18 de janeiro de 2008

Sinuhe, o egípcio: duas ideias fortes

O que se segue são, provavelmente, banalidades, mas repetir aqui banalidades só faz de mim um homem inteligente. Pelo menos, na opinião de George Orwell, que escreveu, numa recensão de um livro de Bertrand Russel, que “descemos tão baixo que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes” (qual seria, para ele, o dever das mulheres inteligentes?).

Em O Egípcio, de Mika Waltari (Lisboa: Bertrand, sem data) , há duas ideias fortes que se repetem ao longo do livro e que me parecem fundamentais: uma é a ideia de que a vontade de fazer bem pode ter consequências terríveis; a outra é que não fazemos ideia de quem somos e da causa das nossas acções.

No livro de Waltari, o amor de Akhenaton pela humanidade e o deus de bondade e paz por ele introduzido no Egipto semeiam, afinal, a ruína à sua volta. Sinuhe, a personagem principal, por muito que convertido às ideias de Akhenaton, não deixa de constatar em vários momentos os terríveis resultados das maravilhosas ideias do faraó. Se é verdade que, como li numa biografia dele, Waltari era cristão e conservador, é bem provável que a intenção do autor seja mais advertir contra os perigos das ideias revolucionárias do que contra os perigos da religião. Mas isso não interessa. É o princípio filosófico que quero discutir.

Numa altura em que se discute tanto a base neurobiológica em que assentam todos os códigos morais, seria interessante estudar se há alguma negatividade que lhe presida, isto é, se a base de todas as morais profundamente ancorada no cérebro humano tem uma forma essencialmente negativa (não faças!). Pode pensar-se que é isso que implica a repulsa, por exemplo, que costuma ser apontada como sendo um desses fundamentos – ao contrário da pulsão sexual, por exemplo, que é essencialmente afirmativa (faz!). Mas é claro que a questão pode também ser vista como essencialmente retórica e, por isso mesmo, uma falsa questão, pelo menos se não se chegar a uma definição mais afinada de negatividade, porque é possível, em última análise, transformar injunções negativas em afirmativas e vice-versa: “Não toques nisso!” pode apresentar-se como “Afasta-te disso!”…

Seja lá como for, e porque, como tem sido frequentemente recordado, o que é não implica o que deve ser, e nenhum avanço da psicologia evolutiva ou da teoria dos jogos invalida a discussão ética no sentido tradicional, quero insistir na ideia de que é preferível que as regras morais sejam definidas negativamente. Por outras palavras, o que eu quero dizer é que, na velha discussão sobre se é preferível postular-se que se deve fazer aos outros o que queremos que nos façam ou defender-se antes que não se deve fazer aos outros o que não queremos que nos façam, não tenho dúvidas em optar pelo último princípio.

«Nem o Mal é um direito, nem o Bem é um dever», eis a formulação que faz Alexandre O’Neill desse princípio, num poema que pus aqui no blogue. Duas negativas para um princípio de negatividade. Ninguém pode fazer Mal e ninguém tem a obrigação de fazer Bem.

Há quem ache, no entanto, que a negatividade dos códigos de comportamentos leva, em última análise, à inacção: se há, principalmente, coisas que não devo fazer, não fazendo nada estou a fazer o que devo. Mas não fazendo nada, estou a perpetuar o mal existente, quer dizer, não estou a fazer nada para melhorar o mundo. E então, na sequência deste raciocínio, preferem essas pessoas que se definam positivamente os códigos de comportamentos e que se substitua a negatividade das restrições pela positividade do dever de acção. Para um mundo melhor.

É com isto, precisamente, que eu não concordo. Porque temo que o dever de acção não leve sempre a um melhor estado do mundo. O problema é que é muitas vezes impossível saber se o outro quer a mesma coisa que eu ou se precisa da mesma coisa que eu, ou se lhe faz bem o que a mim me faz bem, e posso então, ao fazer lhe o que quero que me façam, estar a fazer-lhe algo que ele não quer, que não é aquilo de que ele necessita – ou posso até estar pura e simplesmente a fazer-lhe mal. A definição pela negativa anula este risco. O princípio do dever de agir («faz aos outros…»), pelo contrário, pode servir, em última análise, para justificar a imposição de nós.
Por muito que isso custe muito a admitir a muita gente, a maior parte dos crimes da História não foram e são cometidos por pessoas com uma maquiavélica consciência de estarem a defender os seus interesses e o seu poder, mas por pessoas sinceramente convencidas de estarem a melhorar o mundo. O que importa é estabelecer mecanismos que impeçam a imposição da vontade de uns aos outros – independentemente dos motivos dessa imposição.

A segunda discussão – que não tem nada a ver com a primeira – é a da consciência de si próprio. Quer dizer, de uma parte dessa questão. Passamos a vida a enganar-nos: pensamos que sabemos quem somos, quando, de facto, não sabemos mais de nós próprios do que os outros sabem de nós. É claro, depende de como se defina a nossa identidade. Se, de uma forma radicalmente materialista, aceitarmos que somos o produto das nossas acções, como o Sinuhe de Waltari (“Eu, Sinhue, sou o que os meus actos fizeram de mim, e o resto é vão”), pode postular-se que um conhecimento pleno de nós próprios implica que saibamos não apenas o que fazemos, mas também porque o fazemos. Afinal de contas, o verdadeiro conhecimento (ciência, chamo-lhe eu) nunca se satisfaz com a constatação simples dos factos e tem antes como objectivo último explicá-los também.

Há muita evidência experimental de que não sabemos muito de nós próprios e, nomeadamente, das razões por que agimos desta ou daquela forma. Há até experiências cujos resultados indicam que uma pessoa sabe tanto das razões por que age como outra pessoa qualquer que a não conheça. O que diz muito no nosso autoconhecimento. Então: se alguém vos disser “O que as pessoa dizem que eu sou é precisamente o que eu não sou”, como o título que há dum best-seller de rock da nova geração, isso é com certeza uma afirmação de rebeldia, mas não se pode levar muito a sério. Porque, se quisermos ser lógicos, uma afirmação dessas implica que a pessoa que a faz saiba sobre ela própria mais do que os outros sabem sobre ela. E a realidade, como se sabe, é bem diferente… Quando lançar o meu primeiro disco, hei-de chamar-lhe O que eu penso que sou é quase de certeza o que eu não, mas talvez me possas dar uma ideia de quem eu sou um bocadinho mais correcta do que aquela eu tenho de mim próprio. Mas claro, com um título desses não hei-de nunca conseguir impressionar muito a malta que compra discos de rock…

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