28 de julho de 2015

Uma versão nova de um velho aforismo

Diz uma frase famosa: de um senhor chamado H. L. Mencken que «A cura para os males da democracia é mais democracia.»* Muitos aforismos comummente citados são mais bem achados que verdadeiros, mas não me parece que seja o caso desta frase: é que não vejo mesmo que soluções não democráticas se possam propor para quaisquer problemas que possam surgir de uma comunidade ou sociedade funcionar de forma democrática.

Quando tanta gente põe em causa a ideia de União Europeia, por razões compreensíveis, o que me vem à cabeça, a mim que acredito cada vez menos que haja ainda soluções nacionais para os problemas de cada nação, é uma adaptação da frase de Mencken: «A cura para os males da Europa é mais Europa.» Também se podia dizer de outra maneira: «A cura para os males da Europa é mais Europa mais democrática.»

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* Não conheço Mencken, nunca o li e não sei a que propósito escreveu a frase, e isso agora também pouco importa. Mas sei que a frase é de Notes on Democracy, 1926: The cure for the evils of democracy is more democracy.

23 de julho de 2015

23 de julho, sete e meia da manhã

Acordei sobressaltado com um pesadelo horrível: uns homens disformes, monstruosos, queriam matar-me para se vingarem de qualquer coisa que o meu pai tinha feito. Ainda bem que consegui acordar antes de eles me matarem, porque morrer é uma experiência muito desagradável, mesmo que seja só em sonhos. Eu sei, porque já me aconteceu. E ser morto violentamente – isso nunca me aconteceu – deve ser ainda pior. Também acho que ninguém deve pagar pelo que os pais fizeram.

Eram cinco e pouco da manhã quando acordei. Já não voltei a adormecer. Ontem tive dores de cabeça à tarde, uma coisa que nunca tenho, e pensei que podia ser por ter dormido pouco. Espero não ter hoje dores de cabeça outra vez.

O céu estava ameaçador. Enfiei uns calções e fui apanhar a roupa que estava estendida no quintal. Estava toda quase seca e era uma pena deixá-la encharcar-se, se começasse a chover. Mas não choveu nem vai chover. O tempo limpou e vamos ter outro dia de sol.

Fui estender a roupa no quarto de hóspedes e pensei que faço tudo demasiado depressa, com pouca calma. Tenho de começar a desacelerar progressivamente os gestos, até ficar por fim completamente imóvel. Quando morrer, quero eu dizer.

Voltei para a cama e estive a ler Gary Snyder e John McWhorter. O livro de Gary Snyder é difícil para mim, tem muitas palavras que não conheço. Vou fazer uma leitura do livro sem dicionário e relê-lo depois com o dicionário. Achei graça ao truque literário simples de separar com vírgula nomes de adjetivos e pus-me a especular como traduziria
Dried, shrimp
       smoked, salmon 
Fiz também uma nota mental: procurar Dōgen em Google e a auto-estrada 99 em Google maps.

Poderia ter sido eu a escrever muitas das coisas que McWhorter escreve. Aliás, já escrevi muitas das coisas que McWhorter diz. A ideia de que a língua condiciona o pensamento pode ter surgido com a intenção louvável de reconhecer a diversidade cultural, o que foi sem dúvida importante num certo período histórico, mas parece-me que é hoje mais importante insistir na igualdade fundamental de todos os seres humanos. Ou, como o resume Steven Pinker na contracapa do livro,
«Algumas ideias populares são piores que erradas – têm uma ponta de verdade em questões de somenos importância, mas ajudam a criar incompreensões em questões muito importantes. (…) Apesar da sua superficial sofisticação, a hipótese [de que a língua modela o pensamento] oculta verdades profundas: que o pensamento é bem mais rico que a língua; que as línguas são mais o produto de uma caprichosa memética que reflexos de obsessões culturais; e que as semelhanças cognitivas entre as pessoas são mais fundas que as diferenças entre elas.» 

Decidi que vou começar a escrever poesia e contos outra vez – apenas pelo prazer que isso me dá.

A minha filha Siri faz hoje 11 anos. Está uma mulherzinha, como se costuma dizer.



7 de julho de 2015

Ambiguidade e ordem das palavras


[Homonímia e ambiguidade]
Dizia-me alguém, numa discussão sobre o acordo ortográfico, que a homonímia de ato (do verbo atar) e ato (ação) podia causar ambiguidade em certas frases. Se for verdade, é preciso dar muitas voltas à cabeça para encontrar um caso em que isso possa acontecer; e eu, que até tenho jeito (gaba-te, cesto…) para descobrir este tipo de curiosidades, não consigo inventar uma frase com uma ambiguidade que resulte de uma coisa dessas. Imaginem o que seria se se confundissem de alguma forma calo e calo, coma e coma, falo e falo, mato e mato, nada e nada, rio e rio, saia e saia… e os outros milhares de casos em que há uma forma verbal e um nome com a mesma forma fonética e gráfica (é um jogo engraçado, vejam lá quantas homónimas deste tipo conseguem encontrar).

Eu diria antes que, em princípio, nunca há ambiguidade entre homónimas de categorias morfológicas diferentes – que não podem, por isso, ocorrer no mesmo contexto. Mais provável seria a ambiguidade criada por homónimas da mesma categoria ou, como é mais comum, palavras que podem referir vários entes ou objetos, ou que podem deles predicar várias qualidades, estados, atividades, etc., como corrente, mangueira, número, esperar, comer, etc. Mesmo para estas palavras, porém, é preciso dar muitas voltas à cabeça e não vejo bem, por exemplo, em que situação alguém fique na dúvida, quando ouve falar de gatos, se se trata de felinos domésticos, de enganos nas contas, de grampos, ou de pieira…

Significa isto que não existem frases ambíguas? De modo algum. É claro que existem frases ambíguas!, mas são outras as causas da verdadeira ambiguidade – ou anfibologia, como só agora descobri que também se pode chamar. A ambiguidade mais comum, estou eu em crer, resulta da maneira como se ordenam na frase certos elementos – de não se poder decidir se uma expressão modifica, por exemplo, a frase toda ou um sintagma apenas. Dou-vos um exemplo tirado de um e-mail que recebi um dia destes:
Havemos de descobrir como fazer o pagamento antes de ele começar o trabalho.
Sem mais informação, uma pessoa não sabe se a ideia é fazer o pagamento adiantado ou apenas descobrir antes do início de trabalho como será feito o pagamento (era este último significado que se queria dar à frase.)

[Posição livre e posição fixa de advérbios nas frases]
Não vos vou maçar agora com uma lista de exemplos de ambiguidades, há dezenas de páginas na Internet sobre o assunto. Quero só referir uma coisa curiosa, a propósito da posição dos advérbios e locuções adverbiais nas frases: ouvi dizer várias vezes, algumas delas a mim próprio, que, nas línguas latinas, a posição dos advérbios é livre, ao contrário do que acontece em dinamarquês (e creio que várias outras línguas germânicas, mas só conheço bem o caso do dinamarquês). Mas isto nem sempre é verdade. E nem sempre é só para resolver ambiguidades que o advérbio tem de estar, em português, numa determinada posição. É certo que, como declaração simples, tanto faz dizer Amanhã vou a Copenhaga como Vou amanhã a Copenhaga como Vou a Copenhaga amanhã, mas Sempre vou a Copenhaga nas férias é diferente de Vou sempre a Copenhaga nas férias e tanto ?Vou a Copenhaga sempre nas férias como ??Vou a Copenhaga nas férias sempre são fases muito estranhas, se não claramente agramaticais.

Como se passam as coisas nas línguas em que há uma posição fixa dos adverbiais? Não pode isso também criar ambiguidades? Quando comecei a aprender dinamarquês, achava muito estranho, por exemplo, que se fizesse obrigatoriamente a negativa de verbos de opinião e afins e nunca das suas completivas. Não se pode, por exemplo, construir uma frase com a estrutura que corresponde diretamente a Acho que ele não tem razão, tem obrigatoriamente de usar-se a estrutura correspondente a Não acho que ele tenha razão. Pode pensar-se que a questão da negativa simples é outra história, mas, se substituirmos não por nunca ou sempre, a regra continua a aplicar-se. A verdade é que, por muito que a frase Acho que ele nunca tem razão não seja, stricto sensu, o mesmo que Nunca acho que ele tenha razão, não há, na prática, diferença nenhuma entre as duas frases e há que dar algumas voltas à cabeça para encontrar uma frase em que a negativa da principal produza um sentido diferente da negativa da completiva. E o mesmo se pode dizer em relação a um advérbio como sempre: Acho sempre que ele toca bem é, na prática, o mesmo que Acho que ele toca sempre bem.

Mas é sempre assim? Bom, a frase, Acho que ele não é muito inteligente, por exemplo, é já claramente diferente de Não acho que ele seja muito inteligente, se esta última frase se usar para negar a superior inteligência de alguém sem lhe negar inteligência – que é o que se faz com a primeira frase: nega-se-lhe a inteligência, precisamente. Mais complicadas também são frases como Penso às vezes que ele é uma pessoa atormentada e Penso que ele às vezes é uma pessoa atormentada, que são bem diferentes uma da outra, não é verdade? E então, como resolvem isto as línguas de posição fixa do advérbio? No primeiro caso, a ambiguidade desfaz-se normalmente com seleção de palavras diferentes: para negar a inteligência de alguém, dir-se-á o que, diretamente traduzido, corresponde a Acho que ele não é especialmente inteligente; e, para negar que alguém é tão inteligente como se afirma, usa-se a estrutura corresponde ao português Acho que ele não é [assim] tão inteligente; e em nenhum caso a frase com muito inteligente é bem aceite pelos falantes. No segundo caso, como se trata de desfazer realmente uma ambiguidade, aceita-se o que nos outros casos não se aceita, e pode passar-se a locução adverbial às vezes para a completiva. Como é mesmo necessário, pode dizer-se Penso que ele às vezes é uma pessoa atormentada, com a locução adverbial na subordinada.

Tudo isto para concluir que se deve ter confiança nas línguas, porque elas desenvolvem naturalmente maneiras de evitar as ambiguidades. As ambiguidades são raras e nunca resultam de defeitos do léxico ou da sintaxe, apenas de alguns usos abstrusos (a cacofonia é propositada) das possibilidades que as línguas nos dão.

[Uma digressão: modificadores apositivos e modificadores restritivos]
A propósito de ambiguidades e de línguas germânicas, uma pequena excursão. Saio do domínio da língua e passo para o da escrita. Problemático, por causar frequentes ambiguidades (aqui, podia ser também “por causar frequentemente ambiguidades”, com modificador do verbo, sem alteração do significado) é o uso da vírgula gramatical, à maneira alemã ou dinamarquesa, que obriga a delimitar todas as subordinadas e não distingue, por exemplo, relativas apositivas de relativas restritivas – isso cria ambiguidade:
As associações da região que integravam o projeto receberam formação sobre variedades híbridas.
Com uso obrigatório de vírgulas a delimitar a relativa, ficamos sem saber se receberam formação apenas as associações que integravam o projeto e as outras não (frase acima), ou se todas as organizações da região integravam o projeto e receberam por isso formação, que é o que diz a frase com vírgulas em português:
As associações da região, que integravam o projeto, receberam formação sobre variedades híbridas.
Esta história também tem uma moral: como na escrita se eliminam muitas redundâncias e se usam estruturas normalmente ausentes do discurso oral, podem criar-se na escrita ambiguidades que nunca surgem na oralidade. 

