26 de abril de 2011

Mais uma canção sobre edifícios a arder

[Texto originalmente publicado, numa versão ligeiramente diferente, no Livro Pirata dos Rádio Macau] 
Houve aí um fogo enorme, que apagaram com sangue. Foi mesmo na minha rua, mesmo dentro do meu quarto. Eu vi-os todos chegarem e olharem para mim, como se eu fosse a culpada de alguma coisa terrível. As pessoas, cá em baixo, olhavam com indiferença, como quem ouve na rádio as notícias do meio-dia. Desci as escadas a arder, peguei fogo à cidade. Houve anjos que ainda tentaram levantar voo, em vão.
Acordei eram umas 6 e meia da manhã. Liguei o computador e li num jornal online que metade de Portugal estava a arder. Dei uma espreitadela no quarto dos miúdos: dormiam como anjos. O que é que eu ia fazer a uma hora daquelas? Decidi que era demasiado cedo para me levantar e fui meter-me outra vez na cama.
Hora e meia mais tarde, veio a Clara acordar-me. Estava toda nua e a chorar. “O que é que foi, Clarinha, o que é que foi?” Demorei alguns segundos a tentar identificar os ruídos estranhos que enchiam a casa. Ouviam-se coisas a cair e o que parecia o crepitar de uma fogueira muito grande. Saltei da cama, peguei na menina ao colo e corri para a casa de jantar. O quarto dos miúdos já não era senão uma labareda única, enorme e medonha, e começava um fumo negro a encher a casa toda. Senti o calor queimar-me cabelo e pestanas, recuei alguns passos e pus a Clara no chão. Veio-me então a certeza de que o Daniel tinha morrido da mais terrível das mortes, queimado vivo ali dentro daquele inferno, e comecei, tresloucado, a gritar por ele. Não que me restasse alguma esperança de ele estar vivo, mas porque a dor toma muitas vezes a forma primitiva do nome gritado de quem perdemos. E ainda bem que gritei: o Daniel, que estava escondido atrás da escrivaninha da sala de estar, veio ter connosco a correr. Com a aflição, nem o cheguei a abraçar. Gritei‑lhe só que corresse lá para fora, vá, rápido!, peguei na Clara e corri atrás dele.
Moramos no rés-do-chão direito. Quando nos vi fora do apartamento, a minha preocupação foi avisar os vizinhos, mas não consegui, naquela altura, ter o discernimento suficiente para ir pôr os miúdos à rua antes de o fazer. Bati à porta do lado, nada, ninguém respondeu. Estavam, com certeza, ainda a dormir. Havia já muito fumo nas escadas. Corri para o primeiro andar, em pânico, a Clara ao colo, o Daniel a reboque. Os vizinhos de cima, do lado direito, também não responderam. Quando o Ole, o vizinho do 1º esquerdo, me abriu a porta, não consegui dizer-lhe nada. Não me saía da boca som nenhum. E não era por não saber dizer “há fogo” em dinamarquês...
Foi o Ole que telefonou aos bombeiros. Enquanto ele telefonava, a mulher dele agarrou no Daniel pela mão e foi ver se se podia descer pelas escadas traseiras para o pátio interior do bloco de edifícios. “À vontade”, gritou-me ela da porta da cozinha, “o fumo ainda aqui não chegou.” Galgou as escadas com o miúdo e eu desci com a Clara logo atrás dela. E o Ole veio também logo a seguir. Ficámos ali, no meio do pátio, arrelampados, mais nus do que vestidos, a fixar em silêncio, como hipnotizados, aquela chama descomunal que saía pela janela do quarto dos miúdos, um maçarico gigantesco, que ia rapidamente enegrecendo a faixa de parede que lhe ficava  por cima e em frente, do lado de lá do ângulo interior do pátio, e rebentando, sem se lhes pegar, caixilhos e vidraças das janelas mais próximas.
Não se pode dizer que tenha havido vizinhos a olharem com indiferença, como na canção que aqui me traz. Como acontece bastante nesta parte da cidade, o pátio é de um quarteirão inteiro, que é um único edifício, e onde moram, no total, cerca de 450 pessoas. Mas havia muito poucas, umas 50, se tanto, a assistir ao incêndio – as outras, domingo de manhã que era, continuavam a dormir. Os vizinhos que foram aparecendo no pátio pareciam mais perturbados do que nós e ofereciam-se para nos ajudar no que pudessem. Eu pedi-lhes só alguma roupa emprestada e fraldas para a Clara. Passadas umas semanas, quando quis devolver a roupa que me emprestaram, tive de afixar um papel em cada uma das 15 entradas do edifício a perguntar a quem é que ela pertencia, porque não conseguia lembrar-me de quem ma tinha emprestado.
