31 de outubro de 2013

Vida e morte de Isabelle Eberhardt

Conheci Isabelle Eberhardt num texto de Catherine Darley no blogue Poemas del río Wang e apaixonei-me por ela. Por Isabelle Eberhardt, quero eu dizer. Não fosse ter-me apaixonado e limitar-se-ia este texto a uma ou duas fotos e ligações para os vários textos a partir dos quais o construí[1]. Mas, como me apaixonei, decidi fazer uma biografia canónica, em que a vida de Isabelle Eberhardt aparece cronologicamente arrumada. Em muitos casos, não faço mais que traduzir, de forma livre, as minhas fontes. Duvido que o texto venha a ter muitos leitores, de longo que é, mas, depois de muito o cortar, não consegui encurtá-lo mais. Façam favor!

Numa carta ao diretor do jornal Petite Gironde, datada de 23 de abril de 1903, Isabelle Eberhardt faz uma autobiografia:
Filha de pai muçulmano de nacionalidade russa e de mãe russa cristã, nasci muçulmana e nunca mudei de religião. Tendo o meu pai morrido pouco depois do meu nascimento, em Genebra, onde morava, a minha mãe ficou na cidade com o meu velho tio-avô, que me criou completamente como rapaz, o que explica por que há muitos anos visto roupa masculina.
Comecei primeiro o curso de medicina, que abandonei ao fim de pouco tempo, irresistivelmente atraída pela carreira de escritora.
Com 20 anos, em 1897, fui com a minha mãe para Anaba, na Argélia, onde ela morreu passado pouco tempo, depois de se converter à fé muçulmana. Voltei então para Genebra, para aí cumprir o meu dever filial para com o meu tio-avô, que morreu, também ele, pouco depois, deixando-me uma pequena fortuna! Sozinha, ávida de desconhecido e de vida errante, voltei para África, onde percorri sozinha, a cavalo, a Tunísia e a Argélia oriental, bem como o Saara Constantino. Para maior comodidade e por gosto estético, acostumei-me a usar roupa árabe, e falo bastante bem a língua do país, que aprendi em Anaba.
Em 1900, estive em El Oued, no extremo sul da província de Constantina. Conheci aí o Sr. Sliman Ehnni, nessa altura sargento dos spahis. Casámo-nos segundo a tradição muçulmana.
Nos territórios militares, em geral, os jornalistas são mal vistos, porque gostam de meter pauzinhos na engrenagem... Foi esse o meu caso: desde o início, as autoridades militares, que, nessa zona, são também administrativas (Gabinetes dos Assuntos Árabes), mostraram-se muito hostis: quando demos conta, o meu marido e eu, da intenção de consagrar o nosso casamento religioso através de uma união civil, foi-nos recusada a autorização para tal.
A nossa estadia em El Oued durou até janeiro de 1901, altura em que, em circunstâncias muito misteriosas, fui vítima de uma tentativa de assassinato por parte de uma espécie de louco nativo. Apesar dos meus esforços, não se esclareceu esta história no julgamento que decorreu em junho de 1901, perante o Conselho de Guerra de Constantina.
Ao sair do Conselho de Guerra, a que, naturalmente, tive de comparecer como principal testemunha, fui bruscamente expulsa do território argelino (e não de França), sem que se dignassem sequer explicar-me os motivos de tal medida. Fui brutalmente separada do meu marido. Como se tinha naturalizado francês, não era válido o seu casamento muçulmano.
Refugiei-me junto do meu irmão, em Marselha, onde o meu marido logo se veio juntar a mim, pedindo colocação no 9º regimento de hussardos. Aí, foi-nos concedida licença para nos casarmos, após inquérito e sem qualquer dificuldade... É certo que foi em França, longe dos proconsulados militares do Sul da província de Constantina. Casámo-nos na Câmara Municipal de Marselha, a 17 de outubro de 1901.
Em fevereiro de 1902, terminou o período de serviço do meu marido, ele deixou o exército e voltámos para a Argélia. O meu marido foi pouco depois nomeado khodja (secretário - intérprete) na comuna mista de Ténès, no Norte do distrito de Argel, onde ainda está. Esta é a minha vida real, a vida de uma alma aventureira, livre de mil pequenas tiranias, daquilo que se chama os costumes, o “património”, e ávida de grandes espaços abertos, e de uma vida variada e livre.
Talvez a breve autobiografia de Isabelle Eberhardt vos desperte a curiosidade e talvez a achem demasiado sucinta. Para quem queira saber um pouco mais sobre a escritora suíça, desenvolvo um pouco a sua história:

A mãe de Isabelle chamava-se Nathalie e era uma aristocrata de São Petersburgo. O pai, não se sabe quem foi; nem se sabe se a própria Isabelle o sabia. É improvável, porém, que tenha sido um «muçulmano de nacionalidade russa», como ela diz na carta ao Petite Gironde[2].

