sobre a negativa da injunção em língua de cão, ão-ão

Lembro-me de ter aprendido há muito tempo que há línguas em que se podem usar formas diferentes do imperativo do mesmo verbo, conforme se queira, por exemplo, dizer a alguém que está a comer uma coisa para parar de a comer ou dizer a uma pessoa que não deve comer uma coisa que ainda não começou a comer.

Em português, se é certo que «não comas isso» pode cobrir ambos os casos, também há maneiras de distinguir entre a injunção para parar de comer e a injunção para não começar a comer. A entoação é uma delas: o «não comas isso» desgostado de quem diz a outra pessoa para parar de comer uma coisa que descobriu estar bem fora de prazo, por exemplo, é muito diferente do «não comas isso» de alarme de quem pensa que a outra pessoa vai provar um fruto venenoso. Além disso, o imperativo da perífrase estar a comer ou estar comendo só se pode usar para mandar parar de comer – não se pode dizer «não estejas a comer isso» a quem ainda não meteu nada à boca.

*** 
Mosaico romano, séc. II, Museu Arqueológico de Sousse, Túnisia. 
Wikimedia Commons, daqui.
Cada vez tenho mais a convicção de que a ideia da linguagem como capacidade exclusivamente humana não faz grande sentido. De que a linguagem humana é mais complexa que a linguagem de um cão, não tenho dúvidas, mas é apenas isso que ela é, mais complexa. Um cão, como muitos outros animais, tem também a capacidade de estabelecer relações de certos sinais com o mundo físico e os estados mentais dos seres vivos que o habitam – pelo menos...

Além disso, tenho também a certeza de que, ao contrário do que ouvi muitas vezes afirmar, os animais têm um sentido do porvir.
Uma amiga minha dizia-me há pouco tempo, depois de ter passado um bocado a fazer truques simples de prestidigitação à minha cadela, que era óbvio que os cães têm expetativas sobre o que se vai passar, donde decorre forçosamente um sentido de futuro, mesmo que, mais uma vez, provavelmente menos complexo que o nosso. É claro que tinha toda a razão.

*** 
Agora, voltando aos imperativos negativos, tenho a ideia de que a minha cadela percebe facilmente a ordem para deixar de fazer alguma coisa („Nej!”), mas que não percebe a ordem para não iniciar o que não quero que ela inicie… A não ser, talvez, naquele momento em que já decidiu o que vai fazer, mas não teve ainda tempo de iniciar a ação...


9 de julho de 2017

In hoc signo vinces: uma bandeira caída do céu [Crónicas de Svendborg #25]

A bandeira da Dinamarca chama-se Dannebrog[1]. Diz a lenda que a Dannebrog caiu do céu a 15 de junho de 1219 e por isso o dia 15 de junho é o dia da bandeira. Nesse dia, veem-se ainda mais bandeiras que nos outros dias, mas a verdade é que há sempre muitas dannebrog por todo o lado em todos os dias do ano. É que os dinamarqueses usam a bandeira de uma forma às vezes diferente de como os povos de outras nações usam a sua…

Durante muito tempo, a bandeira dinamarquesa teve apenas o uso oficial mais comum das bandeiras nacionais e chegou até a ser proibido o seu uso privado. Atualmente, porém, a Dannebrog é usada para assinalar qualquer género de festividades, desde todos os tipos de aniversários até celebrações religiosas e académicas, etc., e é também comummente usado para receber visitantes ou pessoas que voltam de uma viagem, ou até para anunciar saldos ou ofertas especiais em lojas ou venda privada informal de bens de segunda mão ou ... ovos.
E também faz muitas vezes parte da decoração da árvore de Natal...

A maioria dos dinamarqueses não tem consciência de usar a bandeira de maneiras muito originais. Sei que também se usam bandeiras em aniversários noutros países escandinavos e é provável que mais alguns dos usos pouco canónicos da bandeira que referi atrás se alarguem à Noruega e à Suécia, talvez às ilhas Faroés e à Islândia, não vos sei dizer, mas não se devem alargar a muitos mais países...

***
Como já referi, a Dannebrog caiu do céu. É uma história alguma originalidade, mas, por outro lado, inscreve-se num modelo de lendas cristãs que se podem designar com uma famosa frase latina: in hoc signo vinces, «com este sinal, vencerás». Dá-se muitas vezes como origem deste motivo recorrente na cultura europeia uma lenda registada no século IV[2]: quando o seu exército se preparava para uma batalha, o imperador romano Constantino viu no céu uma cruz de luz com o célebre lema escrito em grego por baixo[3]. Constantino não entendeu o sinal que tinha visto até Jesus lhe explicar, num sonho, que era aquele o sinal que deveria usar contra seus inimigos.

Existem umas quantas variações deste meme cristão e a Dannebrog que cai do céu na Estónia é uma delas. Dignas de nota são também, entre outras, algumas lendas ibéricas do mesmo tipo, como a da famosa visão do primeiro rei português antes da batalha de Ourique em 1139 e a da reconquista de Alcácer do Sal por D. Afonso II em 1217, onde, diz-se, apareceu no céu uma cruz, assinalando a intervenção divina que deu a vitória aos cristãos[4]. Num artigo de 1951[5], J. O. Kock encontra uma referência à lenda da conquista de Alcácer nos escritos de dois outros historiadores dinamarqueses e dá conta de que essa e outras histórias ibéricas semelhantes eram conhecidas no norte da Europa; mas considera, naturalmente, que é impossível estabelecer se há ou não algum tipo de influência direta das lendas ibéricas na história da Dannebrog[6].

A Dannebrog caiu dos céus em Lindanise durante as campanhas militares de Valdemar II na Estónia. Berengária de Portugal, filha de D. Sancho I, era na altura rainha da Dinamarca e creio que é esta relação existente na época entre Portugal e a Dinamarca que suscita a hipótese da influência portuguesa na lenda dinamarquesa. A verdade, porém, é que não se sabe muito das relações entre os dois reinos na altura, nem sequer que relação Berengária mantinha com Portugal, de onde tinha saído dois anos antes de se casar com Valdemar II, nem que informação tinha do que por lá se dizia acontecer. A influência das lendas ibéricas na lenda da Dannebrog não é impossível, mas também não parece haver nenhuma razão para a considerar provável.
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[1] Note-se que o elemento dan(ne) não tem nada a ver com os Danos que dão o nome à Dinamarca, é uma palavra que não se encontra em dinamarquês moderno e que quer dizer «vermelho»; brog é «pano» e outra palavra inexistente no dinamarquês atual.
[2] O fantástico acontecimento é referido por dois autores do séc. IV, Lactâncio e Eusébio de Cesareia, em, respectivamente, Lucii Caecilii liber ad Donatum Confessorem de Mortibus Persecutorum e Vita Constantini.
[3] Curiosamente, não encontro referência a esta lenda nas várias páginas portuguesas sobre Alcácer do Sal que consultei para escrever este texto. Mas não é só no texto de Kock que refiro mais adiante que há referências a esta lenda. Na página da Wikipédia em inglês sobre Alcácer do Sal, por exemplo, cita-se uma obra de Joseph F. O'Callaghan que alude à lenda da intervenção de (traduzo eu) «um grupo de cavaleiros celestes todos vestidos de branco»  e de visões do «sinal da santa cruz no céu, como sinal da [sua] vitória».
[4] Infelizmente, só em dinamarquês: Kock J. O., “Sagnet Om Dannebrog” in Danske Studier For Universitetsjubilæets Danske Samfund, Udgivne Af Gunnar Knudsen Under Medvirkning Af Ejnar Thomsen, Copenhaga: J. H. Schult Z Forlag, 1951
[5] ἐν τούτῳ νίκα, algo como «com isto, conquista».
[6] Seja como for, a lenda parece ter surgido muito depois das cruzadas bálticas. Os relatos das expedições de Valdemar contemporâneos dos eventos não mencionam eventos milagrosos e os primeiros registos da lenda da Dannebrog datam do século XVI, nos escritos de Petrus Olai (Danmarks Tolv Herligheder), Christiern Pedersen (Danske Krønike) e Arild Huitfeldt (“Chronologia”, in Danmarks Riges Krønike).

8 de julho de 2017

Mictlantecuhtli em redondilha maior



Mictlantecuhtli, deus asteca dos mortos. 
Estátua encontrada em Teotihuacan e exposta no 
Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. 
Wikimedia Commons, daqui.
Feio é, como é morte
ou como às vezes a vida,
feio como a nossa sorte,
sempre a meio interrompida,
feio bicho que trazemos
escondido dentro de nós
e se revela sem qu’rermos
num olhar ou tom de voz
– deus do in-mundo final,
que importa se se lhe chama
Aita, Hel, Ereshkigal,
Demo, Osíris ou Yama?















[A Wikipedia tem uma longa lista de divindades da morte em diversas religiões e culturas.]

30 de março de 2017

"Urge for going" – a ânsia de partir.

Joni Mitchell escreveu, provavelmente em 1966, uma canção maravilhosa chamada “Urge for going”. Embora a tenha cantado ao vivo nessa altura*, só em 1972 foi publicada uma gravação de estúdio como lado B do single “You Turn Me On, I'm a Radio”.
 