De facto, não me lembro muito bem desse dez minutos intermináveis que se passaram entre saírmos de casa e chegarem os bombeiros. Em poucos minutos, extinguiram o fogo. Apagaram-no com espuma, para tentar minorar os estragos no apartamento. Os polícias chegaram mais ou menos ao mesmo tempo que os bombeiros. Tive de lhes explicar tudo o que sabia do que tinha acontecido, do que estava a acontecer, e fiquei impressionado com a qualidade do meu dinamarquês (se bem que duvide que os tenha conseguido impressionar a eles...). Quando acabei os meus atabalhoados depoimentos, meteram-nos, a mim, à Clara e ao Daniel, numa ambulância e levaram‑nos para o hospital.
No hospital, estavam as vizinhas do quarto andar: a Kirsten e a filha dela, a Julie, do 4º direito; e a Henriette, uma senhora já octogenária que mora sozinha no 4º esquerdo. Foram elas que mais sofreram com o fumo. Quando acordou, com o alarme de incêndio, e se deu conta do que se estava a passar, a Kirsten agarrou na filha e foi buscar a vizinha Henriette, pobre senhora. Tentaram descer pela escada de trás, mas já havia tanto fumo que era demasiado arriscado aventurar-se por ali. “Liguei aos bombeiros, a explicar-lhes a nossa situação. Eles disseram-me para não me preocupar, que já iam dois carros a caminho. Fixe, era reconfortante, mas o pior é que a casa, a pouco e pouco, ia-se enchendo de fumo. Devia ser fumo que entrava pelas frestas das portas e das janelas, eu sei lá... ou pela chaminé, se calhar... Bem, o certo é que, a certa altura, já não se aguentava. Tivemos de ir todas para a varanda e ficar ali quietinhas, cheiínhas de medo, sem ousar sequer olhar cá para baixo, até que finalmente os bombeiros lá nos vieram buscar de escada Magirus, tal e qual como nos filmes... Como as coisas são: mesmo a Julie, só com três anos, já sabe qual é a ordem normal do mundo, já sabe que os bombeiros salvam quem fica preso no quarto andar de um edifício a arder: mal o carro dos bombeiros parou lá em baixo na rua, houve logo uma mudança na expressão de todas nós, aliviou-se-nos coração e alma – estávamos salvas!”
Feitas as análises que se deviam, verificou-se que, felizmente, não tínhamos monóxido de carbono nenhum no sangue. E deram-nos alta a todos. Saímos do hospital aí por essas onze horas. Telefonei primeiro à Rikke, a minha mulher, a contar-lhe tudo, e depois à minha chefe, a pedir, pelo menos, três dias de dispensa do serviço; e fomos até à maternidade onde a Rikke estava internada, por causa de umas complicações surgidas na sequência do parto da nossa terceira filha, a Felicia, nascida oito dias antes.
Estava lá o Aage, um amigo nosso, e estava visivelmente transtornado. Repetiu-me a história que já tinha contado à Rikke.
“Sonhei com vocês e não sei ao certo o que se passava no sonho, mas era uma coisa qualquer má... Lembro-me que havia um matador de porcos, pois, vê lá tu, um matador de porcos, e depois havia uma explosão, uma explosão grande, não sei se era um atentado à bomba, se o que era, e vocês estavam lá, tu e a Rikke, só os dois, sem os miúdos, e depois eu, naquela confusão, procurava-vos por toda a parte, mas em vão, vocês tinham desaparecido...”
Eis o que fazem as televisões e os jornais com o terrorismo deles, pensei eu, e perturbou-me sinceramente ver o Aage assim tão sinceramente perturbado.
“Ouve, eu não ligo a sonhos, quer dizer, um bocadinho, às vezes”, continuou ele, “mas desta vez, não sei por quê, quando acordei fui logo telefonar-vos, mas ninguém atendeu e eu, então, agarrei na bicicleta e fui a vossa casa. E agora imaginem quando chego lá e vejo a porta de casa aberta e sinto aquele cheiro, e depois entro por ali dentro e vejo aquilo tudo preto, tudo queimado, o que é que eu havia de pensar?”
“Mãe, mãe, olha” interrompeu-o o Daniel, “é a nossa casa!”.
A televisão estava ligada e estava a dar as notícias do meio-dia.
“Olha, e aquele sou eu”, disse o Aage. 
“Quer dizer que, quando tu chegaste, já lá estavam os gajos da televisão?”
“Pois estavam, já lá estavam... Aliás, só estavam eles, mais ninguém. E eu, completamente em pânico, só lhes perguntava o que é que tinha acontecido, o que é que tinha causado aquilo, e eles olhavam para mim como se eu estivesse maluquinho, como se fosse alguma pergunta descabida, e a única coisa que um deles se dignou responder-me foi: 'Ainda não sabemos, o nosso colega já há-de vir aí com mais informação'. Mas eu é que não estive para esperar pelo colega deles, vim logo para aqui a correr...”
