11 de abril de 2011

Um Rider Haggard de 1933 na névoa de Bvumba

Num albergue de mochileiros em Bvumba, no Zimbábuè,
(bvumba quer dizer "névoa" em chona; e o tempo está assim mesmo, de névoa e morrinha),
enquanto as minhas filhas davam uma volta de pónei no picadeiro que lá há
(o que elas queriam mesmo era ter dado uma volta no parque de safari do Leopard Rock Hotel, onde se passeia a cavalo entre gnus, girafas e impalas, mas naquele dia não havia cavalos no parque de safari do Leopard Rock Hotel, não sei porquê…),
dei uma vista de olhos pela loja de bugigangas para turistas que o albergue também tem e onde, além das habituais estatuetas de pau-preto e aventais bordados, há livros que não são para vender, mas sim para trocar; e encontrei uma edição antiga de King Solomon’s Mines, já com a lombada um bocadinho a soltar-se, a precisar de uma reparaçãozita, coisa pouca, e de um bonito castanho rosado, de letras creio que garamond muito maiores que as dos romances actuais.

Pedi à senhora da loja que me vendesse o livro, mas ela insistiu que não podia, que era mesmo só para trocar e eu fui buscar ao carro um livro que tinha comigo de contos de Anton Tchekhov, que nem sequer tinha acabado de ler, e troquei os contos de Tchekov pela novela de Rider Haggard. Tchekhov é um grande escritor de contos, acho que há sobre isso um grande consenso entre os entendidos, e eu por acaso até gosto dos contos de Tchekhov, se querem que vos diga; mas aquilo de que gosto mesmo é de aventuras, o que é que querem? – Rider Haggard, pois, porque não? –, e gosto também muito de livros antigos.

[Na noite anterior, tinha tido um sonho estranho: sonhei que estava na cama onde estava de facto e que tinha acordado e que um ser invisível me prendia as mãos e o corpo e não me deixava mexer-me, e isso foi, como devem calcular, bastante assustador, até que acordei por fim e tudo continuou igual à minha volta, a única diferença era que me podia mexer: o fantasma que me prendia os movimentos só existia no sonho, claro está, porque não existem fantasmas na realidade.]

 

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