Com 22 anos, Nathalie casou-se com Paul de Moerder, de 63 anos, um general russo de origem alemã. Paul tinha dois filhos de um casamento anterior e teve com Nathalie mais quatro filhos.

Em 1871, Nathalie deixou a Rússia com os três filhos mais novos e foi instalar-se em Genebra. Parece que o médico teria aconselhado um clima mais sadio, de altitude, como remédio para os problemas de saúde do filhos mais novo, então com 3 anos. Mas sugerem-se também outras razões, nomeadamente que, dado o clima fortemente antissemita que havia na Rússia da época, Nathalie, de ascendência judaica, tenha decidiu afastar-se para não prejudicar a carreira do seu marido, que fora nomeado conselheiro do czar.

Com Nathalie e os filhos viajou o precetor destes, o arménio Alexander Trofimóvski. Alexander era um homem muito austero e de uma grande erudição, que tinha tido uma educação religiosa, mas perfilhava agora ideias niilistas e individualistas. Deixou a mulher e os filhos quando começou a trabalhar para a família Moerder. Muitos creem que é ele o pai de Isabelle. Seja ou não seu pai biológico, foi, na prática, o verdadeiro pai de Isabelle e ela tinha por ele, ao que parece, verdadeiro amor filial.

Pouco depois de se fixarem na Suíça, Nathalie deu à luz o quinto filho de Paul, Augustin. Augustin é o único irmão de Isabelle com quem ela manterá uma relação muita próxima – e muito conturbada.

Quando Paul Moerder morreu, em 1873, Alexander mudou-se para casa de Nathalie e tornou-se tutor oficial dos seus filhos. Nathalie fê-lo também gestor da sua renda e Alexander comprou uma casa em seu próprio nome, perto de Genebra.

Isabelle Eberhardt nasceu a 17 de fevereiro de 1877 e foi registada como filha de pai incógnito. Se Alexander se tinha tornado amante de Nathalie e era, de facto, o pai de Isabelle, a razão para não ter assumido a paternidade pode ter sido que, nesta altura, era ainda oficialmente casado. Isabelle foi, por isso, registada com o apelido de solteira da mãe.

Isabelle e os irmãos nunca foram à escola: foram escolarizados em casa pelo tutor. Parece que receberam dele uma educação escolar ao mesmo tempo clássica e progressista. Isabelle estudou russo, francês, alemão, italiano, inglês e árabe. Leu muito e devem encontrar-se em Eugène Fromentin, Pierre Loti e Lydie Paschkoff (correspondente de Le Figaro e, segundo Edmonde Charles-Roux “a primeira mulher a fazer da literatura de viagens a sua profissão”) as suas influências no género do relato de viagens.

Em 1984, Isabelle começou a frequentar a sociedade genebrina e a interessar-se sobretudo pelos meios turcos da oposição ao sultão Abdul Hamid II. Em setembro de 1895, com o pseudónimo Nicolas Podolinsky, Isabelle publicou numa revista francesa o conto “Infernalia.Volupté Sépulcrale”[3], que trata de uma relação sexual numa morgue entre um estudante de medicina e uma morta. Em outubro do mesmo ano, foi publicado na Nouvelle Revue Moderne outro conto com o mesmo pseudónimo:“Vision du Moghreb”[4]. Isabelle tinha 18 anos e dava conta da sua atração por um mundo a que havia de se entregar completamente. Aparece no conto a personagem Mahmoud, nome que ela própria viria a usar nas suas viagens. No início de 1986, começou a escrever a novela Trimardeur [5], que nunca terminou.

Começou também nessa altura a frequentar os meios russos de Genebra. Vestia-se às vezes de marinheiro, outras vezes usava um fez. A polícia vigiava-a. Convidava para festas de fim de semana em sua casa toda a classe de marginais e revolucionários, socialistas e anarquistas, mas nunca participou em nenhum movimento. Tornou-se amiga da russa Vera Popova, que era nessa altura estudante de medicina. É a única amizade feminina que se lhe conhece. Leu Kropotkine e Elisée Reclus, descobriu o poeta russo Semyon Nadson, que começou a traduzir para francês e começou a traduzir poemas de Puchkine para árabe. Reforçou os laços com os jovens turcos e com os revolucionários arménios.