[Ambiguidade ou deselegância?] 
Mas voltemos às ambiguidades causadas pela má ordenação dos elementos da frase, para rematar. É de notar que muitos dos exemplos apresentados quando se fala de ambiguidade são um pouco exagerados. Quer dizer, são frases de facto textualmente ambíguas, mas o contexto ou o senso comum do interlocutor resolve a ambiguidade.

Veja-se, por exemplo, a frase O José falou com o Rui deitado no chão. Vi uma frase semelhante referida como exemplo de anfibologia e é, de facto, uma frase ambígua, mas só se não houver mesmo contexto nenhum, e uma frase assim costuma fazer parte de uma narrativa. Vi algures outro exemplo do tipo O homem disparou sobre o assaltante de pijama. Bom, neste caso, mesmo que não haja contexto nenhum, é difícil imaginar um ladrão de pijama, não vos parece?

O mesmo em relação a estas duas frases curiosas:
Durante o julgamento, a defesa protestou contra o uso de algemas pelo traficante, alegando que ele feria decisão do Supremo 
e
Resgatada mulher sequestrada após passar 21 anos em uma cova
Também é certo que, sem mais contexto, cada uma delas tem duas leituras possíveis, mas uma das leituras é tão estranha que a recusamos imediatamente: o que seria um traficante ferir uma decisão do Supremos e isso ser motivo para recusar o uso de algemas? E não seria azar a mais ser sequestrado depois de passar 21 anos numa cova? Ambiguidade? Em última análise, sim, mas, na prática, é mais de deselegância, de falta de estilo, que se trata nestes três últimos casos, não vos parece?, que propriamente de ambiguidade…

24 de junho de 2015

Penteados, corpos, paixão

Como já aqui contei, uma vez foi-me diagnosticado um ataque cardíaco. Vá lá, foi um diagnóstico errado, feito por uma máquina, se bem que, claro, a culpa das semanas de ansiedade que se seguiram ao erro não tenha sido da máquina, mas do médico que confiou num diagnóstico automático.

Estava em Moçambique quando tive o falso ataque. A minha companhia de seguros informou-me de que tinha de ser observado por um cardiologista na África do Sul, mas, como uma pessoa que teve um ataque cardíaco não pode andar de avião sozinha, tinham de mandar um enfermeiro para me acompanhar. Demoraram muito tempo a arranjar quem me pudesse vir buscar a Chimoio e acabei por ser observado só ao fim de duas semanas – para chegar à conclusão de que, afinal, o meu coração estava muito bem, obrigado.

O enfermeiro que me veio buscar era sul-africano. De Maputo para Joanesburgo, fomos de carro e conversámos muito. Quer dizer, ele falou muito e eu fui respondendo de vez em quando.

– A África do Sul era um país muito conservador, quando eu era novo. Crescemos sem nunca ver uma mulher nua. Nem em revistas, nada. Nunca vi os seios de uma mulher até ir para cama com uma mulher para a cama a primeira vez. Quer dizer, viam-se seios étnicos [acho que foi esta a expressão que ele utilizou], nas revistas e na televisão, mas isso não contava, porque não pensávamos nessas mulheres como mulheres. Nem esses seios nos excitavam, sequer.

Não devia ser bem assim, pensei eu. Quer dizer, talvez assim fosse para alguns sul-africanos brancos, mas não para todos: havia-os que não desdenhavam o sexo com sul-africanos negros, quer o assumissem ou não. E falava-se dos que vinham a Moçambique precisamente para poderem concretizar desejos que não se atreviam a concretizar na África do Sul. Dizem, aliás, que o continuam a fazer, mas não sei.

A reação ao corpo do Outro é muito variada e amiúde contraditória, tanto na literatura como no discurso quotidiano. Às vezes, fica-se fascinado por esse corpo. Foi o que aconteceu muitas vezes quando os europeus entraram em contacto com o corpo nu dos povos das zonas tropicais das Américas e de África, embora com atitudes diferentes relativamente a esse fascínio. A referência às beleza desses corpos faz, às vezes, parte do louvor de uma vida ou de uma ordem social “natural” que é idealizada. Outras vezes, é um fascínio adversativo, se se pode dizer assim: constata-se essa beleza, apesar de os nativos serem seres inferiores, quando não sub-humanos. Parece-me claro que, independentemente da maneira como são valorizados os habitantes da América e de África e as suas sociedades, o deslumbramento perante os seus corpos resulta sobretudo de estes serem visíveis, simplesmente. É uma revelação: como o enfermeiro que me levou a Joanesburgo, os viajantes europeus vêm de sociedades onde o corpo se oculta.

Agora, também acontece a negação da beleza primitiva ou selvagem: a caracterização da negatividade do Outro pode incluir também os seus corpos, escuros, disformes, simiescos, doentes… Outras vezes, o discurso sobre o corpo do Outro é às vezes hesitante, contraditório. A mesma voz pode alternar entre exaltar a beleza do Outro e sublinhar a sua fealdade. E, às vezes, arranja-se maneira de anular o corpo do outro, embora mostrando-o. Encontrei num livro de 1905 sobre o Congo belga* esta curiosa fotografia. Segundo a legenda, estes corpos nus são apenas “exemplos de penteados”. “Amostras” talvez seja até um termo melhor, para indicar que é de mostrar que aqui se trata.

É a mesma redução etnográfica, chamemos-lhe assim, que faz com que, na juventude do enfermeiro que me acompanhou a Joanesburgo, se pudessem mostrar seios das mulheres xhosas ou zulus na África do Sul, quando não se podiam mostrar seios de mulheres africânderes: transforma-se o corpo do Outro num objeto de estudo etnográfico, em documento da vida selvagem. Em grande medida desumanizado, o corpo é, por isso, des-sexualizado. Ou antes, pretende-se que seja. Mas nem sempre se consegue.

A um conjunto de ideias sobre o Outro e de imagens desse Outro corresponde, em princípio, um conjunto de sentimentos sobre ele. Algumas ideologias racistas levam à a recusa do corpo do Outro – os corpos nus das etnias desprezadas não excitam sequer. Como me explicava o enfermeiro. É aquilo a que se chamou “o racismo da aversão”, por oposição a um “racismo da dominação”, que não desdenha apropriar-se sexualmente do dominado. Agora, tenho a certeza de que, em muitos casos, não é diretamente sobre os sentimentos que a censura do racismo age, mas sim sobre a expressão desses sentimentos. Parece-me muito provável que a exposição do corpo selvagem como curiosidade etnográfica escondesse, afinal, um deslumbramento por esse corpo. Um deslumbramento que as regras sociais não deixavam dizer.
*** 
Encontrei no outro dia, num passeio pela Internet que nem me lembro já que objetivo tinha, uma passagem interessante de um romance que nunca li, de Carlos Fuentes**.
A pergunta essa noite foi proposta por mim: Porque refreamos as nossas grandes paixões?
– O que é que queres dizer? – perguntou o ator – Que se as refrearmos voltamos à lei selva? Isso já nós sabemos – disse ele, com um gesto acre do nariz e os lábios torcidos, muito característico dos seus papéis no cinema.
– Não – expliquei-me. – Peço-lhes que muito pessoalmente declarem por que razão, na maioria dos casos, quando surge a oportunidade de viver uma grande paixão pessoal a deixamos passar, fazemo-nos tontos, parecemos, às vezes, cegos, diante da melhor oportunidade de nos empenharmos numa coisa que nos dará una satisfação superior, uma...
– Ou uma profunda insatisfação – disse Diana.
– Também é verdade – disse eu. – Mas vamos por partes. Lew.
– Ok, não direi que toda a grande paixão nos devolve ao estado animal e dá cabo das leis da civilização. Mas está sempre a acontecer, desde o sexo com a nossa mulher até à política. Talvez o mais secreto temor seja que uma paixão cega, irrefletida, nos faça sair do grupo a que pertencemos, nos torne culpados de traição...
O velho falava de forma dorida. Interrompi-o, sem me dar conta de que estava a violar a minha própria premissa. Não o deixava entregar-se à sua paixão, porque senti que estava a personalizar, a pensar demasiado na sua própria experiência... Diana olhou para mim com curiosidade, sopesando a minha propensão às boas maneira, a evitar fricções...
– Dizes isso por causa do sexo, referes-te à paixão sexual?
Não, disse-me Cooper com o olhar. – Sim. É isso. A paixão arranca-nos ao grupo familiar. Pode violar a endogamia. Endogamia e exogamia. São essas as duas leis fundamentais da vida. O amor com o grupo ou fora dele. O sexo dentro ou fora. Decidir isso, saber se o sangue fica em casa ou se faz vagabundo, errante, é isso que nos impede de seguir a grande paixão. Ou nos atira de cabeça para o abismo do desconhecido. Necessitamos de regras. Não importa que sejam implícitas. Têm de ser seguras, claras para o nosso espírito. Casas-te dentro do clã. O casas-te fora dele. Os teus filhos serão da nossa família ou serão estranhos. Ficas aqui junto ao lar dos teus avós. Ou sais para o mundo.
Ao ler isto, lembrei-me de um amigo me falar, há muitos anos, de uma teoria segundo a qual a paixão amorosa teria tido origem na necessidade de exogamia, de “renovar o sangue”. Por mais voltas que dê a palavras-chave, não consigo descobrir na Internet que teoria era essa. Talvez esteja a lembrar-me mal. Mas não importa. O que me parece fazer sentido é que, independentemente de ter ou não surgido para arrancar as pessoas ao seu clã, a paixão amorosa acaba sempre por ter também essa função, quando as pessoas não conseguem controlar-se como o Lew Cooper da novela de Fuentes (e muita gente…) acha que se devem controlar. “Na perspetiva evolutiva, a dosagem de exogamia e endogamia foi sempre delicadamente equilibrada para garantir ao mesmo tempo coesão do grupo e diversidade genética.”*** Há casos, porém, em que não é equilíbrio nenhum, delicado ou não; em que se torna simplesmente um inferno a vida de quem se deixe deslumbrar por um corpo Outro, por uma alma Outra. Mas não há como o impedir: nem que só muito raramente, há de haver quem se deslumbre. Quem deixe o lar dos avós e se atire de cabeça para o abismo do desconhecido, quem saia para o mundo. Ámen.