Nas duas apresentações da canção transcritas na página que lhe é dedicada no site de Joni Mitchell, a autora afirma que se trata de uma canção sobre o inverno da sua terra natal, Saskatoon, Saskatchewan:

Quando chega o inverno, chega mesmo, e a temperatura desce para 10 graus abaixo de zero. e toda a gente se farta de se queixar, mas nunca ninguém faz nada. … Só se queixam e dizem «ah, eu gostava de estar na Flórida» e os agricultores e as pessoas que têm dinheiro para isso vão mesmo até à Flórida ou a alguma ilha para passarem o inverno. Mas, então, os outros, coitados de nós, as pessoas normais, temos de nos sentar e aguentar o inverno até ao fim. E era nisto que eu estava a pensar quando escrevi esta canção, mas acho que significa coisas diferentes para cada pessoa.
É precisamente o que diz a canção (perdoem-me a tradução desajeitada, original aqui):
Quando o sol traidor se torna frio
e as árvores todas tiritam de frio em renques nus,
sinto ânsias de partir.
Mas depois não vou.
Sinto ânsias de partir,
quando a erva de prado começa a ficar castanha,
o verão se esvai e o inverno nos vai cercando. 
Mas diz mais que isso. Há quem fique, mas há quem satisfaça a ânsia de partir.
Tive um homem no verão,
de pele cor de sol quente,
e nenhuma outra moça da terra
lhe soube conquistar o coração. 
Mas quando as folhas se espalharam pelo chão,
vieram ventos fortes
e enterraram-nas na neve.
Veio-lhe a ânsia de partir
e eu tive de o deixar ir.
Veio-lhe a ânsia de partir,
quando a erva de prado começou a ficar castanha,
o verão a esvair-se e o inverno a cercar-nos.
Há um tópico, um motivo recorrente na música popular, uma linhagem de canções, digamos assim, a que chamo ramblin’ man, o «homem errante», o «vagabundo», o «vadio». Nem todas têm exatamente esse título, mas um bom exemplo desta temática é a canção que Ray Pennington gravou em 1967 e que se chama precisamente “I'm a ramblin’ man”:
Deixei uma rapariga na Virgínia Ocidental, / lá onde os campos são verdes, pois deixei. / tenho uma rapariga em Cincinnati, / à espera, ali onde passa o rio Ohio, coitada. / Sou um vadio [ramblin’ man] / Não te apaixones por um vadio. 
O ramblin’ man não pode fixar-se em lado nenhum, tem de seguir viagem. A razão não é clara nem racional, mas é apresentada como imperiosa, uma espécie de fatalidade. Como dizia Hank Williams, no seu clássico “Ramblin’ man” (1951), que gravou com o pseudónimo de Luke the Drifter, «Gosto de ti, miúda, / mas tens de perceber, / que quando Deus me fez, / fez-me vagabundo».

Quando Deus nos faz assim, não podemos ser de outra maneira – a malvada ânsia de partir. Agora, o destino de um ramblin’ man não é apenas seguir sempre em frente, é quase sempre também deixar alguém para trás. No fundo, é como a imagem conhecido dos marinheiros com um amor em cada porto. Aliás, também há canções que falam dessa errância dos marinheiros e que podem incluir-se, creio eu, na mesma grande família temática. Assim traduziu Chico de Buarque a canção “4/3/1943 (1971) de Lucio Dalla:
Ele assim como veio partiu, não se sabe p’ra onde / e deixou minha mãe com o olhar / cada dia mais longe, / esperando, parada, pregada na pedra do porto, / com seu único velho vestido, / cada dia mais curto.
Se não é a ânsia de partir, é o dever. A vida, enfim. E é uma coisa de homens, notem. Se há ramblin’ women, não se veem...

Voltemos à nossa canção. “Urge for going” inscreve-se neste modelo temático concreto, acho eu. Se o aspeto climático da canção, digamos assim, lhe dá alguma originalidade dentro do tópico, não deixa de tratar de um homem que tem de partir, por alguma razão imperiosa, e que deixa atrás de si uma mulher. Mas é uma canção que dá a volta ao tema, alterando-lhe, se não o conteúdo, pelo menos a perspectiva; e dando uma voz à mulher que fica. Ela também sente a ânsia de partir, mas acaba por ficar. As mulheres dos ramblin’ men talvez quisessem partir também, mas não as deixavam, ou elas sentiam que não deviam.

***
Também de pode ver a vadiagem dos ramblin’ men como viagem iniciática. São solitárias, não é verdade? as viagens dos monges (não monjas!) de várias religiões, que deambulam em busca da iluminação. Mas claro, para uns poderem atingir a mais alta e perfeita iluminação, outros há (outras há?) que têm de ficar a tomar conta das crianças. Bom, alguns dirão que o tao também se pode se atingir mudando e lavando fraldas, mas porque não escolhem então essa via os santos e os sādhus?…
Yasodharā segura Siddhartha, Museu de Calcutá. Foto: Dharma, Penang, Malásia (daqui

No filme Samsara, de Pan Nalin (2001), a personagem principal, Tashi, é um monge que, a dada altura, renuncia à vida monástica, casa-se e tem um filho. Um dia, porém, resolve voltar à procura da iluminação e sai de casa sem dizer nada a ninguém. A sua mulher, Pema, apanha-o no caminho (a cena começa a 2:03:50, em princípio o link aponta já para esse momento):
Yasodharā...», diz-lhe ela, «Conheces Yasodharā? Toda a gente conhece Gautama, Buddha, Siddhartha, mas quantos conhecem Yasodharā? Yasodharā era esposa de Siddhartha e amava-o muito.
Pema lembra a Tashi que Siddhartha Gautama abandonou o lar à noite, quando Yasodharā e Rahul, o filho do casal, estavam a dormir para procurar a Iluminação – tal como ele, Tashi, acabava de fazer. E continua:
Quem sabe se Buda não lhe deve a ela [Yasodharā] a sua iluminação? Como podemos saber se ela se sentiu zangada, amargurada e só quando Sidarta os deixou? … Como podia ela responder à eterna pergunta de Rahul “Onde está o meu pai”?
«Só um homem abandona um filho a meio da noite», diz Pema, mas isto não é de modo algum verdade. O discurso dos instintos maternos sempre foi e continua a ser o discurso dominante e uma maneira eficaz de justificar uma parte dos papéis reservados às mulheres, mas não é verdade. Uma mulher também é capaz de abandonar o filho a meio da noite, milhares, milhões de mulheres o fizeram. E porque não havia de ser capaz? E porque não havia de o fazer, se for o melhor que pode fazer?

Na primavera de 1964, Joni Mitchell ficou grávida de «um artista de Calgari», que, diz ela na canção “Little Green”, de 1971 , «foi a para a Califórnia, porque ouviu dizer que é tudo mais quente por lá». Não se pode saber se é ele o homem que a voz feminina de “Urge for going”. diz ter tido no verão, mas pode especular-se que talvez seja, que podia ser. A história pode ser lida no site de Joni Mitchell, mas também se a pode ler na letra de “Little Green”:
Escreves-lhe uma carta a dizer a dizer que ela [o bebé] tem olhos azuis. Ele manda-te um poema. E ela está perdida para ti. Uma criança com uma criança, a fingir. Estás farta das mentiras que mandas p’ra casa. Assinas todos os papéis em nome da família. Estás triste, lamentas, mas não te envergonhas.
É claro que não tem se envergonhar. Envergonhar-se de quê? De ter cedido ela também à ânsia de partir, quando partir foi o melhor que, nas circunstâncias, podia fazer?
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* Por exemplo na televisão, a 17 de agosto de 66 e a 24 de outubro de 66; e ao vivo no Second Fret, a 6 november 1966. Cliquem nos links e vejam/oiçam os vídeos, porque vale mesmo a pena.

Entretanto, a canção foi gravada por várias pessoas e teve algum sucesso na sua primeira gravação, por Tom Rush (1966, uma grande versão, por tal sinal), e na terceira, por George Hamilton IV (1967). O site Second Hand Songs lista apenas 23 versões da canção, mas o site de Joni Mitchel lista 93 versões.

25 de março de 2017

Sweet lonely sixteen

Para vocês verem como as coisas eram[1]. Jerry Lee Lewis casou-se com Myra Gale Brown tinha ela 13 anos, em 1957. Ele tinha 22. Foi um escândalo, sobretudo em Inglaterra, mas, parece que, no lugar donde eles vinham, era normal uma coisa assim e que Jerry Lee Lewis nem percebia bem porquê tanta confusão. Elvis Presley também se apaixonou por Priscilla Wagner em 1959, tinha ela 14 anos e ele 24. Mas casar-se mesmo só se casaram já ela tinha 21 anos, em 1967.

Ninguém sabe quanto anos tinha a rapariguinha da escola de “Good Morning Little School Girl” que Sonny Boy Williamson tinha gravado em 1937. Dezasseis anos já parecia uma idade mais aceitável para uma rapariga ver louvados os seus encantos e as raparigas de dezasseis anos são um motivo recorrente da canção popular: Ahmet Ertegun escreveu em 1952 uma canção chamada “Sweet Sixteen”, que Joe Turner gravou; Alan Freed e Buck Ram escreveram outra “Sweet Sixteen”, gravada pelos Colts em 1956; Chuck Berry escreveu e gravou “Sweet Little Sixteen” em 1958[2], Sam Cooke também gravou uma “Only Sixteen em 1959; Johnny Burnette gravou em 1960 “You’re Sixteen” de Richard e Robert Sherman; Al Green, compôs e gravou mais uma “Sweet Sixteen” em 1973, e Billy Idol também escreveu e gravou mais outra “Sweet Sixteen” em 1986. Et cetera, et cetera.