Isabelle Eberhardt em trajes exóticos. A foto da esquerda é de 1896, provavelmente de Genebra. As outras duas são de 1897 e não sei se foram tiradas em Genebra ou durante a estadia em Anaba com a sua mãe.
Em maio de 1897, Nathalie e Isabelle fizeram uma viagem a Anaba, na costa argelina. “Os muçulmanos receberam-me de braços abertos e não conheço ainda nenhum francês nem francesa. O que me desgosta aqui é a odiosa conduta dos europeus para com os árabes, esse povo de que gosto e que, inch’Allah, será um dia o meu povo”, escreve ela nessa altura a Ali Abdul Wahab, filho do governador de Mahdia na Tunísia, com quem tinha começado a corresponder-se um ano antes. E continua:
O que pensará se lhe digo que eu, sem religião, filha do acaso, criada entre a incredulidade e infelicidade, atribuo, no fundo da minha alma, a pouca felicidade que me coube na terra à bondade do Deus Clemente e Misericordioso? … Eis talvez as causas desse respeito e desse profundo apego que eu sinto pelo Islão... Depois disto, entenderá por que atribuo a minha vinda a um país muçulmano à vontade augusta de Deus, que quis provavelmente salvar-me um dia das trevas da ignorância … Sei que é o único que pode entender-me e não receber esta minha declaração com incredulidade, como alguns muçulmanos, ou com desprezo e escárnio, como todos os cristãos.
Não quer, porém, que o seu interlocutor entenda nesta confissão alguma submissão a preceitos sociais que Isabelle recusa liminarmente:
Não me creio de forma alguma obrigada, para ser muçulmana, a usar gandoura e mleya[6] e a ficar enclausurada. Estas medidas foram impostas aos muçulmanos para os salvaguardar de possíveis quedas e os manter puros. Assim, basta praticar essa pureza e a ação será, por isso, ainda mais meritória, porque é livre e não é imposta … Diga-me com toda a consciência: tenho ou não de me pôr a fazer papel de um Dr. Grenier feminino, que parece implicar o hábito é que faz o monge, e que usar burnous ou ferrachia [tipos de vestidos] de mulher significa ser muçulmano? São as sua próprias palavras, que não é preciso mascarar-se de árabe para se ser muçulmano … Não são geralmente aqueles que fazem grandes gestos e muita confusão, para falar de maneira mais simples, que são os melhores crentes. E, para mim, o Islão, a religião mais luminosamente clara e mais grandiosamente simples de todas, para mim, nunca o Islão consistirá em ostentação gratuita …
E acrescenta, noutro lugar:
… que a mulher fique forçosamente subordinada à vontade do marido ou do amante, só por se unir a ele, isso não compreendo e nunca hei de querer admiti-lo. É o único ponto em que sou kéféra [infiel, não-muçulmana].
Ali Abdul Wahab visitou-a duas vezes durante a sua estadia em Anaba. Em julho ou agosto – não se sabe a data exata – Isabelle converteu-se publicamente ao islamismo.

A 28 de novembro, morreu Nathalie Eberhardt, aos 59 anos. Foi enterrada segundo o rito muçulmano no cemitério de Anaba, com o nome de Fatma Manoubia. Em dezembro, Isabelle voltou a Genebra: “Estou só, agora, no país dos descrentes. Ela já aqui não está para ouvir os meus pensamentos. Aquela que, com toda a sinceridade, me amava”, escreveu Isabelle.

Em março seguinte (1898) publicou na revista L’Athénée o texto “Silhouettes d’Afrique, les Oulemas”, em parte autobiográfico: Mahmoud, o protagonista do conto, tem muito da Isabelle do ano anterior:
Foi nessa altura da minha vida que o Islão me lançou este poderoso e profundo sortilégio que, pelas fibras mais misteriosas do meu ser, me amarrou para sempre à terra estranha de Dar al Islam … e foi nessa altura que o legado do Profeta se tornou a minha pátria de eleição, amada toda a vida, para além dos anos e do exílio ... Nessa altura – tinha vinte anos – eu amava da vida os chamarizes dourados ... Era um vagabundo – porque não tinha pátria ... Amava teoricamente, com um amor triste, um grande país do Norte – porque aí tinha nascido a minha querida mãe ... Ora na Terra do Islão encontrei a pátria tão desejada, tão desesperadamente desejada ... e amei-a ... Às vezes Sidi Mohammed e eu íamos à Djemaa El Bey, a mesquita de Anaba, para a oração da manhã … e com os tolbas [povo berbere], após as abluções rituais, entrávamos na sombra e no recolhimento da mesquita ... Esse momento da çabeha, e também o da penúltima oração, o mogh’reb, ao pôr do sol, foram as mais deliciosas horas de minha vida … Durante muito tempo, porém, no terrível conflito que dilacerava a minha alma envolta em trevas, ia à mesquita de uma forma diletante, quase ímpia, como esteta ansioso por sensações delicadas e raras ... E, no entanto, desde o início da minha vida árabe, o esplendor da glória incomparável do Deus do Islão deslumbrou-me, criou em mim um desejo inefável de deixar entrar no meu ser a grande luz suave ... para escapar à terrível solidão de descrença ..., para sair voando do abismo escuro da dúvida em direção às alturas do firmamento ... De todos os males que afligem a alma humana, porém, a dúvida é o mais lento.
Em julho desse ano, Isabelle decidiu casar-se com um diplomata turco e militante do movimento Jovens Turcos, mas o casamento ficou sem efeito quando o noivo foi colocado em Haia. Isabelle começou a trabalhar num romance chamado Rakhil.

