27 de fevereiro de 2015

Línguas mortas

No dia 4 de Fevereiro de 2014, morreu Hazel Sampson e, com ela, a língua klallam, que ela era a última pessoa a ter como língua materna. Embora haja ainda algumas (poucas) pessoas que o falem como segunda língua, o klallam pode considerar-se uma língua morta. Língua morta pode precisamente definir-se como uma língua que já não é língua materna de ninguém.

Ninguém sabe ao certo o que é uma língua. Há muitas definições bastante satisfatórias de língua, mas, por um lado, é impossível definir-se os seus limites, na sua variação no tempo e no espaço; e, por outro lado, não se sabe de que consta ao certo a língua enquanto programa mental. Trocando por miúdos, e insistindo no que interessa mais para a questão que aqui trato, quer isto dizer, por exemplo, que ninguém sabe em que momento é que o romance falado na parte ocidental da península ibérica se pode passar a designar como português; e quer dizer também que não se sabe onde estão armazenados, como estão estruturados e como funcionam ao certo a imensa base de dados e os inúmeros mecanismos que nos permitem falar e compreender uma língua.

Para compreender o que é a morte de uma língua, é útil ter presente esta conceção de que a língua é uma estrutura que, em abstrato, pertence à comunidade dos seus falantes e que nela evolui, mas que, em concreto, se encontra instalada, na sua forma integral, no cérebro de cada uma das pessoas que a têm como língua materna. A língua morre de facto quando morre o seu suporte físico – quando deixa de ter falantes. Por muito que haja uma descrição exaustiva do léxico e da gramática dessa língua, essa descrição fica sempre muito aquém da estrutura complexíssima que os falantes nativos têm na mente. A analogia com um programa de computador funciona aqui relativamente bem: imaginem um programa que, por uma razão qualquer, já só existe no disco rígido de um único computador e que esse disco rígido é destruído. O programa desaparece. Pode haver uma descrição detalhada do que ele produzia, mas isso não impede que já não haja aquele programa[1].

Há dois tipos de línguas mortas: as línguas com mortes datadas (seja ou não conhecida a data da morte) e as línguas de que é impossível determinar quando morreram[2]. No primeiro caso, está uma língua como o klallam; no segundo, uma língua como o latim. No primeiro caso, o que acontece normalmente é que, por terem pais falantes de duas línguas diferentes, os filhos não adquirem a língua de um dos pais. Quando uma língua é muito minoritária, vão ficando, por este processo, cada vez menos falantes da língua e, a certa altura, morre o último – e, com ele, a língua. No segundo caso, a língua vai-se modificando e, ao fim de muito tempo, já toda a gente fala uma versão tão diferente da língua que é considerada outra língua. Para usar o exemplo do latim, o latim falado em grandes zonas do império foi evoluindo lentamente e foi-se diferenciando de região para região, e a certa altura, deixou de ser referido e entendido como latim[3] – passou a ser chamado português, galego, castelhano, asturiano, aragonês, catalão, valenciano, etc., etc., etc. Mas é impossível determinar-se quando o latim deixou de ser falado, porque ele foi sempre sendo transmitido de pais para filhos, sem a interrupção que se verifica em casos como o do klallam.

Lembro-me de duas máximas muito úteis que aprendi quando comecei a estudar linguística: “em cada momento, uma língua é sempre o resultado da transformação de um seu estado anterior” e “uma língua é um dialeto com exército e marinha”. O que esta última máxima quer dizer é que a identificação de uma língua é mais frequentemente de caráter político que propriamente linguístico. O norueguês bokmål e o dinamarquês são sempre considerados línguas diferentes, mas, se a Noruega e a Dinamarca não fossem países distintos, haveria, muito provavelmente, quem os considerasse duas variantes dialetais da mesma língua. Se se pensar também em variantes temporais em vez de apenas variantes dialetais, temos que o latim deixa de ser considerado latim quando desaparece o império romano e se criam, no espaço que este ocupava, várias outras unidades políticas. Mas as pessoas não mudaram de língua no ano de 476 ou lá quando se queira considerar o fim da Roma imperial, nem em nenhum momento concreto: os filhos continuaram sempre a aprender a língua dos pais – que se foi sempre alterando um bocadinho, como as línguas sempre se alteram[4].

Parecerá agora claro (espero…) a toda a gente que destas constatações simples se pode derivar que são línguas mortas todos os estados anteriores, que já ninguém fala, de uma língua atual. Usando qualificações como arcaico, antigo, medieval, clássico, etc., para as línguas existentes, obtemos forçosamente línguas mortas. Agora, se a designação de língua morta é standard para, ponhamos, o grego antigo ou clássico, a que se opõe a língua viva grego moderno, é-o talvez menos para línguas mortas como o português, o espanhol ou o francês arcaicos[5]. É claro que a proximidade temporal e, por conseguinte, a proximidade linguística, do que se designa como português arcaico e do português atual é muito maior que a do grego do tempo de Sócrates e do grego atual (e provavelmente até que a do inglês do tempo de Chaucer e do inglês atual), mas duvido que um português atual entenda sem problemas o português dessa época e até que reconheça o português dessa época como sendo a sua língua – o português atual é provavelmente mais próximo do castelhano atual, por exemplo, que do português do tempo de Afonso Henriques...

Dito de uma maneira mais pomposa, que é como se costumam resumir as coisas em fim de texto, para a grande maioria das línguas atualmente existentes[6], há um continuum de língua(s) morta(s) que são as suas fases passadas – que já ninguém fala. No fundo, a língua é (como) um organismo vivo: também para a língua, a morte é o preço a pagar pela possibilidade de evoluir.

Finalmente, a propósito da gravidade da morte das línguas, gostava de dizer algumas palavrinhas. É frequente considerar-se um drama o desaparecimento de um língua, porque, defende-se muitas vezes, é uma cultura ou uma mundovisão que desaparece com a língua que morre. Não cabe aqui desenvolver as complexas questões da relação entre língua e cultura ou entre língua e conceção/perceção da realidade (já o fiz aqui, por exemplo), mas parece-me que há uma grande dose de (etno-)romantismo nesta ideia[7]. Evidentemente, há a parte moral (e política, forçosamente) da questão: são aceitáveis os motivos que levam a que as línguas fracas sejam destruídas pelas línguas fortes? – e fraco e forte aqui também tem mais a ver com exército e marinha, que é como quem diz prestígio e poder económico, que com alguma característica propriamente linguística… E há a parte científica, sobretudo se a língua desaparecer sem dela haver bons registos e/ou descrições… E há a parte emotiva, claro. Acho muito bem que se faça tudo o que se pode para preservar uma língua de que se gosta, claro, e esse esforço nem precisa, aliás, de outras justificações que não sejam o amor que se tem a essa língua. Mas, se há alguns exemplos de revitalização de línguas, não há grandes provas de que, nas condições em que morre a maior parte das línguas, tais esforços tenham qualquer resultado e discutem-se os prós e contras de políticas de revitalização[8].

Uma maneira de desdramatizar a questão é pensar que, com rigor, a língua que qualquer ser humano fala ou falou será um dia ou é já… uma língua morta.

______________________

[1] No caso de um programa de computador, é provavelmente mais fácil, a partir apenas da descrição das funções e resultados de um programa que não sabe qual é, criar outro programa que, embora diferente, tenha funções e produza resultados semelhantes. No caso da língua, as ciências linguísticas e as neurociências estão muito, muito longe de conseguir (por exemplo), a partir de uma descrição do klallam, pôr na cabeça de alguém alguma programação linguística que produza os mesmos resultados que produzia aquela que Hazel Sampson e os outros falantes da língua tinham no cérebro…
[2] Já encontrei quem distinga os dois tipos chamando línguas extintas e não línguas mortas às primeiras, mas não me parece que esta distinção seja muito comum.
[3]
Na região do Trentino-Alto Adige e do Vêneto, em Itália, porém, continuou sempre a ser designado como ladin. Também a língua dos judeus sefarditas continuou sempre a chamar-se ladino.
[4] Isto não acontece sempre de forma contínua e progressiva. Pode haver momentos de ruptura em que há grandes transformações, devido a, por exemplo, imposição política de uma língua estrangeira, grandes migrações de populações, etc. Mesmo estas convulsões não produzem mudanças num momento determinado, mas sim num espaço de tempo mais alargado, de várias gerações.
[5] …e provavelmente menos ainda para coisas como ndebele arcaico…
[6] Os crioulos, línguas nascidas “de repente”, “sob pressão”, são exceção a esta regra geral.
[7] Um bom exemplo de uma visão hiper-romântica da questão é a ideia de suicídio linguístico como forma de suicídio cultural, que se encontra neste texto de Caroline Davies (em inglês). Proponho, para contrabalançar tanto romantismo, uma discussão simples e muito sensata (também em inglês) da questão das morte das línguas por Morris Alper.
[8] A entrada da Wikipédia sobre a questão da revitalização das línguas dá informação básica sobre o assunto e pode também ser um bom ponto de partida para quem queira aprofundar a questão.

17 de fevereiro de 2015

O tempo e a sua falta

Sempre me custou perceber a afirmação, tantas vezes repetida, de que o tempo não tem realidade, que é só ilusão que criámos e veneramos. Nunca tal se diz do espaço, porque será?, só do tempo – como se se pudesse ficar nalgum lado ou ir a algum lado sem que passe tempo. Existir no espaço sem tempo e no tempo sem espaço é atributo de ubíquas e eternas divindades, nada que os animais conheçam. O que os animais conhecem é o que lhes dizem os sentidos. E eu e o meu cão, os tordos e as abelhas, todos sentimos o tempo passar. E ainda bem que assim é. Tentem conceber alguém que não tivesse a capacidade de sentir o tempo, para quem não houvesse antes e depois. Não conseguem, pois não?, é-vos tão impossível conceber tal coisa como conceber alguém para quem o mundo não tivesse profundidade e vivesse apenas dentro de uma imagem plana.