Billy Page escreveu a única canção de voz feminina que conheço com este motivo da sweet sixteen, que Janie Black gravou em 1961. É sempre interessante ver o que os homens põem na boca das mulheres[3]. Diz assim o eu feminino da canção: « ... Não te quis quando tinha 14, não te consegui resistir quando tinha 15 e agora não te posso ter aos 16 ... Quando tinha 15, já era crescida. ... Agora, tenho 16 anos e fartaste-te de mim. ... »

 

P. S. : A versão de Anne Reilly com os Echomen, de 1964, é muito melhor.
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[1] Nos EUA e em todo o lado, naturalmente. Para um resumo muito breve da questão nos EUA, ver esta recensão do livro American Child Bride de Nicholas L. Syrett.
[2] Em 1961, Chuck Berry também foi condenado a 20 meses de prisão, acusado de ter transportado de um estado para outro uma rapariga de 14 anos, para «fins imorais». Parece que ela lhe disse que tinha 21… É uma história polémica, enfim, e esta é uma das descrições do caso.
[3] O que não quer dizer de modo algum que a canção não podia ter sido escrita por uma mulher, note-se.

19 de março de 2017

De passagem

1. «Estou só de passagem» era um mote recorrente da minha adolescência vagabunda, que muitas vezes ilustrei, em qualquer papel que apanhasse à mão. Este desenho aqui por cima foi feito numa folha de bloco pautada (tirei-lhe as linhas com um programa de tratamento de imagem). É de finais dos anos setenta e foi um amigo que o guardou e mo fez chegar. (Ah, os amigos!...)

A minha figura que passava – não me lembro de o fazer conscientemente, mas posso agora constatá-lo – inspirava-se seguramente no icónico «Just passin’ thru», de Robert Crumb.

Não é preciso acreditar que há alguma coisa depois da morte para pôr as coisas nestes termos: estar de passagem – ou passar apenas, até – é uma excelente metáfora da vida. E acho que era isso, mais que a descrição da minha condição de vagabundo, que me fascinava na tão repetida figura que apenas passa.

2. Se é verdade que, como postulam alguns e a mim me parece fazer todo o sentido, os sistemas nervosos dos animais se desenvolveram para controlar movimento e que continua a ser essa uma das suas funções principais, não é de surpreender que as noções espaciais estejam na base de todas as noções abstratas com que raciocinamos, em que encaixamos o mundo.

Pasar é, diz o dicionário da Real Academia Espanhola, «cruzar de una parte a otra» ou «ir más allá de un punto limitado o determinado». Tem mais 62 aceções, mas creio que decorrem todas destas duas, que, bem vistas as coisas, são afinal uma única: « mover-se em direção a X, seja X um ponto ou um espaço, e continuar a mover-se depois de ter atingido X».

É o que fazemos toda a vida, como dizia e bem Antonio Machado:
Todo pasa y todo queda, / pero lo nuestro es pasar, / pasar haciendo caminos, / caminos sobre la mar.
«Proverbios y cantares XLIV», in Campos de Castilla, 1917)

3. Podemos sempre perguntar «O que se passa?» ou «O que se passou?» e todos os acontecimentos servem de resposta a esta pergunta. De cada vez que atingimos o tal X – e estamos sempre a atingi-lo – o que percorremos já é o passado, claro está. Um dia, passa a vida por nós e somos nós passado.

 Agostinho de Hipona:
O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela por que não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?

4. Para Agostinho de Hipona, o passado só existe por estar presente – ou talvez melhor, por ser presente – na memória:
Se existem coisas futuras e passadas, quero saber onde estão. Mas (…), onde quer que estejam, aí não são futuras nem passadas, mas presentes. (…) Até a minha infância, que já não existe, existe no tempo passado, que já não existe; mas vejo a sua imagem no tempo presente, quando a evoco e descrevo, porque ainda está na minha memória. (Ibid, XVIII. 23) 
Existem na minha alma estas três espécies de tempo e não as vejo em outro lugar: memória presente respeitante às coisas passadas, visão presente respeitante às coisas presentes, expectação presente respeitante às coisas futuras. (Ibid. XX. 26) 
A obra de Agostinho de Hipona é um clássico, como é clássica a sua reflexão sobre o tempo. Os «Proverbios y cantares» de Machado também são já um clássico, e creio que se pode dizer que o Mr. Natural de Crumb também já o é. Perenes, provavelmente não são, mas resistem bem a passar apenas.

É possível alguém permanecer em vez de estar só de passagem? Ficar para sempre presente nalguma memória, se soube ganhar a fama e a glória? Qual! Figura de estilo apenas, ou então ilusão: se tivermos feito obras valerosíssimas, quem se liberta da morte são as obras, que não nós. Ao fim de uma ou duas gerações, já não existimos na memória de ninguém.

15 de março de 2017

Pobre Jenny, pobres de nós


Enganou-vos quem vos disse que sujeito é quem pratica uma ação. Sujeito é quem está por baixo, aquele sobre quem recai alguma coisa, aquele que a sofre.
«Peço desculpa a quem gosta de mim, mas a vida dói-me demasiado. Sinto-me enfim liberta.» 
Não há sofrómetros. Não há nada mais subjetivo que a dor. Pobre Jenny, pobres de nós.

Hugo Gerhard Simberg: O anjo ferido, 1903, Ateneumin taidemuseo, Helsínquia. Wikimedia Commons, daqui)

9 de março de 2017

Do marxismo e outros -ismos

[Eis um texto que anda há anos à espera de forma definitiva. Esta é uma forma definitiva provisória, se é que tal coisa existe, porque ainda não fiz a investigação que gostava de ter feito sobre o assunto — uma forma publicável em blogue, digamos assim… Para iniciar uma discussão, serve; e, se não o publicar assim, se calhar nunca o venho a publicar.] 

Há quase 4 anos, escrevia Helder Guégués no seu Linguagista:
 O original, italiano, fala «dell’idea marxiana di società senza classi», e o tradutor deixou «marxiana», que nós não usamos, porque há-de ter consultado um dicionário, talvez o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que para «marxista» regista que é o «relativo ao marxismo». Ora, não é apenas isso, é o relativo a Karl Marx, à sua obra ou ao marxismo. Em italiano, há especialização de sentidos, pois «marxista» diz respeito apenas ao marxismo e às ideias de Karl Marx. 
Compreendo perfeitamente a ideia de Helder Guégués, até porque marxiano também me pareceu muito estranho da primeira vez que o vi, mas a questão é um pouco mais complexa. Não sei até que ponto a especialização de marxista e marxiano se deu naturalmente em italiano. Uma breve pesquisa na Internet mostra que é uma distinção estranha a muitos italianos, mas pode tratar-se, naturalmente, de casos de ignorância da terminologia académica. Por outro, a questão do uso de marxiano para o que diz respeito a Karl Marx, não se põe só em português. Em várias páginas na Internet se encontra a discussão do uso do par correspondente a marxiano e marxista.

É interessante constatar que, em inglês, a forma Marxian, embora minoritária relativamente a Marxist, está longe de ser apenas marginal: Marxian, um termo acolhido em vários dicionários de inglês, tem cerca de milhão e meio de ocorrências em Google, contra cerca de 13 milhões e meio de Marxist; e Marxian theory tem mais de 90.000 ocorrências, contra um pouco mais de 500.000 de Marxist theory. A desproporção é menor em Google Scholar, com 15.500 ocorrências de Marxian theory e apenas 5 vezes mais de Marxist theory (77.400 ocorrências). Também em francês se atesta marxien com alguma solidez: mais de 20.000 ocorrências de marxien e perto de 35.000 de marxienne, sem ir para os plurais. Marxiste é, claro está, impossível de contar, porque a busca gera resultados em diversas línguas. Théorie marxienne ocorre cerca de 11 vezes menos que théorie marxiste em Google (4330 vs 47300), mas apenas 8,8 vezes menos em Google Scholar (779 vs 6.850). Em português, também se atesta marxiano e não me parece que possa apenas ser resultado de inadvertência nem abuso esporádico avulso: uma busca em Google Scholar dá 2400 de textos académicos em português com ocorrências do sintagma teoria marxiana.