A 15 de maio de 1899 morreu Alexandre Trofimóvski. Nada mais prendia Isabelle Eberhardt a Genebra e usufruía agora de uma renda generosa. Decidiu voltar à Tunísia.

Foto de 1897. Vi Isabelle Eberhardt comparada a Thomas Edward Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arábia. Mais concretamente, vi-a descrita como “a versão feminina de Lawrence da Arábia”. Não creio que Lawrence da Arábia alguma vez tenha sido referido como a versão masculina de Isabelle Eberhardt, embora ela seja 11 anos mais velha que ele. A relação com Lawrence da Arábia estabelece-se provavelmente através das fotos em que Isabelle Eberhardt aparece vestida com trajes exóticos, como Thomas Edward Lawrence – que sejam do Norte de África ou na Península Arábica não tem importância para o público europeu.
Isabelle partiu para a Tunísia em junho, com o irmão Augustin. Viajava vestida de homem, como muitas vezes fazia. No dia 14, chegaram a Tunes, onde Ali Abdul Wahab os esperava. Augustin voltou a Marselha e, no início do mês seguinte, Isabelle partiu para a Argélia, em direção a Batna, donde continuou para sul. Foi nessa viagem que descobriu El Oued e o Saara. Como viajava uma jovem suíça na Argélia em 1899? Eis um excerto do seu diário de viagem. Nem sempre é fácil compreender as notas de Isabelle, porque foram escritas para ela própria se recordar e não para o público, mas mostram claramente que Isabelle contactava de facto com a população local e se mantinha afastada dos franceses:
Quando estava a jantar no hotel Oasis, o capitão Susbielle, que tinha conhecido durante o dia, propôs-me que me juntasse à sua caravana para ir para Touggourth. Primeiro, aceitei; depois, durante as minhas conversas com os nativos, a minha intenção alterou-se quando me disseram da rudez desse oficial para com os muçulmanos. Não tive tempo para verificar o que contavam, mas, como queria conhecer bem os costumes do Sul, não queria perder a simpatia dos nativos e, no dia seguinte, quando o capitão Susbielle veio buscar-me, pedi-lhe desculpa por não ir na caravana, porque tinha de ficar em Biskra à espera de cartas da minha família que aí devia receber. O capitão disse-me que me esperava em Chegga, segunda etapa do caminho para Touggourth.
A 18 de julho à noite, parti para Touggourth. Os meus companheiros não estão com pressa de partir. Ficamos até às duas da manhã, num café chéouï, na parte antiga de Biskra, com o filho de um marabu e os spahis, a falar sobre as coisas do Sul.
No dia 19, às 9h, chegada ao bordj [citadela fortificada] Saada (Teïr-Rassou). Sesta pesada ao calor, depois do percurso noturno. Despertar preguiçoso. Damos um passeio.
Joguei às cartas com os chaoulyas (berberes de Aurès) duma caravana acampada perto do bordj. Para eles, sou um jovem estudante tunisino em viagem de estudo, de visita aos zaouïyas do Sul. Em Biskra, o tenente-coronel Friedel perguntou-me, no Gabinete dos Assuntos Árabes, se não era metodista. Quando soube que era russa e muçulmana, não entendeu nada. Quem não está no Saara por prazer não compreende que alguém aqui venha de viagem, especialmente fora de “época”. Se tivesse esta perspetiva, Fromentin nunca teria escrito Été dans le Sahara. É certo que não sou Fromentin, mas há que começar. E depois, cometi o erro de me vestir como toda a gente se veste por aqui.
O xeque dos chaouïyas da caravana é um velhote curioso que gostaria de estudar. Pediu-me às 3h para lhe dar uma aula de francês. Temos de nos separar ao mogh’reb (pôr do sol).
Chegada por volta das 11h30 a Bir Djefaïr, onde descansámos no pátio do bordj infestado de escorpiões. Para começar os meus estudos de viagens em caravana, enchi a guerba (odre) duma excelente água de poço, com a minha chávena de estanho.
Partida de novo às 2h30 da manhã, a bom ritmo. Chegada a Chegga por volta das 3h45. Encontrei soldados dos Batalhões de Infantaria de África de Guémar, sem graduados, que vinham de Guémar para apresentar uma queixa ao general, em Batna. Bebi café com eles.
Partimos de novo no dia 20, às 5h45. Chegámos a Bir-Sthil pelas 11h. Água boa. Conflito com o guarda. Febre, sede intensa. Não encontrei nada para comer (só me alimento de pão desde dia 18 à noite). Fizemo-nos de novo ao caminho às 9h da noite.
Às 9h, no posto de telégrafo ao sul de Sthil, encontrámos caravanas de chaambas [membros de uma etnia árabe do Norte do Saara] que iam de Barika para Ouargla. O xeque Abd El Kader Ben Ali, modelo de gentileza, oferece-se para me levar a Ouargla com a sua caravana, sem retribuição.