“Eh, pá, porra”, enraiveci-me-me eu, “os gajos não têm o direito de entrar assim dentro de nossa casa e começar a filmar sem nossa autorização!” A minha vontade, nesse momento, era não deixar ficar assim as coisas e queixar-me do abuso a quem de direito. Mas decidi depressa que não era a altura mais apropriada da minha vida para meter em tribunal um canal de televisão. O Aage saíu logo a seguir, tão perturbado como tinha chegado, e ficámos ali os cinco, de novo em família. Acho que (tirando a Felicia, é claro, que dormia o sonho distante dos recém‑nascidos) estávamos todos um pouco tristes por nos ter ardido a casa, mas, por outro lado, muito, muito contentes de ainda nos termos todos uns aos outros.

Quando as pessoas, mais tarde nos diziam que devíamos, com certeza, ter sofrido um grande choque, nós explicávamos que qual o quê, tínhamos lá tido tempo para isso... Nem para isso nem para devaneios filosóficos sobre a instabilidade da nossa condição de viventes, por mais que eles se justificassem... Tratava-se antes de fazer um voo bem mais raso de reconhecimento sobre a zona acidentada de nós, para poder passar de imediato à acção. Foi preciso arranjar casa, comprar roupa e todos os artigos de mais imediata necessidade, e isto numa altura em que, ainda por cima, a Rikke, depois de voltar a casa com a Felicia, continuava medicada e proibida de fazer quaisquer esforços e em que eu não podia, de forma alguma, meter uns dias no trabalho... Ora, com a vossa licença, salto uns meses de confusão, que não deixam nada a esta história, e continuo na altura de passarmos em revista, eu e a Rikke, os bens declarados irrecuperáveis e negociar com o homem da companhia de seguros a quantia que nos caberia receber por cada um.
Isto foi nos armazéns de uma companhia especializada neste tipo de acidentes, que tinha esvaziado a casa logo a seguir ao incêndio e recuperado depois o que podia ser recuperado. Além de dezenas de restos encardidos pelo fumo de móveis e electrodomésticos, havia oitenta caixas de cartão de um quarto de metro cúbico cada uma, com roupa, livros e objectos de toda a espécie, também eles enegrecidos e impregnados do cheiro indelével do incêndio.
“Se houver coisas em que tenham muita estimação, podem levá-las, disse-nos o homem dos seguros. Eu pago-vo-las na mesma, não se preocupem. Mas aconselho-vos a levarem o menos possível . Quer dizer, pode haver uma ou outra coisa que seja recuperável, mas estes tipos aqui têm muita experiência disto e o que eles consideram irrecuperável, em princípio, é mesmo irrecuperável. Mesmo que não cheire muito mal agora, aqui no armazém, volta a ganhar o mesmo cheiro horrível depois de algum tempo no calor da casa.”
Eu, na minha cabeça, já tinha dito adeus àquilo tudo. Muito budistamente, tinha-me repetido a mim próprio centenas de vezes que o desprendimento é um dos passos indispensáveis para se minorar o sofrimento que a vida é, e que, de qualquer maneira, devia encarar esta perda como uma lição apenas. Talvez não uma lição de vida, mas antes uma lição de morte: conservar os restos materiais da vida passada é só adiar desesperadamente a perda derradeira perante a qual deixa de fazer sentido ter-se guardado seja lá o que for; vale mais, então, aprender em plena vida a lidar com essa definitiva separação. Está bem, mas é que custa a uma criatura vulgar como eu, estupidamente presa à roda das coisas, burguês dos quatro costados e que apregoa, ademais, o valor de o ser, dizer adeus a tudo o que foi coleccionando pela vida fora! “Que livros levaria para uma ilha deserta? E que discos? E que outros objectos de estimação?” Não sei... Mas sei quais foram os que, seguindo a disposição daquele momento e avaliando, além do valor que tinham para mim, a dificuldade de os reaver e a possibilidade de os recuperar, trouxe do depósito da SGG: Lua d’Alén-Mar, o livro de poemas que Ernesto Guerra da Cal viu, aos 47 anos, finalmente publicado; a banda sonora do filme Lucky Man, de Alan Price, em vinil, que não sabia se estava em condições de tocar ou não, mas que, a estar utilizável, havia de pedir a um amigo para me digitalizar, porque não tinha sido reeditado em CD; e uma faca da Lapónia, com baínha de couro e cabo trabalhado de osso de rena, que recebi uma vez de prenda de Natal, no Norte muito norte da Suécia.

