10 de setembro de 2013

Falso se for mentira, falso se for verdade

Conversa entre amigos meus:
– A verdade é que não há factos, há apenas interpretação dos factos.
– Ou seja, é essa a interpretação que tu fazes dos factos.

[Que banalidade, não é? Que o relativismo se contradiz a si próprio, sabe-se a bem dizer desde sempre – e também que nos impossibilita, em última análise, de reconhecer os nossos erros… Mas é preciso insistir nisto, há muita gente ainda convencida de que qualquer afirmação tem o mesmo valor que todas as outras... Continuemos então.]

Bom, se tivermos uma atitude solipsista radical, de que é impossível provar qualquer existência fora do nosso pensamento, nem se pode provar, sequer, que haja várias interpretações dos factos, porque os outros podem também ser apenas um objeto mental meu. Nem vale a pena pensar mais em discussão nenhuma, quando alguém tem uma atitude desse tipo. Fora disso, sim:

Antes de mais, convém explicar que, a asserção “não há factos, só interpretações” não faz muito sentido: O que se interpreta então, se os factos não existem? Forçosamente coisa nenhuma. Mas como pode coisa nenhuma ser interpretada? A prova última de que os factos existem independentemente das interpretações que deles se façam é, precisamente, que podem ser interpretados.

Provavelmente, o que minha amiga queria dizer era apenas que não temos acesso aos factos propriamente ditos, só conhecemos interpretações. A proposição menos radical – e mais comum – é que não se consegue fazer uma leitura neutra da realidade, mas apenas observações forçosamente distorcidas. Mas também este ideia pode ser logicamente desmontada  e gostei da formulação de Jarrett Leplin, que acabo de descobrir*:
É postulado com confiança por muitos historiadores e sociólogos do conhecimento que toda a pesquisa é tendenciosa. Pergunto-me a mim mesmo como terá sido descoberto tal facto. Não é tautológico nem de outra forma evidente. É óbvio que foi necessária investigação – ou seja, pesquisa – para o descobrir. Mas, na medida em que é tendenciosa, as conclusões a que a pesquisa leva não são fiáveis. Portanto, esta conclusão, a de que toda a pesquisa é tendenciosa, se estiver correta, não deve ser fiável. Mas, claro que, se estiver incorreta, então também não é fiável. Logo, não é fiável. Poderia ser verdade, mas não podemos ter boas razões para pensar que o seja.
E as minhas desculpas, sim? Apeteceu-me, pronto. Volto em breve, prometo, com algo menos aborrecido... 
______________
* A novel defense of scientific realism, Oxford University Press, 1997, traduzo eu.

2 comentários:

jj.amarante disse...

Qual aborrecido? Parece-me uma demonstração muito interessante, provando que a frase "toda a pesquisa é tendenciosa" não é demonstrável (provable quando se fala à volta do Gödel) embora possa ser verdadeira.

Faz-me lembrar os economistas actualmente dominantes que estão envoltos em profecias que às vezes se auto-realizam, como no caso das agências de rating e outras vezes são indemonstráveis embora afirmadas como verdades indubitáveis, como quando dizem que o sistema tenderá para um equilíbrio sem correrem o risco de dizer em que prazo tal acontecerá. Na realidade o sistema pode até colapsar antes de atingir o profetizado equilíbrio, forma custosa de demonstrar que afinal no longo prazo não conseguiu atingir o equilíbrio profetizado. E esses economistas não são meramente tendenciosos, podendo estar objectivamente errados.

Mas sobre essa interacção entre a realidade e a nossa representação dela o Magritte escolheu esta imagem: http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2009/08/magritte-condicao-humana.html

Vítor Santos Lindegaard disse...

Obrigado, jj. amarante, pelo comentário e pelo quadro de Magritte com comentário do autor. Também acho que tem sido sobejamente provado que os economistas que influenciam as políticas hoje dominantes estão muitas vezes errados, já que as previsões dos seus críticos se têm revelado mais acertadas que as deles.