Cerca da 1h da manhã, quase que morro, com o meu cavalo, num sabkha (lago salino seco), a oeste da estrada.
Às 3h, desmontei e emprestei o meu cavalo a um trabalhador chéouï que ia connosco a pé, para não ficar sozinho. Vamos avançando, como num passeio, ao longo das plantações da Sociedade Françesa do Oued-Rir. Chegada a El Mérayer às 5h.
Partida às 9h. Enganei-me no caminho. Apanhei os chaambas perto da meia-noite. Encontrei uma casal de nómadas, que eram conduzidos por Abdou Fay, um negro armado, à djemâa [comuna, divisão administrativa], perto de Ourlana, para se divorciarem. Viajámos todos juntos.
Chegada a 22, por volta das 2h, à fonte a que chamam Aïn-Sefra. Descansei com os divorciados. Voltámos à estrada e passámos por El Berd às 5h da manhã. Apanhei os chaambas cerca das 7h. Às 9h, descansámos na primeira fonte do oásis de Ourlana.
Subi ao bordj. Susbielle tinha deixado ordens para não me deixarem ficar no bordj mais de 24 horas. História das medidas de cevada cortadas e das chicotadas dadas ao xeque (ou caide?). Dia de sede e de febre, protegida pelo grupo.
Partida ao mogh’reb. Passei quase uma hora a procurar, à luz de fósforos, a única fonte boa de Ourlana, na estrada para Maggar. E encontrei-a. Dei de beber ao cavalo e às mulas doentes com o meu bidão. Pus água nova na guerba. Na estrada, disputa com o xeque de Ourlana.
Por volta da meia-noite, encontrei o comandante do Círculo de Touggourth, que partiu de férias, de carro. Pelas duas da manhã, descansei, porque nos sentimos mal: tivemos os três vómitos e tonturas. Dormimos no meio do deserto, na areia.
Ao acordar, tivemos de ir à procura dos animais. O homem de Bou Saâda tentou acender um cigarro com um tiro de pistola. Deixámos para trás Lakbdar, com a sua mula, que levava o pão e a água.
Dia 23, entre as 2h e as 4h da tarde, atravessámos a ponta ocidental do Chott [lago salino] Merouan. Chegámos, Salah e eu, a El Maggar às quatro horas. Bebemos café árabe no posto árabe dos correios. Fomos à procura de Chlély e encontrámo-lo.
Saímos de El Maggar por volta das 6h. Chegámos a Touggourth cerca das 11h. Dormi o dia todo. Passei a noite nas «mulheres do Sul», com as cantoras e o Brigadeiro Smaïn.
Por volta das 4h, o califa Abd Al Aziz e o deïra [cavaleiro da comuna] Slimène vieram buscar-me para ir a casa do capitão Susbielle.Tivemos um conversa de quase duas horas, inicialmente com violência e depois com mais cortesia por parte do capitão. Recusou-se, de forma fria e cortês, a deixar-me em Ouargla, isto é, a dar aos meus guias autorização para me acompanharem.
Até às 10h da noite, andei à procura dos chaambas, para ir com eles, deixando os meus guias em Touggourth.
Encontrei Taïb, o chéouï, que disse que o xeque Abd El Kader mandava cumprimentos e que tinha ido fazer o asr [oração da tarde] por volta das 4h.
No dia 25, de manhã, voltei ao Gabinete dos Assuntos Árabes e pedi autorização para levar guias para Souf [El Oued]. Foi-me concedida.
Passei em Touggourth os dias 26 , 27 e 28. No dia 28, fui de cavalo a Témassine. No dia 29, às quatro da tarde, partimos para El Oued. Febre intensa. Caí na duna perto da guemira [marco de pedra para indicar o caminho no deserto] de Mthil. O carteiro negro Amrou acompanhou-me na viagem.
No dia 31, às 2h da manhã, pus-me de novo a caminho com o carteiro Bel Kheïr. Chegámos às 9h30 a Ferdjenn. Encontrei-me com o brigadeiro Osman e o spahi Mohamed ben Tahar. Passei o dia com febre.
No dia 1 de agosto, às 2h30 da manhã, fiz-me à estrada com o guia sufi Habib. Chegámos às 9h da manhã a Moïet El Caïd. Dormi a sesta e prossegui viagem depois do mogh’reb. Chegámos por volta das sete da manhã a Bir Ourmès. Passei o dia no jardim do xeque. Zaragata e combate de guias com o filho do xeque. Passei a noite em frente ao bordj.
Saímos às três e meia da manhã. Às quatro da tarde, fizemos uma breve paragem para beber em Kasr-Kouïnine. É inesquecível a impressão do sol a pôr-se na grande duna.
Cheguei a El Oued às sete. Deparei-me com um enterro muçulmano.
Isabelle não ficou muito tempo em El Oued. A 29 de agosto estava de volta à costa argelina. Passou por Anaba, onde se encontrou com Augustin na campa da mãe, e seguiu imediatamente para Tunes. Mas também não ficou muito tempo na cidade. Entre setembro e outubro, fez uma viagem no Sahel tunisino e em novembro estava em Marselha, com rumo a Paris. Foi nessa altura que terminou a relação com Ali Abdul Wahab – por um «assunto de dinheiro» (?).