Ilusão, o tempo? Criação nossa apenas, ficção? Ora, haverá no mundo alguma coisa em que esbarremos mais que no tempo, outra coisa que tenha uma tão cruel materialidade? Ah, porque se pode perceber de maneiras várias, porque uma hora com uma rapariga bonita é mais curta que um minuto sentado em cima do bico aceso de um fogão*… Claro, como tudo o que existe. Mas isso só mostra bem que existe fora da maneira como cada um o percebe, senão como poderia ser percebido por cada um de maneira diferente?

***
Às vezes, uma pessoa esforça-se tanto por dizer coisas novas que acaba por dizer coisas que têm pouca ou nenhuma relação com a realidade. E está muito bem assim. Outras vezes, quer mesmo falar do que acha importante e não tem remédio senão repetir o que já disseram milhares de pessoas antes dela, porque o que é importante para cada um de nós foi e continua a ser importante para muitos outros em muitos tempo e lugares. Escrevi muitos textos sobre tempo, quase todos a rimar. Falam do contra-senso que encerra a expressão matar o tempo, que é coisa que não se pode (pois se é o tempo que nos vai matando a nós!); falam de envelhecimento como consciência cada vez mais aguda de que um dia tudo se acaba. Que pode haver de mais importante e de mais banal que isto?

***
Quando era rapaz novo, impressionava-me a deslumbrada ânsia de viver de Dean Moriarty, personagem de On the road de Jack Kerouac, e o seu “conhecimento do tempo”. “Nós conhecemos o tempo”, repete ele várias vezes no livro. Para Dean, conhecer o tempo é ser capaz de o desacelerar e curtir a vida, e, para isso, é preciso deixar de tomar decisões, de querer decidir o futuro, deixar-se ir apenas – atrás da vida, para onde ela o chamar. E eu e os meus amigos, aspirantes a beatnicks que éramos, tentávamos convencer-nos mutuamente da validade dessa fascinante ideia e de que tínhamos essa superior capacidade. “Nós conhecemos o tempo!”, repetíamos nós, “Nós conhecemos o tempo!”

A personagem de Dean Moriarty é inspirada numa pessoa concreta, Neal Cassady. Em The First Third, um texto autobiográfico, Neal Cassady conta que o seu irmão Jimmy o fechava numa cama embutida na parede, às vezes horas a fio. Neal diz que, literalmente emparedado, sentia que o tempo “ia acelerando até atingir o triplo da sua velocidade normal”. E ele, horrorizado, com medo de se mexer e de gastar a sua reserva de oxigénio, aprendeu a “viajar no tempo”, deixando-se, às vezes, ir na corrente do tempo e transformando-a, outras vezes, numa enxurrada. A única maneira de resistir ao pânico, ao mais absoluto desespero, era aprender a “conhecer o tempo”, a modelar a perceção que dele tinha. Que mais pode fazer – se o conseguir… – quem deixa literalmente de ter tempo, quem não vê, depois deste agora que está a chegar ao fim, nem um bocadinho de futuro?

Não é dar o dito por não dito, não é isso. É dar conta de dor, de impotência. É certo – pode ser certo – que, às vezes, o tempo não existe. Falta-nos, não há. Se for só para acabar de pintar a cave ou para dar forma definitiva a um texto de blogue ou para ler aquele livro que queríamos mesmo ler, ainda é como o outro… Que nos falte, não há problema. Mas pode-se, aos 28 anos, por exemplo, não ter já tempo para nada a não ser sofrer dores e a angústia da morte iminente. Um mês mais, mais seis meses? Uma vez, ouvi alguém desimportantizar um anúncio de morte: “Morte anunciada, como na crónica do outro, o que é isso?” A morte, dizia essa pessoa, é-nos anunciada a todos em criança. É uma afirmação insuportavelmente cruel para aqueles a quem tenha sido anunciado que não lhes resta já muito tempo. E é assim também, não é?, a asserção ligeira de que “o tempo, isso não existe, nós é que o fazemos, o tempo”, para uma pessoa que não pode fazer – nem desfazer – tempo nenhum...


____________________

* Esta explicação que Einstein deu da relatividade mostra que nem ele a consegue explicar de maneira simples – é que esta explicação não explica nada, convenhamos… (Mas desta vez, é mesmo dele, vá lá, são referidas em três obras formulações ligeiramente diferentes da mesma ideia: James B. Simpson:1957; William Hermanns:1983; Alice Calaprice: 2005)

12 de fevereiro de 2015

O motivo da sombra como origem do desenho

Giorgio Vasari, Autorretrato, 1561-1569
Em meados do século XVI, Giorgio Vasari pintou um fresco chamado Autorretrato, em que uma personagem se desenha a si própria, usando os contornos da sua sombra na parede.

Matías de Arteaga, A Origem da Arte da Pintura, 1665?

Cerca de 100 anos posterior a este fresco é um quadro chamado A Origem da Arte da Pintura, de Matías de Arteaga[1], que repete o motivo do desenho do contorno de uma sombra na parede. Não é agora um autorretrato que a obra representa, mas um homem que desenha, também numa parede, o contorno da sombra de outro homem, perante vários observadores. No dístico em baixo à direita, lê-se “Tubo [sic] de la sombra origen la que admiras hermosura en la célebre pintura” [“Teve na sombra origem a que admiras formosura na célebre pintura”].

Joachim von Sandrart, 1675
A estranha ideia de que se começou a desenhar contornando uma sombra surge em dois textos clássicos do séc. I, publicados com poucos anos de intervalo entre eles. No livro X da Institutio Oratoria (95), Quintiliano diz que, se todos se tivessem limitado a imitar os seus predecessores, “não haveria poesia superior à de Livius Andronicus, nem em História nada que ultrapassasse os Anais dos Pontifícios; os nossos barcos seriam ainda jangadas e a arte da pintura limitar-se-ia a contornar com um risco as sombras que projetam os corpos à luz do sol[2]”. No capítulo 12 do livro XXXV da sua História Natural (77-79), Plínio, o Velho, conta que Cora, a filha de um oleiro de Sicião chamado Butades, traçou numa parede o contorno da sombra nela projetada pelo rosto de um rapaz por quem estava apaixonada e que partia para o estrangeiro. O gravador alemão Joachim von Sandrart publica em 1675, na sua Teutsche Academie, uma gravura representando os dois textos fundadores da ideia. A imagem de Quintiliano, que era muito mais simples, nunca se tornou um motivo da pintura europeia; a de Plínio, porém, que era muito mais sedutora pela história de amor que incluía, foi, desde essa altura, pintada várias de vezes.

Para vos dar uma lista reduzida, a cena de Cora desenhando a sombra do seu amado foi pintada, no séc. XVIII e no séc. XIX, por Jean Raoux (1717), David Allan (1775), Joseph Wright (1784), Jean Baptiste Regnault (1785), Joseph Benoit Suvee (1793), Felice Giani (data desconhecida, início do séc. XIX), Heinrich Eddelien (1830), Karl F. Schinkel (1830), Eduard Daege (1832), Mariano Fortuny (1858) e Ignotas Mauricijus Ščedrauskas (1865).


La fanciulla di Corinto, de Felice Giani, início do séc. XIX e duas versões de Cora, A filha de Butades de Sicião, de Mariano Fortuny (1856-1858)
O motivo extravasa também da pintura. Particularmente interessante é esta fotografia e o seu título: “O primeiro negativo”.
Oscar Gustav Rejlander, The First Negative, 1857
Aparece nalgumas edições de obras de Johann Kasper Lavater uma máquina de desenhar silhuetas por ele concebida. Esta é uma das gravuras que a representam, desenhada por J. R. Schellenberg para uma edição inglesa de 1781, mas há outras imagens desta máquina. Não sei se alguma vez chegou a ser produzida e também não sei se o inventor se inspirou ou não na história de Plínio.

Agora, que se chame a estes quadros a “invenção” ou a “origem” da “pintura” ou do “desenho” mostra que, como seria talvez de esperar, a ideia se espalhou oralmente e não através da leitura de Plínio, já que a história original descreve não a invenção da pintura ou do desenho por Cora, mas sim da invenção da “arte de modelar retratos de barro” pelo seu pai (embora Butades tenha feito essa invenção “por intermédio dela”). O capítulo chama-se, aliás, “Os inventores da arte de modelar” e a história acaba assim[3]:
Aplicando-lhe barro a este contorno, fez um modelo em relevo, que cozeu depois com os seus outros trabalhos de cerâmica. Diz-se que este modelo foi conservado vários séculos no Santuário das Ninfas, em Corinto, até Lúcio Múmio destruir a cidade.



[Este pequeno artigo não tem muito de original, já que apenas reorganizei, acrescentando apenas um ou outro ponto, a informação e as pinturas já recolhidas noutros blogues, nomeadamente aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. Há também várias obras mais modernas em que o motivo subsiste, mas começa a aplicar-se a novas personagens e a novos jogos de referência com intenções diversas. Encontram algumas delas nas cinco hiperligações no primeiro período deste parágrafo. Fico também sempre com muitas dúvidas sobre como se vê uma página com tantas imagens em ecrãs mais pequenos ou maiores que aquele em que foi concebida. Se a formatação vos surgir disparatada, peço desculpa, é obviamente uma das limitações deste formato de blogue. No meu ecrã, está tudo certo...]