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* Wack, Henry Wellington. The story of the Congo Free State; social, political, and economic aspects of the Belgian system of government in Central Africa. Nova Yorque & Londres: G. P. Putnam's sons, 1905. Foto da página 151.
** Fuentes, Carlos. Diana, o la Cazadora Solitaria (Mexico: Alfaguara Hispánica, 1994. Traduzo eu.
*** Graham Richards, Race, Racism and Psychology: Towards a Reflexive History Paperback, Londres e Nova Iorque: Routledge, 2011. Traduzo eu. Foi no mesmo livro que encontrei a distinção que uso neste texto entre racismo de aversão e racismo de dominação (aversive racism e dominative racism). 

19 de junho de 2015

Ao correr do teclado, sobre investigadores e investigações

Tenho andado a re/ver no YouTube algumas aulas e conversas de Richard Feynman, que é alguém que vale sempre a pena ouvir: grande capacidade de comunicação, grande poder de síntese, exemplos sempre à mão e muitos conhecimentos e ideias interessantes. Um dos vídeos que primeiro me chamou a atenção é de uma aula na Universidade de Cornell em 1964. Feynman fez aí uma descrição do trabalho de procura de uma lei científica que ficou famosa, ao que percebo, e que foi depois publicada em livro:
Em geral, procura-se uma nova lei pelo seguinte processo: começamos com uma conjetura; depois, calculamos as consequências dessa conjetura para vermos as implicações da lei, se estivesse correta; depois ainda, comparamos o resultado do cálculo com a Natureza por meio da experiência ou da experimentação. A comparação é efetuada diretamente com as observações para vermos se a lei funciona. Se não concordar com a experiência, está errada. Nesta simples afirmação reside a chave da ciência. Não importa a beleza da nossa suposição. Não importa a nossa inteligência ou a reputação de quem fez a conjetura − se a lei não concordar com a experiência está errada. E é tudo[1].
Tomando a expressão lei científica em sentido lato, referindo-se, sei lá...,  tanto às leis da termodinâmica como à aquisição da pronúncia da língua materna, poderia dizer-se que, neste resumo, Feynman descreve de facto todo o processo científico; mas seria uma grande injustiça para todos os que, pacientemente, vão apenas recolhendo informação, sem por isso proporem quaisquer leis. É essencial em ciência o papel das bases de dados (não forçosamente no sentido informático da expressão, claro), ou seja, do conjunto de descrições da realidade que nos permitem, precisamente, aferir a validade de qualquer lei ou teoria.

Como interagem a formulação de hipóteses e os dados recolhidos é uma questão interessante. No outro dia, comprei em segunda mão uma edição ilustrada das quatro novelas de Sherlock Holmes. Nunca tinha lido nenhuma história de Sherlock Holmes, vejam lá. Tinha lido coisas de Conan Doyle e até já falei aqui dele, mas não eram aventuras de Sherlock Holmes. Na primeira novela, o célebre investigador adverte para o perigo de formular hipóteses antes de ter recolhido os dados. Diz ele (e traduzo eu):
É um erro enorme teorizar antes de ter os indícios todos. Faz-nos ser tendenciosos.[2]
Descobri depois, na Wikipédia, que Holmes repete a mesma ideia em As aventuras de Sherlock Holmes:
É um erro enorme teorizar antes de ter dados. Sem o sentir, uma pessoa começa a distorcer os factos para os fazer corresponder às teorias, em vez de fazer teorias que correspondam aos factos.[3]
Exame do crânio de Piltdown. John Cooke, 1915 (de Wikimedia Commons)
Na história verídica do Homem de Piltdown juntam-se a aventura de detetives e a investigação científica
(e talvez também Conan Doyle, mas isso é só uma conjetura… 
O trabalho do detetive é basicamente o mesmo que o do cientista e de quem quer que procure a verdade com base em observações que podem ser feitas por toda a gente. Pode pensar-se, talvez, que as conclusões da investigação criminal costumam ser mais definitivas (descobre-se o culpado, pronto) que as da Química, da Linguística ou da História, por exemplo, que são mais passíveis de posterior revisão, para serem aperfeiçoadas ou substituídas por novas conclusões. Mas, mesmo na investigação criminal, também não há verdades definitivas, como no-lo mostram os muitos casos em que se revela, às vezes muitos anos depois, que o condenado não era afinal culpado. Em qualquer tipo de investigação, é fundamental a honestidade do investigador, antes de mais consigo mesmo – tentar sempre pôr em causa os seus sentidos e toda a classe de sentimentos. Deve observar-se, digamos assim, uma rigorosa ética de renúncia ao eu, um pouco como a propõem alguns místicos de várias religiões.

Dito isto, e por fundamentados que sejam os receios de Sherlock Holmes relativamente à tendência de confirmar na observação aquilo em que se acredita à partida, é importante realçar que o controlo da validade das conclusões de uma investigação não é apenas pessoal, interior: vai haver (devia sempre haver…) outras pessoas a julgar as provas e as deduções do detetive e do historiador, e a refazer os cálculos e as experiências do cientista, e é assim que se certifica que os dados não foram escolhidos a dedo ou torturados até dizerem o que o investigador queria que eles dissessem.

Se continuarmos a seguir a aula de Feynman atrás referida, vemos que não é qualquer palpite que serve de ponto de partida ao trabalho científico, mas que deverá ser, é claro, uma conjetura abalizada[4]. Não basta “montar um grande computador com uma roda que faz uma sucessão de conjeturas” ao acaso e testá-las todas, quanto mais melhor. Quer dizer, se não forem possibilidades realmente intestáveis e que, por isso, não podem aspirar ao estatuto de observáveis, sobre, por exemplo, o que sentiram os americanos originais quando viram chegar os primeiros europeus, a reprodução das sereias ou a alma das nações, podem de facto verificar-se até hipóteses mesmo muito disparatadas, mas não há razão nenhuma para se gastar tempo e dinheiro para o boneco (a não ser em casos em que se pretende justamente desmantelar uma hipótese disparatada que alguém insista em considerar “um facto”, como certos postulados das pseudociências...).

Fazer uma boa conjetura é, pois, uma parte importante do trabalho. Tão importante que, se a hipótese for boa, recorda-nos Priyamvada Natarajan numa conversa recente no site Edge, ninguém passa a considerar menos o seu autor quando ela se revela falsa. A beleza da ciência, diz ela, é poder provar-se que uma pessoa tem ou não razão. Uma das belezas, sem dúvida. Outra é essa de ninguém perder valor por não ter razão, se tiver feito devidamente o seu trabalho. Notem que não é de modo nenhum de astrofísica que aqui se trata, até porque não é assunto sobre o qual me sinta com capacidade de escrever seja lá o que for, pelo que salto a explicação das teorias que ela descreve e que poderão conhecer, se for do vosso interesse, seguindo a link atrás. Notem também como este processo segue rigorosamente a descrição de Feynman: há um fenómeno que não se sabe explicar, pelo que é necessário uma lei nova; aventa-se uma proposta de explicação; calculam-se as consequências que essa lei teria, a ser verdadeira; e verifica-se se essas consequências se observam ou não na realidade. Traduzo eu:
Propusemos [a] ideia dos Buracos Negros de Colapso Direto que são muito maciços e se formam muito cedo no universo […]. Claro, há consequências da formação de buracos negros, ou de uma população deles, desta maneira, em vez de ser por meio de estrelas. A principal previsão deste cenário é que se devem ver quasares muito brilhantes muito mais cedo no universo […] É uma previsão que será testada pelo Telescópio Espacial James Webb, que esperamos que seja inaugurado em 2018.

Vai ser muito emocionante provar-se se temos razão ou não. É essa a beleza da ciência. Uma pessoa poder sentar-se no seu escritoriozinho em New Haven e fazer um cálculo que uma comunidade leva suficientemente a sério para o testar, e é fantástico que o façam num prazo de dez, quinze anos […]. É claro, seria bom ter razão.

A questão de se provar várias vezes que uma pessoa está errada e essa pessoa ser, ainda assim, uma cientista respeitada é uma excelente questão. Tem havido muitos casos em que houve grandes espíritos que propuseram ideias fortes, muitas das quais se tem provado que estão erradas, e eles são considerados, ainda assim, os mais brilhantes astrofísicos.
Eu sei o que estão a pensar: que este tipo de reconhecimento não é de modo algum exclusivo da ciência, que há muito quem continue a ser admirado depois de se provar que não tinha razão – e não só por familiares e amigos. É certo. Quando, porém, se trata de formas de “conhecimento” não sujeitas à confrontação com a observação e ao escrutínio de outros especialistas, sejam elas religiosas, pseudofilosóficas ou pseudocientíficas, o mais normal é nunca se provar que alguém não tem razão, simplesmente porque não há nada a provar, é tudo só uma questão de crer[4]...
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[1] Richard Feynman, O que é uma Lei Física, Lisboa: Gradiva, 1989. Tradução de Carlos Fiolhais. No vídeo da aula de Feynman de que é tirado o texto,os alunos riem-se quando ele diz “First, you guess”, o que não aconteceria, penso eu, se alguém dissesse, em português, “começamos com uma conjetura”. Isto tem a ver com o leque mais amplo de significados da palavra guess, mas não me parece que a tradução seja incorreta, parece-me até muito acertada.
[2] “A Study in Scarlet” in Sherlock Holmes, The Complete Illustrated Novels, Londres: Bounty Books, 2005: “It is a capital mistake to theorize before you have all the evidence. It biases the judgment.”
[3] “A Scandal in Bohemia”, in The Adventures of Sherlock Holmes, Londres: George Newnes, 1892: “It is a capital mistake to theorize before one has data. Insensibly one begins to twist facts to suit theories, instead of theories to suit facts.” Uma coisa que me veio logo à cabeça, quando li estas sentenças de Sherlock Holmes (não me atrevo a sugerir que se deve ler nas afirmações do investigador a opinião do seu autor…), foi que, em abstrato, pode também pensar-se exatamente o contrário: que basear-se sempre em dados previamente recolhidos pode influenciar a formulação da hipótese, limitando-a. Por cercear a imaginação, digamos assim. É-me difícil, porém, pensar em exemplos concretos dessa possível limitação.
[4] E depois, mas isso é outra história, há os casos de vários guias espirituais de todo o tipo que, depois de serem desmascaradas as suas fraudes ou as enormes incoerências entre o que pregam e o que fazem, não perdem a legião de discípulos e admiradores – os discípulos não reconhecem que o seu mentor espiritual estava errado, nem sequer, muitas vezes, aceitam as críticas que lhe fazem, sobretudo porque, se o fizessem, teriam de aceitar o seu próprio equívoco… Como me sugeriu j.j.amarante, esta referência a guias espirituais deve também incluir políticos.

Mais 3 notas avulsas sobre coisas da língua

1 [Concordância de tempo] 
Quando era rapaz novo, havia músicas de que não gostava, porque eram repetitivas e não tinham solos instrumentais, e hoje gosto dessas mesmas músicas, porque são repetitivas e não têm solos instrumentais. Como as coisas são!...