Não parava: Paris, Marselha, Génova, Livorno e Cagliari, na Sardenha, onde encarnou, ao contrário do que costumava, uma personagem feminina. Da Sardenha, voltou a Paris, e fez, depois, várias viagens entre Genebra e Paris.

Mas o Norte de África continuava a chamar por ela. No verão seguinte (1900), partiu para a Argélia. Parece que tinha aceitado, em Paris, uma missão remunerada da Marquesa de Morès: tentar desvendar o mistério do assassinato, no sul da Argélia, do marquês de Morès, político de direita e antissemita. Se de facto aceitou esta tarefa, não se sabe que alguma vez a tenha levado a bom termo. Viajava agora como Mahmoud Saadi. Prefere sempre fazer-se passar por rapaz quando viaja no Norte de África. “Com roupa de rapariga europeia, nunca teria visto nada”, escreveu Isabelle nos Ecrits intimes, “o mundo estar-me-ia fechado, porque a vida exterior parece ter sido feita para o homem e não para a mulher.” Evidentemente, vestir-se de homem criava às vezes situações caricatas: “O chefe de posto, um capitão da Legião, olha para mim estupefacto”, conta Isabelle. “Não compreende mesmo que relação pode haver entre o meu cartão de mulher jornalista e o jovem árabe que lho dá para a mão.

Isabelle chegou a El Oued no início de agosto de 1900, para aí ficar. Foi nessa altura que conheceu Slimène Ehnni, com quem viria a casar. Slimène Ehnni era sargento dos spahis e era muçulmano de nacionalidade francesa.

Isabelle continuou a assumir a identidade de Mahmoud Saadi e era conhecida como filho adotivo do xeque El Houssine ben Brahim. Entrou para a confraria sufi Qadiriyya e casou-se com Slimène Ehnni em cerimónia muçulmana.

Em finais de janeiro de 1901, Isabelle foi atacada numa peregrinação a Behima, perto de El Oued. Um membro da confraria dos Tidjaniyas atacou-a com um sabre: “Tinha o capuz do burnous por cima do turbante, o que não me deixava ver para a frente. De repente, recebi um golpe violento na cabeça seguido de mais dois golpes no braço esquerdo.” O atacante não aceitava que uma mulher vestida de homem fosse aceite numa confraria masculina, por muito que não fosse a confraria de que fazia parte. Isabelle ficou um mês hospitalizada em El Oued. Quando saiu do hospital, foi ter com Slimène a Batna, para onde o marido tinha sido destacado, porque a sua ligação com Isabelle era considerada escandalosa. Quando chegou a Batna, foi-lhe feita uma investigação policial.

Em junho desse ano, o caso da agressão em Behima foi julgado em tribunal em Constantina. O agressor foi condenado, mas, após o julgamento, o governo geral da Argélia deu ordem a Isabelle de abandonar o território argelino, alegando que a sua vida era um fator de distúrbios.

Isabelle instalou-se em casa do irmão Augustin em Marselha, onde Slimène Ehnni foi ter com ela e onde se deu o seu casamento civil, que, fora do solo africano, tinha sido finalmente autorizado. Isabelle e Slimène voltaram à Argélia em janeiro de 1902. Instalaram-se na casbá de Argel. Slimène foi nomeado secretário-intérprete na comuna mista de Ténès, no Norte do distrito de Argel. Isabelle conheceu entretanto Victor Barrucand, director do jornal Les Nouvelles. Victor Barrucand era membro da Liga dos Direitos Humanos, criada na sequência do célebre caso Dreyfuss, e estava na Argélia para combater a agitação antissemita. Isabelle tornou-se colaboradora regular de vários jornais de Argel e colaborou na lançamento do jornal Akhbar, cujo director era também Victor Barrucand. O jornal, de tendência libertária, era editado em árabe e em francês.