___________________

[1] O quadro encontra-se no Museu Nacional de Arte da Roménia. Segundo o site do Museu, o quadro é da autoria de Matías de Arteaga, se bem que encontre o nome Esteban Murillo na moldura. Noutros sites, bem menos fiáveis, é certo, o quadro é atribuído a Murillo, que foi professor de Arteaga. Segundo Jesusa Vega González, em Ciencia, arte e ilusión en la España ilustrada, o quadro era antigamente atribuído a Murillo, mas é atualmente atribuído a Arteaga.

[2] Traduzo eu, a partir desta e desta traduções inglesas.

[3] Traduzo eu desta tradução inglesa

Não saber

Dizia alguém no outro dia (já não me lembro quem, peço desculpa) que é raro assumir-se a ignorância no espaço público, que ninguém quer dizer que não sabe, mesmo quando é óbvio que é esse o caso. Não sei se é bem assim. Também não faço ideia se a assunção da ignorância é mais rara no espaço público que em privado. É curioso: dou-me conta de que a frase “não sei se é bem assim” não é normalmente uma simples declaração de ignorância, que era o que eu aqui queria fazer, mas antes um desacordo cortês ou moderado, correspondendo a algo como “creio que não é bem assim”…

Sublinha-se muitas vezes, e com toda a justeza, que a assunção da ignorância, nem que só perante si próprio, é uma posição cognitivamente válida, e umas das mais válidas até, porque é o ponto de partida para o inquérito e, portanto, para a expansão do conhecimento: se não assumir que não sei, não vou estar disposto a aprender. Mas não só: a assunção da ignorância pode valorizar-se também como posição puramente negativa de racionalidade, arrumação da vida e modéstia, que não leva forçosamente à procura de conhecimento: “Isto não sei e não vou saber, porque não é o que mais me interessa e não tenho tempo para procurar saber tudo – deixo isto a quem saiba ou queira saber desta questão.”

Uma questão relacionada com esta é a dos resultados negativos, seja na investigação científica seja em qualquer outro tipo de pesquisa: “Pensei que podia ser isto, mas não é; depois, pensei que podia ser antes isto, mas também não é… Não sei o que poderá ser.” Muitas vezes, estes resultados não se aceitam, pura e simplesmente, e são outras vezes olhados de soslaio: “Então?” Mas eu acho que se devem aceitar os resultados nulos de qualquer investigação como tendo exatamente o mesmo valor de qualquer conclusão positiva, até porque os resultados nulos não são nulos em sentido estrito – saber que não é o que se pensou que pudesse ser já é saber muito. [Ah, apesar dos preconceitos contra os resultados negativos, existem algumas revistas especializadas na publicação de resultados negativos, como o Journal of Negative Results e outros.]

5 de fevereiro de 2015

Do correto e do incorreto, politicamente ou não

Parece que dizer mal do “politicamente correto”, da pretensa tirania do “politicamente correto”, se tornou politicamente correto em certos círculos, mas eu acho isso incorreto (também politicamente), como acho incorreto definir-se o politicamente correto como se se tratasse de um determinado conjunto de ideias ou posições. Esta frase diz, a bem dizer, tudo o que quero dizer, mas, para não ser mal interpretado, explico-me melhor:

O que é politicamente correto varia conforme a perspetiva política de cada pessoa. Correto é um termo de aprovação*. Para um conservador, é correto (em qualquer sentido do termo) afirmar que o feminismo veio dar cabo da ordem social, que é natural as mulheres terem menos cargos de chefia, etc., ou que a desigualdade é um fenómeno natural entre humanos, pelo que o igualitarismo é uma utopia com maus resultados, e por aí fora. Para um feminista ou uma igualitarista, como eu, é o contrário disto que é correto. Não se vê, portanto, por que razão há de um conservador chamar politicamente correto ao que acha incorreto, para vir, em seguida, dizer que o “politicamente correto” causa muitos problemas, em vez de dizer, muito simplesmente, que acha incorreto o que afirmam certas pessoas (e explicar porquê, de preferência, mas não obrigatoriamente…).

Insisto: correto é, quando aplicado a ideias morais, exatamente como bom: um termo de aprovação, sem veleidades referenciais. Imaginemos que eu acho que aquilo de que o meu amigo Zé gosta é feio. Em vez de dizer que acho feio, devo antes pôr-me a dizer que o bom gosto dele é problemático? A ideia, muitas vezes implícita, às vezes explícita, na crítica ao politicamente correto é que o pretenso “politicamente correto”, por ser dominante, implica autocensura ou ostracismo de quem pense de outra forma. Mas continua a ser uma ideia estapafúrdia: a autocensura e o ostracismo existe sempre que há uma posição dominante, independentemente de ela fazer ou não parte do que os críticos do “politicamente correto” definam como “politicamente correto”. Quando racismos e xenofobias várias (acho que não poder dizer mal ou troçar das pessoas de outras etnias e crenças é um dos pretensos erros que imputam ao tal “politicamente correto”, gostava de perceber porquê…) eram a maneira de pensar dominante, por exemplo, muitas pessoas autocensuravam declarações igualitárias ou eram ostracizadas por as terem feito. E se uma pessoa é criticada por afirmações racistas ou xenófobas, não é porque exista a tirania de nenhum politicamente correto, é porque as pessoas que a criticam acham, com toda a justeza, que são criticáveis afirmações desse tipo. Voilà!

A moral da história é simples: politicamente correto é, para cada pessoa, o que ela achar politicamente correto. Quando essa pessoa quiser discordar das ideias políticas dos outros, faça isso mesmo, discorde, por favor, diga que acha essas ideias políticas incorretas, sem o disparatado artifício retórico de dizer que há algum problema num pretenso conjunto fixo de ideias a que se possa chamar politicamente correto.

____________________

* Correto é sempre um termo de aprovação, mas não tem sempre o mesmo valor modal: há contextos em que correto significa “verdadeiro”:
“Grande parte de Lisboa foi destruída por um terramoto em 1755”
“Sim, isso é correto”
ou
“Sete vezes seis são quarenta e nove”
“Não, isso não é correto”.
No contexto da discussão que aqui tenho, a expressão não tem este valor. Isto não significa que a expressão signifique uma coisa para cada pessoa: é porque ela significa o mesmo para toda a gente que podemos discordar daquilo a que ela se aplica. Isto também não significa de modo algum que eu defenda algum tipo de relativismo radical segundo o qual o recurso a universais ou observáveis de algum tipo não cabe na discussão moral (a política é uma parte da moral); mas não posso arredar da discussão política quem se recuse a aceitar evidência, além de que, sobre muitas questões morais, não há evidência conclusiva ou as partes em conflito invocam evidências mutuamente contraditórias, cada qual a seu favor.

Defesa de um bocadinho de realismo, mais uma vez: um argumento económico

Interrogar-se-ão os meus amigos e talvez também outros leitores: “Mas porque insiste este homem nesta conversa?” Bom, não será bem espírito de missão, mas é certo que esta é uma das minhas guerras, digamos assim, e, para não ser tão pesada a insistência, achei por bem mudar de tom – uma vez sem exemplo, vá. A razão mais imediata do texto, porém, foi uma aparição. Um ser bastante fantástico, talvez anjo, talvez demónio, apareceu-me em sonhos, revelou-me a verdade e instruiu me. “Os argumentos económicos têm muita força”, disse-me ele para concluir a sua revelação, “porque o que manda na vida da malta é o carcanhol…”

Às minhas leitoras e aos meus leitores que acreditem que verdade é apenas outra maneira de dizer crença e que acreditem que não há nada objetivo, mas apenas olhares sobre o mundo, cada qual tão válido como qualquer outro, quero comunicar que me devem 120 euros, que agradeço que me paguem com a maior brevidade possível, muito obrigado, porque (cito não uma pessoa específica, mas muitas pessoas ao mesmo tempo) “a vida custa a todos e isto ‘tá mau”.

Podem argumentar que não têm conhecimento da dívida e que não posso provar que me devem esse dinheiro. Mas isso é a vossa visão, eu tenho outra diferente, que também é verdade, não se esqueçam. Ou seja, é verdade que me devem dinheiro. Além disso, sabem com certeza que é impossível provar a inexistência seja lá do que for, de maneira que é inútil tentarem provar que a vossa dívida não existe – o que seria, aliás, contra os vossos princípios de que não há provas definitivas de coisa nenhuma e que a verdade é só uma crença. Evidentemente, podem não pagar e eu não tenho maneira de vos obrigar a fazê-lo, porque a lei retrógrada que temos se baseia no disparatado princípio positivista de que é preciso provar que alguém nos deve dinheiro para se lhe exigir pagamento; mas não se livram de vos considerar uns grandes caloteiros, porque essa é que é a (minha) verdade.

As outras minhas leitoras e os outros meus leitores que acreditam que o bom senso nos obriga a aceitar por verdade apenas aquilo que se pode demonstrar de modo a ser percebido por todos, esses não me devem nada.

30 de janeiro de 2015

Paisagem desabitada e paisagem com gente a mais

Apesar das (boas) intenções de muita gente de promover, em várias partes do mundo, um desenvolvimento assente na agricultura e na pecuária, a verdade é que desenvolvimento, pelo menos no sentido mais comum da palavra, implicou sempre e continua a implicar migrações de uma grande parte da população do campo para a cidade. Em todo o mundo houve e continua a haver quem, mitificando ou não as vantagens de um estilo de vida urbano, se disponha a abandonar o campo e a vida do campo, sem saber ao certo o que a espera na cidade. Um dos resultados de uma fase inicial desse movimento é sempre a criação de enormes bairros da lata nos subúrbios das cidades, que, em vários aspetos, contrastam tanto com os centros urbanos como com as zonas rurais. Se a escolha dos migrantes tem ou não alguma base de racionalidade é algo que se discute: enquanto muitos chamam a atenção para os perigos dos subúrbios pobres, insalubres e desorganizados das grandes metrópoles e apelam à necessidade de travar o êxito rural, outros afirmam que, contra a impressão maioritária, mesmo nos caóticos bairros da lata das cidades do terceiro mundo, as pessoas têm melhores condições de vida que nas zonas rurais e que trocar a aldeia pelo bairro da lata é, pois, uma decisão mais razoável do que muitas vezes se pensa.