Traduzi há dezena e meia de anos alguns textos de um dos especialistas em Marx que defende a existência de dois termos distintos, o filósofo marxiano Lucien Sève. Para ele, o termo marxista[1] implica a redução do pensamento complexo de Marx a um «campo» ideológico-político. Dizia ele num debate em Lisboa em 2002:
De um adepto de Descartes diz-se que é cartesiano, um adepto de Kant é um kantiano, um adepto de Bergson é um bergsoniano, de Husserl um husserliano, de Nietzsche um nietzschiano, e de Marx… um marxista! O que é este -ista? Porquê marxista? Na minha opinião, esta terminação não revela apenas uma adesão a um pensamento, que é o que diz o adjetivo em iano (cartesiano, kantiano…), ela diz sim a inscrição num campo: se sou marxista, é porque adiro a um campo organizado, a uma estrutura política, a um movimento político. Parece-me que este -ista implica uma forma de adesão que vai muito para além do facto de se inspirar num pensamento, tentar com ele trabalhar o presente.
Embora compreendendo a tentação de se deixar levar por esse tipo de explicação, notei imediatamente que precisava, pelo menos, de ser revista e afinada. Por exemplo, Sève explicava mais adiante que o caso de marxista não é único, diz-se também espinozista de um seguidor de Espinoza. Ora a razão não podia ser a de identificar os seguidores do pensamento de Espinoza com «um campo organizado, [...] uma estrutura política, [...] um movimento político»… E Sève não estava a ter em conta todos os possíveis nomes e adjetivos em -ista: não há apenas marxista e espinozista; há também platonista, rousseauista, tomista, e darwinista, muitos mais.

Não vejo boa razão para pressupor que os adjetivos e nomes formados a partir dos nomes de filósofos e políticos não sigam as regras que modelam a formação de nomes e adjetivos a partir de nomes próprios em geral. Picassiano, em «a estética picassiana» deve, em princípio, obedecer à mesma lógica derivacional que husserliano em «a abordagem husserliana». Convêm saber, pensei eu então, se as palavras em questão foram criadas por sufixação diretamente a partir do nome próprio ou a partir de um outro nome, criado, por sua vez, a partir do nome próprio. Evidentemente, o caso de mediação mais comum, se não exclusivo, é o nome em -ismo definindo, em sentido lato, o programa consciente ou inconsciente (filosófico, político, estético, etc.) da pessoa em questão. Depois de muitas voltas à questão, proponho agora que os adjetivos e nomes em -ista não derivam diretamente do nome próprio, mas sim de um nome em -ismo, formado, esse, do nome próprio, ao passo que os nomes em -iano derivam diretamente do nome próprio[2].

Acho que o dicionário da Porto Editora e Sève têm quase razão: o adjetivo em -iano formado de um nome próprio diz apenas a relação com o portador do nome, ao passo que a terminação em -ista diz a adesão a um campo, mas um campo não tem de ser um campo político — pode ser uma corrente ou movimento estético, filosófico, religioso, etc. Dito de outra forma, X-ista diz respeito a X-ismo e não diretamente a X; um X-ista é um adepto do X-ismo e não diretamente de X. Tomista remete para o tomismo mais que para S. Tomás de Aquino, darwinista para o darwinismo e não diretamente para Darwin; e um marxista é um seguidor do marxismo e não de Marx. É por isso que, se eu quiser falar de algo estritamente pessoal de Marx ou Darwin, como o seu estilo, corro obviamente o risco de ser mal compreendido, se disser ou escrever «o estilo marxista» ou «o estilo darwinista», que se tenderá a interpretar como «o estilo dos marxistas» ou «o estilo dos darwinistas», isto é, como referindo algum pretenso traço comum ao estilo dos adeptos dessas ideologias. O que se diria normalmente nessa situação seria (se não se quiser usar marxiano...) «o estilo de Marx» ou «o estilo darwiniano/de Darwin»[3]. Compreendo, pois, que, se alguém quer referir-se ao pensamento de Karl Marx ou afirmar-se seu seguidor em vez de referir ou seguir a amálgama de pensadores e pensamentos que se afirmam derivar dele, deve seguir a proposta de Sève: não é marxista que deve dizer e sim marxiano[4]. É o que faz – um exemplo entre muitos possíveis – o economista David F. Ruccio, que fala de análise económica marxiana e não marxista. Mas é claro, há a tal questão fonética... Ainda continuo a sentir que marxiano é alguém do planeta Marx... Quando de facto alguém do planeta Marx é antes um marxista...
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Agora, será marxiano uma forma antiga ou recente? Marxiano e as formas correspondentes nas línguas mais próximas da nossa podem ter surgido espontaneamente, porque -iano é um sufixo relacional vulgar nestas línguas; ou pode antes ter surgido da tentativa de separar Marx e o seu pensamento da massa vaga das muitas e variadas correntes políticas e económicas que se dizem suas seguidoras. Faltam-me dados para optar por uma das duas hipóteses. Para o inglês, porém, tenho uma ferramenta, que, por inconclusiva que seja, me pode ajudar a ficar com uma ideia de como se distribui no tempo a ocorrência de marxian: o Ngram Viewer, que trabalha com um corpus bastante grande de livros em inglês. O problema é que, como o aponta o Etymology online (um site bastante fiável, baseado em várias obras de referência), «a forma adjetival Marxian é às vezes usada (por Groucho, entre outros) para distinguir a trupe de cómicos americanos [Irmãos Marx] do comunista alemão». Por muito que, como vimos, isto não seja inteiramente verdade e que que Marxian seja também usado com o significado de «relativo a Karl Marx», Marxian tem, em inglês, ou talvez sobretudo na tradição americana, um significado duplo que não me deixa fiar-me nos resultados do Ngram Viewer. A palavra Marxian tem claramente o auge da sua utilização nos anos 40/50 e isto pode, sem dúvida, dever-se aos irmãos Marx, mas mantém-se até ao século XXI; o uso de Marxist vai aumentando progressivamente até ao início da década de 80 e começa depois a diminuir. Com uma base de dados fiável, seria interessante ver até que ponto não foi a ampliação do uso de marciano e afins nas línguas mais próximas da nossa que veio bloquear um marxiano surgido naturalmente de Marx. Parecerá óbvio a muita gente que a razão pela qual marxiano nos soa mal é a proximidade fonética e gráfica com esta palavra tão comum, mas não sei desde quando se terá falado de marcianos com tanta frequência.

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E então, pode-se ou não se pode, e deve-se ou não, usar marxiano e as suas correspondentes diretas nas línguas mais próximas da nossa: marxiano (es, it), marxien (fr), Marxian (en), etc.? Pessoalmente, não vejo razão para não usar. É vantajoso distinguir o que diz respeito a Marx do que diz respeito ao marxismo em sentido lato e as duas possíveis desvantagens do termo nem sequer o chegam a ser. Por um lado, o contexto nunca deixa que haja ambiguidade na referência a Karl Marx ou aos irmãos Marx (questão que, de qualquer forma, que não parece pôr-se fora dos EUA). Aliás, também nunca ninguém deixou de usar gregoriano por poder remeter tanto para Gregório I (o canto) como para Gregório XIII (o calendário). E quanto à questão, a que sou sensível, de «soar mal», por evocar imediatamente homens verdes com antenas de caracol, a verdade é que a evidente cacofonia não impede a utilização de termos como hobbesiano, humiano, kantiano ou smithiano[5]...
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[1] Ou marxiste, em francês, claro, mas vai dar ao mesmo. Para simplificar o discurso, uso sempre as palavras portuguesas em -ista, -ismo e -(i)ano, mas refiro-me a todas as do mesmo tipo nas línguas mais próximas, como as francesas em -iste, -isme e -(i)en e as inglesas em -ist, -ism e -(i)an, respetivamente.

[2] Como sempre, a questão é mais complicada do que parece: diz-se maometano, luterano e cristão (para o que aqui nos interessa, cristão é uma forma do tipo -iano, apenas posteriormente transformada) e, mas budista e calvinista. E porque se diz platónico, maquiavélico, pitagórico ou socrático, que não são -ista nem -(i)ano? Porque é que o adjetivo mais usado derivado de Estaline é estalinista – ou o seu equivalente – em português, espanhol, italiano e inglês, mas stalinien em francês? Porque é que os adjetivos mais usados derivados de Maquiavel e Aristóteles são maquiavélico e aristotélico – ou os seus correspondentes – em português, espanhol, italiano e francês, mas Machiavellian e Aristotelian em inglês? Os quatro possíveis nomes/adjetivos em -ico dizem respeito a filósofos antigos e há também o adjetivo crístico, relativo a Cristo, também uma personagem antiga. Note-se que crístico se entende apenas como relativo a Cristo, ao passo que cristão tende a não poder interpretar-se desta maneira, mas apenas como respeitante ao cristianismo. Evidentemente, era preciso saber em que línguas foram cunhados os nomes e adjetivos que referem os discípulos dos vários filósofos, porque o sistema fonético-morfológico da língua em que a palavra foi cunhada pode impedir ou favorecer um determinado tipo de sufixação. E quem diz a língua diz o período em que a palavra foi cunhada, porque as regras morfológicas de uma mesma língua podem ir variando ao longo dos tempos.

[3] É de notar que de Darwin derivam, em todas as línguas, duas palavras comuns, uma em -ista e outra em -(i)ano. O que pode significar, precisamente, que é standard em relação a Darwin e ao darwinismo o que ainda não é — ou talvez nunca a venha a ser — em relação a Marx e ao marxismo.

[4] Engels diz em duas cartas que Marx afirmara não ser marxista (traduzo eu):
«Agora, o que se conhece em França como “marxismo” é, na realidade, um produto bem peculiar — de tal maneira que Marx uma vez disse a Lafargue: “O que é certo é que eu não sou marxista.”» Carta a Bernstein, 1882 
«A conceção materialista da história tem muitos [amigos perigosos] hoje em dia, a quem serve como desculpa para não estudarem história. Como Marx dizia, num comentário aos “Marxistas” franceses do fim da década de [18]70: “O que eu sei é que não sou marxista.”» Carta a Schmidt, 1890
[5] É certo que as formas em -ista não soariam muito menos cacofónicas nestes casos… Mas é preciso ver que, na maior parte dos casos, a cacofonia é um fenómeno percetivo resultante do hábito e não tem origem em nenhuma incompatibilidade intrínseca do sistema fonético ou morfológico.