Nesse mesmo verão, ela e o marido foram vítimas de uma violenta campanha de calúnias por parte da imprensa. Slimène foi colocado em Sétif, enquanto Isabelle continuou em Argel. Na carta publicada na Petite Gironde que se encontra um excerto no início deste texto, Isabelle Eberhardt defende-se dos ataques de que foi vítima. Até que ponto o que escreve corresponde ao que sente, até que ponto mente para manter a liberdade de movimentos?
Nunca tive nenhum papel político, limitando-me ao jornalismo e a estudar de perto essa vida indígena de que eu gosto e que é tão desconhecida e tão desfigurada pelos que, ignorando-a, pretendem descrevê-la. Nunca fiz nenhuma propaganda entre os indígenas e é de facto ridículo dizer que me armo em pitonisa. Em qualquer lado, sempre que disso tive ocasião, procurei transmitir aos meus amigos indígenas ideias justas e razoáveis, e explicar-lhes que, para eles, o domínio francês é bem preferível ao domínio turco, ou a qualquer outro. É, por isso, injusto acusarem-me de ações antifrancesas.
Em setembro, Isabelle partiu para o Sul de Marrocos como repórter de guerra. Isto foi logo depois da batalha de El Moungar, um marco importante da resistência antifrancesa dos berberes, que originou uma forte e longa reação da potência colonial. Tudo leva a crer que Isabelle estava realmente próxima dos movimento anticoloniais. No ano seguinte, Isabelle fez duas viagens a Marrocos. Na segunda viagem, ficou, em Hammam Foukani, na antiga zaouïa [escola ou mosteiro islâmico] do célebre resistente anticolonial Bouamama, nessa altura dirigida por Si Mohammed ben Menouar, primo e cunhado do antigo chefe, e passou os dois meses seguintes noutra zaouïa em Kenadsa. Em Setembro, voltou, doente, a Aïn-Sefra, onde foi hospitalizada.

Em outubro, o militante anarquista Ernest Girault, que Isabelle Eberhardt tinha conhecido em Argel em dezembro do ano anterior, voltou à Argélia, acompanhado por Louise Michel. Vinham fazer uma série de conferências contra o capitalismo e a opressão colonial, e Isabelle tinha-se oferecido para ser sua guia, mas não o chegou a ser – recuperada da doença, veio a morrer nas inundações que houve em Aïn-Sefra no dia 21 de Outubro de 1904. Slimène tinha chegado de visita no dia anterior. Lê-se no Petit journal illustré de 6 de novembro:
As inundações de Aïn-Sefra, 1904.
A terrível tempestade que recentemente eclodiu na região de Aïn-Sefra teve as mais terríveis consequências. Abateu-se sobre a vila e os arredores uma tromba de água, e a chuva caiu em tão grande quantidade que o oued [rio sazonal] Sefra, que costuma ser um modesto ribeiro, se encheu de repente, saiu do leito e precipitou-se na vila, inundando um grande número de casas.
A inundação deu-se tão de repente que os habitantes da vila não conseguiram prevê-la e a maioria deles não teve tempo de fugir. Foram vítimas do desastre 14 nativos e 12 europeus.
Entre os desaparecidos, encontra-se também uma escritora de verdadeiro talento, Isabelle Eberhardt. Seduzida pelos encantos da vida livre, Isabelle Eberhardt escolheu há já vários anos a Argélia como pátria adotiva. De burnous e turbante, com bom domínio do árabe, misturava-se com as tribos e escrevia estudos de costumes e contos sobre a vida árabe, com uma observação justíssima e um estilo muito pitoresco.

Isabelle Eberhardt foi enterrada no cemitério muçulmano de Aïn-Sefra. Não teve a morte quando a queria, quando todos a queremos: “quando a lassidão e o desencantamento [viessem] com o passar dos anos”. Também não teve a morte que queria, “acabar na paz e no silêncio de alguma zaouïa do Sul, acabar recitando orações extáticas, sem desejos nem lamentações, perante horizontes esplêndidos”. Mas poucos a têm...
_______________

Obras sobre Isabelle Eberhardt:
Lesley Blanch, The Wilder Shores of Love. New York: Viking Press, 1954
Edmonde Charles-Roux, Un désir d’Orient. La jeunesse d’Isabelle Eberhardt (1877-1899), Paris: Grasset, 1988
Annette Kobak, Isabelle: The Life of Isabelle Eberhardt. New York: Alfred A. Knopf, 1989
Ian Pringle, realizador: Isabelle Eberhardt, filme, com Mathilda May, Tchéky Karyo, Peter O'Toole
Charles-Roux Edmonde, Nomade j’étais. Les années africaines d’Isabelle Eberhardt (1899-1904), Paris: Grasset, 1995
Robert Randau, Isabelle Eberhardt. Notes et souvenirs, Paris, La Boîte à Documents, 1997 Marie-Odile Delacour & Jean-René Huleu, Un amour d’Algérie. Paris: Joëlle Losfeld, 1998
Missy Mazzoli, Song From the Uproar: The Lives and Deaths of Isabelle Eberhardt, ópera multi-media. 2011 