A tendência para o êxodo rural não parece inverter-se em lado nenhum do mundo. Nos países europeus do século XXI, porém, tem características diferentes do de outros tempos e lugares, porque, em princípio, os habitantes das zonas rurais dos países ricos têm um nível de vida que lhes permite (ou devia permitir) viver no campo com condições de vida semelhantes às da cidade. Mas não ficam nas zonas rurais. Algumas delas estão a ser rapidamente abandonadas.


Parte sul de Ærø, foto de Aconcagua, 2011, de Wikimedia Commons
A motivação imediata deste texto foi a ilha de Ærø, aqui perto de onde moro, na Dinamarca, mas fiz depois uma viagem mental a algum Portugal do interior que conheço de povoações semiabandonadas e população envelhecida. Em Ærø, a tendência há muito constante de abandonar a ilha está a agravar-se: soube que, do decréscimo anual de cerca de 75 habitantes que se verificava há vários anos, passou a haver este ano menos 150 pessoas com domicílio na ilha. “Éramos 12 mil quando a minha família para lá se mudou, era eu rapariga. Agora, somos só 6 mil”, disse-me uma senhora que conheci no comboio de Odense para Svendborg.

É igual em todo o lado, apenas mais visível em ilhas pequenas como Ærø, o ciclo vicioso dos efeitos do êxodo rural nos serviços existentes, cuja deterioração leva a mais êxodo rural: as escolas fecham, porque o preço por aluno é inaceitável – e isso obriga as famílias com crianças a abandonar a ilha; os serviços vão desaparecendo um a um – e, com eles, os poucos postos de trabalho locais; a assistência médica passa a estar disponível apenas nos centros urbano mais próximos – o que motiva os mais velhos a mudarem-se para lá…

Não analisei o assunto em pormenor. É só um esboço de reflexão que proponho – partilha de apontamentos mentais, se quiserem, de questões para que não tenho resposta satisfatória. Por exemplo: A tendência tem sido interrogar-se sobre como fazer chegar aos cada vez menos habitantes das zonas rurais os serviços disponíveis nas zonas urbanas, mas é ou não possível e desejável tomar medidas para travar e – sobretudo – inverter a tendência de êxodo rural nos países ricos? Muitos jovens deixam voluntariamente o campo, mas há também muita gente que só o faz por falta de condições para aí continuar a viver – deve obrigar-se essas pessoas a mudarem-se contra a sua vontade? Satisfaz-nos uma distribuição da população em que a grande maioria dos habitantes se concentre nas capitais e o resto do país fique deserto de gente ou queremos ver vida humana em todas as regiões? E porquê? Traz ou não problemas a concentração maciça de pessoas?

Quem acha que a economia não se deve regular e que deve ser a economia desregulada a determinar os movimentos de populações achará que tudo isto é, quando muito, uma evolução triste – mas inevitável. Quem pensa que compete à política ajudar a modelar o futuro de um país, empurrando na direção que a maioria das pessoas acha correta, e tendo em conta mais que apenas o custo imediato das diversas opções, pode tentar tomar medidas para contrariar a tendência de êxodo rural. Que haja muito mais gente a viver da terra, mesmo que se incentive e se desenvolva a produção biológica, é impensável hoje em dia. Para alterar esta tendência,  é preciso, no fundo,  ponderar, calcular e propor uma forma de manter fora dos grandes centros urbanos uma vida com as características associadas durante muito tempo à vida urbana, mas sem a concentração de prédios e pessoas. As regalias fiscais, quer para as empresas que criem postos de trabalho no campo, quer para as pessoas que aí comprem propriedade e aí se instalem, parecem uma das medidas mais óbvias. Mas é uma questão complexa, parece-me a mim, e, a menos que se gaste muito dinheiro – que literalmente de alguma forma se pague às pessoas para ficar ou investir onde os outros não ficam nem investem –, ninguém vai querer viver nem investir onde os impostos são baixos e o imobiliário barato, se não houver escolas, clínicas médicas e outros serviços básicos. E estes têm de existir à partida para atrair as pessoas; não acredito que possam ser criados numa segunda fase em que, depois de as pessoas terem sido atraídas sem eles, se justifique a sua criação.

Como disse, são sobretudo dúvidas que tenho. Também pode ser que se esteja a empolar o problema de ficar com países inteiros de paisagem humanizada por séculos de vida rural e agora desabitada de humanos, e com a população toda – ou quase – reunida nas grandes metrópoles. Mas, insisto na pergunta inicial, é isso que queremos? Ou é isso que devemos aceitar?, se preferirem. No caso de Portugal, por exemplo, o que pensamos da ideia de tornar literal o velho rifão localista que diz que Portugal é Lisboa – ou o Porto – e o resto é paisagem?

22 de janeiro de 2015

O inglês em Portugal e o inglês dos portugueses

I
Em meados de Novembro último, foi publicada em jornais de vários países, uma notícia sobre a competência em inglês em 63 países em todo o mundo, 23 dos quais europeus, mas nem todos da União Europeia. Vi alguns portugueses reagiram à notícia de que Portugal era dos países onde pior se falava inglês na Europa (só a Eslováquia, a Itália, a França, a Rússia e a Ucrânia têm piores resultados) com alguma surpresa e até indignação – como é possível que digam que os espanhóis falam melhor inglês que nós? E houve quem apontasse que o estudo referido na notícia não era fiável, porque os números resultavam sobretudo de um teste voluntário em linha, feito por uma escola de línguas.

Tem a razão a crítica. Mas os resultados que apresenta não me parecem, no geral, surpreendentes por aí além. Não consegui, na pesquisa rápida que fiz, encontrar informação fiável sobre a competência em inglês como língua estrangeira na Europa e sobre qual o nível dos portugueses nessa língua. Mas encontrei alguns números que me parecem interessantes sobre o conhecimento de línguas estrangeiras em estudos da UE. Falar mais e falar melhor são, naturalmente, coisas diferentes e a informação que se segue diz, às vezes, respeito só a quantidade, às vezes a qualidade, e outras vezes às duas coisas.

Segundo o estudo da UE How many adults actually speak a foreign language?, com dados de 2007 e publicado em outubro de 2010 (UE 2010)[1], 26% dos portugueses dizem falar bem pelo menos uma língua estrangeira e outros 22% dizem ter conhecimentos básicos/razoáveis de pelo menos uma língua estrangeira[2]. Portugal está abaixo da média europeia e também da média dos outro países latinos. Portugal e a Hungria são os países onde menos adultos falam línguas estrangeiras. Estes números são confirmados em 2012, no relatório Europeans and their Languages (UE 2012)[3]. Segundo este estudo, Portugal, com 61% de pessoas que não falam nenhuma língua estrangeira, está efetivamente na cauda da UE em termos de cohecimentos de línguas estrangeiras. Só a Itália e a Hungria têm maior percentagem de pessoas que só falam a sua língua. Os portugueses, juntamente com os húngaros, são também os que menos falam duas línguas estrangeiras (só 13%). Em Portugal, as línguas estrangeiras mais faladas são o inglês (27%) e o francês (15%); em Espanha, são também o inglês (22%) e o francês (16%); em França, o inglês (39%) e o espanhol (13%); e, em Itália, inglês (34%) e francês (16%). Os franceses, apesar dos preconceitos existentes contra o seu interesse e capacidade em inglês, têm de facto uma média acima da europeia. Portugal ocupa, juntamente com a Eslováquia, o quarto lugar a contar do fundo da tabela da percentagem de pessoas que dizem falar suficientemente bem o inglês para manter uma conversa nessa língua. Além disso, e isto é também muito interessante, em Portugal, 68% das pessoas que falam línguas estrangeiras usam só ocasionalmente a sua primeira língua estrangeira. Com apenas 7% de pessoas que a usam todos os dias ou quase, Portugal tem a mais baixa percentagem de uso diário regular de língua estrangeira – é um país onde a vida decorre a bem dizer sempre em português. Portugal tem também a maior percentagem de inquiridos que nunca estudaram uma língua estrangeira (48%), seguido da Espanha (41%), e de Itália e do Reino Unido (32% cada um). Parece-me também interessante que Portugal tem de longe a maior percentagem de pessoas (32%) que, quando lhes perguntam que duas línguas estrangeiras considera mais importantes para seu desenvolvimento pessoal, respondem “nenhuma”.

Tendo em conta a história da educação em Portugal, com níveis altíssimos de analfabetismo até há meio século, pode pensar-se que estes resultados refletem resíduos dessas lacunas anteriores. Parece-me provável, até porque, mesmo nos países com maiores níveis de escolarização há mais tempo, se notam acentuadas diferenças geracionais: segundo UE 2010, a média europeia de 63% de conhecimento de pelo menos uma língua estrangeira sobe para 74% se contarmos apenas a faixa etária dos 25 aos 34 anos e desce para 47% para as pessoas entre os 55 e os 64 anos. Esta tendência é confirmada em UE 2012: 74% da população dos 15 aos 24 falam pelo menos uma língua, baixando esta percentagem para 64% na faixa etária dos 25 aos 39, para 45% dos 40 aos 54 e para 38% para as pessoas com mais de 55. Além disso, segundo o Eurobarometer survey on languages in Europe, de novembro de 2009, a classe ocupacional que mais línguas estrangeiras fala é, como seria de esperar, a dos estudantes, de que 80% falam pelo menos outra língua além da sua. Segundo UE 2012, esta percentagem é de 86%[4].