E como é a gramática!... Vejam lá: essas músicas eram repetitivas e hoje são repetitivas, como se tivessem um antigamente e um agora… Mas digam-me, que eu tenho dúvidas em relação a isto: apesar de ser normalmente o presente que designa, em português, o que não tem tempo («A toninha é um mamífero», «A 7ª sinfonia de Sibelius só tem um andamento»), não se diz «havia músicas de que não gostava, porque são repetitivas e não têm solos instrumentais”, pois não? Não é pergunta retórica, queria mesmo saber o que dizem e ouvem dizer, e agradeço antecipadamente a vossa colaboração.

2 [Ainda a propósito de ]
Escrevi eu aqui uma vez que, a par das duas propostas mais conhecidas da origem de (de rapaz e de compadre), se podia considerar outra, a das onomatopeias epá e opá, comuns a uma vasta zona de línguas ibéricas (ver aqui o desenvolvimento da ideia). Há ainda, tinha-me esquecido, a possibilidade de vir de pai. Já vi e ouvi algumas vezes na minha vida “Ó paizinho” como vocativo popular, dirigido não ao progenitor, mas a um desconhecido, e também a exclamação “Ena pai!”, que voltei a encontrar há pouco tempo no conto “José Valentim”, de Fialho de Almeida (Mem Martins: Europa-América, s/d). É claro, pode muito bem ser ao contrário: que de se tenha “reconstruido” um étimo fictício pai, talvez por analogia com tio, que também se usava muito como vocativo na língua popular. Vá lá uma pessoa saber…

3 [Bacon: da necessidade, ou não, de palavras importadas, mais uma vez] 
Bacon é um bom exemplo de uma palavra estrangeira que se adota com um produto novo. A minha avó conheceu o produto bacon na mesma altura em que eu o conheci e aceitou o nome inglês, que pronunciava beique. À pergunta “É mesmo necessária a palavra inglesa?”, a resposta é que não, como nunca é, nem que tenha de se criar uma palavra nova. Como se diz então bacon em português?

Em abstrato, creio que não se pode mesmo traduzir diretamente sempre da mesma maneira, porque a palavra inglesa não refere um produto apenas, mas vários e, ao que sei, não temos nenhum termo ou expressão que cubra os mesmos significados. A tradução toucinho fumado, que já vi proposta, pode funcionar às vezes, se for de smoked bacon que se está a falar, mas nem todo o bacon é fumado, e nem sequer curado, porque há bacon fresco (green bacon). O bacon do ombro e outros cortes de bacon não têm mesmo nada de toucinho.

Mas é certo que isto são produtos mais raros, não precisam tanto de tradução... Atenhamo-nos então ao bacon mais comum, o chamado streaky bacon, vá, para não nos perdermos em complexidades gastronómicas. Como a palavra toucinho é muito abrangente (fumado ou não, é às vezes fat, às vezes lard e às vezes bacon), para o streaky o melhor seria, provavelmente, usar entremeada, que é como se costuma chamar a esse toucinho entremeado. Até porque toucinho fumado só, sem mais, faz-me antes vir à mente um tipo específico de bacon com pouca ou nenhuma carne – que se encontra, sob várias designações, em vários países (o que se vê nesta imagem). Posso, aliás, querer dizer que no outro dia (é verdade), o supermercado tinha bacon fumado (røget bacon) mais caro que (arrisco…) toucinho fumado (røget spæk). Não sei se se tinham enganado a pôr os preços, porque normalmente é ao contrário

Entremeada curada, ou salgada e defumada, ou algo assim, tem poucas possibilidades de vingar e é mais realista aceitar, estou eu em crer, que bacon é palavra importada que veio para ficar em português e em muitas outras línguas. Talvez se possa começar antes a pensar numa maneira de aportuguesar a grafia, mas bêicone, hmmm, não me cheira… (E depois, em resolvendo isto do bacon, a ver se começamos a pensar em como chamar em português às costeletas kasseler…)

5 de junho de 2015

Objetos artificiais, pessoas e outros animais atingidos por meteoritos

Na Internet encontra-se de tudo (e já se encontra muito de grande parte das coisas…). É como na botica, a bem dizer, mas, boticas assim, há muito que não nas há, a não ser no Canadá.

Até se encontra quem conte objetos artificiais, animais e pessoas atingidas por meteoritos! E fica a saber-se que só se conhece com relativa certeza de um caso antes de 1775 e que, a partir daí, o número de casos registados aumenta progressivamente. Porque caem agora mais meteoritos? Claro que não.

Isto ensina, entre outras coisas, a ter bom senso e a nunca se esquecer de ter em conta todos os fatores: seja doentes de asma ou quedas de meteoritos, não basta dizer que há cada vez mais, é preciso contar também que somos mais agora e que há cada vez mais registos de tudo. Além de que, no que toca a doenças com maior incidência em idades mais avançadas, se vive muito mais tempo hoje; e, claro, se se morria de uma infeção na boca aos 25 anos não se chegava a morrer de cancro da próstata aos 65

31 de maio de 2015

Arqueiros, setas e alvos

Já uma vez aqui pus na Travessa este poema (é um poema completo ou um excerto?) de António Maria Lisboa:
A Seta já contém o Alvo, mas só percorre a Seta aquele que lhe conhece o Alvo. Assim é de olhos vendados que o Grande Atirador alveja.
(Isso Ontem Único. Lisboa: Contraponto, 1953)
Conheci o poema na adolescência e sempre gostei muito dele, mas não sei bem porquê. Não o consigo transformar em nada de racionalmente entendível, não consigo fazer dos seus elementos metáfora de nada que me sirva para deduzir dele uma proposição lógica; mas deve ser precisamente por isso que ele me fascina. Soa a uma sentença de alguma filosofia esotérica, e talvez o seja de facto, porque também as há assim (e muitas…) incompreensíveis para os não-iniciados que não têm a chave para as decifrar. Também pode ser apenas um arremedo desse tipo de frases, um falso aforismo místico. Ou pode ser um daqueles koans zen, que se destinam mais a fazer caretas à razão que a comunicar seja lá o que for. [Bom, nem toda a gente concordará comigo e eu próprio não tenho certeza nenhuma do que escrevo, devo confessar. É bem possível que pelos menos alguns koans sejam também metáforas, apenas de difícil interpretação...]

Seja lá como for, é inegável a força das imagens do arqueiro, da seta e do alvo. O alvo, sobretudo, é uma metáfora tão comum que o seu uso metafórico ultrapassa, nas línguas com que lido, o seu uso literal. Este texto não tem intenção outra que não seja juntar coisas díspares, que só têm em comum arqueiros, setas e alvos. Conto-vos a seguir uma história verídica. Quer dizer, eu garanto-vos que é verídica, mas, claro, eu compreendo de duvidarem da sua veracidade, porque os contadores de histórias não são nunca de fiar…
Arqueiro japonês, autor desconhecido, 1878 (Wikimedia Commons)






G.L. é dentista e caça cudos e impalas e búfalos e leões e hipopótamos, etc., com arco e flechas! Só elefantes é que não. Quer dizer, ele diz que se pode, mas que nunca o fez. Elefantes, caça-os com espingarda. Parece que caçar com arco e flecha, quando se matam muitos animais, não afugenta a bicharada de uma determinada zona, ao contrário do que acontece quando se caça com armas de fogo. Por isso, quando há excesso de animais de alguma espécie nalguma reserva no país onde G.L. mora e é preciso abater uns quantos desses supranumerários, as autoridades contactam-no, para ele ir lá caçá-los. E ele vai, de boa vontade – assim caça sem ter de pagar (e não é tão barato como isso, o que se paga para caçar animais destes) e presta um serviço à reserva. Agora, quando vai à caça, G.L. tem de levar quem oiça por ele os ruídos do mato – é que ele é muito surdo…

Os arcos e as flechas, fá-los o próprio G.L. numa oficina que tem lá casa. Uma coisa sofisticada e moderna. Aliás, tem de ser – é trabalho de precisão, digo-vos eu, que já lá fui visitar aquilo. Mas por que é que ele faz arcos e flechas em vez de os comprar apenas? Porque os arcos profissionais não são suficientemente bons. Os que ele faz são mais fortes e mais certeiros. Devem ser, não sei, é o que ele diz. Que ele mete as flechas todas na muche a uns bons 200 metros, isso é verdade. Ou mais, não sei.

Diz ele que, quando era jovem, podia ter ficado nos primeiros lugares do campeonato mundial e que foi mesmo por azar que não participou. Ossos do ofício… Ou melhor, dentes do ofício. Andava há dois anos a treinar para o campeonato mundial cinco a seis horas por dia, depois das horas de serviço. Tinha, ao que diz, marcas excelentes e até possibilidades de vir a ficar nas medalhas. Dois dias antes de partir para os campeonatos, estava a trabalhar sem óculos, saltou-lhe um bocado de dente infetado para o olho, e apanhou uma infeção na vista: adeus mundial. Ficou tão triste, tão desiludido que abandonou o tiro ao arco de competição.

O meu texto acaba aqui. O resto é a ilustração que enfeita a página e dois vídeos do YouTube (ambos em inglês).

O primeiro é sobre a ciência da flecha e do seu percurso, que é bastante interessante. Antes de ver este vídeo, não sabia que, embora a linha que vai do arco ao alvo seja reta, a trajetória do corpo da flecha o não é. E claro, não tinha sequer pensado, sequer, na questão fundamental, que é o arco estar ali mesmo no meio, entre a cauda da flecha, com que se visa, e o alvo. (G.L. usa um arco como o que se vê no vídeo a 3'30'', que não se intromete entre o atirador e o alvo.)



O segundo vídeo é sobre uma espécie de artista de circo, um arqueiro dinamarquês que desenvolveu técnicas espetaculares de tiro ao arco, que, diz ele, são as que usavam os arqueiros de antigamente, para caçar e em combate.

30 de maio de 2015

"Espiritual negro"

Flak apresentou anteontem [28.05.2015] o seu segundo álbum a solo, Nada escrito, que aconselho. Não é bem para fazer publicidade ao disco, porém, que aqui o refiro[1], mas para, a propósito da letra de uma das canções, vos falar um pouco da minha experiência de um período muito difícil da vida do Zimbábuè[2].

O texto original do que veio a ser a letra de “Vi escrito a fogo”[3] é o seguinte:
Vi escrito a fogo na água: / Vê a mágoa à tua volta! / Que ela seja mais que mágoa,
Que seja fé e revolta. // Nunca a gente desespera, / Chora só, e ri e espera / Que nos pague quem nos deve / Que a vida seja mais leve / E que haja quem que nos leve / A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! // Vi escrito a fogo na terra: / Olha bem ao teu redor, / Faz por ti a tua guerra, / Nunca por nenhum Senhor // Nunca a gente desespera / Chora só, e ri e espera / Que a dor que sempre teve / Seja algum dia mais leve, / E que haja quem que nos leve / A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! // Vi escrito a fogo no ar: / Vem, irmão, vamos embora / Vamos abrir este mar, / P’ra passar, chegou a hora!
No documento original, o texto chama-se “Espiritual negro”, tem a data de 13 de novembro de 2008 e foi escrito em Chinhoyi, no Zimbábuè. Isto ajuda a compreender o texto. Ou a intenção com que o escrevi.