24 de fevereiro de 2017

Anglicismos gregos e latinos, e outros estrangeirismos

Num comentário do meu último artigo, referia que quem se preocupa com as marcas de abertura das vogais na escrita pode começar por propor algum tipo de diacrítico nas palavras com o elemento tele-, que têm uma pronúncia altamente irregular, como se pode constatar comparando telefone, telefonia, telegrafia, telepatia, telescópio e televisão com telemóvel, teledifusão, telejornal, telenovela, telescola e televendas[1].

Quando comparei os dois grupos de palavras começadas pelo elemento tele-, à procura de alguma explicação dos dois paradigmas de pronúncia, a primeira hipótese que me surgiu foi que este elemento se pronuncia de facto [tèlè] em português e que, por isso, quando se forma alguma palavra com esse elemento e uma palavra portuguesa, tem-se a pronúncia «aberta». As palavras que se pronunciam com ee «fechados», pensei eu — ou seja, as que seguem a regra geral de pronúncia dos ee átonos — são as que foram cunhadas noutras línguas e são importadas já feitas. A palavra telefone, cunhada em francês no início do séc. XIX (segundo alguns, para designar um estranho sistema de comunicação ), foi adotada por Bell em 1876 e foi do inglês que a importámos. É muito provável que telefonia, no sentido de rádio (que é, ao que sei, exclusivo do português), derive do sentido geral inicial de telefonia, comunicação à distância. Telégrafo e telegrafia são também palavras cunhadas em francês mesmo no fim do séc. XVIII e depois adoptadas para o sistema de comunicação desenvolvido nos EUA. Telepatia foi cunhada em inglês em 1882, por Frederic Myers. Telescópio parece ter sido cunhado em italiano, na primeira metade do séc. XVII. Televisão, que não se sabe ao certo se é termo cunhado em francês ou inglês, surgiu já no séc. XX, pouco antes de surgir o aparelho a que hoje damos esse nome. As palavras com ee «abertos» seriam, pois, mais «portuguesas», se é que se pode dizer assim, por muito que possam, nalguns casos, ter sido criadas com base em modelos importados.

Infelizmente, a minha teoria não funciona tão bem como me parecia à primeira: por um lado, parece não se poder postular uma regra geral segundo a qual se abrem as vogais do primeiro elemento quando o segundo se reconhece como elemento autónomo. Visão existe em português — tal como grafia e fone, aliás, embora estes dois últimos termos sejam termos técnicos sem relação direta com telegrafia e telefone. Por outro lado, há exceções a esta regra: telemetria ou telecinesia, por exemplo, com ee «abertos» mas formadas seguramente noutra línguas, com um segundo elemento sem autonomia em português. É claro que, como solução de facilidade, se pode, apesar disso, admitir a regra... com as suas exceções...

Isto era uma espécie de introdução. Este texto é sobre estrangeirismos, palavras importadas. Tenho a impressão (mas é mesmo só isso, notem, uma impressão) que muitas pessoas não têm uma ideia clara da enorme quantidade de palavras importadas que há em qualquer língua; porque palavras importadas não são só as que se veem que são estrangeiras, são também as que já ninguém reconhece como tal. Era aí que queria chegar com os parágrafos anteriores. É uma das maneiras normais de qualquer língua se desenvolver e manter viva: importar constantemente termos de fora.

É claro, podíamos cultivar o hábito de cunhar neologismos nossos e diferentes dos que vão aparecendo noutras línguas para designar coisas novas e atividades novas, como fazem muitas vezes os islandeses, por exemplo, que não têm televisão, nem helicóptero, nem computador, só þyrla, algo como rotor; sjónvarp, projecção da visão, ou algo assim, e tölva, uma amálgama da palavra que significa «número» com a palavra que significa «profetisa», imaginem… Ou então simplesmente decalcar o termo estrangeiro, mas com elementos nossos. Em alemão e em dinamarquês (para falar de línguas de que sei um poucochinho), às vezes faz-se isso: por exemplo, Fernsehen ou fjernsyn são como televisão, mas com elemento germânicos em vez de greco-latinos; ou Unabhängigkeit ou uafhængighed que são exatamente in-de-pend-ência. Mas nós não precisamos, porque temos uma grande tradição de termos greco-latinos, de maneira que se consideram bem formados os neologismos greco-latinos do inglês ou do francês e os importamos diretamente e sem mais, só ajustando um bocadinho pronúncia e grafia. O dicionário Porto Editora diz que computador vem do latim computatore, mas é óbvio que não vem, é uma adaptação de computer. A palavra computer, é curioso, referia uma pessoa que ganhava a vida a fazer contas, numa altura em que não havia Excel nem máquinas de calcular, depois qualquer máquina de calcular e depois é que se tornou o que é hoje. Não é só o futebol, o andebol e o basquetebol, os penáltis e os golos, o lanche e o bife (que é uma palavra inglesa importada do francês, como muitas palavras inglesas…) — do inglês vêm-nos também coisas tão pouco germânicas como, por exemplo, placebo, interferência[2] e empatia, esta última palavra cunhada em 1909 por um psicólogo britânico para traduzir um conceito de um filósofo alemão

A tendência de importar palavras — «bem formadas» ou completamente estranhas — não é de modo nenhum recente. Fernando Venâncio mostra que Camões, por exemplo, vai buscar ao castelhano uma grande quantidades de latinismos criados naquele idioma. Aéreo, aquoso, árido, áureo, canino, canoro, ciente, diáfano, dissonante, espumante, estupendo, famélico, fétido, fraudulento, fugaz, fulgente, fulminante, furibundo, hispano, impudico, inerte, inúmero, inusitado, lácteo, malévolo, náutico, plácido e vasto são alguns dos adjetivos castelhanos que Camões importou, para ficarem de vez em português, e que, ao contrário de, sei lá, airoso, hediondo ou sangrento, são tão portugueses que ninguém pensa neles como antigos estrangeirismos. Mas não foi só Camões que importou castelhanismos, longe disso. Foi prática bastante corrente durante vários séculos. Como foi prática corrente importar palavras francesas e italianas… e outras. Nisso, não há nada de novo.

Também não deve ser nova a indignação contra essas importações. Justificada, concedo, de vez em quando: para quê palavras estrangeiras para dizer coisas que não custa nada dizer em português? Também reajo mal a estarem sempre a arranjar-se maneiras novas de dizer coisas que não precisam nada de ser ditas com outras palavras, sejam elas importadas ou não. Mas nem sempre é fácil saber quando há que importar ou cunhar palavras novas e há muitas reações exageradas a certos estrangeirismos ou neologismos. Já aqui falei algumas vezes disso, hoje tenho mais um exemplo muito concreto de uma reação provavelmente exagerada — com a melhor das intenções: irritava-se um amigo meu com o que ele considerava uma perfeita estupidez, usar inicializar em vez de iniciar um programa de computador. É certo que inicializar é um neologismo que é uma tradução do inglês com um cognato, o que muitas vezes dá disparate. Mas é preciso ver que initialise não é initiate. Initiate, sim, significa «iniciar». Mais ou menos, vá. Initiate ou start são «iniciar». Mas initialise é pôr nos valores de base, no estado inicial. E pode, por isso, considerar-se um neologismo bem formado, porque o sufixo -izar é precisamente muito produtivo para formar verbos a partir de adjetivos, tendo sempre o valor de «tornar x»: humanizar é tornar humano, realizar é tornal real, concretizar é tornar concreto e assim sucessivamente[2]. A malta da informática não é toda pedante, nem há mais pedantes entre os informáticos que noutro grupo profissional qualquer. Mas, como os mecânicos ou as costureiras, têm de arranjar palavras que lhes deem jeito para trabalhar. É certo que podiam dizer «pôr os valores a zero» ou «voltar ao estado inicial», mas é pouco prático, sobretudo quando depois tem de se arranjar nomes correspondentes aos verbos. E, se inicializar é um neologismo bem formado e que diz bem o que deve dizer, porque não usá-lo?

Dos estrangeirismos que se usam em determinada altura, uns ficam e outros não. O vocabulário do futebol, para dar um exemplo simples, era todo ele inglês quando a modalidade surgiu, mas nem todos os termos ficaram: já ninguém fiz match, nem forwards nem half-backs, nem outras palavras futebolísticas que se diziam há uma centena de anos, como já ninguém diz shake-hands, uma expressão que me lembro de ver em textos de Eça de Queiroz. Não sei se alguém ainda chamará poche a uma bolsa de guardar agulhas e carros de linhas, ou se alguém ainda vai à cabeleireira fazer uma mise en pli, mas, nalguns dicionários, relais já só aparece com a grafia portuguesa relé (e acho muito bem). É assim a vida. Os estrangeirismos que ficam, naturalizam-se e deixam de ser estrangeirismos: botas ou constatar, duas palavras importadas do francês, são agora palavras tão genuinamente portuguesas como o hão de ser em breve, sei lá, alocação ou dauneloude, perdão, download[4]...