E, se além do “estudo” referido no início do texto, não conheço documentação do nível geral dos portugueses em inglês, existe um estudo do desempenho dos alunos do secundário (14-16 anos) em 14 países da UE, o First European Survey on Language Competences[5]. Segundo este estudo[6], os alunos do ensino secundário que aprendem inglês em Portugal têm, de facto, um desempenho melhor que o dos alunos franceses e flamengos (a Bélgica foi dividida em 3 comunidades) e muito próximo dos espanhóis e polacos, mas muito inferior aos dos países com melhores resultados, a Suécia, Malta e os Países Baixos, bastante inferior aos dos três seguintes, a Estónia, a Eslovénia e a Croácia, e um pouco inferior aos da Grécia, das comunidades francófona e germanófona da Bélgica, e da Bulgária.

II
Há mais coisas, porém, que gostava de dizer sobre esta questão, mesmo correndo o risco de ter de ser, às vezes, um bocadinho técnico demais para o gosto de alguns leitores. Uso, porém, uma transcrição fonética simplificada baseada na escrita do português, esperando que o que se perde assim em rigor se possa ganhar em facilidade de leitura – para quem não conheça o alfabeto fonético, bem entendido.

A pronúncia não é o fator principal de um bom desempenho linguístico, e é muitas vezes sobrevalorizado. Para dar um exemplo extremo e famoso, Joseph Conrad, que é considerado por muitos um dos grandes nomes da literatura de língua inglesa, nunca se livrou de um forte sotaque polaco, porque só começou a aprender inglês aos vinte e tal anos. A questão é que há vários tipos de desempenho linguístico em que se pode ser bom, alguns dos quais, como o de Conrad na escrita, não implicam boa pronúncia – nem pronúncia nenhuma. Conheço o caso de uma excelente tradutora de literatura portuguesa que fala pouco português. Não sei qual o seu grau de entendimento do português falado, mas, pelos vistos, entende muito bem o português escrito.

Lembro-me que li, há já uns bons anos (perdoar-me-ão não vos apresentar referência, mas foi documento que ardeu – literalmente), um artigo em que se defendia que a boa pronúncia é mais valorizada pelos falantes nativos (e não só?) que outras competências dos falantes estrangeiros. Não há, porém, razão objetiva para dizer que uma pessoa com melhor pronúncia fala melhor que outra que tenha uma sintaxe mais correta ou um vocabulário mais rico – a não ser, claro, que tenha uma pronúncia tão deficiente que seja difícil entendê-la, mas é raríssimo isso acontecer em pessoas com boa sintaxe e um léxico amplo.

Muitas vezes, também, a ideia de má pronúncia é criada a partir de um traço muito conspícuo, sem que, efetivamente, se possa falar de pronúncia especialmente má: um caso óbvio é o da ideia de que Mário Soares fala um francês péssimo, apenas porque rola os rr. De resto, a pronúncia de Mário Soares tem os mesmo erros que a pronúncia da maior parte dos portugueses, mas a maior parte dos portugueses não sabe ver isso. A maior parte dos portugueses também não sabe que há pessoas de língua materna francesa, algumas delas francesas, que também rolam os rr – mas há.

Alias, os falantes de uma língua têm, naturalmente, grande dificuldade – se não impossibilidade, a maior parte deles – de perceber que erros dão ao falar uma língua estrangeira, porque são surdos para muitas distinções fonéticas das outras línguas. Muitos falantes do português têm uma crença estranha na qualidade da sua pronúncia das línguas estrangeiras. Ora a mim, a pronúncia portuguesa nas outras línguas chama-me especialmente a atenção. É uma reação algo pateta e exagerada, mas creio que vem de ser essa a pronúncia que tenho combatido toda a vida para falar melhor outras línguas – sem, em muitos casos, a ter conseguido afastar dos meus automatismos.

Evidentemente, as características da língua materna condicionam a pronúncia das línguas estrangeiras e o espanhol e o francês dão aos seus falantes algumas desvantagens na pronúncia do inglês (e de outras línguas, claro), sobretudo a impossibilidade de encontros consonânticos do espanhol e a acentuação fixa na última sílaba do francês. Não digo que a pronúncia portuguesa do inglês não soe algo mais elegante ou menos marcada aos ouvidos dos falantes nativos que a pronúncia espanhola ou francesa. É natural que sim, embora não tenha maneira de o comprovar. Agora, a confiança dos portugueses na sua natural aptidão para a pronúncia do inglês assenta sobretudo em ouvirem o inglês com ouvidos portugueses. Eis uma lista simples dos erros típicos que eu noto na grande maioria dos portugueses ao falarem inglês:

Excesso de [z], às vezes excesso de [s]: Se a grafia não influencia a pronúncia da língua materna, influencia sem dúvida nenhuma a pronúncia das línguas estrangeiras aprendidas na escola. Assim, os portugueses tendem a pronunciar como [z] o s entre vogais e em fim de palavra e os ss depois de consoante ou duplos. Ora, se se pode confiar na grafia portuguesa relativamente à distinção entre [z] e [s]. o mesmo não acontece em inglês: muitas vezes, os ss escritos entre vogais ou no fim de palavra leem-se [s], como em house, close (advérbio), case, etc. e a grande maioria dos plurais; e há ss depois de consoante ou duplos que se leem [z], como em observe, dissolve ou dessert. Os franceses fazem geralmente o mesmo erro que os portugueses, mas os espanhóis, que não têm o som [z], pronunciam normalmente todos os ss e zz como [s], um erro que fazem também os escandinavos, pois também não há [z] em nenhuma língua escandinava.

Não pronunciar o h: Um erro típico dos falantes europeus de línguas latinas, exceto os espanhóis, que pronunciam o h como o jota espanhol[7]. Muitas vezes, por excesso de correção, os portugueses pronunciam também o h onde não devem: como sabem que têm de pronunciar o h de hate, os mais zelosos são capaz de dizer hi hate – ou até hi ate[8].

Não distinguir o chamado i breve do chamado i longo: Mais um erro que partilhamos com os falantes das outras línguas latinas – e não só. De facto, estes “ii” não são longos nem breves, mas dois sons diferentes, sendo que o i breve é mais próximo dos nosso [ê]. Mas soa mal dizer hit como heat, bit como beat ou beet, live como leave e assim por diante, não soa?

Não distinguir a de e: Porque a maior parte dos portugueses não consegue ouvir a distinção entre aquele som que fica entre o [á] e o [é] na pronúncia educada britânica ou na maior parte dos outros países de língua inglesa (em bad, por exemplo) e o [é] propriamente dito (de bed), reduzem o primeiro a [é] e pronunciam bad como bed e assim sucessivamente. E isto soa mesmo estranho. Não há jet leg, só jet lag e as duas vogais da expressão são diferentes! De facto, em muitas variantes do inglês, a pronúncia destes (e muitos!) aa é como a do [á] português da palavra , por exemplo, de maneira que este erro não se justifica: basta pensar que bad é [bád] e bed é [béd], voilá!, e dizer [djét lág] e por aí fora.

Confundir o th surdo com s e o th sonoro com d: Pronunciar they como day, etc., é um erro que também se nota muito. É certo que há falantes de muitas outras línguas que também pronunciam o th surdo, de think ou both, por exemplo, como [s] e o th sonoro de this ou they como [d] ou [z]. Agora, por muito engraçado que achemos os franceses ou os alemães pronunciarem o th como [z] (zey speak like zis), pelo menos mantêm, assim, a coerência do sistema, ao passo que quem pronuncia o th como [s] e [d] já não mantém a oposição entre a versão surda e sonora do “mesmo som” e não o distingue de [d]. O problema, para os portugueses – e não só, insisto – é que, em português europeu, o som inicial de they é uma variante do som [d] em certos contextos, pelo que não é entendido como som diferente: se ouvirem com muita atenção, os dois sons ocorrem em dado, o d de day na posição inicial e o th de they entre as vogais[9].



Pronúncia de vogais nasais: Uma coisa muito portuguesa e francesa, porque não há muitas línguas que tenham vogais nasais: em vez de dizer [tent], os portuguese dizem [tẽt], em vez de dizer [paint] dizem [pãit], em vez de [stand] dizem [stãd] e assim sucessivamente. É muito difícil livrar-se disto, é muito difícil ouvir o erro e, pela minha experiência, é um dos primeiros traços a ser comentados, quando alguém comenta a nossa pronúncia (“uma pronúncia assim nasal, um bocado francesa”.

E chega de pronúncia. Para terminar: Distingue-se agora às vezes entre inglês verdadeiro e inglês língua franca, mas as fronteiras entre os dois conceitos são difíceis de definir, se não se usar apenas o critério de ser ou não língua materna. O nível de inglês de muitas pessoas que têm o inglês como língua segunda é muito próximo do inglês verdadeiro e pode ser em muitos aspetos mais rico que o dos falantes nativos. O certo é que, à medida que se vai internacionalizando como língua de comunicação, o inglês língua franca começa a ter peso suficiente para se impor como regra alternativa ao inglês verdadeiro: há às vezes propostas de nomenclatura em inglês ou criação de expressões que depois vingam, em diversas áreas técnicas, que vêm de falantes do inglês como língua estrangeira e há diversas propostas de ensino do inglês como língua estrangeira assentes no inglês língua franca e não no inglês verdadeiro. O facto de terem de lidar desde pequenos com a sua língua falada por estrangeiros faz com que os falantes do inglês sejam melhores que os falantes de outras línguas a compreender a sua língua falada com as pronúncias, expressões e sintaxes mais diversas e mais estranhas que imaginar se possa. E dá-lhes, pelos vistos, uma humildade que nós não temos, de aceitar que venha gente de fora imiscuir-se na nossa língua. Mas eu tenho, às vezes, pena deles…

[Repito, na parte II deste texto, algumas ideias de um texto de dezembro de 2008, “Do you speak English? Atão amanda a corda!”]