Lembro-me de que, da primeira vez que fui ao Zimbábuè, em 1997, vi um artigo num jornal cujo título era “Estradas apresentam sinais de deterioração”. «É ao contrário de Moçambique», comentei eu, «lá a deterioração apresenta sinais de estrada.» Cinco anos depois do acordo de paz, uma grande parte das infraestruturas continuava por reabilitar e faltavam, aqui e ali, pontes e troços de estrada. Lembro-me de demorar quatro horas para fazer 32 quilómetros de Nicoadala a Quelimane, num camião. A rede comercial também estava ainda por restabelecer, em parte devido ao mau estado das estradas. Fora das maiores cidades, continuava a haver escassez da maior parte dos produtos. As viagens eram difíceis. Era preciso ter algum espírito de aventura para ir a certos sítios, até porque às vezes não se sabia se se ia encontrar onde dormir ou comer.

Por isso, entrar no Zimbábuè, nessa altura, era como entrar noutro mundo. Tudo funcionava bem, havia de tudo – pelo menos para quem tivesse dinheiro. É claro, havia também coisas que nos impressionaram muito negativamente. Escrevi, numa carta de novembro desse ano, que, muitas vezes, o Zimbábuè se parecia estranhamente com a Rodésia[4]:
Nas livrarias de Harare, ao lado da biografia do Mandela, A road to freedom, via se um outro livro, cujo tema posso apenas adivinhar: Rhodesians never die. E deve ser verdade. O país ainda é dos brancos e ainda é um país de apartheid. Há restaurantes para brancos e turistas e restaurantes para “indígenas”. A expressão indigenous é comummente usada pelos zimbabueanos. Em Moçambique, se se pergunta por um restaurante, ou há ou não há. No Zimbábuè, às vezes há, mas não é para brancos, porque só tem comida “indígena”. (…)
Não há terra que chegue para as pessoas cultivarem, porque a terra é toda dos farmeiros brancos. Bem, quase toda. O governo começou agora um programa de redistribuição da terra, que tem dado broncas atrás de broncas: os brancos estão descontentes, obviamente, por estarem a ser expropriados, e a população e a comunidade internacional também, porque a terra expropriada está a ser entregue a ministros e generais do Sr. Mugabe...
E acrescentava mais algumas impressões de turista, num texto de outubro do ano seguinte, escrito numas férias em Bvumba:
A população negra trabalha aqui invariavelmente nas quintas dos brancos. O sistema é de tipo feudal: as aldeias dos trabalhadores são dentro da propriedade do senhor, bem como as suas machambas, normalmente terrenos pequenos, na periferia das plantações (...). Uma parte das infraestruturas para os trabalhadores, incluindo, sempre, as suas casas, poços e lavadouros, e, às vezes, escolas e postos de saúde, são fornecidos pelo “senhor”. Mas, como estas infraestruturas nem são piores que as infra-estruturas públicas das chamadas zonas comunais, não é amanhã a véspera do dia em que rebente aqui uma jacquerie ou outra revolução qualquer. E os zimbabueanos brancos lá vão jogando o seu ténis ou o seu senúcar ao fim da tarde, no clube local, que tem um empregado de libré vermelho e tudo, e uma vista maravilhosa sobre a montanha...
A desvalorização do dólar zimbabueno tinha já começado nessa altura, vejo agora ao reler estes textos. E a queda da qualidade de vida:
Além disso, a vida no Zimbábuè, sobretudo com esta desvalorização constante que o dólar zimbabueano tem sofrido ultimamente, é muito barata. Quer dizer, para nós... Os zimbabueanos, que até tinham, em geral, uma vida bastante razoável comparada com a dos outros povos da África Austral, estão cada vez pior...
É claro, era uma desvalorização que não se podia comparar com o que viria depois. Aliás, o que veio depois estava fora do alcance mesmo da mais delirante imaginação. Quando voltámos a Moçambique em 2006, para aí vivermos 5 anos em Chimoio, o Zimbábuè era um país irreconhecível. Escrevi eu nessa altura:
A situação de dois dos países vizinhos, o Zimbábuè e o Maláui, deteriorou-se tão drasticamente que Moçambique, que tinha um nível de vida muito inferior a ambos, lhes passou claramente à frente. Uma das implicações que isso tem é que as correntes de emigração se inverteram: em vez de serem os moçambicanos a emigrar para o Zimbábuè e para o Maláui, são os zimbabueanos e os malauianos a virem procurar a sua sorte em Moçambique. E não só gente pobre – também os farmeiros brancos do Zimbabue se vieram tentar estabelecer do outro lado da fronteira, quase todos nesta província de Manica, que é das que tem mais potencial agrícola. Entre 2001 e 2004, instalaram-se 42 zimbabueanos (entre particulares e firmas) aqui na província. Falou-se do “milagre de Manica”: de repente, havia aqui montes de gente a fazer agricultura industrial, o que produz forçosamente desenvolvimento: 5000 postos de trabalho assalariado, mesmo mal pago, são ouro numa terra onde o que mais falta é dinheiro. Além disso, abriram unidades de processamento para exportação de rosas e legumes, e para produção de óleo de girassol e produtos lácteos para o mercado local e regional, que criaram centenas mais de postos de trabalho. Mas, a partir do ano passado, os zimbabueanos começaram a abandonar Moçambique. Neste momento, restam aqui em Manica meia dúzia de famílias, as mais teimosas[5].
Mas não tinha ainda ido ao Zimbábuè, quando escrevi isto. Eis um excerto de um texto de março do ano seguinte, depois da nossa primeira viagem ao Zimbábuè:
No Zimbábuè, muito provavelmente, o pior ainda está para vir, por muito que seja difícil imaginar a situação pior do que está. Fomos lá uma vez e nem queríamos acreditar no que víamos. Se há alguém que, com toda a propriedade, pode afirmar que não é deste mundo o seu reino, não há dúvida que esse alguém é Robert Mugabe… 
À primeira vista, está tudo igual, ou quase: as estradas e as infraestruturas em geral continuam a parecer muito melhores do que em Moçambique, as enormes propriedades agrícolas à beira da estrada continuam a parecer – e são, com certeza – muito mais desenvolvidas do que as farmas moçambicanas. Bom, tinha-nos chocado um bocado termos de pagar, entre dois adultos, três crianças e um carro, 125 dólares só para entrar no país. Mas, por muito que tivéssemos ouvido dizer vezes sem conta que o país estava muito mal, só nos apercebemos de como o país estava quando chegámos ao fim da tarde ao nosso destino, a pequena cidade de Chinhoyi, uns duzentos quilómetros a oeste de Harare. 
A primeira e maior surpresa foi que, como estrangeiros não residentes, não podíamos pagar o hotel com dólares zimbabueanos – tinha de ser em divisas. Agora, ao câmbio oficial, que é, claro está, o único que se pode usar nesta situação, o preço de um quarto chungoso, bastante chungoso até, era de 385 dólares americanos, isto é, para quem não está habituado a dólares, cerca de 295 euros! De longe, o quarto de hotel mais caro que pagámos, tanto eu como a Karen, em toda a nossa vida. E ficámos praticamente sem um tostão. Era preciso trocar com urgência, no mercado negro, o pouco dinheiro que nos restava, para ver se conseguíamos comer qualquer coisa, mas à noite, numa cidade pequena, sem conhecer ninguém, não sabíamos o que fazer. Acabou por ser uma senhora qualquer que passou na rua que nos vendeu os dólares zimbabuenos a metade do preço oficial. E assim, os pratinhos de esparguete que comemos ao jantar, mais a garrafinha de litro e meio de água para os cinco, ficaram-nos em cerca de 17 euros em vez dos 34 que seriam ao câmbio oficial.
Descobrimos no dia seguinte que, ao câmbio real, o dólar zimbabueano é entre 10 e 15 vezes mais barato do que ao câmbio oficial. Quer dizer, se nós fôssemos residentes no Zimbábuè e pudéssemos pagar em zim dollars, o preço real da nossa dormida teria sido entre 20 e 30 euros, o que já era mais aceitável… Mesmo assim, ao preço real, a vida é impossível para os zimbabueanos. Segundo eles dizem, o salário mínimo dá para uma família comer um dia. Mas também, que interessa isso num país onde há mais de 80% de desempregados? A inflação, oficialmente, foi de 1600 por cento no ano passado (a mais alta do mundo, claro está), mas há produtos que duplicam de preço de semana em semana. Os restaurantes já não têm preços fixos, porque o preço dos pratos aumenta de refeição para refeição. Harare é, segundo o Economist, a cidade mais cara do mundo, embora seja a capital de um dos países mais pobres!
Evidentemente, o turismo desapareceu, como vão desaparecendo os zimbabueanos que têm alguma possibilidade de sair do reino de Mugabe para fora. E Mugabe e os seus generais mantêm-se firmes no poleiro – com boicote internacional ou sem ele, com um país a apodrecer-lhes nas mãos, com a indústria e a agricultura, que eram poderosas na região, a esboroarem-se completamente, o que é que isso lhes interessa? Eles estão bem, porque o reino deles é dum mundo diferente do dos desgraçados dos seus compatriotas que não sabem o que fazer à vida. É dum mundo só deles…
Meses depois, uma descrição atualizada da situação:
O país tornou-se surrealista: o valor do dólar zimbabueano no mercado negro era, até 6 de Setembro [de 2007], mil (mil!) vezes mais baixo do que no mercado oficial: no banco um dólar americano valia 250 dólares zimbabueanos; no mercado negro valia 250 000. Depois, o dólar zimbabueano foi repentinamente desvalorizado de tal forma que um dólar americano passou a valer 30.000, mas, como esse pseudoajuste fez disparar para mais do dobro o dólar americano no mercado negro, agora o valor oficial do dólar americano é só (!) 20 vezes menos do que o câmbio real. Conseguem imaginar uma coisa assim?
Desta última vez, vimos já as lojas e as bombas de gasolina todas vazias. Para quando a rutura? «Bom, isso em África, não existe, não é?», dizia-nos alguém. «A situação pode piorar sempre mais, que a malta vai-se sempre desenrascando – cada vez pior, é certo, mas sem chegar a nada que se possa chamar uma situação de rutura…» Pode ser que sim, pode ser que não. 
Nunca tive uma nota destas, mas tive algumas com muit000000000s zeros (Imagem: Wikimedia Commons)
Imaginem o que é fazer 800 quilómetros de estrada sem ver ninguém na rua, sem ver uma loja aberta. Meia dúzia de pessoas em Harare, uma outra loja, mas literalmente nada no resto do caminho. Um cenário mesmo daqueles filmes de ficção científica em cenários pós-apocalípticos. Ninguém. Faz medo. Faz mesmo medo.