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[1] Estas palavras deviam também contribuir para tranquilizar aquelas pessoas que têm medo que a escrita influencie a pronúncia da língua. Não se preocupem: se não acontece com aquecer, esquecer, padaria e telemóvel — e muitos outros exemplos — , também não acontece com conceção, sim?

[2] Não é fácil chegar a uma conclusão sobre a origem de interferência, mas parece certo que a palavra entra em português em meados do século XIX. A. Geraldo da Cunha diz que vem do francês e data de 1844 a primeira ocorrência em português, mas J. Pedro Machado e Joan Coromines concordam com o CNRTL e outros dicionários quanto à origem inglesa do termo (atestado em inglês em 1783) e à sua composição com o sufixo em -ence a partir de uma falsa etimologia: seguiu o modelo de difference, que vem de differre, mas interfere, atestado já no século XV, não viria do latim interferre, como alguns dicionários postulam, mas do francês antigo entreférir, derivado de férir, «ferir». Coromines não gosta de interferência: «…el verbo interferir, “inmiscuirse, perturbar”, como el sustantivo en el sentido correspondiente, son anglicismos tan superfluos como feos».

[3] Já customizar, por exemplo, que se vê às vezes, é realmente uma palavra mal formada.

[4] Ambos os termos estão já dicionarizados, mas são ainda, claro, sentidos como estrangeiros.

9 de fevereiro de 2017

O que se escreve e o que se diz

Um blogue pode servir para muitas coisas e uma das funções da Travessa… é ser um depósito sempre acessível das minhas opiniões, apresentadas de forma minimamente organizada e documentada, para que posso remeter as pessoas com quem discuto certas questões, em vez de repetir de cada vez as referências e o argumentário. Mas, se é essa umas das funções dos textos da Travessa… nunca tinha sido essa a sua motivação imediata — até a: este texto foi escrito para ser usado como texto de referência nas muitas discussões que tenho sobre a questão da influência da escrita na pronúncia. Não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o assunto e dediquei até ao tema uma parte de um texto que escrevi há três anos sobre o famigerado Acordo Ortográfico de 1990; mas quero agora desenvolver  um pouco a questão.

Não aprendemos as palavras da nossa língua por escrito. Mesmo que aconteça o caso raro (mas não impossível) de vermos uma palavra escrita antes de a ouvirmos, e a pronunciarmos de forma pouco canónica porque seguimos as regras normais de leitura, basta ouvi-la uma ou duas vezes para começarmos a pronunciá-la corretamente. Imaginemos que alguém nunca ouviu a palavra colação e que, quando a vê escrita, pronuncia [colâção] com o primeiro a fechado[1]. Mesmo que ninguém o corrija, ao ouvir a pronúncia normal [colàção], a pessoa corrige-se[2]. A exceção ao estado de coisas que acabo de descrever seriam, naturalmente, as palavras que só lemos sem nunca as ouvirmos. Que palavras são essas? Alguns palavrões técnicos, mas não deve haver muitos. Deve haver mesmo muito poucos…

Não se passa o mesmo com palavras estrangeiras: não temos interiorizado o sistema fonético da língua e não ouvimos essas palavras o número de vezes suficiente para corrigir uma pronúncia errada em que a escrita nos induza, sobretudo (isto é muito importante) quando essa pronúncia é apoiada pela pronúncia de cognatos na nossa língua materna. Por exemplo, não se pode saber se os portugueses que dizem os ss da palavra inglesa dissolve como [s] e não como [z] — que é como se pronunciam de facto  — o fazem por causa da grafia ou por interferência do som da língua materna. Da mesma forma, se durante muito tempo pronunciei [siúksi siuks] o nome da cantora inglesa Siouxie Sioux, em vez de [súzi su], como devia, não posso saber se foi por influência da grafia apenas ou por influência da pronúncia da palavra sioux que eu tinha interiorizada desde a infância[3]. O que me diz a minha experiência de quase 30 anos de ensino de português como língua estrangeira a adultos é que é tão impensável livrar-se da influência da escrita como ensinar a língua a adultos sem a escrever. Mas, lá está, se um inglês ou um dinamarquês pronunciam o c que havia em projecto nas grafias anteriores ao AO90, não se sabe se é por verem esse c ou se é porque há esse som nos cognatos de projeto nas suas línguas, project e projekt respetivamente.

A questão é de facto complexa e é difícil fazer grandes afirmações sobre ela sem ter, como eu não tenho, conhecimento de estudos exaustivos e sérios. Por exemplo, não sei se se pode falar de influência da escrita na pronúncia quando se nota a pronúncia fechada de certos ee abertos pretónicos em falantes de português como língua segunda (é um fenómeno que conheço de Moçambique), que pronunciam esquecer ou aquecer «como se escrevem» [aquəcer, esquəcer]. Muito provavelmente, o problema põe-se antes exclusivamente ao nível do sistema fonológico: o muito contacto com a língua fez com que essas pessoas interiorizassem a regra de que o fonema /E/ se pronuncia fechado quando é átono, mas esse mesmo contacto com a língua não foi suficiente para interiorizar as exceções, como o fazem os falantes maternos[4].

A escrita não tem, não pode ter, influência na pronúncia de uma língua. Conheço trabalhos em que se defende que, com a aprendizagem da escrita, a imagem mental de um som fica indelevelmente ligada à sua representação gráfica — o que explicaria, digo eu, a grande resistência que sempre há a qualquer reforma ortográfica e o alto grau de emotividade dessa resistência —, mas não conheço, nem nunca vi referido, nenhum trabalho sobre a influência da grafia na pronúncia de uma língua[5]. Voltemos à asserção simples de Richard Feynman que já aqui pus uma vez: para vermos se temos uma boa lei científica — ou, diria eu, uma verdade geral, porque não há nada que distinga uma lei científica de outra verdade geral — calculamos as suas consequências e comparamos o resultado do cálculo com a realidade. Se as implicações da teoria não se verificarem na realidade, a teoria está errada. Parece que é isto que não faz quem propõe que a escrita influencia a pronúncia: computar que implicações essa presumida influência teria, se fosse verdadeira. Ora a primeira implicação deste postulado, e obviamente completamente desfasada da realidade é que, em sociedades altamente escolarizadas, a pronúncia deixaria de evoluir, porque a escrita funcionaria como travão a essa mudança. Mais, nessas mesmas sociedades, se houvesse de facto influência da escrita na pronúncia, voltar-se-ia, nalguns casos a pronúncias mais antigas, que se tinham afastado da forma escrita antes de se generalizar a alfabetização. Nada disto faz grande sentido. Vejam qualquer filme dinamarquês dos anos 30 e comparem com a pronúncia atual… E já nem quero dar-vos exemplos das implicações que isto teria em línguas com escritas muito pouco fonéticas, como o francês ou o inglês, para não pensarem que estou a disparatar. Mas a hipótese que leva a esses disparates não é minha, pelo contrário, é aquela que estou aqui a refutar… Tentem imaginar que implicações tem a teoria quando a aplicamos ao caso da mudança de alfabeto na Turquia em 1929, quando passou do alfabeto árabe ao alfabeto latino. Mas não há relatos de que a pronúncia do turco tenha sofrido alguma alteração nessa altura, ou há?

Deixem-me só listar mais alguns fenómenos que decorrem do cômputo das implicações da hipótese. Já os referi antes, mas tenho de os repetir agora neste texto que é especificamente sobre esta questão: se a influência da escrita sobre a pronúncia fosse de tal modo que, como pretendem alguns, levasse ao fechamento das vogais átonas de que não há marca de abertura, porque nunca se fecharam as dezenas e dezenas de vogais nessa situação antes do acordo? Quer dizer, com séculos de redução vocálica, nunca se fecharam as vogais de padaria, aquecer ou corar, mas, de repente, iam começar-se a fechar as vogais de receção ou adotar… Nunca se fechou o e aberto de pregar e pregador (que concorre de facto com o e fechado de pregar e pregador), mas havia de fechar-se o e aberto de espetador (que concorre com uma palavra só virtualmente existente, espetador, aquele que espeta)? Ou a lei de que a escrita influencia a pronúncia só começou a ser uma lei linguística depois da entrada em vigor do AO90? Sejamos sérios. Aliás, como já o disse aqui uma vez, do postulado que a escrita influencia a pronúncia tem de se inferir forçosamente que a escrita faria com que se pronunciassem, mais que as vogais abertas… as consoantes mudas!

Contava-me alguém que tinha vista uma pessoa que, ao ler conceção, hesitara e acabara por pronunciar como concessão, com e fechado antes de se autocorrigir, porque se dera conta de que concessão não fazia sentido no contexto. É outra coisa. Se uma pessoa não está habituada a ver conceção, pode não perceber logo de que se trata. O mesmo pode acontecer a quem vê escrito, sei lá, colã, se sempre viu escrito collant. Mesmo que não leia em voz alta, pode não perceber logo de que palavra se trata. É claro que uma mudança de grafia tem implicações deste tipo. Mas isto não tem nada a ver com a grafia influenciar a escrita. A pessoa que hesitou na leitura de conceção e pronunciou como se fosse concessão continuará a pronunciar conceção como sempre pronunciou. E, a quem tenha aprendido a escrever conceção sem p, o problema nunca se porá — exatamente como não se põe a quem lê vadio com a aberto ou república com e aberto, sem marca nenhuma dessa abertura na escrita. E pronunciará conceção da mesma maneira que quem aprendeu a escrever com p. Claro.