____________________
[1] Os resultados assentam em autoavaliação e não em observação ou testagem e são calculados pelo CEDEFOP com base no Inquérito sobre a Educação de Adultos da Eurostat. Esta metodologia muito simplificada deve, em princípio, produzir resultados acima dos reais, pelo que o nível real (também o número?), em Portugal e nos outros países, pode ser inferior ao declarado.
[2] Agora, quando se fala de falar línguas estrangeiras, de que línguas se está a falar? Segundo o Eurobarometer survey on languages in Europe (2009), o inglês é falado como língua estrangeira por um terço da população da UE, seguindo-se-lhe o alemão (12%), o francês (11%) e o russo e o espanhol ex æquo no quarto lugar. Em UE 2012, a situação descrita é diferente: inglês (38%), francês (12%), alemão (11%), espanhol (7%) e russo (5%). Evidentemente, há também diferenças geracionais. Como se sabe, o conhecimento do francês como primeira língua estrangeira é típico de gerações mais velhas (e não só em Portugal, onde é a língua em maior declínio, com -9% que num estudo da UE de 2005 (UE 2012)), tendo sido substituído pelo inglês nas gerações mais novas. O lugar de destaque do russo é um resíduo da União Soviética e do bloco socialista, sendo falado sobretudo por pessoas mais velhas nos países do Leste europeu. Sem querer fazer futurologia, parece-me provável que o espanhol, depois de ultrapassar o russo, venha a ultrapassar, dentro de relativamente pouco tempo, também o francês e o alemão. É isso que, tendo em conta a importância das línguas europeias à escala mundial faz mais sentido.
[3] Elaborado pela TNS Opinion & Social para as direções-gerais de Educação e Cultura, Tradução, e Interpretariado da EU, e para a Direção-Geral de Comunicação da União Europeia. É, mais uma vez, um inquérito, não um estudo objetivo, mas, principalmente nos aspetos negativos (não falar, não ter estudado, não considerar importante, falar só uma língua), não me parece provável que haja grandes exageros dos inquiridos.
[4] Há (como seria talvez previsível?) uma relação inversa da idade (a partir dos 15 anos) e uma relação direta dos anos de escolaridade com os conhecimentos de/em línguas estrangeiras: quanto mais novo se é e mais anos de estudo se tem, melhor se falam línguas estrangeiras e mais línguas estrangeiras se falam (ver quadro p. 18). Os estudantes são a classe ocupacional que mais línguas estrangeiras fala.
[5] Trata-se aqui de um estudo de competência feito com testes e não de autoavaliação em resposta a um inquérito.
[6] Ver na, página 94, um resumo dos resultados agregados das três competências testadas, leitura, escrita e compreensão oral. A produção oral não foi testada.
[7] É certo que se encontra o fenómeno de hipercorreção ao lado dos hh por pronunciar, que atestam, na literatura, o soldado Ortheris de KiplingNow I’m sick to go ‘ome - go ‘ome go ‘ome! … I’m sick for London again; sick for the sounds of ‘er, an’ the sights of ‘er, and the stinks of ‘er; orange-peel and hasphalte an’ gas comin’ in over Vaux’all Bridge. Sick for the rail goin’ down to Box’Ill, … an’ the Copper that takes you up is a old friend that tuk you up before,when you was a little, smitchy boy lying loose ‘ tween the Temple an’ the Dark Harches..»), por exemplo, ou a Eliza Doolitlle de G. B. Shaw («In 'artford, 'ereford and 'ampshire 'urricanes 'ardly hever 'appen.»), mas o que acontece com mais frequência nos falares menos educados de quase toda a Inglaterra (e só aí) é não se pronunciar o h e não pronunciar hh a mais.
[8] Os falantes do português do Brasil pronunciam o h como r gutural. Se bem que não seja a mesma coisa, é um som próximo e vale mais essa pronúncia ligeiramente ao lado que a sua ausência, acho eu. Quanto aos falantes das variantes de português africano, não sei. Creio que a maior parte dos moçambicanos, devido ao contacto com as línguas bantas, não têm problemas com a pronúncia do h, até porque há palavras de uso corrente em português de Moçambique, como mahala, em que se pronuncia o h.
[9] Também é certo que th é reduzido a [t] e [d] em vários dialetos do inglês, ou a [f] e [v], mas em nenhuma variante se transforma em [s] e [d], só quando é falado por estrangeiros.

19 de janeiro de 2015

Criação humana e criação divina

Eis dois excertos de um conto que escrevi há quase 15 anos. São partes de uma conversa sobre criação que os protagonistas retomam de cada vez que se encontram.


Artista anónimo, cerca de 1220-1230.
Codex Vindobonensis, Biblioteca Nacional da Áustria.
“Aqui cria Deus céu e terra, sol e lua e todos os elementos”
(Wikimedia Commons)
– Você acha que para criar é preciso ter algumas qualidades especiais além de ser escritor ou músico ou dominar, enfim, uma determinada forma de expressão artístico?
– Explique-se lá, que eu não sei se o percebo... Que tipo de qualidades especiais?
– Não sei, mas há muito quem apregoe que os artistas têm mais qualquer coisa que os outros... Mais sensibilidade, mais sentimento, um olhar mais acutilante...
– Isso é tudo mentira, meu amigo, é uma grande mentira em que, infelizmente – você tem toda a razão nisso –, há muito quem acredite... Então, mas se há tanta gente tão sensível, tão inteligente, tão tudo, que é incapaz de arte!... E tão grandes artista – mas grandes artistas de verdade, em todos os domínios – que não passam de uns burgessos, de uns alarves, umas bestas! Eu conheço alguns, se quer saber...
– Bom, se o criador, para o ser, não precisa de maior sensibilidade que as outras pessoas, menos precisa então de maior sabedoria, de maior inteligência ou de maior sentido de justiça.
– Exatamente, não poderia estar mais de acordo consigo. Não tenho dúvidas que há personagens que têm em triplicado as qualidades morais e intelectuais do seu autor. O criador – como já disse, mas repito –, do que precisa é de alguma coisa que se pode definir de uma forma vaga como “espírito criativo”, ou “capacidade criativa”, e que tem a ver muito diretamente com o domínio em que cria.
– Então, diga-me lá, porque é que não há de ser assim com toda a criação?
– Com toda a criação?
– Sim, com toda a criação. Mesmo que admitamos que o universo tem de ter um criador, isso não implica que esse criador tenha de ter mais nenhuma qualidade especial a não ser essa competência criativa de que você falava – não é por ter criado os mundos que existem que Deus tem de ser mais justo, sabedor ou inteligente que as suas criaturas!


***

– Li uma vez que o poder de destruir é maior que o poder de criar apenas. Nenhum criador pode desfazer o que criou.
– Isso agora depende de você ter uma visão mais ou menos materialista do mundo. Se você acreditar que nada existe sem um suporte material, basta agarrar no suporte material da criação – o caderno manuscrito, o livro impresso, a tela pintada, a pauta ou a gravação, tudo isso –, e queimá-lo, rasgá-lo, dar cabo dele seja lá como for e já não há a criação. Mas se você acreditar que as coisas existem primordialmente enquanto ideias, noções, conceitos apenas, bem, então não, não se pode desfazer a criação...
– Pois olhe, eu considero-me um materialista, mas a postura materialista dura que você acabou de referir não me parece muito defensável. Bom, em última análise, depende também um pouco das características de cada tipo de obra de arte... Aceito que um quadro que já vi e que foi destruído “já não exista”, porque a recordação que tenho dele, por excelente que seja, não me impressionará nunca – e digo impressionar no sentido do estímulo percetivo, da sensação – como vê lo de facto, ali, diante de mim. Aceito que uma música que já foi tocada e que nunca mais volte a ser tocada, porque os registos todos que há dela, escritos como sonoros, foram destruídos, também possa ser considerada como “já não existente”, pelas mesmas razões. Mas não me convenço de que, se forem queimados todos os exemplares existentes de Crime e Castigo, e já não houver o texto, e, por isso mesmo, maneira de o voltar a imprimir, Raskolnikov, para só falar da personagem principal, deixa, de repente, de existir...

18 de janeiro de 2015

Olhos azuis

Ninguém tem pigmento azul no corpo e os olhos azuis são azuis devido a um fenómeno ótico semelhante ao que faz com que o céu seja azul. Há quem afirme com muita certeza que os olhos azuis se devem a uma mutação num único indivíduo, mas não se pode saber ao certo, claro está, nem onde nem quando. O que parece muito consensual é que, ao contrário da cor da pele, a cor dos olhos e do cabelo não dão qualquer vantagem seletiva. É provável, pois, que os olhos azuis se tenham espalhado apenas por seleção sexual (preferência por parceiros de olhos azuis)[1][2], embora não se possa pôr de lado a hipótese de que uma secção de ADN tenha partilhado a disposição para os olhos azuis e para a pele mais clara (essa sim, com vantagem adaptativa às regiões com menos sol) e que, agindo a seleção sobre a cor da pele, os olhos azuis tivessem “apanhado boleia” da pele clara.
***
Uma das razões do êxito da famosa fotografia Rapariga afegã de Steve McCurry são talvez os surpreendentes olhos claros da fotografada, Sharbat Gula. Está agora também a ganhar fama a foto de uma menina curda de impressionantes olhos azuis, do fotógrafo Youssef Boudlal. É claro que não (só?) é a cor dos olhos que faz delas grandes fotografias, mas sobretudo, a expressão que captam[3]. Os olhos são o espelho da alma, não é o que se diz?