Em finais de 2008, veio visitar-nos a Chimoio um amigo inglês, que aproveitou para dar um saltinho a Harare, para visitar uns amigos que não via há muito tempo, uma senhora inglesa casada com um senhor zimbabueano. A senhora era professora universitária e o senhor, ex-combatente do ZANU, ocupava-se da farma onde viviam. O meu amigo veio de lá descorçoado. O salário mensal de um professor universitário, disse-me ele, dava para comprar três quilos de arroz.
«E a cabeça daquele homem», indignava-se ele, «ele não compreende, não compreende.»
Nas discussões que tinha tido com o amigo, com muito cuidado para não ofender o hóspede, o ex-combatente insistia que era óbvio que Mugabe não podia entregar o poder à oposição:
«Eles não fizeram nada, como é vão agora mandar no país? Fomos nós que acabámos com a Rodésia, não eles. Fomos nós que fizemos o Zimbábuè, vamos agora entregar-lhes o país?»
Costumo usar ironicamente a expressão «A revolução a quem a trabalha!» para designar esta atitude, que não existe apenas no Zimbábuè, infelizmente.

Depois de um processo eleitoral longo e violento e de muitas pressões e negociações, acabou o ZANU por ter mesmo de partilhar o poder com a oposição, cujo dirigente foi nomeado primeiro-ministro em fevereiro de 2009; mas não parece ter havido mudanças políticas significativas. A vida começou a melhorar um bocadinho, quando, em janeiro de 2009, começaram as divisas a circular oficialmente e o dólar zimbabueano desapareceu. Pagava-se tudo em dólares americanos ou randes, às vezes pagava-se numa moeda e recebia-se o troco na outra. Como estará agora aquele país? Li no outro dia que Mugabe quer indemnizar os agricultores expropriados. O que há de uma pessoa pensar de uma coisa assim?

Quero notar que houve quem não visse apenas resultados negativos do processo de “redistribuição” de terra. Não sei o suficiente do assunto para tomar posição sobre esta análise, como também não tenho conhecimentos para tentar fazer aqui uma análise política rigorosa de causas e motivações desse processo e da crise. Se não sabem nada sobre o Zimbábuè, também não quero que fiquem com a ideia que a violência do regime de Mugabe se abateu apenas sobre os poderosos farmeiros brancos, ou, como muitas vezes se salienta, sobre o grupo étnico ndebele. Nada disso. Foram vítimas de repressão todos os que se lhe opunham.

Aquilo que testemunhei foi um país em ruínas e pessoas na miséria, sobretudo as mais pobres. A ideia das imagens bíblicas na letra da canção veio-me do muito contacto que tive com imigrantes zimbueanos em Chimoio – não farmeiros brancos, que, esses, não os conheci, mas gente de todas as classes que tinha fugido a uma vida que já não se aguentava. Fiquei com a ideia – que já tinha, aliás, das minhas viagens ao Zimbábuè – de que é um país muito cristão. De que é gente habituada a sofrer, também não tenho dúvida nenhuma: «Babilónia, cativeiro, sempre assim foi toda a vida.»
____________

[1] Mas, claro, um bocadinho de publicidade é um efeito secundário positivo...
[2] Enquanto não escrevo um texto que tenho pensado sobre algumas propostas ortográficas que acho mal o AO90 não ter integrado, reitero aqui este desvio: uso a norma consagrada por muitos topónimos moçambicanos, que é a que para mim faz mais sentido (ver aqui)
[3] A letra que Flak canta é a seguinte:
Nunca a gente desespera, / Chora só, e ri e espera / Que nos pague quem nos deve / Que a vida nos seja leve / E a morte suave e breve (os três versos itálico são substituídos na segunda parte da cantiga por apenas dois: Que a dor que a gente sente / Seja algum dia mais leve) / E que haja quem que nos leve/ A uma terra prometida, / Babilónia, cativeiro, / Sempre assim foi toda a vida! / Vi escrito a fogo na água: / Vê a mágoa à tua volta! / Que ela seja mais que mágoa, / Que seja fé e revolta. / Vi escrito a fogo na terra: / Olha bem a teu redor, / Faz por ti a tua guerra, / Nunca por nenhum Senhor.
Que se modifiquem versos, se altere a estrutura do texto e se omitam partes (uma quadra, neste caso) ou mesmo que se acrescentem versos ou estrofes não é anómalo quando se compõem canções a partir de letras já escritas. Reconhece-se obviamente o esquema – não será o mais comum, mas também não é tão raro como isso – em que uma estrofe quase-refrão se altera um pouco de cada vez que aparece. É também óbvio que, assentando o esquema destes “refrães” nos quatro elementos clássicos, escolhi repetir sempre o fogo, relacionando-o, de cada vez, com um dos outros elementos, a água, a terra e o ar. Porque decidi destacar o fogo, não sei, já não me lembro. Provavelmente, a ideia que me surgiu para o refrão (e para a letra no seu todo) foi «Vi escrito a fogo…», ainda antes de decidir usar os quatro elementos. 
[4] Todos os excertos de textos meus que aqui incluo são de cartas coletivas, um boletim informativo sobre a minha vida, se se pode dizer assim, que, em certos períodos da minha vida, enviava aos amigos com alguma regularidade, primeiro em papel e depois por correio eletrónico. Chamaram-se Crónicas do Alto Molócué, Crónicas de Camargo, Crónicas de Copenhaga e Crónicas de Chimoio. Cada carta incluía, além do texto igual para toda a gente, uma parte pessoal.
[5] Foram apontadas várias causas para o fracasso do “milagre de Manica”: a insuficiência do investimento inicial, porque muitos farmeiros zimbabueanos estavam completamente descapitalizados; o peso da legislação moçambicana; a falta de apoios e infraestruturas a que os zimbabueanos estavam habituados, desde combustível subsidiado (como em muitos países, aliás) a estradas e a controlo fitossanitário; a falta de pesquisa sobre espécies adaptadas ao clima e ao solo locais; e o facto de os zimbabueanos não terem contactos entre a elite moçambicana nem falarem português – nem terem aceitado que isso é mesmo necessário em Moçambique…

27 de maio de 2015

Cidades com artigo e combate ao tédio

Sobre os nomes de localidades que têm artigo definido, dizem às vezes os professores de português aos seus alunos estrangeiros que, se o nome do lugar significa alguma coisa além de referir a localidade, leva artigo; senão, não leva. O Porto é o exemplo mais comum. Mas não é verdade: ninguém diz “o Castelo Branco” nem “a Vila Franca”, e diz-se “a Bobadela” e “a Azambuja”…

Não há de facto regra nenhuma para o uso de artigo com os topónimos e há até muita oscilação de falante para falante: se todos estão de acordo que se diz “a Beira” (e, consequentemente “na Beira”, “pela Beira”, “da Beira”, etc.) e que nunca se diz “o Faro”, já há quem diga, por exemplo, “o Chimoio” ou só “Chimoio” (“vivo no Chimoio” ou “vivo em Chimoio”), “o Maputo” ou só “Maputo” (“ela está no Maputo” ou “ela está em Maputo”), “a França” ou só “França” (“estivemos em França” ou “estivemos na França”), “a África” ou só África(“viveu muito tempo em África” ou “viveu muito tempo na África”), “o Algueirão” ou só “Algueirão”. Neste último caso, se alguém me disser que esteve “em Algueirão”, fico logo a saber que não é dali da zona; mas não fico nunca a saber nada de uma pessoa por ela usar ou não o artigo em Chimoio ou Maputo… 

Talvez fosse boa ideia, não sei, que se aceitasse que o artigo faz parte do nome, como se faz às vezes em França (Le Mans, Le Puy-en-Velay, Le Havre, Les Vans...): « Je viens du Puy, je vais au Mans et puis après au Havre »). Uma proposta brincalhona que ouvi várias vezes aos meus alunos estrangeiros é que, nas placas com os nomes das localidade, se ponha por baixo de cada uma “cidade/vila/etc. com artigo/sem artigo” conforme o caso: “Luanda – cidade sem artigo”; “Rio de Janeiro – cidade com artigo”; “Chimoio – cidade com ou sem artigo, à vontade do freguês…” Não sei se estão a ver…

Agora, porque é que os professores dão a tal regra aos alunos, se não é verdade? Bom, há alunos que ficam apreensivos quando se lhes diz “não há regra”. Ou mais ainda, creio eu, se se lhes diz “não sei a regra” ou “não quero dizer a regra”. (Na realidade, é bem possível que se conheça uma regra que o professor não sabe ou que a regra, por provável que seja a sua existência, seja desconhecida de toda a gente; ou que o professor até saiba a regra, mas que ela seja demasiado complicada para quem não tenha um nível muito elevado de conhecimentos de língua…). Mas nem sempre é por causa dos alunos. Também há professores que não gostam de dizer “não sei”. Conheço casos (felizmente raríssimos) de professores que inventam regras estapafúrdias só para não dizerem que não têm regra para dar. Tudo isto é bastante inútil, enfim, na maior parte dos casos, porque a grande maioria das pessoas não aprende a usar a língua tomando consciência das suas regras – mas isso é outra conversa. Outra conversa também, com uma relação mínima com o que fica para trás, é a que se segue:

Estávamos no outro dia, como sempre acontece quando se juntam pessoas que trabalharam muito tempo com cooperação para o desenvolvimento, a tentar avaliar as razões da sua falta de eficácia e a alvitrar formas possíveis de a melhorar. A certa altura, alguém comentou que as grandes mudanças de políticas de cooperação para o desenvolvimento não resultam da constatação no terreno de que a estratégia utilizada não está a funcionar, mas de uma ideia inovadora, num gabinete qualquer, de alguém que não tem de facto informação sobre o que está ou não a resultar. Isto fez-me pensar nos professores e na evolução das técnicas e materiais.

É claro que há muita investigação feita sobre aprendizagem e que essa investigação se reflete nas reformas educativas – nos programas e nos materiais disponíveis, elaborados em função de metodologias específicas. Já há muito tempo que assim é, aliás, e assim deve continuar. Mas, a um nível mais local, digamos assim, notei muitas vezes que se muda – sem saber, sem poder saber, o que se está a fazer bem e a fazer mal – apenas porque se quer variar, porque se está farto do tédio e da rotina, porque se quer fazer uma coisa nova, experimentar uma ideia que se teve, por mais indocumentada que seja a sua eficácia.