Obras de Isabelle Eberhardt:
Amours nomades. Paris: Folio Gallimard, 2008
Au pays des sables. Paris: Sorlot, 1944
Dans l’ombre chaude de l’islam. Paris: Babel, 1996 (completado por V. Barrucand)
Ecrits intimes. Paris: Petite Bibliothèque Payot, 1991
Journaliers. Paris: Joëlle Losfeld, 2002
Lettres et journaliers. Paris: Terres d’aventure/Actes Sud, 1987
Notes de route. Maroc. Algérie. Tunisie. Paris: Actes Sud, 1998
Œuvres complètes I, Ecrits sur le sable (récits, notes et journaliers). Paris: Grasset et Fasquelle, 1988
Œuvres complètes II: Ecrits sur le sable, Ecrits sur le sable (nouvelles et roman). Paris: Grasset et Fasquelle, 1990
Pages d’Islam. Paris: Fasquelle, 1920 (prefácio e notas, talvez mais, de V. Barrucand)
Rakhil. Roman inédit. Paris: La Boîte à Documents, 1996
Trimardeur. Paris: Charpentier, 1922 (completado por V. Barrucand)
Yasmina. Paris: La Boîte à Documents, 1998.

Dans l’ombre chaude de l’Islam, Journaliers, Au pays des sables, Trimardeur, Pages d’Islam e Notes de route podem descarregar-se na Biblioteca Digital Romanda.
 _______________

[1] As fontes são tão variadas como a vida de Isabelle Eberhardt: além do já referido texto do blogue Poemas del río Wang, “De l’eau jusqu’au Sahara”, servi-me da entrada “Isabelle Eberhardt” da Wikipédia em inglês; de um artigo assinado por tasnim no “canal muçulmano” de um site religioso ecuménico, patheos; de um artigo de Rob Mulligan no site feminista Bad Reputation; de um texto de Elza Daix no site RoSa (Centre de Documentation, Bibliothèque et Archives pour l'Egalité des Chances, le Féminisme et les Etudes Féministes); e, sobretudo, das seguintes obras disponíveis em linha: Patricia Bourcillier, Isabelle Eberhardt, Une femme en route vers l’Islam; Khelifa Benamara, Le Destin d'Isabelle Eberhardt en Algérie; Isabelle Eberhardt, Dans l’Ombre Chaude de l’Islam, editado e organizado (leia-se acrescentado a seu bel-prazer) por Victor Barrucand. Não encontrei nada em português – todas as traduções são minhas.
[2] Isabelle escreveu também algures que tinha sido o resultado de uma violação em Genebra, mas não se sabe se o pretenso violador seria este mesmo muçulmano russo.
[3] Não consigo encontrar o original em linha, apenas uma tradução em inglês.
[4] Moghreb é um arabismo que Isabelle usa com frequência, muitas vezes com a forma mogh’reb, e que significa “pôr do sol” ou a “oração do fim da tarde”. Não encontrei este conto em linha.
[5] Eis uma versão terminada por Victor Barrucand em 1921: > aqui.
[6] Gandoura e mleya são tipos de vestidos. Isabelle Eberhardt usa muitas palavras árabes como estratégia retórica para de dar autenticidade e cor local aos seus escritos. É-me difícil descobrir o significado exato de muitas delas, como estas que descrevem roupa. Doravante, as explicações entre parêntese curvos são das obras de Isabelle Eberhardt e as explicações entre parêntese retos são minhas. Quando o termo aparece em itálico sem explicação, é porque foi explicado anteriormente ou porque não consegui encontrar o seu significado. Como não sei qual seria a transcrição portuguesa apropriada do árabe, conservo a transcrição francesa dos textos originais.

2 comentários:

Inominável Ser disse...

Boa noite.

Li todo este texto e é um excepcional relato de uma interessantíssima existência. Ela foi uma mulher que eu teria amado... A descobri por um acaso pesquisando por imagens de pinturas sobre necrofilia para ilustrar um conto que escrevi no domingo, 04 de outubro de 2015. E me deparei com ela, com a imagem dela, a história dela, me identificando imediatamente.

Um dia ainda sonho ter os livros dela em Português aqui no Brasil. Obrigado por este texto, Vítor Santos Lindegaard.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Caro Inominável Ser,

Obrigado eu! Desculpe o atraso na resposta (não tinha visto o seu comentário), mas tenho informação de três traduções de Isabelle Eberhardt para português:

- Escritos no deserto, ed. Relógio d´Água, 1990;
- País das Areias, ed. Ela por Ela, 2003;
- Histórias da Areia, ed. Sistema Solar, 2013.