Pormenor de Meisje met de parel (Rapariga com pérola) de Johannes Vermeer, c. 1665. Mauritshuis, Haia 


_____________________

[1] Há quem proponha explicações para a maior diversidade de cores de olhos e cabelo nos europeus. Ver aqui.

[2] Sabe-se que os homens de olhos azuis têm preferência por mulheres de olhos azuis, mas as mulheres de olhos azuis não têm preferência por nenhuma cor de olhos dos parceiros, nem as mulheres e homens de olhos castanhos. Esta preferência dos homens de olhos azuis é às vezes interpretada como “reflexo de estratégias para reduzir a incerteza da paternidade”, uma vez que os olhos azuis são um traço recessivo – só se expressa quando existe em ambos os progenitores. Mas, claro, esta explicação, a não ser que seja herdada de contextos demográficos muitos anteriores e diferentes dos atuais, não se aplica a sociedades como as escandinavas, em que há grande predominância de olhos azuis, ou seja, em que os concorrentes de cada homem têm a mesma cor de olhos que ele.

Não deixa de ser curioso, a propósito (?), que, em dinamarquês, o adjetivo blåøjet, “de olhos azuis”, signifique também “ingénuo”. Parece-me que os sul-europeus têm tendência a considerar ingénuos os nórdicos, pelo que se podia prever uma expressão semelhante nas línguas latinas, mas não deixa de ser curioso que a expressão tenha este significado numa língua falada por pessoas de olhos azuis.

[E eu, que não tenho olhos azuis, o que prefiro? Bom, aos olhos castanhos do Francisco José, prefiro sem dúvida os olhos azuis pálidos dos Velvet Underground...]

[3] Pode pensar-se que, nas duas fotografias que refiro, o que chama a atenção são os olhos claros num tipo de rosto que normalmente não associa a esta cor de olhos, o que o obriga a reconsiderar a tipologia dos humanos que tem interiorizada. Mas não me parece… Se me dissessem que a menina iazídi da fotografia de Youssef Boudlal era croata ou sueca, por exemplo, eu acreditava.

17 de janeiro de 2015

Pequena nota sobre dogmatismo e outras enfermidades do raciocínio

Numa loja de roupa em segunda mão, na semana passada, uma conversa entre duas senhoras idosas:

– …
– O quê?
– Nada, estava a falar sozinha.
– É uma coisa sensata. Assim, ninguém te contradiz.



8 de janeiro de 2015

Je suis Charlie moi aussi

Acompanhei as notícias sobre o ataque ao Charlie Hebdo desde o início e nunca mais me decidia a escrever um texto sobre ele. Como acontece muitas vezes, houve muito quem dissesse mais depressa e melhor que eu o que eu queria dizer: a monstruosidade do ataque, de todos os ataques assassinos; o horror das motivações e os perigos das consequências; a necessidade de distinguir a religião do crime, porque os deuses, por cruéis que possam ser, nunca puxam gatilhos reais, só as pessoas sabem ser desumanas dessa maneira; o circo ridículo das teorias da conspiração; a importância de não sucumbir ao medo, mesmo sabendo que do medo ninguém decide; tudo isso. Vi muita gente que nunca gostou do Charlie Hebdo e que com certeza não se revia na sua sátira, referir agora como heróis os seus jornalistas e caricaturistas; vi outros tentarem desimportantizar o horror, «assassinatos há tantos… de tantos tipos…», como se algum horror se possa desimportantizar por haver outros horrores; e vi a explosão da revolta em centenas de solidários e irreverentes cartunes.

Teria ficado abalado pela morte de Wolinski e Cabu, nem que tivesse sido natural e pacífica. «Se tivesse sido feito por um louco e não por islamistas, não se falava tanto do ataque” é um dos muitas provocações que me puseram à frente. Todos sabemos que a importância de uma morte não depende só da causa, mas também de quem morre e, às vezes, como. As vidas de Wolinski e Cabu valiam exatamente o mesmo que as vidas dos outros assassinados e as de qualquer outro ser humano, mas eles eram, para muitos, também símbolos importantes. Daniel Cohn-Bendit disse numa entrevista ao Libération que foi “uma das últimas formas do espírito de Maio de 68 que foi assassinada.” Também é isso. “O que é aqui atacado”, continuou ele, “é o direito à crítica radical de todas as religiões. Charlie Hebdo é o radicalismo anticlerical, foi por isso que foram mortos.” Conheci muito mal o Charlie Hebdo da nova geração, de 1992 para cá. Aliás, nem posso dizer que conhecia o trabalho de Charb, Tignous e Honoré. Mas a irreverência radical de Wolinski e Cabu (como a de Cavanna, Reiser ou Willem, por exemplo) fizeram sempre parte do meu mundo natural, desde os tempos da revista Hara-Kiri.

Dizia-me ontem um amigo que os cartunistas e os outros assassinados tinham morrido em combate. Uma das coisas que o fanatismo religioso faz, seja ele qual for, é literalizar metáforas. Na interpretação dos textos sagrados, mas não só. Muitos cartunes que surgiram na onda de pesar e solidariedade que se seguiu ao crime assentam na ideia do cartune como arma – a que se opõem as armas reais – e é a literalização dessa ideia que justifica, na mente dos assassinos, o ato criminoso. É muito difícil jogar com o segundo sentido, se tudo for compreendido literalmente”, disse uma vez Charb. “Não tenho a impressão de degolar ninguém com uma caneta de feltro”. A arma do cartune não tira vidas nem se destrói com balas. É ao contrário: neste caso, o terror vem dar novas munições ao humor desenhado. O combate dos que foram ontem assassinados há de continuar nos cartunes, mas é importante que continue cada vez mais fora deles. Não queremos nem este nem nenhum terror, nem este nem nenhum fascismo. E ignoremos, para nos unirmos nesta recusa, a divergência das razões que há para dizer “je suis Charlie”: Je suis Charlie moi aussi.

8 de dezembro de 2014

Mais um textozinho sobre felicidade

Há muitas maneiras de olhar para a questão da procura da felicidade. Há quem postule que esta busca é o fim último da nossa existência ou até que é única coisa que fazemos na vida. Daniel Gilbert, por exemplo (traduzo eu):
As pessoas muitas vezes reagem mal à ideia de que o comportamento humano não passa de uma tentativa de alcançar a felicidade. (...) Antes de mais (dizem elas), as pessoas preocupam-se com muitas outras coisas além da felicidade – por exemplo, a verdade, a justiça … – e, portanto, a vida não se resume à felicidade. Ora, antes de mais, as pessoas valorizam claramente muitas coisas – desde o básico até ao sublime, desde chocolate belga à fidelidade conjugal –, mas eu acredito que valorizam essas coisas exclusivamente por causa das suas consequências hedónicas. Platão foi muito claro sobre isso quando nos pediu que pensássemos sobre o que é que faz com que algo seja bom. “Será que estas coisas são boas por qualquer outra razão além de produzirem prazer, e nos livrarem da dor e a evitarem? Tendes em conta qualquer outro padrão que não seja o prazer e a dor quando dizeis que são boas?” Neste ponto, estou de acordo com o homem da toga. Na minha mente, “experiência hedónica positiva” é o que significa valorizar. Não podemos dizer o que é bom sem dizer para que é bom e, se se analisarem as muitas coisas que as pessoas acham que são boas, notar-se-á que todas elas são boas para fazer as pessoas felizes.
Pois… Se se considerar que a felicidade é a própria medida do valor positivo de uma coisa (X é bom [para Y] = X causa felicidade [em Y]), invalida-se a proposição de que há coisas melhores que a felicidade. Mas importante e bom não são sinónimos, por um lado; e, por outro lado, como a felicidade não pode ser senão a soma de bons momentos, é preciso não esquecer o investimento – consciente ou não, e não forçosamente prazenteiro – que se faz entre momentos de felicidade, para os atingir. Além disso, mesmo que aceitemos que, em última análise, não pode ser desejável senão o que dá prazer, deparamo-nos constantemente com situações em que estão em conflito dois ou mais prazeres e é difícil argumentar que optamos forçosamente pelo que produza mais consequências hedónicas, para usar a expressão de Gilbert: quando escolho, no supermercado, um produto lácteo de que gosto menos que de outro, porque acho que devo apoiar a produção ecológica local, é preciso alargar muito o significado de hedonismo para fazer radicar esta escolha na procura de uma experiência hedónica positiva.