E está muito bem assim, porque não? Também conta na aprendizagem (não sei se muito, mas um bocadinho) o entusiasmo com que o professor incentiva o aluno a aprender – um professor que gosta do que faz. Tudo o que contribua para ele não se deixar enredar na rotina e no tédio está muito bem…

P.S.: Não depreendam daqui que a minha experiência me diz que os professores gostam, em geral, de passar a vida a mudar o que ensinam e como o fazem. Até há alguns que, pelo contrário, barafustam de cada vez que têm de mudar seja lá o que for…

20 de maio de 2015

Burrice

Vivemos numa época em que prevalece um perspetiva de civilidade igualitarista, não só quanto à forma como se tratam os outros no espaço público, mas, mais essencialmente, a como os concebemos e os representamos no nosso imaginário; e penso que é precisamente assim que deve ser, que é precisamente essa perspetiva que deve prevalecer. Segundo a moral que defendo, ninguém tem o direito de criticar nos outros características ou crenças – o que se pode discutir e criticar são ações – ações controladas, isto é, as que se possa escolher não realizar. Continua a haver uma característica, porém, pela qual ninguém parece ter pejo em criticar os outros: a estupidez. Ou burrice, ou chamem-lhe como quiserem – não ser muito inteligente, enfim.

Pode ser-se olhado de lado por acusar alguém de ser gordo, coxo, velho ou suábio, mas ninguém se impressiona se se disser, sobretudo se for verdade, que uma pessoa é mesmo estúpida – a não ser a pessoa visada, claro, e as que estiverem do seu lado. É claro, eu sei que, normalmente, quando se diz de alguém que é estúpido não se quer mesmo dizer que é estúpido; é uma expressão apenas, uma maneira de exprimir desacordo de forma veemente. Mas é o mesmo que acontece com outras palavras que se usam para ofender, não é verdade?, e isso não as torna aceitáveis. Devo dizer, porém, que essa utilização do termo e dos seus sinónimos não me preocupa. O problema, para mim, é que as pessoas realmente sentem e pensam que a burrice é uma característica criticável*. Oiço, mesmo de quem está atento a muitas discriminações, coisas como “Se há coisa que não suporto é gente estúpida”. Porque será?

Conhecem a tristeza profunda – ou o horror, mesmo – de uma pessoa que ouve as outras a seu lado delirarem à gargalhada sobre as incapacidades da gente burra que conhecem e tenta desesperadamente esconder que é assim como essa gente com quem gozam, que é dela que falam?
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* Como a cobardia, aliás, de que falei aqui uma vez, num texto que este vem agora comple(men)tar.

18 de maio de 2015

Louvor do formato digital e a importância da facilidade

A primeira vez que fiz uma análise de um texto em formato digital foi em 1996. Muita gente trabalhava já com computadores há muito tempo, mas, para mim, era uma coisa completamente nova – e era mesmo a ferramenta que me fazia falta. Deu-me um jeitão o find e o find&replace para saltar de uma para outra ocorrência das palavras que me interessavam e para contar essas palavras. «Se eu tivesse tido esta ferramenta antes, de cada vez que fiz à mão levantamentos de ocorrências em textos longos!...», pensei eu.

Lembro-me de que a primeira obra de que fiz um levantamento de palavras foi Os Lusíadas. No meu primeiro ano na universidade, tive um cadeira cujo programa incluía a construção do nacionalismo na literatura portuguesa e, quando vi que Os Lusíadas faziam parte das obras a estudar, fiquei surpreendido («Nacionalismo? Como pode haver nacionalismo em Camões, no tempo de Camões?») e decidi ir ver o que dizia o texto. Demorou-me nessa altura muito tempo a fazer o que acabo agora de repetir em cerca de meia-hora (por ter sido tão à pressa, pode haver um ou outro erro de contagem, mas há de ser coisa pouca): Nação ocorre 7 vezes no singular, 5 das quais referindo Portugal. O nome pátria ocorre 33 vezes no singular. Tem, nalgumas dessas ocorrências, sentido genérico, mas, fora isso, nunca refere outra pátria que não seja Portugal. Reino ocorre no singular 86 vezes, referindo Portugal 40 vezes e referindo outros reinos em vários casos.

É claro, um levantamento deste tipo diz apenas que, como seria de esperar, não há quase nação na obra e que predominam as noções de pátria ou reino, mas não diz nada sobre elas. Isso seria outra conversa. Esta conversa é só sobre fazer levantamentos em textos, antigamente e agora, para dizer que agora se fazem incomparavelmente mais depressa. No outro dia, fiz, para um texto que aqui pus, um levantamento rápido de sossego, sossegado e formas do verbo sossegar na primeira edição dos Lusíadas. Faz-se em segundos, usando a versão em formato digital, mas, se não tivesse acesso a essa versão, é óbvio que nunca o teria feito.

Não sei se o material tem sempre razão, como costuma dizer-se, mas o suporte material da informação condiciona o que se pode pensar sobre essa informação. Analisar qualquer coisa é uma atividade como outra qualquer (como preparar terrenos para cultivo, por exemplo) e depende, em grande medida, não só da vontade e da possibilidade, incluindo conhecimentos, mas também da facilidade de acesso a dados e da facilidade de os manipular, não é verdade?, do esforço que para isso tenha de se fazer.

15 de maio de 2015

Um entre mais de cem mil milhões

Muitas ideias estranhas, como a transmigração das almas ou a de ser descendente de Carlos Magno, seriam abandonadas ou clarificadas se as pessoas se pusessem a fazer contas. É certo que quem acredita na metempsicose provavelmente não quer saber de contas para nada, mas quem ache que ser descendente de Carlos Magno é uma grande honra talvez esteja interessado em saber que isso não é, afinal, nada de especial, porque Carlos Magno tem centenas de milhões de descendentes. De facto, todas as pessoas que descendem de famílias europeias há muita gerações (e não só, mas sobretudo) são não só provavelmente descendentes de Carlos Magno como têm todas um antepassado comum, se recuarmos apenas 1200 anos. Há muitos textos que explicam isto na Internet, mas podem ler, por exemplo, aqui e aqui. O modelo que permite estes cálculos com relativa certeza, elaborado por Joseph T. Chang, existe já há cerca de 17 anos, mas, em 2013, um estudo genético aleatório de 2257 europeus veio confirmar a teoria que era só matemática: não haja dúvida, somos todos primos. (Estudo propriamente dito aqui, respostas a perguntas frequentes sobre o estudo aqui).

O que é que isto interessa? Nada. Ou muito, é conforme. Destrói completamente a ideia de identidade assente na linhagem (viva a República!), a não ser que se limite essa identidade às últimas dezenas, às vezes nem isso, de gerações. E diz-nos que não vale a pena procurar ser descendente daquela senhora ou daquele senhor para ser, como dizer?... especial, porque ela ou ele, se não tiverem vivido há pouco tempo, têm mais descendentes que chapéus há para os palermas.

Agora, uma questão interessante, quando a gente se põe a fazer contas sobre as pessoas que viveram antes de nós é, precisamente…quantas pessoas viveram antes de nós? No site Population Reference Bureau, Carl Haub publicou pela primeira vez as suas contas em 1995, atualizou-as em 2012 e voltou a atualizar os dados em 2011. Não se pode saber com exatidão, até porque a humanidade não começa num momento concreto, mas é bastante provável que Usain “Lightning” Bolt tenha, de facto, corrido 100, 150 e 200 metros mais depressa que mais de cem mil milhões de seres humanos que existiram até hoje.

14 de maio de 2015

A dimensão humana

Discute-se às vezes se a recusa de alguns sectores antirracistas de “descer” ao ponto de discutir em público com a extrema-direita racista contribui(u) para o crescimento dessa mesma extrema-direita, deixada assim livre para apresentar a sua versão dos “factos”, sem ninguém para lhe contrapor factos sem aspas. O mesmo se discute em relação a muito disparate de pseudociência, parapsicologia, medicinas ditas alternativas e toda a sorte de crenças bizarras que por aí pululam: uma pessoa deve rebaixar-se ao nível de discutir se as campanhas de vacinação da Organização Mundial de Saúde têm como finalidade a eliminação dos africanos, injetando-lhes venenos que os matam? E depois, aliás, como se discute um absurdo desses? E serve de alguma coisa tentar convencer quem acredita numa coisa assim?

Mais do que apenas uma questão estratégica para a ação antirracista ou para a divulgação da medicina científica[1], esta atitude de não querer “descer tão baixo” levanta também uma questão moral. E eu acho que, por muito que discorde radicalmente de uma pessoa, não posso deixar de considerar que ela tem exatamente a mesma capacidade moral que eu, pelo que é de uma grande arrogância (paternalismo é palavra que diz insuficientemente a imoralidade da atitude) recusar discutir, seja lá com quem for, ideias que têm em abstrato o mesmo valor que as minhas – até eu demonstrar, se o conseguir, que as minhas são melhores. É claro que uma recusa simples de discussão não pode ser moralmente equiparada à aniquilação física daqueles de quem discordo, mas é um mesmo princípio de dogmatismo fundamental que revela.

Por outro lado, eu sei que não é sempre arrogância, mas às vezes também cansaço, quando não desespero, que motiva a recusa de discussão. É até certo ponto compreensível que se desista de discutir com fanáticos, quer se trate de ideias sobre o conhecimento do mundo, incluindo religião, ciência, etc., quer se trate de questões morais, incluindo política. É que a discussão com quem se recusa liminarmente a ser convencido é muito mais cansativa que a discussão com quem tem apenas convicções fortes. E é, por norma, improdutiva. Por isso mesmo, admiro a paciência e louvo o trabalho de quem, por exemplo e para me centrar em áreas que acompanho, se dedica a discutir diariamente os fundamentos da religião e das religiões, e das ditas “medicinas” alternativas e de milhares de delirantes teorias de conspirações. Penso que não o faço eu próprio tanto como devia, mas hoje, para me redimir um bocadinho dessa falta, contribuo para a discussão da ideia da comunicação com Deus. O meu argumento é este: se existir a divindade suprema dos monoteísmos mais divulgados, os humanos não têm nenhuma possibilidade de a compreender, pelo que a própria crença e a própria prática dessas religiões negam os atributos que dizem que Deus tem.