É de notar, já agora, que, com o desaparecimento dos pp e cc não pronunciados se mantêm, em muitas palavras em que se quer ver confusão — ou com que quer fazer confusão —, dois paradigmas perfeitos, um de ç e outro de ss, em que ao de ç corresponde a pronúncia aberta do e pretónico e ao de ss a pronúncia fechada do e na mesma posição: conceção, preleção, coleção, seleção, correção, direção, etc., vs agressão, concessão, impressão, pressão, recessão, sucessão, etc. Para quem esteja muito preocupado sobre como distinguir ee pretónicos abertos de fechados, neste caso a regra é esta: antes de -ção são abertos, antes de -ssão são fechados. Fácil, não é verdade? E, afinal, sempre há aqui uma marca gráfica da abertura do e: o ç.

Uma última palavrinha sobre as implicações da nova ortografia no ensino do português europeu como língua estrangeira. Não vão ser muitas, claro, porque as alterações são muito poucas, mas algumas poderá ter. Uma é que pode criar uma maior divergência em relação às línguas que os alunos falam, fazendo com que se tornem mais difíceis de reconhecer imediatamente num texto escrito palavras como cato, inseto ou ótimo. Isto já acontecia em vários casos no ensino do português do Brasil e, também nalguns casos, no português de Portugal (estrito, contrato, etc.). Mas, note-se, não acontece com todas as palavras: uma palavra como arquitetura é tão facilmente identificada na escrita como arquitectura. Por outro lado, o que cria maior dificuldade no reconhecimento da palavra escrita é uma ajuda na pronúncia: ao ler em voz alta catoinseto ou ótimo o aluno não pronunciará [cakto], nem [insekto] nem [óptimo], como fazia antes. Mas continuará provavelmente a fazê-lo, por causa da influência da língua materna, mal deixe de ter à frente ou na memória recente a grafia da palavra. Porque, como se sabe, para os falantes estrangeiros, a grafia não é a única fonte de pronúncias erradas…
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[1] Uso neste texto, como noutros sobre pronúncia, os termos fechado e fechamento, e aberto e abertura, quando falo do timbre das vogais, para simplificar a leitura de quem não saiba de fonética, mas, na realidade, não é fechamento que há nas vogais átonas do português europeu, mas antes elevação e recuo. Também uso transcrições fonéticas simplificadas, para quem não esteja familiarizado com o alfabeto fonético internacional.

[2] Já se aprender a dizer [colèção], como muita gente diz em vez de [colàção] («isto à vinha à coleção do que a gente ’távamos agora a falar…»), fará provavelmente parte de um grupo de pessoas sobre as quais não terão grande efeito nem a palavra escrita nem a pressão dos pares para falar corretamente — e continuará a pronunciar assim o resto da vida…

[3] O pseudónimo de Susan Janet Ballion é uma grafia alternativa de Suzy Sue, baseada no facto de Sue e Sioux se pronunciarem da mesma maneira em inglês. A pronúncia de sioux que aprendi em miúdo — com os meus pares, seguramente — é [siuks], que é, segundo o que vejo no Priberam, uma pronúncia errada: devia pronunciar-se à francesa, [siu], já que é uma palavra que, diz o mesmo Priberam, nos chega pelo francês.

[4] Além de que, em princípio, não têm interiorizado nenhum sistema estável que não seja o da sua própria língua, não é verdade? A questão dos mecanismos de processamento e interiorização de formas irregulares é muito complicada e não faço ideia como são interiorizadas as vogais abertas em posição átona do português europeu e se esse tipo de «exceções» é processado da mesma forma na língua materna e em línguas segundas ou estrangeiras.

[5] O que não quer dizer que não haja, claro está. Até há trabalhos sobre a influência da língua sobre poupanças, valham-nos os santos todos que velam sobre o bom senso e o rigor…

4 de fevereiro de 2017

O paradoxo do telemóvel

Peter Hadfield, também conhecido como potholer54, publicou recentemente um vídeo em que explica que, ao contrário do que pretendem vários artigos que circulam pela Internet, não há nenhum indício de que os telemóveis afetem o cérebro, o coração ou seja lá que parte for do corpo humano (ver aqui o vídeo “Do cell phones cook your brain?”).

Quando publiquei o vídeo no Facebook, um amigo meu comentou que, a julgar pela maneira como certas pessoas (não) pensam, talvez a teoria de os telemóveis afetarem o cérebro não fosse de desprezar. O comentário inspirou-me e criei um paradoxo (mais um…) que talvez venha a ser conhecido nos anais da filosofia como «o paradoxo do Vítor» ou «o paradoxo do telemóvel»:
Os telemóveis afetam o cérebro de certas pessoas, fazendo com que essas pessoas não consigam compreender que não há provas nem nenhuma outra razão para acreditar que os telemóveis possam afetar o cérebro ou outra parte do corpo. 
Que dizem do paradoxo os meus leitores que se interessem por lógica?

23 de janeiro de 2017

Pequenas notas sobre tu e outras segundas pessoas

«É Ego quem diz Ego» (Émile Benveniste, Problèmes de linguistique générale, 1958) 
«E é Tu aquele a quem se diz Tu» (Ego)

Nas línguas que conheço, quando desaparece a distinção, nos pronomes e formas verbais, entre um tratamento mais formal e um tratamento familiar, desaparece o tu e fica só o você. Foi o que aconteceu no inglês, no espanhol de uma parte da América Latina e na maior parte do português brasileiro.

Parece mais prático, não é?, e é o que eu ensinava aos meus alunos estrangeiros que iam para Moçambique: enquanto não tiverem uma noção clara de quem tutear, usem sempre o tratamento de terceira pessoa, mais vale ser demasiado formal que demasiado informal.

Em Portugal, a diferença só desapareceu no plural: só em poucas zonas se mantém o vós, em quase o todo o lado já só se usa o vocês. Em Espanha, o castelhano, pelo menos, mantém a distinção; ainda há um vosotros que é plural de tu e um ustedes que é plural de usted.

[Em Moçambique, já agora, o tratamento por tu/você é muito instável e observa-se com frequência que uma pessoa trate a outra às vezes por tu e outras vezes na terceira pessoa. Pode depender da situação (trabalho/tempos livres), mas nem sempre.]
  
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Usei atrás tutear. Dizemos muito mais tratar por tu que tutear e é pena, porque tutear é uma palavra bonita. Usa-se em espanhol, como se usa tutoyer em francês. O espanhol e o francês têm ainda ustear e vouvoyer, que não têm correspondente simples em português — só temos a expressão tratar por você.

 Em dinamarquês, existe a expressão være dus med nogen, «ser tu com alguém», que, além do significado original de «tratar por tu», tem um sentido mais vasto, como em português tratar por tu também pode ter («aquele gajo trata a bola por tu») e que se encontra também, em português, na expressão ser tu cá tu lá com alguém. Como diz uma célebre canção, quem trate por tu as aves e o arvoredo entende os corações que palpitam ao seu redor.

Poul Reichhardt, “Er Du Dus Med Himlens Fugle” (Erik Leth/Sven Gyldmark), 1958

    
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Quando falo aqui de tratamento por você, é ao tratamento na terceira pessoa que me refiro, não especificamente ao uso da palavra você. «Você é moço de estrebaria», costuma dizer-se — nem é familiar como tu, nem é verdadeiro tratamento de respeito, pensam alguns, e não se deve usar, pronto! Mas você — como tu ou as outras possibilidades de tratamento, aliás — é muitas coisas, conforme a circunstância e o tom. Dava um tratado, descrever em pormenor a complexidade das formas de tratamento, que ultrapassa em muito o uso das pessoas do verbo e os pronomes, nomes ou títulos que se lhes liga.

Quando conto aos meus alunos dinamarqueses que havia quem tratasse por tu os subordinados e exigsse que estes o tratassem na terceira pessoa, só os mais velhos fazem alguma ideia do que estou a falar. Mas, mesmo os mais velhos acham estranho quando lhes digo que trato por você a minha mãe, porque era assim que se fazia quando eu era miúdo e depois uma pessoa já não consegue mudar. E mais estranho acham quando explico que os filhos tratavam por você os pais e os pais os tratavam por tu. Só nas famílias de classes mais altas é que eu ouvia os filhos tratarem os pais por tu. Não sei se seria assim em todo o lado, mas era assim onde eu cresci. E, se eram famílias que se pretendiam muito finas, tratavam-se todos por você, marido e mulher e tudo. É capaz de ainda existir isso, não sei.
  
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Alguém me propunha uma vez que a criança sofre quando, depois de começar a vida sendo sempre ou eu ou tu, se dá conta de que os outros falam dela na terceira pessoa: «Afinal, também sou ela?» Não me lembro já de quem era a teoria… Conhecem-na? Parece-me algo estapafúrdia, explicada só assim, mas, se calhar, tem elementos que desconheço. Ou fui eu que inventei?