***
Escrevi aqui uma vez um texto chamado “Felicidade era a empregada do bar”:
Fui dar com um texto de juventude em que (…) escrevia [que], para levar a cabo aquilo que é a missão fundamental de qualquer pessoa (transformar-se, perpetuar-se, reproduzir-se, morrer…), não há necessidade de felicidade nem da sua ausência – tanto faz... (…) E, embora com outra perspectiva, continuo a chegar à mesma conclusão prática, a de que a felicidade é algo com que não faz sentido preocupar-se. Além de exercício de vanidade, digo eu agora, a busca da felicidade é provavelmente um exercício vão: Uma pessoa pode achar que cada um deve tratar antes de mais de si próprio e querer ser feliz, sem mais. E pode achar que mais importante do que a sua felicidade é a felicidade alheia e atribuir, apesar disso, valor estratégico à sua própria felicidade na criação de mais felicidade. De facto, há muito quem pense que (ideia mais difundida do que bem defendida…) para fazer bem aos outros, uma pessoa tem de se sentir bem ela própria. OK., tudo isso é possível e não sou eu que me vou agora opor – que se queira ser feliz, está para mim muito bem… Mas alguém já conseguiu alguma vez demonstrar que é mais feliz uma pessoa que procure a felicidade? 
A pergunta final era retórica, mas é, de facto, passível de resposta. Quando escrevi este texto não conhecia ainda o trabalho de June Gruber. Ora com base no seu próprio trabalho de investigação e noutros trabalhos na mesma área, a resposta de Gruber à minha pergunta é que não (traduzo eu):
…Passamos muito tempo a tentar encontrar maneiras de ter sensações positivas. As pessoas chamam a isso sentir-se feliz … e penso que a ciência recente indica que estamos a abordar a coisa da maneira errada.
E, de facto, a pesquisa constata que quanto mais as pessoas (1) empenham tempo e esforços tentando sentir-se mais positivas, e que quanto mais (2) definem como objetivo sentir-se mais positivas, na realidade, de forma algo paradoxal, estão a fazer-se sentir menos esse estado.
E há uma explicação para isso:
De muitas formas, … quanto mais parecemos dar valor à emoção positiva, seja ela excitação ou orgulho ou amor ou satisfação, quanto mais definimos isso como nosso sistema de valores emocionais, sem querer, provavelmente pomos também mais alta a fasquia a atingir e estamos assim a criar a nossa própria desilusão.
Há pesquisa recente que transpôs isto para a área clínica, constatando que as pessoas que valorizam a experiência de emoções positivas e que investem energia comportamental em consegui-las correm grande risco de depressão e verifica-se nelas posteriormente … uma maior incidência de diagnósticos clínicos de perturbação depressiva. …
Isto indica que a quantidade da nossa emoção positiva é realmente afetada pelo esforço que pomos em a obter. … Sabemos que quanto mais tentamos não pensar em ursos brancos, mais pensamos em ursos brancos e, em muitos casos, quanto mais tentamos não ser infelizes, mais infelizes parecemos ser. Então, isto sugere que, em muitos aspetos, o feitiço se vira paradoxalmente contra o feiticeiro, e … que, se queremos estabelecer metas afetivas ou psíquicas para nós mesmos, então não devemos fazer disso o enfoque final em si mesmo, mas talvez centrar-nos antes noutras coisas de que possam surgir essas emoções. …
Uma emoção é para nós um sinal; é uma fonte de informação, e essa informação vai guiar-nos na decisão de nos aproximarmos de determinada pessoa ou de a evitar. Mas não é a emoção em si que é o objetivo. A emoção dá informações para iniciar comportamentos que nos farão chegar ao objetivo. Eu diria que muitos teóricos da emoção não pensam na emoção como o objetivo em si.
Assim sendo, se se perguntar às pessoas quais as suas intuições quotidianas sobre emoções e lhes perguntar quais os seus objetivos na vida, bem, é serem felizes. “O meu objetivo é ser feliz”. Querem habitualmente minimizar a intensidade da emoção negativa, em geral, e maximizar a intensidade da emoção positiva. Eu acho que o que precisamos de fazer é usar esta informação e aproveitá-la de uma maneira pedagógica, dizendo: “Bem, as emoções são, sem dúvida, facetas importantes das nossas vidas, dão-nos informações, dão-nos sinais de certas coisas, mas não são o objetivo em si”.
Mas Gruber diz mais coisas interessantes sobre a felicidade e a sua procura. Uma questão interessante é da funcionalidade das emoções positivas – ou da felicidade, se se preferir. É certo que as emoções positivas aumentam a nossa capacidade de resolver problemas, de pensar de forma criativa. Mas isto é verdade só até certo ponto. Além de um certo nível, é o contrário que se verifica: excitação, entusiasmo, alegria tornam-nos rígidos e menos criativos; e levam-nos a correr mais riscos, ignorando informação do mundo circundante.

E há também que ter conta a contextualização: parecerá óbvio a muita gente que há contextos em que as emoções positivas estão deslocadas e não têm qualquer função a desempenhar. A ideia de que é sempre bom sentir-se feliz é, por conseguinte, sem cabimento e são outras emoções que, por vezes, se devem cultivar. De facto, as emoções positivas criam dificuldades num contexto inapropriado – e podem ser indicadores de mania ou de falta de relação com os outros.

O mais importante, não só para ter uma boa saúde mental mas também física, é manter um equilíbrio. Por contraintuitivo que possa ser (a verdade, já se sabe, é-o quase sempre), maior grau ou maior frequência de emoções positivas não resultam em maior bem-estar – nem mental nem físico (nestes estudos são usados também extensos relatório clínicos não psicológicos). Funcionamos melhor quando se equilibram emoções positivas e emoções negativas:
É uma questão muito antiga, a do que significa felicidade, mas creio que o problema agora é que a palavra é usada ... para dizer todo o tipo de coisas. … Ás vezes, trata-se de um maior sentido de bem-estar subjetivo, às vezes de prazer sensorial na altura, mas as pessoas só sabem que é qualquer coisa que devem ter. Então, vemos disparar o número de receitas e poder-se-ia esperar que se tratasse de um rastreio e diagnóstico mais rigorosos de depressão nos nossos tempo, mas há que se interrogar se será outra coisa e se estamos a seguir este impulso de minimizar o negativo e maximizar o positivo.

Preocupa-me esta idade da felicidade, porque o que ela também faz … é afastar-nos de simplesmente ter também experiências negativas, que são fontes de informação incrivelmente ricas para nós e componentes importantes daquilo que nos dá vidas ricas e com sentido. …
É bom ter alguma alegria, mas também se deve ter tristeza; também se deve ter sentimentos de culpa e a experiência de perda. Todas essas coisas são importantíssimas para criar uma robustez emocional para saber como viver essas emoções, como lidar com elas e também para receber informação do mundo à nossa volta.
“Nada em excesso”, dizia a célebre inscrição do templo de Apolo em Delfos – nem as emoções positivas que muitas vezes se designam como felicidade. É claro, se se fizer simplesmente corresponder felicidade a bom, haverá com certeza quem argumente que não se pode falar de excesso de felicidade. A vantagem de se pensar em felicidade como emoções positivas é ficarmos com uma ideia mais clara do que se está a falar: excesso de alegria, de prazer, de satisfação e orgulho resulta simplesmente em insuficiência de, por exemplo, tristeza, dor, frustração e remorso. Coisas importantes na vida.

***
Para variar agora um pouco a perspetiva de análise, mas continuando ainda na crítica ao incitamento à procura da felicidade, traduzo uma das várias formulações que Leo C. Rosten tem de uma reflexão interessante sobre a questão:
Não posso acreditar que a finalidade da vida seja ser “feliz”. Penso que a finalidade da vida é ser útil, ser responsável, ser digno, ser compassivo. É sobretudo servir para alguma coisa: ter alguma importância, defender alguma coisa, fazer alguma diferença que se tenha vivido*.
Escrevi quase a mesma coisa, de uma maneira muito mais concisa e muito menos elegante:
Em vez de dar tanta importância, como se costuma dar, ao que se leva desta vida, porque não importar-se antes com o que nela se deixa?

____________________

* Words of Wisdom: More Good Advice, p.309, Nova Iorque: Simon & Schuster, 1989.

18 de novembro de 2014

O resto dos meus dias [Crónicas de Svendborg #22]

Não conto férias nem as muitas estadas temporárias, só mesmo domicílios: vivi em 27 casas em 7 países e 3 continentes (ou 4, se não se considerar a América um único continente). Mas acabou a vida de vagabundo! Tenciono passar aqui em Troense o resto dos meus dias.

Quero dizer o resto da minha vida, está claro, mas não me importava de passar aqui também os dias depois da morte. Aliás, nem isso, nem o contrário, porque não me preocupa mesmo nada onde deixar os ossos. Mas enfim, para proporcionar uma vista bonita a quem quisesse visitar os tais ossos (faz-nos bem enterrar e visitar os nossos mortos, não é?), gostava de ser enterrado neste cemitério de Svendborg.

O cemitério chama-se Assistens Kirkegård, “Cemitério Auxiliar”. Kirkegård, a palavra dinamarquesa para cemitério, é composta de kirke, “igreja”, e gård, “pátio”, “quintal” ou “quinta”, e muita gente é ainda enterrada nos cemitérios das igrejas. A minha segunda escolha para morada dos meus ossos é o cemitério da Igreja de Bregninge, que fica mais ou menos à mesma distância que o Assistens Kirkegård de Svendborg, a meia dúzia de quilómetros daqui.



A não ser, claro está, que prefiram cremar-me, o que também acho muito bem.




[É a terceira vez que aqui falo de cemitérios dinamarqueses. Já o fiz aqui e aqui.]

11 de novembro de 2014

De Novick a Gibbons, passando por Lichtenstein

No número 89 de revista de banda desenhada All-American Men of War, de Fevereiro de 1962, Irv Novick tem, na página 12 da história “The Star Jockey”, a seguinte tira:

No número 90 da mesma revista, aparece a história “Wingmate of Doom”’, ilustrada por Jerry Grandenetti. Eis a terceira ilustração da página 11:

No mesmo número da revista, na página 3 da história “Aces Wild”, ilustrada por Russ Heath, aparece o seguinte desenho:

Estas três histórias têm, todas elas, texto de Robert Kanigher e letragem de Gaspar Saladino. Com base na imagem de Novick, que adaptou colando-lhe as imagens de Grandenetti e de Heath, Roy Lichtenstein pintou em 1963 o seu famoso quadro Whaam!, que foi exibido na Galeria Castelli e depois comprado em 1966 pela Galeria Tate, de cuja coleção ainda faz parte.

Em April de 2013, o ilustrador e autor de banda desenhada Dave Gibbons exibiu no Central Saint Martins College of Art & Design, em Londres, a sua obra Whaat?:


The end?

____________________________

[Fui buscar a informação e as imagens aqui reproduzidas ao artigo “The principality of Lichtenstein”, de Paul Gravett, pelo que não se deve considerar da minha autoria esta entrada de blogue, mas apenas reorganização e tradução parcial do artigo de Gravett.]