Na palestra Cosmic Quandaries (Palladium, St. Petersburg, Flórida, 26-03-2009), Neil DeGrasse Tyson diz que não vê como seja possível comunicar com extraterrestres (tradução minha):
Se virmos o parente geneticamente mais próximo dos seres humanos, os chimpanzés – temos mais de 98% de ADN idêntico –, somos mais inteligentes que um chimpanzé. Vamos lá inventar uma medida de inteligência que faça dos humanos seres únicos. Digamos que a inteligência é a capacidade de compor poesia, sinfonias, fazer arte, matemática e ciências, digamos assim. Usemos por agora esta definição arbitrária de inteligência. Os chimpanzés não sabem fazer nada dessas coisas. E, no entanto, temos 98/99% de ADN idêntico. O chimpanzé mais inteligente de sempre talvez saiba comunicar com gestos. Bem, as crianças sabem fazer isso (...).
Tudo o que somos, que nos distingue dos chimpanzés, vem dessa diferença de 1% no ADN. Tem de ser, porque essa é a diferença. O telescópio Hubble [está] nesse 1% (...).
Imaginem outra forma de vida que seja 1% diferente de nós, no sentido em que somos diferentes do chimpanzé. Pensem nisso. Temos 1% de diferença e construímos o telescópio Hubble. Avance-se mais 1%. O que somos nós para eles? Seríamos patetinhas na presença deles (...). Pensem na inteligência que haviam de ter. A mecânica quântica seria intuitiva para os bebés deles. Os miúdos haviam de compor sinfonias inteiras. E, como eu disse, só para pôr na porta do frigorífico – assim como expomos na porta do frigorífico as colagens que os nossos miúdos fazem.
Portanto, a noção de que vamos encontrar seres inteligentes e conversar com eles... Quando é que foi a última vez que pararam para conversar com uma minhoca? Ou com um pássaro? Quer dizer, podem ter conversado som eles, mas acho que não estavam à esperava de uma resposta, ou estavam?
No sítio onde fui buscar a transcrição da palestra, porque não me apetecia nada estar eu próprio a transcrevê-la, tinha alguém comentado (traduzo com ortografia corrigida):
Sigo o raciocínio do Dr. Neil: se houver seres extraterrestres que tenham 1% de diferença do nosso ADN, também podem ser considerados deuses, porque a sua inteligência nos faz parecer parvos.
Bom, deixando de lado a discussão da abstrusa tese de que os deuses são astronautas, pode considerar-se que este comentário aponta precisamente para o que motivou este texto: a possibilidade de comunicação entre o humano e o divino. É certo que divindades há muitas, mas centremo-nos na que mais diametralmente se opõe aos humano por tudo poder, tudo saber e tudo ser, enfim. É claro, entre o Deus das religiões monoteístas e os seres humanos não há propriamente diferença genética, mas não é por isso que deixa de haver diferença entre a capacidade de entendimento do dito criador e das suas ditas criaturas. E convenhamos que seria seguramente considerado blasfemo, por quem acredita nesse deus, afirmar que não é infinitamente maior a diferença entre a inteligência de Deus e a inteligência de uma pessoa do que a diferença entre a inteligência de uma pessoa e a inteligência de, ponhamos, uma minhoca.

Outra maneira de ver a questão é que, sendo absoluto e perfeito o entendimento divino, há, para todos os efeitos práticos, a mesma diferença (uma diferença infinita) entre essa inteligência infinita e a inteligência de qualquer ser com inteligência finita, pelo que, na relação com um deus perfeito, um ser humano não está num plano superior a uma minhoca. E, se podemos aceitar que Deus nos possa compreender, porque ele, por definição, pode tudo, não faz sentido nenhum pensar que uma pessoa alguma vez possa entender o que quer, pensa ou planeia um entendimento infinitamente superior ao seu como é o do deus das religiões monoteístas. Seria infinitamente mais difícil que uma minhoca entender isto que estou aqui a escrever. E estamos de acordo que uma minhoca não entende isto, não estamos[2]?

Já se argumentou muitas vezes que é blasfemo agir em nome de um Deus que tudo pode; mas é pelo menos tão blasfemo acreditar que se pode compreender o que pensa esse Deus – e, por conseguinte, o que deseja de nós. De maneira que a única atitude religiosa que me parece coerente quando se tem uma conceção tão elevada do divino é a dos místicos que propõem, como única forma possível de comunicação com o divino, o esvaziar-se de todo o seu entendimento. No nada, cabe tudo; na nossa compreensão, não.
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[1] Peço perdão pela redundância, mas sou obrigado a usá-la, numa época em que prolifera o uso de expressões como “medicina tradicional”, “medicina natural”, “medicina alternativa”, medicina isto-e-mais-aquilo… Alguém me contava uma vez, mas esqueci nomes e pormenores, infelizmente, de um fundador de um departamento de Psicologia Experimental numa universidade que se queixava de ser necessário chamar-lhe assim, como se toda a Psicologia não tivesse de ser de alguma forma experimental…
[2] «Não!», ouvi uma voz gritar perto de mim. Assustei-me. Não estava ninguém em casa. Ou, pelo menos, não devia estar, àquela hora. A voz parecia ter vindo chão. Olhei e era uma minhoca. Tinha sido ela a gritar, claro. Pronto, estava esclarecido o mistério do grito. Mas faltava esclarecer outro mistério: como teria uma minhoca ido parar ao meu escritório?

13 de maio de 2015

Passar de é a deve ser

Pode ser que uma parte de valores e comportamentos sociais que temos tendência a considerar essencialmente culturais tenha origem em estruturas primitivas inatas, em lugares fundo das pessoas. Pode ser ou pode não ser, as discussões sobre o tema estão muito longe de ser conclusivas. E isto aplica-se tanto às atitudes que louvamos (a solidariedade, por exemplo) como às que criticamos (por exemplo, a discriminação). Talvez algumas das discriminações tenham até origem nos mecanismos que fundam também a solidariedade. O reconhecimento de parentesco, por exemplo, se de facto existir, é um mecanismo egoísta para os nossos genes se protegerem a si próprios em que pode assentar originalmente a criação de círculos de identidade e pertença («sou deste grupo»), que resulta forçosamente no reconhecimento simples da diferença («X não é deste grupo») que modela a discriminação. Tor Nørretranders (de quem já aqui falei) explora muito a noção de egoísmo como base do altruísmo e defende que é a vontade de se valorizar para seduzir os outros que nos leva a fazer coisas por eles, para eles. Pode dizer-se que, nesta perspetiva, há uma profunda relação entre dois sentidos comuns da expressão ser bom: «ser capaz, habilidoso, competente» e «ser bondoso».

Tirando a elegante formulação da questão que proponho na frase anterior, acabadinha de descobrir, não disse ainda, neste texto, nada que não tenha já dito noutros textos deste blogue. Não é, porém, para apresentar a minha descoberta retórica que escrevo, mas para sublinhar que, mesmo que acreditemos que estão assim fundamente ancorados em nós, que são tão naturais como inevitáveis, os vários mecanismos que fundam provavelmente todas as morais, não devemos perder de vista que esses mecanismos são moralmente contraditórios e nem por obsessão de realismo, portanto, a discussão ética se pode centrar na constatação do que é, do como somos – a constatação duma pretensa natureza humana. É que do que é, mesmo havendo sobre ele um consenso que atualmente não há, não pode fazer derivar-se direta e univocamente um deve ser – mas antes muitos, muitos!...

12 de maio de 2015

Uma página de paródia… Perdão, uma página da Paródia e algumas questões etimo(i)lógicas


A Paródia, Ano 1, N.º 1, 17 Jan. 1900, p. 5, na Hemeroteca Digital
Ao contrário do que se possa pensar, a reforma ortográfica de 1911 não foi uma reforma cem por cento contra a perspetiva etimológica. Acabou com uma lógica assente na tradição e instaurou uma grafia de base fonológica e se, em muitos casos, isto implicou recusar grafias etimológicas, pseudoetimológicas ou de outra forma… “tradicionais”, também houve casos em que a reforma veio acabar com grafias sem justificação etimológica que existiam antes dela, recuperando a forma etimológica.

Para não sair da página da Paródia aqui ao lado [clicar para ver em maior], socego e aceio voltaram a ter os ss que lhes vêm de *sessicare e *assedare, que se pensa que deram, respetivamente, sossegar e assear. É claro, pode sempre duvidar-se, porque são formas não atestadas (quando virem um * antes de um étimo, significa que se pensa ser esse o étimo, mas nunca se encontrou a palavra escrita em texto nenhum). É certo, porém, que, recuando mais no tempo, é com ss e não com c que sossego se escreve. Para continuar na página da Paródia, e aproveitando a citação dos Lusíadas que lá vem, podemos comparar com a grafia da primeira edição da obra de Camões. Se, em edições oitocentistas dos Lusíadas, estava a “linda Ignez” “posta em socego”, na primeira edição da obra, a linda Ines – sem g, sem z, sem acento – estava “posta em sosego”. Assim mesmo, com um s apenas, não é gralha. Ou antes, é provável que seja, mas não gralha minha. E é uma gralha que se repete três vezes*, mas, se calhar, não havia revisores naquele tempo. Seja como for, predominam no texto as formas com ss, por exemplo em «Iulga qualquer juyzo sossegado» e em mais 8 ocorrências do radical sosseg-. Assinalo, de passagem, que este y de juyzo não é etimológico e uso essa anomalia como ponte para o regresso a 1911 e ao tema do meu texto:

Houve ii etimológicos que foram também repostos na reforma ortográfica republicana, como é o caso de lyrio ou lagryma, que voltaram a escrever-se com o i de liliu- e lacrima- (que é também, já agora,  como se escreviam no tempo de Camões**). Ainda a propósito de yy, também cysne abandonou uma pretensa etimologia latina para passar a escrever-se como no francês antigo de que parece provir em português e castelhano. (É também cisne, note-se que se escreve na edição original dos Lusíadas: «A longo da agoa o niueo Cisne canta».) Mas, claro, quem goste de considerar as etimologias últimas e não as imediatas, achará que é de cycnus ou cygnus que a palavra vem…

Para essas pessoas, porém, podemos dizer (e agora, que me caiam em cima o Carmo e a Trindade, embora, juro, a intenção não seja provocar mas apenas tirar peso à conversa) que, no caso das palavras de origem grega, também o desaparecimento de th e ph é um restaurar da etimologia, pois não havia no étimo último duas letras que correspondessem a tais dígrafos. Transcrever ɸ por ph é um bocado sem razão, venha de que tradição vier, e perfeitamente desnecessário na latina; quanto a transcrever θ por th, se mais compreensível, por falta de símbolo latino adequado, não tinha, claro está, nenhuma vantagem em relação a uma transcrição por apenas t. (A julgar pela maneira como os portugueses pronunciam o som /θ/ em inglês ou castelhano, a transcrição mais natural de θ é, para nós, um s, eh eh eh…)

[Risos, uns francos e ruidosos, e outros bastante amarelos, sem som absolutamente nenhum; aplausos e apupos; desce o pano. E ouve-se outra voz:]

Para continuarmos nesta página de paródia… perdão, da Paródia, se a grafia tem mesmo influência na pronúncia, como insistem em afirmar alguns, temendo, pelos vistos, que se abatam cataclismos incontáveis sobre a maneira de dizermos certas palavras por causa da nova maneira de as escrevermos…, foi só por muita sorte que época, depois de ter-se escrito epocha tanto tempo, não passou a pronunciar-se [e’poʃɒ]. Ufa, e ainda bem!

[Mais ruídos diversos, semelhantes aos anteriores, de trás do pano.]

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* «Mas o velho a quem tinhão ja obrigado / Os trabalhosos annos, ao sosego», «Torna a dormir quieto & sosegado» e «Affonso que não sabe sosegar»
** Entre muitas outras ocorrências, em «Mas moura em fim nas mãos das brutas gentes, / Que pois eu fuy: & nisto de mimosa / O rosto banha, em lagrimas ardentes». Ups, outro y não etimológico em fuy, muito imaginativas eram estas grafias.