Bom, a verdade é que vi muitas pessoas a dirigirem-se a bebés na terceira pessoa, mesmo em línguas em que esse tratamento não existe para adultos:

– O bebé aleijou-se? Coitadinho, anda cá, anda cá…

Mas, sei lá, para quem fale inglês ou sueco, creio que isso de falar com alguém na terceira pessoa é mesmo coisa que só se faz a bebés e monarcas. Quando uma inglesa aprende português, fica sempre muito surpreendida quando falam diretamente com ela como se dela falassem. Tão surpreendida que pensa que estão a falar de outra pessoa:

– A Sarah já está cá há muito tempo?

«Que Sarah? De quem estará ele a falar? Espera, a Sarah sou eu… A Sarah quer dizer you…»

Só não é estranho para nós, que estamos habituados. Mas, mesmo para nós, pode ser estranho tratarem-nos por uma terceira pessoa diferente da que conhecemos. Lembro-me da primeira vez que recebi uma carta formal em italiano:

«Ela deverá confirmar, com a maior brevidade possível…»

Era a mim que aquilo se dirigia, Ella era comigo… Bom, tinha aprendido que lei, que também significa «ela», correspondia ao nosso o/a senhor(a). Mas a palavra lei é muito diferente da palavra portuguesa ela e aceitam-se melhor os seus vários significados. Ella como pronome da segunda pessoa é mais estranho para nós.
 
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 Varia muito, de língua para língua, a segunda pessoa formal: em francês e sueco, por exemplo, corresponde ao nosso vós, como já foi em Portugal, quando se falava com reis e mais gente nobre; em italiano é ela, como disse; em dinamarquês e alemão é eles

 Também há segundas pessoas, que não conseguimos decidir bem se são formais ou não, como o chamado «nós dos médicos» (a mim, soa-me a um tu paternalista, mas não sei):

– Então e que nos traz cá hoje?

E até a primeira pessoa é às vezes usada como tu  — por exemplo, em francês,  quando se diz a alguém que está a ser abelhudo:

– De quoi je me mêle, moi? («E eu em que que é que me estou a meter?»)

Agora, virando as coisas ao contrário, a forma da segunda pessoa também se pode usar para exprimir a primeira e a terceira pessoas. Tu pode ser eu

– E pronto, pá, tu chegas lá e eles começam todos a olhar para ti de lado. É claro, tu sentes-te mal. (sobre algo acontecido = «Cheguei lá e eles começaram todos a olhar para mim de lado. É claro, senti-me mal»)

… e tu pode ser um se genérico:

– Por mim, está tudo muito bem, que se alterem os horários. Agora, tu não podes é alterar os horários no dia anterior, as pessoas têm de saber com um mínimo de antecedência!
(quem alterou os horários não foi a pessoa com quem se fala = não se pode alterar os horários)

A regra geral parece ser que todos os pronomes se podem usar para todas as pessoas… ou quase.
  
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Pode discutir-se até que ponto o desaparecimento do thou em inglês, por exemplo, resulta de uma formalização das relações entre pessoas, mas o facto é que as relações entre pessoas não são essencialmente diferentes nos países de língua inglesa e nos países de língua portuguesa, castelhana, francesa e alemã em que se usam formas distintas para relações sociais mais ou menos próximas. E então, se não se marca proximidade ou distância com um pronome ou uma forma verbal, tem de se arranjar outra maneira de as marcar. Alguém me dizia uma vez que essa era uma das dificuldades do inglês: como se diz you a toda a gente, é mais difícil deixar claro se a outra pessoa é, para nós, tu ou a senhora.
  
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Também pode acontecer o contrário — que a alteração das relações entre as pessoas leve a uma alteração do uso de pronomes e formas verbais. Na Dinamarca (e a situação é, creio, quase igual nos outros países escandinavos), deitaram fora o você (De) nos anos 60 do século passado e toda a gente se trata por tu. Em mais de 10 anos de residência na Dinamarca, não me devem ter tratado por você mais de uma dúzia de vezes e foram sempre empregados de loja ou algum tipo de vendedores. Aqui trata-se o primeiro-ministro, seja lá quem for, sempre, mas sempre, por tu. Exceto a família real, claro, também não exageremos.

O resultado disto é que as novas gerações já não sabem usar o tratamento por você. Em princípio, a língua continua a ter formas pronominais para distinguir o tratamento formal do tratamento informal; mas, se esta distinção não foi interiorizada pelas novas gerações, está a tornar-se um arcaísmo, a desaparecer da cabeça dos falantes.

Um fenómeno creio que muito raro, mas, como se vê, possível: a influência direta da evolução social na evolução da língua.

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Isto as ideias são como as cerejas: uma pessoa começa a pensar em pronomes pessoais e começa a reparar em coisas em que nunca tinha reparado…

Os pronomes possessivos têm tido muita mais fortuna no discurso igualitário que os pronomes pessoais. Vi dezenas de vezes definir assim um ideal de radical igualdade, em imaginadas utopias ou em idealizadas sociedades «primitivas»: «não existe aí o meu e o teu». Mas não me lembro de alguma vez ter visto «não existe aí o tu e o você»…

17 de janeiro de 2017

A grafia como memória etimológica: duas curiosidades sobre ss e acentos circunflexos

A regra é esta: qualquer alteração na grafia, em qualquer língua, em qualquer altura, será sempre contestada.

Já desde 1990 que se deve suprimir a maioria dos acentos circunflexos no i e no u, mas a maior parte das pessoas continua a escrever como aprendeu («está bem, mas eu foi assim que aprendi, é assim que escrevo» é uma justificação frequente da não adesão a reformas ortográficas) e, de vez em quando, reaviva-se a contestação ao desaparecimento dos circunflexos. O argumento é às vezes a perda da memória etimológica: esses circunflexos assinalam o desaparecimento de um s latino.

Há quem argumente — com toda a pertinência, na minha opinião — que à maior parte das pessoas não interessa para nada a etimologia e que os que por ela se interessam não é com ortografias «etimologizantes» que a aprendem. Também se pode argumentar, porém, que essas grafias são um auxiliar do conhecimento etimológico que se adquire sem grande custo ao aprender a escrever, de maneira que é mais ganho que perda.

Não vou discutir aqui qual a melhor grafia para se aprender a escrever, até porque não domino bem o assunto. Vejo que os dinamarqueses, que têm uma grafia nem sempre muito fonética, aprendem a escrever com uma grafia artificial mais fonética («escrita de crianças») que é mais tarde corrigida — e parecem ter com isso bons resultados, ao que observo à minha volta. Mas não sei. O que sei, e é disso que quero falar agora, é que as grafias etimológicas, além de terem sido elas próprias muitas vezes introduzidas rompendo com a evolução natural da escrita, nem sempre são realmente etimológicas. Dou-vos dois exemplos, dos muitos que podia dar, dessas grafias etimoilógicas, como eu lhes chamo, porque de lógicas não têm muito.

Boite vem do latim buxida, que deu buxita, que deu bustia, bostia, boiste e boîte. Então, ao contrário do que muitas vezes se diz, o acento circunflexo de boîte não assinala(va) o desaparecimento de um s etimológico, mas apenas o desaparecimento de um s que houve numa determinada fase da evolução da palavra. De facto, ortografias conservadoras como a do francês não são etimológicas em sentido estrito (e existirá tal coisa?), mas muitas vezes refletem antes maneiras antigas de pronunciar as palavras — de várias épocas misturadas… E convém esclarecer, já agora, que a escrita parou numa época, há muitos séculos, em que se dizia /boite/como se escreve, mas, como sabem, a palavra continuou a evoluir: passou a dizer-se /buete/ e depois a /buate/, como se pronuncia agora.

Já em île, o acento circunflexo marca(va) mesmo o desaparecimento do s que tinha havido no latim i(n)sula. Agora, porque acharão os defensores das marcas etimológicas que se deve assinalar o desaparecimento do s latino e não o desaparecimento do u latino, por exemplo? É estranho. Aliás, não é só impossível definir o que se há de conservar do étimo, como é impossível definir o próprio étimo: as palavras latinas também têm uma história, não foram criadas do nada. Mesmo que, para simplificar, tomemos como étimo as primeiras formas escritas, a coisa é complicada: o étimo de boite passa a ser grego (πυξίς) e põe-se mais uma questão às preferências etimológicas: que escrita etimológica se deve ou pode usar para o que vem de outros alfabetos ou de outros sistemas de escrita?

Mas enfim, deixemos isso, tenho a certeza de que, chegados aqui, os meus leitores estão já mais que convencidos de que isso da grafia etimológica é uma grande confusão… Em île, dizia eu, o acento circunflexo assinala que houve ali um s que desapareceu da escrita e da pronúncia. Já no inglês isle, que vem do francês, o s nunca desapareceu… da escrita. Agora, o mais curioso é que island, que se pode relacionar semanticamente com isle, tem um s etimologicamente injustificado. A forma que deu island, igland, não tem s nenhum, mas alguém achou por bem ir buscá-lo a isle e acrescentá-lo à palavra, só para enfeitar... É de notar, já agora, que o isle inglês foi ile antes de ser isle, porque foi assim que foi importado do francês, numa altura em que as grafias il(l)e e isle coexistiam. Quando os franceses resolveram fixar, no séc XVI, a grafia com aquele bonito s, os ingleses acharam por bem imitá-los. Depois, os franceses substituíram o s por um acento circunflexo no i, mas os ingleses preferiram manter o s. Uma bonita história, não é?