“Um dia, quando o incêndio deixar de ser uma má recordação e for já só um episódio curioso de um passado demasiado distante para te pesar, ainda hás-de pensar assim: Que sorte tivemos em o miúdo ter pegado fogo à casa!” Ao fim de cinco meses, o apartamento estava completamente renovado e todo pintadinho de novo, e com instalação eléctrica nova, chão novo, cozinha nova, janelas novas! Convidámos os vizinhos todos do prédio para uma festa de “re-aquecimento” que tinha ficado prometida logo desde o dia do incêndio.
Como os meus CDs foram das poucas coisas que se salvaram do incêndio, e eu gosto muito de fazer compilações, fiz, com temas da minha discoteca, um CD temático para oferecer aos convidados. O CD incluía coisas como o “Fire” do Arthur Brown, o “Love goes to a building on fire” e “Burning down the house” dos Talking Heads, o “Baby’s on fire”, do Brian Eno, e muitas outras canções sobre fogo e fogos.
Foi quando fiz esse CD que me dei conta de um misteriosíssimo desaparecimento. Queria incluir na compilação a canção dos Rádio Macau que dá o título a este texto, mas ela tinha-se evaporado. Não me percebam mal: não é que tivesse desaparecido o disco com a canção, mas tinha sido antes a própria canção a desaparecer. Se estão lembrados, “Mais uma canção sobre edifícios a arder” era a sétima de nove canções do primeiro disco dos Rádio Macau. Só que o meu disco tinha agora apenas os outros oito títulos. Se fosse uma cópia, podia pensar que me tinha esquecido de copiar essa faixa. Mas não, era um CD original. Defeito de fabrico? Talvez... Mas eu tinha a certeza de ter ouvido já várias vezes a canção... “Não pode ser”, pensei eu, “as nossas certezas não são de fiar e a canção nunca pode ter lá estado no CD...”. Que se lixasse! Tinha outra versão da cantiga, a nova versão do disco bónus do best of A vida num só dia, punha antes essa na compilação... Mas não, também essa tinha desaparecido: a “Entre a espada e a parede” seguia-se o remix de “O anzol”.
Estranho, não vos parece? Bom, é claro que há muitas cantigas que desaparecem, e algumas também assim de repente, mas é porque se esgotam, sei lá, ou porque deixam de caber no gosto das novas épocas... É outro tipo de desaparecimento, e é um desaparecimento que, aliás, em muitos casos, nem o chega a ser: normalmente, essas cantigas desaparecidas ficam só esquecidas num limbo qualquer, espectrais, expectantes, se calhar (quem sabe o que vai na alma de uma cantiga?), até que um dia outra época as ressuscite, como obras-primas do passado, como exemplo risível do mau gosto que um dia houve, ou como documento apenas, ou curiosidade, de um estádio da história da canção. Passar-se-ia agora o mesmo? Retomaria algum dia a canção desaparecida o seu lugar no alinhamento original do disco? Custava-me a acreditar.
O que é que se teria realmente passado? A única explicação que na altura consegui encontrar – e que mais tarde decidi abandonar, por pouco racional – é que haja cantigas que resistam pior que outras a temperaturas elevadas.

Agora:
1. Dizem-me fontes parece que bem informadas que se podia ler, no original dactilografado da letra de “Mais uma canção sobre edifícios a arder”, uma referência a Brian Eno e aos Talking Heads. Posso, só meio a propósito, acrescentar que li algures uma entrevista com o David Byrne, em que ele explica que “Burning down the house” era o grito de guerra do público dos concertos dos Parliament/Funkadelic, de que Byrne e Cia. eram assíduos frequentadores.
2. Fogo posto involuntariamente por uma criança é a segunda causa de incêndio em Copenhaga. Acontece muitas vezes que a criança que ateia o fogo, sentindo‑se culpada e com medo de vir a ser punida, se vai esconder e não sai do seu esconderijo, nem quando os pais ou os bombeiros a chamam, acabando por morrer queimada.
3. Não sei se estarão recordados de que no segundo disco dos Rádio Macau há uma citação de um poema do tal livro de Ernesto Guerra da Cal que, mesmo todo chamuscado, eu não quis abandonar. Em epígrafe à letra de uma canção que não me lembro já qual é, pode ler-se: “Isto foi pola outa noite./ A lua xá se metera./ O xornal da manhán dixo/ que o meu coraçón morrera.
4. Caso não tenham reparado, este texto é um exercício de re-escrita da canção com o mesmo título, a cujas 72 palavras acrescentei mais 2975. É isso que explica, pelo menos em parte, o carácter forçado de algumas passagens.
5. Quem quiser e souber, pode substituir os nomes das personagens desta narrativa pelos nomes da minha mulher e dos meus filhos, para ter uma história mais verídica – e aproveite para mandar fora, se for mesmo a verdade dos factos que lhe interesse, a componente fantástica que eu não consigo deixar de incluir nos meus contos…

RÁDIO MACAU, "MAIS UMA CANÇÃO SOBRE EDIFÍCIOS A ARDER", 1984
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